segunda-feira, 23 de outubro de 2023

A metáfora dos dois bandidos e da ferrovia única europeia

 Vou tentar aproveitar uma metáfora que me enviaram (vício que tenho de olhar para o retrovisor, guardando distancia maior para o da frente, lá está, espaço para o bandido poder refugiar-se depois duma ultrapassagem chico-esperta). 

Temos aqui na ferrovia dois bandidos. Sem ofensa, claro, metaforicamente falando, sem qualquer conotação exegética mas por haver uma regulamentação comunitária para a rede única ferroviária europeia que por sinal é vinculativa, mas sendo lei não é cumprida pelos dois bandidos, pelo menos dentro dos prazos, em diferentes graus de incumprimento. 

O bandido menos mau, atuando na maior parte da Península e assim chamado por apesar de tudo ir cumprindo alguma regulamentação, devia fazer pela lei europeia, para mercadorias em bitola UIC,  cerca de 800 km de linhas novas ou aproveitamento de linhas existentes com mudança de bitola, para o corredor atlântico até 2050: 200km Plasencia-Madrid + 420km Madrid-Medina del Campo-Vitoria + 180km Medina del Campo-fronteira portuguesa  (bem, isto era no regulamento 1315 de 2013, agora com a revisão o dito corredor atlântico, a pedido de várias famílias galegas e asturianas, tem de aguentar com mais  230km na Galiza e outros 230km nas Asturias). Para complicar a coisa, está também injetada no corredor atlântico, em partilha  com o corredor mediterrânico, a ligação de mercadorias entre Algeciras e Madrid ou 620km, mas deixemos isso para o planeamento do mediterrânico.   
Entretanto, o dito bandido menos mau vai canalizando os seus recursos para desenvolver as redes de mercadorias em bitola UIC nas autonomias basca ("Y" basco ), catalã e valenciana (corredor mediterrânico), ao mesmo tempo, no corredor atlântico, vai aproveitando a rede em bitola ibérica, eletrificando os troços em falta e aproveitando as plataformas logísticas espalhadas por Espanha; isto é, para as mercadorias no corredor atlântico há uma fase 1 que consiste em levar com bitola ibérica  os contentores, os camiões, os semirreboques ou as caixas móveis até à plataforma de Vitoria, de onde se pode ir com bitola UIC para França; na fase 2 poderão levar-se as mercadorias em ibérica até à plataforma de Medina del Campo trazendo desde Vitoria até esta a bitola UIC mudando a bitola na rede de mercadorias existente entre Medina e Vitoria ou 280km (servindo Aveiro-Salamanca e Sines-Badajoz-Madrid); numa fase 3 linha parcialmente nova em UIC de Medina a Salamanca/Zaldesa-fronteira portuguesa enquanto do lado do bandido menos bom finalmente se construía a linha nova UIC Aveiro-fronteira, com uma plataforma logística para aí em Viseu, Mangualde ou Vila Franca das Naves.
Entretanto o bandido menos bom, no ocidente da Península e assim chamado por caprichar em incumprir a legislação comunitária relativa à rede única europeia ferroviária, já deveria ter sido obrigado a substituir as viagens aéreas para Madrid pela alta velocidade; seria uma fase 0 recuperando o projeto ELOS sem ter de pagar uma indemnização que o TdC acha que não deve ser paga mas que, salvo melhor e sem dúvida douta opinião, não é da competência do TdC decidir se deve ser paga ou não. Deveria então tratar-se já, enquanto os empreiteiros estão na obra (outra coisa difícil de aceitar pelo TdC), de montar a segunda via do troço Évora-Caia/Badajoz, incluindo os segundos tabuleiros dos viadutos, já em bitola UIC para poupar o custo futuro da mudança de bitola e perturbação do tráfego (90km). Idem para a duplicação do troço Évora-Poceirão (80km, essencial desenvolver a plataforma logística servida por bitola ibérica e por bitola UIC). A utilização seria imediata pelos Alvia de eixos variáveis do bandido menos mau para passageiros até Lisboa por Pinhal Novo e ponte 25 de abril. Para mercadorias seria importante construir Sines-Grândola Norte e ligação a Poceirão e Setúbal em bitola UIC em via de 3 carris (130km).
Ainda quanto a mercadorias, deve o bandido menos bom combinar com o bandido menos mau: fase 2, trazer a bitola UIC para mercadorias desde Medina del Campo até Madrid ( 190km)  e resolver o traçado para mercadorias e passageiros entre Madrid e Talavera/Navalmoral (  180km), de preferência evitando o desvio por Toledo; enquanto aquele traçado não estiver executado, levar as mercadorias em ibérica até Madrid por Badajoz-Caceres-Plasencia ou por Badajoz-Puertollano-Alcazar (não seria mau convencer o bandido menos mau a recuperar a ligação para mercadorias Madrid-Aranda de Duero-Burgos em bitola UIC, os gradientes são da ordem de 1% e de Madrid a Burgos são 280km contra 320km por Avila-Medina del Campo); na fase 3  haveria ligação em bitola UIC desde as plataformas logísticas e portos portugueses até Irun.

