segunda-feira, 4 de julho de 2011

Nissan GTR e Mercedes Viano Avantgarde

A insistencia com que os importadores de automóveis de luxo anunciam os ultimos modelos suscita em mim a curiosidade de saber quanto da ultima fatia de 12 mil milhões de euros do empréstimo da troica vai ter aos fabricantes destes automóveis.
Isto por analogia, por exemplo, com a medicina. Se os canais lacrimais não estão bem desentupidos, o oftalmologista  põe umas gotas de um liquido verde nos olhos e vê se ele aparece no nariz do paciente.
Podia experimentar-se, pôr uma marca nos dinheiros do empréstimo e ver se vai parar à Nissan ou à Mercedes.
Ou simplesmente, obrigar os senhores compradores a apresentar no ato da compra uma declaração do ministério das Finanças indicando o montante do dinheiro provindo da tal fatia. De caminho, podia tambem taxar-se a aquisição com uma taxa extraordinária, correspondente a 50% da diferença entre o preço do carro antes de impostos e o salário minimo nacional.
Viano é uma carrinha Mercedes para 6 passageiros instalados em poltronas de executiva e com pouco espaço para bagagens (um carro para a família, como diz o anunciio?!). A potencia do motor é de 258 cavalos.
O Nissan GTR é um desportivo com 530 cavalos de potencia, uma aceleração próxima de 1 G e um preço de venda ao publico de 125.000 euros.
O nome do modelo da Mercedes faz lembrar a teoria das vanguardas e das elites, não é?

domingo, 3 de julho de 2011

Congratulations, Royal Society, for yours 350 years

Congratulations, Royal Society (British Academy of Sciences - http://en.wikipedia.org/wiki/Royal_Society) by yours 350 years.
You are the scientific method to work, so your motto is "no words" (nullius in verba) and contribute a lot towards the development of technology and its benefits to mankind.
Science moves through observation, experimentation, the formulation of the question, by the hypothesis test, for the challenge by referendum.
And especially, as you from the beginning evidence, for the dissemination of results.
Science moves in opposite direction of the economy, in which secrecy is the lifeblood of business, in which asymmetric information allows a privileged group of more gains that are not in the service of humanity, as the achievements of Science and Technique does.
And the politicians who get the votes of the people have not wanted to admit being wrong, or even realize it yet, have not studied the history of science, and want everything to continue as is.
But we believe in science, is not it?
Transformation in the service of humanity.






Parabens, Royal Society (Academia das Ciencias inglesa - http://en.wikipedia.org/wiki/Royal_Society  ), pelos teus 350 anos.
Tu és o método científico a funcionar, por isso o teu lema é "não por palavras" (nullius in verba) e contribuiste e muito para o desenvolvimento tecnológico e os seus benefícios para a humanidade.
A Ciência move-se pela observação, pela experimentação, pela formulação da pergunta, pelo teste da hipótese, pela contestação, pelo referendo.
E especialmente, como tu desde o princípio provaste, pela disseminação dos resultados.
A Ciência move-se em sentido contrário ao da Economia, em que o segredo é a alma do negócio, em que a informação assimétrica permite a um grupo de privilegiados obter mais valias que não estão ao serviço da humanidade, como as conquistas da Ciência e da Técnica.
E os políticos que conseguem os votos das populações ainda não quiseram dar o braço a torcer, ou sequer ainda não perceberam isso, não terão estudado a História da Ciência, e querem que tudo continue como está.
Mas nós acreditamos na Ciência, não é?
Na transformação ao serviço da humanidade.

sábado, 2 de julho de 2011

Impostos sobre os bancos

Quem diria, Durão Barroso, em Abril de 2011, concordou com Ilda Figueiredo no combate à elisão fiscal (fuga ao pagamento de impostos através da negociação com empresas -fantasma off-shore) e com a taxação das mais valias dos bancos (na minha humilde e ignorante opinião, seria mais prático taxar as transações, mas enfim).
http://www.agenciafinanceira.iol.pt/dinheiro/impostos/barroso-mais-valias-bancos-impostos-comissao-europeia-agencia-financeira/1259004-5240.html
E cumpriu, pelo menos em parte, com o anuncio em 29 de junho de 2011, pela UE, do imposto sobre os bancos .
http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=493385
E eu que pensava que não ligavam nenhuma a quem protesta contra as desigualdades devidas aos  mecanismos sigilosos financeiros internacionais.
Bem, ainda precisamos de aguardar para ver se os tais impostos são mesmo a valer, para não serem só os  trabalhadores por  contem de outrem a suportar os sacrificios, para a célebre frase da senhora Helmsley não ser tão atual ("nós, milionários, não pagamos impostos, só os pequenos contribuintes").

Hidrogénio, combustível




Interessante esta fotografia.
Um senhor com ar pacífico e displicente enche o depósito do seu automóvel num posto de combustível.
Parece uma cena vulgar mas não é.
O combustível é hidrogénio.
A fotografia não é do futuro, é do presente, tirada na Califórnia, onde circulam automóveis movidos por pilhas de combustível (fuel cells), os Honda Clarity, e onde existe uma rede de postos de combustível hidrogénio.
Parte significativa do hidrogénio tem origem em produção eólica e eletrólise junto do posto de combustível.
Por razões de ordem física (por exemplo, 1 litro de gasolina equivale a 9 kWh ; dificilmente as baterias de lítio poderão ultrapassar o rendimento de 0,2 kWh/kg; o consumo de energia é da ordem de 0,4 kWh/km), os automóveis elétricos movidos simplesmente a partir de baterias não parecem ter grande futuro para utilizações diárias de mais de 100 km.

À atenção de quem está a investir no programa de mobilidade elétrica, e de quem se interessa pela economia da produção de energia a partir das eólicas.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Não em meu nome IV - privatizações

Não sendo o humilde escriba economista, foi no entanto obrigado na sua vida profissional a fundamentar com análises de custos e beneficios, nas suas propostas,  todo e qualquer investimento em sistemas, equipamentos e até, investimentos imobiliários (evidentemente que as instancias decisórias não deram andamento à proposta de um grupo de técnicos de que fiz parte, mas tambem não foi dado andamento à alternativa que as instancias decisórias quiseram acordar com a câmara municipal de Lisboa...).

Por isso me sinto habilitado como cidadão e como técnico a exprimir a minha discordancia relativamente às intenções de privatização no domínio dos transportes (considerando as experiencias negativas em Inglaterra), da energia (considerando as dificuldades de coordenação da distribuição de energia em redes malhadas de elevada potencia de curto circuito de poli-exploração) , dos CTT (considerando que esta empresa é um fator de coesão nacional) e da CGD (considerando que o seu papel regulador é uma arma contra os efeitos da especulação financeira).

Mas o que motiva diretamente este texto é a noticia do DN que acompanha o anuncio pelo senhor primeiro ministro das privatizações  das participações de 25% na EDP e de 51% na REN (o simples facto de atualmente a participação na REN ser maioritária indicia a preocupação dos técnicos em garantir a referida coordenação, que será depois mais dificil, embora os senhores economistas possam explicar de outra forma) .
Informa o DN que será possivel vender a participação na EDP por
2244 milhões de euros
e que anualmente os dividendos recebidos pelo Estado são de
155 milhões de euros
o que quer dizer que o ativo de 2244 milhões de euros rende anualmente
6,9%.

E a participação na REN por
675,4 milhões de euros
que dão dividendos de
45,7 milhões de euros
que correspondem a um rendimento anual de
6,8%
                                               
Evidentemente que aqui temos a conversa do costume, que não são só os dividendos que entram na conta porque há os impostos e o endividamento da EDP é enorme.
Claro, se ela paga as obras das barragens e as torres eólicas que deveriam ser contabilizados como investimentos nacionais, e se o preço do kWh é inferior ao custo de produção, é evidente que tem de haver endividamento e que qualquer companhia privada vai querer isso resolvido, isto é, não vai subsidiar as obras nem os consumidores e o preço do kWh vai subir (coisa que é inevitável, mas seria desejável, com ou sem privatização, haver um plano de atualização progressivo e ponderado pela capacidade financeira dos consumidores, o que significaria que um banco teria de pagar o kWh a um preço mais elevado do que o cidadão desempregado; a experiencia ensina que, quando isso não acontece, existirá um mercado negro perfeitamente ilegal e inseguro de distribuição de eletricidade ) .

Ora, apesar dos meus limitados conhecimentos de economia, existe lá em casa uma regra que, nas circunstancias atuais, fixa os limites de rendimento para venda, seja do que for, em condições de emergencia ou de falta de interesse em manter a coisa, em 2%, e em condições normais, em 1%.
Isto é, a coisa vende-se se, havendo pressa em vender, o comprador oferecer 50 vezes o que a coisa rende por ano.
Ou, se não houver pressa, o comprador oferecer 100 vezes o rendimento anual.

