Este blogue andava admirado, como os decisores da RTP/RDP ainda não tinham embirrado com a Antena 2.
Por que mistérios andariam distraidos deixando-se cumprir o seu serviço público cultural a um nível francamente superior ao que seria de esperar do panorama audiovisual português.
E então um comunicado do senhor diretor Rui Pego chama-me à realidade.
São suprimidos os programas de Alexandre Delgado, Antonio Cartaxo, Pedro Amaral e Rui Vieira Nery.
O comunicado do senhor diretor apresenta uma desculpa que se tornou fatal: é preciso fazer cortes (e contudo, enquanto a despesa pública com a cultura for inferior a 1% do PIB é muito dificil aceitar este argumento). Mas apresenta outros, que me parecem simplesmente pífios, como por exemplo querer garantir a diversidsade musical recorrendo a produção própria (eu pensava que António Cartaxo era jornalista da estação, mas confesso que posso estar enganado, ou o talvez já estivesse reformado, não sei e a noticia não explica).
Ora, não reconheço ao senhor diretor nivel intelectual e formação musical para utilizar argumentos desses.
Acho que deve limitar-se a usar o argumento da força e do horror à cultura dos nibelungos.
Alguns dos episódios dos programas que agora cessam tiveram um nivel inteectual, mesmo por padrões internacionais, muito elevado, enquanto resultado de investigação e divulgação de aspetos desconhecidos e humanos da produção musical património da Humanidade.
Alguns dos autores são compositores de elevado nível, ou musicólogos de investigação rigorosa, isto é, sabem do que falam, são produtores ou cultivadores de musica, isto é, sabem do que falam (sabem os decisores do que decidem?).
Mas enfim, é preciso mostrar cortes ao senhor ministro da cultura (o primeiro ministro, cujo nivel intelectual é francamente baixo, nunca tendo saido da vulgaridade das cantigas de maior audiencia televisiva).
É preciso que os nibelungos continuem a sua tarefa destrutiva.
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domingo, 28 de julho de 2013
A Antena 2, no meio da tormenta
terça-feira, 7 de maio de 2013
Antena 2, refugio de cultura
Deixo registado que no dia 7 de maio de 2013 a Antena 2 passou no seu programa Teatro sem fios, dois monólogos da peça O Palácio do Fim, de Judith Thompson, sobre casos reais no Iraque:
http://www.rtp.pt/antena2/?t=TEATRO-SEM-FIOS.rtp&article=1776&visual=2&layout=5&tm=10
Um dos monólogos relata a experiencia do diplomata inglês David Kelly, encarregado de inspecionar as armas de destruição maciça no Iraque. Ao verificar que não existiam, relatou a um reporter da BBC que o pretexto para a invasão era uma mentira. Suicidou-se no seguimento das perseguições a que foi sujeito. O caso também é contado por Carne Ross, seu colega, no seu livro "A revolução sem lider",ed.Bertrand (ver
http://www.carneross.com/
e
http://www.independentdiplomat.org/ )
É uma pena que estas coisas se não divulguem, continuando a "dopar-se" os cidadãos com a televisão e o futebol. Podia começar-se por à segunda feira se concederem beneficios fiscais às televiõoes que transmitissem cultura
Mas é dificil, já os imperadores romanos sabiam a importancia do divertimento alienante.
E será que a Antena 2 não corre riscos de a atenção dos imperadores se concentrar nela?
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quinta-feira, 11 de abril de 2013
O coração e as algemas
Ouvido na Antena 2.
Poesia de Camilo Pessanha, musicada por Fernando Lopes Graça em 1971.
Interpretação de Ana Maria Pinto, que falou na transposição da última quadra para o contexto social e financeiro atual.
em Clepsidra
Poesia de Camilo Pessanha, musicada por Fernando Lopes Graça em 1971.
Interpretação de Ana Maria Pinto, que falou na transposição da última quadra para o contexto social e financeiro atual.
Na cadeia os bandidos presos!
