sexta-feira, 5 de abril de 2013

Contra a sinistralidade rodoviária, especialmente contra os atropelamentos


Em memória de António Moreira, entusiasta companheiro mais velho de trabalho que foi no metropolitano de Lisboa, morto por complicações surgidas na sequencia de um atropelamento


Por um lado, devemos estudar um problema sabendo que as suas variáveis principais não devem ser desligadas do contexto, isto é, não é possível estabelecer uma relação entre essas variáveis independente do ambiente exterior. Em linguagem simples, as coisas estão todas relacionadas, umas com as outras.
Por outro lado, podemos tentar isolar uma ou várias variáveis supondo as restantes constantes, isto é, podemos fazer uma abstração ou decompor o problema em estados simples para tentar uma abordagem. Em linguagem simples, temos de cortar o bolo ou a piza em fatias par ao poder comer.

Serve esta introdução para abordar a tragédia dos atropelamentos, nas passadeiras e fora delas.
Na madrugada da passagem do ano 2012 para 2013, um jovem foi atropelado mortalmente quando se encontrava no passeio, por uma condutora alcoolizada. Depois, houve o atropelamento mortal de uma mãe em passeio ciclista com  a família, de uma menina atropelada mortalmente à porta da sua escola numa passadeira, pouco tempo a seguir a outra menina ter morrido depois de se apear do autocarro. Em 8 de março, às 20:30, duas pessoas são atropeladas mortalmente numa passadeira da Avenida Recíproca, junto da gare do Oriente. Em 5 de Abril um jovem é atropelado no passeio, perto da sua escola secundária, em Faro.
As variáveis são muitas, de muitos tipos.
Tentemos alinhar algumas:

1 – falso direito à velocidade - a maioria dos condutores considera um direito conduzir a velocidades elevadas

2 fórmula da distancia de travagem - a maioria dos condutores, tal como a maioria dos portugueses, não faz os cálculos da distancia de travagem em função do quadrado da velocidade e da desaceleração de travagem, nem do espaço percorrido durante o tempo de reação do condutor, do peão, e dos mecanismos do próprio automóvel, nem da variação desses parâmetros com o pavimento molhado, com óleo, ou com areia

3 – espaço visível - a maioria dos condutores considera que o espaço livre visível à frente do automóvel de que fala o código da estrada para possibilitar uma travagem nunca pode ser inferior àquele que o condutor pensa que é, nem que pode bruscamente deixar de o ser    

4 – condições ambientais -a maioria dos condutores considera que as condições atmosféricas, poeira, areia ou lama pouco influem nas condições de aderência e nas caraterísticas de travagem do automóvel             

5 – efeitos mortais da velocidade -  a maioria dos condutores manifesta surpresa, muitas vezes sincera e entrando até em estado de choque, depois da ocorrência de um acidente por excesso de velocidade (considerando excessiva a velocidade que, atendendo às condições atmosféricas, de visibilidade e de aderência, não permite a travagem no espaço livre visível à frente do automóvel), ou perante a evidencia de que uma velocidade, como 45km/h, que consideravam baixa, tem consequencias mortais em caso de colisão, no local, ou mais tarde, no hospital, algumas vezes mais de 30 dias depois do acidente

6 – os perigos da ilusão da comodidade e dos equipamentos de segurança - as 5 condições anteriores podem ser uma manifestação de excesso de confiança dos condutores, ou a presunção de um direito, com a agravante da ilusão de constantes melhorias das condições de segurança e de comodidade dos automóveis

7 – necessidade de esforço para interpretar corretamente -  as 5 primeiras condições podem ainda revelar problemas de iliteracia matemática pela dificuldade em avaliar o risco da variação da distancia de travagem com o quadrado da velocidade, ou de português, pela dificuldade de interpretação de normas como a da aproximação das passadeiras de peões (o código da estrada diz que o condutor deverá abrandar à aproximação da passadeira, para o caso de algum peão ter iniciado a travessia, sem explicitar, como seria conveniente: o peão tem prioridade nas passadeiras)

8 – os perigos culturais - as 5 primeiras condições podem também ser consequência da cultura de competição e de valorização artificial de atividades como a condução em si e a rapidez da condução, como aliás se depreende dos aspetos mais valorizados nos anúncios de automóveis, ou de compensação de insegurança ou frustração própria através de afirmação como condutor de sucesso, situações agravadas no caso de condutores jovens, faixa etária de maior incidencia da mortalidade entre condutores

9 – os perigos psicológicos - as condições económicas e financeiras adversas da atualidade podem afetar a estabilidade psicológica dos condutores e o cumprimento dos procedimentos mínimos de manutenção do automóvel, comprometendo a segurança da circulação automóvel e pedonal.

Sabe-se que os técnicos da ANSR mantêm o registo cuidado da sinistralidade e das suas causas, e que fazem propostas de melhorias que chegam ao ministério da tutela.
Porém, precisamente porque o problema tem muitas variáveis e implicações, algumas de relativa complexidade técnica para cuja compreensão os decisores não estarão preparados, receia-se que não se intervenha em todas elas, perdendo-se assim eficácia.
Acresce que, por mais impressionantes que sejam os acidentes e as suas consequências, passado o impacto mediático são esquecidos e não são divulgados, se é que foram realizados os inquéritos, os respetivos resultados, as causas e as medidas para evitar a repetição (pedi de uma vez acesso a um relatório de um acidente mediático, tendo-me sido facultado apenas o relato cronológico da ocorrência).
Ora, a divulgação ampla das causas específicas de um acidente é uma condição fundamental para diminuir a probabilidade da sua recorrência.

Tentemos para cada uma das condições anteriores encontrar medidas ou áreas de intervenção para diminuir a sinistralidade, principalmente de peões:

1 – falso direito à velocidade - requer-se uma divulgação intensa de que a velocidade não é um direito. O que é um direito é a mobilidade, que como qualquer direito deve estar dependente de um código. E que o direito à mobilidade em segurança de uns prevalece sobre o desejo de velocidade de outros. O direito à mobilidade termina onde começa o direito do outro. Sendo diferentes as condições de peão e de automobilista, e considerando que a mortalidade dos peões (e ciclistas) sobe mais depressa do que a dos automobilistas, daí decorre naturalmente que as concessões do automobilista terão de ser maiores do que as do peão. O critério prioritário não deverá assim ser a rapidez, mas a segurança, sendo que os valores da velocidade e das distancias de segurança têm de ser calculados em função dos valores mais desfavoráveis dos tempos de reação (dependentes do estado de atenção do condutor -  propõe-se o valor de 2 segundos para o tempo de reação). Sugere-se fortemente a introdução no código da estrada da noção de que a fluidez de tráfego se pode e deve fazer a velocidade não excessiva; por outras palavras, a quantidade de pessoas que são transportadas por hora e sentido através da secção de uma via não depende da velocidade mas sim da distancia entre veículos; a velocidades mais elevadas a distancia entre veículos deverá ser maior (correspondente ao espaço percorrido em 2 segundos), pelo que a quantidade de veículos por sentido, por secção e por hora é constante (caso contrário, se aumentando a velocidade se reduz o intervalo temporal entre veículos estaremos a reduzir a segurança da circulação). Alerta-se para que um veículo deverá guardar uma distancia de segurança para o veículo precedente porque não tem visibilidade sobre a estrada à frente desse veículo, no qual poderá estar um obstáculo, situação particularmente grave no caso de ultrapassagens precipitadas.
Igualmente a distancia de visibilidade a garantir para proteção de um ponto de colisão eventual, como por exemplo uma passadeira de peões, deverá corresponder ao espaço percorrido em 2 segundos.
Propõe-se assim a implementação de zonas de limitação de velocidade em função das caraterísticas urbanísticas, e a limitação a 30 km/h da velocidade de atravessamento das passadeiras pelos veículos automóveis, quer se verifique ou não a presença de peões.