Parece-me que não competirá aos observadores externos como nós dizer às instituições como devem proceder, sem prejuízo evidentemente do direito dos cidadãos a exprimirem as suas opiniões e participarem na discussão pública. Mas é mau sinal quando se chega ao ponto de dizer que a ADIF, o AVEP (agrupamento europeu de interesse económico alta velocidade Espanha-Portugal), o RFC4 (corredor  atlântico de mercadorias) e o recente Comisionado del corredor atlantico, deviam esclarecer o que pretendem fazer para cumprir o regulamento comunitário mostrando um cronograma com as fases de construção segundo as datas regulamentares, 2030, 2040, 2050 e após. Foi o que o Manifesto de 2017 fez, juntando um documento técnico de apoio dos amigos Cabral da Silva e Mario Ribeiro com o cronograma e estimativa de custos para cada fase (em Portugal, mas também podemos fazer para Espanha).  Não o fazendo, podemos alinhar críticas à inoperância e sugerir pistas para ação como as fases acima, quanto mais não seja para estarmos entretidos.

O problema parece simples de enunciar, os detalhes da solução é que são, parafraseando o senhor presidente que raramente se enganava, o diabo. 
Problema: 
1 - poder expedir um comboio de mercadorias numa plataforma logística ou num porto em território português cumprindo as especificações da interoperabilidade (comprimento, velocidade, peso por eixo, gradiente, ERTMS, 25kVAC, 1435mm, simplificação dos procedimentos transfronteiriços) com destino a Mannheim ou Strasburg passando por plataformas logísticas em Espanha e França de acordo com o mapa do regulamento para o corredor atlântico; 
2 - substituir as viagens aéreas Lisboa-Porto e Porto-Lisboa por alta velocidade para passageiros com estações nos próprios aeroportos.

Constrangimentos:
Reconheço que para quem está habituado a trabalhar no contexto da rede existente, desenvolver as ações para uma nova rede interoperável (cumprindo todas as especificações incluindo o ERTMS e 1435mm) é muito mais trabalhoso do que manter os padrões habituais, mas faz parte da evolução da economia acrescentar complexidade (por exemplo, máquinas ou equipamentos com incorporação tecnológica maior) às áreas de produção precisamente para aumentar o volume de produção e a produtividade por fator de produção. A transferência dos passageiros do avião para a alta velocidade e da carga rodoviária para a ferrovia é um objetivo da regulamentação comunitária para a economia energética e redução de emissões. A facilitação do aumento das exportações e do aumento da atratividade de investimento estrangeiro é o objetivo da regulamentação comunitária para a rede ferroviária de mercadorias.

Procedimentos para a solução:
Alteração do PFN para incorporar o referido cronograma para a parte portuguesa, coordenando com Espanha  (eventualmente com o Comisionado do corredor atlântico através duma estrutura semelhante tendo como observadores a IP, a CP, a APEF, o AVEP, o RFC4 e com divulgação periódica do avanço dos trabalhos), França e DG MOVE/coordenação do corredor atlântico. Definição nos prazos comunitários de 2030, 2040 e 2050 e após as fases de implementação do corredor atlântico de passageiros e de mercadorias que se pretende atingir em todos os países do corredor. Distribuir os investimentos e os cofinanciamentos comunitários ao longo dos anos de modo  não beliscar as normas da percentagem da despesa pública relativamente ao PIB.
No caso das mercadorias, considerando os constrangimentos dos eixos variáveis em vagões de mercadorias, o desenvolvimento da bitola UIC do lado do bandido menos bom estará muito dependente da sincronização da chegada da bitola UIC à fronteira do lado do bandido menos mau, o que não impediria algum tráfego interno nos troços acima referidos na fase 0 Sines/Setúbal-Poceirão-Évora-Caia-Badajoz). 
Digamos que os objetivos comuns poderiam ser, implicando a revisão profunda do PFN, para todos os requisitos da interoperabilidade:
  • Lisboa-Porto e Lisboa-Madrid para passageiros em 2030 e Porto-Vigo  e Porto-Viseu-Madrid em 2035-2040
  • Sines-Leixões, Aveiro-Salamanca-Irun e Sines-Badajoz-Plasencia-Madrid em 2035-2040 para mercadorias


quinta-feira, 19 de outubro de 2023

Madona e o abraço das duas bandeiras

 Madona ...

https://www.eldiario.es/cultura/musica/madonna-vuelve-mojarse-conflicto-palestino-israeli-traer-paz-oriente-medio_1_10607928.html?itm_n=internal&itm_c=taboola


Festival da canção da Eurovisão de 2019 em Telaviv, o abraço com as duas bandeiras

Aplausos para Madona. Mantem-se o espírito da orquestra do divâ, de Barenboim e Said.