O seu ar de contemplativos!
Que é das feras de olhos acesos?!
Pobres dos seus olhos captivos.
Passeiam mudos entre as grades,
Parecem peixes n'um aquario.
Campo florido das Saudades
Porque rebentas tumultuario?
Serenos... Serenos... Serenos...
Trouxe-os algemados a escolta.
Estranha taça de venenos
Meu coração sempre em revolta.
Coração, quietinho... quietinho...
Porque te insurges e blasfemas?
Pschiu... Não batas... De vagarinho...
Olha os soldados, as algemas!em Clepsidra
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domingo, 21 de outubro de 2012
A incultura de quem não vê, não ouve, não fala
Diz quem está dentro destes assuntos que o orçamento que atribuíram à RTP2 de 3 milhões de euros é uma forma de a estrangular, de impedir o seu trabalho.
Mas como os bárbaros dizem, o numero de espetadores é muito reduzido e não se pode gastar muito dinheiro.
Eu penso que se deve responder com o exercício da competência e da intervenção, pelo menos enquanto seja humanamente possível com um mínimo de dignidade.
Entretanto Jorge Wemans já se demitiu do cargo de diretor da RTP2.
Programas como as sete irmãs (as grandes companhias de petróleo) conseguiram passar, como o documentário "Os donos de Portugal":
http://www.rtp.pt/programa/tv/p28826/c81758
http://www.rtp.pt/programa/tv/p28826/c81758
Mas não existe só a RTP2, existe ainda a Antena2, a quem já amputaram programas de análise e intervenção cívica (recordo “Um certo olhar”), mas que ainda produz serviço cultural de qualidade, nomeadamente no campo da chamada musica clássica.
Hoje aprendi (devemos aprender sempre) que Luigi Nono, compositor falecido em 1990, também ele era interventivo.
Graças ao programa Caleidoscópio – A idade do génio
ouvi um excerto da obra de Luigi Nono dedicada à memória de Luciano Cruz, militante chileno do MIR (movimento de esquerda revolucionaria) , morto em circunstancias não esclarecidas em 1971, antes da eleição de Salvador Allende.
O texto intitula-se “Como una ola (onda) de fuerza y luz”, e declara a perenidade do ideal de liberdade em que Luciano Cruz acreditava, numa altura em que a generosidade e a ingenuidade faziam crer num futuro melhor para as pessoas :
Tudo ponderado, boas razões para as pessoas crescidas, muito sérias, muito competentes e bem postas, que decidem por todos nós, acharem que os orçamentos da RTP2 e da Antena2 são alvos a abater.
É mais ou menos o argumento do filme Farenheit451: depois dos bárbaros tomarem o poder, grupos de cidadãos reuniam-se para celebrar a cultura, cada um com a incumbência de decorar um livro.
Isso esperamos da incultura e do complexo de salvador único do primeiro ministro, que cantou a Nini vestida de organdi, mas nunca sentiu as canções de Ari, nem ultrapassou as canções estouvadas das Doce.
Da incultura e da incompreensão do ministro das finanças, que acredita que os seus modelos são mais reais do que a realidade, que cita imagens literárias que se viram contra ele como o otimismo de Pangloss ou a história trágico-maritima, e que conjuga o verbo precluir como se fosse anglo-saxónico.
Da incultura e da incapacidade do presidente da República de realizar a análise, segundo todas as perspetivas que o povo português votou, e a síntese das ações a tomar, talvez porque, como dizia Saramago, confundia Tomas More com Tomas Man.
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segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Questões de moral e serviço público
E se os leitores tivessem paciencia para ouvir este programa da Antena 2 (isso do serviço público) sobre o pragmatismo e a economia politica dos nossos neo-liberais dias?