Aplicando este critério às participações, resulta como valor minimo (considerando a situação de aperto que se vive) para venda:


da EDP:  7750 milhões de euros
da REN:  2290 milhões de euros


Seriam então estes os valores minimos que eu votaria em assembleia de acionistas, apesar de me fazer impressão estar a vender aneis que depois já não podem render (embora em qualquer altura se poderá renacionalizar uma empresa se houver fundamento para isso).

Infelizmente apenas me cabem 4,7% (percentagem relativamente ao universo de eleitores, dos votos na força politica em que votei), o que reconheço é muito pouco quando comparado com os acionistas dos partidos do governo (29,7%) e especialmente, quando comparado com os acionistas abstencionistas, de voto branco ou anulado (43,5%).

Tudo ponderado, eu achava melhor deixar estar as participações e atuar antes no tal plano progressivo das tarifas e na clarificação dos investimentos (recorrer ao QREN, o que exige elaboração de projetos de pormenor).

Pelo que é legítimo privatizar como se anuncia, mas não em meu nome.

Discutir política de transportes com qualificativos - a suspensão do TGV

Qualificativo: que exprime a qualidade ou qualidades de uma ação ou pessoas.

Primeiro, oiço um analista económico-político, na televisão, qualificar a intenção do senhor primeiro ministro de privatizar a CGD como juvenil.
Depois corrigiu, talvez por se ter dado conta de que não devem ser ditas verdades de chofre em direto, para "liberal", no sentido de escola económica.
Retenho a importancia e a inter-relação dos dois qualificativos: juvenil e liberal.

A seguir, leio um dos comentadores do DN, classificando como amadorismo e ligeireza a forma como foi apresentado o corte de 50% do subsídio de Natal acima do salário mínimo (com a agravante do senhor primeiro ministro ter dito, em plena campanha eleitoral, que era um disparate acabar com o 13º mês, embora formalmente acabar com  50% do excesso sobre o salario minimo não seja acabar com o 13º mêsm e ter dado a sua garantia de que eventuais ajustamentos seriam canalizados para impostos sobre o consumo e não sobre o rendimento das pessoas; dir-se-ia que certificados do tesouro com prazo de resgate de 10 anos seria menos feio...).

Entretanto, a propósito do balde de água fria que vem de Espanha questionando se a intenção é mesmo de suspender as obras do TGV para Madrid (depois do acordo firmado com Espanha há anos, depois de Espanha ter investido nas obras do seu lado, depois da EU ter alocado as respetivas verbas a uma rede intraeuropeia, e considerando a maior eficiencia enegética e menores emissões de gases com efeito de estufa por passageiro-quilómetro do transporte ferroviário, tudo argumentos de peso para ter cuidado com o que se diz), o DN cita uma fonte: "essas coisas (suspender o TGV) podem ser ditas numa campanha eleitoral, mas agora não", como quem diz que se aceitam críticas infundadas numa campanha eleitoral, como quem alardeia má-língua na conversa de café, mas quando se tem responsabilidade deve fundamentar-se uma proposta.

É um fado muito português.

Estamos a repetir com o TGV o que se passou com a água e o Alqueva (atenção que parte significativa da bacia hidrográfica que alimenta o Alqueva é território nacional).
Assinou-se um acordo nos anos 60.
Depois Espanha executou obras do seu lado, enquanto do lado português se discutia o sexo do anjos e freudianamente se recusava o avanço decisivo.
O governo de 1972 deu uma timida luz verde; o governo de Vasco Gonçalves, o V provisório, acendeu a luz verde com a intensidade máxima que lhe foi possível; os governos a seguir tentaram suspender, mas não conseguiram, embora tivessem feito um bom e prolongado não-trabalho (haverá algum economista poupadinho que diga agora que foi dinheiro mal gasto?).
Como suspender o TGV, agora.
O TGV e a bitola europeia para as mercadorias do porto de Sines (outro elefante branco dos anos 60/70, que de repente passou de elefante branco a oportunidade extraordinária para a economia portuguesa) e das plataformas alentejanas.

Durante a campanha eleitoral, pedi a uma amiga minha que muito prezo, destacada militante do partido agora no governo, que transmitisse às suas hierarquias que a suspensão do TGV era incompatível com os argumentos que citei acima, que é sempre possível abrandar o ritmo das obras, mas pará-las é das últimas coisas que se deveria fazer (é aquela questão da física que foi dada nas aulas em que os decisores faltaram: a energia necessária para o arranque de um móvel é superior à energia necessária para o manter em movimento) . E que todo o esforço se deveria concentrar em negociar o aumento da comparticipação dos fundos europeus através do QREN (a grande dificuldade do QREN é a exigencia da elaboração de projetos rigorosos, não basta definir intenções, mas existe quem os tenha feito e quem  seja capaz de os fazer).
Em vão.

Para mim, isso significa ignorancia das variáveis significativas da questão, incapacidade de ouvir quem tem um pouco mais de experiencia em transportes e dificuldade de compreender e distinguir o essencial do acessório.
Que o mesmo é dizer, que não me parece ser possível ter um pingo de confiança numa política subordinada a tais qualificativos (juvenil, liberal, amador, ligeiro, critico infundamentado).
O que é uma pena, em assuntos de transportes, não haver confiança nos decisores, e estes não terem confiança em quem lhes explica as coisas.

Resta a esperança que os homólogos espanhois expliquem melhor do que este humilde blogue o que é uma rede europeia de transportes (não confundir com rede inter-regional ou interurbana nacional).

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Não em meu nome III - ao cimo das escadas

Este texto, propositadamente, não é acompanhado  por nenhuma fotografia.
Talvez pudesse concorrer a um prémio, mas achei que não devia tirar a fotografia.
Não por estar a aproveitar um modelo sem lhe dar a justa retribuição, mas por pudor.
O homem era jovem e estava depositado como uma rodilha ao cimo das escadas mecânicas da entrada do metro da rua do crucifixo.
Não deveria ter ainda 30 anos, pelo aspeto da barba, descuidada, evidentemente, escura e não farta.
Cabeça descaída , olhos fechados e rosto sujo e inexpressivo.
Os sapatos terão sido ditos de vela, quando fabricados.
As calças são claras, de verão, possivelmente retiradas de um contentor de recolha de roupas usadas ou distribuidas por uma associação benificente, mais preocupada em fazer alguma coisa do que eu que só escrevo.
Tem vestido um blusão de fazenda, usado mas não roto, e a tiracolo uma mala, de cobrador.
É o que distingue os pobres de agora dos pobres de há quarenta anos.
Já não andam rotos nem descalços.
Mas este mal andará, deve ter sido levado para ali e ao fim do dia será recolhido juntamente com o boné que estende inconscientemente, mesmo ao lado do corrimão deslizante de borracha, que por vezes aflora.
 A forma como o corpo e as pernas distribuem o peso pelo pavimento e pelo bastidor da escada, como um dos braços se projeta para trás e o outro para a frente, com o boné para as moedas, tem um valor estético, de belo horrível, talvez por ser um corpo jovem, doente, fisicamente e mentalmente, mas um corpo jovem.
Imagino que esteja na mesma posição da semi-deusa grega arrastada por um policia numa das manifestações que mostrei numa fotografia do DN.
Por isso tenho pena de não registar a cena, mas por pudor não consigo.
Atrás de mim, um cidadão pára por momentos, com uma expressão de incredulidade.
Acho-o parecido com o escritor Miguel Real, olhos muito vivos e estupefactos por trás das lentes grossas.
Gostaria de trocar impressões com ele.
Descemos, ambos parados nos degraus da escada mecânica, ele atrás de mim.
Oiço-o desabafar "merda de país".
E quando oiço isto salta-me uma lágrima, assim, sem mais nem menos, como uma donzela.
De impotencia.
De impotencia porque não vou secar a lágrima depositando uma moeda no boné do pobre esquizofrénico ou bipolar ou drogado, simplesmente miserável.
Porque Victor Hugo morreu há mais de cem anos e as universidades que ensinam economia ao mundo ainda não sabem, ou já esqueceram, ou não querem saber, como evitar que as pessoas se tornem miseráveis.
Porque tambem tenho pudor de brincar à caridadezinha, como diz a canção de José Barata Moura.
Porque àquele homem, não o quero escondido, quero-o tratado.
Porque acredito que os impostos servem para o bolo da comunidade e para serem distribuidos conforme as necessidades, e segundo critérios de prevenção, antes que uma pessoa esteja reduzida àquele farrapo.
Isso consegue-se com medidas de desenvolvimento da economia, não apenas com medidas de austeridade, porque só há aumento de eficiencia se houver desenvolvimento, e vice-versa.
Consegue-se com rapazes e raparigas com o curso de técnico de serviço social a fazer o levantamento destas situações e  a listar as ações de prevenção e de remedeio.
E para além dos impostos, uma comunidade bem organizada devia poder ter empresas rentáveis a produzir para o bem comum.

