segunda-feira, 10 de junho de 2013

Como uma flor de plástico na montra de um talho

"Como uma flor de plástico na montra de um talho", poesia de Golgona Anghel, ed. Assírio e Alvim.



A autora é professora de literatura portuguesa contemporanea, romena de nascimento*.
É sempre bom renovarmo-nos com quem vem de fora.
Vê coisas que nós não viamos, dá uma nova força à resistencia contra a inépcia tornada insanidade crónica dos bonzos nacionais (os bonzos chineses que me perdoem) , contra as ideias feitas e a polarização em torno do pensamento único e restritivo do mesquinho meio dos dirigentes, contra o desprezo de quem pensa diferente, por mais cálculos demonstrativos ou resultados experimentais que apresente.
Talvez ajude a melhorar, o trabalho de quem vem de fora.
E quanto a mim, salvo melhor interpretação, quase toda a poesia de Golgona Anghel é de protesto.
Sem precisar de demonstrar com cálculos como as coisas deviam antes ser, que isso compete aos leitores.
Se os leitores, salvo melhor opinião, a lerem bem.

"Vocês podem até não concordar com tudo isto...sentem-se talvez ofendidos...agora, um facto é certo, queimámos quiçá a carne...mas correu muito bem...agora não se iludem, guardem os passarinhos para um churrasco gourmet. Este caminho não leva a lado nenhum.... deixem-nos ao menos vender-vos uma boa história".

Não é uma maravilha de descrição exata do que se está a passar nas mãos dos senhores governantes? Talvez o senhor  ministro das finanças, que gosta tanto de citar autores (e meteorologistas), venha a citar Golgona Anghel.

E os eleitores islandeses terem dado a maioria ao partido que os conduziu à falencia em 2008, não será o poema "no domingo passado, estando eu feita num fanico, resolvi passar em casa da Gabi"?  a Gabi estendeu a roupa, foi comprar pão, ouviu as queixas até que disse que já a tinha avisado, e que agora tinha um cliente novo e à pergunta de quem era respondeu que era um pugilista, e que "a musa precisa de alguma porrada".

Deuses, deuses, e se a democracia precisa mesmo?
Que dúvida atroz, e que perigo nas mãos do pensador de Massamá.

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* «Vim porque me falaram de apanhar / cerejas / ou de armas de destruição em massa. / Mas só encontrei cucos e mexericos de / feira, / metralhadoras de plástico, coelhinhos de / Páscoa e pulseiras / de lata.» 
- Porque é que se dá ao trabalho de viver no Portugal de 2011?

- Os verdadeiros encontros são sempre fatais.

(entrevista a Golgona Anghel, em


Corrupção

Honra a Paulo Morais, que publicou o seu livro sobre a corrupção em Portugal ("Da corrupção à crise", ed. gradiva) e organizou a reunião da Transparencia internacional a decorrer em Lisboa.
Segundo as suas contas, a contribuição das despesas dos particulares para o endividamento externo, isto é, o "viver acima das possibilidades", foi apenas de 15%. À corrupção terá cabido uma fatia de 70% (por exemplo inflacionando o valor dos terrenos agrícolas que uma câmara de repente classifica como passível de  construção e que se desvaloriza depois do empréstimo concedido). Sobrarão 15% da responsabilidade da crise externa. Conviria divulgar bem isto, agora que os senhores governantes só falam da dívida pública (interna e externa).
Como Paulo Morais diz, a acusação de que os particulares, comuns dos mortais, viveram acima das possibilidades comprando casas, carros e telemóveis, é um embuste porque não é a componente principal do endividamento.
No nosso caso, terá sido principalmente o grande volume de especulação imobiliária (valorização artificial de terrenos que fatalmente foram depois desvalorizados).
E realmente, bate certo com a experiencia de cada um, por exemplo, aquele terreno no Algarve, entre Altura e a Praia Verde, que um holandês (ou sueco) acabou por vender barato porque a câmara não lhe autorizava a construção de um aldeamento. Quem comprou, por acaso ligado à construção civil e ao futebol, em 6 meses obteve da câmara a autorização. Mas veio a crise e o projeto encontra-se à espera de melhores dias.
Se corrupção para isto é uma palavra muito feia, embora seja exatamente o que o latim queria significar, degradação, deterioração, enfraquecimento, aviltamento, prejuizo para o bem comum, podemos usar o eufemismo dos economistas, informação e poder de iniciativa assimétricos.
Que é um dos critérios de que o mercado está a funcionar deficientemente, não gerando portanto a prosperidade desejada.
Compreende-se assim a conclusão de Paulo Morais, de que a corrupção é o principal responsável pela crise.
E continuará, enquanto os gabinetes de advogados dominarem o grupo de deputados do Parlamento e os grupos financeiros e bancos continuarem a absorver os dinheiros das parcerias (únicas no mundo em termos de prejudicar o Estado e o bem comum) e ex-ministros como Ferreira do Amaral, Valente de Oliveira, Jorge Coelho e Pina Moura encontrem abrigo em grandes construtoras ou grandes empresas como a Mota-Engil, a Lusoponte ou a Iberdrola. Pois se até o "défice tarifário" da eletricidade já foi titularizado (isto é, já há bancos à espera de cobrar).
E que são os pobres "swaps" CDS que o metropolitano de Lisboa irrefletidamente contratou comparados com isto? (por exemplo, a ponte Vasco  da Gama custou cerca de 900 milhões de euros, podia ter ficado por  metade, teve uma comparticipação privada de 200 milhões e os privados já receberam 900 milhões).
Infelizmente a corrupção só se combate eficazmente na escola com uma mudança de mentalidade em relação a ela, com condenação publica mas aceitação da necessidade de divulgação e informação da gestão da coisa pública. E a escola não o tem feito (não por deficiência interna, mas porque o insucesso escolar depende principalmente da falta de capacidade educacional e financeira das famílias), apesar da interessante iniciativa que levou uma das crianças a escrever: "a corrupção é como o açúcar: sabe bem mas faz mal".
Portanto vamos continuar assim.
Recordando alguns casos, mais ou menos pitorescos, como o do colega encarregado da venda dos andares excedentários, quando o metropolitano concentrou serviços. O agente imobiliário que tratou da venda, ao fechar o negócio deu-lhe uma valente palmada nas costas e disse-lhe: "e para o senhor engenheiro, os habituais 3%"  (claro que não houve nenhuns habituais 3%).
Ou o jovem técnico que, aflito, perguntou ao pai o que fazer com um envelope que o empreiteiro lhe deixou fechado em cima da mesa de café e que continha 200 contos (foi pedido ao empreiteiro que passasse pelo gabinete para lhe entregar uma coisa de que se tinha esquecido).
Ou o administrador, zeloso militante do partido, que pedia aos empreiteiros que ganhavam concursos, depois de ter anulado os anteriores que eles não tinham ganho, uma pequena contribuição para o partido.
Essas coisas aconteciam por vezes numa fase de contencioso com o empreiteiro por dúvidas de trabalhos a mais e omissões e, de repente, chegava-se a acordo.
Eu costumava dizer que deviamos desconfiar dos empreiteiros que, naquele período de dúvidas no fim das empreitadas, se os trabalhos estão ou não completos, se tudo funciona bem e se se pode dar o contrato por terminado por estarem cumpridas as obrigações do empreiteiro, exigiam a rápida libertação da garantia bancária (uma verba de 5% que o banco cativava ao empreiteiro até o metropolitano lhe dizer que estava em bom fim, o contrato). É que a pressa podia ser consequencia do empreiteiro ter utilizado para ganhar o concurso aquela margem de luvas que se prevê, mas que pode não ser utilizada. E a verdade é que muitas vezes o empreiteiro preferia não receber os 5% a gastar dinheiro a completar e corrigir o fornecimento final. O que me deixava desconfiado de que não tinha pago luvas, apenas desconfiado, porque nada podia provar. Este tema é muito interessante, especialmente quando muitas empresas privadas fazem o papel de vítimas de atrasos do pagamento pelo Estado ou empresas públicas (o que na verdade ocorre  mais do que o conveniente), quando nalguns casos se recusam a completar ou corrigir os fornecimentos
Felizmente que  pessoalmente não tive tentações de suborno. O mais próximo que tive foi uma frase sibilina do administrador de uma multinacional, num concurso de 5 milhões de euros : "Lembre-se de nós, senhor engenheiro, que nós nos lembraremos de si depois".  Mas perdeu o concurso, o senhor, e por pouco, que o concorrente tinha apresentado melhor proposta. Um senhor administrador ainda ralhou comigo, explicando-me que a proposta preterida tinha uns equipamentos inovadores que funcionavam com maior rendimento. Era verdade, mas exigiam mais manutenção; o melhor rendimento era apenas funcional, não económico. Falo nisto apenas para ilustrar o perigo de decisões de gestores em questões técnicas, como vi acontecer com a anulação de um concurso porque o senhor administrador queria adjudicar os equipamentos a outra  empresa. E curiosamente, a lei da contratação pública, elaborada por um escritório de advogados que ganha dinheiro a explicá-la às entidades públicas que contratam,como denuncia Paulo Morais e eu testemunhei, permite fazer um ajuste direto (à empresa que se deseja) depois de anular um concurso (ganho pela empresa que apresentou a melhor proposta técnico-económica).
O livro de Paulo Morais pode ser considerado uma novela de terror pela sordidez das histórias de suborno, clientelismo e promiscuidade entre politicos, financeiros, advogados e empresários, e pela impossibilidade física do país recuperar sem combater a corrupção. Propõe soluções, como a renegociação (honrada, como diz Miguel Cadilhe) dos juros dos empréstimos (nenhum país consegue diminuir a dívida se a taxa de crescimento for inferior à taxa de juro) e como a declaração de dívida ilegítima de parte substancial das rendas dos contratos das PPP. Reduzindo a rentabilidade de 14% para 7%, seguindo o raciocínio de que o custo da obra poderia ter ficado por metade do custo que figura nos contratos.