Podem dizer o diziam de John Lennon, em Imagine, a dreamer ...

domingo, 8 de outubro de 2023

O primeiro ministro inglês Rishi Sunak cancelou a ligação de alta velocidade Birmingham-Manchester

 Notícia na Railway Gazette de 5out2023:

https://www.railwaygazette.com/uk/remaining-phases-of-high-speed-2-cancelled/65059.article?ID=z9xqh~9jzftt~jqrnx~W4ik~Ky0gk&utm_campaign=RG-WEEKLY-RBW-061023-JM&utm_medium=email&utm_source=newsletter&utm_content=RG-WEEKLY-RBW-061023-JM


Video da TLDRNews de fev2023:

https://www.youtube.com/watch?v=M6lsOcYgptw

total orçamentado: 100 mil milhões de euros; orçamento Londres-Birmingham 40 mil milhões

Segundo o primeiro ministro, só se concluirá o troço Londres-Birmingham, desviando verbas das ligações a Manchester e Leeds para melhorias das ligações existentes ferro e rodoviárias na região. Do projeto de alta velocidade de 540 km apenas se executarão 190 km.

As razões invocadas, condenando o anterior "consenso", fazem lembrar os argumentos utilizados em Portugal para defesa do PFN, prioridade ao eixo norte-sul e à rede convencional existente (em Inglaterra também é de bitola standard, mas os traçados não são para alta velocidade), ligação de troços de alta velocidade em série com troços convencionais (faz lembrar a ideia da alta velocidade Porto-Carregado entrar na linha do norte existente depois de quadruplicada). Também há uma analogia com Portugal, na recusa de ter uma entidade gestora de infraestruturas para a rede pré-existente e outra entidade gestora independente para a rede de alta velocidade.

Como bem observou um comentador, o problema será o deficiente processo de planeamento e execução das infraestruturas em Inglaterra, desde a entrega em "outsourcing" de projetos e subempreitadas até projetos faraónicos fugindo de soluções simples. Como consequencia, a construção de uma linha de alta velocidade em Inglaterra custa aproximadamente 250 milhões de euros por km,  4 vezes o que custa na Alemanha e 8 vezes o que custa em Espanha.

Entretanto o tráfego aéreo e rodoviário interno vai aumentando.

Mau é, quando um problema social ou económico-social é pretensamente resolvido com argumentos do foro político, e não técnicos.

Artigo de 5out2023 do IRJ:

https://www.railjournal.com/passenger/high-speed/cancelling-hs2-to-manchester-a-devastating-blow/?utm_source=&utm_medium=email&utm_campaign=42389



Da cerimónia militar ao apelo à paz de frei Lourenço

 



Kiev, setembro de 2023

notar os rapazinhos na primeira fila, em segundo plano; ninguém devia ter o direito, fosse a que pretexto fosse, de  enviar crianças para a guerra

Lisboa, Fundação Gulbenkian, 4out2023, Romeu e Julieta, sinfonia coral de Berlioz

https://cdn.gulbenkian.pt/musica/wp-content/uploads/sites/3/2023/10/20231005_06.pdf

https://youtu.be/FMNxifnjnZA


Uma simples análise semiótica da imagem da cerimónia militar em Kiev com jovens cadetes concluirá pelo sofrimento que a guerra lhes impõe. Também eu me recordo de, quando tinha a idade destes pobres rapazes, ouvir do diretor da minha escola e dos políticos que tomavam decisões em vez do seu povo que era preciso defender o país.  Poucos anos depois Geraldo Vandré escreveria  "Nos quartéis lhes ensinam Uma antiga lição: De morrer pela pátria e viver sem razão " ,   em Londres  representava-se Hair com alusões à guerra do Vietnam e John Lennon escrevia Imagine.

Saltando para o privilegiado, apesar de tudo, mundo em que vivo, assisto no concerto da Gulbenkian, com a sinfonia coral Romeu e Julieta, ao apelo do frei Lourenço, que a paz se sobreponha aos "velhos ódios adormecidos que despertaram para a guerra".