Devolvo as acusações que fazem os senhores presidente, ministros, secretários de estado, comentadores encartados, senhores bem postos com lugares de destaque nas instancias económicas e financeiras nacionais e supranacionais.
Não são as semi-deusas gregas sem emprego que depositaram aquele homem ao cimo das escadas mecanicas da entrada do metro da rua do crucifixo.
Nem são os meus colegas que olham para a contratação coletiva, que lhes garantia alguma tranquilidade e que agora a vêem como um objeto cortante, que fere os passageiros que têm menores rendimentos e garantias do que eles, ou que só viajam de metro a caminho do centro do desemprego ou da segurança social.
É do dominio publico que o sistema financeiro internacional se descontrolou, desde o excesso de crédito sem contrapartidas de valores e bens produzidos, até aos off-shores e ao sigilo bancário de paises como a Suiça.
Não precisamos de luxos, nem gadgets, nem de automóveis com 300 cavalos de potencia, nem de coeficientes de Gini próprios de paises de apropriação ilegítima.
Não é um problema de economia.
É um problema de engenharia, é um problema de redes de distribuição de elementos, saber para onde vai o dinheiro e onde há dinheiro para aplicar em soluções com retorno, não em paliativos, para poder haver bolo a repartir, e ir lá buscá-lo (ainda não temos a taxa Tobin a funcionar, nem impostos sobre os off-shores, nem imposto sobre os lucros dos bancos e dos grandes grupos? e não querem que eu diga que em engenharia estas coisas já estariam em operação?).
Ficarão os senhores engravatados que querem explicar às pessoas o que elas devem pensar, satisfeitos apenas com os dois mil milhões de euros que 50% do 14º mês vai poder render?
Não precisamos de mudar leis, nem regulamentos, nem estruturas (discordo da troica, sim, mas penso que conheço melhor a realidade portuguesa do que eles, e sei tambem que structure follows strategy).
Precisamos de organização e de trabalho produtivo, não de desemprego, parece-me que deve ser essa a estratégia; nas empresas há quem saiba trabalhar.
Deixem a estrutura descansada.
Não repitam os erros da privatização dos transportes de Tatcher, deixem-se de juvenis ímpetos de privatização; os CTT? já pensaram que nos USA nem os mais empedernidos dos republicanos pensam em privatizar um fator de união nacional? E querem que as companhias que comprarem a TAP façam depois serviço público para as ilhas?
Façam isso, já que a lei o permite, mas não em meu nome.
Preferia que não fizessem, em nome do enrodilhado ao cimo das escadas mecânicas da entrada do metro da rua do crucifixo.
E especialmente, quando a divida privada deste país é significativamente maior do que a pública, preferiria que lessem com atenção a quadra do poeta algarvio António Aleixo:

                                                   Vós que lá do vosso império
                                                   prometeis um mundo novo    
                                                   calai-vos que pode o povo    
                                                   querer um mundo novo a sério

PS - O senhor primeiro ministro, apresentando em 29 de Junho de 2011 o programa de privatizações na Assembleia da Republica, esclareceu que o que espera obter com o imposto extraordinário sobre o 14º mês não são dois mil milhões de euros como dito acima, mas 800 milhões de euros.

A escola de Carlos Drummond de Andrade

Esperando não cometer nenhuma violação das sacrossantas leis do copyright, acho que Carlos Drummond de Andrade, poeta brasileiro de primeira grandeza, tem um recadinho para o novo ministro da educação, descontando que a escola deve ser laica, claro, mas percebe-se a intenção:




"Para Sara, Raquel, Lia e para todas as crianças"
Carlos Drummond de Andrade

 Eu queria uma escola que cultivasse
 a curiosidade de aprender
 que é em vocês natural.

 Eu queria uma escola que educasse
 seu corpo e seus movimentos:
 que possibilitasse seu crescimento
 físico e sadio. Normal

 Eu queria uma escola que lhes
 ensinasse tudo sobre a natureza,
 o ar, a matéria, as plantas, os animais,
 seu próprio corpo. Deus.

 Mas que ensinasse primeiro pela
 observação, pela descoberta,
 pela experimentação.

 E que dessas coisas lhes ensinasse
 não só o conhecer, como também
 a aceitar, a amar e preservar.

 Eu queria uma escola que lhes
 ensinasse tudo sobre a nossa história
 e a nossa terra de uma maneira
 viva e atraente.

 Eu queria uma escola que lhes
 ensinasse a usarem bem a nossa língua,
  a pensarem e a se expressarem
 com clareza.

 Eu queria uma escola que lhes
 ensinassem a pensar, a raciocinar,
 a procurar soluções.

 Eu queria uma escola que desde cedo
 usasse materiais concretos para que vocês pudessem ir formando corretamente os conceitos matemáticos, os conceitos de números, as operações... pedrinhas... só porcariinhas!... fazendo vocês aprenderem brincando...

Oh! meu Deus!

Deus que livre vocês de uma escola
 em que tenham que copiar pontos.

 Deus que livre vocês de decorar
 sem entender, nomes, datas, fatos...

 Deus que livre vocês de aceitarem
 conhecimentos "prontos",
 mediocremente embalados
 nos livros didáticos descartáveis.

 Deus que livre vocês de ficarem
 passivos, ouvindo e repetindo,
 repetindo, repetindo...

 Eu também queria uma escola
 que ensinasse a conviver, a
 coooperar,
 a respeitar, a esperar, a saber viver
 em comunidade, em união.

 Que vocês aprendessem
 a transformar e criar.

 Que lhes desse múltiplos meios de
 vocês expressarem cada
 sentimento,
 cada drama, cada emoção.

 Ah! E antes que eu me esqueça:

 Deus que livre vocês
 de um professor incompetente.

A criação imperfeita, o cosmos, a vida e o código genético da natureza, de Marcelo Gleiser

Aproveitando a felicidade de ainda termos uma Antena 2 a funcionar, dedicada a assuntos de cultura, enquanto não cai a espada de Damocles anunciada pelo novo senhor secretário de estado da cultura que acha as estações culturais uns guetos, ouvi este programa:


O entrevistado era Marcelo Gleiser, físico brasileiro, professor nos USA, que, entre outras coisas falou das observações de supernovas e da descoberta em 1998 por Berkeley, na California, e por uma universidade australiana, de que o universo se encontra em expansão acelerada.
A conclusão foi devidamente testada experimentalmente, podendo desde então afirmar-se que Einstein poderia ter dito que não tinha dúvidas, quer da capacidade da espécie humana de expandir o erro, quer da expansão do universo. Também se pode afirmar que 73% da energia do Universo é desconhecida (energia escura, responsável pela expansão acelerada, e escura por só se poderem observar os efeitos gravitacionais, não os do radiamento), e que só 4% da matéria é composta pelos nossos conhecidos eletrões e protões.

Temos assim de nos contentar com a nossa crescente ignorancia, embora  isso de nada valha se quisermos discutir política ou economia. Mas ao menos já sabemos que a perfeição do universo é ilusória, que a teoria final da unificação parece estar cada vez mais longe (embora quem mande goste de exibir ideias perfeitas muito arrumadinhas nas suas cabeças e determinadas nos seus programas) , que as assimetrias e imperfeições dominam, juntamente com os erros de corrupção genética (lembram-se da teoria de que um tronco comum teve um desvio do gene de proteção contra o desenvolvimento de tumores cerebrais e o cérebro do antepassado começou a desenvolver um cortex pré frontal?).

Fascinante, não é? Mais informações sobre o livro em 

Tambem interessante neste mesmo programa da Antena 2 a entrevista do novo ministro da educação, Nuno Crato, feita uns meses antes da nomeação. Interessa reter as afirmações de que o ensino não deverá desprezar, como até agora, a abstração, a memorização, a realização de exames exigentes e a organização sistemática dos programas.
Assunto a seguir para verificação da capacidade de aplicação do que parece ser uma teoria correta da educação desenvolvida a partir da experiencia real, e tão desprezada pelas senhoras anteriores ministras da educação, perfeitamente imunes aos avisos da navegação emitidos.

Pena se aplicarem os cortes à Antena 2.



Teoria de Mercier e de Sperber

A teoria de Mercier e de Sperber diz que o cérebro humano e a sua capacidade de raciocínio são fenómenos predominantemente sociais e não individuais, que se desenvolveram ao longo da evolução com o fim de se poder dominar o interlocutor pela argumentação.
Assim se explicaria por que a razão não consegue convencer todos.
É natural que assim seja, o nosso cérebro é o mesmo dos lagartos dos primeiros passos da evolução, a que foram acrescentadas peças.
O gene da dominação do próximo continua ativo, só se juntou a capacidade de raciocinar.
Há uns comportamentos desviantes de umas minorias, que são os praticantes do método científico, que utilizam a razão para se aproximarem da verdade (embora seja preciso desenvolver teorias várias para nos aproximarmos do que é isso da verdade), depois de fazer muitas perguntas e de terem muitas dúvidas, mas com a condição de poder testar experimentalmente a teoria e de poder contestá-la ou referendá-la.
Mas não é assim que se  pratica na vida corrente, e basta assistir a um debate ou a uma entrevista de um senhor ministro ou senhor secretário de estado, para ver isto, que as pessoas rejeitam o que contraria as suas convicções.
Ou basta assistir à chegada de um novo administrador de uma empresa pública, que emula um senhor ministro ou senhor secretário de estado.
Já sabe o que vem fazer, não precisa de perguntar aos agentes diretos o que se passa na realidade das frentes de trabalho, e o que vem fazer é adaptar a realidade às suas convicções, e não o inverso.

