segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O São Carlos em 2010-2011

A fotografia com a senhora ministra vinha no Oje de dia 16 de Setembro de 2010 e mostra-a, sorridente, ouvindo a soprano Ana Franco que cantava uma ária de Gianni Schicchi,  oh mio babino caro (oh meu papá querido).
O título anuncia 10 óperas para  a temporada 2010-2011.

Como se sabe, a senhora ministra demitiu o anterior diretor artístico do S.Carlos com o argumento de que a sua programação não era o que o publico do S.Carlos desejava.
Na altura, como espetador, protestei porque achei a sua programação com interesse e achei tambem que os diretores artisticos não se despedem como os treinadores de futebol, até porque neste caso o senhor parece ter levado uma indemnização superior a 150.000 euros e as programações de ópera têm de fazer-se com mais de 2 anos de antecedência.

Eis porque não pode agora aceitar-se o argumento de que a temporada foi o que se pôde arranjar com o tempo disponível e com os cortes típicos dum país em que o orçamento da cultura não é comparável com 1% do orçamento, apesar de já representar quase 3% do PIB.
Isto é, sendo a senhora ministra uma boa pianista, como se pode comprovar com os discos que ela já gravou, como teria sido bom ter-se limitado a ser pianista., para bem dos melómanos.

Sobre os cortes, também há a dizer que se estranha muito não haver apoiantes particulares e mais mecenas empresariais e  para complementar o esforço do ministério da Cultura. Assim como assim, esquecida a adesão popular nos espetáculos do Coliseu, ir à ópera poderia ser uma associação mutualista.
E além disso, depois daquele estudo que a senhora ministra encomendou ao senhor economista Mateus e que demonstrou que a cultura é um domínio gerador de mais valias (venda de espetáculos a televisões estrangeiras, receitas publicitárias em transmissões televisivas, promoção da venda de bilhetes junto de turistas) , custa a aceitar que a temporada seja pobre (sem menosprezo pelo trabalho dos participantes nos espetáculos; é que 10 óperas é pouco, nas condições em que vão ser apresentadas).

Quanto à temporada, são de facto 10 óperas, mas convirá esclarecer o seguinte, para que não se oiça só dizer mal do anterior diretor e do seu trabalho, como convem à propaganda da senhora ministra:
- duas das óperas são apresentadas em versão concerto (Dona Branca  de Alfredo Keil e Cavaleria Rusticanna de Mascagni, sendo que esta ultima vai ser apresentada isoladamente, apesar de ter pouco mais de uma hora de duração, pelo que seria expetável ser apresentada com outra no mesmo espetáculo)
- três das óperas já tinham sido contratadas pelo diretor anterior (Dona Branca, Katia Kabanova de Janachek e Banksters)
- Paint me é uma ópera de câmara de Luis Tinoco (sobre os contos de Canterbury) e é uma produção da Culturgest
- Blue Monday é uma ópera sinfónica de jazz de Gershwin que dura menos de 30 minutos (é apresentada no mesmo espetáculo com Gianni Schicchi de Puccini)
- Banksters  de Nuno Corte-Real (ou o banqueiro gangster, sobre Jacob e o Anjo de José Régio) tem uma duração de 1 hora, pelo que seria expetavel no mesmo espetáculo ser apresentada outra ópera
- a ópera para crianças Hansel e Gretel de Humperdinck será apresentada no teatro Camões, embora seja uma produção do Teatro de S.Carlos
- Restantes óperas:  O chapeu de palha de Florença de Nino Rota, e Carmen de Bizet
- Número de óperas que fazem parte da assinatura: 6
- aplaude-se a participação de cantores portugueses, mas faltam co-produções com outros teatros de ópera europeus (evidentemente que não havia tempo para as combinar)
- aplaude-se a contratação do maestro Martin Andre para diretor artístico, mas receia-se que a sua presença não seja a tempo inteiro, assim como se tivesse sido pedido emprestado
- lamenta-se que o diretor geral da Opart tenha declarado que há problemas graves, mas que só os discutirá na intimidade do seu gabinete e do gabinete da senhora ministra; é que viola o art.48º da Constituição (direito à informação de assunto de interesse público).

Mas que haverá de fazer-se? se estamos no país da maravilhosa imperfeição, como diz Eduardo Lourenço.
No entanto, considerando que   se estava à espera de pior, e a atenção dada nesta temporada aos cantores e musicos portugueses, é de aplaudir.
Mas não nos esqueçamos que, como dizia um senhor que não será um expoente da cultura mas que falou sabiamente, "assim não ganhamos o jogo". Isto é, quando tivermos o TGV, vai-se  à ópera em Madrid e volta-se logo a seguir, coisa que os nossos concidadãos de Barcelona não precisarão de fazer. Será a otimização dos custos através da centralização , do ponto de vista dos gestores de Lisboa, e a afirmação da soberania do ponto de vista dos gestores de Barcelona.

Mais informações em:
http://www.saocarlos.pt/gca/?id=958
e  em:
fanaticosdaopera.blogspot.com

sugerindo, para quem tem crianças, a Hansel e Gretel (sobre um conto de Grimm), cantada em português, no Teatro Camões, no Parque Expo. Pode ser que a maioria das crianças não goste, mas se uma só  delas gostar, terá valido a pena.

Mohammed Arkoun

Com a devida vénia ao DN, que noticiou o falecimento de Mohammed Arkoun, intelectual argelino.

Era um adversário do conceito do conflito de culturas. Ou melhor, do preconceito a que se adere quando nos ficamos pelo conhecimento primário, sem querer investigar as causas e as circunstancias.

Frases de Arkoun com que o DN marcou a notícia:

- “os intelectuais podem, dando destaque à história comum, à interação de culturas e tradições, contribuir para uma Pax Universalis, uma cultura de universalidade, em vez de conflitos artificiais de culturas”;

- “o pensamento islâmico tem de se emancipar das suas molduras dogmáticas, teológicas e legalistas”.



Para mim este é um tema muito caro, não por no meu ADN, tal como no ADN de quase todos os portugueses, haver mais de 10% de contribuição de populações do norte de África islamizadas, mas por ter tido a felicidade de ter aprendido isso em reuniões com colegas de Teerão e Istambul.

Nos países de cultura islâmica também há caminhos de ferro e metropolitanos, com os mesmos problemas de exploração, de manutenção, de segurança.

Recordo as palavras de um colega francês: “Nós técnicos, promovemos muito melhor do que os políticos a aproximação entre os povos”.

Davida e Daspu


Com a devida vénia ao DN, que trazia na revista de domingo uma reportagem sobre Gabriela Leite, prostituta reformada, socióloga, fundadora da organização Davida, para defesa dos direitos das trabalhadoras e trabalhadores do sexo, candidata a senadora por S.Paulo nas próximas eleições no Brasil, fundadora da fabricante e loja de moda Daspu.
Não tem por objetivo o proibicionismo nem a mudança de vida de quem não quer mudar de vida, mas sim a proteção dos direitos e a defesa contra o tráfego e a dependência de drogas.
Estamos assim longe da visão limitada das organizações que em Portugal se ocupam do tema.
Mais um domínio em que podíamos aprender com o Brasil.
Mais informações em :


domingo, 19 de setembro de 2010

Psicorium II - Um elétrico chamado desejo

Com a devida vénia ao DN, conto uma das histórias da recente estreia no teatro D.Maria II do elétrico chamado desejo de Tennessee Williams.
Compareceram vários ministros.
O que é estranho num país em que a cultura vale menos de 1% no orçamento.
Mas compareceram, e um deles era o senhor ministro da Defesa.
O DN enriqueceu a reportagem entrevistando no fim da peça alguns dos ministros.
E quando chegou a vez do senhor ministro da Defesa ele disse que a peça tinha sido muito boa.
Que alívio.
Pode Tennessee Williams estar descansado.
Havia dúvidas mas ficaram esclarecidas.
A peça é mesmo muito boa.
O senhor ministro achou qe sim.
Lembrando Brecht, pode o trigo continuar a crescer porque o ministro da Agricultura fez o despacho esperado que sim, que autorizava que continuasse a crescer.
Até porque o senhor ministro da Defesa é uma pessoa culta, como se pode ver quando fala no Parlamento.
E de versatilidade dificilmente ultrapassável porque já ocupou várias pastas em vários governos.
O elétrico chamado desejo é mesmo uma peça muito boa.
Falando a sério, a peça foi escrita aplicando a psicologia e a psiquiatria a estudar os comportamentos e os condicionamentos das pessoas.
Tem razão o senhor ministro, e se falo nisto é porque gostaria de ver também aplicadas nas nossas empresas e na nossa gestão da coisa pública os mesmo conhecimentos da psicologia e psiquiatria.
Para compreendermos como se tomam as decisões e elas são impostas às pessoas, na peça de todos os nossos desejos.
Frustrados, como diz a psicologia, com personagens que não desempenham os papeis da participação na coisa pública.

Nota - Evidentemente que o senhor ministro não quis dizer a redundancia de que Tennessee Williams tinha escrito uma peça muito boa. Quereria referir-se à realização ou produção da peça e que tinha sido conseguido um bom espetáculo. Terá sido uma expressão enquadrável no contexto. Mas não consegui evitar lembrar-me do ministro da Agricultura de Brecht, nem de que era mesmo importante passarmos a estudar as questões das empresas e da coisa pública com intervenção da psicologia e da psiquiatria.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O FMI acha

Com a devida vénia ao Oje de 14 de Setembro de 2010, transcrevo a declaração do senhor diretor do FMI: “o mercado laboral está numa situação catastrófica”.

Há anos que o paradigma da economia, política como se dizia quando eu era novo, é a definição do lucro como objetivo supremo das empresas através do exercício musculado da competitividade das organizações (diretiva da selva transposta para o ordenamento jurídico: empresa que não tem lucros não merece viver e deve fechar).

Os decisores economistas que há anos se submetem a estas leis cometeram um pequeno erro. É que tinham obrigação de saber que essas linhas de orientação conduziriam à tal situação catastrófica do mercado laboral. A lei de Philips já é antiga e eles sabiam que a única maneira de conter os preços seria aumentar o desemprego para diminuir a pressão da procura.

Mas não querem reconhecer que o tipo de organização económica e o tipo de leis que enquadram a atividade económica têm de mudar. O lucro e o crescimento não podem ser deixados à rédea solta. Se não há mercados ideais, como já se viu, os mercados reais não podem ser deixados a funcionar segundo leis ideais.