Infelizmente, na espécie humana mantêm-se vestígios do cérebro dos predadores primitivos, e continuam as guerras. Frei Lourenço apoiaria talvez a Liga Árabe, exigindo a paz entre Israel e as milícias palestinianas (que tal se a ONU promovesse o desarmamento das milícias, o fim dos colonatos ilegais e o reconhecimento do Estado Palestiniano conforme  a sua resolução de 1949? porque devemos respeitar o direito internacional e a autodeterminação dos povos) 


https://fcsseratostenes.blogspot.com/2011/08/geraldo-vandre-pra-nao-dizer-que-nao.html

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2012/08/free-pussy-riot.html

https://www.rtp.pt/noticias/mundo/paises-arabes-pedem-fim-da-escalada-entre-israel-e-milicias-do-hamas_n1519321

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Incidente contra a segurança no navio elétrico "Cegonha branca" da Transtejo

 Um notícia do Público de 4out2023 e outra do Tal e Qual divulgaram um incidente no novo navio elétrico daTranstejo que poderia ter causado um grave incêndio. As informações não são esclarecedoras, mas um curto circuito terá provocado a avaria da centralina (unidade de gestão dos sistemas elétricos) e o segurança terá desligado o circuito de ventilação das baterias de tração tendo o sistema de alarme funcionado e alertado outro trabalhador para a religação da ventilação. 

Insistindo que as informações disponíveis não são esclarecedoras, as baterias de tração estão alojadas nos dois cascos do catamarã e constituem dois sistemas independentes e redundantes (julgo que o sistema de alarme deverá estar dependente duma bateria separada). Dado que provavelmente se trata de baterias de iões de lítio do tipo MNC (lítio-manganésio-cobalto-níquel), os compartimentos das baterias devem estar permanentemente refrigerados através dum sistema, também redundante, de ventilação. Isto porque o risco de incêndio deste tipo de baterias, também utilizado nos automóveis elétricos, se deve às condições de elevadas temperaturas no verão no ambiente do Tejo. O lítio funde a 180ºC, os óxidos de manganésio e níquel são combustíveis  e a fusão do lítio provoca curto circuitos internos da bateria e explosão (https://fcsseratostenes.blogspot.com/2019/05/falando-de-numeros-o-18650-e-o-21700-e.html).

Se as baterias dos navios da Transtejo são do tipo MNC a segurança reside, para além do seu fabrico cuidado (o fabricante é a Corvus energy que já equipou mais de 750 navios) no funcionamento permanente ou permanentemente pronto a entrar em serviço, dos sistemas de ventilação. Do ponto de vista tecnológico, outro tipo de baterias de lítio, o  LFP, de fosfato de ferro, é mais seguro por ser mais imune ao incêndio, mas tem o inconveniente de ter uma densidade mássica de cerca de 0,1 kWh/kg, cerca de metade da densidade das baterias MNC. Na ausencia de informação , ignoro qual o tipo de baterias previsto no caderno de encargos e estimo que a autonomia  dos navios nele prevista seja de 20 km, o que para o tipo MNC daria 10 toneladas e para o tipo LFP 20 toneladas (com menor velocidade média).

Tudo isto deveria ser explicado pela Transtejo e divulgado por ser assunto de interesse público e com pormenores técnicos esclarecedores, e não como foi divulgado em comunicado tranquilizador conforme referido abaixo na notícia da "Rostos".

Adicionalmente, deveria o ministério do Ambiente promover uma comissão técnica para esclarecimento das condições de segurança e sua divulgação pública, sendo  que a garantia das baterias é do fornecedor dos navios por ser também o fornecedor das baterias (a situação seria mais grave se se tivesse seguido a indicação do TdC de encontrar um forneccdor de baterias diferente do fabricante dos navios). 




reportagem do incidente da desligação da ventilação das baterias do "Cegonha branca":                  https://talequal.pt/barco-da-transtejo-pegou-mesmo-fogo/

https://www.publico.pt/2023/10/04/politica/noticia/pcp-questiona-governo-servico-fluvial-transtejo-gestao-empresa-2065656https://www.publico.pt/2023/10/04/politica/noticia/pcp-questiona-governo-servico-fluvial-transtejo-gestao-empresa-2065656

informação da Transtejo, certificação do "Cegonha branca":                                https://www.rostos.pt/inicio2.asp?cronica=4002238&mostra=2

comentário à intervenção do TdC, riscos de incêndio das baterias de lítio:
https://lisboaparapessoas.pt/2023/04/13/navios-electricos-transtejo-baterias/

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2023/03/os-navios-eletricos-da-transtejosoflusa.html

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Comentário ao relatório sobre a análise da situação do AHD

Comentário enviado em 3out2023 à Comissão Técnica Independente para a avaliação do aumento da capacidade aeroportuária:


https://aeroparticipa.pt/relatorios/relatorio_AHD.pdf

https://aeroparticipa.pt/relatorios/   

 

 

Caros Colegas

Relativamente à análise da situação do AHD cumprimento-vos pela sua profundidade e pluridisciplinaridade e pelo pragmatismo das propostas de melhoria.