Então, podemos ser utópicos e ingénuos e imaginar que os praticantes minoritários do método científico acabarão por convencer as maiorias a utilizar o método. Será uma religião, quase.
Ou então, podemos viver assim, mas chamando a atenção para uma coisa que tem de se desenvolver e que vem muito bem explicada na Sabedoria das Multidões: é que, precisamente por o cérebro humano estar vocacionado para dominar o interlocutor pela argumentação, também está vocacionado para funcionar melhor em grupo. Os membros de um grupo (desde que não exista polarização exagerada de um lider) resolvem melhor uma questão do que cada um dos elementos individualmente. É por isso que existe copianço para compensar a preparação individual deficiente, não será?

terça-feira, 28 de junho de 2011

Made in Portugal

Com a devida vénia ao DN.

O DN anda a animar os seus leitores com exemplos de boa produção nacional.
Lembrou-se então de perguntar a Bernardo Sasseti que produto nacional preferia.
E não é que o pianista elegeu o metro de Lisboa?
Porque é prático, está  a crescer e é de fácil acesso.
É pena estar a crescer pouco (é pena alguns elevadores e escadas mecânicas não estarem a dar bom acesso), ainda por cima com aquele traçado torto de Oriente para o Aeroporto.
Tambem não podemos exigir grandes taxas de crescimento nestas alturas, embora haja dinheiro para continuar a comprar automóveis privados, consumir petróleo e emitir gases com  efeito de estufa...
E é interessante ouvir o outro argumento do musico: que andar de metro lhe permite olhar as pessoas, compreendê-las melhor.
Como diria o capitão Haddock, macacos de mordam se isto não vale o investimento em mais quilómetros (de preferencia segundo um plano de expansão mais consistente com a região metropolitana de Lisboa do que o ultimamente apresentado à comunicação social, e um pouco maior do que o presumivelmente desejado pelo novo governo).
Retribuamos.
Bernardo Sasseti é um bom pianista (eu, como sou tendencioso, preferiria que ele se dedicasse menos ao jazz, mas que é um grande musico, é) e nós gostamos.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

The seven blunders, ou as sementes da violencia, segundo Gandhi

The seven blunders or roots of violence, segundo Mahtma Gandhi

Wealth without work.
Pleasure without conscience.
Knowledge without character.
Commerce without morality.
Science without humanity.
Worship without sacrifice.
Politics without principle.
Rights without responsability
 

Os sete erros graves são as sementes da violência segundo Mahtma Gandhi (o oitavo foi acrescentado pelo neto de Gandhi, Arun Gandhi; tradução do sexto erro da responsabilidade do humilde escriba, que não crê que contrarie a ideia de Gandhi)

Riqueza sem trabalho.
Prazer sem consciência.
Conhecimento sem caráter.
Comércio sem moralidade.
Ciência sem humanidade.
Religiosidade ou ideologia sem espírito de sacrifício e sem tolerância.
Política sem princípios.
Direitos sem responsabilidade

O fogo, inimigo silencioso e invisível

A perceção tem destas coisas, e é disso que o "marketing" e a propaganda gostam.
Já dizia o meu colega do Porto que as tias dele gostavam muito dos comboios amarelos do metro do Porto que faziam a ligação da Campanhã a Rio Tinto. A perceção era que os comboios, da CP, eram do metro do Porto por serem amarelos.
As senhoras tinham uma certa razão, porque o serviço da Campanhã para Rio Tinto poderia ser um serviço urbano, não necessariamente suburbano, mas a razão não tem que sobrepôr-se à perceção.

Seja então a perceção que os cidadãos e cidadãs terão dos estragos feitos pelo fogo no corrente ano, comparativamente com 2010.
É possivel que os cidadãos e cidadãs respondam que os incendios começaram agora e esperamos que seja melhor este ano.
Infelizmente, o fogo é mesmo um inimigo invisivel (só é visivel à noite, para prazer dos pirómanos, pelo que as televisões se deveriam abster de transmitir  imagens noturnas) e silencioso, que não se faz ouvir nas cidades.
Segundo a Autoridade Florestal Nacional, arderam, de 1 de janeiro a 31 de maio de 2011, 1552 hectares de floresta e 5203 hectares de matos.
Em igual período de 2010 arderam 544 hectares de floresta e 1881 hectares de matos.

Isto é, a situação piorou cerca de 3 vezes.


Questionado pela comunicação social, o senhor ministro de quem agora dependem estas questões, provavelmente deixando-se levar pela sua perceção do problema, respondeu que o dispositivo que estava montado se mantem intocável.
Todos nós, ministros e não ministros, deveriamos desconfiar mais da perceção, porque as criticas que se fazem podem basear-se apenas em perceções e não em factos.
Devemos então criticar o dispositivo que se mantem intocável ou deveriamos ter alterado o dispositivo?
Questão dificil de responder  porque, com os cortes já feitos antes da troica, este ano o dispositivo não conta com os meios aéreos de 2010. E dos que dispõe, aplica-se a teoria (segundo o novo dispositivo intocável) da Gata Borralheira, isto é, a diretriz é mandar retirar o avião ao fim de 30 minutos de ataque ao fogo. São tambem utilizados menos 20% de homens do que em 2010 (ainda o dispositivo intocável anterior ao novo governo).

Em resumo, as criticas que se faziam ao anterior senhor ministro da administração interna sobre as debilidades do combate ao fogo não parecem ter até agora alternativa objetiva da parte do novo governo (se isto for verdade, se continuar a ser verdade e se tambem for verdade    noutros setores, poderá dizer-se que a eleição do novo governo resultou de uma perceção pouco ligada à realidade objetiva, mas esta é apenas uma hipótese a testar ).
Assunto a seguir dada a sua gravidade, nomeadamente porque apenas 3% da floresta nacional é pública (lá está, o dogma da privatização não é de aplicação universal,  porque o peso do setor privado é maior do que a perceção acha - ver o que se deixou escrito neste blogue em Setembro de 2010, sendo certo que o que lá se propunha, recurso às verbas do QREN mediante apresentação de projetos de prevenção e racionalização florestais, não teve seguimento objetivo: http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/09/oratoria-da-floresta-simpatica.html ).

Por outro lado, considerando o outro inimigo, tambem silencioso porque nada ouvimos que estamos a dormir e moramos longe de Albufeira, o dos assaltos sistemáticos a turistas ingleses durante a madrugada (será verdadeira a hipótese que apareceu num jornal de que os senhores vândalos preferem assaltar turistas estrangeiros?) e o desastroso panorama da segurança de pessoas e bens neste país, será de esperar urgente anuncio de medidas de tratamento eficaz.
Mas não sei se a perceção justificará, o que objetivamente será uma pena.

Uma decisão dificil: limitar a velocidade nas auto-estradas a 110 ou a 120 km/h?

Uma onda de felicidade varreu os automobilistas espanhois, que voltaram a ter como limite de velocidade 120 km/h em vez dos draconianos 110 km/h.
Senti logo no próprio dia da entrada em vigor do limite de 110 km/h em Espanha, a desenvoltura com que uma matricula de Madrid compensou na A12 o espartilho na auto-pista.
Já não precisa agora de compensar.
Um corredor de fórmula um espanhol declarou que a 110 km/h corria o risco de adormecer na autoestrada.
Estranhei muito essa declaração porque era uma confissão de incapacidade psicotécnica para condução de máquinas em determinadas condições (em vários estados dos USA o limite de velocidade é de 60 milhas por hora, isto é, 96 km/h, por razões de segurança e de economia ambiental).
Infelizmente, existe uma correlação forte entre os limites de velocidade e o numero de mortos na estrada. A lentidão com que se adquire a perceção deste facto decorre dos grandes progressos na segurança dos veículos (até aos anos 80, a maior parte dos automóveis eram máquinas simplesmente assassinas em termos de estabilidade). A perceção seria melhor se as entidades responsáveis não homologassem o constante aumento da potencia dos motores, aproveitando o aumento do rendimento para reduzir menos a cilindrada do que aumentar a potencia.
Os indices de sinistralidade baixam quando se circula em auto estrada, mas o incumprimento dos limites conduz a consequencias mais graves em caso de acidente.
Um risco é a conjugação de dois fatores: a probabilidade de ocorrencia de um acidente e o grau de gravidade das consequencias. Um acidente pode ser pouco provável, mas as suas consequencias (por exemplo, de um acidente a 200 km/h)  levarem a não aceitar o risco.
Por outro lado, a visibilidade das curvas de uma auto estrada é calculada para 120 km/h (aquela conversa de que a 120 km/h são percorridos 33 m/s, sendo o tempo de reação de 2 segundos percorreram-se 67 metros, a que se deve somar o espaço de travagem para um dia de chuva e=v2/2a= 1111/2x4=140 metros, total 207m para a distancia de visibilidade, senão baterá no obstáculo imprevisto), pelo que o risco acima dessa velocidade será suportado exclusivamente pelo condutor.