Porquê?

Porque segundo a OIT há 210 milhões de desempregados registados no planeta.

E segundo o senhor diretor isso aconteceu em muitos países porque “as exportações caíram ou foram arrastadas pelo colapso do setor da construção”.

E mais acrescenta, a propósito de uma taxa de desemprego juvenil em Espanha de 40% : “se não se adotarem as medidas adequadas para fazer frente a esta tragédia, o custo social e económico será tremendo, porque será uma geração perdida” .

E finalmente: “quando alguém perde o seu trabalho, o mais provável é que tenha problemas de saúde ou morra jovem”.

Mas então, não quiseram que acreditássemos que o crescimento da longevidade fundamentava o aumento da idade da reforma? E afinal as pessoas conhecidas do senhor diretor do FMI andam a morrer mais cedo?

E não diz quais são as medidas adequadas – no caso português serão as 25 medidas que eu me comprometi a divulgar mas que ainda não tive oportunidade de inserir no blogue?

Tudo isto é profundamente deprimente.

Todos erram nas suas funções, mas saber que o que os decisores dizem agora, já eles sabiam há muitos anos e não alteraram os comportamentos nem a estrutura da propriedade dos meios de produção, só pode contribuir para a descredibilização desses decisores. Faz lembrar a frase de Sarkozy: "Não era este o capitalismo que queriamos"

Atrani e a conjetura do cantoneiro

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Nunca tinha ouvido falar de Atrani, uma pequena povoação a menos de um quilómetro de Amalfi, a sul de Nápoles.

No dia 9 de Setembro de 2010 sofreu uma enxurrada que matou uma pessoa e arrastou os automóveis . Ver http://www.youtube.com/watch?v=Z7Kb7sq12mo

Tratou-se de um fenómeno do mesmo tipo do que se passou na Madeira. Excesso de pluviosidade e consequente encharcamento, “liquefação” e deslizamento dos solos, formação de barragens devido à acumulação de vegetação, pedras ou detritos nas partes altas das linhas de água, seguindo-se o efeito de rebentamento da barragem. Ocupação das linhas de água e seu soterramento com vias de comunicação e edifícios. Subdimensionamento dos canais de escoamento para os valores da pluviosidade.

Este tipo de fenómenos tem tendência a repetir-se e admira como não aconteceu nas povoações vizinhas. Atrani está espartilhada entre cumeadas que acabam no mar e toda a ocupação dos solos parece ter sido feita com pouca intervenção da engenharia preventiva, desde o tapamento e redução das secções de escoamento das linhas de água aos obstáculos ao longo das encostas (estradas, vegetação não contida, casas). Ver a imagem do Google Earth .

Também no sul de Itália, na Calábria, em Maierato, tinha ocorrido um deslizamento de terras em Fevereiro de 2010. Ver:
http://rockglacier.blogspot.com/2010/02/landslide-in-calabria.html

Em Abril de 2010, no norte de Itália, na linha de caminho de ferro que serve Bolzano, num vale no sopé dos Alpes do Alto Adige, um deslizamento de terras com origem na rotura de uma rede de irrigação e consequente encharcamento dos solos, provocou o descarrilamento d e um comboio com vítimas mortais. Ver:
http://news.bbc.co.uk/2/hi/europe/8615002.stm

No Japão há registos de deslizamentos de terras já há vários anos. Neste país estudou-se profundamente a geologia da liquefação dos solos, de grande aplicação na construção de túneis em solos aluvionares ou argilosos (um solo com areia resiste melhor à liquefação) e na construção anti-sísmica. No caso do acidente neste vídeo, verifica-se que o coberto vegetal, de árvores, não é suficiente para evitar o deslizamento. Ver:
http://www.youtube.com/watch?v=23NZTzpw6cY

Em Portugal tivemos, em Janeiro de 2010, o deslizamento de terras sobre a CREL, em Carenque e, em Maio, na encosta da Graça, junto do miradouro da Senhora da Graça.

Verificou-se ainda, recentemente, na Tailândia, um deslizamento de terras com destruição de uma estrada. Neste país a UNESCO desenvolveu desde há vários anos estudos no campo para prevenção dos deslizamentos de terras, com definição do nível de alarme sempre que a pluviosidade diária ultrapassa 100 mm. Ver:
http://www.unescobkk.org/index.php?id=6147

Vou juntar a esta série de catástrofes mais ou menos naturais, mais ou menos consequência de alterações climáticas com aumento de ocorrências de pluviosidade muito elevada concentrada num período de tempo curto, mais ou menos potenciada pela ocupação descuidada dos solos, o acidente com a explosão de uma conduta de gás que provocou a morte de várias pessoas nos arredores de S.Francisco, junto do aeroporto.

O meu objetivo, para além de chamar a atenção para a importância do estudo dos solos e do seu relacionamento com a pluviosidade ou com outra presença de água na construção de vias férreas, rodovias, túneis ou viadutos é o de colocar uma conjetura.

Não disponho de nenhum estudo que a possa fundamentar, mas é uma conjetura que poderá também contribuir para o que parece um agravamento da ocorrência deste tipo de fenómenos.

Para formular a conjetura recordo uma figura que desapareceu há muito das estradas portuguesas: o cantoneiro. A espaços via-se, ao lado da estrada, a casa do cantoneiro, com a indicação, em azulejos azuis, da quilometragem e de que era propriedade da junta autónoma das estradas.

Não recordo desses tempos, passados há mais de 50 anos, nenhuma vegetação a obstruir uma placa de sinalização ou de indicação à beira da estrada. Não me recordo de ver marcos ou guardas de proteção nas curvas aguardando reparação.

De repente ou talvez não, desapareceram os cantoneiros.

Agora existem os contratos de manutenção, defendidos por senhores finos que os assinam.

Não é a falta dos cantoneiros nas estradas de Portugal que provoca fenómenos de deslizamento de terras, não é essa a conjetura.

Mas será a cultura que se instalou que o indicador de que os dirigentes se devem orgulhar é o da redução dos recursos humanos. Que, graças às novas tecnologias, as empresas não precisam de ter tantos funcionários.

Não foi o cantoneiro que faltou às estradas de Portugal que foi capaz de detetar na Madeira e em Atrani que a secção de escoamento das ribeiras enterradas era insuficiente para uma precipitação superior a 100 mm/dia, porque também aí não havia ninguém para fazer esse trabalho. Nem para detetar fissuras anteriores nas estradas das encostas, ou que os leitos das ribeiras estavam obstruídos com pedras e restos de vegetação, prontos a formarem uma barragem. Ou para explicar aos engenheiros ou arquitetos da câmara municipal que aqueles edifícios e aquelas estradas não podiam ser construídos assim.

Cinicamente a conjetura perguntará: será que os prejuízos das enxurradas recorrentes não dariam para suportar o pagamento dos salários de técnicos que ajudassem a prevenir as consequências e a detetar os riscos de enxurradas?
Mesmo que fosse em “outsourcing”, porque já se vê que as janelas de oportunidades devem ser muito bem aproveitadas.
E é aqui que entra a conduta de gás que rebentou na Califórnia. Segundo informações do MSNBC, as condutas eram já antigas, não tinham sido revistas e adaptadas à pressão do  gás natural escolhida, e havia dias que se notava o cheiro de fugas de gás (o gás é inodoro mas o transportador deve misturar um componente para dar cheiro).
Numa palavra, grandes economias com quadros de pessoal (e portanto um bom indicador para mostrar em powerpoints) e bons contratos de outsourcing com empresas de manutenção que não submeteram a conduta aos testes de estanquidade que deviam, foram as estratégias dos donos e dos operadores daquela conduta (como se sabe, a BP também não era a responsável pela perfuração da Deepwater Horizon. Tinha contratado o aluguer da torre e as equipas de perfuração).

terça-feira, 14 de setembro de 2010

As passagens de nivel

A REFER tem cerca de 1200 passagens de nivel ativas em Portugal e mantem campanhas de sensibilização para os cuidados a ter no atravessamento. Tem igualmente vindo a executar um programa de supressão de passagens de nível  (1300 em dez anos) e outro programa de automatização das barreiras. Ver http://www.refer.pt/MenuPrincipal/ComunicacaoSocial/Noticias/Noticia/tabid/447/ItemId/177/View/Details/AMID/948/Default.aspx
No entanto, penso que já demonstrei, a propósito dos atropelamentos de Riachos  (http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/06/proponho-vos-que-vejam-esta-tabela-word.html ), que não é possível a idosos ou a qualquer pessoa com limitações de mobilidade atravessar em segurança, tendo em consideração os valores de velocidade praticados pelos comboios.
Seria assim desejável que se concentrassem esforços, neste momento de crise, no programa de supressão das passagens, e que não se acreditasse que o programa de "digitalização" das passagens de nivel (equipamento com câmaras de video e ativação de alarmes) possa garantir o que quer que seja porque as distancias de travagem, para os niveis de velocidade em causa, serão sempre insuficientes para garantir a segurança.
Evidentemente que a minha voz não consegue traçar a estratégia, mas fica registado, como dizem os anglo-saxónicos, "for the record".
Anglo-saxónicos que também sofrem do mesmo problema, embora noutros níveis. Ainda em Agosto de 2010 uma automotora colidiu com um camião que avariara sobre uma passagem de nível particular, em caminho privado duma exploração agrícola.
Eu sei que é caro suprimir uma passagem de nível substituindo-a por um viaduto ou por uma passagem inferior (esta ainda por cima coloca problemas de drenagem), mas não parece admissível haver passagens de nível particulares intersetando o caminho de ferro.
Por cá, também em Agosto, tivemos dois acidentes que mereceriam análise detalhada com divulgação pública das conclusões e recomendações.
Num deles, morreu um motociclista que colidiu com a barreira descida e foi projetado para  a frente do comboio.
No outro, em Espinho, o Pendolino arrastou um automóvel centenas de metros até parar, já na passagem subterrânea do caminho de ferro que atravessa o centro de Espinho, depois do referido automóvel, parado antes das barreiras, ter sido impulsionado por outro que não conseguiu travar. Felizmente o automobilista conseguiu salvar-se antes da colisão do comboio.
Tudo isto me parece indicar que as passagens de nível devem ser sistemáticamente substituidas por passagens desniveladas, sem o que os acidentes continuarão a ocorrer em claro desrespeito pela norma NP EN 50126, que define as condições da análise de riscos, ou, pelo menos, a elaborar um programa  de execução faseada para esse objetivo.