2 – fórmula da distancia de travagem – considerando a aversão à matemática de grande parte da população, sugerem-se campanhas na televisão explicando a fórmula de cálculo da distancia de travagem, função do quadrado da velocidade, exemplificando que a distancia necessária para travar a 40 km/h é 4 vezes maior do que a distancia de travagem a 20 km/h. Deverá ser explicada a influencia de condições de aderência adversas e da possibilidade de piores carateristicas de travagem de um dado veículo. Igualmente deve ser explicada nessas campanhas a influencia do tempo de reação do condutor e do equipamento do automóvel; neste caso, a distancia percorrida enquanto o condutor ou o equipamento não reagem é proporcional à velocidade (o espaço percorrido a 40 km/h é o dobro do espaço percorrido a 20 km/h)

3 – espaço visível – a perceção que os condutores têm do espaço visível  à frente para a travagem até um obstáculo pode ser enganadora, isto é, o espaço visível pode ser inferior ao que o condutor pensa porque as condições de aderencia podem ser piores do que as pensadas ou porque um obstáculo pode não estar visível em condições normais mas não ser percecionado pelo condutor. Por outras palavras, será importante, nas referidas campanhas de sensibilização para  a segurança da condução, explicar a vantagem de cada condutor contar com uma margem de segurança para circunstancias imprevisíveis (por exemplo: um peão pode ser ocultado por outro veículo numa passadeira de peões, situação particularmente perigosa nas passadeiras junto de paragens de autocarro)

4 – condições ambientais – a ocorrência de chuva ou a presença de lama, óleo ou areia no pavimento agravam significativamente as condições de aderencia dos pneus e aumentam a distancia de travagem e os riscos de bloqueio das rodas (provocando derrapagens ou deslizamento do veículo) e de patinhagem (rodas a rodarem em vazio sobre si próprias, podendo por esforço diferencial provocar despistes). Sugere-se nas campanhas de sensibilização combater o excesso de confiança dos condutores e sublinhar que os níveis de velocidade excessiva baixam consideravelmente com o agravamento das condições ambientais. Igualmente deverão ser consignadas no código da estrada as alterações para restringir a velocidade nestas condições e o Instituto das Estradas promover sinalização rigorosa nos troços mais sujeitos a estes riscos.

5 – efeitos mortais da velocidade – Sugere-se a divulgação ampla na televisão dos resultados de estudos e análise de casos que correlacionam a velocidade a que ocorrem os atropelamentos com o número de mortes provocadas. Dados estatisticos permitem estabelecer a seguinte correlação entre a velocidade de atropelamento e a mortalidade em percentagem de atropelados, a qual deveria ser amplamente divulgada:
                 60 km/h – 90%
                 50 km/h – 60%
                 40 km/h – 25%
                 30 km/h – 10%
                 20 km/h -   5%
Neste campo, ver
Isso justificará perante a opinião pública a imposição de zonas de limitação de velocidade. Convirá também que se chame a atenção da população para que o risco de mortalidade, para um atropelamento a uma mesma velocidade, aumenta com o peso do veículo. Sugere-se portanto uma penalização fiscal para veículos de maior altura (reduzem a visibilidade) e peso relativamente aos automóveis médios.

6 – os perigos da ilusão da comodidade e dos equipamentos de segurança – a comodidade dos automóveis atuais pode ser perigosa pela similitude com a operação de computadores. Este é um tema que o IMT poderia considerar na altura da homologação de novos modelos e justificará uma penalização fiscal.  Além disso, a auto estima do condutor pode levá-lo a ignorar os perigos do agravamento de condições atmosféricas e ambientais como a presença de chuva forte ou nevoeiro (reduzindo a quase zero a distancia de visibilidade e impondo redução decisiva da velocidade) ou lama, areia ou óleo no pavimento (reduzindo as condições de aderência). Sugere-se fortemente nas campanhas de sensibilização a divulgação de que a proteção automática de dispositivos como o ABS (automatic braking system) ou o ESC (eletronic stability control) pode ser ilusória e contra producente em condições ambientais agravadas. Isto é, os sensores podem induzir comandos errados dos automatismos como acelerações indevidas, pelo que a regra deverá ser sempre conduzir com uma margem de segurança impondo, obviamente, um comportamento e uma velocidade contidos ao automobilista do veiculo atrás. Este aspeto deverá ser considerado na fase de homologação de novos modelos.

7 – necessidade de esforço para interpretar corretamente – Sugere-se reforço da política de exigência nos exames teóricos para concessão da carta de condução e frequência obrigatória de ações de reciclagem dos condutores apanhados sem carta, envolvidos em acidentes ou que tenham atingido um determinado número de pontos por infrações

8 – os perigos  culturais – a cultura da competição, a cultura da promoção do estatuto social através da qualidade do automóvel ou da auto estima através da publicidade que realça as qualidades de bom condutor do proprietário, a cultura de que conduzir depressa é sinónimo de bom condutor, a cultura de promoção da dependência do automóvel, quando uma sociedade evoluída privilegia os modo suaves de deslocação e o transporte coletivo, são perigos graves para o condutor e para os seus companheiros de estrada e ainda mais para os peões, dada a imprevisibilidade de situações de risco com consequências fatais. Sugere-se portanto a penalização fiscal da publicidade com aquelas sugestões e a sua crítica pelos meios de comunicação social. Igualmente se propõem campanhas oficiais na televisão de sensibilização para comportamentos responsáveis na condução. A cultura de prevenção de acidentes, nomeadamente atropelamentos, e da moderação da velocidade, será melhorada com a referida realização sistemática de inquéritos e a disseminação pública dos seus resultados e propostas

9 – os perigos psicológicos – trata-se de uma problemática mais vasta a nível do país para cuja solução, dadas as condições financeiras atuais apenas se poderá contar com fundos europeus ao abrigo de campanhas comunitárias para redução da sinistralidade rodoviária, Propõe-se pelo menos o dispêndio de verbas para manutenção de uma equipa de contacto com os organismos europeus respetivos e para preparação das medidas a implementar, quer na sensibilização contra a condução em condições psicológicas deficentes (cansaço, preocupação ou drogas), quer simplificando os procedimentos e controlando os custos de manutenção dos veículos (na perspetiva de que a fisclaização deverá ajudar a atividade económica e não se concentrar na repressão). Igualmente se propõe a colaboração dos meios de comunicação social do debate público desta problemática.




Considerando que a prioridade deve ser a constante implementação de medidas de melhoria da segurança de peões e automobilistas, por mais que os indicadores de segurança melhorem, apela-se:
a) à alteração do Código da Estrada para melhor compreensão e eficácia da prevenção dos atropelamentos,
b) à disseminação sistemática através de campanhas de prevenção na televisão,
c) à criação de zonas de velocidade limitada, especialmente nas aglomerações populacionais, e
d) à disseminação pública dos resultados dos inquéritos tipificados.



Ver neste blogue:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2013/03/risco-de-atropelamentos-nas-passadeiras.html

Que se passa com o relatório do acidente de Alfarelos?

Passados mais de dois meses sobre o acidente de Alfarelos,
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2013/01/declaracao-de-interesses-o-comentario.html

mantem-se o secretismo sobre o trabalho da comissão de inquérito. Em comunicado conjunto do IMT, CP e REFER de 3 de março de 2013, afirmava-se que ela estava a trabalhar no apuramento das causas e que a segurança estava garantida (com as restrições de velocidade no local).
Consta, mas sem confirmação, que já existe um relatório final.
Esta atuação mais uma vez o digo, é o oposto do que se faz no estrangeiro, em que as informações vão sendo dadas à medida que o trabalho de investigação avança.
Penso que será importante esclarecer a opinião pública com respostas concretas às seguintes questões e as propostas concretas de correção se necessárias:
1 - é necessário alterar o regulamento, nomeadamente quanto a velocidades e pontos quilométricos até aos quais pode ser autorizada a marcha?
2 - é necessário alterar o critério de implantação de sinais?
3 - A Siemens enquanto fornecedora do software de controle de tração e travagem SIBAS pronunciou-se?
4 - A Bombardier enquanto fornecedora do sistema CONVEL pronunciou-se?
5 - confirmou-se se o SIBAS ou o CONVEL podem ser "enganados" pelos taquimetros por bloqueio das rodas ou patinhagem (deslocalização)?
6 - a unidade tripla rebocada (as 3 ultimas carruagens) do comboio regional seguia com os freios ativos?
7 - considerando o deslizamento de ambas as composições, analisaram-se as propriedades de liquido eventualmente produzido a partir das folhas da vegetação adjacente?
8 - considerando o deslizamento da locomotiva do Intercidades, as carruagens deste tinham os freios ativos?

Recorda-se ainda a conveniencia de apresentar conclusões e recomendações sobre a colisão de Caxias de 2012, e os desvios de via nos recentes acidentes com os aparelhos de mudança de via de Caxias e Algés.