Faço parte de um grupo que há vários anos se vem debruçando sobre os problemas das infraestruturas de transporte em Portugal e por isso desculparão o envio dos seguintes comentários e sugestões.

Considerando o prazo que pessoalmente estimo de 7 a 10 anos para a colocação em serviço de uma primeira fase do NAL e o congestionamento atual do AHD, são urgentes obras de melhoria. Nestas , julgo dever ser dada prioridade às que aumentem a segurança da operação e o bem estar dos moradores da cidade.

Nesta perspetiva , salvo melhor opinião, é urgente a elaboração (ou validação) dos projetos para submissão a fundos comunitários de:

1 -  construção do taxiway do lado norte-nascente da pista 20 aproveitando todo o comprimento da pista (para afastar o ponto de descolagem da avenida do Brasil e evitar o cruzamento da pista). Salvo melhor opinião, são assim limitadas as propostas das figuras 25 e 26, reduzindo em 1300m o comprimento utilizável da pista. Condições e desenhos explicativos do taxiway paralelo desejável , mais relevante do que as entradas múltiplas e saídas rápidas referidas, nas páginas 142 a 144 do livro “Grandes projetos de obras públicas”  de Pompeu Santos, ed.Scribe

2 – retirada do aeródromo de Figo Maduro, sendo uma sugestão interessante a substituição por um terminal low cost (idem)

3 – a substituição do abastecimento de combustível através de camiões (mais de uma centena por dia) por pipeline.

Faço ainda as seguintes observações:

4 – não tendo sido validada a adenda do acordo do governo com a ANA de 2019, o contrato de concessão de dez2012, salvo alguma disposição jurídica até agora oculta, mantem-se em vigor, mantendo-se as obrigações para a ANA do anexo 9 de que se destacam os pontos 14 (construção de entradas múltiplas no pista 20)  e 17 (expropriações para a construção das entradas múltiplas). Ver   fcsseratostenes: Alguns elementos sobre a capacidade aeroportuária na região de Lisboa em setembro de 2022    . Estar-se num impasse parece ter origem na indefinição do texto do anexo 9 sobre os limites de intervenção obrigatória pela ANA e por ainda existir a obrigatoriedade de submissão à  APA

5 - sobre as acessibilidades, como complemento às sugestões pertinentes da figura 27, sugere-se considerar uma possível entrada no aeroporto e construção de novo terminal pelo lado norte/poente zona  C com eventual expropriação de terrenos exteriores e instalação de transporte autónomo people mover em sitio próprio sobre carris em todo o perímetro do aeroporto servindo os outros terminais

6 - sobre o aeroporto de Beja sublinho que o principal problema é a insuficiência da ligação ferroviária. As melhorias necessárias incluirão a construção de um ramal dedicado (aeroporto-estação de Beja ou aeroporto-linha Beja/Casa Branca a 7km ao norte da estação de Beja), cujo projeto já deveria ter sido elaborado para submissão a fundos comunitários. Ver      fcsseratostenes: Sobre o aeroporto de Beja em setembro de 2022

7 – sobre a não proposta da solução Portela-Montijo (ponto 4.2.2, páginas 30 e 31) seria desejável aprofundar as razões expostas para a sua não utilização, incluindo as limitações da BA6 em termos de ruido para as populações, considerando que se estima a rota de aproximação da pista 01 a 250m de altitude e1 km do hospital do Barreiro

 

Com os melhores cumprimentos e votos de sucesso

 

PS em 17out2023 - Recebida amável resposta da CTI com aditamentos em negrito ao texto do meu email:


Agradecemos a sua mensagem e os comentários. Lamento a demora em lhe responder, mas aqui vão alguns esclarecimentos. Veja por favor intercalado com os seus comentários. 
On 3 Oct 2023, at 23:42,  wrote:

Caros Colegas 

Relativamente à análise da situação do AHD cumprimento-vos pela sua profundidade e pluridisciplinaridade e pelo pragmatismo das propostas de melhoria. 