Dificil, muito dificil combater a corrupção em Portugal. Por isso achei interessantissima a referencia no livro já citado de Tim Harford, "Adapte-se", ed. Presença, ao artigo de Benjamin Olken sobre a corrupção na construção de estradas na Indonésia, medida experimentalmente - ver
http://www.povertyactionlab.org/publication/monitoring-corruption-evidence-field-experiment-indonesia.

A conclusão, ancorada no conhecimento de consultores de engenharia dos custos de construção (exatamente o mesmo princípio seguido por Pompeu Santos ao calcular que a ponte Vasco da Gama poderia ter custado metade) foi a de que em 600 estradas, entre subornos, expropriações por preços empolados (um dos cancros a que se recorre muitas vezes em Portugal, atrasando e encarecendo as obras públicas) ou desvios de quantidades de material e de mão de obra, mais de um quarto do custo das estradas foi desviado.

Enfim, pode parecer aos senhores governantes e aos politicos de maior destaque que este é um assunto exagerado por uma pequena parte da opinião pública, uma espécie de teoria da conspiração.

Infelizmente parece que não, que não é exagerado.

PS em 15 de junho de 2013 - Utilizemos uma imagem literária: sente-se um frio agressivo quando se vê um risco de corrupção (recorda-se que corrupção significa enfraquecimento, deterioração, degradação; só por sentido figurativo ela significa suborno, dado que uma instituição enfraquecida tem um risco maior de ser subornada), como por exemplo a perseguição doentia e precipitada (porque ignorando que os próprios bancos propuseram ao atual governo, há dois anos, a prevenção dos riscos dos contratos swap) decorrente duma análise sob a supervisão de um membro do atual governo que participou em contratos desse tip; ou o ajuste direto à JPMorgan da assessoria financeira da privatização dos CTT , depois da ameaça de a processar, e sabendo-se que o diretor do crédito público já foi seu funcionário; ou que outro membro do governo desempenhou anteriormente as suas funções noutra financeira que tambem vai participar na privatização dos CTT e que desempenhou um papel central nas negociações originais de muitas das nocivas PPP (agra sob sua supervisão indireta) . Tudo isto faz frio, porque sente-se a fraqueza das instituições perante o assalto da alcateia financeira, de um grupo forte e restrito; de um lado a fraqueza do Estado perante os fortes, e do outro a força do Estado perante os fracos.
Mas sente-se uma corrente de ar quente e agradável quando se vê o diretor da agencia de apoio à exportação recusar por conflito de interesses a nomeação para um cargo de administrador da CGD. Até porque revela mais uma incapacidade do atual ministério das finanças em compreender uma natureza das coisas diferente do lucro como essencia dos grupos.





domingo, 9 de junho de 2013

Fragata de Alcochete


do livro "Caderno de todos os barcos do Tejo", aguarelas de Vasco d'Orey Bobone, ed..ACD Editores


Fragata de Alcochete, aguarela de Vasco d'Orey Bobone, sobre gravura de João de Souza do século XVIII.
A fragata destinava-se ao transporte de lenha de Alcochete para Lisboa.
Era então uma solução para um problema de energia e de transporte.
O abastecimento de biomassa para as necessidades energéticas de Lisboa.
Pode talvez comentar-se que o Tejo servia então como suporte de atividades económicas relativamente mais importantes do que na atualidade.
Não terá havido um esforço de adaptação, e o aproveitamento portuário estará abaixo das potencialidades (esta mani de se dizer que vivemos abaixo das possibilidades...).

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Jardim da Ameixoeira

Que bonito que está o jardim.
Ainda não se pode frequentar porque está em acabamentos, mas já se vê como está bonito.
Não contribuirá tanto para o PIB como uma produção de bens transacionáveis ou vendáveis, mas faz bem a senhora câmara em gastar dinheiro com estas coisas. Os pobres reformados agradecem, e as senhoras praticantes de jogging também.

já temos uma promessa de quiosque
 Dois pequenos exemplos de que ainda há quem pense bem nos pormenores para fazer bem
os pontos de fixação são 4, distribuindo o esforço

as setas são um elemento tradicional mas perigoso; parece boa a solução encontrada

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Capacete, por favor

Não passam muitos automóveis nas ruas do bairro.
Mas também por isso mesmo, há que tomar  medidas de segurança.
Porém, ao fim do dia, vejo um pai e duas crianças, em passeio de bicicleta, em sentido contrário ao sentido único da rua.
Nenhum usa capacete de proteção.
Por Cristovão, o transportador, não, não, assim não.
Ao menos os capacetes.
Que maneira temos nós, portugueses de fazer as coisas.

Multiplicadores

Nunca devemos desistir de aprender.
Nunca devemos desistir de ensinar.
Por exemplo, multiplicadores, os dos efeitos de uma ação.
Como explicou Christine Lagarde, por cada euro que se cortava nos rendimentos dos cidadãos e cidadãs, o PIB baixava entre 1,6 e 2,1. Imaginem, se cortarem muitos euros aos salários e pensões.
Ou como explicou Rui Rio, por cada euro que a sociedade de reabilitação investiu, vieram os investidores privados e investiram 10 euros.
Ou como explicou Elvira Fortunato, do laboratório de nanotecnologia, eletrónica transparente e transistores de papel, por cada euro investido no laboratório aparecem 5 euros de fundos estrangeiros ou de retorno (a senhora até explicou que o decreto do senhor ministro Vitor Gaspar congelando as despesas enquanto não vinha a autorização ministerial, à boa maneira justicialista, foi responsável pela paragem do laboratório durante uma semana por falta de azoto; quando o dinheiro disponível nem era dinheiro do Estado, tinha sido ganho pelo laboratório).
É verdade que quem não quer aprender com facilidade fecha os olhos ou olha para outro lado, ou diz que vai pensar nisso ou está a trabalhar no problema (como vai a taxa sobre as transações financeiras? e sobre os movimentos do multibanco sem reflexo nos clientes dos bancos? e os certificados de aforro, quando absorvem uma fatia grossa da dívida externa, para "os mercados" não terem tanta procura e com isso baixarem a suas taxas de juro a níveis razoáveis que não os atuais?), ou cria dispersão ou diversão como os "swaps" para esconder a inação no que realmente interessava.
Mas como se disse, deve insistir-se em explicar o que são multiplicadores.
Podem não apreender logo, mas fica no subconsciente, a macerar.
Não desistamos, um euro investido pode ter retorno (será por isso que até já se fala em reativar a obra do tunel do Marão? alguem no excelso ministério percebeu que o mutiplicador tambem funciona na serra do Marão?).

terça-feira, 4 de junho de 2013

Fábula dos pirilampos

As alterações climatéricas vinham afetando o comportamento dos bichos insetos da floresta.
A sucessão de noites enevoadas limitava dramaticamente a capacidade de orientação dos insetos noturnos, incapazes de visualizar a lua e com ela traçarem as suas rotas de voo.
Queixavam-se igualmente os insetos predadores dos insetos mais pequenos, que os não encontravam nos locais habituais e assim não conseguiam manter o equilíbrio ecológico.
Queixavam-se os mosquitos que não conseguiam encontrar quem picar e assim os ovos não germinavam.
De modo que os bichos insetos convocaram uma assembleia para análise das questões e proposta de soluções.
A assembleia foi um desastre, não só porque a escuridão continuava na noite enevoada, mas principalmente porque os representantes de cada grupo de bichos não conseguiam entender-se uns com os outros, apesar de falarem a mesma linguagem de bichos.
Os delegados observadores convidados dos bichos não insetos, predadores sediados em locais distantes mais a norte da floresta sorriam satisfeitos com o andamento ou falta de andamento dos trabalhos.
A desorientação entre os insetos era uma mais valia para eles e uma garantia de que os insetos, os mais pequenos e os seus predadores, continuariam a ser presas fáceis do nível intermédio de predação, das aves, dos batráquios, dos repteis e dos pequenos mamíferos, e estes por sua vez poderiam continuar a ser presas fáceis dos grandes predadores sediados em locais distantes.
Foi então que o representante do grupo dos pirilampos, revelando que tinha debatido a questão com os seus representados e estudado bem as propostas de saída da crise, pediu a palavra e falou à assembleia.
Que o grupo dos pirilampos estava disposto a trabalhar em conjunto, formando pontos de difusão de luz espalhados por locais estratégicos da floresta.
Assim se constituiria uma rede de orientação geral para todos os bichos que substituiria as funções orientativas da lua e das estrelas.
As abelhas aplaudiram entusiasmadas, fazendo contas mentalmente aos ganhos de produtividade e de competitividade na produção de mel que daí adviria.
As traças rejubilavam, pensando no crescimento da sua taxa de natalidade e na ampliação da extensão geográfica dos seus voos.
Os vespões e os louva a deus sentiam as suas secreções digestivas a escorrer das mandíbulas pensando no crescimento da população  a explorar.
Mas os pirilampos punham uma condição, que era a de que os outros insetos, incluindo os seus predadores, se absteriam de perseguir os pirilampos, deixado-os em paz na sua função geradora de luz, nem que para isso tivessem de conter a sua taxa de natalidade, e que em vez de os perseguir os defendessem mediante uma eficaz rede de aviso de aproximação dos predadores do tipo aves, batráquios, répteis e pequenos  mamíferos.
A assembleia dividiu-se, gritando uns que isso era uma utopia, uma sociedade sem classes, que, por definição, não podia realizar-se; que assim o papel da lua e das estrelas era dispensável, mesmo que as nuvens se dissipassem, e que o melhor era não fazer nada.
Outros gritavam que era uma boa ideia que era preciso experimentar, inclusivé estudar formas de aumentar o rendimento de produção de luz e de sublimar o instinto da predação reduzindo as margens de lucro.

