segunda-feira, 8 de abril de 2013

Senhor ministro das Finanças, Vitor Gaspar


Senhor ministro das Finanças, professor doutor Vitor Gaspar

Certamente não lerá estas linhas, porque, tal como já escrito neste blogue, vozes de burro, como eu, não chegam ao céu dos escolhidos pelos eleitos, como o senhor ministro.
Para mais, como dizia o outro, dá-me a preguiça de parar depois de começar a escrever.
Eu diria que um dos objetivos principais dos eleitos, dos habitantes do céu que o senhor ministro habita, seria a aproximação do céu à terra, dos escolhidos pelos eleitos aos eleitores.
Se nos aproximássemos desse objetivo podia ser que o que vou escrever chegasse ao seu conhecimento… e talvez então não fosse preciso termos pessoas tão qualificadas como o senhor ministro em lugares tão decisivos como aquele que ocupa.
Pessoas normais, com o espírito de servidor público, fariam os orçamentos de acordo com as leis e o interesse publico, em debate franco e aberto com todas as sensibilidades de cidadãos e cidadãs.
Mas serão utopias.
Os poucos cuja paciência lêem este blogue sabem que desde o proncípio este blogue não acreditou na sua competência.
Pessoa que viveu nas paredes do seu gabinete do Banco de Portugal,  do núcleo dos investigadores do BCE e do grupo de consultores da Comissão Europeia muito provavelmente teria dificuldade em compreender a vida quotidiana de quem trabalha, ou de quem não pode trabalhar, em funções pouco cotadas entre os frequentadores desses gabinetes.
E das suas primeiras palavras depois de tomar posse só se convenceu este blogue de que vinha para iluminar o nosso caminho, e não aprender com quem tem de trabalhar para sobreviver.
Veio depois aquela informação de que tinha sido o senhor, então jovem economista fervilhando das ideia de Hayeck e Friedman, a fornecer os dados errados a Braga de Macedo para dizer aquela tirada antológica na história dos disparates dos ministros das finanças, que Portugal era um “oásis”.
A fé extrema e a insistência sucessva nas medidas de austeridade, partilhadas com o seu primeiro ministro, sem olhar ao efeito desmultiplicador no PIB com a subsequente recessão, a convicção de que cumpre uma missão tanto mais firme quanto mais contestada, que inclui uma mudança de regime político,  o hábito continuado, desde Braga de Macedo, de fazer orçamentos otimistas de rápida necessidade de retificativos, a reação típica de menino contrariado que faz ainda pior depois de ver reprovada a sua proposta, levou este blogue a um diagnóstico de hipomania que mereceria análise rigorosa, apoiada em especialistas de Psicologia, por parte de outros órgãos de soberania se as instituições funcionassem regularmente e entregasse a outros a espinhosa incumbência de reformular o orçamento de Estado.
No  momento em que escrevo, não parece que o Conselho de Estado se pronuncie sobre medidas alternativas ao orçamento que o senhor propôs e o seu primeiro ministro quer ver compensado com medidas provavelmente  mais gravosas do que as reprovadas pelo Tribunal Constitucional.
Também não me parece que algum orgão de soberania consiga fazer valer uma solução normal em democracia , como seja a de, após a verificação de que a politica de um governo está a falhar, e que continua a falahar aplicando a mesma receita ser chamado o partido mais votado para indicar um nme para substituir o primeiro ministro. E caso o partido mais votado não cumpra, ser chamado o segundo mais votado e por aí fora até haver um acordo mais ou menos geral. No nosso caso, como já dito neste blogue, agora que o senhor ex-ministro Relvas já saiu, bastava saírem o senhor primeiro ministro e o senhor ministro. Apesar de outros ministros serem perniciosos para o interesse público, como o senhor ministro da asfixia dos Estaleiros de Viana, mudar de governo assim de repente, tal como mudar de direção de uma empresa em período crítico, é prejudicial. Mas a saída do senhor ministro e do seu primeiro ministro é, do ponto de vista de gestão, uma necessidade para o aumento da competitividade e da eficiência da empresa Estado.

Senhor ministro: há 21 meses que tudo se faz como o governo quer, que até as greves de estivadores e dos transportes se esbatem, que são aplicadas as medidas restritivas e recessionárias que o governo quer, que são suspensas obras públicas só porque o governo quer, que se vendem bens públicos porque o governo de braço dado com os neoliberais de Bruxelas querem, que se asfixiam empresas com capacidade produtiva dos estaleiros de Viana do Castelo e se ameaçam as empresas de transportes com as consequências do falhanço do plano estratégico porque o governo não quer ou não sabe ver mais longe do que os consultores a que servilmente apela.
Mas senhor ministro, este blogue não quer ralhar consigo por querer e não querer o exposto.
Como disse, viver em gabinetes e crer firmemente na cartilha de Hayeck e Friedman de reduzir o “peso do Estado” torna muito difícil ver outras saídas.
Por exemplo, aumentar o PIB.
Se aumentasse o PIB, coeteris paribus, mantendo as outras coisas constantes, a percentagem que o senhor considera a máxima admissível para as despesas do Estado corresponderia a um valor absoluto maior, sem necessidade de cortar mais na Saúde, na Educação, na Segurança Social e nas empresas públicas, não era?
Então porque não aumenta o PIB?
Porque quer manter os custos baixos, como manda a cartilha neoliberal de Bruxelas através de um desemprego elevado, e porque tem dificuldade em aceitar a importância das obras, do trabalho na industria, na agricultura, no mar, em investimentos privados ou públicos.
Não, não estou a invocar a santa concorrência, também sou agnóstico neste campo, estou a invocar a necessidade de estudos caso a caso e da reindustrialização, coisa com que o seu colega da Economia concorda, apesar das dificuldades que lhe são próprias nesta área, considerando a sua qualidade de académico pouco experiente nas frentes de trabalho nas empresas (o senhor ministro está atento à próxima cimeira ibérica, está? ao que os investimentos em transportes com Espanha podem beneficiar o país?).
Mas enfim, vamos admitir que o  senhor ministro é o CFO da empresa Estado que já vendeu ativos, que já absorveu produtos tóxicos, que vê as suas receitas inferiores às suas despesas, e que já não sabe o que fazer depois da reprovação dos cortes pelo Tribunal Constitucional.
Já neste blogue se sugeriu a aceleração da taxa Tobin, em que o senhor prometeu um dias destes pensar, assim como o seu colega espanhol diz para o dia de San Jamás.
Já se sugeriu a aplicação de uma pequena taxa sobre as transações do Multibanco sem repercussão no cliente que já paga contribuições privadas para manutenção da conta, a retoma do uso do cheque ,  até a emissão de vales locais, ao estilo da experiencia de Worgl nos anos 30 da grande depressão na Áustria, o emendar de mão da suspensão de:

1 - o tunel do Marão
2 -  a fábrica de paineis solares fotovoltaicos de Abrantes
3 - o turismo do Alqueva
4 - a exploração das minas de ferro de Torre de Moncorvo
5 - a fábrica de baterias da Nissan em Aveiro
6 - motores e chapa para os asfalteiros venezuelanos
7 -  a fábrica de eólicas da Enercon em Viana do Castelo ,

a luta contra com os off-shores e o sigilo bancário (até o senhor Schauble concorda com a restrição do sigilo bancário), o estudo da história da economia portuguesa e das medidas que os seu antecesores souberam tomar sem castigar ainda mais a população.
Também sugeriu a negociação com a Comissão Europeia de um plano de investimentos em infraestruturas o  mais  próximo possível dos 100%, para anular o argumento do “não há dinheiro e ninguém nos empresta”, ainda que tivesse o governo de voltar atrás e retomasse o projeto das linhas de TGV para Madrid (sim, o projeto já previa serviço de mercadorias, e do lado de Espanha já se avanço; concentremo-nos em chegar de Lisboa e de Sines a Badajoz) e da terceira travessia do Tejo (para uma ligação ferroviária suburbana sem perturbar o tráfego de longa distancia; não é o traçado ideal, como também já se discutiu neste blogue, mas nem este nem ninguém é detentor da melhor solução, e tem a vantagem de estar pronto, o projeto) , mas académicos de gabinete têm dificuldade em aceitar argumentos como o de que 14 aviões de ida e volta a Madrid por dia são um desperdício de combustíveis fósseis quando comparados com uma ligação ferroviária de 3 horas (e contudo, é um problema ao nível da Física do 9ºano e, no que toca às alterações climáticas com origem na atividade humana, do domínio das Ciências da Natureza).
Sugeri também, em Julho de 2012, embora devesse ter dirigido a sugestão ao seu colega Álvaro:

1 - financie o metropolitano de Lisboa para fazer o projeto para o metro de Argel (estudando a extensão do trabalho ao metro de Luanda, Benfica-Cacuaco e Viana-Baixa)
2 - financie uma central solar de concentração de raios solares e sais fundidos no Alentejo
3 - financie uma linha de tensão contínua de muito alta tensão para a França e Alemanha (coisa parecida com a bibitola de Sines para a França-Alemanha).
Se quiser também fazer resorts para chineses, também pode. Quando vou a Macau gosto muito de falar com eles. São pessoas sérias (favor não passe pela cabeça dos empresários enganá-los)

Custa-me portanto ouvir senhores economistas e comentadores repisar a cassete de que ninguém propõe alternativas (o senhor ministro já deve ter ouvido falar no congresso das alternativas e na sua propsota de redução de 2% dos juros para obter 4 mil milhões de euros!!!, e na IAC, iniciativa cidadã para a auditoria das dívidas, para se saber bem onde atuar; considere também alguns manifestos que circulam com propostas concretas e até o think tank para o crescimento sustentado uma visão pós troika, de Moreira da Silva, tão perto de si).
Mas admitamos que um muro mais forte do que o de Berlim nos separa e impede que aquelas e as minhas sugestões encontrem recetividade da parte do senhor ministro ou, para usar um termo de engenharia de comunicações, que o senhor ministro não tem sensibilidade para receber a minha mensagem (ou a minha mensagem é ruído para os seus circuitos de receção).

Então eu tenho uma coisa para lhe propor.
É que, senhor ministro, o senhor ministro não sabe, mas o senhor ministro é meu inquilino.
Ou dizendo de outra maneira, eu sou seu senhorio, e atendendo à situação de debilidade económica e financeira em que o senhor se encontra como inquilino, vou fazer-lhe uma proposta contemporizadora.
Bom, se tem dúvidas se é ou não meu inquilino eu esclareço.
Acontece que há uns anos, meu irmão e eu temos por herança uma casa em Coimbra que tinha sido arrendada à Fazenda Nacional, que era como se chamavam as Finanças nos anos 60 do século passado.
O prédio tinha sido mandado construir pelo nosso avô, poucos anos depois da bancarrota de 1892 (talvez daí a minha sugestão de que o senhor ministro passe os olhos pela história económica portuguesa, porque a bancarrota de 1892 não paralisou a economia, aliás foi declarada exatamente para não paralisar a economia, como se pode ver pelos exemplos da construção da central termoelétrica do Tejo, do complexo industrial da CUF, da concessão da Carris, da aquisição do primeiro submarino português, o Espadarte…) e durante um tempo as Finanças de Coimbra lá funcionaram, num acordo tácito de rendas baixas  mas manutenção pelo inquilino.
Deu-se o caso que sem nenhum aviso as Finanças foram para um prédio novo e no nosso prédio apareceu instalada a direção regional das florestas do centro.
Não gostámos porque nos termos da lei era uma alteração aos fins do contrato.
Porém, um despacho do Tribunal da Relação de Coimbra, com informação de que não admitia recurso, informou que tudo era Estado, Fazenda Nacional ou Direção Regional de Florestas.
Por isso digo que, sendo tudo Estado, o senhor ministro, como representante do ministério das Finanças, Estado é, e meu inquilino também.

Esclarecido este ponto, vamos à minha oferta:
A renda continua barata: 220 euros por mês.
Se aplicarmos o critério de 15 rendas anuais, temos que o valor patrimonial seria (ver a lei do arrendamento da sua colega doutora Assunção Cristas) de 39.600 euros.
Mas não, a douta comissão que avaliou o prédio determinou o valor patrimonial de 278.800 euros.
O que, para 15 rendas anuais, daria para renda mensal o valor de 1548 euros.
Ora, eu compreendo que o senhor inquilino está com dificuldades em equilibrar o seu orçamento.
Perdoe-me a expressão “seu orçamento”, quando poderia invocar que é o orçamento de todos nós.
Será, mas o governo de que faz parte, senhor ministro, foi eleito por 29,7% dos eleitores inscritos (claro que tinha legitimidade para governar, que os outros ainda tiveram menos) numas eleições em que os votantes foram 58,5% dos eleitores inscritos.
E note ainda, senhor ministro, que o senhor presidente da República que avalizou a sua presença no governo depois da reprovação do seu orçamento pelo Tribunal Constitucional foi eleito por 23,2% de eleitores inscritos, numas eleições em que os votantes foram 46,6% dos eleitores inscritos.
Quando tão poucos querem resolver as questões de tantos, quando tão poucos se acham messianicamente incumbidos de uma missão redentora, algo deve mudar nas regras eleitorais, e não é no sentido do reforço de uma só sensibilidade que deve mudar, mas antes no sentido do alargamento da participação, da inclusão.

Mas voltemos às dificuldades do senhor enquanto inquilino.
1548 euros por mês é muito dinheiro e o senhor não pode pagar, por mais falta que me faça uma renda para ajudar a pagar o IMI (a propósito, estamos no fim do primeiro terço de abril e ainda não recebi o aviso de pagamento da AT, autoridade tributária).
Vamos então manter os 220 euros.
Admitamos que os gastos de manutenção que o senhor inquilino tem tido e que me competiriam são outro tanto.
Perdoo-lhe portanto 1548 – (2x 220) = 1108 euros por mês
Não precisa de me dar certificados de aforro em troca, nem bilhetes de tesouro.
Ficamos assim, até o PIB começar a crescer e a fazer reflorir o povo deste país.
Só ponho uma condição, sem o que serei rigoroso no cumprimento da lei das 15 rendas anuais.
Não toque com as suas mãos sem calos no SNS, na Educação dos meus netos, na Segurança Social de quem tem calos nas mãos e nas empresas públicas que prestam serviço público.
Agradecido.


PS em 10 de abril - Ai a reação de adolescente contrariado do senhor ministro a exigir visto nas autorizações de requisições de papel higiénico. Enquanto passa na internet a intervenção de Paulo Morais sobre as rendas excessivas das PPP (é verdade que há um coeficiente reduzido para aplicação de multas por aumento da sinistralidade na auto estrada, e um coeficiente elevado se for bonus por diminuição da sinistralidade?) mas que beneficiam as familias Mota, Melo e Espirito Santo, e os seus funcionários superiores ex ministros Ferreira do Amaral, Valente de Oliveira e Jorge Coelho, e a má disposição de alguns deputados da comissão parlamentar de inquérito às PPP contra Paulo Morais...
PS em 13 de abril - Manda o respeito pela verdade, depois do esclarecimento da Direção Geral do Orçamento, deixar registado que o senhor ministro das Finanças só precisa de autorizar as requisições de papel higiénico que não tivessem sido previstas anteriormente e devidamente inscritas no orçamento de cada ministério.


A ponte de Brisbane

Os senhores economistas renomados  e académicos expuseram com frontalidade as suas convicções.
Que a consolidação orçamental provoca recessão, mas que os estudos já realizados indicam que ela será mais suave se for pelo lado do corte das despesas.
E que o Estado não tem dinheiro para fazer investimentos.
Falavam para uma pequena plateia de técnicos e disseram qualquer coisa de muito parecido com o ser inconveniente deixar os critérios da engenharia conduzir os processos de investimento em infraestruturas. Que isso justificava a ineficiencia dos investimentos feitos anteriormente que ajudaram ao estado atual das finanças públicas.
Um dos técnicos que assistiam ainda argumentou que há poupanças que poderiam ajudar a financiar novos investimentos em infraestruturas.
Outro lembrou que existe o Horizonte 2020, sucessor do QREN, disponibilizando fundos europeus para cobrir 85% do investimento, que o restante financiamento também poderia ser negociado com a Comissão Europeia e que a grande dificuldade está na exigencia de projetos bem elaborados para ganhar a candidatura aos fundos, sendo muito pouco provável desenvolver projetos quando os decisores não têm uma visão abrangente que lhes permita definir estratégias.
Outro falou na ineficiencia energética do transporte rodoviário individual como justificação dos investimentos no modo ferroviário, para combater o desperdicio dos combustiveis fósseis que se queimam de forma supérflua e que ocupam 40% na fatura da importação de energia primária.
Mas os senhores economistas académicos não se comoveram.
Os seus manuais, o seu  "mantra", a sua "bíblia", mandam dizer que se deve cortar na despesa pública, congelar os investimentos, e deixar esta função para a parte privada.
Continuaram a achar que os engenheiros têm tendencia para ver as despesas como investimentos com retorno sobrevalorizando os benefícios.
É possível, tudo é possível neste mundo, até o impossível, ou quase.
Por isso me lembrei da teoria da armadilha da pobreza, que diz que na parte inferior da curva dos rendimentos, é inutil investir porque o investimento não gera retorno (estamos sempre caídos no mesmo, só aumentando o PIB se consegue sair duma recessão, e como o investimento privado se faz rogado...).
Mas os senhores economistas académicos não gostam de ouvir falar na armadilha da pobreza.
Eis porque me lembrei da ponte de Brisbane, na Austrália.