Saídas para a crise

Devemos seguir as recomendações dos sábios para sair da crise.
O Ministério da Administração Interna, por exemplo, determinou que apenas o comandante geral da GNR e o seu chefe de estado-maior terão direito a automóveis de serviço. O transporte de carga deverá, sempre que possível, ser assegurado por veículos de tração animal.
Devo esta informação ao DN, que está a publicar documentos do tempo da I Republica, para comemorar os 100 anos da Republica. A data data de tal determinação é 4 de Fevereiro de 1920.
Tambem de muito interesse é a recomendação do senhor Grandella, em entrevista de março de 1920, apoiando o decreto que restringe a imprtação de objetos de luxo, mas garantindo que a industria do luxo dá trabalho e emprego. O título da entrevista era "A vaidade dos ricos é sustento dos pobres". Seria uma variante do que Almeida Garret dizia, que são precisos 14 pobres para fazer um rico.
Em 7 de Janeiro de 1911 a notícia era que o senhor ministro da administração interna estava a ultimar a lei eleitoral. E que, segundo informações fidedignas (esta mania que há desde sempre em Portugal de fazer as coisas em sigilo) , será adotado em parte, o sistema proporcional e a nova lei assentará em bases essencialmente democráticas.
Seria extremamente importante que os senhores políticos de agora compreendessem isto, que o sistema proporcional, com mais ou menos variação dos coeficientes de divisão, é essencialmente democrático.
Que me perdoem os defensores dos circulos uninominais, mas as minorias precisam de se poder exprimir, quanto mais não seja para obrigar as maiorias a fundamentar melhor as suas propostas.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Joseph Joubert

O DN tem o hábito, especialmente saudável em certos dias, de publicar no alto da sua primeira página citações ou pensamentos.
Num destes dias a seguinte citação era de Joseph Joubert:
"Mais vale um debate sem decisão do que uma decisão sem debate"

Interessante, num país em que alguns honestos comentadores públicos se escandalizam com a liberdade de expressão e a tentativa dos cidadãos de participarem em debates públicos sobre temas de interesse público (por exemplo, o traçado da terceira travessia do Tejo ou o destino do parque Mayer) e classificam o debate público como o reino do caos, a citação de Joubert vem a propósito.
Como não conhecia o senhor, pesquisei na Internet que foi contemporaneo de D'Alembert e Diderot e viveu os ideais democráticos da revolução francesa.
Os seus pensamentos, donde graças à dita Internet é fácil extrair as citações, foram publicados por Chateaubriand, com base nos papeis que a viuva recolheu.
História bonita, portanto, e de louvar o pensamento democrático do senhor, que sem ter lido a Sabedoria das multidões, compreendeu que sem debate a tomada de decisão e a solução são sempre menos inteligentes, porque ninguem do grupo é mais inteligente do que o próprio grupo.
É uma lei da bio-sociologia, que me perdoem os autocráticos (não confundir com os autocríticos).

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Mais subsidios para o passe social

Vejo a notícia de que o governo subsidiou como indemnizações compensatórias os operadores privados de transporte público de passageiros na área  metropolitana de Lisboa, no montante de 18,9 milhões de euros.
A fundamentação é a de incentivar a utilização dos transportes públicos.

Não posso concordar.
Primeiro, cito novamente a declaração do primeiro ministro Vasco Gonçalves ao anunciar o fim dos subsídios aos produtores de leite, como medida indispensável à autonomia do país em produção de leite, o que veio a acontecer. Se a mobilidade dos funcionários de uma empresa é um fator de produção, o aumento dos custos de transporte tem de se refletir nos custos de produção da empresa (caso contrário estamos a disfarçar a inflação, coisa de que ela não gosta nada); claro que a proximidade dos funcionários relativamente à empresa minimiza os custos, o que só prova que a politica de urbanização seguida na área metropolitana de Lisboa, com a desertificação do centro e a expulsão dos habitantes para as cidades periféricas está errada.
Segundo, raciocinando por absurdo, se se terminar com este subsídio e, como consequencia, se se eliminarem os passes ditos sociais, que percentagem dos atuais utilizadores passarão a trazer o carro para o emprego? É que se a percentagem for pequena não pode invocar-se a medida como incentivadora da utilização dos transportes publicos (e que percentagem dos utilizadores terão carro? )
Terceiro, o carater social do passe só o será se estiver associado ao nivel de rendimentos do utilizador. Isto é, o subsidio do governo vai beneficiar igualmente em termos absolutos, o passageiro com rendimentos elevados e o passageiro com rendimentos baixos, quando pareceria que, em termos de justiça social, a haver subsidio seria o correspondente à limitação dos passes sociais aos passageiros de menor rendimento.
Quarto, por uma questão de justiça relativa entre operadores, deveriam realizar-se inquéritos credíveis para quantificar a distribuição dos passageiros pelos diferentes modos de transporte e assim poder fazer-se uma adequada repartição da venda dos passes e da atribuição das indemnizações compensatórias, pelo menos enquanto elas existirem.

Enfim, continuemos a aguardar os movimentos da autoridade metropolitana de transportes, nomeadamente para a realização dos inquéritos à mobilidade.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Terra arável

Segundo o INE, em 1968 o país dispunha de 1,9 milhões de hectares de superfícies agrícolas com menos de 20 ha e 3,1 milhões de hectares de superficies agrícolas com mais de 20 ha.

Total de terra arável em 1968:  5,0 milhões de hectares  (área do país: 8,9 milhões de ha)

Em 2007, o país tinha 0,85 milhões de hectares de superfícies agrícolas com menos de 20 ha e 2,62 milhões de hectares de superficies agrícolas com mais de 20 ha.

Total de terra arável em 2007: 3,5 milhões de hectares.

Isto é, deixaram-se ao abandono 1,5 milhões de hectares num país que importa 80% de alimentos.
Ouvi há anos um senhor político muito contentinho porque em Portugal, como nos países civilizados, a percentagem de população rural estava a diminuir.
E a eficiencia na produção alimentar também.
É interessante observar que de 1968 para 1979 a área de superficies agricolas com mais de 20 hectares subiu de 3,0 para 3,3), para no decénio seguinte cair abruptamente (para 2,5 milhões).
A perceção que a população urbana teve através da comunicação social foi a de que a reforma agrária tinha deixado as terras ao abandono.
A realidade estatística porém, diz que em 1979 (3,3 milhões de ha) começaram as devoluções de terras por força da lei e em 1989 a superficie trabalhada era apenas de 2,5 milhões de hectares.
Segundo o blogue
http://reforma-agraria.blogs.sapo.pt/692.html
só no distrito de Évora a área de produção agrícola atingiu 1,15 milhões de hectares.


O facto tem muito interesse para ilustrar como os decisores políticos criam o seu mundo próprio longe das realidades das frentes, quer se trate de agricultura (lembram-se como o anterior ministro da agricultura negou o nemátodo do pinheiro, uma coisa que toda a gente vê?) , quer se trate da educação, quer se trate da justiça.
Ainda se ao menos pusessem a ciência no mundo que eles constroem.
Mas não.
Um episódio histórico que ilustra esta psicose (construir mundos afastados da realidade não é uma doença, embora também o possa ser; é uma psicose) foi o chumbo do programa de governo do engenheiro Nobre da Costa.
Os políticos dos partidos dominantes perguntaram-lhe, com aquele ar que Eça de Queirós talvez deixasse classificar como "de conde de abranhos" (pretensioso, balofo, provinciano novo-rico, convencido, senhor das suas convicções mas ignorante de que não têm fundamento, de fraca cultura científica, etc) que plano tinha ele para acabar com a reforma agrária.
Ao que o senhor respondeu, com elevação e revelando que da formaçao dele fazia parte a honestidade e a cultura científica: primeiro vamos lá ver a situação real e depois de analisada faremos propostas.
É claro que o programa foi chumbado.

Pena o tempo passar e os decisores e os politicos não aproveitarem para estudar as lições da história e aumentarem um pouco a sua cultura científica.

PS - Não queria que pensassem que esta mensagem ficou monocolor. A verdade é que a estatística do INE diz que de 1989 a 2007 a área das superficies com mais de 20 ha aumentou de 2,49 milhões de ha para 2,62 milhões de ha, indiciando que as grandes empresas se preocupam em investir, por exemplo em vinho, azeite e turismo, seguindo as recomendações de Drucker, nos anos 90. Infelizmente a area de superficies com menos de 20 ha diminuiu, de 1989 para 2007, de 1,52 milhões de ha para 0,85 milhões de ha, indiciando que as pessoas morrem e emigram (subsidiando com o valor do próprio fator de produção os paises de acolhimento) e não são substituidas, que a produção agrícola diminui, que o sistema de educação despreza a formação agricola, e que é dificil competir com os preços dos alimentos importados (ver as sugestões do professor Daniel Barbosa) .
Conclusão: provavelmente em Portugal, até porque a produtividade das terras em si é inferior à europeia, a percentagem de pessoas afetas à agricultura terá de ser sempre superior à média, contrariando o tal politico acima referido.

Very fast post in blog . 26 - Observações ecologistas

As análises que os ecologistas fazem não primam, por vezes, pelo rigor.
Mas também é verdade que as questões ambientais, dada a sua complexidade e a diversidade de variáveis em jogo, são de difícil tratamento.
Achei interessantes estas duas observações:
- o petróleo que se consome num ano em todo o planeta necessitou de 3 milhões de anos para se formar, a partir das tais algas comprimidas em camadas geotécnicas profundas; isto é, todos os anos se inicia um período de 3 milhões de anos para repor o petróleo consumido
- a capacidade de renovação dos recursos naturais do planeta que são connsumidos esgota-se, em cada ano, pouco depois do fim de Agosto; no fundo, é como se a superficie agricola encolhesse 30%; um dia destes, quando a produtividade tecnológica não conseguir compensar, vamos ter de estar uns tempos em pousio, como se fazia na Idade Média

Economicómio LIX - Economia dos lazeres

Segundo o DN, o grupo SONAE:
-  fechou o seu centro comercial de Madrid
- suspendeu o investimento de 115 milhões de euros para construção de apartamentos turísticos em Lagos
- só concluirá o seu Troia Resort (lembram-se? aquele empreendimento que o Estado não tinha vocação para gerir)
Isto é, não há crescimento neste segmento da economia dos lazeres.
Quem estivesse à espera de soluções melhores para o governo, vindas do famoso grupo, terá de se contentar com os cortes que o grupo também faz à espera da retoma.
Sem originalidade nem nenhuma inovação.
Talvez sugerir à SONAE outro negócio, a exemplo do que o senhor presidente da câmara de Portimão fez.
Comprou a dívida da discoteca de ar livre Sasha, uma ninharia de 700.000 euros, e vai explorá-la no Verão.
Vai mais uma vez emitir uma licença especial de ruído durante toda a noite, até de madrugada, achando que os turistas estrangeiros irão regressar nos anos seguintes para se mortificarem com o ruido noturno e obturadores auriculares nos ouvidos para poderem dormir.
Será que a câmara tem vocação para gerir discotecas de verão?
A análise de custos benefícios deste investimento terá sido feita?
Os anteriores gerentes do Sasha terão tido, no fim,  prejuízos ou lucros?
Enfim, é a economia dos lazeres.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Madrid-Lisboa de avião ou de TGV?