António Vieira e o novo acordo ortográfico

Mais um episódio da tormentosa novela do acordo ortográfico de 1990.
Foi editada a obra integral de António Vieira, sermões e cartas, segundo o novo acordo.
Os opositores ao novo acordo marcaram uma manifestação de protesto na sessão de apresentação da obra (a obra completa serão 30 volumes e resulta de uma cooperação de universidades portuguesas e brasileiras).
Toda esta questão é interessantissima, por mostrar a paixão com que os portugueses se entregam a discussões bizantinas e se baseiam em pormenores acessórios, e não me parece bizantinice tentar investigar por que as pessoas gostam de discussões bizantinas.
Há dias, tive a ousadia, por não ter gostado de que o grande poeta Vasco Graça Moura me tivesse chamado pantomineiro em artigo no DN (fê-lo de forma indireta e generalista, claro) de tentar analisar por que nesta discussão as pessoas se ofendem:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2013/01/a-tormentosa-novela-do-acordo.html

E de facto, basta consultar os blogues em que se discute o acordo para ver a facilidade com que os opositores se ofendem e o barulho que se faz por questões que me parecem menores mas que a outros parecem essenciais e indispensáveis à identidade nacional.
Que ficamos sem saber se "para" é do verbo parar ou se é a preposição. De facto é uma armadilha para quem está a ler, ter de olhar ao contexto, mas isso já acontecia com "conserto" (verbo consertar) e "conserto" (arranjo), "sede" (de água) e sede (de uma firma), gelo (verbo gelar) e gelo (água congelada). O dicionário Houaiss sugere, em caso de dúvida, que o autor escreva entre parenteses (á) no caso do verbo parar. Outra hipótese seria escrever "ah" ou, já que os opositores ao novo acordo chamam ignorantes a quem concorda com ele, "aa", para recordar como se escrevia e falava na idade média portuguesa (vêde como são abertas as vogais no norte do país). Na verdade, parece-me boa ideia eliminar os acentos que sempre complicam os teclados, mas o novo acordo não é tão radical que o faça na totalidade. Mas é apenas uma opinião, não a quero impor nem desconsiderar quem não concorde com ela.
A mim, em caixas de comentários, chamaram-me cabeça de alho chocho, e que Camões devia voltar para me trespassar com a sua espada (que dirá agora este ilustre e bem educado cidadão de quem pôs Vieira a escrever segundo o novo acordo?).

Vamos ver como evolui esta novela, na esperança de que a capacidade de entendimento entre os portugueses melhore, e que não se ofendam tanto uns aos outros.


quinta-feira, 4 de abril de 2013

o naufrágio de Sepulveda e o de Vitor Gaspar


O naufragio de Sepúlveda em versão condensada e comparativa, dedicado ao senhor ministro das finanças Vítor Gaspar, que gosta de citar a história trágico marítima para realçar que uma parte dos portugueses há-de sobreviver à crise:

Sepúlveda terminou a sua comissão na Índia e obteve o comando de um galeão para regresso a Portugal, com a mulher e filhos
Gaspar terminou a sua comissão nos gabinetes de paredes bem isoladas da realidade exterior das finanças europeias e obteve o ministério das finanças do governo de Portugal

O galeão carregou em vários portos, para alem da sua capacidade náutica, pimenta, sedas, louça chinesa e pedras preciosas
Gaspar, com voz pausada, explicou aos portugueses que teriam de produzir mais com o equipamento de que dispõem
Corria o mês de Fevereiro de 1552 quando a viagem se iniciou, com 200 tripulantes, 200 fidalgos e soldados, e 300 escravos
Gaspar explicou ainda que a força de trabalho mal remunerada é essencial para conter a subida dos preços e para chegar ao equilíbrio orçamental das contas públicas
Atravessado o Indico, ao fim de pouco mais de 2 meses de navegação, chegaram à costa de Moçambique, levantando-se um temporal que rasgou as velas e danificou o leme
Graças ao apoio e à orientação do ministro das finanças alemão, atingiu-se sem novidade o nível de juros no mercado financeiro que Gaspar desejava
Depois de alguns dias de navegação tormentosa em que não se conseguiu reparar o leme, nem os mastros quebrados, nem as entradas de água, tentou-se ancorar junto à costa de Sofala
Porém, a descida do PIB e a subida tormentosa do desemprego lançaram o caos na estrutura do governo
Depois do transporte para a praia, nos bateis, de parte dos viajantes e da mercadoria, o agravamento do mar levou o galeão a embater numa rocha e a afundar-se, perdendo-se grande número de pessoas e a maior parte da mercadoria
Apesar de medidas bem intencionadas de alguns ministros, no entanto mal conduzidas as mais das vezes, como no caso dos ministérios da economia e da agricultura, foi-se perdendo a capacidade produtiva na agricultura e na industria
Os sobreviventes na praia eram cerca de 500, dos quais 180 portugueses
Os sobreviventes da sangria do desemprego e das insolvências bateram-se valentemente
Sepúlveda resolveu com o conselho de oficiais subir a costa a pé na esperança de atingir a base de Sofala
Gaspar traçou uma estratégia de austeridade cheia de perigos e muito exposta aos ataques dos especuladores
Atravessando regiões áridas e atacados pelos habitantes, o grupo foi sendo dizimado ao longo de 900 km
Em consequência, o PIB continuou a descer e a divida e o desemprego a subir
Os sobreviventes, 8 portugueses, 14 escravos e 3 escravas, seriam recolhidos por um navio português que os levou para a base de Moçambique Norte onde chegaram em maio de 1553
Apesar de tudo, parte da população portuguesa conseguiu manter uma atividade produtiva de bens e serviços transacionáveis e garantir parte dos rendimentos
Sepúlveda foi o capitão de um dos mais trágicos episódios da história trágico maritima portuguesa
Gaspar foi o ministro das finanças de uma das estratégias da história portuguesa mais desadequadas à retoma económica


PS em 5 de abril de 2013 - conhecido o episódio menos trágico da demissão de Miguel Relvas, reproduzo o quadro enviado pelo partido socialista à troika, com os resultados do trabalho do senhor ministro das finanças Vitor Gaspar e da sua equipa. Independentemente do desconhecimento da realidade portuguesa e da ignorancia da elevada probabilidade de desastrosa evolução dos indicadores, revelados pela troika, regista-se a má prestação do senhor ministro, confirmando o diagnóstico negativo feito neste blogue desde o principio. De ressaltar a queda do PIB e o aumento do desemprego (neste caso um fim em si mesmo da estratégia da troika e do governo para comprimir os salários) :



   Memorando
    maio   2011
    7ª avaliação
    março 2013
       Defice

2012
       4,5%
         6,4%
2013
       3,0%
         5,5%
       Variação PIB
2012
      -1,8%
        -3,2%
2013
      +1,2%
        -2,3%
       Divida publica
2012
    107,4%
     123,6%
2013
    108,6%
     122,4%
       Desemprego
2012
      12,9%
       15,7%
2013
      12,4%
       18,2%








quarta-feira, 3 de abril de 2013

Alberto Pimenta e a revolução francesa


A história da Revolução Francesa contada em Poesia, por Alberto Pimenta:




o rei Henrique IV
de França
mandou eliminar
para todo o sempre
o registo
das sangrentas lutas religiosas
entre católicos e protestantes

quase duzentos anos depois
em 1789
havia em Paris
para cima de 7.000
fabricantes de perucas
para a cabeça do alto clero e
da aristocracia
da e do capital

40 anos antes
sem tufados nem perucas
o Estado tinha pedido
um empréstimo de
240 milhões de libras
que no ano em causa
eram já 810 milhões

nos 12 anos de miséria geral
que tinham antecedido
o dito ano
a coroa tinha pago
a essas princesas e a esses príncipes
empoados e emproados
para cima de 200 milhões de libras

o empréstimo
gastava-se aí
e claro na defesa
porque
dum orçamento de defesa
de 270 milhões
metade
mal chegava para as pensões
de um milhar de generais
e oficiais da aristocracia

os lavradores
mecânicos e artesãos
pagavam de imposto
mais de meio salário
e não havia fuga
e acrescia um terço do restante
que era em partes iguais
para a Igreja e
para o dono da terra

viviam em pardieiros
que fazianm jus ao nome
pardos fora e pardos dentro
porque o luxo da janela
pagava imposto
e além doutros
havia ainda mais um assalto
o imposto sobre o sal
por cada quilo de sal
o trabalhador
pagava o equivalente
ao seu salário médio diário
e o consumo era obrigatório
no mínimo uns 4 quilos anuais

era um iva
parcial antecipado
sobre a vida
é a estratégia da mente parasita
eterna mente
sempre o mesmo
sempre os mesmos

e eram 200.000
os cobradores de impostos
que corriam o país
a recolher e multar
e um dos principais
era o temido Foulon

no mesmo ano de 1789
o abade Sieyès
escreveu “é o povo
que constrói as estradas
as pontes os canais os tribunais
as creches os manicómios
as escolas de esgrima e
de equitação”

pois constrói é claro
com as mãos
e com os impostos que paga
e vive
nas proximidades
dos castelos
e das abadias
que construiu
e que hoje
turistas de shorts
rotos na elegância do cu
e óculos ray-ban
postos para cima da testa estreita
mascando pastilhas
contemplam como bois
enquanto ouvem aos guias declarar

que maravilha
era a vida naquela época
comparada com a nossa

os camponeses
e os pedreiros de ofício
não os intitulados livres
os parasitas bem falantes
da época e de sempre
pensaram

nós até aqui sobrevivemos
daqui em diante vamos viver
e assim foi
ou pelo menos
assim começou por ser