Eu penso que os bichos insetos ainda lá estão a discutir o assunto, e não faço ideia a que conclusão é que terão chegado, se é que chegarão a alguma conclusão.
Acho que estão a ficar cada vez mais parecidos com os humanos.

Turquia, Turquia

Imagine-se o parque Eduardo VII alvo de uma urbanização que lhe ocupasse a periferia com habitações de luxo, servidas por uma catedral.
Não seria nada bonito (e contudo, chegou a estar projetada uma catedral para onde se encontra hoje o jardim Amália Rodrigues).
Parece ter sido este o motivo próximo para o desencadear dos protestos em Istambul (contra a urbanização do parque).
Extrapolando os protestos para coisas como a proibição de manifestações carinhosas em público ou a imposição do véu.
Na verdade, o imperador Constantino, que deu à cidade o nome que tinha anteriormente a Istambul, serviu-se da crença religiosa para consolidar o seu poder.
Existem partidos democrata-cristãos que têm feito uma coisa parecida.
O partido no poder na Turquia é um partido democrata-islâmico.
Confesso que, se 75% de eleitores expressassem de forma clara que queriam viver num regime assim, teria de aceitar.
Mas não parece que seja assim.
Mesmo que as raparigas que desfilaram nas manifestações na Turquia de cabelos soltos sejam uma minoria, penso que as pessoas que pensam como elas quanto ao andar de cabelo ao ar são mais do que 25%.
Logo, seria bom que não pensassem em imposições religiosas, até porque contraria os principios da adesão à União Europeia. Melhor manter a laicização de Kemal Ataturk, que não tinha nada de perigoso esquerdista, mas tinha compreendido os valores da democracia.
Apesar de que na UE ainda se mantêm resquícios medievais, como a transmissão hereditária da chefia do Estado em alguns países, contrariando o princípio da igualdade de direitos, e designação hereditária de membros nobres (lords) para uma câmara de parlamento (curiosa a notícia recente de que alguns lords ingleses foram acusados de aceitar subornos para exercerem influencia de lobis - coisa também violadora dos princípios de isenção e igualdade de direitos na UE).
Este blogue apoia decididamente a adesão da Turquia à UE, mas rejeita Estados com leis dependentes de crenças religiosas (precisamente para, entre outras coisas,  não limitar o direito à prática religiosa).

O Edelman Trust Barometer (barómetro da confiança)

Desconfiado como este blogue é, poderia pensar que a GCI, filiada portuguesa da Edelman Trust, seria mais um consultor a viver à custa das empresas.
Mas confessa este blogue que ficou surpreendido com os resultados do inquérito feito internacionalmente e em Portugal, e com a introdução pelo seu diretor principal, citando o Financial Times ("os bancos devem competir não apenas  com o preço e qualidade dos seus serviços, mas também com a sua reputação") e o CEO da Ford ("todos aprendemos com todos"), e propondo o modelo da piramide invertida (participação transversal e horizontal dos técnicos e trabalhadores em detrimento da estrutura hierárquica rigida e vertical).
Além de que há uma estranha coincidencia entre o que este blogue costuma dizer e os resultados do inquérito:  a confiança das pessoas está a diminuir relativamente às instituições governamentais, aos bancos e às entidades financeiras, mostrando o reconhecimento geral da responsabilidade destas entidades na crise global e nacional.  Igualmente a confiança está a diminuir relativamente aos grandes diretores das empresas e a subir relativamente aos seus técnicos.
Mais informação em:
http://www.edelman.com/insights/intellectual-property/trust-2013/
e
http://www.gci.pt/2013/the-trust-summit/

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Continuação em maio-junho de 2013 da novela com o senhor secretário de Estado dos transportes

Confessa este blogue que, de um ponto de vista de análise gestionária, sente que o atual governo tem um problema com vários dos seus secretários de Estado.
A sua função é muito difícil, de articulação entre os decisores das estratégias e as entidades do mundo real, num contexto de desmantelamento e desarticulação como o que se vive.
Quando o contexto deveria ser o de investimento com retorno.
No caso dos transportes, essa dificuldade é agravada com a complexidade dos sistemas de tranportes em si, que requerem múltiplas disciplinas de uma forma transversal, e com a condição básica de que o objetivo não é obter lucro, mas utilidade social (e económica, como facilitador da presença de mão de obra no local de trabaho e como eficiencia na utilização da energia primária).
Dado que ninguém pode ser especialista de tudo, é natural que a ignorancia dos decisores se destaque, assim como a ignorancia dos críticos tambem possa manifestar-se.
O senhor secretário de Estado dos transportes começou por destacar-se por ter estado do outro lado da barricada, negociando contratos de parceria publico-privada para, por exemplo, o TGV Caia-Poceirão (BI -banco de investimento da CGD). Tambem esteve ligado, depois de 2008 e respetivas dificuldades dos bancos, à negociação das concessões rodoviárias das autoestradas do Douro Litoral, do Marão, do Baixo Tejo, do Baixo Alentejo, do Algarve Litoral, do Douro Interior e do Litoral Oeste.
Ficou registada a sua afirmação em 2010 (o atual governo tomou posse em junho de 2011) que o chumbo do Tribunal de Contas aos contratos com as concessionárias era uma "nuvem que tinha de desaparecer para o sol voltar").
Evidentemente que numa economia pequena como a nossa os decisores que se destacam e que são chamados para funções governativas dificilmente poderão evitar conflitos de interesses numa definição restritiva de conflito de interesses.
E assim chegamos a uma situação em que assuntos de elevada componente técnica, dum ponto de vista de engenharia, são resolvidos (?) por economistas de acordo com os seus modelos abstratos de simulação de uma realidade da qual se afastam por evidente desconhecimento das questões técnicas, de um ponto de vista de engenharia.
Verifica-se assim uma analogia, guardadas as devidas distancias porque uma metáfora não é uma simulação rigorosa ou sequer aproximada da realidade, com as metáforas de que o melhor guardador do ouro será o ladrão, porque conhece os métodos de obtenção expedita de ouro, ou de que o bairro mais seguro será o da rua vermelha de Amsterdão, porque os empreendedores de lenocínio não quererão afastar os clientes e fonte de receitas, com conflitos com a polícia.
E provavelmente porque o senhor conhece bem o negócio tem apresentado resultados na negociação com as concessionárias, as quais terão reduzido as taxas de rentabilidade de 14%  para 8% (este humilde blogue, baseado no cálculo grosseiro do engenheiro Pompeu dos Santos de que a ponte Vasco da Gama, por comparação com a ponte do Carregado, poderia ter ficado por metade do preço de custo se administrado por concurso público normal, diria que a taxa de rentabilidade deveria ser reduzida para 7%).
No entanto, aos exitos do senhor secretário de Estado contrapõe ele próprio os zigzags e inseguranças da sua política de privatizações (embora estivessem previstas no malfadado memorando com a troika, razões técnicas do ponto de vista de engenharia e o principio constitucional de que assuntos deste calibre são para obterem a aprovação prévia explícita, e não escondida em eleições legislativas, de 75% de votos expressos de eleitores, aconselham que não se façam, pelo menos como o atual governo pretende, embora confessadamente ele ainda não saiba como o quer fazer).
Segundo entrevista de 3 de maio de 2013, os contratos "swap" vieram atrasar o processo de concessão a privados.
Parecerá a este blogue que é uma desculpa simplesmente de mau pagador, continuando a utilizar metáforas não no sentido literal de caloteiro, mas de falta de capacidade técnica para cumprir calendários.
Sobre este assunto das concessões continua este blogue a achar que a decisão de concessionar só deveria ser tomada depois de verificados os cálculos e as respetivas conclusões já apresentadas neste blogue
(http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2013/05/privatizar-ou-nao-privatizar-novela-em.html  ).
Mas como é evidente, vozes de burro não chegam ao céu e o interesse dos grupos privados nas concessões e nas subsequentes indemnizações compensatórias para prestar o serviço público (deuses, se é para pagar indemnizações compensatórias e não receber renda, mais vale não mexer; veja-se a sobranceria da empresa de camionagem que deixou de aceitar o passe social por não concordar com a repartição de receitas) é de facto muito forte.
E porque a força do memorando prevalece, o senhor secretário de Estado diz com um sorriso ao dinheiro vivo (DN/31 de maio de 2013) que desde janeiro de 2011 já saíram das empresas públicas de transportes urbanos de Lisboa e Porto 2600 trabalhadores (59 milhões de euros de indemnizações) , e que está previsto sairem mais 600.
Isto numa altura em que é necessário transferir passageiros.km do transporte individual para o transporte ferroviário se se quiser reduzir a balança de pagamentos de combustíveis fósseis (que imagens aflorarão aos cérebros dos senhores economistas, que cortam quadros de pessoal, quando se utiliza este argumento da fisica? acharão que os 2600 trabalhadores afastados não seriam capazes de gerar mais valias superiores aos seus vencimentos menos 59 milhões de euros? terá o senhor secretário de Estado informações concretas da parte dos técnicos "no terreno", como se costuma dizer, se essa inequação é possível ou não?).
E porque têm de sair 3200 trabalhadores? Porque sim, porque dá 20% de redução e 20% fica bem nos powerpoints?
Enfim, no primeiro trimestre de 2013 as receitas dos transpores urbanos de Lisboa e Porto baixaram 4 milhões de euros para 143 milhões de euros e o EBITDA está em 3,5 milhões de euros negativos (lá se foi a manutenção da promessa precipitada feita no princípio de 2012 de que o EBITDA seria nulo).
Lembraram-se então que uma boa justificação seria o aumento das fraudes. Que são 15% (na verdade, conviria aferir a fórmula de cálculo dessa taxa, que é estimada em 25% na Carris e em 12% no metro) e compará-la com a fraude nos anos anteriores. Também seria interessante tentar a curva de correlação entre o nivel das tarifas e a taxa de fraudes, e entre a taxa de desemprego e a taxa de fraudes. Talvez se pudesse então afirmar com mais propriedade onde está a origem da quebra de receitas.
Fundamentalmente, acha este blogue, no arrefecimento da economia , no desemprego e na redução da oferta e da procura - um sistema como o metro, se é relegado para baixos niveis de oferta como atuamente não  pode retirar da exploração todo o seu potencial de rentabilidade; acresce que para reduzir a fraude é sempre necessário aumentar os custos de vigilancia, fiscalização e repressão; cortes neste meios conduzem à diminuição da atratabilidade do transporte coletivo e à natural diminuição da procura, e das receitas.
Entretanto, surgem noticias verdadeiramente alarmantes de que na linha do Sado grupos de jovens que não querem pagar título de transporte atacam maquinista, revisor e passageiros. A lógica diria que o Estado, por incapacidade de garantir a segurança das populações, deveria indemnizar as empresas de transportes com a perda de receitas e os custos de material de vigilancia e de brigadas de segurança e de fiscalização.
Mas o senhor secretário de Estado contenta-se com a fraude como justificação.
O que me sugere o comentário que "assim não".
De registar ainda a ação de protesto que impediu a conferencia do senhor secretário de Estado no seminário organizado pela Autoridade Metropolitana de Transportes "A região metropolitana, a mobilidade e a logística" com palavras de ordem como "Queremos o nosso dinheiro, este Governo para a rua" e "swaps? Basta de alimentar especuladores com o roubo dos nossos salários".
Deixa este blogue registado que  a expressão de opiniões por mais de um minuto (metade do tempo de espera na hora de ponta do metro antes da crise) de uma forma que impeça a realização de uma ação pública prevista como uma conferência, não tem o  seu acordo, ou não acreditasse em Voltaire. 
O direito à expressão prevalece. 
Por isso mesmo, este blogue considera que o atual governo, contrariamente ao que afirma, não procura o debate alargado e portanto não é adepto da livre expressão de opiniões contrárias (não basta estar à espera de pedidos de entrevistas) das questões de transportes e não tem com os técnicos do setor uma relação saudável (exemplos: a forma secretista como se está a desenvolver o terminal da Trafaria sem o fecho da Golada; a recusa de divulgação do relatório final do acidente de fevereiro em Alfarelos;  a incapacidade de ampliar a participação de técnicos portugueses na elaboração dos projetos dos metros de Argel e de S.Paulo ).

