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segunda-feira, 16 de maio de 2011

Madame Butterfly e a situação financeira

O canal Mezzo tem destas coisas.
Numa tarde primaveril de domingo lembrou-se de passar a gravação da Madame Butterfly de Puccini, de Março de 2009, no Metropolitan Opera de New York.
Para alem dos excelentes intérpretes, com destaque para a soprano Patricia Racette, há a destacar a colaboração dum teatro de marionetas japonês.






Tem também interesse analisar o que diz Madame Butterfly.
Abandonada pelo tenente norte americano, mas subsidiada pelo consul dos USA, pergunta à governanta quanto dinheiro lhes resta antes de se tornarem indigentes.
Vai mantendo a esperança de que, um dia, o seu tenente regressará.
É o mito messiânico e sebastianista quando a miséria se desenvolve.


Un bel dì, vedremo                                        Um belo dia veremos
levarsi un fil di fumo                                       subir um fio de fumo
sull'estremo confin del mare.                          no horizonte do mar.
E poi la nave appare.                                     E depois o navio aparece.
Poi la nave bianca                                         O navio branco
entra nel porto,                                              entra no porto,
romba il suo saluto.                                       faz ouvir a sua saudação.


É verdade que a história económica do Japão na segunda metade do século XIX é interessantissima, porque finalmente se abriu ao estrangeiro e à industrialização com sucesso. Alguns setores da economia, como é natural, não acompanharam esse sucesso; o que terá sido o caso de Madame Butterfly, que, perante a obrigação de entregar o filho ao tenente, ao seu pai, se viu perante um trilema semelhante ao de Luciano Amaral no fim do seu livro "Economia Portuguesa, as ultimas décadas"
(ver
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/11/economicomio-lxiv-economia-portuguesa.html       ),

optando pela pior solução:
- ou casava com o rico Yamadori  (investimentos maciços em Portugal por países BRIC)
- ou voltava à sua vida anterior de geisha ( saída da união monetária e desvalorização imediata da moeda para facilitar as exportações)
- ou fazia hara-kiri (integração do país como região noutra unidade política).

Como Luciano Amaral conclui,  "seja o que for que venha a acontecer, as perspetivas não entusiasmam".

Mas podiamos fazer um esforço para não acabarmos como a Madame Buterfly, apesar da musica ser bonita e os portugueses gostarem de música.
Assim como assim, continua a haver muita gente a produzir, tanto para evitar importações como a exportar (pena a tal coisa do PIB por trabalhador-hora ser cerca de 50% da média dos paises mais desenvolvidos; mas tambem nos podiamos contentar com menores salários, a começar pelos professores de economia e pelos juizes, claro).
E depois, lembrei-me há dias de que, quando ia a reuniões com os colegas homólogos dos outros metropolitanos, verificava normalmente que não eram grandes as diferenças entre os metropolitanos e os indicadores deles e os nossos (descontando, evidentemente, por razões de escala de mercado, alguns preços de construção ou de fornecimentos; porém, quando considerado o universo dos metros, nada de anormal).
Recordo-me que as discussões que tinhamos eram entre iguais.
Custará tanto que nas outras atividades assim seja também? (como diz a AICEP, pelo menos nas cortiças e nas fibras sintéticas a nossa vantagem comparativa, na melhor tradição de David Ricardo, é inquestionável).
Então custará assim tanto, para não fazermos como a Madame Butterfly, dar o braço aos técnicos estrangeiros que interessa virem ajudar a resolver os problemas quando não temos essa vantagem comparativa? Não era assim que se tratavam os problemas no tempo dos "estrangeirados", no fim do século XVII, ainda o ouro do Brasil não tinha chegado e o conde da Ericeira tentava vender a ideia? É capaz de ser uma boa sugestão, apoiar as políticas dos "estrangeirados"
(ver
http://pt.wikipedia.org/wiki/Estrangeirado
e uma breve biografia de Luis de Meneses, 3ºconde da Ericeira, que não se importou de mandar vir especialistas estrangeiros ensinar os portugueses a produzir, em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADs_de_Meneses     ).



sábado, 9 de abril de 2011

Festival internacional de orgão de Lisboa

Domingo de Primavera em Mafra.
É o concerto de encerramento do festival com os seis orgãos da basílica de Mafra.
Em plena crise, mais uma série de concertos gratuitos.
Em termos de mercado, será excesso de oferta, ou as alternativas de mecenato a funcionar.
Graças à produção da Juventude Musical Portuguesa, ao "alto patrocínio" da Câmara municipal de Lisboa e aos apoios da embaixada de Espanha, Antena 2, europa 90,4 fm, Instituto Cervantes de Lisboa, Turismo de Lisboa e Echo.