Ponte Douglas Story, em Brisbane

A construção da ponte foi decidida em pleno período de recessão dos anos 30 do século XX para resolver o problema da ligação do suburbio de Fortitude Valley ao centro financeiro de Brisbane e para dar trabalho aos cidadãos.
A construção decorreu de 1935  a 1940.
Foram utilizados 89% de recursos locais (esta é a parte que me pareceu escapar aos senhores economistas académicos: centrar o debate na utilização de recursos nacionais; como é recorrente escrever-se neste blogue, um país não é sustentável quando importa 75% dos seus alimentos e 75% da energia primária que consome).
Projeto de John Bradfield.
Tipo da ponte: consolas de treliças de aço.
Vão: 282 m
Comprimento: 777 m
Altura livre sobre a água: 30 m

E tambem me lembrei que nos anos 30 do século passado ainda a escola de Chicago de Hayeck e Friedman não tinha estruturado o seu pensamento que se disseminou como um vírus pelas instancias decisórias, de Reagan/Goldman Sachs e Thatcher aos gabinetes dos consultores da Comissão Europeia e do BCE.
Pontes de Brisbane, precisam-se, nalguma  Europa da segunda década do século XXI, na sequencia da depressão provocada pela especulação revelada nos anos 2007 e 2008.


Referencias:  "Bridges - 75 most spectacular" , Ian Penberthy, ed.Grange Books, 2008

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Contra a sinistralidade rodoviária, especialmente contra os atropelamentos


Em memória de António Moreira, entusiasta companheiro mais velho de trabalho que foi no metropolitano de Lisboa, morto por complicações surgidas na sequencia de um atropelamento


Por um lado, devemos estudar um problema sabendo que as suas variáveis principais não devem ser desligadas do contexto, isto é, não é possível estabelecer uma relação entre essas variáveis independente do ambiente exterior. Em linguagem simples, as coisas estão todas relacionadas, umas com as outras.
Por outro lado, podemos tentar isolar uma ou várias variáveis supondo as restantes constantes, isto é, podemos fazer uma abstração ou decompor o problema em estados simples para tentar uma abordagem. Em linguagem simples, temos de cortar o bolo ou a piza em fatias par ao poder comer.

Serve esta introdução para abordar a tragédia dos atropelamentos, nas passadeiras e fora delas.
Na madrugada da passagem do ano 2012 para 2013, um jovem foi atropelado mortalmente quando se encontrava no passeio, por uma condutora alcoolizada. Depois, houve o atropelamento mortal de uma mãe em passeio ciclista com  a família, de uma menina atropelada mortalmente à porta da sua escola numa passadeira, pouco tempo a seguir a outra menina ter morrido depois de se apear do autocarro. Em 8 de março, às 20:30, duas pessoas são atropeladas mortalmente numa passadeira da Avenida Recíproca, junto da gare do Oriente. Em 5 de Abril um jovem é atropelado no passeio, perto da sua escola secundária, em Faro.
As variáveis são muitas, de muitos tipos.
Tentemos alinhar algumas:

1 – falso direito à velocidade - a maioria dos condutores considera um direito conduzir a velocidades elevadas

2 fórmula da distancia de travagem - a maioria dos condutores, tal como a maioria dos portugueses, não faz os cálculos da distancia de travagem em função do quadrado da velocidade e da desaceleração de travagem, nem do espaço percorrido durante o tempo de reação do condutor, do peão, e dos mecanismos do próprio automóvel, nem da variação desses parâmetros com o pavimento molhado, com óleo, ou com areia

3 – espaço visível - a maioria dos condutores considera que o espaço livre visível à frente do automóvel de que fala o código da estrada para possibilitar uma travagem nunca pode ser inferior àquele que o condutor pensa que é, nem que pode bruscamente deixar de o ser    

4 – condições ambientais -a maioria dos condutores considera que as condições atmosféricas, poeira, areia ou lama pouco influem nas condições de aderência e nas caraterísticas de travagem do automóvel             

5 – efeitos mortais da velocidade -  a maioria dos condutores manifesta surpresa, muitas vezes sincera e entrando até em estado de choque, depois da ocorrência de um acidente por excesso de velocidade (considerando excessiva a velocidade que, atendendo às condições atmosféricas, de visibilidade e de aderência, não permite a travagem no espaço livre visível à frente do automóvel), ou perante a evidencia de que uma velocidade, como 45km/h, que consideravam baixa, tem consequencias mortais em caso de colisão, no local, ou mais tarde, no hospital, algumas vezes mais de 30 dias depois do acidente

6 – os perigos da ilusão da comodidade e dos equipamentos de segurança - as 5 condições anteriores podem ser uma manifestação de excesso de confiança dos condutores, ou a presunção de um direito, com a agravante da ilusão de constantes melhorias das condições de segurança e de comodidade dos automóveis

7 – necessidade de esforço para interpretar corretamente -  as 5 primeiras condições podem ainda revelar problemas de iliteracia matemática pela dificuldade em avaliar o risco da variação da distancia de travagem com o quadrado da velocidade, ou de português, pela dificuldade de interpretação de normas como a da aproximação das passadeiras de peões (o código da estrada diz que o condutor deverá abrandar à aproximação da passadeira, para o caso de algum peão ter iniciado a travessia, sem explicitar, como seria conveniente: o peão tem prioridade nas passadeiras)

8 – os perigos culturais - as 5 primeiras condições podem também ser consequência da cultura de competição e de valorização artificial de atividades como a condução em si e a rapidez da condução, como aliás se depreende dos aspetos mais valorizados nos anúncios de automóveis, ou de compensação de insegurança ou frustração própria através de afirmação como condutor de sucesso, situações agravadas no caso de condutores jovens, faixa etária de maior incidencia da mortalidade entre condutores

9 – os perigos psicológicos - as condições económicas e financeiras adversas da atualidade podem afetar a estabilidade psicológica dos condutores e o cumprimento dos procedimentos mínimos de manutenção do automóvel, comprometendo a segurança da circulação automóvel e pedonal.

Sabe-se que os técnicos da ANSR mantêm o registo cuidado da sinistralidade e das suas causas, e que fazem propostas de melhorias que chegam ao ministério da tutela.
Porém, precisamente porque o problema tem muitas variáveis e implicações, algumas de relativa complexidade técnica para cuja compreensão os decisores não estarão preparados, receia-se que não se intervenha em todas elas, perdendo-se assim eficácia.
Acresce que, por mais impressionantes que sejam os acidentes e as suas consequências, passado o impacto mediático são esquecidos e não são divulgados, se é que foram realizados os inquéritos, os respetivos resultados, as causas e as medidas para evitar a repetição (pedi de uma vez acesso a um relatório de um acidente mediático, tendo-me sido facultado apenas o relato cronológico da ocorrência).
Ora, a divulgação ampla das causas específicas de um acidente é uma condição fundamental para diminuir a probabilidade da sua recorrência.

