quarta-feira, 3 de outubro de 2018

A especialização de Transportes e vias de comunicação da Ordem dos Engenheiros

Não cometerei nenhuma inconfidência, seguramente pela própria natureza do grupo, ao comentar as conclusões de um encontro de especialistas de Transportes e vias de comunicação da Ordem dos Engenheiros, em 2 de outubro de 2018.
A Ordem tem neste momento 115 especialistas , disseminados pelo país, e estiveram presentes cerca de 20 .

Destaco do encontro a expressão por 3 ex-bastonários da vontade de maior intervenção da engenharia nos processos de decisão, invertendo a tendencia que se vem verificando nos ultimos anos de afastamento dos engenheiros dos centros de decisão e de tratamento de questões estratégicas com critérios demasiadamente mediáticos.
Recordada a rejeição pelo governo de então do estudo validado pela Ordem de localização do novo aeroporto, contrária à solução Montijo.
Também foi posta a tónica em que os grandes investimentos públicos anteriores a 2008 não comprometeram os limites comunitários do défice, enquanto posteriormente o défice subiu sem investimentos.
De assinalar pelo presidente da ANSR a falta de meios para aplicar medidas que contrariem com sucesso o crescimento de mortes em acidentes rodoviários, nomeadamente de duas rodas.

Transcrevo excertos da comunicação que apresentei, com a preocupação de propor temas concretos para atuação, sob a forma de elaboração de recomendações ao governo e aos gestores das empresas de transporte:

“Anos sessenta. Instituto Superior Técnico.
O professor Abreu Faro enchia as suas aulas teóricas de Telecomunicações com as maravilhas do teorema de Shannon, dos diagramas de radiação das antenas, da capacidade dos canais de comunicação, dos princípios da teoria da informação. Não se limitava a expor e demonstrar questões técnicas, evidenciava a função e os conceitos da engenharia como atividade para resolver problemas e aumentar a qualidade de vida das comunidades.
Isso fazia a ponte entre os eletrotécnicos das telecomunicações e das correntes fortes e os civis das pontes e estradas. Para circulação das ideias, das mensagens, dos vetores da energia elétrica e das pessoas e bens, com a preocupação com a integridade dos bits de informação das mensagens, da sinusoide e da fase da onda, dos bens e dos passageiros transportados, na velocidade maior possível, com os fluxos de informação ou de energia ou de mercadorias ou de pessoas mais elevados no canal disponível .
O professor chamava a atenção para que a engenharia necessitava de uma boa base teórica e científica, mas que para resolver os problemas concretos não era muito preciso preocuparmo-nos com o rigor matemático. Os matemáticos teóricos que investigassem a posteriori e estabelecessem a coerência dos teoremas e das definições. Tinha sido assim com a função de Dirac, o impulso de amplitude infinitamente grande e duração infinitamente pequena, ou a função de Heaviside, a função escalão ou degrau. Entidades matemáticas que serviam para resolver problemas físicos, e para criar problemas aos matemáticos que estruturassem a sua coerência.
Dando o devido relevo à distinção entre o acessório e o essencial, num ato de engenharia tem de se seguir o método científico de observação, recolha e tratamento de dados, mas sem necessidade de construir uma tese de dissertação, utilizando valores aproximados e testando os resultados das hipóteses.
Recordo o professor porque se não é condição imprescindível num ato de engenharia a máxima aproximação do rigor matemático ou científico, já um dos procedimentos essenciais na atividade científica é nele indispensável, o método da divulgação e do referendo entre pares.  Aliás, qualquer manual de qualidade estabelece claramente a necessidade de revisão do projeto e a independência dos auditores relativamente à estrutura hierárquica da empresa, e por maioria de razão, relativamente a qualquer orientação da sua direção para uma conclusão.
Aqui surge uma questão interessante do foro deontológico. Até onde pode ir a reprovação de um colega a criticar o trabalho de outro colega, quer seja um auditor formal ou não, quando essa crítica invoca divergências profundas?
E generalizando, como deve reagir um técnico ao ver os critérios de engenharia subordinados a critérios políticos ou económicos que inviabilizem ou dificultem o objetivo de bem servir a comunidade? Deve o técnico calar-se, sabendo que o seu conhecimento técnico colide com a orientação superior, por mais que ministros ou administradores repitam que é a deles a melhor opção?
Ou, lembrando Rudyard Kipling, ao ver distorcidas, amesquinhadas ou desprezadas na comunicação social ou nos centros do poder ou nas direções das empresas, as suas preocupações e as suas propostas, por quem não tem, ou deliberadamente os ignora, conhecimentos técnicos?
Não são os técnicos enquanto pessoas que são amesquinhados quando ignorada a sua formação e experiência. São os contribuintes que, através dos impostos e das privações associadas às desigualdades sociais, pagaram a educação superior e os salários e a absorção de experiência em empresas públicas desses técnicos.
Esta introdução serve para tentar justificar como imperativo deontológico a intervenção da especialização de Transportes e Vias de Comunicação, através de algumas propostas de atuação  no contexto dos problemas de engenharia na atualidade nacional.
Proponho que essa atuação tome a forma de recomendações da Ordem dos Engenheiros ao governo e às respetivas entidades gestoras nos seguintes temas:
1 – Plano de expansão da rede ferroviária nacional de acordo com os critérios de interoperabilidade da UE e integração na rede core 2030 das redes trans-nacionais TEN-T (trans european network – transport), verificando-se, ao ler os relatórios de coordenação da CE, que o governo português parece ter desistido de cumprir esse objetivo. São necessárias análises de custos-benefícios, baseadas no cálculo dos custos do passageiro-km e da tonelada-km . Anoto que a ligação de Sines à Europa deve fazer-se através de um novo troço Sines-Grândola Norte    ( e não Sines-Ermidas) e que a ligação de Aveiro deve fazer-se em linha nova de via dupla por Almeida e não Vilar Formoso

2 – Investigação de acidentes ferroviários e rodoviários com o objetivo prioritário de determinar as causas e circunstâncias do acidente para evitar a sua repetição ou para mitigar as suas consequências, e não para apurar responsabilidades criminais. Anota-se que ainda não há relatório conclusivo do acidente da Adémia em abril de 2017. Anota-se a meritória ação da ANSR infelizmente coartada por falta de meios e de capacidade de divulgação pública e eficaz das suas recomendações

3 – Plano de expansão da rede do metropolitano de Lisboa segundo critérios de eficiência energética e de economia de exploração e de manutenção, com reformulação e submissão a discussão pública e avaliação ambiental de todo o mapa. O projeto de linha circular anunciado baseia-se no mapa de 2009 que não foi sujeito, nem a escolha da linha circular como prioritária, a discussão pública nem avaliação ambiental. O mapa foi elaborado sem audição dos colegas com experiência em operação e manutenção de metropolitanos. Os trabalhos previstos nos viadutos do Campo Grande e na av.24 de julho são altamente onerosos e a linha circular com estas dimensões está sujeita a taxas de perturbações mais elevadas do que em linhas normais.

4 – Introdução da tração por hidrogénio produzido por eletrólise a partir das renováveis para aplicação nas rodovias, ferrovias e navios (e no caso dos navios também por GNL), considerando as soluções técnicas já disponíveis e a necessidade de planear as instalações de produção e distribuição

5 – Análise e discussão pública da lei de contratação pública, principalmente para obviar os inconvenientes do critério do preço mais baixo
6 – outros temas, em que gostaria de ver a Ordem dos Engenheiros tomar posição:
6.1 – reformulação do plano portuário de Lisboa, nomeadamente reanálise do porto fluvial do Barreiro e do terminal Bugio-Cova do Vapor e sua relação com o assoreamento da foz do Tejo e fecho da Golada
6.2 – novo terminal de Sines e ampliação do terminal XXI
6.3 – reformulação do plano aeroportuário de Lisboa, considerando as recomendações da UE contra o ruido dos aeroportos em centros urbanos
6.4 – ligação ferroviária a Lisboa de Beja (possível inclusão na rede complementar de 2050 mas que é urgente)
6.5 – renovação da linha do Douro com as valências turísticas e de transporte de mercadorias
6.6 – desenvolvimento da navegabilidade do Douro e do Tejo "