Foulon o cobrador
anunciou a sua  morte
e o seu funeral
travestiu-se
encheu as malas de dinheiro
preparava-se
para fugir
decerto para a Suíça
mas foi apanhado

enforcaram-no
teve de ser à terceira
porque ele era tão gordo
que a corda rebentou
duas vezes

cortaram-lhe a cabeça
encheram-lhe a boca
de palha

e seguiu-se Berthier
o genro
tudo família como sempre

esse depois de morto
foi posto
a enfeitar
um lampião
um belo ciclope

“admirável
este lampião
faz mais em dois dias
que todos os heróis
em cem anos”
disse Camille Desmoulins
percebe-se agora
por que estão a ser retirados
de praças e ruas
de toda a Europa
os antigos lampiões
que eram bonitos
davam aquela luz suave
do vapor de sódio

estão a ser substituídos
por leds rios de luz cega
que vêm do alto das paredes
olhos de pedra
como a Boca da Verdade de Veneza

quer dizer
a gota de água
deve estar quase outra vez
a transbordar
os saqueadores do costume
tal como Maria Antonieta
estão a cheirá-la
bola de Berlim
brioche churro
pastel de nata
um docinho qualquer
a substituir
o pão
porque alem do mais
as colheitas de trigo
dos próximos dois anos
já estão compradas
e açambarcadas

há uma gravura que mostra
o grande Luís XVI reclinado
numa poltrona
a observar o modelo em  miniatura
da guilhotina
a primeira sentença
calhou
no dia 25 de Abril de 1792

vai fazer
não tarda muito para lá chegar
222 anos
número fatídico

mas a história
é uma série de interrogações
não de respostas

                                em
                               “ De nada”, de Alberto Pimenta, áudio livro da editora Boca;
                               visto em
                              “Resumo – a poesia de 2012”, antologia de poesia    
                                                       publicada em 2012, ed. Documenta



Se o leitor teve a persistência de chegar até aqui, com elevado grau de probabilidade concordará comigo que é extraordinário escrever-se poesia assim, interventiva e real, incomodativa para o poder que se sente deste modo retratado, porque o poder não é estúpido e compreende que os impostos que lançou são exagerados e fazem encolher a economia, que os empréstimos do Estado estão ao serviço dos grandes grupos , que a compra por futuros das colheitas de trigo dos próximos anos é uma ameaça de fome, etc, etc..
Levantar-se-ão talvez vozes, receosas de que se esteja propagandeando a função executiva dos candeeiros (é que até já há iluminação led de cores suaves, tão quente como a do vapor de sódio; que perigo para quem sente ameaças). Mas talvez não. O poder é suficientemente inteligente para limitar a miséria em bolsas, enquanto faz os possíveis por que a outra parte da população, que ainda tem emprego, se distraia, ou se comova em caridades para com a outra parte. Talvez que a gota de água não esteja prestes a transbordar, que a tecnologia é fecunda em recursos, que os poucos que têm emprego mantém a parca economia a funcionar.
Mas que a poesia é preclara, é; isto assim não pode continuar.



terça-feira, 2 de abril de 2013

Adília Lopes, de José Tolentino de Mendonça

Chamo-me Adília Lopes
sou a casa inseto
a mulher osga
uma colher transformada em faca
para minusculos riscos
sou uma constante cosmológica
de acelerar galáxias 
um telegrama sinfónico
na ausencia de tudo

sou a verdade que prefere não sair
do bairro


Poema de José Tolentino de Mendonça,  em "Estação Central", ed.Assírio e Alvim, visto em "Resumo - a Poesia em 2012" ed.Sistema Solar, CRL (Documenta)

Chamou-me a atenção no poema o último verso, a verdade que prefere não sair do bairro.
É como a democracia, podiamos fazer uma revolução e triunfar no nosso bairro.
Mas poderiamos chamar a isso voluntarismo adolescente.
Podemos também calmamente ir tentando disseminar a ideia do debate e da organização das ideias e das propostas concretas.
Digo calmamente porque pensar é essencial, embora a psicologia com base experimental diga que por vezes é melhor seguir a intuição.

Referencia ao livro "Resumo - a poesia em 2012": trata-se de uma antologia de poesia publicada em 2012, comemorativa dos 15 anos da FNAC. O produto da venda destina-se a apoiar a AMI. É um livro encadernado e a contenção de custos da sua produção (preço de venda 4 euros) deve-se também à editora ser uma cooperativa (CRL). Está em segundo lugar nas vendas da FNAC.

Noticias Magazine – a via sacra dos portugueses

ministério da Finanças, sem abrigo



Não encontro na internet a reportagem nem o seu resumo, pelo que vou resumi-la adiante.
Apenas as fotografias que vejo no facebook do Noticias Magazine, a revista dominical do DN e JN:

A reportagem é um trabalho jornalístico do mais alto nível pela sua ligação à realidade e por abarcar vários dos seus aspetos.
Mereceria a publicação em separado.
Estabelece um paralelismo entre as 14 estações da via sacra da tradição cristã e 14 situações dolorosas ou indignas de parte da sociedade portuguesa.
Infelizmente a situação atual de parte significativa da população portuguesa e a aparente incompreensão dos governantes pela problemática associada justifica este tipo de reportagem.
A reportagem sobressai pelo contraste positivo numa revista recheada de anúncios a automóveis, relógios e perfumes caros (eu sei, como dizia Grandela nos anos 20 do século passado, que o comércio de artigos de luxo dá emprego a muita gente) e que privilegia histórias de sucesso, por vezes estereotipadas, fúteis, estouvadas e frívolas.
Tal como na estética neo realista do pós guerra, o tratamento de situações trágicas deixa de ser um exagero para ser uma tomada de consciência pela outra parte da população, que felizmente não sofre as consequências da crise e da resposta que os governantes estão a dar.
Não são apresentadas soluções, que infelizmente são cada vez mais difíceis de apresentar dado  o agravamento da complexidade das questões, mas a divulgação da realidade e a tomada de consciência destas situações já é um passo, pequeno mas efetivo, para a resolução.
1ª estação – Jesus é condenado à morte – a loja Anzolmar de artigos de pesca, em Belém, vai fechar, juntando-se às 12 lojas vizinhas da Rua da Junqueira que já fecharam. Incomportável a nova máquina registadora exigida pela autoridade tributária.”Não sobra quase nada das lojas… a exigência da nova máquina foi apenas mais um prego para o caixão…vou fechar e entregar a chave à senhoria…se me custa? Não, já custou o que tinha a custar…acabou-se”. Disse o lojista à senhora reporter
2ªestação – Jesus carrega a cruz às costas – o filho de 3 anos tem paralisia cerebral de grau 5 devido a um parto anormal e exige atenção constante, com uma vida quase vegetativa. Os pais são heróicos, conseguem trabalhar  e não querem ser subsidiodependentes. Vale o apoio da Associação de Paralisia Cerebral de Lisboa, Odivelas. Segurança Social devia ser também para estes casos, sendo certo que não se pretende que os pais fiquem em casa porque a  natureza humana requer uma atividade profissional; mas o país é pobre, pelo menos parte do país. Haverá correlação entre o parto mal realizado e o ambiente cada vez mais restritivo vivido nos últimos anos na Maternidade Alfredo da Costa? E entre os condicionalismos morais e religiosos e a criminalização de uma eutanásia piedosa no momento do parto?
3ªestação – Jesus cai pela primeira vez – é licenciada em História moderna e contemporânea e é operadora de caixa e chefe de caixas no Pingo Doce. Ordenado base 500 euros (não estou a criticar o Pingo Doce por este ordenado; as criticas que faço ao Pingo Doce, tal como se pode ver noutros locais deste blogue, são a outro nível). Não deram em nada as candidaturas a concursos em muitas camaras municipais. Acabou por gostar do que faz. Mas não tem ainda 30 anos e, por razões económicas,  não pode constituir família. Seria tão bom que os governantes compreendessem que as economias que fazem contendo os salários são menores do que o prejuízo de se cortar a liberdade  a quem quer constituir família? E para  a sociedade essas economias são menores do que os prejuízos da diminuição constante da natalidade? Não querem ver isso, é?
4ªestação – Jesus encontra a sua mãe – São uma família com duas crianças de menos de 2 anos. Iniciaram obras de remodelação na sua  moradia térrea e o crédito bancário falhou. Realojaram-se em casa dos sogros do pai de família, que sorteou a moradia para pagar as dívidas. É discutível, a opinião seguinte, mas parece-me que o grande problema da habitação em Portugal é a dificuldade de acesso a obras ou arrendamento e seu financiamento a custo controlado e garantido, através de gabinetes oficiais das autarquias, organizados para ajudar e não para exigir.
5ªestação – Simão de Cirene ajuda Jesus – é a história de um homem, administrativo numa escola pública nas Caldas da Rainha, que se dedica a promover a recolha e a distribuir alimentação e agasalhos a sem abrigo da cidade. É impressionante a sua solidariedade e a das pessoas que o ajudam, mas recordo sempre a afirmação duma manifestante: “se houvesse justiça social não era preciso caridade”. Sendo certo que já Adam Smith falava da necessidade de redistribuição social.
6ªestação – Verónica limpa o rosto de Jesus – Graças à junta de freguesia de Alcântara, o balneário público  de Alcântara funciona, e os seus dois funcionários ajudam a recuperar alguma dignidade a quem não tem onde tomar banho.
7ªestação – Jesus cai pela segunda vez – o Brevet OP da Oficina de Psicologia na rua Pinheiro Chagas, em Lisboa, desenvolve uma terapia para desempregados trabalhando , em sessões ao  longo de 4 meses, “a desmotivação, a desesperança e a desorganização” de desempregados. De facto, a necessidade de trabalhar faz parte da natureza humana, e estar desempregado reduz a auto estima e aumenta a depressão. Claro que os governantes deveriam querer compreender isto, até porque são cláusulas da Declaração universal dos direitos humanos e da Constituição; deveriam estimular o tratamento do desemprego em termos de psicologia e, especialmente, atuar preventivamente criando emprego (o artigo 58º até fala em pleno emprego).
8ªestação – Jesus encontra as mulheres de Jerusalém – é o testemunho de três grávidas sem emprego, com formação universitária. Já trabalharam no estrangeiro, já tiveram empregos em Portugal mais ou menos certos. Agora estão no desemprego. Uma sociedade que trata assim as grávidas soma problemas aos problemas que já tem.
9ªestação – Jesus cai pela terceira vez – é a história do dono de uma fábrica têxtil que fechou por falta de trabalho em março de 2012. Deixou em Portugal  a família, mulher e dois filhos. Trabalha no bar de um grande restaurante em Hamburgo. “Tenho medo se a minha família vier ter comigo porque a minha filha é adolescente e o corte pode não ser bom. Mas que futuro podem os meus filhos ter em Portugal? Como posso pensar em voltar se não há lá nada para mim?” . Dir-se á que as economias dos cortes no apoio às famílias portuguesas emigrantes, nomeadamente na parte escolar, são menores do que são os prejuízos que resultam dos cortes.
10ªestação – Jesus é despojado das suas vestes – é a história do estímulo do crédito fácil e do endividamento familiar para alem do suportável e do garantido. Foi contraído um crédito há 4 anos para a compra de um apartamento na Moita com mais uma divisão do que a casa em que viviam. O casal com dois filhos trabalhava na mesma empresa. Não conseguiram vender a casa antiga e foram ambos despedidos num processo de redução de pessoal. A casa nova foi entregue ao banco. “No inicio custou-me muito, mas agora já não doi. Quero recomeçar, arranjar um emprego para pagar as dívidas e dormir descansado”.
Será que, se somarmos as economias conseguidas por todas as empresas que reduzem pessoal obteremos um número sequer igual à soma dos prejuízos a que as reduções dão origem, desde os encargos com os subsídios de desemprego à queda da produção e pioria de qualidade de serviço ou do produto, por falta de pessoal?
11ªestação – Jesus é pregado na cruz – quando se fala em reformas elevadas superiores à expetativa dos descontos, normalmente obtidas em meio bancários ou em atividades ligadas ao poder político ou ao poder judicial, deve-se também falar nas carências da assistência social a quem trabalhou por conta de outrem durante toda a sua via e por uma razão ou outra têm reformas baixas. A situação agrava-se na fase terminal. O casal de antigos mordomo (84 anos) e empregada doméstica (83 anos ) duma casa rica do Estoril, vive agora com um neto num apartamento do bairro social do Rego, num prédio municipal degradado. As duas reformas somam menos do que 500 euros. O neto, de vez em quando, ganha a recibos verdes, “com computadores”, diz o antigo mordomo porque a senhora sofre de Alzheimer. “A neta dos nossos patrões ajuda-nos muito. Tomara que  morrêssemos os dois no mesmo dia”.  Não quero responsabilizar o atual governo pela falta de uma politica de velhice em Portugal, mas há muito a fazer neste campo, e nem tudo exige muito dinheiro.
12ªestação – Jesus morre na cruz – Porto, bairro da Boavista. Um grupo de voluntários distribui, à noite, comida quente e agasalhos. O fotógrafo captou a imagem de Leninha, 19 anos, que chama”mamã” a uma das voluntárias. “Com a crise, a Segurança Social deixou de pagar as casas de hóspedes que albergavam os sem abrigo. Cada vez há mais”. Existe uma correlação forte entre desemprego e sem abrigo, entre falta de assistencia social e psicológica e degradação de condições de vida. Por isso deveriam ser limitadas as politicas que estimulam o desemprego. Embora essas politicas se fundamentem na correlação forte entre desemprego e contenção de preços. Se isto é contenção de preços, então não deveríamos querer contenção de preços.
13ªestação – Jesus morto nos braços de sua mãe – Tem 60 anos, é enfermeira da Santa Casa da Misericórdia e acompanha funerais de solitários. Também aqui não podemos responsabilizar a crise atual, mas verificar a carência da assistência social a nível nacional. Não há também uma politica eficaz contra a solidão, e o desemprego de jovens técnicos de serviço social é também significativo.
14ªestação – Jesus é sepultado – Fé na ressureição? Questão posta ao próprio país e à sua população, sendo certo que esta reportagem pode e deve ser um elemento de apreciação durante a próxima campanha eleitoral. A reportagem reconhece que muitos dos portugueses descritos já nem sequer têm esperança. Mas a questão mantem-se, quer o atual governo tenha razão ou não na politica de ruína que executa, a tentar convencer os cidadãos a, resignados, acreditarem que não há opção.
E contudo, não se propôs já ao governo a operacionalização de uma taxa sobre as transações financeiras e de outra taxa sobre as operações no multibanco sem reflexo nos clientes e a urgência na negociação com os poderes centrais da UE de uma verdadeira politica federal, financeira e fiscal sem os bancos a servirem de intermediários para a divida dos Estados?
Já se operacionalizou a auditoria completa à divida pública e à privada para se saber onde atuar?
Não se diga pois que não há alternativa à via sacra.
Ou, como pergunta finalmente a reportagem: “depois da via sacra que muitos portugueses estão a percorrer, haverá também lugar para a ressureição?”

                          Notícias Magazine, revista semanal do Diário de Noticias e do Jornal
                                                         de Noticias, 31 de Março de 2013
                                        

Atravesso um deserto e a sua secreta desolação

Retirado do opúsculo comemorativo do 3ºaniversário da Casa da Achada/Centro Mário Dionísio, em 29 de setembro de 2012, um poema de Jose Angel Valente, poeta espanhol já falecido:

Atravesso um deserto e a sua secreta
desolação sem nome.
O coração
tem a secura da pedra
e os estalidos noturnos
da sua matéria ou do seu nada.
Há porém uma remota luz
e sei que não estou só;
ainda que depois de tanto e tanto não haja
nem um só pensamento
capaz contra a morte,
não estou só.
Toco por fim esta mão que partilha a minha vida
e nela me confirmo
e palpo quanto amo, 
levanto-o ao céu
e mesmo sendo cinza proclamo: cinza.
Mesmo sendo cinza tudo quanto tenho,
tenho tudo quanto me foi oferecido como esperança.