Tentemos para cada uma das condições anteriores encontrar medidas ou áreas de intervenção para diminuir a sinistralidade, principalmente de peões:

1 – falso direito à velocidade - requer-se uma divulgação intensa de que a velocidade não é um direito. O que é um direito é a mobilidade, que como qualquer direito deve estar dependente de um código. E que o direito à mobilidade em segurança de uns prevalece sobre o desejo de velocidade de outros. O direito à mobilidade termina onde começa o direito do outro. Sendo diferentes as condições de peão e de automobilista, e considerando que a mortalidade dos peões (e ciclistas) sobe mais depressa do que a dos automobilistas, daí decorre naturalmente que as concessões do automobilista terão de ser maiores do que as do peão. O critério prioritário não deverá assim ser a rapidez, mas a segurança, sendo que os valores da velocidade e das distancias de segurança têm de ser calculados em função dos valores mais desfavoráveis dos tempos de reação (dependentes do estado de atenção do condutor -  propõe-se o valor de 2 segundos para o tempo de reação). Sugere-se fortemente a introdução no código da estrada da noção de que a fluidez de tráfego se pode e deve fazer a velocidade não excessiva; por outras palavras, a quantidade de pessoas que são transportadas por hora e sentido através da secção de uma via não depende da velocidade mas sim da distancia entre veículos; a velocidades mais elevadas a distancia entre veículos deverá ser maior (correspondente ao espaço percorrido em 2 segundos), pelo que a quantidade de veículos por sentido, por secção e por hora é constante (caso contrário, se aumentando a velocidade se reduz o intervalo temporal entre veículos estaremos a reduzir a segurança da circulação). Alerta-se para que um veículo deverá guardar uma distancia de segurança para o veículo precedente porque não tem visibilidade sobre a estrada à frente desse veículo, no qual poderá estar um obstáculo, situação particularmente grave no caso de ultrapassagens precipitadas.
Igualmente a distancia de visibilidade a garantir para proteção de um ponto de colisão eventual, como por exemplo uma passadeira de peões, deverá corresponder ao espaço percorrido em 2 segundos.
Propõe-se assim a implementação de zonas de limitação de velocidade em função das caraterísticas urbanísticas, e a limitação a 30 km/h da velocidade de atravessamento das passadeiras pelos veículos automóveis, quer se verifique ou não a presença de peões.

2 – fórmula da distancia de travagem – considerando a aversão à matemática de grande parte da população, sugerem-se campanhas na televisão explicando a fórmula de cálculo da distancia de travagem, função do quadrado da velocidade, exemplificando que a distancia necessária para travar a 40 km/h é 4 vezes maior do que a distancia de travagem a 20 km/h. Deverá ser explicada a influencia de condições de aderência adversas e da possibilidade de piores carateristicas de travagem de um dado veículo. Igualmente deve ser explicada nessas campanhas a influencia do tempo de reação do condutor e do equipamento do automóvel; neste caso, a distancia percorrida enquanto o condutor ou o equipamento não reagem é proporcional à velocidade (o espaço percorrido a 40 km/h é o dobro do espaço percorrido a 20 km/h)

3 – espaço visível – a perceção que os condutores têm do espaço visível  à frente para a travagem até um obstáculo pode ser enganadora, isto é, o espaço visível pode ser inferior ao que o condutor pensa porque as condições de aderencia podem ser piores do que as pensadas ou porque um obstáculo pode não estar visível em condições normais mas não ser percecionado pelo condutor. Por outras palavras, será importante, nas referidas campanhas de sensibilização para  a segurança da condução, explicar a vantagem de cada condutor contar com uma margem de segurança para circunstancias imprevisíveis (por exemplo: um peão pode ser ocultado por outro veículo numa passadeira de peões, situação particularmente perigosa nas passadeiras junto de paragens de autocarro)

4 – condições ambientais – a ocorrência de chuva ou a presença de lama, óleo ou areia no pavimento agravam significativamente as condições de aderencia dos pneus e aumentam a distancia de travagem e os riscos de bloqueio das rodas (provocando derrapagens ou deslizamento do veículo) e de patinhagem (rodas a rodarem em vazio sobre si próprias, podendo por esforço diferencial provocar despistes). Sugere-se nas campanhas de sensibilização combater o excesso de confiança dos condutores e sublinhar que os níveis de velocidade excessiva baixam consideravelmente com o agravamento das condições ambientais. Igualmente deverão ser consignadas no código da estrada as alterações para restringir a velocidade nestas condições e o Instituto das Estradas promover sinalização rigorosa nos troços mais sujeitos a estes riscos.

5 – efeitos mortais da velocidade – Sugere-se a divulgação ampla na televisão dos resultados de estudos e análise de casos que correlacionam a velocidade a que ocorrem os atropelamentos com o número de mortes provocadas. Dados estatisticos permitem estabelecer a seguinte correlação entre a velocidade de atropelamento e a mortalidade em percentagem de atropelados, a qual deveria ser amplamente divulgada:
                 60 km/h – 90%
                 50 km/h – 60%
                 40 km/h – 25%
                 30 km/h – 10%
                 20 km/h -   5%
Neste campo, ver
Isso justificará perante a opinião pública a imposição de zonas de limitação de velocidade. Convirá também que se chame a atenção da população para que o risco de mortalidade, para um atropelamento a uma mesma velocidade, aumenta com o peso do veículo. Sugere-se portanto uma penalização fiscal para veículos de maior altura (reduzem a visibilidade) e peso relativamente aos automóveis médios.

6 – os perigos da ilusão da comodidade e dos equipamentos de segurança – a comodidade dos automóveis atuais pode ser perigosa pela similitude com a operação de computadores. Este é um tema que o IMT poderia considerar na altura da homologação de novos modelos e justificará uma penalização fiscal.  Além disso, a auto estima do condutor pode levá-lo a ignorar os perigos do agravamento de condições atmosféricas e ambientais como a presença de chuva forte ou nevoeiro (reduzindo a quase zero a distancia de visibilidade e impondo redução decisiva da velocidade) ou lama, areia ou óleo no pavimento (reduzindo as condições de aderência). Sugere-se fortemente nas campanhas de sensibilização a divulgação de que a proteção automática de dispositivos como o ABS (automatic braking system) ou o ESC (eletronic stability control) pode ser ilusória e contra producente em condições ambientais agravadas. Isto é, os sensores podem induzir comandos errados dos automatismos como acelerações indevidas, pelo que a regra deverá ser sempre conduzir com uma margem de segurança impondo, obviamente, um comportamento e uma velocidade contidos ao automobilista do veiculo atrás. Este aspeto deverá ser considerado na fase de homologação de novos modelos.

7 – necessidade de esforço para interpretar corretamente – Sugere-se reforço da política de exigência nos exames teóricos para concessão da carta de condução e frequência obrigatória de ações de reciclagem dos condutores apanhados sem carta, envolvidos em acidentes ou que tenham atingido um determinado número de pontos por infrações

8 – os perigos  culturais – a cultura da competição, a cultura da promoção do estatuto social através da qualidade do automóvel ou da auto estima através da publicidade que realça as qualidades de bom condutor do proprietário, a cultura de que conduzir depressa é sinónimo de bom condutor, a cultura de promoção da dependência do automóvel, quando uma sociedade evoluída privilegia os modo suaves de deslocação e o transporte coletivo, são perigos graves para o condutor e para os seus companheiros de estrada e ainda mais para os peões, dada a imprevisibilidade de situações de risco com consequências fatais. Sugere-se portanto a penalização fiscal da publicidade com aquelas sugestões e a sua crítica pelos meios de comunicação social. Igualmente se propõem campanhas oficiais na televisão de sensibilização para comportamentos responsáveis na condução. A cultura de prevenção de acidentes, nomeadamente atropelamentos, e da moderação da velocidade, será melhorada com a referida realização sistemática de inquéritos e a disseminação pública dos seus resultados e propostas

9 – os perigos psicológicos – trata-se de uma problemática mais vasta a nível do país para cuja solução, dadas as condições financeiras atuais apenas se poderá contar com fundos europeus ao abrigo de campanhas comunitárias para redução da sinistralidade rodoviária, Propõe-se pelo menos o dispêndio de verbas para manutenção de uma equipa de contacto com os organismos europeus respetivos e para preparação das medidas a implementar, quer na sensibilização contra a condução em condições psicológicas deficentes (cansaço, preocupação ou drogas), quer simplificando os procedimentos e controlando os custos de manutenção dos veículos (na perspetiva de que a fisclaização deverá ajudar a atividade económica e não se concentrar na repressão). Igualmente se propõe a colaboração dos meios de comunicação social do debate público desta problemática.




Considerando que a prioridade deve ser a constante implementação de medidas de melhoria da segurança de peões e automobilistas, por mais que os indicadores de segurança melhorem, apela-se:
a) à alteração do Código da Estrada para melhor compreensão e eficácia da prevenção dos atropelamentos,
b) à disseminação sistemática através de campanhas de prevenção na televisão,
c) à criação de zonas de velocidade limitada, especialmente nas aglomerações populacionais, e
d) à disseminação pública dos resultados dos inquéritos tipificados.



Ver neste blogue:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2013/03/risco-de-atropelamentos-nas-passadeiras.html

Que se passa com o relatório do acidente de Alfarelos?