PS em 4 de outubro de 2018 - Verifiquei durante o encontro que há da parte de alguns colegas relutância em concordar com os procedimentos seguidos pelo grupo do "Manifesto Portugal uma ilha ferroviária na UE?" na tentativa de defesa do desenvolvimento das ligações à Europa segundo os padrões da interoperabilidade. O que parece estranho, uma vez que esse grupo partilha com a Ordem a defesa do interesse nacional. Aliás, como membro desse grupo, uma das razões por que escrevi acima sobre deontologia foi ouvir de um colega com funções diretivas na CP o desabafo, perante a estratégia de defesa intransigente da bitola ibérica pela IP, "Estão a dar cabo disto tudo"... o que me fez lembrar outro desabafo, desta vez de um dos diretores em funções no metropolitano de Lisboa, a propósito do atual plano de expansão, "Nós, técnicos, fazemos aquilo que nos mandam"... Pena os decisores não ouvirem , ou pelo menos lerem, estes desabafos. Podiam pôr a mão na consciência, como se costuma dizer, e tentar não se desculparem como de costume, que é deles, decisores, a melhor opção, e que os críticos são destrutivos.
Talvez as reservas dos colegas relativamente às propostas do grupo do Manifesto Portugal, uma ilha ferroviária na UE? tenham origem no receio de que, abrindo as ligações à Europa aos operadores europeus, com a bitola UIC mais facilmente chegariam aos portos nacionais se se cumprisse o plano da rede core 2030, e as empresas portuguesas, quer ferroviárias quer rodoviárias, seriam seriamente prejudicadas (ao menos pensem num plano de adaptação do transporte rodoviário às autopistas espanholas de passagem por ferrovia dos Pirineus). Igualmente o receio pode ser o de que as importações aumentariam sem que as exportações conseguissem atingir o objetivo mínimo de 60% do PIB (atualmente 40%). Evidentemente que são riscos sérios, mas quando se pensa que o objetivo da UE é transferir 30% da carga rodoviária internacional para o modo ferroviário até 2030, isso é impossível de atingir em Portugal com a bitola ibérica e com as curvas e pendentes da linha de Sines e da linha da Beira Alta . O que é dizer o mesmo que reconhecer que Portugal é e continuará a ser um país periférico com indicadores inferiores aos da média europeia, contrastando com a evolução dos países de leste (talvez com a exceção da Roménia, mais do que a Bulgária), isto para não falar do intenso esforço espanhol no desenvolvimento da sua rede de alta velocidade/mercadorias/bitola UIC. Daí a expressáo ilha ferroviária. Citando Alfredo Marvão Pereira, um país desenvolvido deve afetar 2 a 3% do seu PIB a infraestruturas; se daí retirarmos 1% para infraestruturas novas de transportes, poderiamos dispor de cerca de 1800 milhões de euros por ano. Estimando o plano da rede core 2030 para Portugal em 11000 milhões de euros em 12 anos, não parecerá escandaloso. Embora não impeça quem discordar de continuar a afirmar que não há dinheiro, nem o governo de continuar a querer maravilhar-nos com os sucessos do Portugal 2020 e do Portugal 2030.

                                                                              

terça-feira, 2 de outubro de 2018

lisbon mobi summit - shuttles autonomos

Gostaria de divulgar o anuncio da Transdev (operador de transportes) e da Navya (fabricante de shuttles autónomos) de que tomei conhecimento na Lisbon Mobi summit:

http://navya.tech/en/autonom-en/autonom-shuttle/?gclid=EAIaIQobChMIjfj60NzC3QIVhjLTCh0WAgQZEAAYASAAEgK-3vD_BwE

Trata-se de uma realização tecnológica para resolver o problema das "first" e "last mile" nas deslocações diárias. É portanto um modo de transporte complementar do transporte público de grande capacidade, ideal para serviço de bairros, zonas académicas, desportivas ou de concentração de hoteis. Não se trata de publicidade orientada, uma vez que qualquer aquisição tem de submeter-se às regras de contratação pública.

Perdoando-se a imodéstia, o tema destes modos complementares foi ventilado no meu livrinho Manual condensado de transportes metropolitanos :
https://1drv.ms/b/s!Al9_rthOlbwehWMdmBJ_Q06Wk7XH

nas páginas     87-88  (grafos de deslocação casa-emprego) e 175-177  (descrição de modos complementares).

O veículo da Navya pode ser chamado taxi-robô, shuttle autónomo, cabina driverless, PRT (personal rapid transit), transporte on demand de pequena capacidade.
Tração elétrica com bateria de 33 kWh, guiamento por GPS/GNSS (global navigation satellite system), velocidade limtada a 25 km/h.
Convirá que os percursos programados sejam bem definidos e assinalados no pavimento com margem de segurança lateral suficiente como zona não pedonal (os sensores de que dispõe provocam a paragem apenas se um obstáculo estiver no seu caminho; se se encontrar a 30 cm do plano vertical da lateral o veículo não para, daí ser necessário reservar uma margem de segurança lateral)

Modos alternativos: sistema Vectus  ( http://www.vectusprt.com/EN/vectus-intelligent-transport/ ) e Ultra ( http://www.ultraglobalprt.com/ ), em cabinas autónomas em sítio guiado e sistema Tula ( http://www.tula-labs.com/pt/tulaauto/ ), com guiamento por indução eletromagnética por cabo enterrado ou por leitura ótica de pintura no pavimento.

Como expresso no referido livro, é do interesse dos operadores de transporte de grande capacidade disporem de conhecimento neste tipo de transporte e mesmo inclui-lo nos seus equipamentos, parqueados em estações.

Na Lisbon mobi summit a Transdev mencionou as muitas aplicações em funcionamento. São de molde a terem aplicação na área metropolitana de Lisboa, por exemplo nas ligações transversais à linha de Cascais ou ligação a zonas residenciais ou académicas.
   

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Lisbon Mobi summit - uma pequena analise de custos-beneficios


Devo declarar desde já que considero a iniciativa Lisbon Mobi summit meritória.
O facto de ser utilizada para lançar ou tentar alargar uma série de iniciativas empresariais náo lhe retira mérito.
Mas infelizmente torna-se repetitivo e monótono ouvir falar tanto de start-ups, disrupções, automóveis partilhados, conetados, autónomos, conceito de propriedade substituido pelo de partilha, conceito da posse do meio de mobilidade substituido por conceito de serviço de mobilidade, triunfo em toda a linha das app e dos smartphones concentrando todos os meios de transporte possíveis e imagináveis, partilhados, públicos, privados. Tudo na caixinha milagrosa do smartphone, ligado aos satélites pelo GPS e pelo GNSS, desde que uma agressão do país mãe do sistema global de navegação a um pobre país doutro hemisfério não desligue os satélites para uso civil (mais uma esperança na UE, que o seu sistema Galileo seja independente das coisas bélicas).

Não digo que estas maravilhas não sejam devidamente aproveitadas, mas estou com o sr ministro do ambiente quando diz que a prioridade deve ser o transporte público. Claro que já não estou com ele quando diz que a linha circular do metro é a melhor opção. Infelizmente náo reconheço ao senhor ministro experiencia profissional suficiente para dizer uma coisa dessas.

De modo que resolvi aproveitar o fim do colóquio no dia 14 de setembro para testar a ligação Belem-Alvalade. Em vez de apanhar o elétrico 15-E em Belem para o Cais do Sodré, onde embarcaria no metro, apanhei em Belem, frente ao palácio presidencial e no meio de turistas franceses, espanhois, alemães, japoneses e portugueses e de alguns, poucos, lisboetas, o autocarro 27 (ou 727, como a Carris gosta) .
Às 18.25 na paragem, 10 minutos de espera, chegada à avenida de Roma às 19.45 .

É verdade que era 6ªfeira, segundo dia de algumas aulas, estava um sol magnifico e o ar condicionado do autocarro funcionava. Também é verdade que ia cheio, que os solavancos tornavam a viagem penosa, indigna de uma sociedade bem organizada. A incomodidade também de mede e se contabliza, mas poupemos o cálculo.

Senti-me um pouco perturbado quando uma bonita adolescente achou que me devia ceder o lugar dada a minha condição de idoso. Felizmente, mesmo ao lado, no corredor da parte de trás do autocarro estava uma também bonita turista francesa a quem, por minha vez, cedi o lugar, insistindo porque ela não queria, batendo eu no meu peito por cima do lugar do coração. 

Esplanadas cheias, por nacionais e estrangeiros, de todas as idades, ao longo da rua da Junqueira. O triunfo da economia do ócio, uma aliança das reduções do desemprego e do nível salarial.

