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quarta-feira, 7 de maio de 2014

Poema de Vasco Graça Moura, as musas são assim...

expo’98


“- você dá-me um cigarro?”, disse a musa
de repente a meu lado. os cabelos escorriam água.
e a testa e as faces, toda ela. olhei-a interrogativo. “- é.

estou muito ruisselante. desculpe o galicismo”.
e piscou-me o olho enquanto acendia o cigarro
no meu isqueiro lesto, a t-shirt encharcada

demorava-se nos seus contornos íntimos, acerava-lhe
os bicos dos peitos pelos meus olhos dentro.
rosetas de bronze húmido, enfim, suponho, os jeans e os

ténis deviam pesar imenso, tinha as ancas bem desenhadas.
expeliu uma baforada, o umbigo estava à mostra acima
da fivela do cinto, viu que eu olhava ainda, sorriu.

encolheu os ombros, apontou para a azinhaga das águas tumultuantes.
havia lá mais gente a espadanar sem ter tirado a roupa,
os pais, as mães, os querubins do lar.

tinha passado para este lado da imagem, estava ao pé de mim.
“foi ali”, disse, “agora preciso de uma corrente de ar”.
quando olhei, tinha desaparecido, as musas são assim,

lustrais, perladas, elásticas e jovens.
pedem-nos lume, dão-nos fumo e partem logo. ficam as
notas pessoais: expo. sol, água e vento, gazela do deserto.


Vasco Graça Moura, in giraldomachias –
onze poemas de circunstância e um labirinto
sobre imagens de Gérard Castello-Lopes,
Casa Fernando Pessoa/Quetzal editores, 1999)


segunda-feira, 28 de abril de 2014

O DN em 28 de abril de 2014

Comento algumas notícias ou artigos no DN de 28 de abril de 2014:
- João Cesar das Neves escreveu sobre a festa dos atuais dois papas e a canonização de outros dois papas. Cito "Tratou-se de um rito local. No entanto, o seu significado abrangeu todo o mundo. A razão é óbvia: mais ninguem tem uma felicidade assim". As criações humanas são assim. Os grupos que se formam acham que ser os "mais" ou os "melhores" lhes dão força e coesão. Como cristão, João Cesar das Neves acha que os outros não são tão felizes. Como economista, e a economia trata exatamente disso, de como se ser feliz com os meios disponíveis ou suscetíveis de disponibilidade, ou pelo menos devia, acha que o pecado de "viver acima das possibilidades" (ele costuma dizer, "a bebedeira") deve ser punido, e que só a remissão desse pecado pela austeridade e pelas regras do mercado livre (o que me deixa surpreendido porque a doutrina social da igreja opõe-se à lei da selva da livre concorrencia, mas como não sou crente não posso acusá-lo de incoerencia) poderá melhorar os indicadores do PIB e do emprego. Penso que nenhum grupo deveria ter a pretensão de ser mais feliz do que qualquer outro.
- Gala Met - o Metropolitan Museum of Art está a organizar um baile cuja entrada custa 18 mil euros. Parte da receita reverte para associações beneficentes, o que a experiencia tem demonstrado não melhorar o coeficiente de Gini, mas a minha referencia a isto é a intima ligação entre o mundo dos altos negócios, da cultura e da política: o nome do Costume Institute do Metropolitan Museum of Art vai mudar para Anna Wintour Costume Center no dia da inauguração a 5 de maio, com a presença de Michelle Obama, como agradecimento pelo financiamento por Anna Wintour da campanha de Obama. É tudo legal e transparente, mas se Obama na sua campanha disse que não era eleito para fazer o jogo dos financeiros de Wall Street, e que retiraria do Afeganistão, porque não cumpre?
