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terça-feira, 7 de junho de 2011

A sindroma de Hubris

Na antiga Grécia, Hubris era o crime de retirar prazer da humilhação ou do abuso de uma vítima.
A neurociencia e a psiquiatria inspiraram-se nas tragédias gregas que usaram o tema para definir como sindroma de Hubris a doença psicológica que afeta quase todos os que exercem poder, político ou nas empresas.
Características principais: falta de humildade, arrogancia, sentimento exagerado de auto-importancia, convicção de que se tem razão, presunção, falta de compreensão da realidade e criação de um mundo próprio para ser compatível com o sentimento de ter razão.
Esta doença foi estudada por David Owen, médico e antigo ministro dos negócios estrangeiros inglês no seu livro Na doença e no poder, ed.Dom Quixote.
Esta doença é uma ameaça à democracia, e escapa aos eleitores porque os doentes se refugiam atrás de uma aura de carisma, como se costuma dizer.
A doença vai-se desenvolvendo à medida que o político ou o gestor vai recolhendo cada vez mais apoios dos que os rodeiam, que por sua vez o apoiam cada vez mais para se sentirem seguros, num mecanismo semelhante ao da polarização (ver mecanismos de decisão nos pequenos grupos em A Sabedoria das Multidões) ou da concentração no polo mais forte (ver lei de Fermat-Weber).
O tratamento é divulgar amplamente esta análise de que é mesmo uma doença psicológica que afeta os políticos e os gestores, que só pode concluir-se pela necessidade de descentralizar os poderes de decisão, evitando a concentração, porque quanto mais concentrado for o poder de decisão mais sujeito à doença de Hubris fica o decisor.
Entre os analisados por David Owen está Kennedy, classificado como uma criança doente. Nixon, como paranoico. Bush e Blair, como arrogantes perante a realidade. Tatcher, como presunçosa.
Curiosamente, David Owen diz que Merkel tem os pés bem assentes no chão (é capaz de ter razão, o plano de fecho das centrais nucleares, com custos de 200 mil milhões de euros, aumento das emissões de gases com efeito de estufa e importação de energia elétrica da França, revela bom jogo de rins... não sofrerá da sindroma de Hubris, sofrerá de outras sindromas, de oportunismo, talvez, numa altura em que o seu partido perde eleitores para os Verdes).

Este blogue propõe o livro como leitura obrigatória pelos políticos e pelos gestores de empresas, com prestação de provas posterior para verificação de que foi compreendido.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Hipótese: é o complexo de Hubris

Num breve intervalo de tempo, dois ministros do novo governo e o grande escritor Vasco Graça Moura classificaram como irresponsáveis ou criminosos quem não pensa como eles.
Será provavelmente o complexo de Hubris, que ataca quem detem o poder e se sente protegido pelos mecanismos da democracia, quem se convence de que tem razão por rejeição de argumentos contrários. Neste estádio, quem sofre de complexo de Hubris recorre aos adjetivos em detrimento dos argumentos (mesmo que estes sejam reais e evidentes) e à idealização de que está a servir uma causa nobre (a recuperação nacional, por exemplo).