Mas o limite tinha sido imposto não por razões de segurança, mas por razões de economia da importação de petróleo.
O consumo de combustível a uma velocidade constante (aceleração e força resultante nulas) depende apenas da força de resistencia ao deslocamento, devida ao atrito do automóvel no ar e das rodas no asfalto, e às perdas do motor e transmissão.
Embora de forma não proporcional, o consumo aumenta com o quadrado da velocidade.
Por curiosidade, o atrito no asfalto (variando aproximadamente de forma quadrática com a velocidade) é da ordem de 7 vezes o atrito do ferro com ferro do binómio roda-carril, o que deveria levar os senhores economistas a ponderarem bem os custos específicos do transporte, nomeadamente em percursos como Lisboa-Madrid).
Desconhecendo as caracteristicas de resistencia ao ar do veículo tipo espanhol e das viagens tipo diárias, e sem ligar aos valores dados pelos senhores ministros, utilizei duas curvas empíricas para tentar calcular o diferencial de consumos entre os dois limites de velocidade, e o que isso poderá custar.
De acordo com uma das fórmulas, o diferencial ente os dois limites de velocidade custará diariamente à balança de pagamentos de Espanha 150.000 euros e com a energia desperdiçada poderia operar-se uma central térmica de 30 MW.
De acordo com a outra fórmula, o desperdício diário será de 210.000 euros e a central térmica que poderia funcionar seria de 42 MW.
Evidentemente que estas contas são aleatórias e as economias do limite de 110 km/h serão ilusórias.
Mas contas são contas, e de uma maneira ou outra andamos mesmo a gastar muita energia nas auto estradas, independentemente do autor destas linhas se encontrar tambem entre as fileiras dos perdulários criminosos do desperdício e do desequilíbrio da balança de importações.

Os pressupostos (desconhece-se o perfil tipo dos veículos espanhois, as suas caracteristicas de resistencia ao deslocamento, e as viagens tipo-diárias, de modo que adotaram-se duas hipóteses para os valores de resistencia ao deslocamento) e os cálculos que conduziram aos resultados acima encontram-se em:
https://skydrive.live.com/?wa=wsignin1.0&cid=95ca2795d8cd20fd#!/?cid=95CA2795D8CD20FD&id=95CA2795D8CD20FD%21839&sc=documents

sábado, 25 de junho de 2011

A privatização da RTP - o pesadelo da deriva da Cultura

De repente, uma surpresa, pela positiva.
Nuno Azinheira, cronista de televisão no DN, que eu estava habituado a não ler, por desistir logo no primeiro parágrafo com as angustias dos famosos e as análises das audiencias das novelas e dos reality-shows, de repente, em três curtas crónicas, descreve o essencial da privatização ou não da RTP.
Como não sou especialista no assunto (apenas costumo pronunciar-me sobre os disparates feitos nos outros países com as privatizações de transportes e de energia, e mesmo assim com a reserva de que cada caso é um caso que pode justificar uma ou outra solução, que não há soluções universais), apenas posso aplaudir a clareza e a capacidade de síntese com  que a questão foi tratada.
Basicamente, juntar mais uma estação privada ao ramalhete de estações que já saturou o mercado (coisas que o mercado tem, satura-se... veja-se o caso do excesso de bancos) é tornar a vida mais dificil a todas as estações e, portanto, vai ajudar a piorar o serviço. Mas a situação atual da RTP, com excesso de canais e de absorção de dinheiros públicos, também não é aceitável.
Será assim tão dificil a solução ? Ou formulando de outra maneira, será assim tão dificil conter o apetite dos grupos económicos e financeiros em arranjar negócios para os seus clientes na esfera de atuação do que estrategicamente deve ser publico?
Como diz Nuno Azinheira, o projeto atual da RTP2 é aceitável e a RTP1, se restringisse ao minimo possivel o numero de canais e os custos, seria o desejável.

Mas existe a ameaça do pesadelo (agora sou eu a opinar, já não é Nuno Azinheira) de que uma estação de cultura é um gueto e então deve abater-se (vou mesmo perder a Antena 2? o novo secretário de Estado da Cultura fala em guetos e diz que combate os guetos com uma televisão de pessoas cultas; pessoalmente considero um programa de ação utópico), e de, a tout prix, na opinião do novo primeiro ministro, a RTP é para privatizar (pessoalmente, privatizar a tout prix é apenas um dogma de uma religião, sabendo-se como os dogmas se afastam da realidade e como não há regras universais, à exceção desta mesma regra).

Enfim, de momento e considerando as hipóteses de evolução, os receios são os de que, como já deixado aqui escrito, os Nibelungos tomaram mesmo o poder da Cultura (é uma metáfora). Será que vão conseguir fazer ter saudades da Dalila anterior ministra?

sexta-feira, 24 de junho de 2011

As galdérias e a metáfora

Nem de propósito, como se costuma dizer.
Estava eu à procura de uma metáfora, que eu gosto muito de metáforas, deve ter sido por causa do Pablo Neruda e dos conselhos que dava ao carteiro, por metáforas, por metáforas, se bem que com intenções mais interessantes do que esta minha agora, para aplicar ao pobre sistema financeiro internacional vítima das pequenas economias da periferia da UE (e a propósito, já repararam nesta fotografia em que um grupo de 3 energumenos gregos ataca de mãos nuas a policia, de que se vê um pontapeador, enquanto uma multidão de outros energumenos executa uma perigosa carga, fugindo da policia? ), quando se me depara esta metáfora
ideal, com a devida vénia ao DN.

A de que a marcha das galdérias ou das desvergonhadaxs (slut walk) é a manifestação contra a violencia sexual que chama a atenção para que a violencia é cometida pelo agressor (os herois do Lehman Bros, dos organismos que não vigiaram nem regularam, dos "académicos" sacerdotes dos mercados e da Goldman Sachs, os Paulsen, os Geitner e os Bernanke, que foram premiados com lugares no governo - ver o Inside Job) e não pelas vítimas (as tais economias fortissimas da periferia da UE que condicionam a economia do resto do mundo).
Também me podia ter lembrado da fábula do La Fontaine, a defender o direito à liberdade do lobo comer o cordeiro, por que senão não havia liberdade e os mercados livres eram uma fantasia, mas esta da slut walk é melhor.
Não, é mesmo não, tem de ser explicito, e sim é mesmo sim e tambem tem de ser explicito.
E devo dizer que assim tambem sabe melhor (refiro-me ao sim), como certamente concordarão a manifestante brasileira do cartaz "Sou minha"
 e as manifestantes da Slut walk portuguesa
Manifesto da Slut walk de Lisboa:

Se ponho um decote...não é não!
Se pus aquelas calças de que tanto gostas... não é não!
Se uso burka... não é não!
Se durmo com quem me apetece...não é não!
Se sou virgem...não é não!
Se passo naquela rua...não é não!
Se vamos para os copos...não é não!
Se me sinto vulnerável ...não é não!
Se sou deficiente ...não é não!
Se saio com axs maiores galdériaxs ...não é não!
Se ontem dormi contigo ...não é não!
Se sou trabalhadora sexual ...não é não!
Se és meu chefe ...não é não!
Se somos casadexs, companheirexs, namoradexs ...não é não!
Se sou tua paciente ...não é não!
Se sou tua parente ...não é não!
Se sou imigrante ilegal ...não é não!
Se tenho relações poliamorosas ...não é não!
Se sou empregada de hotel ...não é não!
Se tens dúvidas de que aquilo foi um sim ...não é não!
Se és padre, irmã, rabi ou poojary ...não é não!
Se beijo outra mulher no meio da rua ...não é não!
Se sou brasileira, cabo-verdiana,angolana ou de outro país que sofreu colonização ...não é não!
Se tenho mamas e pila ...não é não!
Se disse sim e já não me apetece ...não é não!
Se sou empregada doméstica ...não é não!
Se adoro ver pornografia ou ler artigos de revista ousada ...não é não!
Se ando à boleia ...não é não!
Se comprei um pacote com desconto para um gabinete de  massagens, não é não!
Se estamexs numa festa swing, numa sex-party ou numa cena BDSM ...não é não!
Se já abrimos o preservativo ...não é não!
NÃO é sempre NÃO.
Quando é SIM, não há ambiguidades ou dúvidas, porque sabemos o que queremos e sabemos ser claras.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Não em meu nome II

Os indignados leram o livro de Stephen Hessel.
Hessel não gostou de ter lutado contra o que lutou (o nazismo e a desigualdade entre os homens) e ver as coisas mal encaminhadas nos tempos que correm.
As receitas dos dirigentes económicos e financeiros contrariam a declaração universal dos direitos humanos, para  qual ele contribuiu.
O programa de privatizações nas áreas da saúde e da educação contrariam o programa para o qual ele contribuiu a seguir à II grande guerra.
Têm os governos legitimidade para fazerem o que fazem. Efetivamente quem não concorda com o programa de privatizações (o que, como já aqui escrito, não é por razões ideológicas, é por razões profissionais e pela experiencia negativa que se teve com as privatizações dos transportes da senhora Tatcher) pertence a uma minoria. No caso português, 29,7% dos eleitores registados votaram nos dois partidos do governo e 46,2% em partidos subscritores do acordo com a troica. Lamento muito, mas esta percentagem devia ser aumentada. Porque assim, há legitimidade para tomarem as medidas que quiserem, tiradas da mesma origem que conduziu o sistema financeiro internacional  ao estado em que está, mas não poderão dizer que o fazem em meu nome, mesmo que eu tenha de concordar com algumas das medidas (que deveriam ser estendidas aos setores de aplicação mais eficiente).
Não em meu nome.

