quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Gestionarium XIX - A nostalgia da saída, a infiltração de combustível no túnel, o dinamismo de quem não aceita o emprego para toda a vida, e a gestão para totós (managing for dummies)



Agora que se aproxima a saída da empresa, estou sujeito à ameaça de ataques de nostalgia. Porque optei por permanecer na mesma empresa durante a vida ativa.
E agora diz-se que não há empregos para toda a vida.
Já tinha ouvido isso, há muitos anos, quando fizemos a viagem inaugural para o Campo Grande, da estação da Cidade Universitária para o Campo Grande, em 1993. Nas pequenas festas das inaugurações, é da praxe convidar os antigos administradores.
E na inauguração de 1993 encontrei o dinâmico presidente da administração de 1976 a 1979. Pouco tinha mudado de aspeto, mas tinha mudado de empresas, de energia, de transportes, da industria química, quase ao ritmo de uma por ano, passando pelas suas administrações, vendendo serviço de consultadoria, aqui em Portugal e em Macau, sem nunca largar a sua cátedra no IST.
Devia ter gostado de mim quando trabalhou comigo (no tempo em que administradores reuniam com simples técnicos da sua empresa) , porque a primeira coisa que me perguntou foi: “Então ainda está cá?” e depois, como se se desse conta de que acabara de passar um atestado de incompetência a quem nunca mudou de empresa, e respondendo à minha inquirição “o que tem feito?”, foi dizendo que tinha tido de procurar trabalho pelo mundo fora.
Era de facto um técnico de grande capacidade. Talvez que tanto dinamismo deveria estar repartido por outros técnicos, para não se concentrar tanto trabalho num só.
O senhor foi até muito útil na consultoria que prestou quando um depósito de combustível duma garagem perto do cruzamento de S.Sebastião rompeu e originou uma infiltração na galeria. Os índices medidos de explosividade aproximaram-se dos valores-limite e a circulação de comboios esteve suspensa até as medidas tomadas (as técnicas de selagem que os especialistas do petróleo conhecem) terem feito os indices regressar aos valores normais.
Na semana seguinte, do outro lado do mundo, na linha do trans-siberiano, a explosão de uma conduta de gás, numa encosta adjacente à linha do comboio, provocou oito dezenas de mortes.
Foram os deuses a divertir-se com os dados.
No caso de Lisboa, tudo começou quando os maquinistas começaram a queixar-se de cheiro intenso a gasolina.
O que me leva a continuar a pensar, agora que cada vez mais linhas de metropolitano funcionam de modo integralmente automático, isto é, sem maquinista a bordo, que o dinheiro que se poupa nos salários dos maquinistas (diz a experiência que essa economia dificilmente ultrapassará os 20%, uma vez que é necessário ter um grupo de maquinistas que possa ir buscar o comboio no caso dele avariar, e outro grupo de agentes para apoio aos passageiros em caso de emergência) tem de ser investido em sistemas automáticos de deteção linear e contínua, ao longo da linha e nos próprios comboios.
Deteção de fumos, de chama, de gases tóxicos, de descarrilamento ou colisão com objeto na via…
Como custa explicar aos economistas que se põem a gerir empresas de transporte ferroviário que o objetivo principal dos sistemas automáticos que a tecnologia põe ao dispor das comunidades não é poupar nos encargos com o pessoal…
Como custa explicar-lhes que quem transporta pessoas não pode confiar cegamente na eficiência da manutenção dos depósitos de combustível instalados na proximidade das suas linhas (tem de ser mantida atualizada uma lista com a localização desses depósitos).
E para isso, não pode ficar-se numa empresa 2 ou 3 anos, tem de compreender as implicações de tudo isto…
Não me parece mal haver empregos para toda a vida, especialmente se houver questões de segurança pelo meio.
Tudo isto a propósito da nostalgia do fim do emprego para toda a vida (ou da nostalgia do fim da vida depois do fim do emprego?) e do exemplo do antigo administrador que na sua diversificada vida ativa exerceu funções que poderiam ter sido repartidas por outros técnicos se a capacidade de organização da espécie humana não dependesse tanto da capacidade de apropriação de funções de alguns.
Isto também a propósito de um livro de gestão que, há também uns anos, simpáticos colaboradores resolveram oferecer-me: Gestão para totós. Em inglês: Managing for dummies. Autores: Bob Nelson e Peter Economy. Editora: Porto Editora.
Digo simpáticos, talvez por também pertencerem ao clube do emprego para toda a vida e se terem especializado nas suas técnicas, mas principalmente porque acharam que eu merecia uma ajuda dos “gurus” da gestão. Vamos entender aqui “totó” como “dummy”, alguém que está a ocupar transitoriamente um lugar,não direi para alguém, mas para que venham a ser obtidos resultados e atingidos objetivos, sem saber muito bem como fazer para os conseguir.
E vejam o que descobri no capítulo “Delegar, ou como produzir mais sem trabalhar mais”:
“Ocultar informação a um funcionário da empresa é mutilá-la”. Não é bonito, num país em que se quer reservar a informação a quem tem o poder? (tontice, querer guardar a informação; ela escapa-se pela informática…).
E para além de não devermos mutilar as empresas (vá, deleguem, façam broadcasting e disseminação da informação, alarguem o debate, mandem passear os paralizados na evolução que repetem desde o cromagnon que “cada macaco no seu galho”, aproveitem o que as pessoas são capazes de fazer) , também devíamos ter pena dos sobredotados como o ex-administrador da minha empresa, e defendamos a repartição das tarefas, a descentralização, a dinamização das equipas nas empresas e da abertura ao debate externo, para que não sobrecarregarmos tanto os sobredotados, os super-dinamicos, os gestores de eleição.
Seria uma revolução democrática nas empresas, não seria?
Como diz a sabedoria das multidões, “não há ninguém do grupo mais inteligente do que o grupo”.

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domingo, 15 de agosto de 2010

O problema de Fermat-Weber da localização ótima e das distancias ponderadas, a lei de Zipf e a conjetura de Manfred Ruder sobre o traçado de novas linhas de metropolitano

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Eis um título digno de um dia quente de verão, duma apresentação num congresso de transportes, com os distintos técnicos assistentes a encomiar a organização e os conferencistas.
Mas neste blogue, é apenas a evocação de dois artigos do prof.Buescu na revista da Ordem dos Engenheiros, Ingenium, e do resultado da visita de um colega de um metropolitano alemão a Lisboa, numa passada reunião da UITP.

1 – o problema de Fermat-Weber – Trata-se, por exemplo, de encontrar a localização ótima de um armazém ou de um hipermercado que sirva 3 cidades, ponderando o número de habitantes de cada cidade, de modo a minimizar as deslocações.
Seja A uma povoação com 10.000 habitantes, B também com 10.000 e C com 15.000 habitantes. A, B e C formam um triangulo equilátero. P é o ponto de localização ótima.


Feitas as contas para a minimização das distancias ponderadas com a habitação, verifica-se que, muito pouco democraticamente, o ponto P coincide quase com C, a povoação que pouco mais tem do que 40% do total de habitantes.
Deve notar-se que o ponto de vista do interesse é aqui o do dono do hipermercado. A ótica do interesse global da comunidade (obviamente um supermercado em cada povoação) já foi tratada noutra mensagem deste blogue  (ver em 2 de Janeiro de 2010, em
  http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/01/economicomio-xxxvi-economia-dos.html  )
e não coincide, pese o idealismo adamsmithista, com o interesse do distribuidor (que vai chamar a atenção para as economias de escala e da centralização).
O problema de Fermat-Weber demonstra a atracão que um ponto de ponderação mais importante exerce sobre uma ação comum.
Exemplifica a concentração em grandes cidades dos recursos de um país.
2 – A lei empírica de Zipf – na origem da lei de Zipf está a verificação de que a frequencia de utilização das palavras mais usadas, em qualquer texto, é muito maior do que a das palavras menos usadas.
É mais uma partida pouco democrática que a matemática prega às comunidades, porque a generalização desta lei conduz à lei da dimensão das cidades de um país: a cidade mais populosa pode ter o dobro da segunda cidade, o quádrupulo da terceira e por aí fora. Trata-de de uma função proporcional a uma potencia cujo expoente é negativo (proporcional ao inverso da potencia), correspondendo a base ao número de ordem da cidade ou elemento