- A Siemens quer comprar a Alstom - interessante ver a luta da GE e da Siemens pela OPA hostil da Alstom. E a reação do ministro francês, que a Alstom vive das encomendas do Estado e que os centros de decisão não devem sair de França. Que pensarão disto os vendedores-privatizadores do governo português?
- A Leica T - a Leica T é uma máquina fotográfica de corpo de aluminio fabricada em Famalicão e exportada a 100% para a Alemanha a um preço de 3000 euros. O projeto do corpo de aluminio foi feito pela Audi Design e executado em Famalicão. São 720 empregos e uma faturação de 40 milhões de euros.
Apesar de tudo é possível produzir em Portugal, embora se tenham de exportar mais valias. É essencial para o saldo orçamental = investimentos menos poupanças, mais exportações menos importações.
- o ministro Moreira da Silva anunciou redução de tarifas de eletricidade e gás a suportar pelos produtores ou distribuidores. Moreira da Silva destoa no governo e está muito acima, pela sua formação técnica, dos seus colegas partidários ou de coligação. A sua participação como coordenador da plataforma para o crescimento honra-o e, numa perspetiva de  envolvimento do maior numero possivel de sensibilidades e competencias da sociedade civil, deverá contar-se com ele. Segundo o DN/Eurosat, o gás está a ser vendido em Portugal aos industriais a preço semelhante ao da Espanha e da média da UE (no gás doméstico estamos 30% acima da UE), 11,46€/GJ o que dá, depois de contas apressadas, cerca de 300 €/1000 m3, menos do que o novo preço da Gazprom à Ucrania (350€/1000m3), e algo mais do que a Gazprom cobra à UE (195€/1000m3).
- Vasco Graça Moura - na morte do Poeta, recordo as referencias admirativas deste blogue, a sua coerencia ao criticar em setembro de 2011 a quebra das promessas eleitorais e as divergencias sobre o novo acordo ortográfico
- A demissão do primeiro-ministro da Coreia do Sul - é uma cultura diferente que leva o primeiro-ministro a
dizer:"peço desculpa por ter sido incapaz de evitar este acidente". Trata-se de uma atitude digna, contrastando com a ira persecutória da presidente, responsabilizando apenas a tripulação, esquecendo as falhas na homologação de um navio inseguro e na coordenação na resposta à emergencia (é essencial que as estruturas da marinha ou guarda costeira estejam sempre preparadas para emergencias; tenho confiança na marinha portuguesa para reagir a uma situação destas, mas receio a discussão bizantina sobre quem detem a autoridade maritima e quem define os procedimentos de emergencia, com ou sem declaração de estado de sítio)
- Insolvencias e recusa por juizes de planos de pagamento aos credores - mais um caso de duvidas fundamentadas de que o sistema judicial português não está integrado na democracia; não são apenas planos de recuperação de empresas aprovados pelos credores que os juizes ou os delegados da autoridade tributária recusam; são tambem casos de particulares. É essencial que os administradores de insolvencias não ganhem "à percentagem". E é tambem essencial que o poder juridico defenda e não levante obstáculos ao exercicio da democracia e das garantias dos cidadãos. Coisa que, estendida ao dever cívico dos bancos financiarem a economia em vez de criarem dificuldades, poderia constar de um programa de redemocratização da Republica.