Sintomas preocupantes de pouco contacto com a realidade

Oiço na Antena 2 uma entrevista ao novo secretário de estado da cultura, realizada antes da sua nomeação.
Opinando sobre a RTP2, declarou que discordava da existencia de canais especializados em cultura, porque nos tempos que correm facilmente se transformam em guetos e neles desemboca muita coisa que não é cultura, antes ansia de aparecer nos meios de comunicação social.
Quando o entrevistador delicadamente lhe perguntou, então e a Antena 2? é um canal de cultura... mudou atabalhoadamente de assunto.

Mas talvez tenha razão.
Assim como a anterior senhora ministra da cultura, a Dalila (é uma metáfora) Canavilhas tinha sempre razão, pode ser que o novo secretário da cultura também tenha sempre razão.
Como ele diz, prefere uma televisão de pessoas cultas a uma televisão culta.
Pode ser, embora para mim estas afirmações revelem apenas falta de contacto com a realidade e uma opção talvez economicista de querer poupar dinheiro, achando que os poucos ouvintes da Antena 2, ente os quais me incluo, não merecem um canal exclusivo.
Estou mesmo a ver a Antena 1 incluir programas chatos com a transmissão do Anel dos Nibelungos, ou então, habituemo-nos à ideia de que os Nibelungos assumiram o poder e comportar-se-ão como são e de acordo com os critérios que a nação Nibelunga elegeu como diretrizes para a Cultura dos habitantes das margens do Reno (é uma metáfora).
Isto é, redução progressiva do orçamento da cultura relativamente ao orçamento do Estado (lá se foi o objetivo de 1% do orçamento apesar do PIB da cultura ser cerca de 2,4% do PIB nacional).
E também estou a ver a RTP1, a SIC ou a TVI a transmitir uma entrevista com António Coutinho, presidente do Instituto Gulbenkian da Ciencia, a teorizar sobre a representatividade dos partidos políticos.
Recolhamo-nos ao bunker enquanto os Nibelungos percorrem as margens do Reno (é uma metáfora).

Ben Bernanke, chefe da Reserva Federal dos USA, antes e depois do Lehman Bros, e os receios da Grécia

O senhor diretor da Reserva Federal dos USA, cuja atuação na crise financeira foi retratada pelo filme Inside job de forma muito negativa, manifestou no seu discurso, conforme a noticia referida:
http://br.noticias.yahoo.com/bernanke-risco-cont%C3%A1gio-gr%C3%A9cia-%C3%A9-significativo-191500681.html
grandes receios de contágio pela crise grega, se for introduzida uma moratória no pagamento da divida.

Como bom economista, ao senhor Bernanke deve ser indiferente o sentido físico das coisas como o humilde escriba deste insignificante blogue as considera (ver
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2011/03/fisica-explicada-por-palavras-simples.html      ).
Por isso não se impressiona com a inconformidade dimensional de estar a achar que a economia de um país com um PIB pequeno quando comparado com os da UE e dos USA pode ter tantas consequencias.
Mais uma vez se verifica que a melhor defesa que um criminoso tem é acusar a vítima de ter provocado o crime (é isso, as manifestantes gregas andarão com túnicas demasiado curtas, demasiado provocantes, e depois o crime acontece).
Isto numa altura em que o próprio senhor Bernanke reconhece que o sistema financeiro internacional tem debilidades intrínsecas e não está a recuperar como devia.
Ora preocupe-se mais o senhor com o desemprego, as guerras que os USA espalham pelo planeta (sempre em defesa da democracia, claro), com as desigualdades, com o encarecimento dos alimentos e da energia, tudo coisas incompatíveis com a sua religião liberal.
Se está tão preocupado com o efeito dominó, rode as peças de 90º, que elas já não caem, isto é, o centro de gravidade das peças não sairá do polígono de sustentação. Mas para perceber isso terá de rever os apontamentos de física da "high school" e de abdicar do dogma dos mercados perfeitos, que só na teoria existem. Ou será que faltou às aulas de Física?

domingo, 19 de junho de 2011

Tentativa de resposta a uma questão de Alvaro Santos Pereira num artigo da macroeconomia divertida

Caro senhor Professor

Em primeiro lugar, embora não tenha votado nos partidos do governo, as minhas felicitações e votos das maiores felicidade no dificil cargo, o que será bom para todo o País.
Há uns anos contactei-o no seu blogue, teve a amabilidade de me responder,  mas não dei seguimento ao contacto.

Envio-lhe este comentário, pedindo desde já desculpa para a minha imodéstia em julgar que conheço razões para um problema, porque na sua crónica da Macroeconomia divertida, O valor da Educação,  do NS de 2011-06-18 pediu resposta para a seguinte questão:


Questão de ASP: porque será que se mantém o baixo valor dado à educação pelas gerações de emigrantes portugueses?
Enquadramento:
1- as minhas duas avós eram analfabetas; licenciei-me em 1970, ano em que existiam apenas 30.000 cidadãos e cidadãs portugueses licenciados!!
2 - Portugal atingiu 50% de população alfabetizada no século XX, a Espanha no século XIX, a França no século XVIII, a Alemanha e a Inglaterra no século XVII, a Escandinávia no século XVI, funcionando o respetivo século como indicador do alargamento da capacidade de intervenção na vida económica e no progresso económico por faixas cada vez maiores da população
3 - o que mais me impressionou quando comecei a minha vida profissional no metropolitano de Lisboa, em 1974, foi o baixo nivel de habilitações literárias da maioria dos funcionários (coisa que não se verifica atualmente), quer ao nivel escolar quer ao nivel escolar profissional (o que não impedia o alto nivel profissional de grande parte deles), indiciando a preocupação dos pais em colocar rapidamente os filhos a "ganhar a vida"
4 - só após o 25 de Abril de 1974 se generalizou a preocupação das famílias em assegurar um curso superior aos filhos
5 - a experiencia ensina que, apesar dos acessórios que a tecnologia vai continuamente pondo ao serviço das novas gerações, apesar das melhorias das condições de vida, e apesar do progresso nos conceitos de direitos da mulher, a tendencia natural é as novas gerações reproduzirem os comportamentos da geração anterior, desde hábitos de alcoolismo (ou outras drogas) ao desprezo pela cultura entendida como clássica, ao desprezo pelas regras de segurança rodoviária, ou ao prosaico desprezo pela matemática e pela física (diz o pai para o filho: não te preocupes, que eu no meu tempo tambem tinha negativa a matemática); nos casos extremos, é muito dificil a jovens cérebros (6-10 anos) evitarem danos irreversiveis em termos de capacidade de aprendizagem se o seu desenvolvimento escolar não for bem acompanhado, isto é, dificilmente os filhos de emigrantes mal integrados poderão ser profissionais qualificados mais tarde
6 - neste sentido, apesar da crescente "escolarização" verificada em Portugal, o insucesso e o abandono escolares são outra forma de exprimir o desprezo pela cultura e educação, e de reproduzir o comportamento das gerações anteriores de privilegiar o começar a trabalhar na adolescencia em vez de estudar
7 - pelo que conheço, e que é pouco, das gerações novas, filhos de emigrantes portugueses, verificar-se-ão em quantidades significativas os dois casos:
7.1 - jovens perfeitamente integrados na sociedade, com empregos qualificados a todos os niveis (julgo que isto se verifica mais em França)
7.2 - jovens perfeitamente marginalizados que não beneficiaram de acompanhamento eficaz durante o periodo critico de aprendizagem cognitiva antes dos 10 anos e que por isso reproduzirão a condição de não qualificação ou de não inclusão dos progenitores (são casos típicos os de mães portuguesas que não falam inglês) ou, pior que isso, enveredarão pela criminalidade ou pela não inclusão (julgo que isso se verificará mais nos USA e no Canadá); a atitude de alguns emigrantes de não preocupação com o sucesso escolar dos filhos contrasta com a prática dos emigrantes  mexicanos que têm como objetivo que os filhos falem inglês perfeitamente, embora seja verdade que por razões geográficas e históricas existe emigração mexicana para os USA há mais tempo do que de Portugal
Conclusão - considerando o exposto, a justificação económica para o baixo valor dado à educação por parte das novas gerações de emigrantes será a justificação económica da incapacidade educacional e financeira de acompanhamento do percurso escolar pelos pais das crianças, que assim são vítimas de insucesso escolar e de limitação do desenvolvimento das suas capacidades cognitivas. Ficará assim ao critério de cada um eleger as causas, desde um regime laboral que implica a chegada a casa do pai emigrante esgotado,até à ineficiencia de programas de inclusão e integração das mães emigrantes, à ineficiencia de programas de substituição do papel de pais quando incapazes do tal acompanhamento, às limitações orçamentais que conduzem diretamente a essas ineficiencias, às politicas de estimulo ao desemprego para contenção de custos, etc, etc.