A Casa da Achada é uma associação cultural aberta ao debate, partindo do espólio de Mário Dionísio e tendo-o como patrono. A sua ação neste momento é a de oposição à barbárie que a pretexto da crise pretende ignorar a Cultura.
Gostaria de salientar no poema a referencia à remota luz e a não se estar só nesta oposição à barbárie dos nibelungos que nos governam.
E a referencia à dependencia da cinza, destino fatal que a mecânica quantica descreve: o elemento dominante na Natureza é o carbono, quase tudo gira à volta da necessidade de converter a energia latente desse carbono em atividade util (até a Cultura é uma atividade útil, porque não querem perceber isso os nibelungos que nos governam?).

domingo, 31 de março de 2013

O conflito entre a produção e a distribuição

A citação de frases de figuras conhecidas pode ser apenas a projeção no seu autor dos desejos de afirmação de quem cita,  ou numa tentativa mais ou menos iludida de validação das convicções do citador.
Mas são muitas vezes interessantes, as citações.
Vejam-se estas duas de Dinis Machado, o autor de "Que diz Molero":

"Matam-se pessoas ou faz-se-lhes mal; ou ajuda-se quem é possível ajudar se sobra vontade e desejo de o fazer neste nosso universo tão feito de alcatruzes da nora. Há um letreiro invisível: escolha o seu lugar. Escolha bem ou escolha mal porque terá sempre a sua apropriada claque."

É isso, por maior que seja o nosso disparate, teremos sempre ao nosso lado quem pratique o mesmo disparate. Melhor será, para o disparate não ser tão grande, aceitar a colaboração com o outro lado, o lado dos outros disparates, já que a realidade é difusa e sofre da dialética de manifestar sintomas de causas opostas.
O que nos leva à segunda citação:

"A base dos conflitos que se agitam hoje nas sociedades nasce da fricção constante entre a produção e a distribuição"

Não só já existe um grave problema em produzir, veja-se o caso do PIB tão pequeno em Portugal, como depois a redistribuição dos benefícios falha estrondosamente, agravando o coeficiente de Gini das desigualdades.
Dificil sair deste impasse, ou melhor, desta armadilha da pobreza e da zona de rendimentos decrescentes em que a austeridade provoca recessão maior do que a calculada pelos sábios do FMI (todos os economistas com experiencia de economias frágeis sabiam que o efeito recessivo das medidas de austeridade colocaria a economia numa zona em que os investimentos têm baixissimo retorno.
Infelizmente, as pessoas que na altura alertaram para este efeito pernicioso vão continuar a ser ignoradas pelo detentores do poder politico, e apesar de tudo, ainda há cidadãos e cidadãs que tiveram a sorte de trabalhar em áreas rentáveis. 

Dos pacotinhos de aperitivos no Pingo Doce ao Caribe, aos automóveis alemães e depósitos a prazo de mais de 100.000 euros

Vale a franqueza com que o Pingo Doce manda escrever nos pacotinhos de aperitivos a sua origem.
Caju com piri piri da India, amendoim torrado da China, milho frito de Espanha, sultanas douradas da Africa do Sul, passas de uva da Africa do Sul.
Eu penso que a tentação da globalização é muito grande, porque parece haver vantagem económica.
Mas globalização é também importar com a vantagem económica a atrofia da economia local.
E assim continuamos a importar dois terços dos alimentos e dois terços da energia primária que consumimos.
Impossivel sobreviver com autonomia se não produzimos o valor do que comemos e do que queimamos.
Impossivel sobreviver com os apelos das agencias de viagens a poupar 4 euros por dia durante 8 meses para viajar ao Caribe.
Impossivel sobreviver com as páginas de publicidade dos jornais cheias de anuncios de automóveis alemães de 48.000 euros.
Impossível sobreviver quando os fazedores de opinião rasgam as vestes por se taxarem depósitos superiores a 100.000 euros e assobiaram para o lado quando os contribuintes trabalhadores por conta de outrem tiveram de pagar o resgate dos bancos que não eram deles, contribuintes, na Irlanda, na Grécia, em Espanha, em Portugal.
Só agora terão entendido os decisores da união europeia que tinham razão, os cidadãos e cidadãs islandeses, quando logo ao princípio disseram que não tinham nada que pagar as dívidas dos bancos especuladores?

PS em 3 de abril de 2013 - Amável e discreto comentador criticou a minha crítica à teoria da vantagem comparativa de David Ricardo. Não era a intenção, será pouco rentável a produção de caju em Portugal. Tal como o economista defendeu, devemos investir na produção de vinho em que Portugal tem tradição e qualidade, e quem diz vinho diz passas de uva e milho. 

sábado, 30 de março de 2013

Diálogo breve num posto de combustível

- Que maçada, aumentou outra vez, a gasolina
- E vai continuar a aumentar.
- A cotação do petróleo até está baixa, mas as distribuidoras estão sempre a fazer dinheiro à nossa custa.
- É interessante. Por um lado é verdade, até a troika tem razão, os combustíveis como fator de produção, como fator que entra para a composição do preço de qualquer produto, estão demasiado caros. Mas também é verdade que a energia é um bem escasso e não renovável, no caso dos combustíveis fósseis, e portanto só pode ser caro.
- Mas o petróleo está barato.
- Artificialmente barato, por motivos políticos e no interesse dos grandes grupos económicos e financeiros. Imaginemos que se voltava aos tempos do padrão ouro e se substituia o ouro pela energia. O preço das coisas seria referido ao preço da energia e expresso em unidades de energia. Acontece que há 50 anos se gastava pouca energia para extrair o petróleo. Por cada unidade gasta obtinham-se 50 unidades de nova energia. Agora, com o petróleo cada vez mais escondido e de dificil acesso, uma unidade obtem apenas cinco.
- Mas o petróleo pouco mais caro está agora do que há 50 anos.
- É verdade, porque o aumento dos custos da extração são diluidos por toda a economia, ou melhor, são repercutidos em toda a economia. Tudo está orientado para sustentar o baixo preço do petróleo. É natural que a economia esteja distorcida. E com a globalização, a distorção propaga-se como um virus de que a humanidade não se vê livre.
- E assim vamos de crise em crise, em sucessivas alternancias de bem estar e mal estar.
- É pena. A ciencia económica já tinha tido tempo para sistematizar uma organização melhor das comunidades, estruturalmente imune às vagas recessivas. Mas para isso precisava de conseguir a autonomia relativamente aos combustiveis fósseis e, sobrepondo o interesse público ao da concorrencia dos grandes grupos e às forças de mercado, desenvolver as energias renováveis.
- Aí está uma boa utopia.
- Tu o dizes.

sexta-feira, 29 de março de 2013

As contas da Ivalandia nos finais de Março de 2013 e a estratégia da aranha




O ministro das finanças da Ivalandia afirmou em meados de Março que o défice de 2012 seria de 4,9% do PIB.
Nos finais de março de 2013, de acordo com o Eurostat, o défice é de 6,4% do PIB.
Trata-se de um erro superior a 30%.
O senhor ministro tinha sido avisado por economistas  nos jornais que não devia contar com a privatização da ANA para o défice e já antes tinha sido avisado de que a transferência dos fundos de pensões ia aumentar a despesa.
Mas achou, no conforto do seu gabinete, que estava acima dessas miudezas.
Também nos idos de Março o senhor ministro apresentou à troika as contas do endividamento público.  A dívida seria  123% do PIB. Não era, foi corrigida para 123,6% , atingindo 204,5 mil milhões de euros, em grande parte da responsabilidade da gestão do atual governo.
Na dívida pública incluem-se 4 mil milhões de euros de ajuda à banca (setor  privilegiado) que desde há 3 anos, desde o anterior governo, o estado nela vem injetando, sendo que essa injeção vai continuar. Aliás, a senhora secretária do Tesouro confirmou que se enganaram nas contas das imparidades do BPN e empresas SLN.
Continuamos sem conhecer os resultados de uma auditoria à dívida pública e à dívida privada, para hierarquização dos credores e controle da evolução.
Falta ainda incluir na dívida pública as dívidas de empresas públicas e hospitais de parceria (aos anos que os relatórios e contas das empresas públicas de transportes chamam a atenção dos governos para a necessidade do Estado assumir as dívidas dos investimentos em infraestruturas de longa duração dessas empresas).

Perante o exposto, se considerarmos os contribuintes como acionistas do Estado, será fácil adivinhar o que os acionistas pensariam do CFO e equipa da empresa Estado.
Em assembleia de acionistas diriam que estavam fartos dos seus erros e que desejariam substituir o CEO, o CFO e o chairman.
Julgo eu.
Imagino o senhor CFO a defender-se, que o défice estrutural primário em 2012 foi de 0% (saldo sem juros e sem considerar os efeitos recessivos externos). E a dizer que tudo estaria bem se não fossem os juros, a recessão, as medidas extraordinárias e as dívidas herdadas (variante economista da anedota da avó torta que seria viva se não tivesse morrido).
Mas como é ficção, e como a democracia que vivemos não tem meios de defesa contra este tipo de gestão, ou melhor, como os meios previstos são ineficazes se os órgãos que os podem acionar não o quiserem fazer, muitos seremos vítimas da estratégia da aranha, anestesiados pelo veneno e enrolados nos fios da teia.
Mas outros sobreviverão à estratégia de aniquilamento.
Sempre foi assim, a humanidade ter resistido aos abusos das classes dirigentes.
No futuro, a democracia terá meios mais eficazes de lhes resistir, estará mais próxima duma democracia direta, com possibilidade de intervenção de grupos de cidadãos sem líderes iluminados, com recurso a referendos  e através das estruturas autárquicas de base (será também por isso que o governo atual quer reduzir o número de freguesias para além do razoável?).