quarta-feira, 8 de maio de 2013

A tormentosa novela do acordo ortográfico em dia de menor tormenta

Que querem, gosto de ler Vasco Graça Moura.
Especialmente quando a sua prosa não é descortês, como daquela vez em que indiretamente me incluiu no grupo dos pantomineiros a propósito do que cada um pensa sobre o novo (de 1990) acordo ortográfico.
Gosto de analisar os argumentos, mesmo que não concorde com eles (correndo o risco de a discordância apenas reforçar a convicção).
E gosto especialmente de seguir a elegância da escrita.
Até quando Vasco Graça Moura, na sua habitual catilinária contra o acordo no DN, introduz no seu comentário de 8 de maio o coloquial "é assim".
"Ninguém sabe dizer nada", é o tema, sobre o que se faz ou não faz com o acordo.
E contudo, António Vieira já prega segundo ele, acordo, pese a "anestesia paralisante no que toca às decisões urgentes de suspensão e revisão do Acordo" (não precisa o ilustre Poeta - e escrevo assim apesar do acordo me facultar o uso de minúscula - de invocar a necessidade de revisão; por definição o acordo está em permanente revisão, como qualquer normativo- ou cânone, como Vasco Graça Moura gostará de escrever; quanto à suspensão, discordamos, claro).
De lamentação  me parece, o tom do título e de todo o comentário.
Lamentação eu a recupero, oportunistamente, para fazer o paralelo com a "anestesia paralisante" que nos impede de ações concretas em vez do "crédito de confiança contra tudo o que nos está a tornar (a vida) mais complicada".
Para que não se pudesse dizer como é diferente o discurso dos ministros em Portugal (Dantas, Dantas, perdão) quando Poiares Maduro diz que bater o pé aos credores benfeitores só depois de cortar até ao último grama a carne pedida.
Enquanto Rajoy, de braço dado com Letta, entoa em terças perfeitas: " nós fazemos os inevitáveis trabalhos de casa, mas a UE tem de fazer mais" e em quintas harmoniosas: "não podemos perder a oportunidade de, no Conselho Europeu de junho, apresentar propostas contra o desemprego juvenil e em favor da união bancária; adiar decisões para dezembro seria um erro imperdoável".
Escusava de ter ouvido isto, o senhor ministro Poiares Maduro, tão incensado pelo seu alto nível intelectual e conhecimentos das burocacias jurídicas da UE.
Junho é para o mês que vem.
Ah, mas falava do artigo de Vasco Graça Moura sobre o acordo.
Cerca de 800 palavras.
Apenas uma nos divide: "exatamente" (atenção que o novo acordo admite as duas escritas no caso de expectativa e expetativa).
E a elegância do texto permaneceria se o autor a tivesse omitido.
É que ninguém diz exa-c-tamente, pois não? pese embora a pureza da ascendência latina do étimo exactus, aquele que é acabado de forma perfeita.
Enfim, aguardemos os próximos capítulos da tormentosa novela, desta vez em dia de tormenta menor, enquanto se acumulam as ameaças de degradação do ensino (não me refiro à qualidade do ensino, refiro-me à cada vez maior desigualdade entre os poucos bons alunos de uma turma, capazes de compreender o étimo e porque caiu a diacrítica, e os muitos maus alunos, para quem o étimo nem precisa de existir, no processo de insucesso escolar comprovadamente com origem na degradação das condições socio económicas dos respetivos encarregados de educação).





quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A tormentosa novela do Acordo Ortográfico


Toma, que será a forma portuguesa de dizer Tiens, como os franceses.
Logo dois artigos no DN a desancar o pobre acordo ortográfico.
E quem sou eu para contestar tão doutas opiniões, do escritor e poeta, e dos grandes, Vasco Graça Moura e da senhora ex-ministra da Cultura e professora catedrática Isabel Pires de Lima.
Mas a liberdade de expressão tem destas coisas, permite a um ignorante como eu, valendo-se do atrevimento destemido que caracteriza a ignorância, dizer que os ilustres contestatários do acordo talvez não devessem ser tão perentórios nas suas opiniões.
E aqui chegado, verifico que até agora só violei uma vez o sacrossanto, para os contestatários, acordo de 1945, porque o acordo de 1990 só alterou a palavra peremptório para perentório, e isso porque estamos em Portugal; no Brasil manteve-se peremptório porque assim se pronuncia.
Aliás, no artigo de Vasco Graça Moura, com a nota de não escrito segundo o novo acordo, contei 6 palavras, num total de cerca de 600 palavras,  não escritas segundo o novo acordo; mas posso ter contado mal.
Talvez os incomode, deixar que a forma específica de pronuncia de um país ou uma região seja respeitada.
Serão centralistas, adeptos de formas únicas.
Pena, a diversidade é fonte de progresso mútuo.
Pena também porque o que está em causa é ortografia, não é lexicologia nem etimologia.
É que o problema é mais vasto, como já se viu neste blogue.
É um problema de entendimento, de compreensão entre recetor (ui, lá se foi o p) e emissor, de deficiente conteúdo de informação por parte das palavras.
Querem ver?
Queixamo-nos do acordo ortográfico porque espetador quer dizer assistente ao espetáculo e quer dizer espeto, aquilo ou aquele que espeta.
Mas escatológico também é uma palavra que isolada não contem informação suficiente sobre o que realmente significa.
Um cidadão no meio de uma sala diz escatológico e quem ouve não sabe se ele está a dizer apocalítico ou próprio de excrementos.
A língua portuguesa não é famosa em termos de suporte de informação. Deformámos esse suporte ao longo dos séculos, afastámo-nos da simplicidade e do significado unívoco.
Possivelmente porque evoluímos cerebralmente nesse sentido.
Pobres neurónios que nos dificultam o entendimento mútuo, a organização de equipas, a elaboração de programas interdisciplinares (sem hífen, sem hífen, que o acordo peca por não ter eliminado ainda mais hifens e acentos), a sua execução em esforço coletivo.