Primeira citação: o senhor ministro Vitor Louçã Gaspar classificou como irresponsável quem defender o abrandamento do ritmo da consolidação orçamental.
Não obstante o aumento do prazo e a diminuição dos juros.
Não obstante os "irresponsáveis" quererem saber o destino dos 78 mil milhões de euros para se certificarem de que a maior parte do dinheiro se destina a investimento reprodutivel em bens transacionáveis geradores de crescimento económico.
Não obstante continuar a fugir como o diabo da cruz do imposto sobre os bancos para não diminuir a atração da poupança (reduz-se o poder de compra, mas o potencial de poupança sobe? é capaz de ser verdade, deixa-se de comprar o BMW e com o dinheiro da entrada faz-se um depósito, mas, quem não tem sequer o dinheiro da entrada? ai estas injustiças e esta falta de universalidade do imposto extraordinário)
Não obstante o senhor presidente do fundo europeu de estabilização financeira ter dito que "os resgates das dívidas de Portugal e da Irlanda têm sido um bom negócio para os países que lhes concederam garantias... até hoje só houve ganhos para os alemães, porque receberam juros acima dos refinanciamentos, o que reverteu para o orçamento alemão" (está-me a seguir, senhor ministro? está a ver o mecanismo de refinanciamento para receber juros mais elevados? deixemos Pangloss e a ingenuidade de Candide, e leiamos antes o Mercador de Veneza, de Shakespeare, mais conforme com a teoria dos juros do senhor ministro; a propósito, não tinhamos combinado há uns tempos com a UE  mutualizar a divida europeia, emitir eurobonds e taxar os lucros dos bancos?)
Não obstante o alivio do aumento dos prazos e da diminuição dos juros não viabilizar, por si, o pagamento das dividas.
Não obstante continuarem as cidadãs e os cidadãos a aguardar a discriminação do desvio de 2.000 milhões de euros (pela gravidade da afirmação, uma vez que desvio pode ser interpretado como apropriação indevida de dinheiro por alguem) uma semana era mais do que suficiente para explicar que desvio é este; o senhor ministro Vitor Gaspar o máximo que apresentou até agora, e mesmo assim sem mostrar as contas, foi que havia ministérios com "insuficiencias de orçamento para pagar salários e despesas em atraso acumuladas". Poderá ser verdade, mas, se não se mostram os cálculos, como se costuma dizer, é curto.

Segunda citação: o senhor ministro Alvaro Santos Pereira classificou como irresponsável fazer uma linha de TGV com premissas totalmente fora da realidade" e que não era irresponsável suspender uma obra já acordada com o governo espanhol (tendo a parte espanhola já gasto dinheiro) e beneficiando de fundos europeus, porque o que se pretende é uma linha de mercadorias de bitola europeia.
É pena que estas coisas já estivessem há muito no blogue do senhor ministro, mas esperar-se-ia melhor fundamentação depois de um mês de ministério (mau aconselhamento?).
É muita pena que uma afirmação tão grave ("pressupostos totalmente fora da realidade") seja feita sem fundamentação, apenas com adjetivos.
Eu próprio tenho criticado as soluções da RAVE, mas sempre fundamentei as críticas.
E nunca critiquei o facto de prever a construção simultanea de uma linha de mercadorias com ligação a Sines com travessa bi-bitola como está efetivamente previsto.
Acresce que o traçado da ligaão do TGV a Madrid e ao Porto até é razoável (embora eu preferisse a travessia do Tejo por Beato-Montijo e a estação central do TGV de Lisboa no Vale de Chelas/Olaias).
Em Portugal, os grandes problemas como o traçado do TGV são deixados primeiro a um grupo restrito que faz secretismo. Aos poucos vão-se conhecendo as propostas e apontando as deficiencias do projeto. Graças ao esforço resistente do grupo restrito (ver a sobranceria com que num programa prós e contras foi contrariado o impacto visual da travessia Chelas-Barreiro no miradouro e Alfama) só muito lentamente e por aproximações sucessivas se vai chegando a uma solução razoável; veja-se ainda o caso da localização do eventual novo aeroporto de Lisboa, proposto primeiramente por um senhor primeiro ministro, conhecido por raramente ter dúvidas, coisa que quem aplica o método científico tem sistematicamente, para uma base aérea chumbada pelas suas más condições meteorológicas para base dos F16).
A construção simultanea de infraestruturas para modos diferentes é uma forma de economia, talvez mais significativa do que apagar as luzes (a propósito, sempre reparei que tinha de ser eu a apagar as luzes dos gabinetes, que os meus colegas preferiam deixar acesas; é interessante pensar que a maioria dos meus colegas não tenha conseguido fugir à estatística dos eleitores dos partidos atualmente no governo; eles deixavam as luzes acesas e votaram num governo que apaga as luzes; eu apagava as luzes e não votei num governo que liga mais às economias intermédias do que às grandes economias (do ponto de vista macroscópico, é uma ilusão estar a poupar em pequenas coisas quando o principal desperdicio só pode evitar-se mediante investimentos pesados geradores de poupança).
Mas admitamos que os pressupostos estão fora da realidade. Nunca poderão estar totalmente, porque o TGV permite um consumo específico de energia e emissões de gases com efeito de estufa por passageiro-quilómetro inferior ao transporte rodoviário e ao transporte aéreo.
E parece evidente que a gestão correta das ligações entre Lisboa e Madrid terá de taxar os modos aéreo e rodoviário de modo a "encaminhar" os passageiros para o TGV.
Isto é uma heresia para o fundamentalismo liberal do mercado livre, mas até os economistas mais fanáticos das companhias aéreas low-cost conhecem termo internalização da externalidade, aplicável ao diferencial da emissão de gases com efeito de estufa destes modos relativamente ao TGV. De momento, a tonelada de CO2 está a menos de 20 euros, mas tem tendencia a subir, tal como os custos das "low-cost", à medida que forem eliminando a concorrencia que tem custos superiores de manutenção e que não fica com o dinheiro da reserva se o passageiro não puder embarcar na data combinada e à medida que o petróleo sobe).
Entretanto, será um pressuposto totalmente infundado admitir que o TGV transportará por dia pelo menos a capacidade de um avião e, durante as férias, de dois?
Isso dará aproximadamente 90.000 passageiros por ano, o que se traduzirá num diferencial aproximado TGV-avião de 7,5 GWh e 4.000 toneladas de CO2. (Não é interessante pensar que é possivel baixar as emissões do transporte aéreo, com a condição de se usar aviões de grande capacidade (800 passageiros), que não estão homologados para aterrarem no atual aeroporto de Lisboa?).
Isto são pressupostos "totalmente fora da realidade"?
Parece uma afirmação demasiado grave para um ministro de um mês, sobre uma questão importante de transportes.
O que me faz lembrar o que me ensinou o chefe da central do Picote, quando lá fiz um estágio de um mês, há muitos anos: existem pessoas que não estão bem dentro dos assuntos mas têm sempre soluções que os outros não tinham conseguido descobrir (ele citou o caso de um engenheiro de gabinete na sede que tinha sugerido retirar a turbina para reparação sem retirar o alternador, o que pouparia imenso) e que acham que o trabalho dos outros ou é mal feito ou não merece confiança; quando tomam posse fazem re-avaliações "como deve ser"; e exemplificava com um heroi de banda desenhada com algum sucesso num jornal do Porto, o Becas maravilhas.
Sinceramente, da parte do senhor ministro esperava argumentações e cálculos. Acusações de que quem não pensa como ele é irresponsável, não.