Faço parte de um grupo que há vários anos se vem debruçando sobre os problemas das infraestruturas de transporte em Portugal e por isso desculparão o envio dos seguintes comentários e sugestões. 

Considerando o prazo que pessoalmente estimo de 7 a 10 anos para a colocação em serviço de uma primeira fase do NAL e o congestionamento atual do AHD, são urgentes obras de melhoria. Nestas , julgo dever ser dada prioridade às que aumentem a segurança da operação e o bem-estar dos moradores da cidade.  

Nesta perspetiva , salvo melhor opinião, é urgente a elaboração (ou validação) dos projetos para submissão a fundos comunitários de: 

1 - construção do taxiway do lado norte-nascente da pista 20 aproveitando todo o comprimento da pista (para afastar o ponto de descolagem da avenida do Brasil e evitar o cruzamento da pista). Salvo melhor opinião, são assim limitadas as propostas das figuras 25 e 26, reduzindo em 1300m o comprimento utilizável da pista. Condições e desenhos explicativos do taxiway paralelo desejável , mais relevante do que as entradas múltiplas e saídas rápidas referidas, nas páginas 142 a 144 do livro “Grandes projetos de obras públicas”  de Pompeu Santos, ed.Scribe 

Resposta da CTI: Esse encurtamento de pista, e redução de saidas rápidas, iria reduzir significativamente a atual capacidade do AHD, pelo que não é viável

2 – retirada do aeródromo de Figo Maduro, sendo uma sugestão interessante a substituição por um terminal low cost (idem) 

3 – a substituição do abastecimento de combustível através de camiões (mais de uma centena por dia) por pipeline. 

Resposta da CTI: Essa sugestão é correcta, mas corresponde a um investimento muito elevado que não pode ser considerado no curto-prazo (7-10 anos), só é viável numa perspectiva de longo-prazo. O relatório entregue só abordava ações de melhoria para o curto-prazo

Faço ainda as seguintes observações: 

4 – não tendo sido validada a adenda do acordo do governo com a ANA de 2019, o contrato de concessão de dez2012, salvo alguma disposição jurídica até agora oculta, mantem-se em vigor, mantendo-se as obrigações para a ANA do anexo 9 de que se destacam os pontos 14 (construção de entradas múltiplas na pista 20) e 17 (expropriações para a construção das entradas múltiplas). Ver   fcsseratostenes: Alguns elementos sobre a capacidade aeroportuária na região de Lisboa em setembro de 2022    . Estar-se num impasse parece ter origem na indefinição do texto do anexo 9 sobre os limites de intervenção obrigatória pela ANA e por ainda existir a obrigatoriedade de submissão à APA 

Resposta da CTI: A resolução desta situação ultrapassa o âmbito de competências da CTI

5 - sobre as acessibilidades, como complemento às sugestões pertinentes da figura 27, sugere-se considerar uma possível entrada no aeroporto e construção de novo terminal pelo lado norte/poente zona C com eventual expropriação de terrenos exteriores e instalação de transporte autónomo people mover em sítio próprio sobre carris em todo o perímetro do aeroporto servindo os outros terminais 

Resposta da CTI: Das sugestões apresentadas, que desde já agradecemos, retemos em particular a criação de uma abertura a Norte, para vir a servir um novo terminal especializado, para voos low-cost ou limitados ao espaço Schengen, com redução dos custos de segurança e controlo.

6 - sobre o aeroporto de Beja sublinho que o principal problema é a insuficiência da ligação ferroviária. As melhorias necessárias incluirão a construção de um ramal dedicado (aeroporto-estação de Beja ou aeroporto-linha Beja/Casa Branca a 7km ao norte da estação de Beja), cujo projeto já deveria ter sido elaborado para submissão a fundos comunitários. Ver      fcsseratostenes: Sobre o aeroporto de Beja em setembro de 2022  

Resposta da CTI: A resolução desta situação ultrapassa o âmbito de competências da CTI

7 – sobre a não proposta da solução Portela-Montijo (ponto 4.2.2, páginas 30 e 31) seria desejável aprofundar as razões expostas para a sua não utilização, incluindo as limitações da BA6 em termos de ruido para as populações, considerando que se estima a rota de aproximação da pista 01 a 250m de altitude e1 km do hospital do Barreiro 

Resposta da CTI: Agradecemos a sugestão

 

Com os melhores cumprimentos e votos de sucesso 

 

Fernando Santos e Silva

Muito obrigada
Cumprimentos

Comissão Técnica Independente para o novo aeroporto


PS em 11nov2023 - email enviado em 10nov2023 à coordenadora da CTI  cc à comissão:


Cara Colega 

Muito obrigado pela resposta.  