Lamenta este blogue, portanto, que a ação de protesto se tenha prolongado para além do desejável ou tolerável, sem prejuízo de manifestar o seu acordo com as palavras de ordem, e que o senhor secretário de Estado não queira aceitar que deve mudar de política e de relacionamento com os agentes do setor, radicalmente.






domingo, 2 de junho de 2013

em fins de maio de 2013 em Portugal

Com uma clareza nortenha, a frase de Rui Rio explica muito: "É confrangedora a incapacidade do governo em compreender que o investimento de 5,5 milhões de euros da sociedade de reabilitação urbana do Porto iria gerar dez vezes mais de investimentos privados no quarteirão das Cardosas".
A argumentação baseia-se na experiencia  anterior.
A postura do governo baseia-se na sua ideologia imobilista. Possivelmente compreenderão, mas darão prioridade à perceção que têm da realidade, em detrimento da realidade.
Vê-se pela  maneira como falam: "o governo analisou a evolução da taxa de desemprego e não há nenhuma novidade, não pôde fazer um estimativa otimista" (como se a taxa de desemprego fosse uma coisa decidida em reunião de ministros); "a oposição expressa-se de forma doentia e patológica" (e contudo, a análise freudiana dirá que existe insegurança nessa acusação).
Entretanto, João Lourenço, do Teatro Aberto, faz o diagnóstico: o governo quer-se livrar de todos os agentes artísticos. É a ideologia dos governantes, deixar tudo para a iniciativa privada. Faz então o governo concursos de modo a afastar companhias de teatro como o Teatro Aberto. Curiosamente, João Lourenço recorda que na avaliação das Fundações, a Fundação Gulbenkian tambem ficou mal colocada, ela que parece meio ministério da cultura. E que lhe faz lembrar o governo de Vichy, com uma politica colaboracionista com a anti-cultura, com a agravante deste governo ter sido eleito.
O que faz pensar e recear que este governo possa vir a  ser validado por 45% dos eleitores, que tenham conseguido manter os seus rendimentos, limitando a sua solidariedade, com os 20% de pobres e os 20% que viram os seus rendimentos diminuidos perigosamente, à entrega de sacos de plástico com produtos para o banco alimentar.
Salvo melhor opinião, o caminho não será o confronto mais ou menos violento.
De acordo com os princípios da não violencia, o caminho será a argumentação e o debate fundamentado em dados e factos. Existem regras bem definidas para esses debates. Existem regras bem definidas para a organização do trabalho nas empresas (as quais, no caso das empresas públicas, excluem a nomeação dos seus dirigentes nos moldes atuais).
Donde ser muito importante que os técnicos deste país expressem os seus pareceres, especialmente quando deles resultar a inépcia dos senhores governantes, quer se trate da incapacidade de desbloqueio do tunel do Marão (será que os senhores governantes optaram mesmo pela solução de administração pela entidade pública?) ou dos Estaleiros de Viana (será que afinal já chegou a chapa para os asfalteiros venezuelanos? e o contrato com o certificador reanimou-se?) , quer se trate da incapacidade de compreender a necessidade de instalação de centrais solares de sais fundidos e ou da promoção de veículos rodoviários elétricos e da transferencia de passageiros.km do transporte individual para o transporte ferroviário (isto é, numa altura em que se discute tanto a utilização dos fundos europeus para infraestruturas, como podem os senhores governantes resolver o problema se não entendem os dados e  o enunciado do problema ou, pior ainda, se não querem prejudicar as empresas de importação de combustíveis fósseis?).
Não há excesso de debate na praça pública, há falta de debate, mas assente em dados concretos e em cálculos. E há um "encosto" típico de quem tem aversão ao debate aberto, como é o caso do projeto do terminal de contentores da Trafaria. Como se trata de um projeto para servir uma empresa de transportes de contentores, o projeto do porto fica-se pelas necessidades da empresa que ganhar a concessão, sem que se resolva o problema do fecho da Golada (impede a perda de areias na Caparica, reduz o risco de maremoto intrusivo no Tejo); por outro lado, permitiu-se à REFER retomar o seu conceito de desenvolver os novos traçados (neste caso a ligação ferroviária a Poceirão) em secretismo e apresentar os resultados como factos consumados (recordo as decisões sobre a TTT Beato-Barreiro em detrimento da solução Beato-Montijo, e a imposição da estação central do TGV na gare do Oriente, em colisão com a estação de metro existente).



sexta-feira, 31 de maio de 2013

O sucesso e o erro

O sucesso do livro de Tim Harford "Adapte-se", em que defende que o sucesso começa sempre pelo fracasso, fez-me lembrar o meu post de dezembro de 2010:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2010/12/o-sucesso-e-o-erro.html

Talvez o erro de que falou Caio Salúcio quando escreveu que "o sucesso tem uma estranha capacidade de esconder o erro" não seja o fracasso de Tim Harford, provavelmente mais perto da experiencia que antecede uma saída correta e adaptativa para um falhanço.

A tentativa, segundo Tim Harford, deve seguir as regras de Palchinsky. A principal diz que qualquer empreendimento deve prever a possibilidade de ser um erro e deve prever a saída de segurança ou recuo.
Infelizmente o atual governo acha que não comete erros.
Não tem planos B e não admite um recuo que possa salvar as suas iniciativas.
Pena encaminhar a privatização dos CTT para uma perda para os cidadãos e cidadãs. Nem sequer tem a desculpa de que é uma empresa pública deficitária. Não é. E o problema principal é que não vai prever no processo a possibilidade de recuperar o controle da empresa quando ficar evidente que a privatização teve o grave inconveniente de perder dividendos e de deslaçar a coesão entre os cidadãos  e cidadãs (até os USA sabem que não se mexe no carater público dos correios, porque unem  população dispersa). Entretanto, posicionam-se os interessados, com especial apetite pelo banco postal.
È a prosmicuidade mais evidente entre poder politico e poder económico, mas escondida, como o erro escondido pela força de quem teve sucesso, pelo formalismo democrático (e contudo, a tecnica de sondagens de opinião permitiria ao atual governo saber o seu graus de suporte pelos cidadãos e cidadãs).



Uma prova de que os CTT são uma empresa inovadora:

PS em 3 de junho de 2013 - Segundo o DN, os CTT já encerraram 66 balcões. Alguns deles foram substituidos por comerciantes locais. Analogamente ao que diz o anuncio, podem fazê-lo, mas não é a mesma coisa. É clara a intenção de preparar a empresa para  a privatização, com "oferta" da licença de banco postal. Salvo melhor opinião, embora esta intenção estivesse no programa eleitoral do governo atual, dada a importancia social do assunto (forma de coesão populacional), deveria a privatização ser submetida à confirmação explicita de 75% do voto expresso dos eleitores. Infelizmente, a desculpa do costume (imposição do memorando) continua a ser-nos imposta, sem que os decisores queiram debater o assunto.


o museu do brinquedo de Sintra

É verdade que cultura é quando os humanos se conseguem libertar das tarefas da subsistencia para criar uma dependencia de um nível mais elaborado.
Mas pode sobreviver-se com algumas limitações económicas continuando a praticar cultura.
Não é o entendimento do atual governo, embora pareça, pelo exemplo do museu do brinquedo, estar-se perante um simples caso de ignorancia das realidades por quem fez a lei das fundações.
Ou de como é perigoso pôr a circular na internet comentários furiosos contra os gastos das fundações.
Já tinhamos o exemplo da casa de Paula Rego em Cascais. Uma desajeitada intervenção estatal.
Temos agora o exemplo do museu de Sintra, ameaçado de fecho porque a câmara de Sintra não pode continuar a pagar-lhe 5 mil euros por mês, o que implicaria, de acordo com a lei das fundações, perder verbas.
Logo, a redação da lei foi feita segundo critérios primários, do estilo "o que era bom era cortar nas fundações".
Os senhores governantes  têm com evidencia um défice cultural muito grande, e uma grande dificuldade em justificar as suas medidas, porque num país em que o ministro das finanças anda de BMW série 7 pago pelos contribuintes (e pelos credores)  a desculpa de não haver dinheiro é curta.
Citando a diretora do museu, Ana Arbués Moreira: "Cinco mil euros por mês é pouco, mas era muito importante para nós. Era tudo oque tínhamos... a cultura deste país não interessa, é como se fosse um luxo".