Para o senhor Schauble - Fur Herr Schauble




In letzter Zeit abwesend die Zeitung lesen, Kanal Mezzo vai Springen von Genre zu Genre der Musik in der Musik.
Plötzlich kommt der Aranjuez Konzert, Joaquin Rodrigo.
Das Adagio.
Simon Ratel und die Berliner Philharmoniker, die Umgebung des goldenen Saal der Residenz des Orchesters.
Der Solist ist Spanisch, und ich konnte nicht beheben den Namen.
Ich bin mir nicht sicher, was genau die Stücke Rodrigo schrieb, aber die Interpretation ist herrlich.
Simon Ratel wird komplett auf Musik gegeben.
Die deutschen Musiker, kompetent, auch.
Die Hilfe konzentriert.
Ich lese die Zeitung.
Mezzo sprang zum anderen und noch ein anderes Musikstück.
Ich sehe eine beleibte Herr, in Weiß gekleidet, auf eine Bühne zu springen.
Holen Sie sich einen Posaune Sticks und beginnt seine Interpretation des Adagio Concerto de Aranjuez.
Es ist ein Jazz-Musiker, schwarz, mit seiner Band.
Ich bin kein großer Fan von Jazz-Musik, aber ich blieb auf dem Bildschirm, wie ich Musik zu hören.
Macht Variationen oder Improvisationen, wie die Amateure Jazz bevorzugen, und plötzlich fühlen, weil ich wieder einmal gestehen, dass ich eine emotionale, eine kleine Träne herab sein Gesicht bin.
Da die Menschheit ist in der Lage die besten Dinge der Welt als die Musik von allen Farben und Breiten zu verbinden.
Als ich an internationalen Treffen von Experten, die die Sprache seiner Arbeit zu verstehen, auch die Disziplin der Musik verbindet Menschen (ja, ich schrieb Disziplinlosigkeit entdeckt hatte, ist es nicht klar, welche Art von Disziplinlosigkeit dies, dass die Menschen ermöglicht, ist Verständnis wechselseitig?).
Wie, dann, in Neid untereinander, Herr Schäuble sprechen?
Neid?






Enquanto, de tarde, leio distraidamente o jornal, o canal Mezzo vai saltando de género de música em género de música.
Bruscamente surge o concerto de Aranjuez, de Joaquin Rodrigo.
O Adagio.
Simon Ratel e a orquestra filarmónica de Berlim, na sua residencia dourada.
O solista é espanhol e não consegui fixar o nome.
Não sei se interpreta exatamente o que Rodrigo escreveu, mas a interpretação é esplendida.
Simon Ratel está completamente entregue à música.
Os músicos alemães, proficientes na sua técnica apurada, também.
A assistencia concentrada.
Continuo a ler o jornal.
O Mezzo saltou para outra peça musical e outra ainda.
Vejo um senhor corpulento, vestido de branco, saltar para um outro palco.
Pega num trombone de varas e começa a sua interpretação do adagio do concerto de Aranjuez.
É um musico de jazz, negro, com a sua banda.
Não sou grande apreciador da música de jazz, mas fico preso ao ecran enquanto escuto a música.
Faz variações, ou improvisações , como os amadores de jazz preferirão, e de repente sinto, porque mais uma vez tenho de confessar que sou um emotivo, uma pequena lágrima a descer pela face.
Porque a humanidade é capaz das melhores coisas do mundo como juntar-se a tocar a musica de todas as cores e latitudes.
Como eu já tinha descoberto em encontros internacionais de técnicos, que se entendem com a linguagem do seu trabalho, também a indisciplina da musica une as pessoas (sim, escrevi indisciplina; não se entende que tipo de indisciplina é esta que permite às pessoas compreenderem-se mutuamente?).
Como, pois, falar em inveja de uns por outros, Herr Schauble?
Inveja?


terça-feira, 26 de março de 2013

O ministro das finanças da Ivalandia em Nova York

O ministro das finanças da Ivalandia deslocou-se a Nova York e à sede do FMI.
Falou também com o secretário do Tesouro dos USA, Timothy Geitner, um dos principais atores da crise associada ao Lehman Brothers (como diziam os gregos, a mordedura de um cão cura-se com a baba do cão; quando se cura, claro).
Mais uma vez os soberanos financeiros devem ter ficado abismados com a sapiencia do senhor ministro , a quem garantiram toda a compreensão neste momento dificil.
Os cidadãos e cidadãs que ganham a sua vida com o seu esforço sabem que nem a confiança dos mercados nem a compreensão dos dirigentes financeiros internacionais servem para comprar melões ou sementes de couve.
Sabem também, infelizmente por experiencia própria, o que pensar de quem apresenta desculpas como aquela do programa estar mal desenhado (os programas desenham-se ou concebem-se, elaboram-se, escrevem-se? os mercados não terão ficado nervosos sabendo que a troika anda a desenhar mal?).
E de quem ainda faz humor com as previsões meteorológicas, quando as conquistas científicas permitem a predição pela análise de dados.
Nem pensarão nada de mal, terão misericórdia na apreciação.
Mas é bom para a auto estima do senhor, falar com ar pausado com gente tão importante.
Duvido que tenham discutido formas de aumentar o PIB com investimento produtivo de modo à mesma despesa pública corresponder a uma percentagem menor do PIB (aquela ideia de exigir fatura na compra do DN também é boa para aumentar o PIB; 82 milhões de faturas enviadas pela internet para o ministério das finanças em dois meses e meio por restaurantes e algumas oficinas e cabeleireiros de pois de terem sido forçados a adquirir 1000 a 1500 euros de equuipamento e software,  é obra; mas não aumenta a capacidade produtiva de bens ou serviços ditos transacionáveis) .
Duvido que tenham discutido a aplicação de uma taxa sobre as transações financeiras.
Ou sobre cada movimento do multibanco sem repercussão no cliente.
Ou sobre a construção de uma central solar térmica de sais fundidos (por acaso já em construção nos USA).
Ou sobre medidas para diminuir a influencia dos off-shores tipo Cayman e dos in-shores tipo Suiça, Holanda ou Londres.
Era pedir muito.

segunda-feira, 25 de março de 2013

What did you say, doctor Abebe Selassie?


What did you say, doctor Abebe Selassie?
Unemployment result unhappy?
Worst than expected?
Disappointing to increase competition, lower demand and electricity prices not lowering?

Oh Dear!

Sabe, os manuais da London School nem sempre contêm a informação toda, especialmente a referente a países de economia pequena e com especificidades nem sempre compreendidas por estrangeiros.
É um pouco como a armadilha da pobreza.
Estar-se numa zona da curva dos rendimentos decrescentes em que os investimentos não trazem retorno, e em que medidas de austeridade se repercutem segundo leis de ressonância (fenómeno de amplificação de amplitudes de variáveis no tempo) aumentando cada vez mais a recessão do PIB.
Mas é estranho que o senhor doutor venha dizer que o desemprego foi pior do que o esperado.
Pensava que a London Schools tinha melhor conhecimento da interdependência das variáveis económicas, apesar dos seus economistas preferirem os gabinetes à realidade mal cheirosa dos indemnizados que foram despedidos por imposição da troika.
Sabe, os despedidos podem receber uma indemnização maior do que na Alemanha ou nos USA mas grande parte deles pode entrar em depressão e vão ter muita dificuldade em encontrar emprego.
Até podemos pensar que a troika acha muito bem estar-se a investir o dinheiro da segurança social para pagar indemnizações e subsídios de desemprego e esgotar assim os dinheiros da dita segurança social.
Ah, mas o senhor doutor acha que despedir aumenta o desemprego com os despedidos mas vai criar mais empregos graças à confiança dos empregadores.
Isto é, a London Schools e a escola de Chicago acham que despedir cria mais empregos do que suprime.
What fairy tales you believe, Dear!
E se fosse assim, estaria o governo português a usar o dinheiro das indemnizações e dos subsídios de desemprego para financiar novos empregos… não é ilegal, por prejudicar a concorrência que não despediu?(brinco com os seus argumentos, claro, porque eles são muito jocosos; dizer que o desemprego é pior do que o esperado é jocoso, embora também seja trágico).
Speak frankly, unemployment is a goal of London School and Chicago School.
Desemprego serve para conter os preços e fazer baixar os custos de produção do fator trabalho.
Sabe isso muito bem.
Porque veste então a pele do santo inocente e candido?
Ah, é verdade, quanto aos preços da energia.
Não quer aceitar a ideia de que a energia é um bem estratégico que deve estar subordinado ao conceito de serviço público, pelo que a concorrência não é para aqui chamada?
Eu sei que seria despedido se pensasse como eu, mas ao menos eu posso exprimir o que penso; não sei se o senhor doutor pode fazer o mesmo.
Quanto a preços de energia, conhece o senhor doutor o caso da desregulação da eletricidade na Califórnia e correspondente aumento de preço como consequencia da concorrencia?
Se não conhece recomendo.
Mundo cão, a economia da eletricidade.
Avessa aos dogmas da escola de Londres e da escola de Chicago.
Best Regards