Passados mais de dois meses sobre o acidente de Alfarelos,
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2013/01/declaracao-de-interesses-o-comentario.html

mantem-se o secretismo sobre o trabalho da comissão de inquérito. Em comunicado conjunto do IMT, CP e REFER de 3 de março de 2013, afirmava-se que ela estava a trabalhar no apuramento das causas e que a segurança estava garantida (com as restrições de velocidade no local).
Consta, mas sem confirmação, que já existe um relatório final.
Esta atuação mais uma vez o digo, é o oposto do que se faz no estrangeiro, em que as informações vão sendo dadas à medida que o trabalho de investigação avança.
Penso que será importante esclarecer a opinião pública com respostas concretas às seguintes questões e as propostas concretas de correção se necessárias:
1 - é necessário alterar o regulamento, nomeadamente quanto a velocidades e pontos quilométricos até aos quais pode ser autorizada a marcha?
2 - é necessário alterar o critério de implantação de sinais?
3 - A Siemens enquanto fornecedora do software de controle de tração e travagem SIBAS pronunciou-se?
4 - A Bombardier enquanto fornecedora do sistema CONVEL pronunciou-se?
5 - confirmou-se se o SIBAS ou o CONVEL podem ser "enganados" pelos taquimetros por bloqueio das rodas ou patinhagem (deslocalização)?
6 - a unidade tripla rebocada (as 3 ultimas carruagens) do comboio regional seguia com os freios ativos?
7 - considerando o deslizamento de ambas as composições, analisaram-se as propriedades de liquido eventualmente produzido a partir das folhas da vegetação adjacente?
8 - considerando o deslizamento da locomotiva do Intercidades, as carruagens deste tinham os freios ativos?

Recorda-se ainda a conveniencia de apresentar conclusões e recomendações sobre a colisão de Caxias de 2012, e os desvios de via nos recentes acidentes com os aparelhos de mudança de via de Caxias e Algés.



António Vieira e o novo acordo ortográfico

Mais um episódio da tormentosa novela do acordo ortográfico de 1990.
Foi editada a obra integral de António Vieira, sermões e cartas, segundo o novo acordo.
Os opositores ao novo acordo marcaram uma manifestação de protesto na sessão de apresentação da obra (a obra completa serão 30 volumes e resulta de uma cooperação de universidades portuguesas e brasileiras).
Toda esta questão é interessantissima, por mostrar a paixão com que os portugueses se entregam a discussões bizantinas e se baseiam em pormenores acessórios, e não me parece bizantinice tentar investigar por que as pessoas gostam de discussões bizantinas.
Há dias, tive a ousadia, por não ter gostado de que o grande poeta Vasco Graça Moura me tivesse chamado pantomineiro em artigo no DN (fê-lo de forma indireta e generalista, claro) de tentar analisar por que nesta discussão as pessoas se ofendem:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2013/01/a-tormentosa-novela-do-acordo.html

E de facto, basta consultar os blogues em que se discute o acordo para ver a facilidade com que os opositores se ofendem e o barulho que se faz por questões que me parecem menores mas que a outros parecem essenciais e indispensáveis à identidade nacional.
Que ficamos sem saber se "para" é do verbo parar ou se é a preposição. De facto é uma armadilha para quem está a ler, ter de olhar ao contexto, mas isso já acontecia com "conserto" (verbo consertar) e "conserto" (arranjo), "sede" (de água) e sede (de uma firma), gelo (verbo gelar) e gelo (água congelada). O dicionário Houaiss sugere, em caso de dúvida, que o autor escreva entre parenteses (á) no caso do verbo parar. Outra hipótese seria escrever "ah" ou, já que os opositores ao novo acordo chamam ignorantes a quem concorda com ele, "aa", para recordar como se escrevia e falava na idade média portuguesa (vêde como são abertas as vogais no norte do país). Na verdade, parece-me boa ideia eliminar os acentos que sempre complicam os teclados, mas o novo acordo não é tão radical que o faça na totalidade. Mas é apenas uma opinião, não a quero impor nem desconsiderar quem não concorde com ela.
A mim, em caixas de comentários, chamaram-me cabeça de alho chocho, e que Camões devia voltar para me trespassar com a sua espada (que dirá agora este ilustre e bem educado cidadão de quem pôs Vieira a escrever segundo o novo acordo?).

Vamos ver como evolui esta novela, na esperança de que a capacidade de entendimento entre os portugueses melhore, e que não se ofendam tanto uns aos outros.


quinta-feira, 4 de abril de 2013

o naufrágio de Sepulveda e o de Vitor Gaspar


O naufragio de Sepúlveda em versão condensada e comparativa, dedicado ao senhor ministro das finanças Vítor Gaspar, que gosta de citar a história trágico marítima para realçar que uma parte dos portugueses há-de sobreviver à crise:

Sepúlveda terminou a sua comissão na Índia e obteve o comando de um galeão para regresso a Portugal, com a mulher e filhos
Gaspar terminou a sua comissão nos gabinetes de paredes bem isoladas da realidade exterior das finanças europeias e obteve o ministério das finanças do governo de Portugal

O galeão carregou em vários portos, para alem da sua capacidade náutica, pimenta, sedas, louça chinesa e pedras preciosas
Gaspar, com voz pausada, explicou aos portugueses que teriam de produzir mais com o equipamento de que dispõem
Corria o mês de Fevereiro de 1552 quando a viagem se iniciou, com 200 tripulantes, 200 fidalgos e soldados, e 300 escravos
Gaspar explicou ainda que a força de trabalho mal remunerada é essencial para conter a subida dos preços e para chegar ao equilíbrio orçamental das contas públicas
Atravessado o Indico, ao fim de pouco mais de 2 meses de navegação, chegaram à costa de Moçambique, levantando-se um temporal que rasgou as velas e danificou o leme
Graças ao apoio e à orientação do ministro das finanças alemão, atingiu-se sem novidade o nível de juros no mercado financeiro que Gaspar desejava
Depois de alguns dias de navegação tormentosa em que não se conseguiu reparar o leme, nem os mastros quebrados, nem as entradas de água, tentou-se ancorar junto à costa de Sofala
Porém, a descida do PIB e a subida tormentosa do desemprego lançaram o caos na estrutura do governo
Depois do transporte para a praia, nos bateis, de parte dos viajantes e da mercadoria, o agravamento do mar levou o galeão a embater numa rocha e a afundar-se, perdendo-se grande número de pessoas e a maior parte da mercadoria
Apesar de medidas bem intencionadas de alguns ministros, no entanto mal conduzidas as mais das vezes, como no caso dos ministérios da economia e da agricultura, foi-se perdendo a capacidade produtiva na agricultura e na industria
Os sobreviventes na praia eram cerca de 500, dos quais 180 portugueses
Os sobreviventes da sangria do desemprego e das insolvências bateram-se valentemente
Sepúlveda resolveu com o conselho de oficiais subir a costa a pé na esperança de atingir a base de Sofala
Gaspar traçou uma estratégia de austeridade cheia de perigos e muito exposta aos ataques dos especuladores
Atravessando regiões áridas e atacados pelos habitantes, o grupo foi sendo dizimado ao longo de 900 km
Em consequência, o PIB continuou a descer e a divida e o desemprego a subir
Os sobreviventes, 8 portugueses, 14 escravos e 3 escravas, seriam recolhidos por um navio português que os levou para a base de Moçambique Norte onde chegaram em maio de 1553
Apesar de tudo, parte da população portuguesa conseguiu manter uma atividade produtiva de bens e serviços transacionáveis e garantir parte dos rendimentos
Sepúlveda foi o capitão de um dos mais trágicos episódios da história trágico maritima portuguesa
Gaspar foi o ministro das finanças de uma das estratégias da história portuguesa mais desadequadas à retoma económica


PS em 5 de abril de 2013 - conhecido o episódio menos trágico da demissão de Miguel Relvas, reproduzo o quadro enviado pelo partido socialista à troika, com os resultados do trabalho do senhor ministro das finanças Vitor Gaspar e da sua equipa. Independentemente do desconhecimento da realidade portuguesa e da ignorancia da elevada probabilidade de desastrosa evolução dos indicadores, revelados pela troika, regista-se a má prestação do senhor ministro, confirmando o diagnóstico negativo feito neste blogue desde o principio. De ressaltar a queda do PIB e o aumento do desemprego (neste caso um fim em si mesmo da estratégia da troika e do governo para comprimir os salários) :