De assinalar os tempos de demora na travessia de Alcantara e Rato. No banco atrás do meu, uma senhora jovem, ansiosamente no telemóvel dizia para o seu interlocutor se sair agora em Alcantara talvez apanhe o comboio da 18:56, senão é mais meia hora. Apanho-te em Entrecampos. E assim foi, a senhora saiu lesta em frente do Palacio de Alcantara e lá foi a correr para Alcantara-Terra. Que não pode servir como uma linha de metro porque é via unica, um comboio que seja expedido precisa de 6 minutos para chegar a Campolide e libertar o itinerário para outro que faça Campolide-Alcantara, que por sua vez imporá mais 6 minutos de espera ao que queira sair de Alcantara Terra. Contar ainda com a almofada de segurança para a comprovação das condições de segurança e para as flutuações das perturbações de horário, 15 minutos de intervalo entre comboios.
Na rua de S.Bento, as pessoas entravam pela porta da frente e pela porta de trás, com a maior naturalidade.
Curiosamente, a ocupação do autocarro serenou no Rato e no Marquês de Pombal, obviamente dada a existencia de estações do metro.

Apesar da cor e movimento do espetáculo através das janelas do autocarro, resolvi entreter-me com umas contas, que completei depois em casa. 
Temos 10 km e 1hora e 10 minutos de percurso, o que dá aproximadamente uma velocidade de 9,4 km/h .
Evidentemente, enquanto as estreitas ruas forem de sentido duplo e partilháveis com o automóvel privado, será muito dificil melhorar. E não serão autocarros novos que o poderão fazer.
Admitindo que 3000 pessoas por dia fazem o percurso (intervalos de 15 minutos na hora de ponta, contando com 80 passageiros por autocarro que se vão renovando teremos 320 passageiros/h de ponta e por sentido, ou 3200 por dia num sentido ou 6400 nos dois sentidos).
Vamos aumentar a velocidade para 14 km/h . Teremos um percurso em cerca de 42 minutos.

Mas comparemos com o tempo de percurso no metropolitano, no traçado do plano de 1974 para expansão a Alcantara e agora proposto, quando se fala na linha circular, prolongar a Algés. Velocidade comercial, alargando as inter-estações para 900 metros, como mandam os bons procedimentos, 30 km/h : cerca de 20 minutos. Diferencial: 22 minutos .
Quanto ganha um cidadão, quanto vale o seu tempo? Admitamos salário médio de 900€ e 150 horas mensais. Dá 6€/hora ou 0,1 €/minuto.
6400 pessoas por dia são cerca de 2,1 milhóes por ano. Que perdem por ano 2,1M x 22min=46,2 M minutos. Ou 46,2M x 0,1€ = 4,6 milhões de euros por ano.

Ou seja, o facto de não haver uma linha de metro no prolongamento da linha vermelha ou da linha amarela para Alcantara e Algés (o elevado interesse de atração de turistas que a linha teria, especialmente se tivesse uma estação próxima do museu de arte antiga...é verdade que o ameaçado de se tornar rodoviário, o suburbano de Cascais, passa próximo, mas a sua vocação é isso mesmo, suburbano, não urbano...) traduz-se por um prejuízo, para os cidadãos, de cerca de 4,6 milhões de euros por ano.
Para um rendimento de 2% teriamos a justificação de um investimento de 230 milhões de euros.
Ah, mas falta calcular as emissões. 

Considerando o consumo específico por passageiro-km por comboio e por autocarro, em energia primária, considerando as perdas desde a origem e os complementos dos operadores, e aproveitando para citar o meu livrinho "Manual condensado de transportes metropolitanos" 

tomo:
        155 Wh/pass-km para a ferrovia (61Wh/pass-km no veículo) 
        690 Wh/pass-km para a rodovia (199 Wh/pass-km no veiculo)
Ou seja, um diferencial de cerca de 500 Wh/pass-km . 

Ora, admitindo um percurso médio de 4 km por passageiro, teremos 2,1M x 4 ~ 8 milhões de passageiros-km por ano.
Ou 8M pass-km x 0,5kWh = 4 GWh/ano de energia desperdiçada por ano na linha Belém-Alvalade. Ou 0,2M€/ano se contabilizarmos o kWh a 5 centimos.

Admitindo uma taxa de emissóes de 300 g/kWh para o modo elétrico e 900 g/kWh para o modo rodoviário (50l/100km), teremos um diferencial de 600 g/kWh.
Ou 4M kWh x 600g/kWh = 2400 ton CO2/ano evitáveis. Fazendo a tonelada de CO2 a 30€, para incluir os custos da poluição e das alterações climáticas, teremos um diferencial 
 2400 x 30 = 72000 €/ano.

Em resumo, a linha de autocarros Belém-Alvalade tem como custos adicionais relativamente à linha de metro:
      4,6 M€ de tempo perdido
      0,2 M€  de energia
      0,07 M€ de poluição e alterações climáticas
total:  4,9 M€/ano


É verdade que o investimento na linha de metro é superior, da ordem de 60 M€/km (600 M€ mas só falta construir 5 km) , mas também é verdade que ao investimento se pode, contabilisticamente, retirar o valor residual, ou valor do ativo, o que reduziria o investimento nos 5 km que faltam para cerca de 270 milhões de euros.



Ou isso, ou continuar a deitar fora todos os anos 4,9 milhões de euros só na ligação Belém-Alvalade. Pode ser que se um decisor fizer a viagem se resolva a autorizar a candidatura a fundos comunitários.

Esta análise de custos-benefícios (ACB) estará razoavelmente tosca e a precisar de correção, evidentemenete bem-vinda, mas o leitor interessado poderá encontrar os procedimentos mais indicados para uma boa ACB no documento da Comissão Europeia para orientação na análise de investimentos financiáveis em

http://ec.europa.eu/regional_policy/sources/docgener/studies/pdf/cba_guide.pdf

Nele se indicam, entre outros, os procedimentos para valoração das externalidades negativas da sinistralidade, das emissões poluentes, das emissões com efeitos nas alterações climáticas, do ruído e dos custos de construção, operação e manutenção das infraestruturas.

Mais informação sobre o plano de expansão do metro e a linha circular em:
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2018/01/ultima-tentativa-ultima-chamada-da.html

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Olhar para o problema da ferrovia


Os políticos  não gostam de se arriscar quando o assunto é predominantemente técnico e evitam falar desses temas.
O senhor primeiro ministro enrola-se quando fala de ferrovia num disco riscado que lhe foi fornecido pelos técnicos da IP que lhe dizem, desde 2015, que o Portugal ferrovia 2020 (vinte vinte como eles dizem) vai resolver tudo, até as carencias do interior, e a bitola ibérica chega perfeitamente.
A senhora secretária geral adjunta, Ana Catarina Mendes, é capaz de alinhavar algumas respostas concretas quando questionada sobre a degradação da educação e da saúde, como aconteceu na entrevista que deu no piquenique do PS em Almodovar em 9 de setembro de 2018. Mas já não é capaz de o fazer sobre os transportes. Disse que, ao contrário do governo anterior, o PS estava a olhar para o problema. 
Ora, em problemas de engenharia não basta olhar para um problema. É preciso recolher dados, registá-los  e transformá-los em gráficos, pôr hipóteses, alternativas, voltar a recolher dados,  testar as hipóteses, comparar os resultados, quantificar custos e benefícios, voltar a comparar. É trabalhoso, moroso, exige concentração, e naturalmente formação técnica. Pouco compatível com as práticas do marketing. E quando este trabalho é omitido, de efeitos silenciosamente negativos até ficar bem patente a degradação e a insuficiência.  Com a agravante de que não basta definir uma intenção para ter financiamento comunitário. 
É necessário apresentar estudos concretos, um anteprojeto, e ainda por cima compatível com os objetivos da UE (por exemplo, transferir 30% de carga da rodovia para a ferrovia até 2030, daqui a 12 anos).
Não basta olhar. Por mais boa vontade que queira ter para avaliar o trabalho do XXI governo no domínio dos transportes, não posso, como técnico, dar-lhe o meu aval. Nomeia militantes ou técnicos com critérios opacos, que não tiveram experiencia no negócio que vão gerir. Durante meses tentam compreender as coisas, mas são vítimas dos assessores que lhes impingirem. Eu próprio testemunhei isso. Em 2015 os técnicos do metropolitano começaram a ver que tardavam as autorizaçóes para a encomenda de rodados, que estavam atingindo o seu fim de vida (o diametro e a conicidade dos rodados têm limites de segurança). Em 2016 começaram a faltar comboios na exploração. A comissão de trabalhadores e a comissão sindical alertaram a administração, que estava de saída e nada ligou. Tornaram depois públicas as suas preocupações. Manteve-se olimpicamente indiferente a administração, à espera de nova missão noutra empresa pública. Eu mesmo escrevi ao presidente, alertando que sobreviriam graves problemas por falta de comboios. Nada. Foi preciso esperar pela nova administração, cujo presidente, cuja boa fé não ponho em causa, confessou que nada percebia de comboios e que precisava de tempo para perceber as questões (a propósito do convite para participar no contraditório numa conferencia na Sociedade de Geografia, em março de 2017, em que publicamente critiquei o plano de expansão do metro) e por isso as autorizações para encomendas dos rodados tardaram quase 6 meses. Foi um caso de convergencia entre a má gestão e as cativações financeiras.
Analogamente, vi as denuncias dos sindicatos feitas atempadamente quanto à falta de comboios e de técnicos para a sua reparação na CP e na EMEF.