Estava eu animado com a ideia de que o TGV ia servir aos senhores do futebol para propagandearem a sua candidatura quando aparece um senhor economista a fazer o papel do economizador corta-tudo o que seja investimentos, e a dizer: TGV para quê, se as companhias aéreas low-cost fazem a viagem Madrid-Lisboa muito mais baratas?

Primeiro, é de louvar a fé do senhor, confiante de que as "low-cost" vão continuar até 2018 a poder vender bilhetes a preços marginais de dumping com os custos do petróleo a subir.

Segundo, faz-me lembrar os solucionadores de soluções fáceis, como os que criticam redes de telecomunicações de segurança específicas em vez de recorrer ao GSM; como se sabe, em caso de catástrofe, a rede fica saturada e os meios de salvamento não podem depender disso.

Terceiro, lá me obriga a fazer mais umas contas à moda de Fermi.

Imaginemos que serão feitas 30.000 viagens individuais Madrid-Lisboa (20% da lotação de 3 estádios de futebol) de 600 km.

Serão necessárias 160 viagens de avião (180 pass/viagem) num curto espaço de tempo, ou 40 viagens de TGV (800 pass/viagem).

Admitindo um consumo específico por passageiro.km de:

- 280 Wh para o avião (energia elétrica que poderia ser produzida com a queima em central elétrica do combustível fóssil consumido pelo avião)

- 120 Wh para o TGV (energia elétrica final consumida no comboio);

e emissões de CO2 de:

- 140 gCO2 por passageiro.km no avião
- 60 gCO2 no TGV (1 kWh<>0,5 kgCO2),

temos os seguintes consumos e emissões totais:

> avião:

- energia

180pass x 160viagens x 600km x 0,28kWh=4.838.400 kWh=4,8 GWh

- emissões

180pass x 160viagens x 600km x 140g x 10^(-6) = 2.419 tonCO2

> TGV:

- energia

800pass x 40viagens x 600km x 0,12kWh=2.304.000 kWh=2,3 GWh

- emissões

2.304.000kWh x 0,0005 = 1.152 tonCO2


> diferencial avião-TGV:

- energia

4,8 - 2,3 = 2,5 GWh ( <> 2,5 GWh x 0,1 M€/GWh = 250.000 €)

- emissões

2.419 - 1.152 = 1.267 tonCO2 (   <> 1.267 tonCO2 x 14 € = 17.738 €)


E pronto. Se este é o prejuízo por não haver TGV quando se realizar o campeonato mundial de futebol, então nada a objetar que o IRS das pessoas que acham que é melhor virem de "low cost" seja onerado de uma verba proporcional, comparativamente com o IRS das pessoas que achavam melhor construir o TGV, a título de apoio à seleção.



PS - Por lapso, tomei como valor para o consumo médio do avião Lisboa-Madrid 30ml de gasolina por km. Ora, este valor corresponde ao mais eficiente Boeing 737 mas em altitude de cruzeiro e em longa distancia. O valor a considerar para um avião para 600km será, para uma ocupação de 80%, cerca de 2 vezes superior, isto é 60 ml/passageiro.km, porque a energia consumida na descolagem não é compensada por um percurso longo a alta atitude com menor consumo. 
Teriamos assim, para as 160 viagens necessárias ao campeonato, um diferencial desfavorável ao avião, quando comparado com as 40 viagens do TGV, de cerca de 730.000 euros de energia e 52.000 euros de toneladas de CO2. Isto é, cada viagem de um avião de ida e volta que se faz é um prejuizo, quando comparado com a sua substituição pelo TGV, de cerca de 10.000 euros.
Se admitirmos que pelo menos 5 viagens de avião podiam ser substituidas pelo TGV, então, cada dia que se atrasa a colocação em serviço do TGV representa um prejuizo de 50.000 euros.
É o preço da energia.

Rigoletto a Mantova (A ópera Rigoleto filmada em Mantua e transmitida em direto)

A RTP2 anunciou durante vários dias a transmissão em direto da ópera Rigoletto, de Verdi, em três sessões distintas, à mesma hora em que a ação decorre, filmada no palácio dos duques de Mantua.
Foi um investimento importante da RAI, considerando a dificuldades da gravação em direto, mas parece-me que valeu a pena, quer no retorno financeiro devido à retransmissão pela Mundivisão, quer pelo sucesso do ato cultural em si.
Não sei se o mecanismo de registo das audiencias deu pela transmissão, mas pode ser que um dia aconteça um fenómeno de adesão popular  e os senhores diretores de programas das televisões repensem os seus critérios.
Até lá, vamos continuar com o futebol, as telenovelas, os concursos e os big brothers (dizia uma senhora participante num espetáculo destes: eu sei que isto não é cultura, mas é disto que nós gostamos; a verdade na voz do povo, e o reconhecimento da situação real como primeiro passo para resolver o problema; mas terão os sociólogos aprendido com esta senhora o primeiro passo, para poderem esboçar o segundo?).

Mais pormenores sobre o Rigoletto em:

http://www.youtube.com/watch?v=Mtjz1J9HAZg

Interessa-me aqui assinalar a participação de Placido Domingo. É tenor, mas com a idade a voz encorpa um pouco e fez o papel de barítono, Rigoletto. Tem mais de 65 anos, mas pode fazer isto porque é efetivamente uma voz excecional e porque os rendimentos que auferiu pemitiram-lhe criar uma fundação que, entre outras atividades, faz concursos paa revelar novas vozes. E foi assim que apareceram a soprano que fez de Gilda e a contralto que fez de irmã de Sparafucil, que são vozes muito bonitas e de muito boa técnica.
Verdi, que era uma pessoa bem formada, e portanto sabia o que era a humildade (coisa que os génios que tomam e tomaram decisões em Portugal parecem ignorar) depois de ver este espetaculo, seria capaz de achar que as suas áreas ainda eram mais bonitas do que pensava e a sua orquestração mais elaborada.
Verdi tinha tambem sentido de humor, o que só prova que era uma pessoa inteligente com capacidade de realização.
Oiço na Antena 2 António Cartaxo contar uma pequena história sobre Verdi. Um espetador da sua ópera Aida escreveu-lhe desiludido com o espetáculo e reclamando o dinheiro do bilhete, do transporte em comboio e do jantar. Verdi respondeu-lhe que só pagava o bilhete do espetáculo e do comboio, mas que o jantar nunca lhe pagaria, e queria também uma carta em que o reclamante se comprometesse a nunca mais assistitr a uma ópera dele, que, assim, nunca mais lhe pagaria nada.
Já imaginaram o que seria um senhor com uma casa arrendada escrever ao ministro da habitação a reclamar o diferencial entre as rendas e o custo de vida? ou ao ministro da justiça o pagamento do tempo para além do razoavel que uma pessoa aguardou por um julgamento ? ou ao ministro das florestas a área ardida? ou ao ministro das polícias a carteira roubada? ou ao ministro das escolas os prejuizos de uma colisão por trás por o ensino da matemática ser ineficiente e o condutor que bateu não ser capaz de calcular a distancia de travagem? ou ao ministro das finanças porque não chegou a tempo o crédito para poder exportar um milhão de pares de sapatos?
Provavelmente a  reação seria de escandalo, como Jesus Cristo dizia dos publicanos muito branquinhos mas só por fora, ou talvez houvesse uma ação por difamação.

Voltando a Placido Domingo, dir-se-á que é um exemplo para aproveitar o trabalho dos profissionais com mais de 65 anos.
Mas Placido Domingo é excecional, enquanto os comuns dos mortais dizem o que dizem quando têm aquela idade e os decisores não gostam, muitas vezes de ouvir, ou não podem contrariar a pressão dominante nas empresas.
Como se sabe, o que determina a pressão dominante nem sempre coincide com o próprio interesse da empresa ou da comunidade que ela serve, e choca muitas vezes pela ignorância das questões técnicas, mas é mesmo dominante.
E então será melhor não contrariar o estado das coisas.
Se por um lado a expetativa de vida sobe, os encargos da segurança social também (apesar do sistema de segurança ter meios para fazer investimentos com retorno, isto é, não é exclusivamente do tipo "pay-as-you-go", no qual as reformas são pagas pelos descontos dos trabalhadores no ativo), o que convida a aumentar a idade da reforma, por outro lado a qualidade de vida vai diminuindo com a idade.
Ainda bem que Placido Domingo pode cantar assim e ser contratado pela RAI, mas não subamos a idade de reforma acima de 65 anos.

domingo, 5 de setembro de 2010

MSC Bettina

Depois de Irene em Sines, Bettina, também vindo de Singapura, Xangai e Hong Kong, com destino a Le Havre.
Porta-contentores de 14.000 TEU, 150.000 toneladas de deslocamento, 366m de comprimento, 51m de boca, 15m de calado, motor diesel de 72 MW de potência.
Movimentação dos contentores do Bettina num dia no porto de Sines de 2.000 TEU.

Estima-se um crescimento anual do movimento do porto de Sines da ordem de 70%.