3 – a conjetura de Manfred Ruder – Durante uma visita de trabalho a Lisboa, Manfred Ruder verificou que o principal problema do Metropolitano de Lisboa era a desertificação da cidade e o não crescimento do número de passageiros transportados. Assim, para aumentar o volume de negócios e as receitas do metropolitano, embora correndo o risco de aumentar também as despesas enquanto o passe social não deixar que as receitas cubram as despesas de operação, terão de se procurar passageiros onde eles existam construindo linhas que os vão buscar, ou incentivar claramente o “repovoamento” (como diria D.João II e os seus ministros) de Lisboa.
Isto é, Lisboa, aproximando-se rapidamente dos 500.000 habitantes (em 1980 tinha 800.000 habitantes) está a desobedecer claramente à lei de Zipf, embora o conjunto da área metropolitana de Lisboa não o faça.
As próprias freguesias de Lisboa, em termos de grandeza de habitação, estão também a fugir à lei.
Na simplicidade da voz popular de alguns presidentes de câmara dos municípios envolventes de Lisboa, ou de presidentes de juntas de freguesia de Lisboa, está-se a viver um movimento de novas centralidades, que mais não são do que exemplos da atração do ponto P pelo ponto C do desenho acima.
A conjetura de Manfred Ruder diz que, para aumentar as receitas através do aumento de passageiros transportados, as novas linhas que vierem a ser projetadas terão de considerar, por um lado, a forte atração dos novos núcleos de população crescente (exemplo: a zona da Expo, que neste momento absorve os serviços anteriormente instalados na Baixa; os grandes baisrros suburbanos e as zonas industiais dos municípios envolventes de Lisboa), e por outro, a necessidade de implementar medidas contrariando esta tendência (medidas essas de natureza democrática, tendo em conta o interesse da comunidade em perspetiva integrada).
Por outras palavras, a conjetura diz que, se as novas linhas seguirem o movimento de crescimento das zonas da matriz emprego/habitação, em vez de reabilitar o tecido urbano pré-existente (incluindo as atividades industriais), a deslocação do ponto P continuará a afastar-se do centro da cidade, rarefazendo o movimento de passageiros no interior dos limites do município de Lisboa . Por outro lado, se se densificar a oferta de novas de linhas de metro no interior desses limites, corre-se o risco de a procura dos passageiros não corresponder à oferta (isto é,  o "repovoamento" e a redinamização industrial e de serviços do centro de Lisboa não depende apenas de novas linhas de metro).
É possível que a conjetura de Manfred Ruder tenha alguma verdade porque, por exemplo, no movimento do transporte individual, estima-se (estima-se porque se aguarda a realização de inquéritos confiáveis) que entre 400.000 a 600.000 automóveis entrem diariamente no município, mas que 60 a 70% serão tráfego de travessia.
O que quer dizer que grande parte de cidadãos ativos trabalha num ponto da matriz fora dos limites do município, mas habita noutro ponto também fora desses limites.
Da conjetura se conclui que, para reduzir o tráfego do transporte individual, substituindo-o por transporte metropolitano de melhor rendimento energético e menores emissões de CO2 por passageiro.km, haverá que projetar novas linhas exteriores aos limites do município.
Porém, tal como se verificava com a localização dos hipermercados, se quisermos economizar a nível global (neste caso, a nível da área metropolitana da grande Lisboa) a energia das deslocações, teremos de adotar medidas que contrariem a tendência de desertificação, como por exemplo a instalação de serviços na Baixa, de algumas industrias e oficinas nos Bairros de Lisboa, de demolição parcial de habitações antigas para emparcelamento e reabilitação das habitações (paradoxalmente, a existência de parques de estacionamento automóvel particulares nos edificios de habitação gera a fixação no interior de Lisboa).

Conclusão: as observações de Manfred Ruder constam dos relatórios da UITP, que não se cansam de destacar a importância e a interdependência das politicas de urbanismo das cidades no planeamento das redes de transporte.
Em Lisboa, tudo indica que é um campo de atuação privilegiado para a Autoridade da Área Metropolitana de Transportes e para os seus técnicos, em articulação com a Autoridade Metropolitana das câmaras da sua área. E seria um ótimo campo para aplicação das metodologias da "Sabedoria das Multidões" de James Surowiecky.
Esperemos que o seu trabalho seja frutífero.


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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A silly season

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Aproveitando a "silly season", contemos uma anedota. Uma anedota mesmo. Dedicada aos meus amigos adamsmithistas. Considero-a portanto uma anedota reacionária, no sentido de poder contribuir para o deslustre   da classe trabalhadora na problemática da segurança social. Além de poder ofender sensibilidades mais delicadas, do ponto de vista religioso. Mas estamos na "silly season".

Jesus Cristo já há uns séculos que andava ansioso por regressar à Terra.
Dada a sua natureza humana não se admirava de ter errado ao considerar que um grupo de homens podia tomar conta da sua Igreja de acordo com os seus próprios ensinamentos.
Arrepelavam-se-lhe os cabelos com os abusos de autoridade que os bispos, especialmente o bispo de Roma, foram cometendo desde os primeiros tempos, desde a execução de Hipatia de Alexandria, pouco tempo antes do édito de Teodósio que proibiu a escrita hieroglifica, até aos autos de fé da Inquisição que se prolongaram até ao século XVIII, em Portugal, que em Espanha, onde o sangue é espetáculo, foi até ao XIX.
Mas Jesus Cristo estava tolhido pelos mecanismos de ligação interna da Santissima Trindade, e o Espirito Santo não queria que ele voltasse à Terra.
Porém, até mesmo uma instituição como a suprema autoridade do Paraíso não é imune às táticas de propaganda das ideias inovadoras do "marketing" organizacional, cujos melhores gurus foram sucessivamente comparecendo junto do Criador.
E chegou uma altura em que foi considerado que os referidos laços que vinculavam as três pessoas da Trindade deveriam ser afrouxados.
Substituiam-se assim as sinergias da trindade pelas dianergias da descentralização e da iniciativa individual.
Valha a verdade que, se a situação original fosse de dianergias, a estratégia inovadora dos gurus que convenceram a Trindade teria sido a de inovar promovendo as sinergias, mas o que interessava agora a Jesus Cristo era que podia descer à Terra em paz, que Paz sempre foi do que Jesus Cristo gostou.

E foi assim que Jesus Cristo se encontrou tomando uma imperial numa mesa recolhida dum bar do Cais do Sodré.
Do outro lado da sala, ao fundo do balcão, um grupo de marítimos, um alemão, um francês e um português, entretinham-se em frente de imperiais e tremoços.
Foi quando o alemão reparou em Jesus Cristo e, fitando-o disse para os companheiros:
- Tenho a certeza, é Jesus Cristo que está ali.
- É pá, a cerveja já te fez mal.
- Não. Tenho a certeza; vou lá falar com ele.

E assim foi. O alemão tanto insistiu que Jesus Cristo acabou por confessar quem era e lhe perguntou:
- Que queres, meu filho?
- Sofro do ventrículo esquerdo dilatado e hipertrofiado. Ainda me dá um enfarto. Queria que me curasses e diminuisses as paredes do músculo cardíaco.
- Meu filho, prometes que não dizes a ninguém que sou Jesus Cristo?
- Sim.
-Então vai em paz. Estás curado e não votes na Angela Merkel.

O alemão sentiu-se imediatamente mais leve, até porque o problema estava relacionado com o excesso de peso, mas era claro que não conseguia guardar um segredo e foi logo contar ao outros.
O francês, quebrado o seu ceticismo cartesiano, saltou imediatamente para a mesa de Jesus Cristo e pediu-lhe:
- Mestre, sofro de aperto do esfincter da bexiga; não consigo esvaziá-la; já tenho a operação marcada, é com laser mas exige anestesia geral e não queria ficar a dormir no hospital.
- Já sei, queres que te cure. Está bem, vai em paz porque estás curado, e não votes no Sarkozy, porque nem ele nem a Angela dão prioridade ao cumprimento dos artigos da Declaração Universal dos Direitos do Homem.

O português permaneceu calmamente em frente das suas cervejas.
Quando Jesus Cristo  ia a sair para prosseguir a sua missão, perguntou-lhe, pousando afetuosamente a mão no ombro:
- E tu, meu filho, nada me pedes?
E o português imediatamente:
- Desculpa, pá, mas tira-me já as mãos de cima, porque não quero que me cures de nada. Estou de baixa há 15 dias e assim quero continuar.

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Irene


Irene, Irene, mais precisamente, MSC Irene, navio porta-contentores com 366m de comprimento e 51 m de boca (largura), com capacidade para 14.000 TEUs (1 TEU<>39m2), veio do Extremo Oriente, aportou a Sines e seguiu para o Havre. Com importações e com exportações.

Aplausos.

A estratégia do porto de águas profundas está a funcionar.
Não era o elefante branco que os temerosos dos investimentos lhe chamaram no princípio dos anos setenta do século passado.
Pessoalmente, orgulho-me muito de ter acreditado na altura (e em que era preciso acabar com a guerra colonial, quanto mais não fosse para a economia funcionar).
Foi também a época dos que não queriam que se fizesse o Alqueva.

Será uma religião, ser-se contra os grandes investimentos...

Mas aplausos, por neste país ainda haver quem consiga fazer andar os investimentos.
Esperemos que a linha férrea de mercadorias Sines-Poceirão-Caia não seja  parada  pelos temerosos.

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sábado, 7 de agosto de 2010

Rodoviarium XIX - a estatística

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O assunto é triste.
A autoridade nacional de segurança rodoviária aplicou finalmente, de acordo com as normas europeias, desde janeiro de 2010, o critério de contabilizar os mortos a 30 dias depois do acidente.
Só há estatísticas de Janeiro; morreram 64 pessoas no local (era este o número que era enviado ao Eurostat e de que se servia o senhor ministro da administração interna para publicamente dizer que a sinistralidade estava a diminuir).
Na realidade, morreram mais 19 pessoas nos 30 dias seguintes aos acidentes de janeiro deste ano (agravamento de 29,7% relativamente ao critério de contabilização anterior).

Com a agravante de que a maior parte das vítimas resulta de atropelamentos.
Já se sabia que a situação estava má, especialmente nos atropelamentos (devido principalmente às melhorias nas condições de segurança no interior dos automóveis), mas argumentava-se que o diagnóstico não estava correto.

Pronto, agora já está correto, já se sabe onde as pessoas morrem, mas apenas do ponto de vista estatístico.
Faltam duas coisas essenciais e urgentes:
1 - lançar uma campanha publicitária intensiva com imagens pela positiva (a campanha da tartaruga, pelo ridiculo e pela natureza negativa, pareceu inutil; idem as campanhas que mostram imagens de desastres porque "só acontecem aos outros"), incidindo no cumprimento das regras do código, principalmente no respeito pelos peões;
2 - lançar equipas de investigação científica das causas e circunstancias de cada acidente-tipo e divulgá-las amplamente (interessava ter divulgado os estudos técnicos que se fizeram sobre o acidente com o autocarro na A23 e não o parecer subjetivo da sentença ou as posições de parte interessada das seguradoras - existem já entidades especializadas em análises deste tipo de acidentes rodoviários).