domingo, 24 de março de 2013

Uma conversa delicada sobre depósitos bancários




Não, o tema da conversa não é a tentativa de explicação da desagradável forma de expressão dos governantes, desde a inflexibilidade e a não vacilação do primeiro ministro perante a dissonância entre a realidade e as suas convicções, até às frases triclínicas do ministro das finanças de grande desapontamento com o desemprego, quando um desemprego alto faz parte da sua bíblia de conter o custo de vida e baixar os custos de produção do fator trabalho.
O tema da conversa é a proposta de taxação dos depósitos bancários em Chipre.

Já se propôs neste blogue o levantamento do sigilo bancário (e, sob condições que contrariem a extorsão, a divulgação das declarações de rendimentos), a taxação das transações financeiras e a taxação, sem custos para o cliente, das operações no multibanco.
Os poucos comentadores deste blogue têm sido simpáticos e têm-se abstido de manifestar escândalo perante essas propostas.
Provavelmente porque já estão escandalizados com os cortes dos subsídios de férias e com as sobretaxas extraordinárias sobre salários e pensões.
Talvez que o argumento contra as propostas deste blogue seja a famosa confiança dos investidores e dos depositantes.
Que tais propostas afugentariam e enervariam “os mercados”, apesar deste mesmo blogue já ter proposto a identificação dos ditos mercados, nomeadamente os credores, não para exercer violência sobre eles, mas identificar a legitimidade da dívida e as prioridades e faseamento da sua liquidação.
Pensa este blogue que numa altura em que grandes empresas transferem as suas sedes para in-shores como a Holanda, Londres ou Suíça, esse argumento é fraco.
Acresce que este blogue tem presente, tal como qualquer cidadão ou cidadã de hoje que tenha conhecido de perto representantes da classe média dos anos 20 e 30 do século passado em Portugal, que era frequente a posse, por cidadãos e cidadãs dessa classe média de contas bancárias na Suíça, em França ou na Inglaterra.
Isto numa altura em que os pobres ministros das finanças da I República lá iam equilibrando mais ou menos as contas, na ressaca da bancarrota de 1892 (o célebre equilíbrio do manholas de Santa Comba vem na sequencia de uma curva progressiva, sem brusquidão e portanto sem espanto) e os governos, tan bien que mal, lá iam reformando a justiça e a educação (nomeadamente o ensino técnico secundário e o ensino técnico superior), enquanto a industria lentamente crescia e as concessões de serviços e monopólios como o do tabaco ajudavam ao crescimento.
Faltava o dinheiro para as classes de menores rendimentos, mas a classe média lá ia exportando divisas e recuperando alguns juros para reinvestir em Portugal.
Isto apenas para dizer que não espanta que haja fugas de capital numa altura crítica para o país, pelo que a taxação de depósitos bancários poderá agravar uma situação, mas não a cria.
Tentemos algumas contas comparativas.
Este blogue não surpreenderá  os leitores, sendo adepto do levantamento do sigilo bancário, se os informar que o seu escrevinhador tem cerca de 50.000 euros em certificados de aforro (mérito da capacidade de investimento das gerações anteriores).
Valor inferior ao limite de 100.000 euros de garantia pelo BCE.
Baixa da taxa de juro dos certificados de aforro - Aconteceu, há cerca de 7 anos, um senhor secretário de Estado do Tesouro se ter lembrado de reduzir as taxas de juro dos certificados de aforro com o fim confesso de afugentar os aforristas (pobre secretário de Estado convencido; uns anos depois ficou demonstrado o seu disparate).
Supondo que o diferencial entre uma taxa justa e a taxa artificialmente baixa foi ao longo destes 7 anos de 1%, temos que o humilde bloguista foi prejudicado durante esse tempo em 500 euros por ano, isto é, num total de 7x500=3.500 euros.
Não vi um único comentador lamentar este prejuízo, nem rasgar as vestes por estarem a violar o sagrado direito à propriedade das poupanças e das expetativas da sua rendibilidade, possivelmente porque entenderiam que o escrevinhador deveria ter levantado o seu dinheiro e investido no Lehman Bros ou na AXA (como alguns dos seus colegas fizeram) ou no BPN, ou no BPP, ou no BCP ou …
Taxação de depósitos em Chipre - Se os 50.000 euros tivessem sido taxados  a 6% como parece ter sido a primeira ideia para os depósitos em Chipre (segundo outras informações, a taxa para este montante seria de 3%; suponho ainda que se trata de depósitos a prazo ou obrigações, e ignoro se a proposta previa a conversão de metade do dinheiro obtido com a taxação em obrigações, ou de obrigações em outras de prazo superior e juro inferior), o escrevinhador teria sido prejudicado em 3.000 euros (em 1.500 euros se só metade fosse confiscado), valor portanto inferior ao da baixa da taxa de juro dos c.a.
Taxa extraordinária sobre as pensões – Não se estranhará também a divulgação da pensão bruta do escrevinhador: 4.450 euros. A sobretaxa que está descontando é de cerca de 350 euros, o que dará por ano 350x14=4.900 euros. O que faz pensar o que leva tantos comentadores a escandalizarem-se com a taxação dos depósitos de Chipre.
Possivelmente o facto de 40% dos depósitos (total dos depósitos em Chipre 68.000 milhões de euros – em Portugal 130.000 milhões; PIB de Chipre 18.000 milhões – em Portugal 165.000 milhões; mais uma vez, baixas taxas per capita em Portugal) serem superiores a 100.000 euros e serem provenientes de cidadãos russos, ingleses e holandeses que acharam que Chipre era um ótimo off-shore para pagar menos impostos. Na verdade, a maior parte do esforço iria recair nos depositantes estrangeiros, a uma taxa de 9,9% (embora esse esforço fosse aliviado à custa dos depositantes entre 20.000 e 100.000 euros).
Que culpa têm as pessoas de menores rendimentos, que nem sequer têm depósitos de 20.000 euros a render no banco, para sofrerem com esta crise?
Racionalização da proposta de taxação de depósitos – Existe  uma concordância interessante entre o escrevinhador e o comentador de economia no Dinheiro Vivo, aliás professor na universidade de Columbia, Ricardo Reis, sobre esta questão.
Digo interessante porque o ponto se vista deste economista é essencialmente liberal, o que não é propriamente o ponto de vista do escrevinhador.
Mas as coisas estarão acima de pontos de vista, quando é o interesse da comunidade que se pretende servir.
Diz Ricardo Reis que a taxação de depósitos bancários deverá seguir a regra da senioridade quando o banco abre falência (o nosso BPN parece que demonstrou que não havia dimensão em Portugal para tantos bancos e que falência por falência mais valia evitar a fastura de 8.000 milhões a pagar pelos contribuintes).
Quem primeiro deve ser pago, usando os ativos do banco falido, serão os depositantes com menos de 20.000 euros (o escrevinhador incluirá também aqui a garantia de emprego ou de subsidiação para os trabalhadores não decisores, mas será esta outra discussão) .
Depois, os depositantes com mais de 20.000 euros e menos de 100.000.
Depois os depositantes com mais de 100.000 euros e os investidores.
Finalmente, os acionistas, embora nessa altura pouco deverá restar.
Que diabo, estas coisas estão tratadas há muito tempo nos manuais universitários, porque cargas de água os senhores políticos, quer os decisores do destino do BPN (e dos ativos da SLN), quer os senhores de Bruxelas taxadores de depósitos ignoram os manuais?
Faz lembrar a distancia entre a universidade e a industria (no pressuposto de que em casos concretos o know-how existe nas universidades).
Que coisa.
Não seria melhor taxar os depósitos a prazo do que cortar em salários e em pensões? do que estar a castigar as pessoas de menores rendimentos?