Isto para dizer que estou bem com a minha consciencia, porque discordei, nos anos 70, dos que classificaram o porto de Sines como "elefante branco".
Receavam eles nessa altura estar a investir sem retorno, como seria  também o caso do Alqueva.
E agora não pedem desculpa, e continuam a opinar, à boa maneira portuguesa.
O que vale é que também vai havendo uns maus portugeses que vão gastando dinheiro a investir em investimentos produtivos.

sábado, 4 de setembro de 2010

O metro de Teerão

Cavalo e comboio/H.Tavakkoli/Baixo relevo/Estação do metro de Teerão de Shahid Beheshti


           A criação/H.Aliasgari/Metal/Estação do metro de Teerão de Javanmard-e-Ghassab


Um passo em frente/A.Hakymhashemi/Metal/Estação do metro de Teerão de Haft-e-Tir


As pessoas e as instituições que neste momento detêm o poder de decisão no Irão não serão as mais desejáveis para o interesse do seu povo. Não serão também as mais dignas do passado desse povo e da cultura que desde muito antes da cultura clássica greco-romana se desenvolveu naquela terra, no prolongamento da cultura dos sumérios, junto do Eufrates e do Tigre.
Nos museus de Teerão vê-se o que podemos ver nas fotografias dos livros de história das escolas. O código de Hamurabi (cópia, uma vez que o original foi levado pelos ocidentais), leões e touros alados de Persepolis, baixos relevos de Susa e Pasargade.

A presença de algumas palavras "farsi" (persas) no vocabulário das línguas ocidentais mostra a importancia da sua cultura:
- para dasa - deu paraíso, revelando, se interpreto bem a teoria da linguagem, que o conceito filosófico de paraíso, e as noções de bem e do mal, nasceram por aqueles sítios, influenciando as religiões judaica e indu;
- hashashin - deu assassino, com origem num grupo, que hoje se consideraria de terroristas, que se drogavam com haxixe para realizarem os seus assaltos, conforme relatou Marco Polo
- shak - através do árabe sakke deu saque e cheque; os comerciantes persas da dinastia sassanida (séc III DC) introduziram as letras de cambio e os cheques para evitar o uso de moedas ; através dos comerciantes árabes esses procedimentos bancários foram transmitidos aos cavaleiros templários e daí a toda a Europa mercantil.
Existe uma vida cultural e universitária intensa no Irão e o país está aberto às tecnologias.
As imagens acima reproduzem três obras de arte no metro de Teerão e com isso pretendo significar que é por aí que o diálogo  pode começar, pela técnica e pela arte, entre técnicos e entre pessoas da cultura. Os políticos deviam vir atrás, como personagens secundárias e suficientemente humildes para aprender. Infelizmente a humildade não parece ser o seu forte, quer dos políticos de lá, quer dos políticos de cá. E assim demorará a resolver o problema.




 








O co-piloto da Ryannair

O dono da Ryannair lançou o barro à parede (cito de cor):
Podemos economizar eliminando o co-piloto nalguns aviões. Em caso de emergência o pessoal da cabina, que para isso receberá treino, executará a manobra de aterragem. O transporte de A para B deve ser seguro, rápido e eficiente.

Para ser honesto, não posso discordar da fundamentação, embore discorde do objetivo.
Eu próprio preguei durante anos, ingloriamente, já se vê, que o Metropolitano de Lisboa não era uma empresa de construção de belos e agradáveis edifícios com lojas e publicidade televisiva, mas antes um modo de transporte entre A e B, em meio urbano, em ferrovias eletrificadas, em condições de segurança, rapidez e economia (eficiência é capaz de ser mais preciso, na verdade).

Pode ser que com a crise nos dêem razão, ao dono da Ryannair e a mim.

Mas quanto à supressão do co-piloto, discordamos. O co-piloto não existe apenas para uma emergência na indisponibilidade do piloto. Existe para controle mútuo em condições normais. É o mesmo princípio que se utiliza em sistemas de controle de segurança. Partes do sistema controlam-se mutuamente, no espaço ou no tempo, na execução do processamento que origina as variáveis de saída.

Talvez haja uma analogia com os novos sistemas de automatização integral dos metropolitanos (condução automática dos comboios sem tripulação). Os requisitos de segurança impõem que haja pessoal , em serviço nas estações ou em ambulatório, treinado para ir buscar o comboio em caso de avaria e supervisionar a evacuação dos passageiros.
Analogamente, tambem poderiamos suprimir o co-piloto desde que o pessoal da cabina estivesse treinado para acorrer aos comandos sempre que ocorresse uma inconformidade (não necessariamente indisponibilidade do piloto).
Porem, dizem as estatisticas dos investigadores de acidentes aéreos, que a ordem de grandeza das descolagens em que não foi cometido nenhum erro ou omissão (por exemplo, se os flaps, os slats, os reversers, estão operacionais e na posição correta) é da ordem de 40% (consequencia da complexidade dos equipamentos envolvidos).
O trabalho que o pessoal da cabina iria ter, em vez de estar a mostrar o menu, pago como o dono da Ryannair quer, ou a demonstrar os procedimentos de evacuação.

Além disso, a Airbus ainda não esclareceu completamente (a Boeing não precisa, porque nunca deixa um automatismo prevalecer sobre o critério dos pilotos) o caso das sondas de Pitot, responsável por vários incidentes de descida de altitude por comando automático (por avaria, a sonda informou o processador central que a velocidade era inferior à de segurança, pelo que este ordenou uma descida para ganhar velocidade). Esta é uma das hipóteses para a queda do avião da Air France vindo do Brasil (infelizmente, a política de transparencia nas investigações oficiais dos acidentes ainda não é muito famosa, provavelmente por prevalecerem formalismos juridicos e preocupações  ligadas às seguradoras; veja-se o caso do julgamento da queda do Concorde, que omitiu um facto importante: na última manutenção, tinham-se esquecido de montar o espaçador das rodas da esquerda do trem de aterragem; não foi causa ou circunstancia unica, mas ajudou).

Seja como for, confesso que prefiriria o TGV à Ryannair, pelo menos para Paris e enquanto os seus padrões de segurança estiverem imunes às perigosas inovações.
E de Paris a Londres ou Bruxelas tambem se vai bem de TGV, deixa-se menor pegada ecológica  e não se engarrafam os céus.

Very fast post in blog . 25 - O festival de Veneza e o conflito Israel-Palestina

O festival de cinema de Veneza também colabora na solução do conflito entre Israel e a Palestina.
Premiou um filme realizado por um judeu americano, com argumento de uma palestiniana, e interpretada por atores de várias nacionalidades entre os quais, na personagem principal, uma goesa.
É como a orquestra de Daniel Barenboim.
Quando se conseguirá tirar o poder às instituições e às pessoas que não deixam as outras viver em paz? Imaginemos , como escreveu John Lennon.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A oratória da floresta

A simpática atendedora da FNAC não consegue encontrar na base de dados do computador a oratória da floresta, de Dmitri Shostakovitch.
Ela bem tenta, mas não encontra. Parece duvidar que exista, que será confusão minha.
Explico que se ouvia por vezes, há uns anos, na Antena 2.
Uma obra coral sinfónica que glorificava a política florestadora na Rússia, a seguir à segunda grande guerra.
E que por isso devia ser uma espécie de hino para os ecologistas.
Ou talvez não, pensando melhor, o problema desta oratória da floresta é que se destinava a louvar a política de Staline. O poema até lhe chama o grande jardineiro. E então é capaz de ter sido por isso, por ser incorreta politicamente, que a musica tenha deixado de ser transmitida.

Shostakovitch tem sido interpretado pelos comentadores ocidentais como uma vítima de Staline e das intervenções condicionantes deste na produção musical dos compositores. Prokofief, que ao contrário de Shostakovitch passou temporadas fora da União Soviética, respondeu a Staline, que o criticava por fazer musica politicamente fraca, que também achava a politica dele musicalmente fraca.
Claro que Shostakovitch foi uma vítima de Staline, mas que o homem acreditava sinceramente que só há justiça se a sociedade fôr capaz de conter as desigualdades sociais, acreditava.
E que escreveu a Oratória da Floresta, em 1945, logo a seguir à grande guerra, a acreditar num esforço da nação para criar riqueza, escreveu.
Infelizmente teve de musicar os versos que o autor do poema, Evegueny Dolmatovsky, dedicou a Staline, porque era condição de sobrevivência e permanência no país; mas este é um caso em que todos concordam em interpretar a obra omitindo ou disfarçando esses versos sem considerar que se está a amputá-la.
Por isso seria agradável que os comentadores ocidentais fossem mais parcos a lembrar a submissão a Staline e mais pródigos a mostrar a qualidade da sua musica e a sua crença na justiça social.

Mas eis que ao pesquisar Shostakovitch no Google surge o opus 81, "The song of the forests", e a referência do CD aparece imediatamente no computador da menina da FNAC.
Acho que a musica é muito bonita e devia ser mais ouvida.
Podem ouvir um bocadinho em

http://www.youtube.com/watch?v=KmZJeImdz0g

“Agora que a guerra acabou
A terra respira cheia de alegria
E recomeçam os dias de sol
…………………………………………….
Vestiremos o nosso país
Com florestas
………………………………………..
O silêncio enche-se com o alegre
canto dos rouxinóis
sobre os campos de trigo
celebrando a juventude e a primavera
………………………………………………………
Mas aqui no passado,
Não podemos ouvir
O canto do rouxinol.
O nosso povo incansável
Transformou a terra num jardim
……………………………………………..” (fonte: DECCA 1994, tradução Pat Bailey)



E porque dedico esta mensagem à Oratória da Floresta?
Porque vou comentar os incêndios em Portugal.
Área ardida da floresta portuguesa desde 2000, em ha (fonte: Ministério da Agricultura, exceto o valor de 2010, até 2010-08-31, do Sistema europeu de fogos florestais – EFFIS):

2000             159.600
2001              111850
2002              124410
2003              425730
2004              129540
2005              338260
2006                75510
2007                31450
2008                17440
2009                86670
2010                94020 *

Assim como o trigo cresce sem autorização do ministro da agricultura, como escreveu Brecht, assim também a área ardida não é a que os ministros determinam por decreto, nem a que é transmitida a ilustres visitantes numa sala cheia de computadores portáteis ligados em rede.
Escrever sobre estes assuntos tem sempre a carga negativa de estar simplesmente a opinar.
Será ou não, mas talvez eu possa escrever alguma coisa.

Primeiro porque gosto muito da Oratória da Floresta.
Já há muitos anos, ainda a floresta portuguesa não ardia assim.

Segundo, porque estamos perante uma externalidade de que qualquer cidadão, eu incluído, sofre as consequências. Assim como assim, 100 mil hectares ardidos implica que as pobres árvores já não vão poder capturar 100 mil toneladas de CO2 por ano, além de que o próprio incêndio desses 100 mil hectares representou uma emissão de 50 mil toneladas de CO2. (fonte:  www.off7.pt/)
Ao preço a que a tonelada de CO2 está (14€/tonCO2) temos 2,1 milhões de euros de prejuízo só em CO2 (a tal externalidade), o que talvez justificasse um investimento de 40 milhões de euros para comprar uns quantos Canadair (tudo indica que os aparelhos mais baratos do que este mdelo são menos eficientes).