Mandou a senhora presidente do Brasil adiar a data de obrigatoriedade do cumprimento do acordo e a sua eventual revisão (curioso, o Brasil pô-lo em vigor, de forma facultativa em 2009, antes de Portugal). Da parte dos PALOP de África e Timor não parece entretanto vir muito entusiasmo, apesar da rica literatura angolana e moçambicana. Talvez haja interesses editoriais vários no meio disto, não sei. Ou simplesmente terá quebrado a ligação de confiança entre os técnicos ortográficos que participaram no trabalho conjunto e os políticos detentores ou representantes do poder (que, se são governantes, certamente serão suficentemente cultos para isso, de forma análoga ao que António disse dos conspiradores contra César).

Entretanto, acho pena, Vasco Graça Moura dizer que quem defende o acordo (que desde 1990 veio promovendo ações de divulgação sem que os opositores o tivessem corrigido; que no seu site oficial diz claramente que está em constante atualização) devia ter vergonha e que pertence ao clube dos pantomineiros da lingua portuguesa (CPLP).
Não me parece argumento, mas essa é outra pecha de como é diferente a discussão em Portugal.

Pena porque qualquer cidadão com acesso à internet pode encontrar no portal da língua portuguesa:

-  uma janelinha de pesquisa, no canto superior direito, que remete para o esclarecimento da palavra em duvida

-  a lista das palavras alteradas em Portugal (e propostas alteradas nos PALOP):

- a lista das palavras alteradas no Brasil:

- o resumo do que muda:

- um conversor ortográfico:


Isto é, novo vocabulário já temos, mas há sempre dificuldade em convergir; talvez seja a tal especificidade dos neurónios portugueses.

Eu diria que não há phleugma para isto (assim se escrevia no tempo do meu avô, quando os letreiros ostentavam orgulhosos a palavra pharmácia e nos lyceus se estudava chymica).


quinta-feira, 28 de julho de 2011

Hipótese: é o complexo de Hubris

Num breve intervalo de tempo, dois ministros do novo governo e o grande escritor Vasco Graça Moura classificaram como irresponsáveis ou criminosos quem não pensa como eles.
Será provavelmente o complexo de Hubris, que ataca quem detem o poder e se sente protegido pelos mecanismos da democracia, quem se convence de que tem razão por rejeição de argumentos contrários. Neste estádio, quem sofre de complexo de Hubris recorre aos adjetivos em detrimento dos argumentos (mesmo que estes sejam reais e evidentes) e à idealização de que está a servir uma causa nobre (a recuperação nacional, por exemplo).

Primeira citação: o senhor ministro Vitor Louçã Gaspar classificou como irresponsável quem defender o abrandamento do ritmo da consolidação orçamental.
Não obstante o aumento do prazo e a diminuição dos juros.
Não obstante os "irresponsáveis" quererem saber o destino dos 78 mil milhões de euros para se certificarem de que a maior parte do dinheiro se destina a investimento reprodutivel em bens transacionáveis geradores de crescimento económico.
Não obstante continuar a fugir como o diabo da cruz do imposto sobre os bancos para não diminuir a atração da poupança (reduz-se o poder de compra, mas o potencial de poupança sobe? é capaz de ser verdade, deixa-se de comprar o BMW e com o dinheiro da entrada faz-se um depósito, mas, quem não tem sequer o dinheiro da entrada? ai estas injustiças e esta falta de universalidade do imposto extraordinário)
Não obstante o senhor presidente do fundo europeu de estabilização financeira ter dito que "os resgates das dívidas de Portugal e da Irlanda têm sido um bom negócio para os países que lhes concederam garantias... até hoje só houve ganhos para os alemães, porque receberam juros acima dos refinanciamentos, o que reverteu para o orçamento alemão" (está-me a seguir, senhor ministro? está a ver o mecanismo de refinanciamento para receber juros mais elevados? deixemos Pangloss e a ingenuidade de Candide, e leiamos antes o Mercador de Veneza, de Shakespeare, mais conforme com a teoria dos juros do senhor ministro; a propósito, não tinhamos combinado há uns tempos com a UE  mutualizar a divida europeia, emitir eurobonds e taxar os lucros dos bancos?)
Não obstante o alivio do aumento dos prazos e da diminuição dos juros não viabilizar, por si, o pagamento das dividas.
Não obstante continuarem as cidadãs e os cidadãos a aguardar a discriminação do desvio de 2.000 milhões de euros (pela gravidade da afirmação, uma vez que desvio pode ser interpretado como apropriação indevida de dinheiro por alguem) uma semana era mais do que suficiente para explicar que desvio é este; o senhor ministro Vitor Gaspar o máximo que apresentou até agora, e mesmo assim sem mostrar as contas, foi que havia ministérios com "insuficiencias de orçamento para pagar salários e despesas em atraso acumuladas". Poderá ser verdade, mas, se não se mostram os cálculos, como se costuma dizer, é curto.