Aguardando a abertura dos portões

O orgão da Epístola (à direita) e o do Evangelho (à esquerda)

Os seis orgãos de Mafra são posteriores a D.João V. A sua instalação é contemporanea das invasões francesas.
Motivo de reflexão: todo o século XVIII, graças à vinda do ouro do Brasil (ainda bem que o que veio, e foi muito, não chegou a 10% do extraído, o principal ficou no Brasil), à fuga para Portugal de capitais europeus devida às guerras da sucessão de Espanha e da Áustria e à guerra dos 7 anos, e à intensiva, "iluminada" e "estrangeirada" politica de industrialização, conduziu a uma situação em que a balança de pagamentos de Portugal foi francamente positiva, ao mesmo tempo que o país beneficiava de autonomia alimentar. A Europa esteve muito entretida a guerrear, e as guerras incluiram o território da América do Norte, a India e as Filipinas (1ª guerra mundial, a do Kaiser Wilhelm?!).
 Infelizmente, a revolução francesa não acabou com o interesse pela guerra, e tivemos as invasões francesas. Ainda hoje está por resolver o contencioso entre Portugal e França para a devolução das obras de arte que foram levadas pelo invasor.
A rapina cultural dos exércitos franceses, apesar das contrapartidas como a preservação de algumas peças e a descodificação da escrita hieroglifica, abateu-se sobre vários paises, do Egito a Portugal.
Deveria talvez juntar-se ao contencioso cultural com a França os prejuizos para a economia portuguesa decorrentes das invasões, de que o principal terá sido a desindustrialização (mais precisamente, o não acompanhamento das inovações tecnológicas e, nos casos em que houve atualização tecnológica, deficiente aproveitamento, como no caso das infraestruturas ferroviárias).
Mais uma vez,  excelentes ideias,  liberdade e  democracia, e a reforma do código civil, atraiçoadas pelos executantes, dessa vez napoleónicos.
De modo que os orgãos de Mafra, tal como as finanças e a estrutura produtiva do país, estagnaram. Recuperados em 2010, apesar das dificuldades do país e do seu ministério da cultura, têm feito as delicias dos organistas portugueses e estrangeiros, e dos frequentadores dos festivais de orgão.
Embora neste caso os beneficios se estendam a  um publico mais vasto (cerca de 1500 espetadores) do que o festival das terras sem sombra do baixo Alentejo, talvez que uma politica mais dinamica de divulgação através da televisão e da comunicação social rentabilizasse o investimento, nomeadamente com a venda a televisões estrangeiras (lá está, a cultura transformada em bem transacionável; e para a televisão francesa deveria haver um preço especial).
Pena a economia de Mafra pouco ter beneficiado deste concerto. Apesar da intensa procura de restaurantes para jantar, antes do concerto, por parte de quem vinha de fora, apenas um restaurante e uma cervejaria tinham as portas abertas. Terá sido uma metáfora à moda de Keynes: estão as infraestruturas prontas a produzir, estão disponíveis os meios de produção (pese embora alguns dos meios de produção, os alimentos, serem importados, vá que a taxa de cobertura pelos produtos alimentares autóctones seja significativa nesta região), mas as entidades produtivas estão fechadas.
Acho que os senhores engravatados que explicam aos portugueses as políticas bancárias, deviam estudar bem o programa de restrições de consumos supérfluos e de investimento maciço em empresas produtoras de bens com retorno elaborado nos fins do século XVII pelo conde da Ericeira, ali perto de Mafra. Mas depois chegou o ouro do Brasil, no século XVIII, e esquecemo-nos todos da parte restritiva.
Que fado.