   Memorando
    maio   2011
    7ª avaliação
    março 2013
       Defice

2012
       4,5%
         6,4%
2013
       3,0%
         5,5%
       Variação PIB
2012
      -1,8%
        -3,2%
2013
      +1,2%
        -2,3%
       Divida publica
2012
    107,4%
     123,6%
2013
    108,6%
     122,4%
       Desemprego
2012
      12,9%
       15,7%
2013
      12,4%
       18,2%








quarta-feira, 3 de abril de 2013

Alberto Pimenta e a revolução francesa


A história da Revolução Francesa contada em Poesia, por Alberto Pimenta:




o rei Henrique IV
de França
mandou eliminar
para todo o sempre
o registo
das sangrentas lutas religiosas
entre católicos e protestantes

quase duzentos anos depois
em 1789
havia em Paris
para cima de 7.000
fabricantes de perucas
para a cabeça do alto clero e
da aristocracia
da e do capital

40 anos antes
sem tufados nem perucas
o Estado tinha pedido
um empréstimo de
240 milhões de libras
que no ano em causa
eram já 810 milhões

nos 12 anos de miséria geral
que tinham antecedido
o dito ano
a coroa tinha pago
a essas princesas e a esses príncipes
empoados e emproados
para cima de 200 milhões de libras

o empréstimo
gastava-se aí
e claro na defesa
porque
dum orçamento de defesa
de 270 milhões
metade
mal chegava para as pensões
de um milhar de generais
e oficiais da aristocracia

os lavradores
mecânicos e artesãos
pagavam de imposto
mais de meio salário
e não havia fuga
e acrescia um terço do restante
que era em partes iguais
para a Igreja e
para o dono da terra

viviam em pardieiros
que fazianm jus ao nome
pardos fora e pardos dentro
porque o luxo da janela
pagava imposto
e além doutros
havia ainda mais um assalto
o imposto sobre o sal
por cada quilo de sal
o trabalhador
pagava o equivalente
ao seu salário médio diário
e o consumo era obrigatório
no mínimo uns 4 quilos anuais

era um iva
parcial antecipado
sobre a vida
é a estratégia da mente parasita
eterna mente
sempre o mesmo
sempre os mesmos

e eram 200.000
os cobradores de impostos
que corriam o país
a recolher e multar
e um dos principais
era o temido Foulon

no mesmo ano de 1789
o abade Sieyès
escreveu “é o povo
que constrói as estradas
as pontes os canais os tribunais
as creches os manicómios
as escolas de esgrima e
de equitação”

pois constrói é claro
com as mãos
e com os impostos que paga
e vive
nas proximidades
dos castelos
e das abadias
que construiu
e que hoje
turistas de shorts
rotos na elegância do cu
e óculos ray-ban
postos para cima da testa estreita
mascando pastilhas
contemplam como bois
enquanto ouvem aos guias declarar

que maravilha
era a vida naquela época
comparada com a nossa

os camponeses
e os pedreiros de ofício
não os intitulados livres
os parasitas bem falantes
da época e de sempre
pensaram

nós até aqui sobrevivemos
daqui em diante vamos viver
e assim foi
ou pelo menos
assim começou por ser

Foulon o cobrador
anunciou a sua  morte
e o seu funeral
travestiu-se
encheu as malas de dinheiro
preparava-se
para fugir
decerto para a Suíça
mas foi apanhado

enforcaram-no
teve de ser à terceira
porque ele era tão gordo
que a corda rebentou
duas vezes

cortaram-lhe a cabeça
encheram-lhe a boca
de palha

e seguiu-se Berthier
o genro
tudo família como sempre

esse depois de morto
foi posto
a enfeitar
um lampião
um belo ciclope

“admirável
este lampião
faz mais em dois dias
que todos os heróis
em cem anos”
disse Camille Desmoulins
percebe-se agora
por que estão a ser retirados
de praças e ruas
de toda a Europa
os antigos lampiões
que eram bonitos
davam aquela luz suave
do vapor de sódio

estão a ser substituídos
por leds rios de luz cega
que vêm do alto das paredes
olhos de pedra
como a Boca da Verdade de Veneza

quer dizer
a gota de água
deve estar quase outra vez
a transbordar
os saqueadores do costume
tal como Maria Antonieta
estão a cheirá-la
bola de Berlim
brioche churro
pastel de nata
um docinho qualquer
a substituir
o pão
porque alem do mais
as colheitas de trigo
dos próximos dois anos
já estão compradas
e açambarcadas

há uma gravura que mostra
o grande Luís XVI reclinado
numa poltrona
a observar o modelo em  miniatura
da guilhotina
a primeira sentença
calhou
no dia 25 de Abril de 1792

vai fazer
não tarda muito para lá chegar
222 anos
número fatídico

mas a história
é uma série de interrogações
não de respostas

                                em
                               “ De nada”, de Alberto Pimenta, áudio livro da editora Boca;
                               visto em
                              “Resumo – a poesia de 2012”, antologia de poesia    
                                                       publicada em 2012, ed. Documenta



Se o leitor teve a persistência de chegar até aqui, com elevado grau de probabilidade concordará comigo que é extraordinário escrever-se poesia assim, interventiva e real, incomodativa para o poder que se sente deste modo retratado, porque o poder não é estúpido e compreende que os impostos que lançou são exagerados e fazem encolher a economia, que os empréstimos do Estado estão ao serviço dos grandes grupos , que a compra por futuros das colheitas de trigo dos próximos anos é uma ameaça de fome, etc, etc..
Levantar-se-ão talvez vozes, receosas de que se esteja propagandeando a função executiva dos candeeiros (é que até já há iluminação led de cores suaves, tão quente como a do vapor de sódio; que perigo para quem sente ameaças). Mas talvez não. O poder é suficientemente inteligente para limitar a miséria em bolsas, enquanto faz os possíveis por que a outra parte da população, que ainda tem emprego, se distraia, ou se comova em caridades para com a outra parte. Talvez que a gota de água não esteja prestes a transbordar, que a tecnologia é fecunda em recursos, que os poucos que têm emprego mantém a parca economia a funcionar.
Mas que a poesia é preclara, é; isto assim não pode continuar.



terça-feira, 2 de abril de 2013

Adília Lopes, de José Tolentino de Mendonça

Chamo-me Adília Lopes
sou a casa inseto
a mulher osga
uma colher transformada em faca
para minusculos riscos
sou uma constante cosmológica
de acelerar galáxias 
um telegrama sinfónico
na ausencia de tudo

sou a verdade que prefere não sair
do bairro


Poema de José Tolentino de Mendonça,  em "Estação Central", ed.Assírio e Alvim, visto em "Resumo - a Poesia em 2012" ed.Sistema Solar, CRL (Documenta)

Chamou-me a atenção no poema o último verso, a verdade que prefere não sair do bairro.
É como a democracia, podiamos fazer uma revolução e triunfar no nosso bairro.
Mas poderiamos chamar a isso voluntarismo adolescente.
Podemos também calmamente ir tentando disseminar a ideia do debate e da organização das ideias e das propostas concretas.
Digo calmamente porque pensar é essencial, embora a psicologia com base experimental diga que por vezes é melhor seguir a intuição.

Referencia ao livro "Resumo - a poesia em 2012": trata-se de uma antologia de poesia publicada em 2012, comemorativa dos 15 anos da FNAC. O produto da venda destina-se a apoiar a AMI. É um livro encadernado e a contenção de custos da sua produção (preço de venda 4 euros) deve-se também à editora ser uma cooperativa (CRL). Está em segundo lugar nas vendas da FNAC.

Noticias Magazine – a via sacra dos portugueses

ministério da Finanças, sem abrigo



Não encontro na internet a reportagem nem o seu resumo, pelo que vou resumi-la adiante.
Apenas as fotografias que vejo no facebook do Noticias Magazine, a revista dominical do DN e JN:

A reportagem é um trabalho jornalístico do mais alto nível pela sua ligação à realidade e por abarcar vários dos seus aspetos.
Mereceria a publicação em separado.
Estabelece um paralelismo entre as 14 estações da via sacra da tradição cristã e 14 situações dolorosas ou indignas de parte da sociedade portuguesa.
Infelizmente a situação atual de parte significativa da população portuguesa e a aparente incompreensão dos governantes pela problemática associada justifica este tipo de reportagem.
A reportagem sobressai pelo contraste positivo numa revista recheada de anúncios a automóveis, relógios e perfumes caros (eu sei, como dizia Grandela nos anos 20 do século passado, que o comércio de artigos de luxo dá emprego a muita gente) e que privilegia histórias de sucesso, por vezes estereotipadas, fúteis, estouvadas e frívolas.
Tal como na estética neo realista do pós guerra, o tratamento de situações trágicas deixa de ser um exagero para ser uma tomada de consciência pela outra parte da população, que felizmente não sofre as consequências da crise e da resposta que os governantes estão a dar.
Não são apresentadas soluções, que infelizmente são cada vez mais difíceis de apresentar dado  o agravamento da complexidade das questões, mas a divulgação da realidade e a tomada de consciência destas situações já é um passo, pequeno mas efetivo, para a resolução.
1ª estação – Jesus é condenado à morte – a loja Anzolmar de artigos de pesca, em Belém, vai fechar, juntando-se às 12 lojas vizinhas da Rua da Junqueira que já fecharam. Incomportável a nova máquina registadora exigida pela autoridade tributária.”Não sobra quase nada das lojas… a exigência da nova máquina foi apenas mais um prego para o caixão…vou fechar e entregar a chave à senhoria…se me custa? Não, já custou o que tinha a custar…acabou-se”. Disse o lojista à senhora reporter
2ªestação – Jesus carrega a cruz às costas – o filho de 3 anos tem paralisia cerebral de grau 5 devido a um parto anormal e exige atenção constante, com uma vida quase vegetativa. Os pais são heróicos, conseguem trabalhar  e não querem ser subsidiodependentes. Vale o apoio da Associação de Paralisia Cerebral de Lisboa, Odivelas. Segurança Social devia ser também para estes casos, sendo certo que não se pretende que os pais fiquem em casa porque a  natureza humana requer uma atividade profissional; mas o país é pobre, pelo menos parte do país. Haverá correlação entre o parto mal realizado e o ambiente cada vez mais restritivo vivido nos últimos anos na Maternidade Alfredo da Costa? E entre os condicionalismos morais e religiosos e a criminalização de uma eutanásia piedosa no momento do parto?
3ªestação – Jesus cai pela primeira vez – é licenciada em História moderna e contemporânea e é operadora de caixa e chefe de caixas no Pingo Doce. Ordenado base 500 euros (não estou a criticar o Pingo Doce por este ordenado; as criticas que faço ao Pingo Doce, tal como se pode ver noutros locais deste blogue, são a outro nível). Não deram em nada as candidaturas a concursos em muitas camaras municipais. Acabou por gostar do que faz. Mas não tem ainda 30 anos e, por razões económicas,  não pode constituir família. Seria tão bom que os governantes compreendessem que as economias que fazem contendo os salários são menores do que o prejuízo de se cortar a liberdade  a quem quer constituir família? E para  a sociedade essas economias são menores do que os prejuízos da diminuição constante da natalidade? Não querem ver isso, é?
4ªestação – Jesus encontra a sua mãe – São uma família com duas crianças de menos de 2 anos. Iniciaram obras de remodelação na sua  moradia térrea e o crédito bancário falhou. Realojaram-se em casa dos sogros do pai de família, que sorteou a moradia para pagar as dívidas. É discutível, a opinião seguinte, mas parece-me que o grande problema da habitação em Portugal é a dificuldade de acesso a obras ou arrendamento e seu financiamento a custo controlado e garantido, através de gabinetes oficiais das autarquias, organizados para ajudar e não para exigir.
5ªestação – Simão de Cirene ajuda Jesus – é a história de um homem, administrativo numa escola pública nas Caldas da Rainha, que se dedica a promover a recolha e a distribuir alimentação e agasalhos a sem abrigo da cidade. É impressionante a sua solidariedade e a das pessoas que o ajudam, mas recordo sempre a afirmação duma manifestante: “se houvesse justiça social não era preciso caridade”. Sendo certo que já Adam Smith falava da necessidade de redistribuição social.
6ªestação – Verónica limpa o rosto de Jesus – Graças à junta de freguesia de Alcântara, o balneário público  de Alcântara funciona, e os seus dois funcionários ajudam a recuperar alguma dignidade a quem não tem onde tomar banho.
7ªestação – Jesus cai pela segunda vez – o Brevet OP da Oficina de Psicologia na rua Pinheiro Chagas, em Lisboa, desenvolve uma terapia para desempregados trabalhando , em sessões ao  longo de 4 meses, “a desmotivação, a desesperança e a desorganização” de desempregados. De facto, a necessidade de trabalhar faz parte da natureza humana, e estar desempregado reduz a auto estima e aumenta a depressão. Claro que os governantes deveriam querer compreender isto, até porque são cláusulas da Declaração universal dos direitos humanos e da Constituição; deveriam estimular o tratamento do desemprego em termos de psicologia e, especialmente, atuar preventivamente criando emprego (o artigo 58º até fala em pleno emprego).
8ªestação – Jesus encontra as mulheres de Jerusalém – é o testemunho de três grávidas sem emprego, com formação universitária. Já trabalharam no estrangeiro, já tiveram empregos em Portugal mais ou menos certos. Agora estão no desemprego. Uma sociedade que trata assim as grávidas soma problemas aos problemas que já tem.
9ªestação – Jesus cai pela terceira vez – é a história do dono de uma fábrica têxtil que fechou por falta de trabalho em março de 2012. Deixou em Portugal  a família, mulher e dois filhos. Trabalha no bar de um grande restaurante em Hamburgo. “Tenho medo se a minha família vier ter comigo porque a minha filha é adolescente e o corte pode não ser bom. Mas que futuro podem os meus filhos ter em Portugal? Como posso pensar em voltar se não há lá nada para mim?” . Dir-se á que as economias dos cortes no apoio às famílias portuguesas emigrantes, nomeadamente na parte escolar, são menores do que são os prejuízos que resultam dos cortes.
10ªestação – Jesus é despojado das suas vestes – é a história do estímulo do crédito fácil e do endividamento familiar para alem do suportável e do garantido. Foi contraído um crédito há 4 anos para a compra de um apartamento na Moita com mais uma divisão do que a casa em que viviam. O casal com dois filhos trabalhava na mesma empresa. Não conseguiram vender a casa antiga e foram ambos despedidos num processo de redução de pessoal. A casa nova foi entregue ao banco. “No inicio custou-me muito, mas agora já não doi. Quero recomeçar, arranjar um emprego para pagar as dívidas e dormir descansado”.
Será que, se somarmos as economias conseguidas por todas as empresas que reduzem pessoal obteremos um número sequer igual à soma dos prejuízos a que as reduções dão origem, desde os encargos com os subsídios de desemprego à queda da produção e pioria de qualidade de serviço ou do produto, por falta de pessoal?
11ªestação – Jesus é pregado na cruz – quando se fala em reformas elevadas superiores à expetativa dos descontos, normalmente obtidas em meio bancários ou em atividades ligadas ao poder político ou ao poder judicial, deve-se também falar nas carências da assistência social a quem trabalhou por conta de outrem durante toda a sua via e por uma razão ou outra têm reformas baixas. A situação agrava-se na fase terminal. O casal de antigos mordomo (84 anos) e empregada doméstica (83 anos ) duma casa rica do Estoril, vive agora com um neto num apartamento do bairro social do Rego, num prédio municipal degradado. As duas reformas somam menos do que 500 euros. O neto, de vez em quando, ganha a recibos verdes, “com computadores”, diz o antigo mordomo porque a senhora sofre de Alzheimer. “A neta dos nossos patrões ajuda-nos muito. Tomara que  morrêssemos os dois no mesmo dia”.  Não quero responsabilizar o atual governo pela falta de uma politica de velhice em Portugal, mas há muito a fazer neste campo, e nem tudo exige muito dinheiro.
12ªestação – Jesus morre na cruz – Porto, bairro da Boavista. Um grupo de voluntários distribui, à noite, comida quente e agasalhos. O fotógrafo captou a imagem de Leninha, 19 anos, que chama”mamã” a uma das voluntárias. “Com a crise, a Segurança Social deixou de pagar as casas de hóspedes que albergavam os sem abrigo. Cada vez há mais”. Existe uma correlação forte entre desemprego e sem abrigo, entre falta de assistencia social e psicológica e degradação de condições de vida. Por isso deveriam ser limitadas as politicas que estimulam o desemprego. Embora essas politicas se fundamentem na correlação forte entre desemprego e contenção de preços. Se isto é contenção de preços, então não deveríamos querer contenção de preços.
13ªestação – Jesus morto nos braços de sua mãe – Tem 60 anos, é enfermeira da Santa Casa da Misericórdia e acompanha funerais de solitários. Também aqui não podemos responsabilizar a crise atual, mas verificar a carência da assistência social a nível nacional. Não há também uma politica eficaz contra a solidão, e o desemprego de jovens técnicos de serviço social é também significativo.
14ªestação – Jesus é sepultado – Fé na ressureição? Questão posta ao próprio país e à sua população, sendo certo que esta reportagem pode e deve ser um elemento de apreciação durante a próxima campanha eleitoral. A reportagem reconhece que muitos dos portugueses descritos já nem sequer têm esperança. Mas a questão mantem-se, quer o atual governo tenha razão ou não na politica de ruína que executa, a tentar convencer os cidadãos a, resignados, acreditarem que não há opção.
E contudo, não se propôs já ao governo a operacionalização de uma taxa sobre as transações financeiras e de outra taxa sobre as operações no multibanco sem reflexo nos clientes e a urgência na negociação com os poderes centrais da UE de uma verdadeira politica federal, financeira e fiscal sem os bancos a servirem de intermediários para a divida dos Estados?
Já se operacionalizou a auditoria completa à divida pública e à privada para se saber onde atuar?
Não se diga pois que não há alternativa à via sacra.
Ou, como pergunta finalmente a reportagem: “depois da via sacra que muitos portugueses estão a percorrer, haverá também lugar para a ressureição?”