Segunda citação: o senhor ministro Alvaro Santos Pereira classificou como irresponsável fazer uma linha de TGV com premissas totalmente fora da realidade" e que não era irresponsável suspender uma obra já acordada com o governo espanhol (tendo a parte espanhola já gasto dinheiro) e beneficiando de fundos europeus, porque o que se pretende é uma linha de mercadorias de bitola europeia.
É pena que estas coisas já estivessem há muito no blogue do senhor ministro, mas esperar-se-ia melhor fundamentação depois de um mês de ministério (mau aconselhamento?).
É muita pena que uma afirmação tão grave ("pressupostos totalmente fora da realidade") seja feita sem fundamentação, apenas com adjetivos.
Eu próprio tenho criticado as soluções da RAVE, mas sempre fundamentei as críticas.
E nunca critiquei o facto de prever a construção simultanea de uma linha de mercadorias com ligação a Sines com travessa bi-bitola como está efetivamente previsto.
Acresce que o traçado da ligaão do TGV a Madrid e ao Porto até é razoável (embora eu preferisse a travessia do Tejo por Beato-Montijo e a estação central do TGV de Lisboa no Vale de Chelas/Olaias).
Em Portugal, os grandes problemas como o traçado do TGV são deixados primeiro a um grupo restrito que faz secretismo. Aos poucos vão-se conhecendo as propostas e apontando as deficiencias do projeto. Graças ao esforço resistente do grupo restrito (ver a sobranceria com que num programa prós e contras foi contrariado o impacto visual da travessia Chelas-Barreiro no miradouro e Alfama) só muito lentamente e por aproximações sucessivas se vai chegando a uma solução razoável; veja-se ainda o caso da localização do eventual novo aeroporto de Lisboa, proposto primeiramente por um senhor primeiro ministro, conhecido por raramente ter dúvidas, coisa que quem aplica o método científico tem sistematicamente, para uma base aérea chumbada pelas suas más condições meteorológicas para base dos F16).
A construção simultanea de infraestruturas para modos diferentes é uma forma de economia, talvez mais significativa do que apagar as luzes (a propósito, sempre reparei que tinha de ser eu a apagar as luzes dos gabinetes, que os meus colegas preferiam deixar acesas; é interessante pensar que a maioria dos meus colegas não tenha conseguido fugir à estatística dos eleitores dos partidos atualmente no governo; eles deixavam as luzes acesas e votaram num governo que apaga as luzes; eu apagava as luzes e não votei num governo que liga mais às economias intermédias do que às grandes economias (do ponto de vista macroscópico, é uma ilusão estar a poupar em pequenas coisas quando o principal desperdicio só pode evitar-se mediante investimentos pesados geradores de poupança).
Mas admitamos que os pressupostos estão fora da realidade. Nunca poderão estar totalmente, porque o TGV permite um consumo específico de energia e emissões de gases com efeito de estufa por passageiro-quilómetro inferior ao transporte rodoviário e ao transporte aéreo.
E parece evidente que a gestão correta das ligações entre Lisboa e Madrid terá de taxar os modos aéreo e rodoviário de modo a "encaminhar" os passageiros para o TGV.
Isto é uma heresia para o fundamentalismo liberal do mercado livre, mas até os economistas mais fanáticos das companhias aéreas low-cost conhecem termo internalização da externalidade, aplicável ao diferencial da emissão de gases com efeito de estufa destes modos relativamente ao TGV. De momento, a tonelada de CO2 está a menos de 20 euros, mas tem tendencia a subir, tal como os custos das "low-cost", à medida que forem eliminando a concorrencia que tem custos superiores de manutenção e que não fica com o dinheiro da reserva se o passageiro não puder embarcar na data combinada e à medida que o petróleo sobe).
Entretanto, será um pressuposto totalmente infundado admitir que o TGV transportará por dia pelo menos a capacidade de um avião e, durante as férias, de dois?
Isso dará aproximadamente 90.000 passageiros por ano, o que se traduzirá num diferencial aproximado TGV-avião de 7,5 GWh e 4.000 toneladas de CO2. (Não é interessante pensar que é possivel baixar as emissões do transporte aéreo, com a condição de se usar aviões de grande capacidade (800 passageiros), que não estão homologados para aterrarem no atual aeroporto de Lisboa?).
Isto são pressupostos "totalmente fora da realidade"?
Parece uma afirmação demasiado grave para um ministro de um mês, sobre uma questão importante de transportes.
O que me faz lembrar o que me ensinou o chefe da central do Picote, quando lá fiz um estágio de um mês, há muitos anos: existem pessoas que não estão bem dentro dos assuntos mas têm sempre soluções que os outros não tinham conseguido descobrir (ele citou o caso de um engenheiro de gabinete na sede que tinha sugerido retirar a turbina para reparação sem retirar o alternador, o que pouparia imenso) e que acham que o trabalho dos outros ou é mal feito ou não merece confiança; quando tomam posse fazem re-avaliações "como deve ser"; e exemplificava com um heroi de banda desenhada com algum sucesso num jornal do Porto, o Becas maravilhas.
Sinceramente, da parte do senhor ministro esperava argumentações e cálculos. Acusações de que quem não pensa como ele é irresponsável, não.