E depois, porque em 2003 estive num incêndio, a apagar como pude, com ramos de árvores, que é um meio eficaz em grupo, quando, depois de uma mudança de vento, ameaçou os terrenos dos meus vizinhos e o meu, enquanto uma coluna de bombeiros tomava posição sem intervir (não havia casa ameaçadas).

Que ninguém se assuma como detentor da solução, porque o problema é complexo e de variáveis contraditórias, embora seja inquestionável a necessidade de aceiros (ou de caminhos de acesso em região montanhosa) e de formação das populações em medidas preventivas (e de fixação de populações no interior, claro).

Limpar os solos diminui a carga térmica mas aumenta a erosão dos solos e a escorrência das águas aumentando o risco de enxurradas. Além de que em zonas de reserva natural é interdito por lei. Isto é, a limpeza indispensável tem de ser conduzida por quem saiba o que está a fazer e a colaboração das universidades parece indispensável (por falar em universidades, terão falhado aqueles projetos de investigação com detetores automáticos de ignição, julgo que por câmaras de televisão? De facto, a área a proteger é enorme).

Alimentar centrais de bio-massa com o mato das limpezas é boa ideia e o governo apoia, mas como recolher o mato se a desertificação avança a passos de gigante com a rarefação das populações e os fechos de centros de saúde e de escolas?

Pôr gente nas torres de vigia também era boa ideia, mas faltará orçamento.

Abrir os aceiros e repavimentar os caminhos ou construí-los de novo em terreno montanhoso é dispendioso. Onde encontrar dinheiro para isto? Em programas europeus?

Comprar Canadairs é fazer um investimento vultoso que estará parado a maior parte do tempo, mas a eficiência dos outros meios é menor.

Emparcelar as pequenas propriedades suscetiveis de plantamento florestal ou, pelo menos, estimular o associativismo para facilitar as medidas preventivas e a definição das espécies mais indicadas para cada região (árvores de crescimento rápido podem ser contra-indicadas), também é uma boa ideia, mas quem trata da sua operacionalização?

Na verdade, as coisas não devem continuar assim, com tanta floresta a arder (na verdade as coisas também não devem continuar assim com a desertificação do interior).

Donde, se não se quiser fazer um concurso público internacional para resolver a questão, haverá que utilizar os métodos da “Sabedoria das multidões”: organizar a colaboração das pessoas que têm conhecimento desta problemática, de uma forma pluri-disciplinar, e ir aplicando as medidas corretivas.

Por mim, posso garantir que o ramo de arbustos é eficaz, mas exige muita gente e é perigoso. Mais vale desenvolver as medidas preventivas e perguntar a quem sabe o que se deve fazer.

Talvez que um caminho seja perguntar à Portucel/Soporcel (120 mil hectares) e à Altri (82 mil hectares), associadas na Afocelca.
Dos 200 mil hectares à sua guarda, arderam em 2009 cerca de 800 ha (0,4%). Custaram, a prevenção e o ataque, 4 milhões de euros.

Considerando que a floresta portuguesa ocupa 3,3 milhões de hectares (de que 85% é privada, 3% pública e 12% de baldios – fonte:   http://pt.wikipedia.org/wiki/Floresta_portuguesa) teríamos, com economia de escala, custos de proteção da ordem de 30 milhões de euros, o que levará muitos a preferir o conhecido aforismo português de “deixar arder” 100 mil hectares todos os anos; que gerariam 0,5 milhões de euros de receitas anuais se a rentabilidade fosse a mesma das empresas da Afocelca ( os 200 mil hectares da Afocelca geram cerca de 1 milhão de euros de receitas anuais e contribuem para o PIB com 2,8% ~ mil milhões de euros – notar que a maior parte das receitas vem da pasta de papel obtida a partir de eucalipto).

Enfim, é preciso que o "povo possa transformar a terra ardida num jardim".


* PS - Segundo o relatório da Autoridade florestal nacional, citado pelo DN de 3 de Setembro, a área ardida em Agosto foi de 105.806 ha

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Almoço na esplanada da Gulbenkian 6 - As 10 maiores exportadoras

Quando cheguei ao átrio da biblioteca da Gulbenkian já o meu amigo lá estava, sentado comodamente num sofá a ler o livrinho que eu tinha recomendado: “os últimos 200 anos da nossa economia e os próximos 30”.

E, contrariamente ao habitual, não estava carrancudo.

Estava bem disposto, a ler o livro.

Talvez por contraste, porque um pessimista a ler este livro fica de rastos.

- É pá, afinal o livro é bom. Nem queria acreditar. Estou aqui nas medidas estratégicas para sair da crise e olha o que descobri.

E mostrou-me, na página 233, a lista das 10 principais empresas exportadoras em Portugal (como se sabe, o país precisa como de pão para a boca de exportar bens transacionáveis):

Petrogal
Autoeuropa
Soporcel
Mabor
Bosch
Portucel
Somincor
Peugeot
Repsol
Visteon

- Imagina que o conjunto destas empresas, que são as maiores exportadoras, importam mais do que exportam e têm um saldo negativo de 1.800 milhões de euros ( 1,2% do PIB)

- Quer dizer que o valor dos kits de montagem e dos acessórios que importam para montar os carros, no caso da Autoeuropa e da Peugeot, é superior ao valor acrescentado nas fábricas. Das duas uma, ou estamos a pagar muito pelos bens importados ou estão a pagar-nos pouco pelo nosso trabalho. ( 1 )

- Já dizia o Manuel Pinho quando fo i à China, que os salários em Portugal são competitivos.

- Estamos então como nas empresas de transportes. Quanto mais passageiros se transportam, maior é o prejuízo, porque as receitas não cobrem os custos de produção.

- E não será com as exportações que aumentaremos o PIB, porque as importações crescerão sempre mais, embora haja sempre a vantagem de combatermos o desemprego e criarmos receita fiscal.

- A menos que seja verdade o que diz o livrinho, que ainda há 8.000 empresas em Portugal que conseguem exportar e que é possível canalizar o esforço de exportação para a China, Angola e Brasil pela simples razão do comércio com estes 3 países ser muito reduzido. Como dizem os economistas, o que precisamos é de exportar bens transacionáveis de alto valor acrescentado ou de fatores de produção internos e renováveis.

- Ou então, como dizia o Daniel Barbosa, aumentamos as exportações de emigrantes e de turismo para equilibrar a balança de pagamentos.

- Acho que sim, mas por agora o melhor é guardarmos o livro e irmos almoçar.


E remoendo que o problema é os decisores não saberem sobre o que decidem porque a ciência está fora da equação, que não sabemos tomar decisões em conjunto e  que não gostamos de nos organizar em equipas,   nos encaminhámos, com passos pessimistas, para o balcão do self-service, assistido por 2 empregadas ucranianas e 2 brasileiras, e incluindo nos pratos do dia, se a estatística geral se mantinha válida nesta amostra, 80% de alimentos importados.

PS - Esta afirmação, como pode ver-se em
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/10/almoco-na-esplanada-da-gulbenkian-7.html
parece incorreta. A prevalencia das importancias sobre as exportações dever-se-á a maior retribuição do capital (lucro da Vplkswagen) do que do trabalho (mão de obra acrescentada da Auto Europa)

Gestionarium XXI - o caso Casa Pia

'

Com a devida vénia ao DN, tomo hoje conhecimento de que o provedor da Casa Pia, de 1986 a 2002, por várias vezes levantou processos disciplinares ao ex-motorista, principal acusado e “arrependido” do caso Casa Pia que culminaram na reforma compulsiva deste em 1991.
No entanto, o Supremo Tribunal Administrativo mandou reintegrá-lo imediatamente.


Seguiram-se mais processos disciplinares e nova reforma compulsiva no verão de 2002.

Em Novembro de 2002 o caso Casa Pia rebenta na comunicação social.

O senhor ministro da solidariedade social da altura entende que o provedor nada tinha feito contra e manda instaurar-lhe um processo.

O instrutor conclui que nada há a apontar ao provedor e o senhor ministro nomeia outro instrutor que propõe 2 meses de suspensão.

O senhor ministro aprova e demite o provedor.

O Supremo Tribunal Administrativo vem agora, 8 anos depois, mandar devolver os vencimentos ao ex-provedor.



Interessa-me aqui analisar as ações de gestão no interior do sistema e nos seus sub-sistemas, como se se tratasse duma empresa integrada no seu universo empresarial.



Temos que:

1 – em 16 anos, correram vários processos disciplinares contra o ex-motorista, na sequência dos quais o provedor só conseguiu afastá-lo por duas vezes

2 – apesar de 1, o ministro acusou o provedor de nada fazer contra os abusos

3 – o instrutor nomeado para o processo ao provedor concluiu nada haver a apontar a este

4 – apesar de 3, o ministro castigou e demitiu o provedor

5 – o STA mandou reintegrar o ex-motorista depois de ter sido afastado em 1991

6 – o STA mandou devolver ao ex-provedor os vencimentos do período de suspensão



Parecer:

1- o processo relativo ao ex-provedor parece ser do tipo “kafkiano”

2- a ação do ministro, se é verdade o relato, parece configurar prepotencia, ignorando realidades concretas em detrimento da preocupação em tomar medidas que satisfizessem a pressão da opinião pública

3- a ação do STA parece pouco consistente num caso e de resposta lenta no outro

4- os pontos 1 a 3 podem ter origem na ausência de mecanismos de controle (ou fiscalização) das ações dos órgãos intervenientes, nomeadamente em:

4.1 – independentemente da correção de atuação dos diretores ou provedores, as instituições deverão ser geridas com a intervenção de órgãos colegiais que exerçam a função de controle mútuo, sendo evidente que o provimento dos lugares deverá ser feito por concurso e não por nomeação; o cargo de diretor geral ou provedor geral deverá assim ter limitações

4.2 – a pressão da opinião pública, através da comunicação social, não tem mal em si mesma, embora seja criticável à comunicação social privilegiar aspetos ditos “mediáticos” em detrimento de factos comprovados que possam constituir causas e circunstâncias; o mal surge nos responsáveis públicos tomarem decisões precipitadas sem debate alargado e profundo, com a preocupação de mostrar capacidade de decisão e satisfação da opinião pública;

4.3 – o ponto 4.1 aplica-se evidentemente às ações do próprio ministro, sendo que deveria existir um órgão dependente do poder judicial que evitasse a situação caricata de, não tendo sido do agrado do ministro as conclusões do primeiro instrutor, ter ele nomeado um segundo instrutor que produziu as conclusões desejadas

4.4 – o ponto 4.3 indicia que, apesar de existir um poder judicial independente do poder executivo, a sua ação não tem eficiência, pelo que são necessários mecanismos para:

4.4.1 - consolidar o grau de independência relativamente ao poder executivo e legislativo

4.4.2 – aumentar o grau de eficiência interna do sistema judicial

4.5 – para além do órgão dependente do poder judicial que controle as ações dos ministros, conforme referido em 4.3, deveriam no respetivo ministério existir órgãos colegiais institucionais, com composição preenchida em parte significativa por concurso e por colaboração graciosa e ad-hoc de cidadãos com experiência sobre os assuntos concretos



Em resumo, a atuação dos diversos intervenientes revela lacunas graves ao nível de :

- organização interna

- mecanismos de tomada de decisão

- eficiência



Como deixei escrito noutra mensagem deste blogue, “structure follows strategy”.