Não sendo especialista de aeronavegação, mas apenas de transportes metropolitanos, o valor da minha participação no processo do AHD e Novo Aeroporto é apenas o de um comum cidadão. 

No meu caso, morando a 1.500 metros para sudeste da extremidade sul da pista 20, testemunho o incómodo do ruído (de contabilização pela Zero provavelmente subjetiva mas quantificável, se comparados , com populações não sujeitas a este tipo de ruídos, os índices de doenças correlacionáveis)  especialmente com vento de sudoeste implicando a descolagem na pista 20. Ao incómodo do ruído soma-se o do cheiro de combustível em dias de calor e vento norte. Penso que deveria ainda considerar-se a afetação sofrida pelos moradores na avenida do Brasil mais próximos das torres de radar, sujeitos às respetivas radiações eletromagnéticas de frequência elevada. 

Tomo assim a liberdade de vos enviar este comentário que, dada a proximidade da conclusão do vosso relatório global, sugiro considerem como participação na próxima consulta pública.   

1 – prazo para fecho do AHD - Como técnico e considerando os constrangimentos financeiros, não posso exigir o rápido desmantelamento do AHD, nem a redução significativa do seu tráfego diurno, mas parece-me essencial que no vosso relatório se aponte um cronograma para o fecho do aeroporto, inclusive em obediência às diretivas comunitárias (especialmente chocante é o facto das rotas de aproximação  e de descolagem sobrevoarem 5 hospitais, sendo o mais próximo psiquiátrico), indicando claramente o prazo (10 anos máximo?) para essa saída ou, no limite, para a redução substancial do tráfego (20.000 movimentos/ano?) 

2 – ponto de descolagem na pista 20-02 – excecionalmente neste outono-inverno de 2023, o vento sudoeste tem predominado, verificando-se a descolagem nesta pista, no sentido nordeste-sudoeste, com a maior parte das vezes os aviões a cruzarem a pista para iniciarem a corrida junto da extremidade norte da pista, o que a observação da razoável altitude a que os aviões sobrevoam a avenida do Brasil confirma. Não contesto que afastar para norte o ponto de descolagem reduza a capacidade, mas se se evitar o cruzamento da pista graças ao prolongamento de 1.300m do taxiway do lado nordeste da pista 20 até à sua extremidade norte, a capacidade, salvo melhor opinião, será reposta. Parece-me que este prolongamento de 1.300m não está referido no vosso relatório, sendo dada preferência às saídas rápidas da pista 02-20 sensivelmente por alturas da atual base de  Figo Maduro, possivelmente pela predominância do vento norte (pelo menos até agora), pelo custo do aterro e das expropriações necessárias para o taxiway de 1.300m, e pelas exigências de avaliação ambiental. (Esclareço que a minha proposta não era encurtar do lado sul a pista 02-20 nem deslocar para norte o ponto de aterragem, mas apenas , uma vez que o ruído é inferior ao das descolagens, deslocar para norte o ponto de descolagem quando o vento está sudoeste). Pessoalmente considero o taxiway de 1.300m uma medida prioritária. 

3 - Interligação com o traçado das linhas de Alta Velocidade e com o PMUS – O planeamento de  redes de transportes de modos diferentes deve, em princípio, ser feito numa perspetiva integrada em que que cada modo desempenha uma função complementar das funções dos outros. Isso mesmo está previsto na regulamentação das redes intermodais transeuropeias de transportes TEN-T ao impor a ligação dos aeroportos principais à rede ferroviária de Alta Velocidade no art.33 da proposta de revisão e substituição do regulamento 1315. Igualmente no art.40 é fixado o prazo de dezembro de 2025 para a elaboração de SUMPs (sustainable urban mobility plans ou PMUS) nos principais nós urbanos incluindo as suas redes urbanas e suburbanas, as mercadorias e os acessos a aeroportos. Não sendo da competência da vossa comissão o estudo dos traçados da alta velocidade ferroviária  nem os das redes ferroviárias e rodoviárias de mercadorias, suburbanas e de metropolitano (da competência das entidades responsáveis pelo PROTAML), ainda assim as propostas de localização do novo aeroporto deverão ser compatíveis. Esta questão levanta-se principalmente para a opção entre a margem esquerda e a margem direita do Tejo para a linha de AV (não se conhecem estudos comparativos dos  custos de construção de cada hipótese) e para o modo construtivo e localização das travessias do Tejo de AV, mercadorias,  linhas suburbanas e de metropolitano, ponte ou túnel (idem). Mais uma vez se apela à vossa autoridade técnica e relevância para evidenciar junto da tutela governamental a urgência do planeamento que responda a estas questões na observância da regulamentação comunitária, inclusive  para viabilizar o cofinanciamento.  