Aguardemos os números dos meses seguintes, de que a perceção é deprimente.

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Educação XV - O que é o ensino supletivo de musica

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Que diferença existe entre o ensino de música nos estabelecimentos de ensino especializados, da rede particular e cooperativa, em regime articulado, em regime integrado e em regime supletivo?

A resposta, eu não sei; apesar de gostar muito de música e de ouvir profissionais portugueses.

As explicações foram dadas pela anterior senhora ministra; eu não as percebi, mas recordo que o diretor do Conservatório Nacional se opôs frontalmente.

Agora, vem o senhor governo informar que, devido às dificuldades financeiras de momento, foram decididos cortes nos apoios.

Tudo indica que mais valia não ter mexido nos "regimes", porque os cortes teriam menor impacto (guardadas as devidas distancias, fecham-se os centros de saúde e as maternidades e fazem-se avançar as ambulâncias; depois, com os cortes, param-se as ambulâncias), ou então assumir que a cultura não é uma prioridade, apesar de estarmos longe do 1% do PIB.

Há um ditado chinês que diz que quem salva a vida a alguém, fica responsável por ela. Se salvaram o ensino da música com os "regimes", deveriam ficar responsáveis por eles.

Como cidadão contribuinte e amador de música, já indignado com a demissão do diretor do S.Carlos com uma indemnização elevada, manifesto também no caso dos cortes dos "regimes" a minha indignação pelo que isso possa afetar a qualidade dos futuros profissionais de musica deste país.

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Educação XIV - Apesar de tudo

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Apesar de tudo, ainda há esperança.
Quanto mais não seja porque a probabilidade de tomar uma decisão errada, num contexto de variáveis múltiplas e de correlações mútuas desconhecidas para quem toma a decisão, pode ser menor do que tomar uma decisão mais acertada.
Diagnóstico: o número de reprovações é elevado
Problema: Como diminui-lo?
Proposta 1 de solução: eliminar as reprovações
Proposta 2 de solução: melhorar a preparação dos alunos

Fica agora por resolver a questão de como operacionalizar a proposta 2, uma vez que a fé necessária para acreditar na proposta 1 ultrapassa a capacidade normal dos cidadãos e cidadãs (como dizia o DN de hoje, não estamos na Escandinávia).

Foi falado neste blogue, em 4 de Junho deste ano, como nos USA se têm registado progressos na execução desta proposta 2, nomeadamente através dos programas "Direct Instruction" e "No chil left behind" (ver

http://fcsseratostenes.blogspot.com/search?q=left+behind).

Verifico agora, por informação dos jornais, que em Portugal, apesar da alienação das realidades de correntes mediáticas de burocratas do ministério da Educação, que há outras correntes que abordam corretamente a questão.

Existe um programa, intitulado "Mais sucesso", desdobrando-se noutros programas, de que se destaca o "Turma mais" que combatem o insucesso escolar naquilo que está ao alcance da escola (melhorar a capacidade educacional e financeira dos pais no período em que as crianças têm entre 5 e 12 anos, a qual é fator decisivo, não está ao alcance das escolas). Verificou-se no último ano letivo, que das 65 escolas abrangidas pelo programa "Turma mais", em 64 das escolas o número de reprovações baixou 30%. Qual é o segredo? A criação de uma turma por onde rodam todos os alunos, acabando aqueles que tem mais dificuldades por se concentrar nela e beneficiando de mais atenção. Isto é, houve necessidade de aumentar o número de professores e de horas (com os correspondentes custos, claro).

Eu penso que não era preciso a experiencia, que já se sabia que as soluções economicistas de reduzir o número de professores e aumentar o número de alunos por turma conduzia à degradação. Houve professores ofendidos pela anterior senhora ministra, acusados de preguiçosos.
Mas a experiencia da "Turma mais" aí está.
O problema é que é só em 65 escolas, e já se concretizam as ameaças de escolas com 2000 alunos em consequencia do fecho das pequenas.

Por um lado há esperança, por outro lado, vê-se o abismo bem perto.


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quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Exmo Senhor Secretário de Estado das Finanças

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Exmo Senhor Secretário de Estado das Finanças


Na qualidade de cidadão da República, peço desculpa por me dirigir a V.Exa, mas relevo em minha defesa o artigo 48 da Constituição da República, que define o direito de qualquer cidadão ser informado de assunto de interesse público ( “1. Todos os cidadãos têm o direito de tomar parte na vida política e na direcção dos assuntos públicos do país, directamente ou por intermédio de representantes livremente eleitos.
2. Todos os cidadãos têm o direito de ser esclarecidos objectivamente sobre actos do Estado e demais entidades públicas e de ser informados pelo Governo e outras autoridades acerca da gestão dos assuntos públicos.”).

Ora, nos tempos que correm, dificilmente poderemos encontrar um assunto de maior interesse público do que aqueles que dizem respeito à gestão das finanças de todos nós.
Daí o dirigir-me a V.Exa depois de ter visto na comunicação social os orgulhosos resultados de 3 importantes bancos do nosso País no 1º semestre, mas também a descoroçoada desculpa para o facto de os lucros terem subido e os impostos terem baixado, como se pressurosamente quisessem cumprir o desiderato da escala regressiva de impostos de Milton Friedman e da Reaganomics .

Como V.Exa sabe, graças à formação matemática que tem, as derivadas positivas ou negativas das variáveis podem ser mais significativas do que os valores absolutos dessas variáveis.

Congratulamo-nos todos, em princípio, pelo crescimento dos lucros ( +13% relativamente ao 1º semestre de 2009), dos produtos bancários ( +5%) e das comissões, se indiciassem aumento da matéria coletável ( +14%).
Mas, os impostos devidos baixaram (69% ?!).

Se estivéssemos perante os resultados de análises médicas de um doente, sendo o doente, guardadas as respeitosas distancias, a máquina contributiva, diríamos que estaria a precisar de intervenção urgente.
Se resultados análogos, também mantendo as distancias e as diferenças disciplinares, me fossem apresentados pelos meus colaboradores, nos tempos em que eu desempenhei funções de coordenação técnica de manutenção e de projetos, teriam eles de me ouvir dizer que o seu (deles) comportamento teria de mudar, sem o que haveria incomodidades graves de relacionamento no trabalho.

Mas vamos à já classificada por mim como descoroçoada desculpa para justificar a diminuição dos impostos.
1 – os bancos em causa pagaram impostos no estrangeiro. Terão razões para isso, mas quero recordar a V.Exa o que José Saramago sempre fez: pagava os impostos em Portugal e mandava dar uma volta os cobradores espanhóis. Para isso estamos na União Europeia. Se os bancos pagarem os seus impostos em Portugal não precisarão de pagá-los no estrangeiro. E se o trabalho desses bancos no estrangeiro é útil para a economia das empresas exportadoras ou dos emigrantes portugueses, então os seus gestores compreenderão que se poderá lançar no futuro uma taxa suave, para que os beneficiados não sejam apenas as empresas exportadoras e os emigrantes, mas também quem está em Portugal a trabalhar. Mas podem esses bancos garantir que os impostos pagos no estrangeiro não o foram sobre depósitos em “off-shores”? e que as suas ações não contrariaram as diretivas emanadas de vários governos sobre as “off-shores? Sºao esses esclarecimentos que se pedem.
2 – os bancos venderam participações cujas mais valias não são tributáveis. Muito bem, não são tributáveis, não se fala mais nisso.
Mas pode falar-se em que pode sair uma lei para as tributar, a partir de agora? É mais este um esclarecimento que se pede.
3- os bancos fizeram provisões dedutíveis para efeitos fiscais. É uma situação análoga: estará em preparação uma lei que determine o fim dessas deduções? É também esse um esclarecimento pedido.
4 – os bancos consolidaram contas por equivalência patrimonial de participações financeiras; os bancos fizeram correções por interesses minoritários. Neste campo, confesso a minha incapacidade de compreensão de tão altas engenharias financeiras, de que algumas técnicas terão sido amplamente usadas na preparação da crise especulativa internacional do Outono de 2008. Por isso fico desconfiado, e a ausência de explicações compreensíveis não ajuda a dissipar a desconfiança.
5 – embora sem dados para o afirmar com segurança, a perceção que se tem é que, perante o aumento de lucros, não tem havido em correspondência uma melhoria na disponibilização de empréstimos para empresas investidoras e para as famílias, o que poderia em parte justificar uma dispensa de impostos.

Perdoará V.Exa a crueza com que escrevo, mas, possivelmente por deformação profissional em disciplina diferente da especialidade de V.Exa, estas justificações suscitam-me a imagem da areia atirada para os olhos para distrair as atenções.
Creia porém que gostaria mesmo de ser esclarecido sobre as causas reais da diminuição dos impostos em oposição ao aumento dos lucros e de ser informado sobre a forma de o evitar no futuro, como, no interesse público, julgo ser a intenção de V.Exa.

Com os melhores cumprimentos.

Fernando Santos e Silva, contribuinte 146 552 555, IRS/2009 (trabalho por conta de outrem e 4 meias rendas de casas antigas) 4.567,29 euros.

PS - Curiosissimo ver no DN de hoje, 7 de Agosto,  o senhor presidente do Santander Totta dizer que não tem nada a opor a que os bancos paguem mais imposto sobre os lucros enquanto se estiver em crise. Esperemos que o senhor governo não queira contrariar a ideia.

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terça-feira, 3 de agosto de 2010

Uma viagem de metro

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A viagem de metro decorria calmamente na manhã fresca de Verão.