A cultura não é um luxo, é uma necessidade de uma sociedade, acima de raciocínios primários de cortes cegos.

O banco e a sapataria

Há uns meses, houve uma discussão pouco edificante entre o senhor governador do Banco de Portugal e o deputado João Galamba, em torno do conceito de "crowding out", ou eventual incompatibilidade entre investimento privado e público.
Não teria o senhor deputado toda a razão nessa altura.
Mas fica a curiosidade sobre que discussão entre os dois poderia ter surgido depois da afirmação recente do senhor goernador, que o banco não empresta a todos os que precisam, assim como a sapataria da rua Augusta não calça todas as pessoas descalças que lhe passam à frente.
Ou de como o assunto poderia integrar aquele programa, julgo que da Euronews, "no comments", sem prejuízo de parecer que em Portugal quem gere as instituições públicas partilha religiosamente os princípios da gestão privada, salvo  melhor opinião.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Análise lógica das ações do Tribunal Constitucional



Pode não ser um ponto de vista muito apreciado, mas a existência de um Tribunal Constitucional satisfaz um dos requisitos usados na gestão da qualidade de um qualquer sistema organizacional – que deve haver uma entidade independente da comissão executiva da entidade económica que explicite as discordâncias relativamente às estratégias e as táticas da comissão executiva (sem prejuízo de registar as concordancias, quando as houver, obviamente) .

A razão deste requisito é simples: evitar a polarização em torno de uma versão oficial da comissão executiva suscetivel de gerar uma virtualidade sem fundamento na realidade. Verifica-se assim que mais vale um oponente, mesmo equivocado, apresentar a sua versão errada, porque obriga a fundamentar melhor a versão oficial, do que não haver oposição (esta é uma conquista da ciência da gestão e da psicologia social relativamente recente,  que justificará os desvios do pensamento político no século XX, perseguindo os ideais da verdade única,  mesmo que científica, quando um dos pilares do método científico é não haver muitas certezas).

Sendo assim, se o Tribunal Constitucional tem razão e estão todos ou quase todos de acordo que isso é bom para o bem estar de todos, ótimo.
Se o que o Tribunal diz não merece o acordo de alguns e prejudica o bem estar de muitos, há que propor ao poder legislativo a alteração das leis que prejudicam o bem estar, o que implicará, nos termos constitucionais, uma maioria de 2/3.
Se não, como já disse Fernão Lopes, não.

É assim tão difícil de aceitar, esta lógica?
É  mais fácil chamar nomes aos senhores magistrados?
Até Roosevelt aceitou a decisão do tribunal constitucional americano que conservadoramente  lhe chumbou medidas para o “welfare state”.

Mas seria bom, de facto, que no currículo escolar dos senhores magistrados se desse mais força à matemática (para, por exemplo, entender bem o fundamento do sistema proporcional de Hondt, o valor referendário das sondagens com margem de erro inferior  a 5% , o sistema eleitoral com lista preferencial e a regra da impossibilidade de Kenneth Arrow).


                              (No dia em que foi dada a notícia do chumbo das entidades intermunicipais de direção não eleita diretamente pelos cidadãos e cidadãs, conforme proposta de lei do pobre Relvas. Sobre os mecanismos de polarização de opiniões em grupos decisórios, ver “a Sabedoria das Multidões” de James Surowiecki, ed Lua de Papel; sobre os sistemas e regras eleitorais incluindo a impossibilidade de satisfação de todos os eleitores de Kenneth Arrow, ver “Economics, a very short introduction, de Partha Dasgupta, ed. Oxford University Press )

Um pouco de teoria da Segurança Social

Um pouco de teoria da Segurança Social

Métodos principais de financiamento:

1 – capitalização virtual – o dinheiro para as reformas e para a cobertura dos riscos sociais é obtido a partir de fundos de pensões e da capitalização de contribuições individuais (o que um reformado recebe deriva dos juros das suas contribuições)
2 – repartição ou “pay as you go” –  as reformas e a cobertura dos riscos são pagas com o dinheiro das contribuições das empresas e dos trabalhadores ativos (o que um reformado recebe deriva das contribuições das empresas e dos trabalhadores que estão no ativo durante o seu período de sobrevivência).

Ditas as coisas assim, parecerá que um sistema de financiamento não deverá ser nem um ou outro isoladamente, mas antes uma fusão dos dois.
Porém, a teoria oficial diz que o sistema atual é apenas “pay as you go”, o que estimula a reação primária dum conflito geracional (serem os jovens trabalhadores, vitimas do desemprego que fixa os salários em baixo, que são cada vez menos devido à baixa da natalidade, a sustentar cada vez mais velhos reformados que nunca mais  morrem porque a medicina preventiva progrediu).

Admitindo que o sistema é exclusivamente “pay as you go”, fica a dúvida, tendo o sistema de segurança social sido superavitário até aos anos da crise internacional de 2008 (coincidência que faz desconfiar das manipulações internacionais das taxas de juro e das criações virtuais dos tóxicos financeiros), para onde terão ido os juros desses rendimentos obtidos com as contribuições dos reformados de agora, uma vez que as reformas dos reformados de então eram pagas com as contribuições dos ativos que estão agora reformados (e cujas contribuições eram mais do que as reformas pagas aos reformados de então). Da dúvida nasce a hipótese, e a hipótese é a de serem as pensões que estão a pagar a recuperação financeira de modo a que tudo volte ao mesmo, isto é, “business as usual”.
Também nasce uma interrogação perante esta dependência exclusiva do  “pay as you go”. É que se é assim, porque estão os atuais governantes tão contentes com a exportação de mão de obra qualificada? É que deixam de contribuir para a Segurança Social portuguesa e vão pagar as reformas dos estrangeiros idosos (valha a verdade que poderemos recuperar alguma coisa se os convencermos a virem passar o inverno ao Algarve, perdendo novamente dinheiro porque eles vão consumir produtos agrícolas importados da América do Sul e peixe do Vietnam).

Mas dando de barato aos senhores governantes da atualidade que acham que o sistema de segurança social não tem nada de capitalização e que a única fonte é a atual TSU, analisemos o que se pode fazer para aumentar as receitas do sitema “pay as you go”, ou  melhor, para diminuir a despesa pública com as pensões e prestações sociais:

1 – aumentar o PIB e diminuir o consumo total da população (ou a taxa de crescimento do PIB deve ser superior à taxa de crescimento do consumo da população);
2 – aumentar o total da  população (natalidade e imigração) e diminuir o número de pensionistas (ou a taxa de crescimento da população deve ser superior à taxa de crescimento dos pensionistas);
3 – diminuir o nível de vida relativo dos pensionistas (ou a taxa de variação do consumo total da população por habitante deverá ser maior do que a taxa de variação do consumo dos pensionistas por pensionista), definido como a relação entre o consumo médio dos pensionistas pelo consumo médio da população total

Como se sabe, os atuais governantes só aplicam as medidas restritivas, como seja reduzir os encargos com pensionistas e prestações sociais, tendo nota negativa (que diabo, a nota é mesmo negativa, já estão no governo há dois longos anos) porque as taxas crescem em sentido desfavorável nas alíneas 1 e 2 e a diminuição do nível de vida da alínea 3 tem sido brutal.
Isto é, não só são parciais na escolha das medidas a aplicar para reduzir as despesas públicas (analogamente ao que se passa com os impostos: “em Portugal os ricos não pagam impostos - João César das Neves, em  “As 10 questões da crise”, ed.D.Quixote), como também não conseguem controlar a evolução das variáveis desfavoráveis.
Ignoram os senhores governantes deliberadamente, e muitos comentadores da praça pública, possivelmente por deformação ideológica, as outras medidas, aumento da natalidade, da imigração (alínea 2) e do PIB (alínea 1).
Compreende-se, porque aumentar a natalidade e a imigração requer medidas contra o desemprego, e isso os atuais governantes só dizem que vão fazer, mas não fazem porque um dos objetivos da política europeia é conter a inflação a todo o custo, e isso faz-se com desemprego.
Quanto ao aumento do PIB, é fatal, é a única solução para o caso atual, sendo que isso significa investimento, privado ou público, como quiserem, mas investimento (a obrigatoriedade de fatura e sua fiscalização contribui para isso através do alargamento da base tributária, mas deconfio que a ideia do governo é mais aumentar a receita fiscal do que aumentar o PIB, que era o essencial).

É uma pena estas coisas não serem analisadas com lógica matemática, em frente da fórmula que traduz os fenómenos, e  com monitorização da evolução de todos os fatores, especialmente das taxas que, sendo quocientes, são conceitos de mais difícel apreensão, em valor absoluto e em valor relativo. Mas nós, portugueses, com a rejeição conhecida à matemática, preferimos a discussão emotiva e infundamentada.