Isto é, não se queira resolver isto com a reforma de leis ou com a reestruturação da Casa Pia.

Antes de mais, são necessárias as questões estratégicas para sair desta crise, que não é só o julgamento, é também a perda de qualidade do ensino profissional da Casa Pia, que foi outra vítima das políticas dos ministérios da Educação.

Existe muita gente neste país com experiência nestes assuntos, além de que nas universidades existe conhecimento acumulado.

É organizar a sua colaboração.





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Gestionarium XX - Structure follows strategy

Uma breve incursão aos gurus de gestão do século passado esbarra com esta tese, de Alfred Chandler: "Structure follows strategy", desenvolvida  a partir dos casos de sucesso das grandes empresas norte-americanas dos anos 20 (GM, Dow Chemiclas, Standard Oil) , com a sua multi-division form (para evitar os inconvenientes da centralização da direção geral), adaptando a estrutura à estratégia.
Ver:
http://www.provenmodels.com/7

É uma pena os nossos consultores da atualidade preocuparem-se tanto com as reestruturações das empresas.
Mais valia deterem-se primeiro nas questões estratégicas.
Mas para isso seria necessário conhecerem profundamente o negócio das empresas a que fornecem consultoria, não seria?

Como dizia a banda desenhada do Dilbert, o consultor, para saber as horas, começa por perguntar as horas ao consultado, depois pede-lhe o relógio emprestado, que conserva a título de pagamento dos honorários.

E assim se vai vivendo o binómio recursos humanos internos-recursos externos, sujeito ao velho hábito português de tomar partido bairrista ou por um pelo outro lado, em vez de analisar caso a caso as soluções estratégicas a experimentar.


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terça-feira, 31 de agosto de 2010

Economicómio LVIII - Um livro excecional




Fiz este gráfico a partir de uma tabela que encontrei num livrinho excecional.
Podemos aperfeiçoar o gráfico, para melhor discriminar os países, associando ao eixo vertical o grau de realização democrática (por exemplo, um país com uma democracia formal mas que não consegue evitar desigualdades sociais estaria nos quadrantes inferiores ou junto do eixo horizontal, enquanto países sem sequer essa democracia formal estariam mais abaixo) .

O autor do livro coloca Portugal no quadrante inferior esquerdo e define como objetivo a atingir colocá-lo no quadrante superior direito.
É feita a análise dos dados e indicadores económicos do país nos ultimos 200 anos, a comparação com as economias dos outros países e apresentadas 25 medidas estratégicas concretas para uma evolução favorável nos próximos 30 anos.

Eu digo que é um livro excecional porque, ao contrário do que estamos habituados pelos nossos políticos e pelos nossos economistas destacados, que não conseguem sair das generalidades e das condenações de quem trabalha, ou então só se lembram de medidas muito particulares, do tipo "lá no meu bairro o que era bom era fazer-se uma ciclovia e recolher o lixo antes das 21", as medidas apresentadas são mesmo concretas, do estilo vamos montar a equipa e as equipas e vamos planear e executar o trabalho.

É impressionante o cuidado com que os indicadores económicos são tratados, a grande diversidade de temas e o pormenor com que alguns são tratados, apesar de externos à formação académica do autor.
De destacar, no curriculo deste, a experiencia de perto com a economia chinesa (claro que só podia confirmar a apagada e vil tristeza, no sentido de se fazer muito pouco, do relacionamento através de Macau).
Os meus amigos economistas talvez não gostem, mas o livro está sistematizado mais à moda da formação em engenharia que o autor tem.
Isto é, na ótica do "feito o levantamento da coisa, o que é preciso fazer é ..., portanto vamos fazer".

Evidentemente que este método tem vários defeitos.
E o primeiro é que as pessoas dirão "isso não é assim", que é a maneira mais portuguesa de manter as coisas na tal apagada e vil tristeza, e que agora não há dinheiro (embora eu tenha tentado mostrar, com os investimentos em metropolitanos, que os investimentos servem para poupar dinheiro).

O segundo, mas isto talvez seja eu com as minhas obsessões, nem está no âmbito do livro, é que o sistema educativo português não serve e a sua correção, que considero não ter ainda sido feita, só apresentará resultados positivos a prazo de 20 anos.

Talvez ainda, mas também fora do âmbito do livro, faltarão referencias a como pôr as equipas a trabalhar, porque nós, portugueses, sofremos de grande falta de capacidade de organização.
Como se sabe, neste capítulo a minha obsessão são os métodos descritos na "Sabedoria das Multidões" e a "importação" de técnicos estrangeiros para as equipas de projeto e coordenação das medidas.

De salientar a proposta do autor em abrir o trabalho das equipas oficiais a técnicos com experiencia nos assuntos (para evitar, para citar um exemplo daquilo que me está mais próximo, descoordenações entre os traçados do TGV e da terceira travessia do Tejo e as redes de metropolitano e suburbanos de Lisboa, ou o disparate do nó de Alcantara), e a necessidade de corrigir o sistema judicial.

Espero poder comentar, pelo menos, as 25 medidas estratégicas, e recomendo vivamente, entretanto, a  aquisição do livro.

Se não quiserem mergulhar nas questões aborrecidas (cujos efeitos nos atormentam a todos), podem sempre entreter-se com os pormenores histórico-quase burlescos.
Por exemplo:

- Portugal vendeu em 1851 à Holanda, para reduzir o seu endividamento, a ilha das Flores, na Indonésia, a NW de Timor;

- o país já viveu várias bancarrotas (impossibilidade de pagar os juros dos empréstimos), e.g. em 1892, numa altura em que a dívida pública era 89% do PIB e a dívida pública externa era 50% do PIB (situação em 2009: 77% e 61%, respetivamente)   e em que o governo decidiu pagar apenas um terço dos juros da dívida externa; a renegociação só foi concluida em 1902; a principal garantia dada aos credores era o imposto sobre o tabaco; o último pagamento só foi feito em 2001 (por isso se diz que o caminho de ferro de Fontes Pereira de Melo só acabou de se pagar neste ano)

- a taxa de analfabetismo em 1930 era de 62%.

Luis Monteiro, "Os últimos 200 anos da nossa economia e os próximos 30", ed. Deplano Network

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Código de contratação pública

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Segundo o presidente da Associação dos Industriais da Construção civil e obras públicas (AICCOPN), Reis Campos, dois anos depois da entrada em vigo do CCP, as empreitadas de lojas de cidadão foram recentemente adjudicadas sem concurso público e, conforme registo do Observatório das obras públicas, de 17.000 contratos, 96% foram-no por ajuste direto.
Por outro lado, no primeiro semestre de 2010, as adjudicações diminuiram 55%.

A AICCOPN aponta dificuldades nos procedimentos das plataformas eletrónicas (em termos económicos dir-se-á que os fornecedores das ditas constituirão um mercado assimétrico e portanto com preços elevados) e na responsabilização pela deteção de erros e omissões.
Aqui, nos erros e omissões, discordo por estar do outro lado, de quem lança concursos.
Quem os lança não tem que fazer um projeto de execução exaustivo (não apenas de construção civil mas envolvendo as especialidades necessárias), nem tem de ser enganado por um empreiteiro que diz que pode fazer um trabalho por um preço demasiado baixo.
É na experiencia e no conhecimento do meio, ainda antes do projeto de execução elaborado, quando a proposta tem de ser feita, que está a garantia de que posteriormente não haverá adicionais excessivos.
E isso, tal como a honestidade, não pode ser alvo de legislação pretensiosa.
Por outras palavras, a corrupção combate-se mal com leis.
Combate-se melhor com a eficiência escolar (embora só 20 anos depois se notem os efeitos), com o trabalho público  desenvolvido por equipas de controle mútuo e aberto à participação de técnicos do exterior, e com circulação de informação livre sem limitações de sigilos corporativos do tipo bancário ou do tipo segredo de justiça.

Do ponto de vista de quem lança concursos,  conforme já tenho referido, há a assinalar o grave prejuízo para o cumprimento dos objetivos sociais das empresas que têm constituido as exigencias do CCP, nomeadamente em termos de implicações em cadeia.
Dou como exemplo o cumprimento da lei na adaptação das estações do Metropolitano às pessoas com mobilidade reduzida, prejudicado no tempo porque a preparaçãodos concursos exige muitos cuidados e os meios humanos a isso dedicados estão assoberbados com outras tarefas.

Da análise do histórico nestes dois anos do CCP se conclui que ele foi muito útil na contenção das despesas públicas em termos de investimento.
Terá sido, mas há a assinalar que as suas exigências paralisantes vão mais ao encontro da dificuldade portuguesa da organização planeada do trabalho em equipa, porque existem fundos do QREN que podiam ser aproveitados, por exemplo na reabilitação urbana e na rede de esgotos do país (30% da população nacional sem tratamento de esgotos, 60%  do território da margem sul do Tejo por cobrir com redes de tratamento de esgotos- nada mau como indicadores terceiro-mundistas).