Estávamos no sentido da periferia, já perto do limite estrito da municipalidade lisboeta, e por isso havia muitos lugares vagos, quando se deu o fenómeno.

A energia acumulada sob a forma de compressão elástica do aço da mola ultrapassou o coeficiente de retenção nos encaixes e a mola em linha ondulada saltou do forro do assento dos bancos longitudinais e transmitiu alguma da sua energia cinética a um sonoro choque com o pavimento.

Sorriram, depois da surpresa inicial com algum susto, os dois passageiros mais próximos. Já tinham um motivo de conversa e de aproximação, sem que a senhora jovem, de toilette fresca como eu já disse que era a manhã, achasse que o cinquentão estivesse a ser intrometido.

Não foi nada de grave, nem de extraordinário.

Mas a ideia cruza as minhas circunvoluções com a rapidez de Mercúrio ou a de uma mola a libertar-se do espartilho.

Será que os moços que tratavam dos assentos consumiam uma parte exagerada dos encargos de pessoal da empresa e desequilibravam as contas perante os exigentes acionistas, e foram deixados passar à reforma sem serem substituidos?

Ou será que as novas técnicas de gestão que os gurus pós Drucker tanto defendem (até o velho guru Drucker está desatualizado perante a pujança dos novos gurus; não se pode ser sénior) , têm mesmo a habilidade e a capacidade de nos convencer de que tudo vai bem no melhor dos mundos possíveis e que no tempo do Drucker se vivia nas trevas da ignorância?

Ou então, será que a empresa decidiu poupar ainda mais uns dinheiros e entregou a manutenção dos bancos a uma empresa exterior , na melhor tradição inovadora do “outsourcing”, e a dita empresa acha que as molas dos bancos nunca saltam?

Mas não sei se valerá a pena perguntar ao provedor do cliente da empresa, que terá certamente casos mais importantes para tratar.

 
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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Publicidade gratuita - "a sabedoria das multidões" e "muitas cabeças pensam melhor"

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Sugestão de leitura de férias, passe a publicidade: a editora Lua de Papel está a vender por 15 euros um conjunto de dois livros: "A Sabedoria das Multidões" (James Surowiecky) e "Muitas cabeças pensam melhor" (Barry Libert/Jon Spector).
O primeiro contem as regras de gestão de projetos e empreendimentos suscetíveis de emendar os  erros muito portugueses, típicos  de imobilismo e ineficiência; confesso que estou um bocadinho cansado de lhe fazer publicidade sem ver os leitores a renderem-se aos seus, dele livro, méritos (a única referência que vi ao livro foi de Manuela Maria Carrilho, elogiosa).
O segundo é uma curiosidade e vale pelo título e por ser o resultado de inquéritos de opinião sobre ideias para melhorar ou criar negócios através do site http://www.wearesmarter.org/ . Trata-se de um exemplo de um livro "wikibook" sobre gestão e de "crowdsourcing" (fonte de inspiração a partir da sabedoria das multidões - ver a definição nas primeiras páginas do livrinho).
Num país em que qualquer ideia é considerada pelo "senso comum" como estar a meter a foice em seara alheia e a desafiar a "competência" dos decisores, era interessante que as pessoas aderissem à ideia e que isto funcionasse.
Mas o respeito pelos estatutos, pelas hierarquias, o comodismo, o cinzentismo do deixar andar, a nossa falta crónica de inspiração, até os exemplos pouco felizes das "caixas de sugestões", convidam ao pessimismo de que poucos dos leitores vão seguir a sugestão e emitir ideias.
Penso que é pena. Mais valia isso do que seguirmos ao pormenor as polémicas que vêm na comunicação social.
Salvo melhor opinião, claro.
Citação de Einstein em "Muitas cabeças pensam melhor": "Se a ideia não começar por parecer absurda, não tem qualquer hipótese".


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Lembram-se do senhor Abílio, florista? ( ver   
http://fcsseratostenes.blogspot.com/search?q=ab%C3%ADlio   )
Fiquei de vos dar o número de telemóvel para o caso de precisarem de um ramo de flores.

Este que vos mostro foi-me arranjado por ele no domingo de manhã, 1 de Agosto, para o aniversário da minha sobrinha. A mulher estava a vender flores no mercado de Algés e ele foi até á Avenida da Igreja.
Continuam os problemas com  o ineficiente tratamento da doença da filha e as dificuldades dos filhos em encontrar emprego que não seja na segurança de discotecas.
A minha mulher, que foi professora deles, diz que a escola fez o possível.
Mas não basta a escola.
O problema é de toda a sociedade.
E no entanto, tanto o pai como a mãe se fartam de trabalhar, mas não puderam orientar a educação dos filhos. Inutil tentarem aumentar a produtividade e a competitividade. O problema é de âmbito mais vasto. Mas os nossos economistas decisores não gostam de flores.
Número do telemóvel do senhor Abílio:  967 063 581 . Podem encomendar pelo telemóvel ou passar simplesmente de manhã pela Avenida da Igreja.


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sexta-feira, 30 de julho de 2010

Déjà vu

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Segundo o noticiário, os CTT vão alugar como arrendatário à Mota-Engil a sua nova sede, por cerca de 3,4 milhões de euros por ano, depois de terem vendido os seus edifícios emblemáticos, de que o mais importante será o dos Restauradores, ficando a pagar renda aos novos proprietários.
Não há volta a dar aos economistas que se lembram destas coisas.
Está um cidadão na sua casa, de que é proprietário, e um senhor economista vem explicar-lhe que é um bom negócio vender a casa e ficar a pagar renda ao novo proprietário.
É possível que o negócio seja bom, mas o cidadão tem todo o direito a dizer que só vende se lhe derem o triplo do valor comercial da sua casa, para poder comprar outra equivalente e cobrir as perdas das transferencias, impostos incluidos.
Também pode o cidadão raciocinar que, estando os juros a 1%, que o valor dos prédios, para o negócio lhe ser vantajoso, deveria ser pelo menos 200 vezes o valor da renda anual.
Como não foi nada disto o que aconteceu com os CTT, parecerá que o negócio não foi bom.
Assim, de facto, para quê manter os CTT no setor público?
Talvez comentar que isto não acontece nos USA, em que ninguém pensa em privatizar os correios nacionais (claro que há concorrência), nem em fazer disparates destes (disparates do ponto de vista do perdedor no negócio, claro).
Ignoro se haverá algum mecanismo jurídico que permita neste caso recolocar a Mota-Engil no seu lugar, como aconteceu com o disparate do nó de Alcantara, devidamente comentado, do ponto de vista técnico, neste blogue.
Mas como cidadão contribuinte nacional devo registar a esperança de que, tal como no caso de Alcantara, a Assembleia da Republica garanta a justiça, e, como cidadão contribuinte de Lisboa, exprimir a minha total oposição à saída da estação de correios dos Restauradores.
É mais um passo na desertificação da Baixa.
Não está bem.
Os CTT não têm o direito, como qualquer instituição o não tem, de contribuir para a desertificação da Baixa.
A Expo não precisa de tanto novo-riquismo provinciano.
E se pus o título déjà vu a esta pequena crónica dos financiamentos pouco esclarecidos, foi porque, a avaliar pelos gastos com consultores que as administrações dos CTT têm vindo a dispender (por exemplo, a Accenture recebeu encomendas de cerca de um milhão de euros entre 2006 e 2009; no mesmo período os contratos com consultores ascenderam a 11 milhões de euros), todo o negócio com a Mota-Engil terá resultado do esforço dos consultores.
O mal não é haver consultores; o mal é que eles são normalmente intermediários que podem subverter o relacionamento entre a empresa cliente e os verdadeiros especialistas externos de cujo "know-how" a empresa cliente necessita.
Curioso ainda, a reforçar a sensação de déjà vu, é que a ultima reestruturação dos CTT resultou de um contrato com a Deloitte, sendo que o responsável desta pelo trabalho tinha sido membro do CA dos CTT de 2005 a 2007.
Não fui eu que descobri, foi a auditoria da Inspeção geral de Finanças, que achou estranho o contrato com a Deloitte ser de 200 mil euros e, com os adicionais, ter atingido 1,1 milhões de euros.
Déjà vu, esta intromissão de consultores a prejudicar empresas públicas, através de estudos de reestruturações com a participação de colaboradores umas vezes na consultora, outras vezes na empresa pública.
Aguardemos para ver como a Assembleia da Republica vai tratar este caso.
Quanto mais não seja para ver como se comportam o poder do voto e o poder económico.

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Wikileaks

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Os conceitos militares evoluem. Não é caso para ficarem tão escandalizados com as fugas de informação sobre segredos militares de acontecimentos passados.
Terem morrido 195 civis em ataques de drones não é a revelação de um segredo militar. É um triste facto de que os cidadãos devem ter conhecimento para ajudar a compreender a guerra e tomar posição perante ela.
Houve tempo em que o conceito militar era: se um civil morresse, o militar sentia-se desonrado porque, armado, tinha morto um não contendor desarmado.
Valha a verdade que este era um conceito anterior ao bombardeamento de Dresden, no final da segunda guerra mundial. É natural que os “aliados” não gostem de ouvir falar nisto.
Convirá também recordar que muitos dos mortos dos “aliados” na primeira guerra do golfo o foram por “fogo amigo” (como é possível inventar uma expressão assim?), porque a tecnologia da referenciação topográfica estava ainda imprecisa. Ficaram então os “aliados” muito zangados com esta fuga de informação.
Houve tempo em que um soldado honrado não mandava os seus homens para a frente da batalha sem lhe explicar todos os riscos que corriam.
É isso, os conceitos militares evoluem, como explicava o major Dax ao seu general, na primeira guerra mundial, antes da entrada em cena do fator decisivo para acabar com a guerra das trincheiras: os tanques.
Também foi revelado que os ataques talibans provocaram a morte de 2.000 civis.
Se os tanques e as armas já não conseguem acabar com isto, têm os cidadãos direito a exigir soluções políticas.
Não estive enganado na guerra colonial portuguesa, nem na guerra do Vietnam, nem na guerra do Iraque. Estarei enganado agora na guerra do Afeganistão, quando Eça de Queirós já dizia o mesmo, há 140 anos atrás?
Entretanto, sem que isso tenha sido revelado pelo Wikileaks, são já 75 os militares dos USA mortos no Afeganistão em Julho de 2010.
Impõe-se uma solução política com todos os países da região, mas os mentores da NATO não parece estarem de acordo.
Depois queixem-se de que lhes chamem cruzados.