4 - Transporte de combustível por oleoduto – reconhecendo que a construção de um oleoduto poderá tomar grande parte do prazo desejável para a vida útil do AHD (10 anos?) seria no entanto importante que o vosso relatório, dada a vossa relevância, referisse o indesejável risco associado ao transporte rodoviário do combustível em quantidades cada vez maiores para acompanhar o crescimento do tráfego (acresce outra situação indesejável, a presença nas proximidades dos postos de combustível na 2ª circular). Uma análise de custos benefícios provavelmente concluirá, atendendo aos custos do transporte rodoviário, pela utilidade do oleoduto mesmo para uma amortização de 2 ou 3 anos (custo estimado para o oleoduto: 50 milhões de euros?) 

5 - Hipótese de construção de segunda pista a exemplo do aeroporto de Gatwick – tendo surgido na imprensa da especialidade a hipótese da construção de uma segunda pista apenas para descolagens, a 220m para poente/norte da atual pista, com o objetivo de aumentar a capacidade do AHD e prolongar a sua vida útil, penso que deverá ser contrariada não só pelos custos, nomeadamente de expropriações  e de deslocação das instalações de carga e de reservatórios de combustível mas pela necessidade referida em 1 de encurtar essa vida útil. 

 






De Aveiro a Carcavelos

 

1 - a demolição da vivenda Aleluia em Aveiro

https://www.noticiasdeaveiro.pt/pcp-prepara-entrega-dos-azulejos-da-vivenda-aleluia-ao-municipio-de-aveiro/

Levantou-se um clamor contra a demolição. Também estou de acordo com a incorreção do processo que levou à demolição, criticando o proprietário e a câmara, por não ter classificado o imóvel. Na minha vida particular tive um caso parecido, tendo optado por vender o prédio antes da elaboração de um projeto imobiliário, no estado em que se encontrava.

Neste caso, conforme a notícia do Notícias de Aveiro, os azulejos foram entregues à câmara municipal. Ainda funcionando a fábrica Aleluia,  https://aleluia.pt/?gad=1&gclid=CjwKCAjwvfmoBhAwEiwAG2tqzEJNKRRS4K5zvJhDFjOEu1eT-6Bwd4m1cRK_wR4CIbG-69PrI6cp9hoCR0IQAvD_BwE

uma boa solução poderia ser a câmara renegociar o projeto aprovado e substitui-lo por um novo projeto com elementos evocativos da vivenda e com instalação dos azulejos em local visível e visitável sem condicionamentos pelos cidadãos.


vista frontal, entre dois prédios de 7 sndares
vista das traseiras


vista do parque de estacionamento Senhora dos Aflitos, nas traseiras

vista aérea

2 - a urbanização da Quinta dos Ingleses em Carcavelos


https://www.msn.com/pt-pt/noticias/ultimas/quinta-dos-ingleses-%C3%BAltimo-espa%C3%A7o-verde-junto-ao-mar-em-cascais-em-risco/vi-AA1hHvkO?ocid=mailsignout&pc=U591&cvid=b2ba70ba63464d15b86ddbf46be8b565&ei=78


https://www.rtp.pt/noticias/pais/quinta-dos-ingleses-ultimo-espaco-verde-junto-ao-mar-em-cascais-em-risco_v1518665?utm_term=Panorama+5+dh%3F%3F%3F%3F%3F%3F+Lisboa+em+resumo&utm_campaign=LPP+Subscritores&utm_source=e-goi&utm_medium=email&eg_sub=558a907afb&eg_cam=ced70b3c9f6af90b72e204ce88e69096&eg_list=7


Parecendo irreversível a destruição da Quinta dos Ingleses (ao menos que se reservasse dos 40 hectares uma pequena área para a construção e o restante fosse "municipalizado" ao dispor dos cidadãos), nos dois casos, em Aveiro e em Carcavelos, terá sido invocada a insustentabilidade dos proprietários na manutenção das propriedades (num caso a manutenção da vivenda, no outro a limpeza e cuidados dos terrenos). Donde se concluirá que são as próprias leis que obrigam a gastos incomportáveis que levam os proprietários a entregar à fúria imobiliária as suas propriedades, isto é, ao mercado. 

É curioso as pessoas protestarem, mas não protestam contra as leis do mercado e dos seus reguladores, muito menos contra a estrutura da propriedade dos modos de produção. Mas quem sou eu para alterar este estado de coisas.