A fórmula que refiro pode ser estudada no livrinho da Fundação Francisco Manuel dos Santos, “Segurança Social, o futuro hipotecado”, de Fernando Ribeiro Mendes:

   despesa pública com a
      segurança social = (consumo da população/PIB) x
                                     (nºde pensionistas/população) x
                                     ((consumo dos pensionistas/nºde pensionistas)/(consumo  
                                                                                          da população/população))

PS em 19 de junho de 2013 - Graças aos emails que os amigos enviam, posso corrigir uma afirmação supra. A Segurança Social portuguesa tem efetivamente uma componente de capitalização, que é o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social, gerido pelo Instituto de Gestão dos Fundos de Capitalização da Segurança Social. Em fins de 2011 (já com o atual governo em funções) o seu montante era de 8.872 milhões de euros.
Neste momento, o atual governo prepara-se para vender títulos de dívida estrangeiros deste fundo e trocá-los por certificados de aforro. Trata-se de mais uma medida que el coloquial se pode classificar como de "chico-esperto", sem consultar quem descontou ao longo da sua carreira contributiva para esse fundo.
Também contra a ideia do conflito intergeracional ou entre reformados do público e do privado, convirá sublinhar que a Segurança Social paga tambem as reformas por invalidez (não contributivas) devida a acidente quer o trabalhador seja do setor público quer seja do setor privado.
Mas enfim, está a população submetida à propaganda desinformativa intensa do governo




domingo, 26 de maio de 2013

Acordo ortográfico, os VOP

Notícias do Acordo Ortográfico: segundo Muller Oliveira, diretor do IILP, Instituto Internacional de Lingua Portuguesa, na sua próxima reunião em Lisboa em 29 e 30 de outubro de 2013, será apresentado o VOP, Vocabulário ortográfico do Português, de Moçambique, atualmente em fase de filtragem de vocábulos, juntando-se ao português e ao brasileiro. Na reunião de 2014 em Dili, espera-se que seja também apresentado o de Cabo Verde, atualmente em fase final de recolha de vocábulos.
E assim, contra os ventos dos bem pensantes e elegantes sabedores que por decisão pessoal (longe de mim querer limitar a liberdade de tomar decisões pessoais) escrevem de acordo com a norma anterior a 1990, e contra aquela maneira tão portuguesa de deixar cair as coisas e não cumprir cronogramas (horror ao planeamento, que nós portugueses somos os semideuses da improvisação e da decisão imediata, sem necessitar de analisar os fundamentos matemáticos e físicos de uma questão,  da contemplação da beleza que sai da nossa criatividade, e do desmerecer do trabalho dos outros), lá vai o novo acordo seguindo o seu caminho e lá vão aparecendo os VOP de cada país.
Não levem a mal a sugestão, mas a reunião de outubro de 2013 devia ser no CCB.

Mortes de pescadores

Por mais que se cumpram as normas de segurança, ainda assim podem ocorrer acidente fatais.
No entanto, o número de mortes de pescadores que se verifica em Portugal indicia uma cultura que deve mudar e a necessidade de aplicação de medidas firmes.
A cultura é a da negligencia dos fatores de risco e do desprezo pelas regras de segurança.
As medidas que devem ser tomadas a nivel oficial são  a generalização do uso de equipamentos de segurança e a formação em segurança.
Colete de segurança - As recentes mortes de dois pescadores de xávega no Furadouro (terá falhado o motor e o barco atravessou-se nas ondas da rebentação e afundou-se) e de um pescador na ria de Aveiro (a bateira ter-se-á virado numa manobra de fixação de uma vara no fundo) deveriam obrigar as instancias oficiais a impor a obrigatoriedade do uso do colete de segurança. é verdade que dificulta o trabalho, mas com a prática essa dificuldade diminui, além de que há modelos aprovados de utilização cómoda. Existem ainda fatos flutuadores. O seu preço pode constituir outra dificuldade, mas existem já  programas de apoio à sua aquisição (ver a ação da associação pró-maior segurança dos homens do mar).
Formação - Quem quer que ande no mar é obrigado a ter carta de marinheiro. Do respetivo curso fazem parte as normas de segurança. No entanto, duvido da eficácia dos cursos. É essa cultura que deve mudar, que é importante ultrapassar o raciocínio primário e de recusa de análise de implicações do comportamento perante os riscos, e aceitar a prioridade da segurança. Deveriam portanto as instancias oficiais melhorar a fiscalização do uso dos equipamentos de segurança e da formação recebida. No caso do pescador afogado na ria são de assinalar duas condições que qualquer curso de formação deveria esclarecer: uma, que o uso de botas-calças ou de botas altas é extremamente perigoso porque em caso de queda à água acumulam água que diminui a flutuabilidade; outra, que, mesmo que haja pé, as correntes de vazante ou de enchente nos períodos de marés vivas de solstício ou equinócio coincidentes por fases de lua cheia ou lua nova, são extremamente perigosas (foi o caso na ria de Aveiro), impondo o uso de colete de segurança e vestuário solto. A formação deverá também incidir no uso de equipamento rádio (os telemóveis não são equipamento de segurança, embora sejam muito úteis) e das balizas de emergencia (mais uma vez a requerer planos de apoio à aquisição).

Finalmente, é altamente criticável a ação do atual governo e dos governos anteriores pela falta de compreensão dos riscos e das medidas que os atenuariam, e a questão não é apenas de falta de disponibilidade financeira, é principalmente uma questão de cultura, de mentalidade, que se deve mudar.
A agravar o problema, está a bizantina questão do atual ministério da defesa que discute a natureza do papel da Marinha, proibindo-a de intervir na sociedade civil fora do estado de emergencia ou de sítio de que fala uma cláusula da Constituição da Republica.
É uma falácia porque os riscos do mar são tão elevados que só a Marinha tem condições para lhes responder 24 em 24 horas.
É uma falácia porque o art.275º, nº6, diz que as Forças Armadas podem ser incumbidas de colaborar em missões de proteção civil, e o nº7 diz  que as leis que regulam o estado de sítio e o estado de emergencia tambem regulam o emprego das Forças Armadas quando se verifiquem essas condições.
Isto é, o nº6 refere-se a uma coisa (missões de proteção civil) e o nº7 a outra (condições do emprego das Forças Armadas em situações de estado de sítio e de emergencia), mas os gabinetes de advogados que tanto têm prejudicado a compreensão da realidade por impreparação nas disciplinas de matemática e física, têm-se também encarregado de manter viva esta discussão bizantina. Assim dificultam ações atenuadoras dos riscos como a fiscalização pela Marinha do cumprimento das normas de segurança ou dos cursos de formação e, especialmente, dificultando a aplicação de estratégias pela Marinha de prevenção. É inconcebível, por exemplo, que a Marinha não possa acionar autonomamente (sem ter de perder tempo em pedidos a autoridades, comissões de proteção civil ou minstérios) a reação a uma ameaça de maremoto com origem na comunicação pelos serviços meteorológicos de um abalo sísmico de grau superior a 7,5) . Como triste e desalentadamente comentou o capitão do porto de Aveiro perante as mortes dos pescadores, "a segurança é uma guerra que temos de ganhar".
Mas com este governo (na linha dos anteriores) é muito dificil, muito dificil, porque a Marinha não tem autonomia para desenvolver as suas estratégias e assim os pescadores continuarão a morrer.
E a razão dessa correlação, entre a incompreensão do governo e a morte de cidadãos, é indecente.


sábado, 25 de maio de 2013

O pensamento silencioso da grande diretora

La grande diretrice do grand fond reflechissait en silence:
-"Mais, qu'es ce que? Pense t'ils qu'on est à nouveau à la Revolution Française?
De m'accuser de mal menager les fonds publics... en benefice d'un privé.
S'ils poursuivaient la classe moyenne, a la bonne manière maoïste maintenant installé, mais moi ...
Ignorant, les pauvres, les glorieux enseignements de l'École de Chicago, que l'initiative privée de succès doive être récompensé par de l'argent public, que le transfert vertueux des revenus se fait toujours dans le sens du travail pour le capital, que les banques sont toujours protégés pour les retraites des gens, et que les technologies innovantes permettent aux gens de s'amuser avec l'iPad et les performances de Justin Biber et se nourrir de filets de pangasius bon marché, au lieu de marcher pour faire des révolutions ... mais c'est quoi çá, maintenant?
... Ah, on dirait qu'ils disent quelque chose.
... Ah, enfin ils enlève la charge.
Eh bien, je respire.
Les pauvres, ils sont encore plus cons. "


A grande diretora do grande fundo refletia em silencio:
- "Mas o que é isto? Pensam que estão outra vez na revolução francesa?
Acusarem-me de gerir mal dinheiros públicos... favorecendo entidades privadas.
Ainda se perseguissem a classe média, à boa maneira maoista agora instalada, mas a mim...
Ignoram, os pobres, os ensinamentos da gloriosa escola de Chicago, que a iniciativa privada de sucesso deve ser premiada com os dinheiros públicos, que a transferencia virtuosa dos rendimentos se faz sempre no sentido do trabalho para o capital, que os bancos estão sempre protegidos pelas pensões, e que as tecnologias inovadoras permitem que a população se divirta com os iPads e com os espetáculos do Justin Biber, e se alimente de filetes baratos de Pangasius, em vez de andar a fazer revoluções... mas o que é isto?
... Ah, parece que estão a dizer qualquer coisa.
... Ah, afinal retiram a acusação.
Bem, respiro.
Coitados, são mesmo cons."