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quarta-feira, 28 de julho de 2010

A Frustralândia

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A Frustralândia é um país de grandes poetas.


O grande poeta Luís Vaz deixou escrito que não só morria na pátria, que longe tinha vivido, como também morria com ela.

Seria talvez um exagero, a pátria morrer, o que faria jus ao nome, mas era verdade que o rei Filipe não era uma pessoa intelectualmente muito bem dotada. Não seria a má pessoa que os ingleses pintaram, também não admira com os tristes episódios das invencíveis armadas, mas terá desempenhado o papel de principal acionista, ou delegado do principal acionista, numa empresa de agora, rodeado de consultores e de conselheiros inovadores mas enganosos. Não admira que o balanço dos Filipes fosse negativo.

Outro grande poeta, Fernando Pessoa, cometeu o rebuscado êxito de ser um dos principais poetas de língua inglesa do princípio do século XX, como tal estudado nas grandes universidades anglo-saxónicas e deixou escrito, em inglês no original:

“À beira-mar deixemos ao menos que a nossa ânsia por uma proeza
Se torne uma dor absurda, uma cobiça desolada e inerte…
Pertençamos assim ao propósito que se extraviou para não sonharmos nem desejarmos nada
senão isso…”

Convenhamos que assim se define o espírito da Frustralândia.

Mas como não somos todos poetas, e mesmo que fossemos, até Fernando Pessoa contribuiu para o PIB do seu país com trabalho esforçado de correspondente de línguas e especialista de economia, tentemos contradizer o nome da pátria.

Podemos sempre votar, apesar da desilusão do poder do voto não ter a força do poder económico, como diz Saramago, votar em quem vai fazendo investimentos, apesar dos economistas ex-ministros da economia que ralham com quem trabalha sempre que vão à televisão,  porque sem investimentos a Frustralândia frustra-se mesmo.

Podemos indignar-nos por os nossos ministérios da Educação terem dado mais ouvidos aos Pink Flloyd (we don’t need your education) do que aos Beatles (all you need is Love). Explico: os Pink Floyd achavam que era preciso inovar na educação de modo a que  não fosse uma lavagem ao cérebro. Não era preciso inovar, e a prova está no aumento da iliteracia, da criminalidade, cá dentro, na Frustralândia. E lá fora, no aumento das guerras, do negócio das armas e do tal fosso que separa os beneficiários do rendimento dos que não beneficiam. Isto é, não caminhámos para o triunfo da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Tempo agora de desmontar os Pink Floyd e os especuladores financeiros e dos off-shores, embora o voto continue a não ter a força do poder económico, como no tempo dos Filipes.

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terça-feira, 27 de julho de 2010

Números da crise

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Com a devida vénia ao DN e ao seu cronista Pedro Tadeu, cito os seguintes números da nossa crise, neste caso a crise da dificuldade de avaliação da problemática  laboral.
- desempregados registados: 650.000  (12% da população ativa)
- trabalhadores despedidos nos últimos 3 anos: 210.000
- empresas que fecharam ou iniciaram o processo de falência nos últimos 6 meses: 7.112
- empresas que se constituiram nos últimos 6 meses: 16.528!!!
Isto é, a obsessão de facilitar os despedimentos  não parece poder ser suportada pelos números e, tal como dizia Keynes no auge da depressão, a economia tem capacidade para funcionar. Estando a inflação em valores baixos, não haverá argumento económico para não fazer investimentos. Mas com estes políticos, com estes dirigentes empresariais, com estes fazedores de opinião, com estes formalistas jurídicos, tão entretidos com a religião do mercado, com a isenção de taxas sobre os bancos, com as dificuldades burocráticas de vender as empresas aos trabalhadores despedidos, é difícil.
Aqui no Algarve, por exemplo, a propriedade de parte da rede de supermercados Alisuper vai ser reconvertida: os acionistas serão os bancos e os trabalhadores. Efeito Obama, a la GM?

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Mensagem de José Saramago para o Forum Social Mundial

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Apesar da linha editorial do DN ser demasiado dogmática para meu gosto (também não gosto que me chamem dogmático; mas apetece-me pôr este rótulo na linha editorial do DN), continuo leitor do DN porque tem alguma diversidade.
E hoje, precisamente no caderno sobre a biodiversidade, vem a mensagem de José Saramago ao Forum Social Mundial, contando a história do camponês de Florença no séc.XVI que tocou os sinos a finados pela justiça, porque a justiça tinha sido morta pelo senhor feudal. Ver em Envolverde/Outras palavras: "Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões de tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. .. mas falta à democracia que o voto possa impor-se ao poder económico ... que é a real força que governa o mundo".
Aí está o programa estratégico para a democracia: que o voto tenha poder sobre o poder económico. Podiamos ir a votos: sim ou não à taxação dos bancos, das transações em bolsa, da nominalização dos rendimentos e taxação progressiva em conformidade... enquanto não for assim, democracia é uma palavra incompleta, por mais sábios que sejam os economistas ex-ministros das Finanças.

PS - Por falar em nominalização de rendimentos, cumpre-me informar da notificação que recebi para
pagamento do IRS em meu nome e de minha mulher (não temos ligações a IRC): 4.567,29 euros. O que me dá algum direito a falar. Não pelo montante , mas porque costuma ser pago. Uma voz, um voto.
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Very fast post in blog - 24 - Ainda o subdimensionamento

Continuam os exemplos de subdimensionamento nas províncias do sul da Frustralândia. Os vidrões estão cheios, os parques de estacionamento não chegam, as tampas das condutas de águas residuais saltam. Vá que a recoha de lixo se faz, mesmo ao fim de semana. As contribuições IMI estão em dia. As licenças de construção passadas excederam em muito a capacidade das infra-estruturas. As infra-estruturas são um problema na Frustralândia, nao só nas províncias do sul.

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domingo, 25 de julho de 2010

Oprah

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O programa de Oprah Winfrey está a atravessar um período de menor audiência (ah! a ditadura das audiencias).
Não por ter perdido interesse ou atualidade.
Um dos últimos programas debateu as medidas para o cidadão comum combater a crise.
Uma equipa de economistas, ligeiramente diferente da equipa de economistas que costuma ir à televisão ralhar com quem trabalha, montou um esquema de observação em proximidade de um grupo de cidadãos, foi com eles às compras nos supermercados e nos centros comerciais e elaborou um programa de medidas corretivas.
Primeira medida: rasgar os cartões de crédito.
De facto, se eles são economistas e se na origem da crise estão as especulações financeiras, nomeadamente os abusos do crédito, então é lógica esta recomendação.
Mas, será válida a conjetura de que existe uma relação (ou correlação) entre os dois factos, a diminuição das audiencias e a recomendação da destruição dos cartões de crédito, como quem quem diz que os bancos e as instituições financeiras continuam a explorar os cidadãos?
Difícil, como dizia um fazedor de opiniões, este mundo da economia.
Aplausos para Oprah, entretanto.

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Almoço na esplanada da Gulbenkian, 5 – o país nu

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Desta vez o meu amigo estava bem disposto. Não sei se seria por já ter entregue os papeis da reforma, mas a verdade é que comia com gosto a sua salada de alface temperada com azeite com aroma natural de estragão, os espargos verdes cortados curtos com molho de cocktail e as beterrabas em vinagrette.
- Há dias estava a arrumar os papeis quando dei com um texto que mandei à comissão sindical, aqui há uns 3 anos. Tinha havido um partido na Polónia que concorreu às eleições apresentando os candidatos e as candidatas nus. A ideia era partir de um país nu para se ir vestindo aos poucos. 
(ver em:
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/01/ladies-godiva-no-metropolitano.html ).

Não ganharam as eleições, mas deram-me a ideia de fazer umas manifestações por cá, especialmente em empresas em que os trabalhadores estão melhor colocados do que os seus próprios clientes, ou a maioria da população. O facto é que na Ucrânia a ideia pegou e há um grupo de raparigas que se revezam em manifestações numa das praças principais de Kiev.
- E que respondeu a comissão sindical?
- Nada, como seria de esperar em Portugal. Por um lado, era retomar o espírito e a nudez de Lady Godiva. Protestar por serem os trabalhadores que têm de pagar as crises (e isto foi antes do Lehman Bros no Outono de 2008, antes dos especuladores financeiros e as “off-shores” terem ficado com a calvície à mostra). Por outro, chamar a atenção para que as reivindicações dos trabalhadores não devem limitar-se à questão salarial, devendo alargar-se aos aspetos organizacionais da comunidade e, especialmente, à integração dos assuntos sindicais das empresas com os problemas dos clientes das empresas, que são os cidadãos da comunidade onde funcionam as empresas.
- E tens aí o texto?
- Não , mas posso mandar-to por e-mail.

E aqui está o email que recebi:

Por aqueles anos, os economistas mais inspiradores das políticas restritivas dos governos já tinham coragem para, nos meios de comunicação social, explicar que os melhores indicadores de funcionamento da economia e a contenção dos preços só são possíveis com uma taxa de desemprego elevada.