Uma reflexão filosófica com musica de ópera como fundo, com notícias interessantes sobre a Islandia, por exemplo, pouco noticiadas no mundo ocidental:
http://www.rtp.pt/play/index.php?prog=1091#/?prog%253D1091%2526idpod%253D205137%2526fbtitle%253DRTP%20Play%20-%20Quest%C3%B5es%20de%20Moral%2526fbimg%253Dhttp%253A%252F%252Fimg0.rtp.pt%252FEPG%252Fimgth%252FphpThumb.php%253Fsrc%253D%252FEPG%252Fradio%252Fimagens%252F1091_1091_questoesmoral.jpg%2526w%253D160%2526h%253D120%2526fburl%253Dhttp%253A%252F%252Fwww.rtp.pt%252Fplay%252F%253Fprog%253D1091%2526idpod%253D205137
E se os pragmáticos gestores que nos governam ouvissem, pudicamente se escandalizassem e pragmaticamente extinguissem o serviço público, ou o que entendemos por isso, como adiante se verá o que é?
Nada que nos surpreendesse, não era?
Pelo que o senhor ministro de assuntos diz, não admirará que o serviço público que a rádio e televisão públicas atualmente presta, ou ainda presta, se vá extinguindo como o frango de cabidela a ser sangrado.
Veja-se o DN de hoje, 3 de outubro de 2011:
1 - O comentador televisivo Nuno Azinheira cita um estudo-sondagem que conclui que a maior parte dos portugueses defende um serviço público de televisão com noticiários (livres de ingerencia governamental e de grupos económicos), documentários, filmes, entrevistas, magazines culturais e históricos.
Mas depois as medidas de audiencia dão a preferencia aos reality shows, às novelas, aos concursos e anedotários primários.
Como dizia uma senhora figurante num reality show, sabemos que não é cultural, mas é disto que gostamos.
O que põe um problema interessante, semelhante ao político que diz uma coisa e faz outra: deverá operacionalizar-se o que o eleitorado considera melhor ou aquilo de que o eleitorado gosta? (o eleitorado vota com o coração ou com a cabeça?).
Problema que já teve solução no passado, no tempo em que foi atingida a autonomia alimentar do país, e que não parecia errada.
Por que é agora errada, quando o país perdeu a autonomia alimentar? Por não dar lucro?
Os programas culturais da RDP e da RTP satisfizeram as pessoas durante muitos anos.
Agora não, porque existem canais privados e entretenimento de nível primário?
Ai que não há confiança nenhuma no senhor ministro de assuntos para dar a resposta correta.
2 - Um artigo de opinião chama a atenção para o fim da onda curta. O governo anterior suspendeu as emissões de onda curta e pediu uma avaliação. Um dos administradores explicou sobranceiramente que tecnologicamente a onda curta está ultrapassada e que poucas pessoas a ouviam. Com o iphone e os androids, podem ouvir-se as noticias longe do país.
É verdade, mas não seria melhor esperar que desapareçam as pessoas que se habituaram ao radiozinho de ondas curtas e que não querem gastar dinheiro em tablets e androids?
Como de costume, tomam-se decisões sem apresentar os estudos fundamentadores das decisões.
Serão assim tão poucos os que prefeririam ouvir as noticias no radiozinho de onda curta?
Ah, sim, poupa-se o dinheiro de manter o emissor de Pegões no ar.
O país interior desertifica e apaga-se como a emissão em onda curta.
E lá vem o senhor ministro de assuntos retomar o argumento provinciano e novo rico: com estas novas tecnologias, a onda curta está obsoleta (e contudo, continuam a fabricar-se os componentes).
Como certamente este blogue, obsoleto.
Uma reflexão filosófica com musica de ópera como fundo, com notícias interessantes sobre a Islandia, por exemplo, pouco noticiadas no mundo ocidental:
http://www.rtp.pt/play/index.php?prog=1091#/?prog%253D1091%2526idpod%253D205137%2526fbtitle%253DRTP%20Play%20-%20Quest%C3%B5es%20de%20Moral%2526fbimg%253Dhttp%253A%252F%252Fimg0.rtp.pt%252FEPG%252Fimgth%252FphpThumb.php%253Fsrc%253D%252FEPG%252Fradio%252Fimagens%252F1091_1091_questoesmoral.jpg%2526w%253D160%2526h%253D120%2526fburl%253Dhttp%253A%252F%252Fwww.rtp.pt%252Fplay%252F%253Fprog%253D1091%2526idpod%253D205137
E se os pragmáticos gestores que nos governam ouvissem, pudicamente se escandalizassem e pragmaticamente extinguissem o serviço público, ou o que entendemos por isso, como adiante se verá o que é?