Donde, se do lado dos executantes e do lado dos clientes há correções a fazer, no sentido da flexibilização e operacionalidade, e se apesar da crise, existem fundos para financiar as obras públicas, não será altura de se corrigir a lei?
A menos, evidentemente, que os gabinetes de advogados responsáveis pelo CCP, e que não desceram ao nível dos míseros técnicos que lançam concursos para discutirem com eles os pormenores (na realidade desceram, mas com o facto consumado, para lhes comunicarem a revelação de que eram detentores) entendam que deva ser a realidade a adaptar-se aos seus conceitos, e não os seus conceitos a adaptar-se à realidade.

Mas no marasmo da apagada e vil tristeza não estou seguro de que os dias de trabalho passem de modo que ao fim de um dia a situação esteja mais avançada no sentido da solução do que ao fim do dia anterior. E como diz a lei do método indutivo, n dias depois a situação manter-se-á.


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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Educação XVII - Federico Garcia Lorca

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Por um acaso, ouço na Antena 2 algumas das canções espanholas antigas de Federico Garcia Lorca (experimentem ver no youtube, por exemplo em:
      http://il.youtube.com/user/Kirsche01 ).

Vejo ainda no DN a notícia da recente morte, aos 101 anos, da caseira da vivenda de férias da família, Maria Mata, amiga do poeta, e cujo pai também foi fuzilado por franquistas.
Lorca não era apenas poeta. Era músico de formação clássica. Tocava e compunha. Como recordava Maria Mata, «Parece que lo estoy viendo tocar, porque le salía la música del alma».
No caso das canções antigas, ele próprio as recolheu entre o povo. Para algumas reescreveu o texto, para outras conservou o original.

Cito o caso para fazer uma reflexão à moda dos idosos.

Que a espécie humana é capaz do melhor e do pior.
Capaz de viver a música e de fuzilar.
Capaz de tratar bem um doente no hospital e de disparar sobre ele uma caçadeira num assalto (escrevo assim porque um bando armado anda de noite a matar e roubar gado na península de Setúbal e dispara sobre quem aparece).
Capaz de invocar o alto prestígio de economista, pelo menos no nosso meio em Portugal, em discurso na TV arrasador do pobre povo que é sempre o responsável pelo estado miserável das finanças por querer  viver melhor, nunca os decisores ou o governo porque o trigo cresceria para baixo se não fosse o ministro da agricultura, como dizia Brecht, mas capaz de, sendo também economista de prestígio, escrever livros em que a solidariedade também entra na equação (Joseph Stiglitz) ou reconhecer, como Partha Dasgupta (Economics a very short introduction, ed Oxford University Press), que, apesar de toda a ciência económica, os fracassos da humanidade acontecem porque as pessoas ainda têm muito a aprender sobre como viver uns com os outros. Dito de outra forma, a prioridade deveria ser o cumprimento da Declaração Universal dos Direitos do Homem.

E por associação de ideias, por ter escrito "as pessoas têm muito a aprender...", cito agora, com a devida vénia ao DN, a evolução da criminalidade violenta registada de 1998 a 2009.

 Existirá uma correlação entre esta curva e a curva da ineficiência das políticas dos ministérios da Educação 20, 15, 10 anos antes? É que na base do nosso descontentamento e dos nossos fracassos (nossos e dos outros, claro) está a questão de Partha Dasgupta: as pessoas têm muito a aprender; não aprenderam quando andaram na escola, cresceram elas e cresce o indicador crime. Existirá essa correlação? Seria um exercício interessante, para um grupo de sociólogos investigar os dados, começando por comparar a evolução das curvas, da criminalidade e do insucesso escolar, separadas pela constante de tempo C necessária para a entrada no mundo do crime. Será que em 2007 - C  houve melhorias transitórias nas escolas ou será um simples sobressalto de registos? Será que há uma correlação entre o grau de iliteracia e a curva da criminalidade? Se há, a situação só poderá corrigir-se C anos depois de começar a tomar as medidas corretivas para diminuir o insucesso escolar... Qual será o valor de C?




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sábado, 28 de agosto de 2010

Economicómio LVII - O metro do Mondego

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A reconstrução da linha de caminho de ferro de Coimbra para a Lousã (chamaram-lhe metro, metro do Mondego; mas é como Shakespeare dizia sobre a rosa, podia ter outro nome) esteve inscrita no orçamento.
Fecharam por isso o troço que ainda funcionava e começaram algumas obras.
Vieram os cortes e cortaram mesmo.
A construção está suspensa.
Vai continuar o desperdício no transporte rodoviário.
Poupem-me a fazer as contas do dito desperdício.
Só os ricos podem poupar.
O que me faz lembrar a declaração de Joseph Stiglitz (prémio Nobel da Economia, ex-vice-presidente do Banco Mundial, autor de A desiusão da Globalização), que  "os governos europeus que cortam na despesa pública de investimentos reprodutivos, só para compor os números do defice, estão a fazer um disparate".
Era o que eu pensava, mas eu não sou economista.
O que não me impede de tentar compreender o que outro economista (Partha Dasgupta, professor na universidade de Oxford, autor de Economics a very short introduction ed.Oxfrd Press) escreveu sobre a monitorização do PIB e do defice público, que são indicadores a considerar. Mas havendo tantas variáveis no jogo, deve dar-se mais atenção à base produtiva do país. E quer-me parecer que era mesmo isso que mais interessava.
Como já dizia o meu professor de economia no IST: se não conseguirmos escoar a produção porque o preço não compensa (por exemplo, porque a Jerónimo Martins compra fruta em Espanha mais barata do que a produzida cá) então temos de fazer como os condensadores nos circuitos elétricos; criamos a junta nacional das frutas, com armazens frigorificos, e armazenamos a dita, à espera que o preço da fruta espanhola suba, e quando subir, zás.
Acham que estou a brincar? Já não se recordam dos preços dos petroleiros sul-coreanos, antes e depois do fecho da Lisnave e dos estaleiros espanhois e ingleses?
Porque, explicava o professor Daniel Barbosa, é inutil tabelar preços. O que há a fazer é utilizar a lei da oferta e procura, e colocar no mercado a quantidade de produto correspondente ao preço que se deseja.
Terá o professor Daniel Barbosa ensinado aos seus alunos alguma coisa que os economistas não tenham aprendido?

Pobre metro do Mondego. Ou melhor, dos que beneficiariam dele.


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Metro Sul do Tejo - terceiro atropelamento mortal (Agosto de 2010)

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O esquema acima é um dos possíveis para descrever o terceiro atropelamento mortal no MST, no espaço de 13 meses, em 26 de Agosto de 2010.
O atropelado tinha 75 anos, provavelmente não conhecia a zona, ou teria deficiencias auditivas ou visuais. Nestas condições, admito que uma pessoa assim se distraia, ou erre na coordenação dos  movimentos, e leve 5 segundos para atravessar a zona em que existe risco de atropelamento. Um comboio que se aproxime a 60 km/h e se encontre a 35 metros da travessia da zona de risco quando a pessoa a iniciou, atinge essa pessoa em 5 segundos.
Isto é, é impossível a uma pessoa nestas condições evitar o atropelamento se calculou mal a distancia limite dos 35 metros.

É um caso semelhante, para níveis diferentes de velocidade, aos atropelamentos de Riachos e de Casteldefels.
Não é possível atravessar em segurança vias férreas em que podem aparecer comboios a mais de 100 km/ (28 m/s). No caso de Riachos dada a baixa velocidade de deslocação das pessoas de idade. No caso de Casteldefels porque um grupo numeroso impede que os elementos de trás avancem depressa.
A vítima mortal de Janeiro de 2010 tinha 84 anos e a de Julho de 2009 73 anos.
Estamos portanto perante um caso de discriminação de pessoas por idade (não falem por favor em dar formação às pessoas  para atravessarem com segurança e considerem que os cartazes que colocaram nos locais mais frequentados, alertando para que a prioridade é dos comboios, é verdade, mas por prepotência e sem fundamento legal). 

É muito penoso para mim escrever sobre este assunto, porque tenho amigos no projeto e na gestão do MST, no IMTT, no GISAF e na Câmara de Almada.

Mas não posso calar a indignação.

Os que me conhecem sabem que desde o projeto me opus à circulação dos comboios a 60 km/h sem vedação do espaço que lhes devia ser próprio e inacessível aos outros modos de transporte e aos peões (o exemplo do metro do Porto não é comparável porque nas zonas de conflito com os outros modos de transporte ou peões a velocidade dos comboios é inferior à praticada em Almada eno ramo comum, em que a velocidade é superior, as vias estão devidamente segregadas).

Depois do acidente de Janeiro deste ano propus a tomada de medidas imediatas para reduzir o risco de atropelamento (ver   http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/01/rodoviarium-xii-o-metro-sul-do-tejo.html ).

As burocracias deste país, o superior entendimento dos decisores, o jogo mútuo do empurra e da excusa dos intervenientes, de uns para os outros, desde a fuga da seguradora ao pagamento dos tratamentos da senhora que sobreviveu ao atropelamento de Julho de 2009 em que morreu o marido (se entretanto a seguradora o fez, limite-se a queixa ao atraso com que o fez), até à desculpa do MST em ter de cumprir um valor elevado de velocidade comercial (24 km/h - que o é, de facto, para um transporte de superfície; para respeitar a verdade, melhor se dirá que é impossível de cumprir respeitando os princípios de segurança), têm impedido a tomada de medidas, apesar da existencia de um grupo de trabalho.

Vou-me repetir:

Conforme a utilização que os operadores de transportes fazem da norma EN NP 50126, um sistema com uma frequencia de mais de uma morte por ano é, dada a gravidade dos acidentes, "intolerável" e impõe medidas imediatas. Acresce que em 2009 houve mais 13 atropelamentos, de que resultaram 4 feridos graves, o que confirma a classificação do risco como intolerável.

No caso do MST, pelo menos, as medidas prioritárias seriam o isolamento das vias dos comboios e a sua travessia por passadeiras para peões com prioridade para estes.

Evidentemente que isso implica a criação de zonas de limitação de velocidade dos comboios à sua aproximação (é o que vem no Código da Estrada - destaco que não existem passadeiras para peões devidaemnte pintadas no pavimento a toda a largura da travessia, o que gera mais situações de risco quando elas, as passadeiras, existem na rodovia e depois interrompem-se na ferrovia) e a impossibilidade de cumprir os 24 km/h de velocidade comercial.

Mas a alternativa é o fecho puro e simples, enquanto não se estudam e constroem as soluções (vedação em sítio próprio, passagens desniveladas, semáforos para as travessias, travessias com cancelas de subir e descer, ATP - controle automático da velocidade dos comboios).

Vamos continuar a aguardar as medidas.


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