Havendo desemprego, há o estímulo para que as pessoas trabalhem por própria conta, inventando sempre que possível novas necessidades de consumo para os outros cidadãos. E aqueles que não tiverem sucesso nessa competição pela inventiva, conter-se-ão na procura e aquisição de bens, especialmente importados.
E reduzindo a procura, podem manter-se os preços.

Ao mesmo tempo apela-se ao consumo porque importa manter a produção elevada e satisfazer os parceiros do exterior, importando os seus produtos, para a que a oferta seja superior à procura e assim continuarem a manter-se os preços e as taxas de juro baixas.
Objectivo supremo: manter as prateleiras das lojas sempre cheias (no fundo, a definição mais simples de crise, oposta à de inflação), sem que a procura, embora estimulada e elevada, alcance a oferta, de modo a conter os preços.

Continham-se por outro lado as tendencias para a inflação subindo as taxas de juro (mas se a estabilidade é ter taxas de juro baixas, porque subimos as taxas para alcançar a estabilidade?).
E apregoavam-se as vantagens de uma economia cujos indicadores eram tanto melhores quanto pior vivessem os beneficiários dessa economia (é como aquelas empresas em que os indicadores são tanto melhores quanto menos satisfeitos andam os seus trabalhadores).

As pessoas comuns, vivendo do seu trabalho, tinham dificuldade em aceitar tão santos princípios, e ingenuamente insistiam que a prioridade devia ser o emprego.

Pregavam os políticos que os portugueses deviam aumentar a sua produtividade e a sua competitividade…apelavam à desistência dos sistemas de protecção social, ao aumento da idade de reforma.

Nas empresas eram distribuídos gratuitamente jornais com artigos e crónicas de doutrinação naquele sentido, para que todos se habituassem à ideia de que os empregos certos, para toda a vida, iam desaparecer.

Foi assim que, no metropolitano de Lisboa, ao aproximar-se o termo da vigência dos acordos colectivos de trabalho, começaram a aparecer entrevistas em que as gerências das principais empresas de transporte justificavam a política de redução dos quadros de pessoal, a prática de contratação com vínculo precário (com os célebres recibos verdes), o recurso sistemático a empresas de prestação de serviços e de fornecimento de mão de obra, as mais das vezes não qualificada para as tarefas técnicas antigamente desempenhadas por profissionais do quadro de efectivos.

Em qualquer intervenção dos gestores ou dos ministros ressaltava sempre a injustiça dos empregados do Metropolitano terem um acordo colectivo, e os passageiros, que eram por eles transportados, terem empregos precários, sofrerem a incerteza na continuação do seu trabalho, sentirem a inutilidade dos protestos quando milhares de desempregados estariam prontos a aceitar um salário modesto e inseguro para os substituírem.

A doutora assessora da direcção de recursos humanos, que participava nas negociações com os sindicatos, via com preocupação crescente os maus caminhos tomados. Vinha-lhe essa preocupação também por ser casada com um dos sindicalistas.

Foi quando, do outro lado da Europa unida, na fria Polónia, ao aproximarem-se mais umas eleições, no meio dos mesmos problemas da nova economia que atormentavam os portugueses, uma escritora polaca teve a ideia de fundar um partido para concorrer ao Parlamento.
Um partido principalmente de mulheres, em que a metáfora de uma Polónia nua, porque despida do que as pessoas precisam para se sentirem bem consigo próprias e com a sociedade, apelava ao esforço nacional para que fosse vestida condignamente.
A doutora contemplou longamente a fotografia de propaganda do novo partido polaco. Aquela moça da frente fazia-lhe lembrar vagamente uma colega, de verbo fácil e riso espontâneo.

E das duas surgiu a ideia.

Iam defender os seus maridos e defender-se a elas próprias. Iam defender as cidadãs e cidadãos que todos os dias caminhavam para os seus empregos precários, ganhando menos que os empregados do metropolitano, sem a mesma segurança laboral e sem as mesmas regalias. Ninguém seria prejudicado por não ter comboios para o seu transporte diário.

Foram escolhidas as palavras de ordem: “Pela contratação colectiva”, “Acordos colectivos para quem trabalha, no Metro ou onde fôr”, “Trabalhadores do Metro podem ter menos regalias, mas os passageiros do Metro não podem ter menos”, “Queremos transportar passageiros com emprego, assistência na saúde e filhos na escola”, “Aplicação dos lucros dos bancos e das grandes empresas na criação de empregos”, “Criação de empregos em áreas competitivas para o País”, "Sim à Declaração Universal dos Direitos do Homem".

As empregadas de todos os departamentos do Metropolitano que se inscreveram na acção de protesto, e foram muitas, compareceram numa manhã de outono, bem cedo, na estação terminal de onde partia um dos comboios de inspecção (o comboio que no início do dia faz o percurso de toda a linha, ainda sem passageiros, para confirmara que nada ameaça a segurança da circulação). Tinham combinado com os seus colegas operacionais todos os pormenores. A colega da comunicação interna faria a cobertura fotográfica e de vídeo.
Primeiro tiraram uma fotografia de conjunto, à frente do comboio, com os seus vestidos coloridos. Outro grupo de colegas recolheu as roupas enquanto as manifestantes entravam nas carruagens da frente.
De alguma distancia, a colega da comunicação interna recolheu algumas imagens de vídeo, de modo que os corpos que se vislumbravam, alguns na verdade de uma elegância extrema, não pudessem ser identificados.
O grupo de fieis depositárias fez-se fotografar com as roupas dobradas, bem à vista, com a data e a hora da fotografia bem impressas. E entraram para as carruagens de trás.
Quando o comboio chegou à outra estação terminal, no fim da linha, repetiu-se o cerimonial por ordem inversa. Já havia passageiros na estação à espera. Conforme combinado, havia reporteres da imprensa e da televisão, a uma distancia respeitável e com interpostas colegas e alguns maridos para evitar a indiscrição das tele-objectivas.
Nos telejornais desse dia e na imprensa do dia seguinte a viagem das Ladies Godiva ocupou os lugares principais. Foi um exito de audiencia.

Um “Peeping Tom” [1], reporter de uma estação de TV que, disfarçado de empregado da limpeza, tinha conseguido umas imagens mais explícitas na estação de embarque, foi alvo de boicote, ao tentar passar as imagens na sua estação de televisão, pelas colegas entretanto avisadas.

O Ministério da Educação recebeu pouco depois o anúncio de que uma manifestação de professoras iria, por breves momentos numa determinada madrugada, usar a força do nu feminino para protestar contra a ignorancia dos decisores e a ineficácia das medidas do Ministério contra as deficiências em Português e em Matemática dos alunos.

Numa empresa do Rio Ave, as empregadas opuseram a sua força desnudada à retirada das máquinas que alguns accionistas queriam ver na Roménia.

Numa estação de televisão do norte, os trabalhadores a recibo verde (havia anos...) fizeram um protesto de nu, gravado com todos os cuidados para não identificar os donos dos corpos e para não chocar as almas piedosas.

Numa empresa do Alto Alentejo que pagava muito mal o esforço das suas funcionárias...
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[1] Peeping Tom é o nome do unico habitante de Coventry que, na lenda do século XI, violou o pacto de pudor de toda a população, que propositadamente se fechou em casa enquanto Lady Godiva fazia a sua travessia, nua e a cavalo, como forma de obter do senhor feudal, seu marido, o abaixamento de impostos que a todos beneficiaria

Ruinas 7 - junto da Avenida de Roma

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Insidiosa, a desertificação, insinua-se sem que demos por isso. Esconde-se atrás dos lódãos crescidos, nas avenidas discretas, perto das avenidas das lojas elegantes e que ainda têm movimento.
Falo da Avenida Sacadura Cabral, do percurso da Av de Roma para o Campo Pequeno.
O desastre da desertificação chegou a esta avenida, que pensávamos protegida pelo brilho da Avenida de Roma.
O processo foi simples. Os edifícios são dos anos 50 do século XX e a geração que por lá passou já desapareceu sem que tivesse sido substituída.
Malhas que a cidade tece, em auto-necrosização progressiva.
Dizem-nos os políticos que o mercado devia funcionar, mas já se sabe que no processo de reabilitação urbana o mercado não funciona. Têm de ser estruturadas empresas com custos controlados e os preços das rendas têm de ser indexados aos custos. Já foi feito, cá e lá fora, mas é preciso querer.
Nem os políticos parecem compreender que as soluções têm de ser analisadas em debates abertos, com a participação de especialistas que não sejam os ”reconhecidos”, porque o critério do reconhecimento não é objetivo e é estabelecido por quem não conhece as questões...
Porque será que os políticos não lêem o “Sabedoria das multidões”.
Era só seguir a metodologia exposta...

sábado, 24 de julho de 2010

Deep water Horizon

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A busca da energia é sempre um negócio temerário
Acreditem. Não pode haver energia barata.
Tem de se pagar, às vezes com desastres (Tchernobil, a barragem de Frejus, o acidente na central de gás nos USA, os naufrágios do Amoco Cadiz e do Exon Valdez)

No entanto, a gravidade destes acidentes justifica a investigação cuidadosa das causas e circunstancias.
No caso de Tchernobyl, alguém de espírito inovador (vivia-se a perestroika) resolveu fazer uns ensaios para tentar resolver a instabilidade congénita dos reatores quando em baixa carga.
Foram sucessivamente desligando os alarmes até a reação entrar francamente em cadeia.

