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quarta-feira, 20 de abril de 2011

A orquestra filarmónica de Filadélfia

Este blogue não gosta de discutir política. 
Mas gosta de analisar experiencias, como consta do método científico, mesmo correndo o risco de deixar de fora circunstancias ou parâmetros, por manifesta incapacidade de quem observa.
Isto a propósito das teorias ensinadas nas faculdades de economia desde Milton Friedman e desde o triunfo da reaganomics e da Tatcher. 
A fé fundamentalista no interesse egoista atribuido a Adam Smith, quando o que ele dizia era "a cada um segundo as suas necessidades", transformou-se numa religião como outra qualquer, que promete que tudo se resolve reduzindo  as despesas públicas e os impostos, para que a economia privada cresça, permitindo obter,com pequenos  impostos, maiores receitas do que com impostos mais altos numa economia de maior peso público. 
Este blogue também não quer defender nenhum modelo de predomínio de intervenção estatal já experimentado e que deu mau resultado, ou ainda em experiencia negativa.
Mas gosta de colocar hipóteses, como diz o método, como por exemplo, que a linha de separação entre o setor privado e público pode ser ajustado para cada caso e é de geometria variável em função do interesse coletivo. 
Julgo que era a ideia de Melo Antunes, embora, como dizia Vitor Alves, seja preciso mudar a atitude cultural para que a tal linha de separação dê resultado. 
Problemas comportamentais, como dizem os sociólogos.

1 - Os economistas norte-americanos já fizeram as contas e comprovaram a subida dos defices sempre que os Reagan e os Bush baixavam os impostos e reduziam a intervenção pública.

2 - O Inside Job explicou como a crise da Islandia teve origem na privatização dos seus três principais bancos, que de seguida embarcaram na especulação sem correspondencia com o valor real dos bens (a que chamaram "alavancagem" para convencer os incautos de que isso era aplicar uma alavanca para impulsionar a economia).

3 - O Senado norte-americano já demonstrou em relatório formal a intervenção interesseira e oportunista das agências de notação na crise do Lehman Bros, ocultando o verdadeiro estado dos especuladores sem ativos.

4 - Este post é dedicado à orquestra filarmónica de Filadélfia porque o seu conselho de administração decretou a falencia.
A lei norte-americana permite a uma empresa que declare falencia mecanismos de resgate, e é isso que a orquestra vai tentar.
A situação ocorreu apesar dos elevados mecenatos de que beneficia.
Na realidade, dificilmente será sustentável o seu nivel de qualidade num quadro económico como o atual, sendo que a principal dificuldade é garantir a segurança social aos seus profissionais.
Diriam os adam smithistas que o mercado manda fechar as empresas incapazes e dá oportunidade às capazes, pondo os músicos a tocar noutras orquestras.
Confesso que me choca este tipo de argumentos, quando me recordo do meu primeiro "long playing", escolhido pelo meu pai, com a filarmónica de Filadélfia, regida por Eugene Ormandy, com a abertura do Freischutz, de Weber, a Espanha de Chabrier, a 6ª rapsodia hungara de Liszt, o capricho para violino e orquestra de Sarasate, com Zino Francescatti, e uma espantosa filadelfiana de vestido azul sem alças na capa, numa cena "twilight"; tinha eu 15 anos.
Será sentimentalismo, mas as decisões do mercado são tão ignorantes, tão insensíveis, tão longe daquilo que faz uma vida humana valer a pena ser vivida...
Mas não é só por isso que evoco a filarmónica de Filadélfia.

5 - É tambem porque do outro lado do rio, o Delaware, está Camden, uma cidade de que nunca tinha ouvido falar até ao último domingo, quando li na revista do DN uma reportagem sobre a decadencia de Camden
(ver
http://www.dn.pt/revistas/ns/interior.aspx?content_id=1830523      )