Terceira citação: Vasco Graça Moura, não sendo agora oportuno dizer mal do governo, tem dedicado a maior parte das suas crónicas no DN a zurzir o novo acordo ortográfico.
Um paciente leitor explicou em cartas ao diretor, argumento a argumento, que o acordo não é assim tão mau. Mas Vasco Graça Moura, cometendo o pecado de privar a comunidade dos leitores e escritores em português de obras suas que poderiam e deveriam ser escritas no tempo em que escreve as crónicas, insiste e insiste.
Diz agora que a grafia do novo acordo é criminosa (será que isso significa que quem escreve conforme o novo acordo é criminoso, e réu em que tribunal?).
É pena, porque assim não é liberal.
Como dizia Stuart Mill, o liberalismo de uma pessoa não deve ir além dos limites do liberalismo dos outros. Se eu quero dizer e escrever perceção, por que cargas de águas não posso?
Nestas coisas sou eu mais liberal, vou continuar a escrever segundo o novo acordo (exceto por ignorancia minha, claro) e concordo sem qualquer hesitação que Vasco Graça Moura escreva, aliás bem e com humanismo quando não se deixa polarizar pela politica, de acordo com o anterior (não me refiro ao que o antecedeu, aquele em que fleuma se escrevia phleugma)

Conclusão:  Será seguramente o complexo de Hubris - o poder consolida a auto-convicção, independentemente da realidade, dos cálculos e dos argumentos contrários.
Não será autismo, será complexo de Hubris.