No caso da “Deep water Hoizon” do golfo do México foi agora divulgado o que já se suspeitava: estavam desligados os alarmes de explosividade e de libertação de gases perigosos. Segundo uns, para não incomodar a tripulação com alarmes falsos às 3 da madrugada.
Dito assim, a indignação das multidões já tem quem colocar no pelourinho - os trabalhadores negligentes.

Mas não devemos ficar pelas primeiras análises.
Passemos às secundárias:
1 – a BP e outras petrolíferas são financiadoras de partidos representados no congresso dos USA
2 – a plataforma que explodiu destinava-se à perfuração e não à extração normal, e estava arrendada em “outsourcing” pela BP a uma companhia que tinha adquirido em bolsa a primitiva proprietária (isto para dizer que muitas das decisões são tomadas por quem está longe de conhecer o negócio na frente de trabalho)
3 – o sistema de monitorização principal da perfuração é designado por e-drill e centraliza em Houston, num centro de comando e controle, todas as informações e alarmes da perfuração (isto para dizer que, lá como em muitas mentalidades em Portugal, os decisores acham que tudo se resolve à distancia num centro de comando e controle; porque assim não é preciso –não? – investir na segurança local; porque se pode poupar na dimensão e na qualificação do pessoal nas plataformas; e porque a fé na informática casada com as telecomunicações é infinita).
Não culpemos pois os trabalhadores, onze dos quais morreram, por terem os alarmes desligados.

Reavaliemos antes os conceitos de economia e de centralização da segurança.
Reavalie-se o conceito de comando e controle centralizados.
A tecnologia atual, graças aos microprocessadores e à informática, permite descentralizar a inteligência da construção, da exploração e da manutenção.
Descentralizemos, pois, e atentemos mais nas questões técnicas e menos nas financeiras .


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sexta-feira, 23 de julho de 2010

As traineiras das conquilhas

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A fotografia mostra uma pequena traineira, com cerca de 6,5 metros de comprimento, arrastando as redes a menos de 50 metros da linha de água da praia da Manta Rota, na baía de Monte Gordo.
Trata-se de uma violação da lei, que interdita a navegação a menos de 200 metros das praias e este tipo de pesca a menos de 300 metros da linha de água.
Questionado o senhor polícia marítimo que se deslocava na praia num moto-quad, fui informado que as traineiras são avisadas via rádio de cada vez que a patrulha sai a barra do Guadiana e recolhem as redes a tempo de evitar a multa.
Possivelmente haverá interesse em evitar incidentes diplomáticos porque as traineiras são andaluzas, mas a verdade é que as conquilhas estão ameaçadas porque precisam de 2 anos para atingirem a idade adulta.
Mais informou o senhor polícia que o esforço da polícia marítima está de momento centrado na aplicação de multas por estacionamento automóvel indevido junto das praias.
Que é isto, comparado com as desgraças por esse mundo fora? Mas faz pena ver as conquilhas a desaparecer. Também faz pena ver que os pescadores não terão alternativa. Difícil, organizar as sociedades humanas.

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quinta-feira, 22 de julho de 2010

Ir às aulas

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A propósito da oferta do salto do 8º para o 10º ano, cito a frase, com a devida vénia à professora que a disse ao jornalista : "Um aluno que não sabe, não sabe mesmo. Tem é de ir às aulas".
É o ponto de vista da realidade vivida na frente de trabalho (na qual não se encontram nem os meninos faltosos nem os burocratas do ministério da Educação) em oposição à virtualidade das decisões do ministério. Por acaso até me lembro das vantagens de se ir às aulas. Claro que eu era um privilegiado por poder ir às aulas. Mais uma razão para ir, não será?
Semelhanças demasiado fortes com os restantes domínios do país, essa oposição entre real e virtual, entre as avarias resolvidas no local da instalação ou na oficina, e as estatísticas saídas dos programas (software) de manutenção.

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'Foi você que encomendou um Panamera?




A pergunta vem a propósito da estatística de vendas de carros desportivos em Portugal no primeiro semestre de 2010.

Contas por alto, mais 50% de vendas do que no primeiro semestre de 2009.

Não vou sugerir aumento da taxação, que já é razoável. Nem talvez sugerir que seria interessante converter em registos nominais os registos que eventualmente estejam em nome de empresas. Assim como assim, por que não poderia uma empresa, através de decisão da sua assembleia geral de acionistas, determinar que os membros do conselho de administração tenham ao seu dispor Porsches Panamera? (Panamera é o nome do novo modelo da Porsche, com 4 lugares, dedicado à corrida ao longo da América do Sul; potencias de 300 a 500 CV).

Imaginemos que a assembleia da República definia a marca dos veículos de serviço da mesa da assembleia.

E imaginemos ainda mais que a marca definida era um desses elétricos que fica a carregar durante a noite.

E que a decisão se estendia a todas as empresas públicas.

Agora que 30% da energia da rede nacional é de origem eólica, fartávamo-nos de poupar em emissões de CO2 e baixávamos os custos por km (enquanto o kWh tiver os seus custos comprimidos, é muito mais barata a tração elétrica do que por combustível fóssil).

Durante a noite, as eólicas carregavam os carrinhos e carrinhas de serviço.

O que contrasta com os Panamera das administrações das empresas privadas e me leva a sugerir, em vez de aumentar a taxação, a reconsiderar , em termos mais democráticos, o funcionamento das assembleias de acionistas. Por exemplo, como se faz nas democracias, cada votante tem direito a um voto, independentemente dos rendimentos ou da sua contribuição para o VAB (valor acrescentado bruto cujo integral é o PIB).

Podia fazer-se o mesmo nas empresas privadas, cada voz, um voto, independentemente do número de ações. Sócio é sócio.

E, nas empresas públicas, também. O que suscitaria um debate interessante sobre o endividamento da empresa. Por exemplo, seja uma empresa que se dedica à manutenção e exploração de uma ponte. Será justo que tenha de pedir empréstimos ou subir as portagens para pagar os juros do empréstimo para a sua construção? (pareceria mais justo que a amortização se fizesse a prazo muito longo, em conta separada). Se já estivesse em prática este sistema, de uma voz - um voto, nas assembleias gerais, a dívida era devolvida à procedência, para a tal amortização a longo prazo, não seria? Bom, fica por resolver a questão de quem é que é sócio. Em princípio o cidadão contribuinte, o cidadão que trabalha nessa empresa (faz lembrar aquela da terra a quem a trabalha e a quem trabalha).

Neste aspeto, convergem as perspetivas supostamente divergentes: o poder das comissões de trabalhadores deve ser diminuído, certo, até aqui convergem, mas esse poder deve ser transferido para as assembleias de acionistas. Aqui nem todos estarão de acordo. Temerão que os investidores fujam. E para onde? Para países em que pagarão taxas mais elevadas?

Bom, com tudo isto, afastei-me do tema, mas é fácil de concluir: estimam-se 120 milhões de euros de vendas de carros desportivos em 2010 em Portugal. Os carros ligeiros de outras marcas atingirão provavelmente 2.200 milhões de euros  (cerca de 20 km de tuneis e estações de metropolitano equipados).

Os carros são como as pessoas: 400 automóveis geraram faturas de 120 milhões de euros, e 150.000 automóveis geraram faturas de 2.200 milhões de euros. Isto é, 0,27% dos automóveis absorveram 5,17% do rendimento total das vendas.

Pena os 120 milhões de euros não parecerem um investimento com retorno. Nem a maior parte dos 2.200 milhões de euros. Mas que é a vontade livremente expressa de comprar o carro que se pode, é.

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Ruinas 6 - Ameixoeira

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Entremos no coração da Ameixoeira, onde se encontra a sua junta de freguesia.
Temos aqui uns números de telefone que poderão informar sobre os preços do mercado de habitação da zona, integrada na Alta de Lisboa. O cartaz assenta num edificio em ruinas que não deveria estar em ruinas se atendermos à importancia da urbanização.

Viremos à esquerda e desçamos até ao largo da junta de freguesia. Sabiam fazer arranjos exteriores, os nossos antepassados:

Mas continuemos até à Calçada da Ameixoeira; e que fazer? deixar as ruelas e as casa de "fin de siècle" (XIX) ruir? ou explorar o potencial turístico? os nossos pensadores que comentam na televisão poderiam instalar aqui o quartel-general da cobertura das próximas eleições (ou dizendo de outro modo: pode discutir-se a estratégia para a cidade de Lisboa sem conhecer Lisboa?):


Lá ao fundo é a estrada do desvio; estamos perto de uma saída de ventilação do metropolitano, periodicamente vítima de assaltos vândalos. Mas podia fazer-se aqui um piquenique de burguesas:

No meio de um jardim grande e abandonado, vende-se, com projeto aprovado:



Felix ameixoeirensis catus:


Onde vai dar esta azinhaga? Não pergunto no espaço, mas no tempo:


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terça-feira, 20 de julho de 2010