Nada que nos surpreendesse, não era?
Pelo que o senhor ministro de assuntos diz, não admirará que o serviço público que a rádio e televisão públicas atualmente presta, ou ainda presta, se vá extinguindo como o frango de cabidela a ser sangrado.
Veja-se o DN de hoje, 3 de outubro de 2011:
1 - O comentador televisivo Nuno Azinheira cita um estudo-sondagem que conclui que a maior parte dos portugueses defende um serviço público de televisão com noticiários (livres de ingerencia governamental e de grupos económicos), documentários, filmes, entrevistas, magazines culturais e históricos.
Mas depois as medidas de audiencia dão a preferencia aos reality shows, às novelas, aos concursos e anedotários primários.
Como dizia uma senhora figurante num reality show, sabemos que não é cultural, mas é disto que gostamos.
O que põe um problema interessante, semelhante ao político que diz uma coisa e faz outra: deverá operacionalizar-se o que o eleitorado considera melhor ou aquilo de que o eleitorado gosta? (o eleitorado vota com o coração ou com a cabeça?).
Problema que já teve solução no passado, no tempo em que foi atingida a autonomia alimentar do país, e que não parecia errada.
Por que é agora errada, quando o país perdeu a autonomia alimentar? Por não dar lucro?
Os programas culturais da RDP e da RTP satisfizeram as pessoas durante muitos anos.
Agora não, porque existem canais privados e entretenimento de nível primário?
Ai que não há confiança nenhuma no senhor ministro de assuntos para dar a resposta correta.
2 - Um artigo de opinião chama a atenção para o fim da onda curta. O governo anterior suspendeu as emissões de onda curta e pediu uma avaliação. Um dos administradores explicou sobranceiramente que tecnologicamente a onda curta está ultrapassada e que poucas pessoas a ouviam. Com o iphone e os androids, podem ouvir-se as noticias longe do país.
É verdade, mas não seria melhor esperar que desapareçam as pessoas que se habituaram ao radiozinho de ondas curtas e que não querem gastar dinheiro em tablets e androids?
Como de costume, tomam-se decisões sem apresentar os estudos fundamentadores das decisões.
Serão assim tão poucos os que prefeririam ouvir as noticias no radiozinho de onda curta?
Ah, sim, poupa-se o dinheiro de manter o emissor de Pegões no ar.
O país interior desertifica e apaga-se como a emissão em onda curta.
E lá vem o senhor ministro de assuntos retomar o argumento provinciano e novo rico: com estas novas tecnologias, a onda curta está obsoleta (e contudo, continuam a fabricar-se os componentes).
Como certamente este blogue, obsoleto.
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segunda-feira, 19 de abril de 2010
Manuel Bandeira - Vou-me embora pra Pasargada
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Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
Lá sou amigo do rei
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Não, não é ainda o discurso de despedida de quem parte para a reforma.
Se sou incómodo, ainda não foi desta vez que dei essa alegria aos incomodados.
Reproduzo o poema de Manuel Bandeira, apenas porque o ouvi hoje de manhã na Antena 2.
Devia ser mais ouvida, a Antena 2.
____
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
Lá sou amigo do rei
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Não, não é ainda o discurso de despedida de quem parte para a reforma.
Se sou incómodo, ainda não foi desta vez que dei essa alegria aos incomodados.
Reproduzo o poema de Manuel Bandeira, apenas porque o ouvi hoje de manhã na Antena 2.
Devia ser mais ouvida, a Antena 2.
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