                          Notícias Magazine, revista semanal do Diário de Noticias e do Jornal
                                                         de Noticias, 31 de Março de 2013
                                        

Atravesso um deserto e a sua secreta desolação

Retirado do opúsculo comemorativo do 3ºaniversário da Casa da Achada/Centro Mário Dionísio, em 29 de setembro de 2012, um poema de Jose Angel Valente, poeta espanhol já falecido:

Atravesso um deserto e a sua secreta
desolação sem nome.
O coração
tem a secura da pedra
e os estalidos noturnos
da sua matéria ou do seu nada.
Há porém uma remota luz
e sei que não estou só;
ainda que depois de tanto e tanto não haja
nem um só pensamento
capaz contra a morte,
não estou só.
Toco por fim esta mão que partilha a minha vida
e nela me confirmo
e palpo quanto amo, 
levanto-o ao céu
e mesmo sendo cinza proclamo: cinza.
Mesmo sendo cinza tudo quanto tenho,
tenho tudo quanto me foi oferecido como esperança.

A Casa da Achada é uma associação cultural aberta ao debate, partindo do espólio de Mário Dionísio e tendo-o como patrono. A sua ação neste momento é a de oposição à barbárie que a pretexto da crise pretende ignorar a Cultura.
Gostaria de salientar no poema a referencia à remota luz e a não se estar só nesta oposição à barbárie dos nibelungos que nos governam.
E a referencia à dependencia da cinza, destino fatal que a mecânica quantica descreve: o elemento dominante na Natureza é o carbono, quase tudo gira à volta da necessidade de converter a energia latente desse carbono em atividade util (até a Cultura é uma atividade útil, porque não querem perceber isso os nibelungos que nos governam?).

domingo, 31 de março de 2013

O conflito entre a produção e a distribuição

A citação de frases de figuras conhecidas pode ser apenas a projeção no seu autor dos desejos de afirmação de quem cita,  ou numa tentativa mais ou menos iludida de validação das convicções do citador.
Mas são muitas vezes interessantes, as citações.
Vejam-se estas duas de Dinis Machado, o autor de "Que diz Molero":

"Matam-se pessoas ou faz-se-lhes mal; ou ajuda-se quem é possível ajudar se sobra vontade e desejo de o fazer neste nosso universo tão feito de alcatruzes da nora. Há um letreiro invisível: escolha o seu lugar. Escolha bem ou escolha mal porque terá sempre a sua apropriada claque."

É isso, por maior que seja o nosso disparate, teremos sempre ao nosso lado quem pratique o mesmo disparate. Melhor será, para o disparate não ser tão grande, aceitar a colaboração com o outro lado, o lado dos outros disparates, já que a realidade é difusa e sofre da dialética de manifestar sintomas de causas opostas.
O que nos leva à segunda citação:

"A base dos conflitos que se agitam hoje nas sociedades nasce da fricção constante entre a produção e a distribuição"

Não só já existe um grave problema em produzir, veja-se o caso do PIB tão pequeno em Portugal, como depois a redistribuição dos benefícios falha estrondosamente, agravando o coeficiente de Gini das desigualdades.
Dificil sair deste impasse, ou melhor, desta armadilha da pobreza e da zona de rendimentos decrescentes em que a austeridade provoca recessão maior do que a calculada pelos sábios do FMI (todos os economistas com experiencia de economias frágeis sabiam que o efeito recessivo das medidas de austeridade colocaria a economia numa zona em que os investimentos têm baixissimo retorno.
Infelizmente, as pessoas que na altura alertaram para este efeito pernicioso vão continuar a ser ignoradas pelo detentores do poder politico, e apesar de tudo, ainda há cidadãos e cidadãs que tiveram a sorte de trabalhar em áreas rentáveis. 

Dos pacotinhos de aperitivos no Pingo Doce ao Caribe, aos automóveis alemães e depósitos a prazo de mais de 100.000 euros

Vale a franqueza com que o Pingo Doce manda escrever nos pacotinhos de aperitivos a sua origem.
Caju com piri piri da India, amendoim torrado da China, milho frito de Espanha, sultanas douradas da Africa do Sul, passas de uva da Africa do Sul.
Eu penso que a tentação da globalização é muito grande, porque parece haver vantagem económica.
Mas globalização é também importar com a vantagem económica a atrofia da economia local.
E assim continuamos a importar dois terços dos alimentos e dois terços da energia primária que consumimos.
Impossivel sobreviver com autonomia se não produzimos o valor do que comemos e do que queimamos.
Impossivel sobreviver com os apelos das agencias de viagens a poupar 4 euros por dia durante 8 meses para viajar ao Caribe.
Impossivel sobreviver com as páginas de publicidade dos jornais cheias de anuncios de automóveis alemães de 48.000 euros.
Impossível sobreviver quando os fazedores de opinião rasgam as vestes por se taxarem depósitos superiores a 100.000 euros e assobiaram para o lado quando os contribuintes trabalhadores por conta de outrem tiveram de pagar o resgate dos bancos que não eram deles, contribuintes, na Irlanda, na Grécia, em Espanha, em Portugal.
Só agora terão entendido os decisores da união europeia que tinham razão, os cidadãos e cidadãs islandeses, quando logo ao princípio disseram que não tinham nada que pagar as dívidas dos bancos especuladores?

PS em 3 de abril de 2013 - Amável e discreto comentador criticou a minha crítica à teoria da vantagem comparativa de David Ricardo. Não era a intenção, será pouco rentável a produção de caju em Portugal. Tal como o economista defendeu, devemos investir na produção de vinho em que Portugal tem tradição e qualidade, e quem diz vinho diz passas de uva e milho. 

sábado, 30 de março de 2013

Diálogo breve num posto de combustível

- Que maçada, aumentou outra vez, a gasolina
- E vai continuar a aumentar.
- A cotação do petróleo até está baixa, mas as distribuidoras estão sempre a fazer dinheiro à nossa custa.
- É interessante. Por um lado é verdade, até a troika tem razão, os combustíveis como fator de produção, como fator que entra para a composição do preço de qualquer produto, estão demasiado caros. Mas também é verdade que a energia é um bem escasso e não renovável, no caso dos combustíveis fósseis, e portanto só pode ser caro.
- Mas o petróleo está barato.
- Artificialmente barato, por motivos políticos e no interesse dos grandes grupos económicos e financeiros. Imaginemos que se voltava aos tempos do padrão ouro e se substituia o ouro pela energia. O preço das coisas seria referido ao preço da energia e expresso em unidades de energia. Acontece que há 50 anos se gastava pouca energia para extrair o petróleo. Por cada unidade gasta obtinham-se 50 unidades de nova energia. Agora, com o petróleo cada vez mais escondido e de dificil acesso, uma unidade obtem apenas cinco.
- Mas o petróleo pouco mais caro está agora do que há 50 anos.
- É verdade, porque o aumento dos custos da extração são diluidos por toda a economia, ou melhor, são repercutidos em toda a economia. Tudo está orientado para sustentar o baixo preço do petróleo. É natural que a economia esteja distorcida. E com a globalização, a distorção propaga-se como um virus de que a humanidade não se vê livre.
- E assim vamos de crise em crise, em sucessivas alternancias de bem estar e mal estar.
- É pena. A ciencia económica já tinha tido tempo para sistematizar uma organização melhor das comunidades, estruturalmente imune às vagas recessivas. Mas para isso precisava de conseguir a autonomia relativamente aos combustiveis fósseis e, sobrepondo o interesse público ao da concorrencia dos grandes grupos e às forças de mercado, desenvolver as energias renováveis.
- Aí está uma boa utopia.
- Tu o dizes.