"Em nenhuma outra terra os efeitos da recessão económica se fizeram sentir como aqui. Há duas décadas, Camden, no estado de New Jersey, era uma cidade industrial, uma das mais produtivas da América. Agora é a mais pobre e a mais violenta de todo o país. Desemprego, gestão política danosa e falta de apoios sociais empurraram a população para o fim da linha. Mergulho no escuro. Metade das casas de Chestnut Street estão devolutas ... ... Com setenta mil habitantes, a cidade de Camden, no estado americano de New Jersey, pagou caro o preço da crise. Era, desde o final da Segunda Guerra Mundial, um dos pólos mais produtivos da Costa Leste americana. As maiores fábricas de têxteis e calçado, os principais estaleiros navais e uma boa parte da indústria alimentar do país localizavam-se aqui. Nessa altura, tinha uma população de 120 mil, lojas em todas as esquinas, bares, teatros, cinemas. «Mas o esbanjamento de dinheiro deu cabo disto. Quando a crise chegou e os bancos fecharam as torneiras, já não havia muito a fazer»... ... Os últimos três mayors que governaram a cidade estão presos por corrupção, ligações à máfia e tráfico de influências.Em 1992, as autoridades construíram um enorme oceanário, a primeira medida de um plano de reabilitação urbana. Nove anos depois, ergueram um dos maiores estádios de basebol do país nas margens do Delaware. E, em 2004, foi aberta uma linha de comboios rápidos com paragem em Camden. "

É chocante pensar que estamos  a 130 km  de New York e a 200 km de Washington, na maior economia do planeta.
Consultando o site da autarquia, podem ver-se os esforços de uma comunidade organizada para vencer a crise.
Mas a crise está a vencer.
Como se diz em coloquial, com este tipo de economia, a crise "só pode" estar a vencer.

Vamos então ter de esperar (porque não é só Camden) pela evolução natural do sistema,  pela adaptação cíclica do sistema,  pela sucessão dos ciclos de recessão e de crescimento.
Digo natural ou  intrínseca, no sentido de deixarmos o sistema entregue às suas multiplas variáveis sem controle ou regulação ...        


Este blogue lamenta sinceramente que orgãos políticos portugueses e dirigentes partidários a eles ligados ou suscetíveis de virem a estar ligados depois de eleições, continuem a enviar aos eleitores a mensagem programática da privatização de empresas como forma de resolver a crise e suscitar o crescimento da economia, sem nunca apresentar um argumento contra os factos descritos acima (apenas alguns economistas afetos falam na teoria dos ciclos de adaptação recessão-crescimento).
Lamenta igualmente que o programa de privatizações faça parte do plano de ajuda a Portugal, ou melhor, de empréstimos em negociação com o FMI e com a União Europeia (nada há nos tratados europeus que imponha a existencia exclusiva de empresas privadas, mas os politicos dominantes é o que pensam e querem)   .

Lamenta porque é deixar a ciência fora da equação, depois dos resultados experimentais já recolhidos, quer numa economia pequena, quer numa grande economia, ambas com elevado nivel de endividamento, como é o caso da economia portuguesa.
Então, se pode supor-se que a ciência é uma solução, o problema será: como levar a ciência aos portugueses, quando a ciência precisa da matemática e da física, tão antipáticas à maioria dos portugueses? sendo certo que a economia que as faculdades ensinam é o oposto do método científico: secretista, segregacionista dos círculos de decisão, avessa à disseminação do conhecimento real do funcionamento das coisas, avessa ao referendo das decisões...

domingo, 26 de janeiro de 2014

3 bilhetes postais para 3 governantes - 2 -para o senhor secretário de Estado Agostinho Branquinho

3 bilhetes postais que não serão lidos pelos destinatários, nem sequer pelos seus assessores
2 - para o senhor secretário de Estado Agostinho Branquinho