Este governo não tem a tradição de abertura efetiva do debate, prefere círculos restritos que lhe dêem segurança. Prefere o sentido top-down ao inverso. Prefere impor aos técnicos das empresas públicas as suas orientações, muitas vezes ao arrepio das orientações da UE, como é o caso das redes transeuropeias de transporte e a presumivelmente falhada integração de Portugal nessas redes. 
Prefere negar o grau de degradação, negar o afastamento dos objetivos da UE, negar o isolamento que sofremos nas ligações energéticas e ferroviárias à Europa, negar as insuficiências do plano ferrovia 2020 para os objetivos da UE de 2030.

O problema dos investimentos em obras públicas é mesmo complexo, tão complexo que poucas esperanças há de que o simples restabelecimento do conselho superior de obras públicas o resolva, ou pelo menos defina o caminho para o resolver.

Só um esforço coletivo poderá traçar um calendário para a promoção desses investimentos com financiamento comunitário, envolvendo, para além das empresas do setor, universidades, associações profissionais, imprensa e jornalistas especializados, associações empresariais, entidades sindicais, partidos políticos, técnicos com experiencia do setor, no ativo ou reformados. Talvez até requeira apoio estrangeiro (desde que não nos moldes com que a IP tem colaborado no ambito dos grupos de trabalho ditos de interligação com a Europa ou do RFC4 rail freight corridor 4, com a ADIF, a RENFE, a SNCF, a DB, a Medway, a Takargo, a Azvi). Tal trabalho ultrapassa em muito as minhas capacidades enquanto isolado.
Para avaliar o grau de dificuldade, junto a ligação para o manual de análises de custos-benefícios adotado pela UE para fundamentação dos investimentos financiáveis, a análise de custos -benefícios aplicada à linha da Beira Alta pelo prof.Mario Lopes e a analise resumida que fiz no powerpoint (ver a partir da página 15) que apresentei na sessão na Ordem dos Engenheiros em 28 de fevereiro de 2018 sobre a questão da bitola UIC.
Junto também um pequeno cálculo da capacidade da linha da Beira Alta em via única  após os trabalhos de modernização anunciados pelo XXI governo, e que é insuficiente para garantir o cumprimento do objetivo de transferência de 30% de carga rodoviária para a ferrovia até 2030.

guia para ACB da UE :

ACB Mario Lopes:

ACB F.Silva:

Calculo capacidade linha B.Alta via unica:


sábado, 1 de setembro de 2018

Sessão de 6 de setembro na AR sobre a ferrovia

Apesar do país não ser grande, a diversidade de componentes e de requisitos, a extensão e a inércia do sistema ferroviário português, depois das omissões e erros ao longo de vários anos, contribuem para a situação atual de degradação e de exposição pública da desgraça.
Por outras palavras, a falta de decisões e de execução de orçamentos equilibrados especialmente depois do agravamento das condições financeiras, criou uma situação que só poderá melhorar depois de vários anos após se tomarem agora as decisões corretas.
O problema agrava-se porque provavelmente a forma de tomada de decisões e do controle da sua execução e ainda, evocando o gravissimo problema das cativações (que continuam a minar como um cancro a execução dos orçamentos), e a extrema dificuldade de planear e executar orçamentos eficientes, vão sucessivamente, ao longo dos próximos anos, piorar a situação. Não há indícios de que os decisores, os que tomam as decisões de cativar as verbas, ou os que definem as estratégias escolhendo opções, tenham a noção de que o tempo que passa sem se avançar agrava a situação e compromete a solução rápida.
O que há a fazer é muito, como aliás já a comissão do PET3+ reconheceu no tempo do XIX governo. E não só na ferrovia (em que se privilegiou a beneficiação de troços antigos em detrimento de linha nova com padrões europeus), nos portos, por exemplo, há muito a fazer. O que não se fez desde então foi uma sólida política de elaboração de anteprojetos para submissão a candidaturas de fundos europeus, tendo-se dado preferencia às formações, inovações e apoios a pequenas empresas ou pequenas iniciativas ao nível das autarquias.
O que há a fazer só pode ser feito segundo um plano com o faseamento de todas as ações e o seu controle de execução periódico, eu diria mensal,  com representantes de todas as disciplinas envolvidas e a emissão da lista de ações e prazos a executar por cada representante e o cronograma atualizado (serve o Projet da Microsoft). E há que ter a noção que uma não decisão acaba por provocar, tempos depois, uma falha grave (por exemplo, se se cativa uma verba para aquisição de um lote de peças de reserva para comboios, daí a uns milhares de quilómetros parte desses comboios tem de encostar).
Não se duvida da competencia técnica dos colegas da CP e da REFER (agora IP). De um deles, no ativo, de que obviamente não digo o nome, ouvi o desabafo, a propósito das estratégias seguidas: "estão a dar cabo disto". Duvida-se sim da organização de equipas para executar a metodologia que referi (controle pluridisciplinar e divulgação das ações e prazos).
Que o mesmo é dizer, duvida-se da viabilidade de atingir os objetivos, num contexto de negacionismo em que se vê o governo e os responsáveis da IP e da CP a repetir que têm razão, que tomam as melhores opções, e que existe uma campanha contra eles.
E contudo, os verdadeiros amigos são os que apontam os erros e as omissões, não os que acriticamente concordam com os erros e as omissões.

A Assembleia da Republica vai discutir no dia 6 de setembro a ferrovia.
São tão vastos os temas e as implicações entre eles que não e previsivel que se chegue a conclusões atuantes (isto é, que haja encarregados de executar tarefas que possam concretamente avançar no dia a dia para poderem produzir efeitos a prazo curto ou médio).

São tambem conhecidas as técnicas comunicacionais do governo de diversão ou desvio para outros temas e de cega confiança nas opções que toma. Essas opções são normalmente tonmadas em secretismo, recusando a discussão aberta e participativa (art.2º da CRP : "a Republica Portuguesa ... visa .. o aprofundamento da democracia participativa") num exercicio de sobranceria e prepotencia que deslustra quem o pratica, especialmente quando são técnicos qualificados, de desprezo pela opinião dos sindicatos e dos próprios técnicos das empresas, impedidos de se exprimirem livremente pelas hierarquias.
A complexidade dos orçamentos facilita o arrastar da discussão, porque é sempre fácil dizer que está orçamentada uma verba para uma determinada ação e que a sua descativação está prevista para daí a uns dias. Também é fácil dizer que vão admitir-se 102 técnicos para a EMEF, quando 40 deles são precários que passarão para o quadro, quando entretanto há outros que se reformam e quando são necessários meses para formação.

Não se esperam por isso grandes progressos na resolução dos problemas que afetam a exploração diária da CP.
Não creio que se chege a conclusões em temas como a reforma da linha de Cascais (parece que os decisores insistem nos autocarros ou BRT na A5, que é uma solução razoável em países produtores de petróleo ou que não ligam muito aoa acordo de Paris, porque o transporte rodoviário tem um consumo específico por passageiro-km superior ao ferroviário), a ligação Beja-Casa Branca, a ineficiencia da modernização da linha da Beira Alta, a recusa do governo em integrar a rede core 2030 com linhas de padrões euroeus (a eterna desculpa das travessas polivalentes, que só têm utilidade quando a plataforma é dupla, com uma via em bitola ibérica  em serviço enquanto a outra via é transformada de ibérica para UIC - estimativa 1km/dia).