Aproveito, abusando da sua paciencia,  para manifestar as seguintes duvidas:
1 - quando cedemos à pressão publicitária e compramos Mercedes, Hyundais e outros automóveis, e quando compramos Smartphones, qual a percentagem dos 78 mil milhões que vão ser reexportados para pagar estes gadgets?
2 - terá o seu Ministério disponibilidade para divulgar o que pensa das 25 medidas propostas no livro de Luis Monteiro "Os ultimos 200 anos da nossa economia e os próximos 30 anos"
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/10/economicomio-lxi-as-medidas-contra.html
3 - no caso do TGV Porto-Lisboa-Madrid, terá o seu Ministério disponibilidade para considerar a eficiencia energética (energia consumida por passageiro.km) como um dos principais fatores de decisão por um modo de transporte, o que justificaria reivindicar junto de Bruxelas mais verbas a fundo perdido do que as anunciadas e divulgar o que pensa desta argumentação
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/09/madrid-lisboa-de-aviao-ou-de-tgv.html    ?

Os melhores cumprimentos

F.Santos e Silva

O News of the World, o PIB das cabeleireiras, a imprescindibilidade e a insolencia

Com a devida vénia ao Noticias Magazine do DN de 19 de junho de 2011, um dia depois da grande manifestação da empresa retalhista de Belmiro de Azevedo na Avenida da Liberdade em Lisboa, junto este ramalhete de 4 entidades mais ou menos abstratas.
1 - News of the World - o seu editor chefe, Andy Oulson, foi nomeado pelo primeiro ministro David Cameron como seu diretor de comunicação. Veio a provar-se que o seu jornal tinha feito escutas e devassas ilegais da vida privada de vários cidadãos e cidadãs. O primeiro ministro demitiu o seu diretor de comunicação. Mas o mal estava feito. Quando o poder político chama a si "democratas" deste tipo, é legítimo a um cidadão desconfiar do poder político, mesmo que este primeiro ministro tenha obtido a maioria dos votos. Como diz o provérbio, "diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és" (até pode ser que se diga que a pessoa é muito ingénua, por acreditar nos outros e por acreditar nos dogmas da sua ideologia)
2 - O PIB das cabeleireiras. A jornalista muito admirativa porque duas imigrantes brasileiras abriram um cabeleireiro nas avenidas novas e trabalham aos feriados e fins de semana até às 9 da noite, a contrastar com os preguiçosos dos portugueses. Tem uma certa razão, mas não é só o PIB das cabeleireiras que aumenta, é o PNB brasileiro que aumenta e o PNB português que baixa. A jornalista deverá saber que os portugueses tambem trabalham assim nos outros paises, e que as inovações tecnológicas e as novas técnicas de gestão permitiriam produzir o suficiente para porder gozar-se até mais feriados. Permitiriam, se a estrutura politica, económica e financeira fosse outra, entendendo aqui estrutura, não no sentido marxista, para não chocar ninguém, mas no sentido de forma de organização e de utilização da tecnologia (por exemplo, se a tecnologia é utilizada para fabricar drones, as mais valias resultantes irão faltar, de acordo com o principio da conservação da matéria e energia, para a produção de bens essenciais; isto para não falar na criação virtual de mais valias através das especulações e empréstimos bolsistas). Ah, é verdade, seria bom tambem a senhora jornalista corrigir o complexo merkeliano, é que na Alemanha há mais feriados (vêem como é verdade? tudo depende da forma como a tecnologia é utilizada, com mais ou menos produtividade e rendimento de utilidade do produto)
3 - a imprescindibilidade. A revista entrevista finalistas jovens promissores. Um deles afirma: o segredo é tornar-nos imprescindíveis. Recordo a minha vida profissional. Eu pensava que ninguem é imprescindível pela simples razão de que todos somos necessários apenas por sermos espécie humana, mesmo que estejamos estendidos num quarto de doentes terminais. "De cada um segundo as suas possibilidades, a cada um segundo as suas necessidades" (Lenine, parafraseando Adam Smith). Mas os jovens lobos querem tornar-se imprescindíveis. No meu tempo chamava-se a isso querer ter coisas na manga para poder pedir aumentos. Está bem, percorra a via da imprescindibilidade, mas deixe as pessoas comuns organizarem-se, como dizia o outro, porque a falta de organização é um dos grandes problemas deste país e, pelos vistos, dos outros.
4 - A insolencia. Mais um anuncio de um novo modelo de automóvel. Na parede por trás do carro ppode ler-se: Insolencia, um defeito magnífico. A mensagem subliminar é que o carro e a forma como pode ser conduzido é insolente e isso é um sinal distintivo. Por Mercurio, o santo padroeiro do que mexe, entrámos em alta velocidade nos domínios da irresponsabilidade, neste país com uma taxa de sinistralidade rodoviária tão elevada...

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Não em meu nome I - a semi-deusa grega

O título deste texto é retirado do movimento contra o desmembramento da Bélgica.
A intenção do seu uso aqui é exprimir a oposição à agressão ao conceito de cultura e civilização europeias pelas forças policiais em Atenas.
Valha a verdade que é melhor do que os tiros assassinos dos exércitos sírio e israelita neste mês de junho de 2011.
Mas porque não deixam a rapariga em paz?








Possivelmente porque recearam que ela lhes batesse nos escudos, com as mãos nuas, como a rapariga da outra fotografia (uma rapariga para dez policias).
Na verdade, há que recear a força da razão quando só se tem a força física.



A rapariga que está a ser arrastada está a sofrer violencia fisica, recebendo uma pena sem julgamento. Na foto vêem-se ela e mais quatro policias...
Não vale a pena argumentar com os doutores da propaganda que repetirão os argumentos do costume, de defesa da ordem e da propriedade, normalmente dos bancos.
A rapariga foi sumariamente julgada pelo policia e condenada à pena de arrastamento pelos cabelos.
Nunca estive numa situação assim.
O mais perto disso foi num dia 5 de Outubro, talvez de 1966.
Nesse tempo, ir ao cemitério do Alto de S.João ou parar para olhar a estátua de António José de Almeida na Av.Miguel Bombarda no dia 5 de Outubro significava exprimir a oposição à barbárie e à indigencia cultural que nos governava.
Por isso os doutores da propaganda da altura explicavam que a policia de choque do capitão Maltês tinha de intervir.
Lembro-me dos olhos assustados do pobre moço policia, debaixo do capacete de aço, com a coronha da espingarda prestes a bater-me,  mas a tremer  e a pedir-me em voz baixa e aterrorizado : "Vá-se embora".
Já Freud explicou há muito tempo que a violencia é a manifestação da insegurança de quem acha que tem o poder.
Mas não a glória.
A rapariga da camisola encarnada parece uma semi-deusa grega. Fez-me lembrar a Venus de Rodes, com a diferença de que era a própria Venus que esticava os seus cabelos.

Zeus terá querido abusar dela, da semi-deusa da manidestação. Ter-lhe-á prometido crédito fácil, acessórios para a sua feminilidade, cavalos à disposição no motor de um carro bonito e promessas de poder. Mas a rapariga repeliu os avanços de Zeus, por demais conhecidas que são as suas práticas, recusou a prestação de serviços que os empréstimos pressupunham e acabou arrastada pelos cabelos nas ruas de Atenas. Atenas, a cidade que acabou com a ideia formosa da confederação grega, com sede em Dilos, a pequena ilha ao lado de Mikonos, quando a ganancia dos seus financeiros impediu que o tesouro da confederação fosse posto ao serviço de todos os gregos da confederação. Depois foi o que se viu, as guerras do Peloponeso e a impertinencia dos invasores persas.
Era contra isso, contra a incompreensão do que é a Europa, a sua cultura e a sua civilização, que as raparigas protestavam.
Os doutores da propaganda acham que não (saberão o que significa Dilos?), e que é preciso manter a ordem.
Não o farão em meu nome, nem no das duas raparigas.
Preocupem-se mais em baixar o coeficiente de Gini e em cumprir a declaração universal dos direitos humanos, e não se dêem tão importantes ares quando aparecem nas televisões.
Porque já evidenciam sintomas da sindroma de Hurbis (do grego falta de humildade e excesso de sobre-estima; sindroma estudada por David Owen, ver em
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2011/06/sindroma-de-hubris.html )