Não iria gostar de ler este bilhete postal.
Acabei de ver o filme "Golpada Americana" e não achei nada que fosse americana, a golpada, nem entertenimento despreocupado. Com congressistas presos por promiscuidade economico-politica, facilitação da aprovação de projetos imobiliários e de casinos, para alargar as bases tributárias e desafogar as finanças dos partidos, a história é universal, até parece inspirada no caso do nosso grande autarca de Oeiras. 
Também por isso a contrapartida dos "arrependidos" foi a atenuação da pena do "mayor" de Camden, que no fundo servia os interesses dos seus eleitores. 
Sim, Camden, a cidade mártir de New Jersey, falida há 20 anos,há mais tempo do que Detroit, exemplo vivo do que acontece quando se desindustrializa e se dá de bandeja o poder decisório aos "banksters" (remeto para o texto de Vasco Graça Moura, libreto da ópera do mesmo título, de Nuno Corte Real, sobre Jacob e o anjo, de José Régio).
Como se explica no filme, enganamo-nos a nós próprios, é isso que o nosso cérebro faz, convence-nos a acreditar em coisas que não existem e a fazer o que não queremos, iludindo-nos com uma falsa realidade.
Porque não havemos de enganar o nosso próximo?
Por isso é tão ténue a distancia entre legalidade e corrupção.
Legalidade é quando os negócios e os interesses económicos privados  coincidem com os interesses dos politicos no poder, com maior ou  menor sagacidade na interpretação das leis existentes ou a reformular. 
Corrupção é quando não.
Daí a justificação para aquele slogan: "Menos Estado, melhor Estado". Eliminam-se conflitos, deixam-se os interesses económicos evoluir.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Detroit

não é na Quinta do Mocho nem em Portugal, nem num pais do terceiro mundo, é em Detroit, USA


Detroit tornou-se o exemplo vivo da desindustrialização e da falencia do modelo económico vigente.
Isso mesmo se podia ver em "Gran Torino", de Clint Eastwood.
É muito interessante este artigo da CNN, da responsabilidade de Ross Eisenbrey, que isenta de culpas os pensionistas, e lamenta que os bancos continuem a explorar e que as entidades públicas não invistam ou, pelo menos, não estimulem o investimento e o emprego.
Não é um marxista a escrever, é um jornalista da CNN.
"Banks must be told that they have profited enough from interest rate swaps that helped create this mess and will receive no more. The state needs to collaborate by increasing available revenues".
http://edition.cnn.com/2013/12/17/opinion/eisenbrey-detroit-pensions/index.html?iid=article_sidebar

Lá como cá ... onde já não existem a Mague, a Cometna, a Sepsa, a Sorefame e, provavelmente, os Estaleiros de Viana do Castelo.

Ver também a referencia à decadencia da cidade de Camden, em New Jersey, em:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/search?q=camden

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Leitura de fim de semana II - Ferrugem americana, de Philipp Meyer

Também não li este livro, um romance passado nos USA da crise atual.
Apenas li a referencia no DN e a oportunidade do tema.
(Ver
http://portalivros.wordpress.com/2011/09/09/bertrando-editou-a-estreia-de-philipp-meyer-%C2%ABferrugem-americana%C2%BB/  )

Pequena transcrição:
"... vales cheios de fábricas arruinadas, cidades inteiras semi-desertas devido ao desemprego, prisões a abarrotar de negros. É no interior que está a verdadeira tragédia. A destruição da América começa no seu interior".
Assim se compreende que dificilmente os 330 mil milhões de euros do programa de Obama poderão resolver o problema. Para mais com a oposição do Tea Party, do partido de Wall Street e da Goldman Sachs (agora conhecida por Government Sachs), defendo intransigentemente a máxima redução dos investimentos públicos.

Ver tambem   http://fcsseratostenes.blogspot.com/search?q=camden  sobre a decadencia da cidade de Camden, a dois passos de Filadelfia e de New York.
Ironicamente, porque através de mecanismos eleitorais, são os mentores ou os adeptos das teorias económicas que conduziram a esta situação que agora decretam as medidas de austeridade para sair da crise.

Nesta perspetiva, a teoria de que a posse dos meios de produção, e a forma de utilização dos meios tecnológicos para essa produção e sua distribuição determinam a evolução da sociedade, parece constituir um bom meio de análise e de obtenção de pistas para melhorar a vida das pessoas.
(Por exemplo, surpreendentemente, nos USA, a classe dos proprietários, ou melhor, dos acionistas dos grandes grupos de produção agrícola, tem tanta influencia politica como os lobis industriais e militares, contrariando a ideia de que o setor agrícola num país desenvolvido tem menor peso do que os setores industrial ou terciário; outra evidencia são as offshores que neste momento condicionam a economia global apesar das tímidas medidas dos USA)
Salvo melhor opinião, claro.