Esperemos ao menos que a imprensa especializada e os jornalistas especializados façam a coberutura sem subserviência ao governo.





sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Os terrenos do metropolitano em Sete Rios

O comentário que faço neste texto sobre a anunciada intenção de venda dos terrenos de metropolitano em Sete Rios tem três pressupostos:

1 - a passagem do metropolitano em 1975 para o estatuto de empresa pública encontra-se saldada, não sendo devido nenhum pagamento ou indemnização à CML. Este procedimento encontra analogia com boas práticas internacionais, como os metropolitanos de Paris, Londres ou Bruxelas e é compatível com a estratégia duma área metropolitana que contribui com cerca de 40% para o PIB nacional, não devendo portanto uma rede de metro estar vinculada apenas a um município;
2 - no início do metropolitano, anos 50, foi expropriado a particulares, para fins de instalação de equipamentos de interesse público, o terreno de cerca de 6 hectares onde se instalou o Parque de Material e Oficinas I do metro, desativado em 2004 depois de protocolo e acordo com a  CML (ver:
                      https://1drv.ms/b/s!Al9_rthOlbwenyPEr1QrJ2_nPcnx                                   )

3 - Na altura da assinatura do protocolo com a CML (dezembro de 2003) julgo que não foram divulgados pela comunidade de trabalho os seus termos . Digo julgo porque não me recordo dos detalhes, embora tenha participado nalgumas reuniões com um senhor arquiteto de uma empresa que na altura trabalhava muito em sintonia com a CML (por exemplo no projeto do tunel do Marquês), alguns colaboradores meus tenham participado na elaboração de um dos planos de pormenor do terreno referido no protocolo (embora julgue que tenha sido alterado pela CML/empresa colaboradora) e porque o meu computador de serviço teve um apagão em 2005 que os informáticos não conseguiram recuperar.

Dadas as minhas limitações de entendimento da linguagem jurídica em que estão impecavelmente redigidos o protocolo e o acordo, não estou seguro de ter interpretado bem. Mas penso que o que ficou acordado foi:

O metropolitano, como dono do terreno de 6 hectares, obteve o direito de fazer um loteamento, construir e comercializar os seus lotes: um hotel e edificios habitacionais, de comercio e de serviços, numa parcela de terreno de cerca de 3 hectares (ou 4 hectares, no caso da central definitiva de camionagem e do parque de estacionamento de ligeiros ocuparem apenas 2 hectares). Nessa parcela de terreno poderá construir um edificio que integra uma nova central de tráfego e instalações para um hipotético metro ligeiro de superfície.
Como pagamento ou indemnização à CML para obtenção desse direito, o metro pagará 92.000 euros para a elaboração de um projeto para a central provisória de camionagem e construirá a seus custos a central definitiva de camionagem e parque de estacionamento de ligeiros, cuja propriedade transferirá para a CML, servindo as receitas do parque de estacionamento para as despesas de exploração da central definitiva pela CML. A central provisória será gerida pela RNE que pagará de renda anual à CML 50.950 euros, descontando-se as despesas que a RNE fizer em obras. A central provisória está integrada na referida parcela de terreno de 3 (ou 4) hectares.

Parecendo tratar-se de um contrato leonino desfavorável ao metro, sendo arriscado contar que se obterão mais valias significativas com o referido loteamento considerando as despesas comprometidas, a área disponível e a perda de propriedade sobre a central de camionagem definitiva e o parque de estacionamento, parecerá também de executar a cláusula de não renovação de 3 em 3 anos  e reivindicar uma renda a pagar pela RNE ao metro e não à CML (o estacionamento de 100 autocarros e a partida de 200 autocarros diariamente poderiam gerar uma renda anual de 1 milhão de euros).

Lamento a desilusão dos meus amigos e colegas que, de acordo com o protocolo e acordo com a CML, esperavam que as mais valias financiassem o fundo de pensões para os reformados do metro, incluindo cobertura parcial dos complementos de reforma. Não tenho fé  na viabilidade dessas mais valias nas condições do protocolo e acordo.
Além disso, dada a anunciada intenção do metro de venda do terreno para financiar a infeliz expansão de Rato ao Cais do Sodré, lá iremos para a discussão pública em que os comentadores bem pensantes criticarão os trabalhadores do metro por serem uns privilegiados com complementos de reforma. Poderiam preocupar-se antes em propor o aumento das reformas mínimas maioritárias, mas teriam de fazer um esforço para fazer as contas ao diferencial durante muitos anos entre os salários mais elevados do setor privado relativamente aos salários no metropolitano e ao rendimento que poderia ter sido obtido com esse diferencial ( ver página 300    de:
                          https://1drv.ms/b/s!Al9_rthOlbwehVnZ5h4rLNtDAkv3                  ).

A existencia de fundos de pensões de empresas tem este efeito perverso de evidenciar desigualdades. Embora se justifiquem com a exigencia de qualificação profissional e portanto beneficiando  de melhores salários , num país em que as distorções culturais e educacionais são gritantes (notar que o fundamento dos complementos de reforma era porém que os salários do metro, nessa época, eram inferiores aos do setor privado).
No caso dos terrenos do metro, levantar-se-á tambem a dúvida se os herdeiros dos expropriados terão direito a parte dessas mais  valias (ou à devolução das parcelas de terreno não afetas a equipamentos com interesse público). Talvez fosse preferível reivindicar os 26 milhões de euros que ficaram por pagar aos reformados do metro (admitidos antes de 2004, altura em que saiu do acordo coletivo o pagamento dos complementos de reforma) durante os 2 anos de cortes impostos pelo XIX governo em 2014 e 2015 e constituir com eles o fundo. Estabelecer depois um plano de gestão rentável desse fundo e uma integração faseada num fundo de pensões mais abrangente de acordo com uma reforma da segurança social. São casos de sucesso fundos de pensões noruegueses e sul-coreanos (este último é por exemplo acionista da Ascendi).

Gostaria ainda de referir uma inverdade no anuncio da intenção de venda. O terreno de 6 hectares não é, como descrito, desprovido de valor estratégico para o metropolitano e por isso poderia ser alienado. O valor estratégico consiste na possibilidade de garagem de composições que assim evitariam percursos de recolha para os parques mais distantes, de lançamento na exploração de composições de reforço nas horas de ponta, ou de recolha mais rápida de composições avariadas. Em 2003, na altura de assinatura do protocolo e acordo com a CML, eu pensava, na ignorancia do que a alta instancia do metro decidia com a CML, que estas vias de garagem, beneficiando do investimento original da galeria de ligação do PMOI à estação Praça de Espanha, estariam contempladas no plano de pormenor. Pelos vistos, o que ficou reservado foi a hipotética recolha e oficinas de material circulante do metro ligeiro de superfície. Havia pressões externas ao metro para transformar as linhas vermelha e azul em metro ligeiro, trazendo-as à superficie e misturando-as com o tráfego rodoviário a poente de Sete Rios, ideia que felizmente não se concretizou. Nessa altura (2003) havia também a ideia, essa sim válida, da circular externa em metro de superficie Algés-Loures-Sacavém. Que não foi para a frente por incapacidade estratégica ao nível da área metropolitana  de Lisboa.

Passados todos estes anos (2003-2018) é triste ver o imobilismo e as indecisões e a utilização gravosa para o metropolitano de um dos seus ativos.
Infelizmente, a saída deste impasse não deverá ser favorável ao metropolitano nem aos seus trabalhadores, o que naturalmente lamento.

PS em 1 de setembro de 2018 - O cálculo da renda potencial da RNE ao metro, caducando o protocolo, baseou-se num portagem ou num estacionamento diário de 10€ . Será provavelmente muito, mas se considerarmos as externalidades devidas ao consumo do diesel, não aplicar esse preço equivale a subsisdiar o transporte por combustíveis fósseis. Quanto á rentabilidade do empreendimento imobiliário, o valor do edificado autorizado na altura do protocolo foi depois reduzido por alteração do plano diretor. Ajudando assim a comprometer a rentabilidade do empreendimento.
PS em 28 de janeiro de 2019 - Sublinho que a análise aqui feita parte do princípio de que os 3 pressupostos referidos são verdade, o que, embora me pareça que o sejam, não posso garantir

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

O desastre da ponte Morandi

Condolências aos familiares das vítimas mortais e votos de recuperação dos feridos.