Terceira citação: Vasco Graça Moura, não sendo agora oportuno dizer mal do governo, tem dedicado a maior parte das suas crónicas no DN a zurzir o novo acordo ortográfico.
Um paciente leitor explicou em cartas ao diretor, argumento a argumento, que o acordo não é assim tão mau. Mas Vasco Graça Moura, cometendo o pecado de privar a comunidade dos leitores e escritores em português de obras suas que poderiam e deveriam ser escritas no tempo em que escreve as crónicas, insiste e insiste.
Diz agora que a grafia do novo acordo é criminosa (será que isso significa que quem escreve conforme o novo acordo é criminoso, e réu em que tribunal?).
É pena, porque assim não é liberal.
Como dizia Stuart Mill, o liberalismo de uma pessoa não deve ir além dos limites do liberalismo dos outros. Se eu quero dizer e escrever perceção, por que cargas de águas não posso?
Nestas coisas sou eu mais liberal, vou continuar a escrever segundo o novo acordo (exceto por ignorancia minha, claro) e concordo sem qualquer hesitação que Vasco Graça Moura escreva, aliás bem e com humanismo quando não se deixa polarizar pela politica, de acordo com o anterior (não me refiro ao que o antecedeu, aquele em que fleuma se escrevia phleugma)

Conclusão:  Será seguramente o complexo de Hubris - o poder consolida a auto-convicção, independentemente da realidade, dos cálculos e dos argumentos contrários.
Não será autismo, será complexo de Hubris.


mais informações em:
http://www.google.pt/#hl=pt-PT&source=hp&q=irrespons%C3%A1vel+vitor+gaspar&btnG=Pesquisa+do+Google&oq=irrespons%C3%A1vel+vitor+gaspar&aq=f&aqi=&aql=&gs_sm=s&gs_upl=10604l19698l0l23028l26l26l0l11l1l1l394l3215l2-4.6l10&bav=on.2,or.r_gc.r_pw.&fp=39942fb498c34481&biw=958&bih=536

http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=irrespons%C3%A1vel+aLVARO+SANTOS+PEREIRA&oq=irrespons%C3%A1vel+aLVARO+SANTOS+PEREIRA&aq=f&aqi=&aql=&gs_sm=s&gs_upl=84377l95775l0l97884l33l20l0l0l0l9l466l4128l1.0.4.6.2l13&biw=958&bih=536&cad=cbv

http://www.google.pt/#sclient=psy&hl=pt-PT&source=hp&q=vasco+gra%C3%A7a+moura+criminosa&pbx=1&oq=vasco+gra%C3%A7a+moura+criminosa&aq=f&aqi=&aql=1&gs_sm=s&gs_upl=3190l11715l0l14719l29l23l1l6l7l2l925l8314l2-1.4.7.3.2l17&bav=on.2,or.r_gc.r_pw.&fp=b4d4143e10bb08ed&biw=958&bih=536

http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/09/madrid-lisboa-de-aviao-ou-de-tgv.html

http://fcsseratostenes.blogspot.com/search?q=hubris