Almoço na esplanada da Gulbenkian 4 – no meu tempo não era assim

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O meu amigo estava com a expressão dura do costume. Mas isso não o impedia de fitar meditativo cada uma das alcaparras frescas que levava à boca, retirando-a da salada mediterrânica e segurando-a pelo pedúnculo.
- Repara como a forma das alcaparras frescas se parece com a duma gota de água ou com uma semi-ampulheta. Isto vem a propósito. O tempo da ampulheta chegou ao fim. A areia escoou-se como o tempo e a paciência.
- Lá estás tu – obtemperei eu, mais fixado na maionese com cubos de queijo e fiambre e cerejas cristalizadas – que foi agora?
- Foi que está tomada a decisão, vou meter os papeis da reforma. Não quero saber dos discursos balofos dos políticos. Estou farto de os ouvir dizer que cada vez se morre mais tarde e ver 10% dos colegas do meu curso a já não existirem. Estou farto de ouvir os políticos e os economistas a dizer que cada vez há menos ativos a sustentar os reformados. Parece que não quiseram investir os descontos que me retiveram em coisas que dessem rendimento agora, para não estar a depender dos tais ativos. Mas não é por isso.
- É então por…?
- … porque no meu tempo não era assim. No meu tempo havia conceitos estruturantes da nossa empresa, livre de vícios de outras empresas.
Agora sou apodado de antiquado, avesso à inovação e perdulário porque não adiro à prevalência do “marketing” sobre o serviço efetivamente prestado.
O que me choca é a distancia ao terreno estar a conviver com a ligeireza dos conceitos.
Não me interessa saber que os clientes, antigamente chamavam-se passageiros…
- … era, antigamente tinham esse nome.
… andem com um índice de satisfação muito bom, quando o que me interessava era atrair os que não se servem destge modo de transporte e preferem o carrinho.
- Já vi que continuas mal disposto
- E depois é a institucionalização deste conceito de decidir com dados insuficientes que me põe neste estado (em Portugal, é raro quando se apresentam estatísticas para fundamentar uma decisão a quantidade de dados dessas estatísticas ser suficiente para fundamentar uma decisão, como se viu recentemente no debate sobre o estado da nação com os indicadores de pobreza, de recolha tão pouco confiável no terreno da realidade).
A nossa empresa vai ser mais um caso do provérbio chinês que define a utilidade de uma coisa.
A nossa empresa é como os eucaliptos.
São úteis a terceiros.
No caso dos eucaliptos pequenos, para fazer poleiros.
No caso dos eucaliptos médios, para fazer peças de mobília.
No caso dos eucaliptos grandes, para fazer mastros e postes.
Em todos os casos, para fazer pasta de papel.
Nunca poderemos então ver florestas de grandes eucaliptos.
É como as lulas, não as deixam crescer porque as pescam.
Assim não poderemos ver o nosso sistema de transportes de Lisboa crescer, porque vai tornar-se útil aos vendedores do outsourcing. (quiçá das privatizações parciais a pretexto da liberalização, da venda da dívida, etc, etc.). E isto só é possível porque conseguimos, no nosso tempo, algum sucesso, graças à correção dos projetos, à fiabilidade dos equipamentos e ao esforço do pessoal da manutenção, ter o serviço a funcionar com uma boa disponibilidade, o que criou a ideia de facilidade nos decisores, de que podem ir cortando no pessoal e espaçando as encomendas de peças sobresselentes e as intervenções, que tudo continuará a funcionar bem.
Abocanharam a nossa empresa e eu, se for abocanhado, comporto-me da mesma maneira, perante um adversário mais forte.
Digo mais forte porque não consigo moderar-lhe a sede de outsourcing, a sede de centralização (ignoram que os microprocessadores apareceram para descentralizar, para acabar com soluções à Estaline?), a sede dos cortes no pessoal, a sede dos indicadores saidos automaticamente de software redutor da realidade no terreno, a sede de experimentar soluções como quem testa um brinquedo. Tudo isto é fundamentado com as dificuldades financeiras do momento, para as quais não me lembro de ter contribuido com qualquer atividade especulativa.
- Não sei que te diga para te animar.
- Não digas nada. A decisão da reforma é irreversível.
Imagina que a última que fizeram foi decidir (possivelmente era a única decisão em função do prazo politico) que tudo quanto era equipamentos elétricos e eletromecânicos das novas estações fariam parte da empreitada de acabamentos de construção civil. Para ser mais rápido e para ser mais cómodo. Assim transfere-se para o empreiteiro a maçada de selecionar os fabricantes dos equipamentos.
No meu tempo não era assim.
- Isso também é porque a burocracia dos contratos públicos complicou tudo.
- Complicou umas coisas e descomplicou outras, mas vamos sempre pelo pior caminho das pedras. A lei da contratação pública também obriga a concursos públicos e assim os equipamentos passam a ser escolhidos pelo empreiteiro sem concurso público.
No meu tempo não era assim. Sempre defendi (por vezes com assinalável insucesso, mas não dei para tudo) a possibilidade de escolhermos os fornecedores sem que o critério económico ou o critério político dos prazos para as inaugurações nos impusessem fornecedores não desejados “pela manutenção”.
Agora, é o mesmo que o mestre de obras escolher a iluminação da casa do cliente, o tampo da cozinha e a marca dos eletrodomésticos. Sempre de acordo com o interesse económico do empreiteiro .
Pode ser que seja legítimo, mas deslustra o dono da obra.
Posso sair da empresa com algum orgulho dizendo: não , eu não fazia assim, eu selecionava entre fornedores da especialidade.
Retiro-me portanto, vendo os conceitos de outsourcing condicionarem as decisões.
A experiencia de congéneres nossos no estrangeiro, que nos precederam nessa fé, irracional como todas as fés (não estou a ofender ninguém, pois se até António Damásio acha que as decisões devem ser mais emocionais que racionais…), já demonstrou que, nos casos em que o outsourcing de projeto, ou de manutenção , ou de exploração, não era tecnicamente aconselhável, as coisas deram para o torto, mesmo do ponto de vista económico, com falências de companhias sempre que a câmara municipal ou o governo lhes falhavam os subsídios.
Mas não vale a pena tentar conter esta onda que enfraquece as nossas empresas de transporte. Ela é mesmo mais forte.
- E a nós só nos resta, para já, saborear os pasteis de nata e os cafés.


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domingo, 18 de julho de 2010

Very fast post in blog.23- Indicador de subdimensionamento

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A fotografia anexa constitui um indicador de que o dimensionamento do sistema de recolha do lixo não foi feito para os dias de ponta (neste caso, os dias de férias no Algarve). Com tudo o que isso signifia, que os projetos das habitações e do urbanismo da zona não previram espaços nem mecanisnos de  seleção e reconversão dos lixos. É um exemplo para os técnicos de transportes: os modos de transporte dimensionam-se em função das pontas de afluência, como os diâmetros dos cabos elétricos, aliás. Mas  é difícil de ser aceite.


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sexta-feira, 16 de julho de 2010

O IPO

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Dos jornais: "O Instituto de Oncologia" já não sai de Palhavã"

Provavelmente aconteceu o mesmo que com o novo aeroporto. Triunfou uma análise mais cuidadosa, considerando todos os dados do problema.
Embora as condições de mercado no nosso país, graças à falta de controle de custos das empreitadas de construção civil, privilegiem a destruição e a construção de novo (vejam-se as asneiras da construção dos estádios do Euro 2004), a verdade é que era gritante a falta de espaço no terreno da Bela Vista quando comparado com as instalações atuais (como é possivel ter a coragem de propor um terreno daqueles?).
E se mesmo assim, acharem pequeno o terreno de Palhavã, os terrenos das antigas oficinas do metro, de Sete Rios, estão mesmo ali ao lado.
Enfim, foi anunciada a primeira fase de remodelações: 45 milhões de euros.
Aplausos.
Entretanto, este facto deixa muitos de nós (assinaram a petição?) com a esperança de que venha a acontecer o mesmo com o hospital pediátrico da Estefânia. Não sou eu que digo, são os técnicos de pediatria. deslocar o hospital da Estefania para o Todos os Santos na Bela Vista (de repente, o provincianismo de Lisboa ter terrenos na Bela Vista) é um disparate.
Os casos da falta de ambulancias, da falta de médicos nas urgencias dos hospitais principais, da falta de psicólogos no Julio de Matos, já são suficientes para provar que os anteriores decisores não estavam a entrar com todos os dados na equação e que as soluções  que propusseram nem sequer eram as mais económicas. A falta de ambulancias em Silves obrigou à intervenção de um helicoptero do INEM, ficou mais caro. Contratar médicos tarefeiros fica mais caro, etc, etc.
Logo, vamos esperar que a Estefania e o Julio de Matos se mantenham. Fechá-los fica mais caro. Já há experiencia de que os anteriores decisores se enganaram (como é que se dizia dantes? falsos profetas, não era?).


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quinta-feira, 15 de julho de 2010

Pequena incursão no domínio da fiscalidade, como homenagem a Rogério Fernandes Ferreira

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Com a devida vénia ao DN, transcrevo, da notícia necrológica dedicada a este emérito fiscalista, o seu parecer de que a reforma fiscal deveria atenuar o peso fiscal sobre as camadas da população mais castigadas e que tudo estava por fazer no controle aos “off shores”. Que “os carros de luxo e as casas não estão em nome de pessoas singulares mas de sociedades, e muitas delas sediadas em “off-shores””.

Isto deveria ser divulgado amplamente até que os governos ponham em prática essas reformas.

Já vi, recomendado nos jornais e proposto em manifestações de rua, taxar as transações em bolsa e não as mais valias, porque seria mais fácil e renderia mais receita fiscal.
Já vi proposto taxar os depósitos dos “off-shores” em 20%, como fizeram os governos holandês e espanhol.
Já vi um partido político propor a curto prazo medidas nesse sentido, estimando uma receita fiscal de 3 mil milhões de euros.

Proponhamos então um cruzamento entre a lista de rendimentos em nome de pessoas singulares e a lista de rendimentos em nome de sociedades. As sociedades têm acionistas e os acionistas têm nome. Logo, é possível fazer esse cruzamento e elaborar uma lista única de rendimentos, exclusivamente em nome de pessoas singulares, declarando desde já que a privacidade seja de quem for não é para aqui chamada, o que é chamada é a tributação personalizada, naturalmente progressiva (deixemo-nos dos disparates regressivos de Milton Friedman). Acabemos com a burka do sigilo económico. O sigilo não é o segredo do negócio. É uma forma de economia subterrânea.

Aplausos, portanto, para a vida de Rogério Fernandes Ferreira.


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