Escrevo este texto por mais uma vez tentar divulgar a importancia da atitude anglo-saxónica perante um desastre: envio imediato para o local de técnicos de investigação de acidentes tentando obter o máximo de informação e protegendo o local de intervenções, excetuando naturalmente a busca de sobreviventes; prestação de informações sobre as possíveis causas e circunstancias do acidente em conferencia de imprensa; divulgação do avanço das investigações; objetivo: tentar evitar a repetição do acidente ou mitigar as consequencias.
Esta atitude contrasta com a prática latina, anunciar imediatamente que se vão procurar os responsáveis. Sintoma de fraqueza, de insegurança. Um inquérito não deve atribuir responsabilidades, antes determinar causas.
Por isso, embora não seja técnico de estruturas (os meus amigos estruturalistas perdoar-me-ão os erros de análise), mas tendo estudado alguma análise de risco e acompanhado algumas intervenções de manutenção nos viadutos do metropolitano, deixo registadas as seguintes observações sobre causas possíveis:

corte longitudinal da secção da ponte que desabou completamente (a secção de 200m)

 https://www.bbc.co.uk/news/amp/world-europe-45193452



1 - as juntas de dilatação limitam o troço que ruiu. Poderiam encontrar-se em mau estado e sucedendo um período chuvoso a um período quente as dilatações e contrações poderão ter originado fraturas do tabuleiro e na estrutura aparentemente hiperestática (o tabuleiro não é apenas suspenso, ele é também suportado por traves de contraventamento apoiadas nas fundações; se nas ligações não existia graus de liberdade por bloqueio dos aparelhos de apoio ou por projeto, a estrutura torna-se hiperestática e lidará mal com dilatações e contrações); o vento poderá ter ampliado o efeito dessas fraturas

2 - por ação do vento, da fadiga decorrente do tráfego e da corrosão do betão de recobrimento dos cabos de aço dos tirantes, poderá ter ocorrido uma rotura de um dos tirantes ; por efeito do vento sucederam-se roturas de elementos estruturais até à queda das torres, restando o plinto das fundações. De notar que são conhecidos os riscos de corrosão das estruturas de betão e os meios de diagnóstico e de combate. Recentemente demoliu-se em Portugal uma ponte relativamente nova por ter sido usado um betão com excesso de areia, sensível à carbonatação (formação no betão de carbonato de cálcio devido ao dióxido de carbono)

http://www.civil.ist.utl.pt/~cristina/RREst/Aulas_Apresentacoes/07_Bibliografia/_slides%20aulas/Aula_10.2_Tecnicas_reforco.pdf

3 - por ação de chuvas intensas e sucessivo descalçamento das fundações (há notícia de que a concessionária da autoestrada estava investigando o possível descalçamento das fundações das torres que abateram) as fundações abateram ligeiramente provocando a rotura das juntas de dilatação e sucessivas roturas de elementos estruturais a finalizar com a queda das torres (segundo um video, as torres foram a última coisa a cair).

Parece-me mais plausível a terceira hipótese, mas vamos aguardar.

PS em 22 de agosto de 2018 - Parece que os tirantes eram duplos, mantendo-se a dúvida sobre o estado de corrosão do aço e do betão de recobrimento. A rotura de qualquer dos semi-tirantes, associada aos ventos e ao tráfego, poderia ser suficiente para o desabamento.Segundo a concessionária havia monitorização, mas pelas fotografias vê-se que o tratamento (proteção do betão) só tinha ocorrido na numa das 3 secções atirantadas, a do lado oposto à que ruiu. A zona é rica em poluentes como o anidrido carbónico que ataca o betão (carbonatação), especialmente se ele tiver demasiada areia. No metropolitano existe algum "know-how" de monitorização e tratamento de corrosão do betão armado, nomeadamente adquirido nas estações de Baixa Chiado (que é uma espécie de barragem ás águas da colina do Chiado) e de Terreiro do Paço (que está "imersa" nos lodos do Tejo)*. Tudo isto serve para reforçar a ideia que qualquer investimento traz associado uma despesa com manutenção, contemos com 2 a 5% do seu montante, o que quer dizer que em 50 ou 20 anos se gastou o mesmo dinheiro do investimento. Interessava explicar isto aos senhores economistas que se entretêm com cativações para ficarem sorridentes em fotografias. Salvo melhor opinião, os critérios de contabilização para o defice, das despesas públicas com manutenção, deverão ser alterados pela UE, que não deve lavar as mãos e desculpar-se com a incapacidade dos locais gerirem os bens públicos. Se os locais não o sabem fazer, venham os senhores burocratas da UE tomar conta disto. A menos que queiram que o ministro populista (demagógico) Salvini tenha razão.

* https://fcsseratostenes.blogspot.com/2011/07/o-piso-escorregadio-da-estacao-terreiro.html

PS em 30 de agosto de 2018 - graças ao envio de um colega amigo, eis alguns elementos do projeto da ponte: Das fotos da construção e do projeto das vigas de travamento e dos tirantes não parece ter havido poupança no ferro Se a causa foi a corrosão, ela deverá ter sido muito forte. Continuo a desconfiar das juntas de dilatação e do descalçamento da ponte, embora muitos acreditam na hipótese de fadiga devida ao aumento de tráfego ,dos tirantes, dos pilares e dos tabuleiros.
https://www.newcivilengineer.com/latest/revealed-collapsed-italy-bridge-construction-photos-and-designs/10034288.article

Entretanto demitiram-se ou foram demitidos da comissão de inquérito o seu chefe Roberto Ferrazza e o engenheiro Antonio Brencich por terem participado no inquérito às condições de segurança da ponte, aprovando o plano de intervenção e reforço em fevereiro deste ano e não terem proposto o seu encerramento durante as obras.

PS em 1 de setembro de 2018 - Junto ligações para alguns videos. Interessante a simulação do desabamento, mas que não corresponde ao video real em que se vê um dos lados da torre a cair no sentido longitudinal e o outro no sentido transversal, já com os tabuleiros caídos. Há tambem uma teoria de que teria sido um acidente com explosivos (será uma teoria da conspiração, mas pode pôr-se por exemplo a hipótese de os raios que cairam terem provocado uma explosão de gás em depósito defeituoso na zona industrial sob a ponte; no pequeno video que mostra o desabamento, vêem-se umas manchas antes da queda das torres que não se sabe exatamente o que são). Existe ainda o testemunho de que na noite imediatamente antes do acidente houve trabalhos no pavimento do tabuleiro que abateu (compativel com a hipótese de falha das juntas de dilatação ou abatimento das fundações do pilar central):

https://www.youtube.com/watch?v=GuFaS1_e9Sw
https://www.youtube.com/watch?v=Y6suQ0FIoIQ
https://www.youtube.com/watch?v=-AcqKpo0oiY

PS em 4 de setembro de 2018 - Junto várias ligaçóes enviadas pelo eng.João Correia (Lusoprática) que agradeço; independentemente do mérito de algumas destas contribuições da sociedade civil, lamenta-se que a entidade reponsável pela investigação de acidentes não promova sessões de informação sobre os elementos disponíveis:

https://www.youtube.com/watch?v=tz9q4jJ_L3A – imagem Google fissuras nos cabos

https://www.youtube.com/watch?v=DS-N87LrdIg – debate engenheiros italianos


https://www.youtube.com/watch?v=Y6suQ0FIoIQ – simulação do colapso



https://www.youtube.com/watch?v=uEzxg2cWgoU – análise muito detalhada do projecto

https://www.youtube.com/watch?v=oVj0qjTRULw – falta de instrumentação






L'ingegnere Riccardo Morandi spiega come nasce un Ponte Morandi: https://www.youtube.com/watch?v=8x-tNFBr_ds





terça-feira, 7 de agosto de 2018

A antena do SIRESP

O meu interlocutor de circunstancia puxou-me pelo braço e apontou-me a cancela desconchavada e o jardim desprezado que rodeava o posto de transmissão e a antena.
"Fui eu que plantei aquele alperceiro, e aquela ameixeira também. Era eu que tratava disto. Primeiro estive na tropa, em Transmissões, era cripto. Depois passei para a guarda fiscal e quando acabaram com ela para a GNR. Agora estou reformado e isto é do SIRESP. Está abandonado".
A conversa de circunstancia passava-se no alto da vila, com vista soberba para a autoestrada ao longe, o estuário e as manchas verdes da floresta.

O meu interlocutor dedica-se agora a trabalhos de limpeza de terrenos e orgulha-se de nem todos poderem fazer como ele.
Mas partilha comigo a impotencia perante a sucessiva transferencia de empresas de interesse estratégico para o controle de sociedades privadas, que poderão não ter as mesmas prioridades de uma empresa de serviço público.
Mas também, para quê insistir na natureza pública de uma empresa estratégica se os decisores são subordinados à estratégia oficial dos cortes de despesa pública e de cativações que inviabilizam decisivamente o bom funcionamento e o atingimento dos objetivos da empresa pública? Assiste-se assim à degradação do serviço dessas empresas e à sua transferencia para empresas estrangeiras.
Será uma forma de colonização já prevista por Margarida, duquesa de Mantua, depois da morte trágica do seu valido (primeiro ministro), Miguel de Vasconcelos .
Mas como eu não desejo a morte de ninguém, preferia que a opinião pública fosse tomando conhecimento disto, para no exercício do seu direito de voto o fazer em conformidade, de modo informado, das consequencias do cumprimento dos defices da UE. Mas posso estar a ser ingénuo.