sexta-feira, 24 de maio de 2013

As escovas de carvão e o coletor

Pouco tempo antes de 25 de abril de 1974, um colega mais velho do metropolitano ensinou-me que não devemos estar muito seguros de certezas de que as coisas que funcionaram bem noutros países ou contextos  funcionarão bem, de igual modo, connosco.
O exemplo que ele escolheu para me mostrar isto foi o das escovas do coletor dos motores de tração de corrente contínua das antigas automotoras ML-7 (ainda existe uma unidade dupla de tração operacional, que circula em dias festivos).
As automotoras ML-7 eram um projeto ainda anterior à segunda guerra que o grande fabricante alemão forneceu em condições razoáveis ao metro de Lisboa no fim dos anos 50.
Com precisão o fabrico foi executado no calendário contratado até que se chegou à evidencia de que os atrasos na construção civil recomendavam que a entrega das automotoras fosse diferida.
O administrador principal achou que não devia renegociar-se o prazo de entrega e as automotoras estiveram armazenadas alguns meses no porto de desembarque, à espera da conclusão da linha.
Ainda hoje não se sabe se os custos de armazenamento foram maiores ou menores do que seriam os custos da renegociação, mas há quem pense que sim, que a renegociação teria permitido economizar alguma coisa, não fora a teimosia do decisor.
(Contava-se que a teimosia do decisor não se manifestava apenas na recusa de renegociações, mas também numa obsessiva preocupação com corte de despesas, no controle do papel higiénico, das esferográficas).
Naqueles tempos, a tecnologia da eletrónica de potencia do estado sólido não tinha ainda sido dominada.
Os motores de tração eram de corrente contínua, controlados por reóstatos de regulação da excitação.
A tensão contínua disponível no carril de energia era nos motores das automotoras aplicada entre duas escovas de carvão diametralmente opostas, premidas contra as laminas de cobre do coletor.
Cada par de laminas opostas estava ligado ao seu grupo de espiras do rotor que, por força da lei da indução eletromagnética em interação com os polos magnéticos do estator, induziam o movimento rotativo transmitido aos rodados.
E era aqui, no par de escovas, que a singularidade das coisas portuguesas se manifestava em todo o seu esplendor.
Os técnicos alemães verificaram pela experiencia da exploração que necessitavam de substituir as escovas mais frequentemente do que na Alemanha ou em qualquer país em que aquele modelo circulava.
O desgaste das escovas era devido ao fenómeno "flashover", ou salto de faísca ou arco elétrico quando a lâmina de cobre do coletor sai do contacto com a escova. A faísca salta porque a natureza não deixa que uma grandeza se anule instantaneamente, o que , a acontecer, induziria fenómenos a tender para amplitudes infinitas. Isto é, o principio da conservação da energia ensina-nos que nada se perde, tudo se transforma e, neste caso, a faísca, ou arco elétrico, vai mantendo a variação da corrente elétrica sujeita às leis do eletromagnetismo sem que se induzam forças eletromotrizes de grande amplitude. Só que a faísca vai derretendo o cobre da lamina do coletor e desgastando o carvão das escovas, e vai ionizando o ar. E tudo acaba num curto circuito entre laminas e entre escovas que reduz ou anula a força do motor e na necessidade de retificação das laminas do coletor.
(Esta catástrofe anunciada é uma metáfora que devia ser estudada pelos economistas da escola de Chicago, que induzem os jovens e idealistas estudantes a chegar a uma empresa, ou a um governo, e declararem que são todos uns incompetentes e a partir de agora tudo vai mudar de um dia para o outro e vai haver inovação e disciplina austeritária, sem cuidarem que os prejuízos da mudança podem ser superiores ao que se ganha com ela).
Tudo isto é agora evitado com a transformação da tensão continua do carril de energia em tensão trifásica, em pontes de transistores de potencia a bordo da automotora, e utilização de motores assíncronos de rotor em curto circuito, com manutenção mínima (felicidade para os economistas gestores, encantados por poderem reduzir os seus quadros de pessoal de manutenção).
Mas naquele tempo não, os motores de corrente contínua tinham mesmo de ter coletores e escovas.
E as escovas funcionavam bem em todos os países do mundo.
Menos em Lisboa, Portugal.
(Esta é outra metáfora, a de que as receitas que os economistas da escola de Chicago têm por muito eficazes em qualquer país, podem não ser eficazes em Portugal).
Não encontraram os técnicos alemães explicação para o fenómeno.
O meu colega mais velho atribuiu-o à contaminação da superfície das laminas do coletor por partículas devidas à desagregação dos cepos de travagem de encontro às rodas, e ao do desgaste provocado pelo atrito do contacto entre a face interior do carril e o verdugo da roda (saliencia periférica da roda que mantem o comboio carrilado) , e também pela presença de poeiras exteriores infiltradas no túnel.
Nada que não pudesse ocorrer noutros países, mas talvez que conjugadas as variáveis segundo outras composições.
Mais tarde, aprendi também que esta pode ter sido a manifestação de uma variante da lei de Murphy: uma solução que funciona bem num determinado país, pode não funcionar bem em Portugal; e se pode não funcionar, então certamente que não funcionará bem.
Consultados os manuais e experimentadas soluções na fábrica, resolveu-se o problema instalando escovas bi-partidas. A faísca contentava-se em saltar entre as duas metades da escova e poupava as laminas do coletor sem se resolver em curto circuitos entre escovas.
A lição a aprender era que, não havendo garantia de aplicação de uma solução pré fabricada, é necessário aplicar as etapas do método científico, da observação e quantificação dos fenómenos, à colocação de hipóteses,  à experimentação e à aplicação da solução.
Felizmente houve colaboração dos técnicos alemães nestas etapas.

Muito gostaria eu que os economistas alemães ou não alemães  (e portugueses?) que vão tomando decisões (ou não?)  sobre a economia portuguesa ao longo destes anos cinzentos do princípio da segunda década do século XXI considerassem, na sua ignorancia de como as coisas funcionam em Portugal ("como é diferente o amor em Portugal", dizia Julio Dantas, para grande escandalo de Almada Negreiros), que a curva dos rendimentos decrescentes, de que já se falou neste blogue,
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2012/07/falas-de-governantes-o-esquerdismo-de.html

mostra como o aplicar uma medida pode ser eficaz numa zona da curva e ser uma verdadeira armadilha de onde não se escapa noutra zona da curva, normalmente quando a grandeza do PIB é pequena.
Mas como o meu colega mais velho me ensinou, atribuo os efeitos a causas sem ter certezas, só hipóteses.



Tornado de Oklahoma



As mortes, o sofrimento e as perdas devidos ao tornado de Oklahoma leva-nos a todos a exprimir a simpatia pelas vítimas e a certeza de que a sociedade americana reconstruirá a vida da comunidade.
Cito as observações de um técnico americano que, dada a frequencia com que os fenómenos naturais destrutivos estão ocorrendo, deverá merecer atenção.
Tal como no caso do Katrina em New Orleans, o nível elevado da gravidade das consequências deveu-se a deficiencias das infraestruturas (recorda-se que o nível de um risco se estabelece em função da probabilidade de ocorrencia de um acidente e do nivel de gravidade das suas consequencias).
No caso do Katrina, a falta de manutenção dos diques de proteção da cidade (houve um economista que teve o descaramento de comentar que os contribuintes não tinham que pagar despesas públicas de manutenção dos diques para que os habitantes pudessem viver num  local de risco).
No caso de Oklahoma, o referido técnico menciona que a maioria das habitações era construida de madeira, com a agravante de não recorrerem a peças de reforço da ligação das paredes ao telhado (confirmar na foto que alguns telhados permaneceram). E que se deseja durante a reconstrução a aplicação de normas de resistencia aos tornados, desde a exigencia de fundações à utilização de betão armado.
De facto, é de refletir como o país de PIB mais elevado do mundo tem parte significativa da sua população a viver sem condições de segurança.
Penso que, neste caso, interpretarei bem o pensamento de Obama quando diz, a propósito de outras questões,  que o sistema económico dos USA deverá mudar.
Penso que isso só poderá ocorrer se se abandonarem os dogmas sagrados (sacrossantos na expressão dos ministros das finanças da Europa) da escola de Chicago e se centrarem as preocupações na diminuição das desigualdades e do desemprego e na melhoria da repartição dos rendimentos.
Mas se até nos USA a reação dos republicanos dificulta esse abandono, que poderemos nós fazer?





Ary dos Santos na guerra dos cem anos



Transpõem-se as dores do parto
para as vísceras da soma.
2 e 2 quer dizer cobra
4 e 4 faz lagarto
9s. fora o que se coma
tomando por lebre o gato.

Dos abusos da palavra
ficou o tempo cirrose
em que se torce a poesia.
Tem 7 cornos a cabra
que pasta melancolia
e depois rumina a rosa
do poema que alivia.

2 são os olhos do cego
e seta a arma do poeta.
1 é o tiro do mudo
7 o número da cabra
10 a base do sistema
9 setas valem tudo
9s. fora uma açucena.

O poeta ausculta a noite
que responde 33
diz estrela sai aroma
pensa nardo sai francês
e a cabra rumina o cardo
que já foi rosa uma vez.

Nos vales da literatura
cresce uma planta campestre
chamada erva teórica
e a cabra neo-rupestre
vai transformando a verdura
em delicada figura
gravada com mão de mestre
nas paredes da retórica.

Assim se constrói o signo
do corno mas não do toiro
assim se forja o destino
da pata dos ovos de oiro
que há-de parir um vitelo
se não for mãe de um besoiro.
Assim se escreve e se fala
assim se choca a imagem
que a cabra cega chocalha
sem saber que ao ingeri-la,
sendo verdura, é paisagem,
sem saber que ao dejectá-la
sendo poia, já é palha.

Assim se põem os ovos
como quem toca piano
que nisto de ser-se artista
é preciso é ser-se novo
e o mais que vier é ganho
se por sorte não for dano.

Sem se pensar na velhice
gasta-se à larga o talento
deixado por Dom Diniz
assoa-se o sofrimento
como se fosse o nariz
digita-se o pensamento
hesita-se na temática
e nesta táctil tristeza
servem-se em prato magnético
acepipes de gramática
gratinados de beleza
folhados de cibernética
segundo a nova receita
para a geração sujeita
à prostatite da estética.

