Ouvido na Antena 2.
Poesia de Camilo Pessanha, musicada por Fernando Lopes Graça em 1971.
Interpretação de Ana Maria Pinto, que falou na transposição da última quadra para o contexto social e financeiro atual.
A televisão não liga, mas ainda há quem se dedique a cantar as canções populares recolhidas e harmonizadas por Fernando Lopes Graça e Michel Giacometti.
E o mesmo para as canções heróicas de Lopes Graça.
Ainda há, até, quem continue a harmonizar e compor canções populares, como Eurico Carrapatoso e Vasco Pierce de Azevedo.
Nunca se consegue erradicar completamente a cultura de um povo.
Não se me dá que vindimem
vinhas que eu já vindimei.
Não se me dá que outros logrem
amores que eu já rejeitei.
Fui um ano à vindima,
pagaram-me a trinta réis;
Dei um vintém ao barqueiro, Ai
Fui p´ra casa com dez réis,
Dei um vintém ao barqueiro, Ai,
Fui p'ra casa com dez réis.
Pela folha da vindima,
pagaram-me a trinta réis;
Faço-me desatendida, Ai,
A mim não me escapa nada,
Faço-me desatendida, Ai,
A mim não me escapa nada.
Estou debaixo da latada,
nem à sombra, nem ao sol;
Estou ao pé do meu amor, Ai,
Nã há regalo maior,
Estou ao pé do meu amor, Ai,
Não há regalo maior.
Engraçada, a sabedoria popular, sem ter lido nenhum manual de finanças, identificar claramente que o salário é reduzido de 30 para 10 depois de pagar o transporte. Há que considerar o transporte como um fator de produção e taxar a atividade económica que dele beneficie para financiar as infraestruturas de transporte. Neste caso parece exagerado e mal direcionado, à vindimadora. Antes direcionar a taxa ao transporte privado, não sei se o PET vai direcionar assim ou se prefere castigar a vindimadora.
Por mais voltas que dêem os detentores do poder, a guerra é uma estupidez que mata quem deve produzir.
Acordai, homens que dormis a embalar a dor dos silêncios vis! Vinde, no clamor das almas viris arrancar a flor que dorme na raiz!
Acordai, raios e tufões que dormis no ar e nas multidões! Vinde incendiar de astros e canções as pedras e o mar, o mundo e os corações!
Acordai! Acendei de almas e de sóis este mar sem cais nem luz de faróis! E acordai, depois das lutas finais, os nossos heróis que dormem nos covais Acordai!
Trata-se de uma canção heróica de Lopes Graça, sobre texto de José Gomes Ferreira. Não será necessário cantá-la agora com a força com que se cantava antes do 25 de abril, mas ainda há razões para cantá-la.
Esta inscrição encontra-se no Forum de Almada.
O autor da frase é uma figura destacada da cultura portuguesa do século XX que soube colocar as suas aptidões naturais e as suas competências ao serviço da comunidade, apesar de ter sido impedido por despacho de Salazar de exercer no Conservatório.
Hoje, já não é necessário proibir.
Basta cortar no orçamento da cultura.
Há pouco, na Antena 2, o diretor da ESMAE (escola superior de musica e de artes do espetáculo, do Porto), afirmava que uma escola de musica precisa de muitos anos para se pôr de pé, para ser reconhecida internacionalmente.
Mas que bastavam uns dias para ser destruida.
E que quando as mentes economicistas se debruçam sobre o ensino de um instrumento musical podem ter ideias que condenem esse mesmo ensino (confesso que sempre me admirei da miséria não ter impedido até agora o funcionamento das orquestras sinfónicas da Roménia, da Moldávia, da Ucrania, por aí fora).
Lembrei-me depois das declarações e dos protestos de defesa da cultura pelo próprio atual senhor secretário de estado da cultura num simpósio sobre os direitos de autor na era digital integrado no festival de cinema do Estotil, como se rasgasse as vestes perante a crise financeira que estrangula a cultura.
Malabarices, Cais do Sodré, Lisboa, novembro de 2011
“Hoje vivemos uma crise financeira aguda que tem por base a decadência do modelo de pensamento ocidental e chegámos aqui pela desregulação do próprio modo de vida e pela falta de ideias de como a vida podia ser e se podíamos ter evitado este abismo a que a economia nos conduziu. ... ... ... ... .. ... ... ... ... ... ... .. ... ... ... ... ... ... .. ... ... ... ... ... ... .. ... ... ... ... ... ... .. ... ... ... ... ... ... .. ... ... ... ... ... ... .. ... ... ... ... ... ... .. ... ... Nunca precisámos, como hoje, de defender os direitos dos autores e da criação. Se não tomarmos providências, uma atitude legislativa, daqui a uns tempos vai restar-nos apenas o veículo [Internet] o que é muito injusto para os criadores".
Ficam muito bem estes sentimentos, especialmente perante uma plateia de potenciais interessados na legislação entretanto anunciada, e é de aplaudir uma análise que repõe o foco nos principais artistas ocidentais da crise.
Mas como este humilde escriba sempre foi uma pessoa mediana na sua esfera de ação, sem capacidade de criador, apenas com mentalidade de intérprete do que outros criaram, ao contrário de muito boa gente no nosso meio artístico, talvez por limitação própria ele ache que o esforço, para desenvolver a vida cultural em Portugal, para rentabilizar o trabalho das pessoas que se dedicam a atividades culturais neste país e para tirar destas o rendimento monetário que elas podem gerar (1% do orçamento para a dinamização do setor, era a meta...) , se deveria concentrar em valores culturais seguros, como se diz em economia.
Salvo melhor opinião, claro, desejando sinceramente que a legislação anunciada contribua para a melhoria da vida cultural em Portugal.
Chaminés da cozinha do palácio da independencia em Lisboa, em noite de teatro de um grupo senior, representando O crime da aldeia velha, de Bernardo Santareno