Linha verde do metro de Lisboa, em 3 de agosto de 2018, pela manhã

Linha verde do metro de Lisboa, em 3 de agosto de 2018, pela manhã, estação de Alvalade. Depois de uma fugaz aparição do habitual anuncio "Existem perturbações..." a informação de linha interrompida por motivo de avaria da sinalização. Acredito porque vejo antigos colegas descerem â via. Poderá ter sido o motor de agulha a norte da estação, mais precisamente os contactos que dão a informação sobre a posição das lanças. Mas não vou lá confirmar, não quero que a administração os acuse de darem informações não estando autorizados (como é possível no século XXI ter estes cuidados?). Trata-se de uma avaria que impede o funcionamento seguro das duas vias. Isto responde àquela ligeireza de que a linha circular ao avariar, é só num sentido  porque tem duas vias. Um dos mais graves acidentes em metropolitanos deu-se em Daegu, Coreia do Sul, quando não se interrompeu a circulação nas duas vias e o incendio da primeira composição se propagou à composição que chegou da outra via. E como nos primeiros dez minutos ninguem pode afirmar o que se está a passar de errado, a prudencia manda parar as duas vias.
Vamos imaginar que já estava a funcionar a linha circular. Tudo parado ao longo dos seus 6,5 km de eixo. Desde as 10.15 até às 11.29, altura em que por informação do underlx a circulação foi retomada com perturbações.
https://perturbacoes.pt/d

Verdade que pode montar-se um esquema de exploração parcial, que demora tempo por razões de segurança para proteção de quem está a trabalhar na via. Podia ser no caso da linha circular a exploração de Alameda -Cais do Sodré-Campo Grande. Ou até, se sempre se montam aparelhos de via nos famosos novos viadutos, explorar entre Alameda-Cais do Sodré-Campo Grande-Odivelas. Mas tudo isso leva tempo.
No meu caso, o prejuízo foi apenas ter de me deslocar 1 km até à estação de Entrecampos, que a linha amarela ainda é independente da linha verde.
O que me leva novamente à questão das probabilidades. O intervalo entre avarias estava contabilizado em 2013 em 14000 comboios-km. Fazendo as contas para duas linhas independentes equivalentes a uma linha circular com as dimensões previstas e considerando cerca de 200 comboios por linha independente e 400 na circular, por dia, temos que   nesta a probabilidade de ocorrencia de uma avaria é da ordem de 1 por 50 horas de exploração. Mas no caso das duas linhas independentes, a probabilidade de ocorrerem simultaneamente duas avarias que paralisem a exploração é igual ao produto da probabilidade em cada linha, o que dá cerca de 1 avaria em simultaneidade por 500 horas de exploração.
Esta é a razão por que só deve construir-se uma linha circular se, em caso de avaria, houver alternativas, isto é, se se tratar de uma rede em malhae que através de transbordos permita um percurso alternativo. Como é o caso de Madrid ou Pequim, cujas linhas circulares são atravessadas por radiais em maior número do que as duas de Lisboa. A isto se junta a maior dificuldade de regulação para recuperação de perturbações, condição que se agrava à medida que aumenta a frequencia dos comboios, apesar da existencia de términos intermédios. Isto é, a linha circular funcionará melhor se tiver pouca procura. Não é um pressuposto de projeto.
Mas não vejo recetividade nos decisores para aceitarem estes argumentos.

terça-feira, 31 de julho de 2018

IMPRESSÕES DE VIAGEM



Verão de 2018, do Algarve/Sotavento a Lisboa


Simpatia do agente na automotora diesel vetusta, quase me obrigou a mostrar o BI e obter o desconto entre o sotavento e Faro (quererão mesmo acabar com a ligação a Bom João?) e tranquilizou-me, o Intercidades vai esperar (tinha sido suprimido o regional que daria a ligação em Faro; que passava 17 minutos depois do suprimido); ao mesmo  tempo que visava os bilhetes e fazia o serviço de portas, telefonava pelo telemóvel para fazer uma reserva no intercidades que aguardava (já não havia 1ª, a senhora teve de ir em 2ª, afinal existe procura) e queixava-se baixinho que a sua máquina de revisor estava a dar problemas. Simpatia do pessoal, em época de rarefação dos quadros. Poderia esperar-se mau atendimento, mas não, simpatia. O problema é que, para mim, isto configura uma situação de risco, de quebra de segurança. Antipático que eu sou, mas como dizia Marchionne da Fiat, são os colarinhos azuis que pagam os erros dos colarinhos brancos.
Simpatia no atendimento no bar do Intercidades, mas falta de acompanhamentos para os cafés e meias de leite. Mais contenções ou cativações.
Ai os montes abandonados, telhados abatidos naquelas casas rasteirinhas, felizmente há sinais de trabalho nos campos, nem todas as casas estão arruinadas
Ai a falta de água no lavatório, e de sabão, o simpático de há tantos anos sabão em pó de descida por rotação (será fabricado por uma das casas da especialidade do Porto?). Cortes nas despesas de limpeza… valeu que para a sanita havia água.
Chegados ao Fogueteiro, depois de vários momentos a quase 200 km/h no troço novo a norte de Grandola e até ao Pinhal Novo (queria-se fazer crescer por aqui a ligação de mercadorias ao porto de Sines, mas os “missing links” para a Europa são mais que muitos, não apenas o badalado Évora-Caia) , apesar de alguns movimentos de lacete, a espera sempre antecipada por um slot no canal sobrecarregado com suburbanos. Ai a fé que existe na interoperabilidade quando não há slots disponíveis (slots, intervalos de tempo para utilização do mesmo canal físico respeitando as normas de segurança)

E afinal chegamos com 15 minutos de atraso, depois de partirmos com 25. Um abraço de solidariedade para quem trabalha e bem na CP. Ah, é verdade , dos 102 a admitir na EMEF para repor a manutenção e disponibilidade do material circulante, 60 já lá trabalham, com vínculo precário. As saídas de reformados não substituidos geram vazios na manutenção.
http://fectrans.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=2167:serao-os-102-transformados-em-cerca-de-40&catid=14:transporte-ferroviario&utm_source=newsletter_1459&utm_medium=email&utm_campaign=8informacao-fectrans-106-2018

PS em 6 de agosto de 2018 - Registo com pena as declarações do senhor secretário de estado das infraestruturas, de que "há uma ideia errada de que não há comboios suficientes e que os passageiros estão a perder qualidade de serviço". Não vale já a pena argumentar com negacionistas. Nem lembrar que um indice de disponibilidade de 97% é mau, (quase meia hora por dia sem serviço...). A ameaça do serviço de comboios passar para empresas espanholas, como a RENFE e a ADIF, francesa ou alemã, como a SNCF e a DB, é real.Por um lado, à Espanha interessa uma rede de bitola ibérica em Portugal para amortizar o seu material circulante de bitola ibérica e de bitola variável. A França e à Alemanha interessa o acesso aos nossos portos, a Madrid tambem interessa, pode ser que queiram investir nas ligações em bitola UIC, com o correr dos anos. Apagada e vil tristeza.





quarta-feira, 25 de julho de 2018

Citação de Henry Ford

Citação de Henry Ford, vista no Publico:

"O mais elevado uso do capital não é fazer mais dinheiro, mas fazer com que o dinheiro faça mais pela melhoria da vida. Há uma lei para o industrial, que é: produz bens da melhor qualidde possível, ao custo mais baixo possível, pagando os salários mais elevados possível".