Há pois que manter cuidado
no coito do estro-musa
traçar a compasso o esquema
da inspiração infusa
nos ovários da ciência
e aguardar o resultado:
se for menino é Poema
se for menina é Experiência
o nome do morto-nado.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O canal Mezzo apresentou, em 4 dias seguidos, o Anel dos Nibelungos de Wagner.
Lutas pelo poder entre os poderosos, de Wotan aos Nibelungos.
Pouca consideração pela espécie humana, pelas pessoas normais, enquanto produtoras e aspirantes a usufrutuárias de felicidade.
Fala de Feika para Wotan, na Valquíria: "Fazes-te de tolo e de surdo"
Fala de Wotan para Siegefried, em Siegrefied: "Vejo que és ignorante".
De nada valeram aos poderosos as suas artimanhas.
O Walhala caiu, e não foi por causa de empréstimos tóxicos, pese embora o simbolismo da mágica do anel do Reno e do elmo dos Nibelungos.
Siegfried é o heroi salvador, mas como qualquer salvador, é manipulado e levado para onde os poderes
mundo querem até à morte.
Fala de Siegried: "Abre os olhos".
Mas custa a abrir os olhos.
E a queda do Walhala não é mau só para os deuses, também afeta os não herois que todos nós somos.
Enfim, drama lírico a prosseguir dia a dia.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Hidrogénio, combustível, novo "post"

Este blogue já se referiu ao hidrogénio combustível para automóveis em
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/search?q=hidrog%C3%A9nio

Com a devida vénia ao DN, reproduzo a fotografia do abastecimento de um veículo automóvel no Hawai, Honolulu, na base aérea de Pearl Harbour.

Ignoro se o veículo é de pilha de combustível e  motor elétrico ou de combustão direta do hidrogénio em motor de explosão.
O que interessa, porém, é que o hidrogénio é obtido, julgo que por eletrólise, a partir de energia eólica no local.
Fica assim demonstrado que é mentira o que alguns técnicos dizem, que há excesso de capacidade  instalada de produção eólica em Portugal.
É verdade que sim, o negócio da produção de energia elétrica a partir de gas natural e de abastecimento de automóveis por gasolina e gasóleo seria prejudicado, e lá se iriam as maravilhosas vantagens da liberalização dos mercados de energia.
Mas basta pensar que cerca de 40% da energia primária é consumida em transportes para se ver que haveria sempre consumidores disponíveis, nem que fosse o transporte ferroviário noturno de mercadorias. E mesmo que não houvesse, a exportação de energia elétrica é outra solução, eventualmente recorrendo a linhas de alta tensão de tensão contínua (terão discutido isto na última cimeira ibérica, ou não farão ideia?). Dificuldade de financiamento? Para que serve o QREN, agora horizonte 2020? Além de que Energia tem sempre retorno para garantir o empréstimo.
Devia haver um juramento para os técnicos de engenharia semelhante ao juramento de Hipócrates: colocar a saúde energética da comunidade acima de tudo.
O posto de abastecimento da fotografia é fornecido pela HydraFLX, de Austin, Texas, fornecedora do Departamento da Defesa (DoD) dos USA:
http://www.hydraflx.com/index.html

Segundo o site da empresa, o hidrogénio é competitivo a partir de 87 dólares/barril de petróleo.
Interessante, se o governo português propusesse uma parceria com o referido DoD, agora que se fala tanto no pós-troika.

PS - Confirmado, os veículos são de pilha de combustível e o hidrogénio é obtido por eletrólise. É uma pena ficarmos para trás, depois do sucesso que foi a experiencia com autocarros elétricos de pilha de combustível no Porto:
http://www.fleetsandfuels.com/fuels/hydrogen/2012/02/gm-fuel-cell-cars-for-the-u-s-military/

sábado, 18 de maio de 2013

17 de maio de 2013 - uma votação na Assembleia da República

Este blogue saúda os 16 deputados do PSD que não votaram como a maioria do seu partido.
Não por a unanimidade ser uma coisa por essencia condenável, ou a dissidencia por essencia virtuosa.
O que se saúda é o pensar pela própria cabeça, mesmo que ninguém possa dizer que detém a suprema verdade.
E que o sentido do voto era no sentido da defesa de direitos de minorias.
Os 16 deputados evitaram assim o grande erro dos decisores: o quererem polarizar em torno de uma opinião, que desejam única, a expressão dos membros do seu grupo.
Pensa este blogue que no PSD existem muitos cidadãos e cidadãs honestos e bem formados tecnicamente que discordam radicalmente das politicas oficiais do seu partido e da coligação e sabem bem que os fundamentos teóricos e práticos das medidas da troika são muito fracos.
Atitudes destas podem ser o início de uma mudança de rumo, independentemente do oportunismo das eleições autárquicas.
O progresso exige diversidade, alguma coisa tenhamos aprendido com as experiencias leninistas e estalinistas, por isso se lamenta a submissão dos deputados do CDS às diretivas morais impostas pela sua religião.
Era importante, numa altura em que a Turquia é candidata à UE, que critérios religiosos não condicionassem o voto de deputados. Era importante. Mas como na UE ainda vigoram os partidos de filiação religiosa e ainda há países em que os cidadãos não são iguais perante a lei no exercício de cargos públicos (regime monárquico e cativação de lugares no Parlamento para a classe nobre), seria bom que os ocidentais não se sentissem tão superiores assim a outros povos.

Um navio na minha rua



Um navio feeder (shipfeeder) ao fundo da minha rua.
Navios feeder são os que transportam contentores de um porto principal, onde os grandes porta contentores os descarregam, para portos mais pequenos na sua área de influencia. Podem atingir 10.000 toneladas.
Este virá de Santa Apolónia e irá para Sines, não sei.
Entretanto, vai interessante a polémica sobre o terminal de contentores proposto para a Trafaria.
Os defensores do não fazer nada clamam que o montante do investimento é incompatível com a situação financeira do país.
Os defensores do crescimento dizem que um porto natural como o de Lisboa está a viver claramente abaixo, muito abaixo das suas potencialidades (note-se que só interessa, dado que a capacidade instalada em Portugal para tráfego nacional é já excedentária, crescer em termos de terminai de transhipment, isto é, transbordo de contentores para os tais feeders).
Parece que um terminal na Trafaria é do interesse de um grande operador (não sendo portanto do interesse de outros operadores, daí , provavelmente, parte da polémica), que até estaria disposto a gastar dinheiro na construção do porto.
Parece que o problema estará nos custos de construção da via férrea de ligação ao Poceirão, na falta da terceira travessia ferroviária do Tejo e no percurso Trafaria-Poceirão-Lisboa norte ser superior aopercurso Setubal-Lisboa norte.
Uma das vantagens do porto na Trafaria seria o fecho da Golada, eliminando as perdas de areia na Caparica e melhorando a defesa do estuário do Tejo contra  maremotos.
Assunto interessante, a seguir.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Ainda o livro de Tim Harford, "Adapte-se"


Embora sem a pretensão do autor, de apresentar soluções para os problemas que nos afligem, nem mostrar de forma enciclopédica os dados que fundamentam essas propostas, faço aqui várias citações do livro, acreditando que possam ajudar a uma atitude que facilite a análise lúcida das questões, e chamando a atenção para os perigos das generalizações precipitadas, especialmente não querer transformar fracassos em exitos, mas sim retirar deles lições.
Página 13 -  de Hayek - "A curiosa tarefa da economia é mostrar aos homens quão puco realmente sabem sobre aquilo que imaginam conceber " - quem diria, o patriarca do neo liberalismo, inspirador de tantas certezas em pobres cabecinhas...
Página 52 - de H.McMaster, comandante americano na guerra do Iraque - "É tão extraordinariamente complexo. Se alguma vez pensarem que têm a solução para isto,estão enganados e são perigosos" - McMaster contribuiu fortemente para a correção da atitude norte americana no Iraque e atenuação da instabilidade
Página 98 - de David Pye - "Nada do que concebemos ou produzimos chega realmente a funcionar...tudo o que concebemos e produzimos é um improviso, um golpe de sorte, qualquer coisa inapta e provisória."
Página 207 - de Keynes - "Envolvemo-nos numa confusão colossal ao termos errado no controle de uma máquina delicada cujo funcionamento não entendemos."
Página 210 - de Charles Perrow, analista de riscos - "A banca ultrapassa em complexidade qualquer central nuclear que eu tenha estudado."
Página 230 , de um anónimo, citado pelos grandes grupos financeiros "Emprestem tanto quanto quiserem a quem quer que quiserem, porque o contribuinte garantir-vos-á sempre, com os seus impostos ou as suas pensões, que serão reembolsados"
Página 239, de um anónimo, funcionário do HBOS, banco hipotecário inglês - "Nunca conseguiremos atingir os nossos objetivos de venda de hipotecas e, simultaneamente, fazê-lo de forma ética".
Página 249 - de Gary Hamel - "Não é preciso ser-se marxista para se ficar impressionado pela escala e pelo sucesso dos esforços do início do século XX para transformar seres humanos com vontade própria em empregados dóceis."
Página 249 - de Aza Raskin, designer na Firefox - "A vossa primeira tentativa vai estar errada. Elaborem um orçamento e um modelo que contem com isso"
Página 277 - de Goro Shimura, falando do matemático Yutaka Taniyama - "Enquanto matemático, não era uma pessoa muito cuidadosa. Cometia muitos erros, mas cometia esses erros na direção certa ... tentei imitá-lo e descobri que é muito dificil cometer bons erros."
Página 277 - de Tristan Tzara, poeta dadaísta romeno-francês  -  "Tentemos, por uma vez, não estar certos".

E pronto, já podemos explicar isto aos decisores, para que não cometam mais erros na direção errada e não venham dizer que estão certos de que estão a salvar a pátria.