Com a devida vénia ao DN pelas fotografias


PS - Se critico os hipócritas, não devo ser hipócrita (mais uma palavra grega). Tenho de concordar que podemos ter de aceitar exceções temporárias ao cumprimento da declaração universal dos direitos humanos. Pode haver situações em que se justificaria arrastar uma cidadã pelos cabelos. 
Se o policia estivesse a arrastar a cidadã que não queria ir trabalhar para uma unidade produtiva de bens transacionáveis indispensável para a recuperação da economia grega, com redistribuição correta das mais valias, estando ela a fazer falta no seu posto de trabalho, então, eu concordaria com o uso da força. 
Mas com o desemprego que vai por aí, não creio que seja o caso da rapariga grega. 
Ela provavelmente não tem um posto de trabalho à espera dela para produzir. 
E o policia tambem é policia porque não tem um posto de trabalho à espera dele. 
Então é mais um exemplo do abissus abissum (abismo atrai abismo, ver Camilo Castelo Branco, ou como antes da lei de Fermat Weber já se tinha a intuição de que qualquer coisa que cresce tem tendencia para atrair mais coisas para se alimentar). 
O desemprego estimula manifestações de rua, que por sua vez estimulam o crescimento da policia, que por sua vez estimula o crescimento de cidadãos que não estão a produzir bens transacionáveis.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Lacrimosa - A árvore da vida

A árvore da vida é um filme estranho.
É um projeto de longa data de Terrence Malick e vê-se que tem muito da sua vida e da sua formação.
Mas parece um filme religioso, a explorar o conceito da árvore da vida como um mistério bíblico, com as interrogações de Job, que Sean Penn  tem de se esforçar para ilustrar no filme.
Pessoalmente não gosto quando o tema de partida é a morte de uma criança, não aprecio a técnica de alguns dos atores, nem a insistencia no modo de vida dos bairros suburbanos com relvado à porta dos anos 50 dos USA (tipo de povoamento altamente ineficiente em termos energéticos e de emissões de gases com efeito de estufa), mas reconheço que o filme tem muito interesse.
Como filme religioso, tem musica maravilhosa.
Tem tambem imagens muito bonitas, a fazer lembrar os programas do National Geographic.
Poderá achar-se o filme aborrecido, mas oiçam esta Lacrimosa do Requiem de Zbigniew Preisner, compositor polaco contemporaneo, que eu não conhecia (a enormidade da ignorancia de um cidadão...).
O que se poderá fazer para convencer as pessoas que dizem que não gostam desta musica a não perderem o prazer de a ouvirem?
É extraordinário como ainda se faz musica tonal tão atraente (e como ainda nenhum programador nacional, se não estou enganado, se lembrou de o trazer cá, embora Teresa Salgueiro, dos Madredeus, tenha já trabalhado com o compositor).

http://youtu.be/7L1lhnGUJWE

segunda-feira, 13 de junho de 2011

A sabedoria de Santo António

comemoração em Lisboa de Santo António
O DN de dia 13 de junho, dia de Santo António, vem cheio de sabedoria.
Um jovem de 19 anos, luso-guineense da Quarteira, desata aos tiros, com uma caçadeira de canos serrados, depois de uns assaltozitos durante a madrugada e umas incompreensões num bar enquanto este encerrava a caixa com a receita da noite (às 7 da madrugada...)
Um miúdo de 9 anos, depois do perigo passar (o moço de 19 anos foi preso pela GNR com o apoio de uma unidade que se deslocou de Lisboa) fala com ar experiente para o reporter: "estou habitudo a ver isto nos filmes, por isso não tive muito medo".
O senhor ministro da administração interna dirá: não há problema porque a criminalidade, de acordo com as estatísticas, está a diminuir (o mesmo ministro que numa cimeira em Viana do Castelo discursava sobre segurança, repetindo já nessa altura que as estatísticas indicavam diminuição da criminalidade, enquanto a dois quarteirões de distancia uma ourivesaria era assaltada com um morto).
Avisadamente, o DN lista os ultimos assaltos em Albufeira, que já incluem turistas mortos, e a afirmação do presidente da associação de hoteleiros do Algarve, que existe uma relação direta (mais precisamente, uma correlação fortemente positiva) entre o crescimento da taxa de desemprego e a criminalidade.
Umas páginas à frente, a notícia de um tiroteio entre moços de comunidades de origem africana num bairro de barracas na Trafaria, na Cova do Vapor.
Trata-se de um local desprezado pelos indecisores do poder central e do poder local, paralizados por conflitos de competencias entre eles de há vários anos e por incapacidade para encontrar soluções.
Será tão dificil de compreender pelos gestores e decisores da coisa publica, que existe uma correlação forte entre a criminalidade e o desemprego, dificuldade de inclusão e insucesso escolar?
Prefere-se continuar a falar nas estatisticas (e os assaltos que não são participados?) e a enviar tropa especial às zonas da classe média que têm problemas localizados com jovens desempregados de comunidades de origem africana?
Será um problema semelhante ao dos transportes?
Os transportes são um problema da classe média e da classe baixa, porque a classe alta não vai de transportes coletivos para as suas ocupações de gestão da coisa pública ou de angariação de grossas mais valias.
O problema da criminalidade só será resolvido nas suas causas quando os jovens de 19 anos de origem africana assaltarem as casa da Quinta do Lago ou fizerem um arrastão na praia do Ancão? (brinco? aconteceu em Washington, há uns anos, a criminalidade baixou drasticamente depois de um assalto com mortos no bairro mais chique).
E as estatisticas, tambem serão como nos transportes? os passageiros queixam-se, mas os gestores mostram estatísticas com  prémios de performance e de índices de satisfação...
Mas o DN também é sábio quando publica esta fotografia de uma manifestação de ciclistas no Chile para reivindicar proteção rodoviária:

Parece que a policia chilena parou a manifestação. 
Não é sábia, a policia, porque, mais do que proteger a nudez dos olhos púdicos, interessa mais reduzir a sinistralidade rodoviária, como dá conta o DN com a campanha da A-CAM (se beber, eu guio, diz a morte de foice e tudo). Apareceram logo virgens ofendidas ligadas à área a dizer que a campanha assim não faz efeito (então porque não fizeram já campanhas que fizessem efeito? de facto, as campanhas devem ser pela positiva, mostrando o comportamento correto, mas pôr a morte a conduzir, à Bergman, atinge alguma coisa, apesar dos mediterrânicos acharem que as desgraças só acontecem aos outros, especialmente quando estão alcoolizados).
E em Madrid também não foi sábia a policia que dispersou os "indignados".
Mais sábio será o cartaz nas costas de um deles: "nuestros sueños no caben en vuestras urnas" (o que obviamente não quer dizer que não se deva votar)
E também sábia a votação na Turquia: se têm dado ouvidos aos detratores de um dos partidos (que utilizou uma das sedes para encontros extra-conjugais), os eleitores teriam dado uma maioria de dois terços para mudar a constituição ao partido democrata-islâmico que ganhou (se existem partidos democráticos cristãos a ocidente, dá ideia que poderá haver partidos democratas islâmicos a oriente...). Não sei se seria bom, não sei se algumas das eleitoras do partido democrata-islâmico poderiam mais tarde tirar fotografias com o cabelo ao vento (e possivelmente acabariam de vez os tais encontros extra-conjugais). Votos de que o partido republicano, laico, herdeiro de Kemal Ataturk, continue a crescer, para que os cabelos continuem ao vento e, já agora, como se costuma dizer em português, que a autonomia curda também possa mostrar-se ao vento. 
Era bom para a União Europeia, eu penso que seria muito bom, e também para todo o médio-oriente (não acham a proposta de mediação do primeiro ministro turco oferecendo asilo político a Kadafi com mais juízo do que a intervenção militar da NATO na Líbia, depois do seu secretário geral dizer que não haveria solução militar?).

Mas há mais sabedoria no dia de Santo António: a dos exportadores de calçado português, a da diretiva da Soares da Costa de exportar serviços para os USA (assim se transforma um bem não transacionável em transacionável, queiram os senhores economistas fazer o favor de tomar boa nota), a do articulista Manuel Vaz da Silva que cita Krugman quando diz que o principal problema de Portugal é o desemprego e propõe como solução o aumento do emprego, do investimento (mesmo que aumente a divida porque trará retorno) , das desigualdades sociais que dão nos tiroteios de jovens de 19 anos que não assustam miudos de 9 anos porque já viram nos filmes, e da diminuição das taxas de juro dos nossos queridos amigos que nos levam taxas superiores às do FMI.
E finalmente, a sabedoria pela voz de Catherine Deneuve, pela mão do cronista Ferreira Fernandes: "Esforço-me por fazer bem as minhas coisas, porto-me bem, faço o que tenho de fazer".
Recordo o sargento da policia do filme de  Ingmar Bergman, pedindo ao trapezista para fazer os seus espetáculos, que se todos fizessem o que têm a fazer, em lugar de irem atrás de falsos profetas (será que o conceito de "marketing" desligado da moral já existiria nos tempos evangélicos?), o ovo da serpente não daria no que iria dar.

Santo António sábio...