Dirão os economistas sensíveis à escola de Chicago que serão ideias ultrapassadas pelas realidades modernas, mas é interessante pensar que , tal como em muitos outros casos, não há uma escola única de pensamento, não se poderá dizer que há apenas um capitalismo. Talvez os pressurosos comentadores da atualidade política pudessem concluir que afinal capitalismos há muitos, e que não se pretende acabar com todos. A coexistencia pacífica é possível, embora não para todos os casos. Mas para alguns parece que sim... parece-me.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

A bicicleta elétrica - 2


A notícia já tem uns dias. Uma bicicleta elétrica incendiou-se ao subir a Av.Fontes Pereira de Melo, por alturas da Rua Tomás Ribeiro. Logo a EMEL informou que estavam a analisar com a Orbita, o montador das bicicletas, a questão das baterias da bicicleta elétrica. Consta que a bateria explodiu e gerou um incendio que bombeiros apagaram com facilidade. 
De acordo com a informação técnica da Shimano, o fabricante dos principais componentes, há duas hipóteses principais para surgir um incendio nas bicicletas elétricas, ambas porque a potencia obtida é superior à de uma bicicleta sem o apoio da bateria e do pequeno motor:
1 - os travões têm de ter mais potencia de travagem para segurar a bicicleta; para minimizar o inconveniente de uma travagem brusca e consequente queda por cima do guiador (já houve braços partidos) a Shimano insere no circuito de travagem um modulador de fricção, um pouco como o ABS dos automóveis,  para deixar que o esforço de travagem seja também assegurado pelo travão de trás. O sistema de travagem é por roletes, ou de tambor, como mostrado no segundo desenho. Um problema deste sistema é que necessita de lubrificação periódica, e se ela não é feita, a travagem pode ser brusca por mais cuidado que se tenha, e os restos de massa lubrificante seca podem incendiar-se com o aumento da temperatura devida ao atrito no interior do tambor (o que acontece, não havendo lubrificação, mesmo sem atuar o travão em descidas prolongadas)
2 - a bateria é de iões de lítio e tem uma densidade da ordem de 200 Wh/Kg, isto é, os elétrodos estão muito próximos e têm uma grande superfície. O lítio é um metal que, pela estrutura atómica, tem poucos eletrões. Funde a 180º e quando isso acontece o liquido da fusão derrama-se entre os elétrodos e com o curto circuito a bateria explode. Os 180º podem ser atingidos após um esforço violento ou uma sobrecarga ao carregar a bateria. Existe um sensor que monitoriza a temperatura, mas parece que o incidente ocorreu precisamente ao ser experimentada a bicicleta após esse alarme.
Tudo ponderado, embora se possa dizer que os acidentes que ocorreram por provável falta de lubrificação foi por falta de experiencia em funcionamento real e indefinição dos parâmetros de manutenção, o que parece estar resolvido, a assistencia técnica às bicicletas já tem a experiencia tambem com as baterias para reduzir a probabilidade disso acontecer com os utilizadores.

Há 5 anos, sem imaginar o sucesso que iriam ter as bicicletas em Lisboa, escrevi este texto:

Hoje, apesar dos incidentes verificados (parece que existe um incidente todos os 10.000 km, o que deve ser suscetível de melhoria através de uma campanha de segurança rodoviária) e apesar do comportamento pouco cívico dos ciclistas que não querem cumprir o código que veda a utilização dos passeios a ciclistas com mais de 10 anos de idade, tenho razões para me maravilhar com a engenharia das bicicletas elétricas (eu desejaria que o seu motor funcionasse como gerador e colaborasse na travagem, mas seriam mais caras, certamente), especialmente com a caixa de velocidades Nexus, montada no eixo da roda traseira,um prodígio de aproveitamento do espaço para conseguir 7 relações de binário, e cujo princípio tento mostrar no primeiro desenho.

Bons passeios, tenham cuidado com os automóveis (deviam cumprir os limites de velocidade, mas há falta de uma campanha de mentalização) e não andem nos passeios, assustam os velhinhos como eu, quando aparecem de supetão por trás, sem tocar a campaínha, sequer



Fontes:








terça-feira, 17 de julho de 2018

Investigação de acidentes

A investigação de acidentes é uma atividade essencial para a prevenção de acidentes. Como dizem as normas e teoricamente é reconhecido em Portugal, as investigações não se destinam a "apurar responsáveis e culpados" mas sim a encontrar as causas e circunstancias dos acidentes e as medidas e recomendações para evitar que eles se repitam ou, pelo menos, sejamminimizadas as consequencias. Trata-se de uma especialidade da análise de riscos, e infelizmente é pouco divulgada pela comunicação social, que aparentemente prefere ações mais punitivas.
Isto a propósito de uma série de acidentes recentes que me chocam por terem ocorrido e provocado mortes, mas porque a comunicação social deixou de se interessar, isto é, passados uns dias ninguem fala do acidente, as causas não forma ainda investigadas e portanto não foi cumprido o procedimento para a prevenção do acidente.
Recordo:
- a morte de uma senhora numa passagem de nível em Esmoriz, continuando uma série macabra que evidencia a impossibilidade da exploração de comboios rápidos em vias que não estão segregadas dos peões e em que os passageiros são obrigados a atarvassar as vias (exemplo, estações de Coimbra B e de Alfarelos)
- a morte de um ciclista desportivo e os ferimentos graves noutro numa estrada do Algarve por aparente excesso de velocidade e falta de visibilidade, mas sem cabal esclarecimento
- a morte de 6 trabalhadores numa carrinha na Marateca por aparente desajuste entre a forma de condução e as condições ambientais
- a colisão, felizmente sem mortes, na passagem de nível de Martingança entre o regional Caldas da Rainha-Coimbra e um camião, sem cabal esclarecimento.

Vem também a propósito de um esclarecimento do ministério do planeamento tentando justificar a acumulação de inquéritos do GPIAAF (gabinete de prevenção e investigação de acidentes com aeronaves e de acidentes ferroviários), "branqueando" a gritante e inadmissível falta de recursos humanos para as investigações:
http://webrails.tv/tv/?p=35494

https://www.jn.pt/justica/interior/acidentes-com-comboios-ha-12-anos-na-gaveta-9597095.html

Recordo ainda o meu contacto com o GPIAAF sugerindo em vão um inquérito à morte de duas adolescentes em Vila Nova de Anços, facultando fotografias demonstrando a falta de condições de segurança:
https://fcsseratostenes.blogspot.com/search?q=an%C3%A7os

Também comentei e pus hipóteses sobre o descarrilamento na Adémia em abril de 2017, sublinhando a ausência de esclarecimentos da operadora do comboio causador do acidente:
https://fcsseratostenes.blogspot.com/search?q=ad%C3%A9mia

E finalmente, a página do GPIAAF reconhecendo que ainda não tem pronto o relatório deste descarrilamento:
http://www.gisaf.gov.pt/?lnk=06439779-47de-4de6-beae-488352ccb7ab

Assim é muito difícil, e não estou a pôr em causa a competência técnica e a honestidade de quem trabalha no GPIAAF. Mas se não há recursos humanos, é mesmo muito difícil, é mais um sintoma da degradação de serviço público de transportes (e privado, no que toca aos operadores que não esclarecem as causas dos acidentes em tempo útil)








João Semedo


Com muito respeito pela figura e pelo pensamento de João Semedo, reproduzo o excerto da sua última intervenção na Assembleia da República ( https://www.rtp.pt/play/p2378/e357071/imperio-dos-sentidos, instante 2.00):

"As PPP transformaram o Serviço Nacional de Saúde na banca de investimentos, no negócio privado da saúde e não há uma só boa razão para que assim continue a ser."

terça-feira, 3 de julho de 2018

Para a direção de segurança da CARRIS







Exmo(a)s  Senhore(a)s 

Tendo-me surpreendido com uma situação descrita no desenho que anexo, e considerando que ela configura um risco classificável como intolerável, o que por razões de segurança poderá implicar responsabilização da vossa empresa no caso de ocorrencia de acidente, deixo à vossa consideração a sua descrição, desaejando a tomada de medidas mitigadoras.


Dados:
- a distancia da testa do autocarro ao eixo dianteiro é da ordem de 2m
- o espelho retrovisor frontal direito encontra-se a cerca de 1,60m do nivel do passeio e alarga o contorno do autocarro cerca de 50cm no sentido horizontal (representado no desenho por uma pequena seta)
- ao descrever a curva numa rotunda, mesmo respeitando o traço laranja no pavimento a 20cm do lancil (a traço interrompido no desenho),  a ocupação do espaço do passeio acima de 1,60m a contar do nivel do passeio pode atingir cerca de 1m a contar na horizontal do lancil para o interior do passeio (curva a traço-ponto).

Trata-se pois de uma situação grave, que poderá provocar um acidente em peões com mais de 1,60m de altura e que circulem a 90 cm da borda do passeio, distancia normalmente de segurança.



Esperando o seguimento que a situação merece (subida do retrovisor, retrovisor recolhível, subsituição por câmara de TV, detetor sonoro de ultrapassagem do plano vertical do lancil...),

apresento os melhores cumprimentos