mais informações em:
http://www.google.pt/#hl=pt-PT&source=hp&q=irrespons%C3%A1vel+vitor+gaspar&btnG=Pesquisa+do+Google&oq=irrespons%C3%A1vel+vitor+gaspar&aq=f&aqi=&aql=&gs_sm=s&gs_upl=10604l19698l0l23028l26l26l0l11l1l1l394l3215l2-4.6l10&bav=on.2,or.r_gc.r_pw.&fp=39942fb498c34481&biw=958&bih=536

http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=irrespons%C3%A1vel+aLVARO+SANTOS+PEREIRA&oq=irrespons%C3%A1vel+aLVARO+SANTOS+PEREIRA&aq=f&aqi=&aql=&gs_sm=s&gs_upl=84377l95775l0l97884l33l20l0l0l0l9l466l4128l1.0.4.6.2l13&biw=958&bih=536&cad=cbv

http://www.google.pt/#sclient=psy&hl=pt-PT&source=hp&q=vasco+gra%C3%A7a+moura+criminosa&pbx=1&oq=vasco+gra%C3%A7a+moura+criminosa&aq=f&aqi=&aql=1&gs_sm=s&gs_upl=3190l11715l0l14719l29l23l1l6l7l2l925l8314l2-1.4.7.3.2l17&bav=on.2,or.r_gc.r_pw.&fp=b4d4143e10bb08ed&biw=958&bih=536

http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/09/madrid-lisboa-de-aviao-ou-de-tgv.html

http://fcsseratostenes.blogspot.com/search?q=hubris

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Falas dos governantes - Freud em S.Bento

Dois comentadores do DN, com a capacidade de análise que me falta, designaram o senhor ministro adjunto Miguel Relvas um, por limpa neves do governo, e o outro, por carregador de pianos do governo. Outro comentador, possivelmente cedendo à mesma tentação a que a seguir também cederei, colocou a hipótese de que a aplicação continuada das medidas de austeridade ao povo português estimula e excita o senhor primeiro ministro Passo Coelho, a ponto de ele não conseguir conter o sorriso quando fala no assunto.

Reafirma este blogue que não gosta de discutir política, mas fascina-se com as disciplinas colaterais.
E como a sua imodéstia (do humilde escriba do blogue) o ilude como se fosse discípulo de Freud ou de Jung, tentemos uma análise das falas do senhor primeiro ministro.
O complexo (entendido como uma imagética que através do inconsciente conduz a uma distorção de comportamento) mais frequente nos governantes é o complexo de Hubris, revelando uma forma de humilhação dos governados.
O governante manifesta a sua superioridade pelo poder e pelo dominio de informação não acessivel aos governados.
Dado que o fenómeno tem origem no inconsciente do paciente, pode não revelar uma vontade consciente de diminuir os governados, embora se possa fazer a crítica de que a génese do complexo (a tal criação de imagens pelo inconsciente) pode ser preventivamente contrariada de forma consciente.
O complexo de Hubris explica também como o paciente passa a acreditar mais na realidade ou abstração com ténues ou virtuais ligações à realidade que ele criou (com as tais imagens do complexo), do que nas evidencias que a realidade lhe mostra.
Este isolamento ou insensibilidade aos problemas reais poderá ter alguma coisa em comum com a doença psicológica do autismo, mas não é propriamente autismo, podendo ser agravada pelo comportamento de grupo dos apoiantes, seguindo o habitual caminho de polarização, cristalização ou conglomeração de um pensamento aglutinante do grupo e de normalização e socialização.

Curiosamente, graças às análises dos comentadores referidos, verifico que o complexo de Hubris caraterizava o anterior senhor primeiro ministro, ou carateriza o senhor ministro adjunto, mais do que o atual senhor primeiro ministro.
Partindo da mesma observação desses comentadores, coloco então a hipótese de que o comportamento do atual primeiro ministro revela antes um complexo messianico, ou profético, de alguem a quem foi revelada a salvação e que foi incumbido de a executar.
No caso em estudo, são conhecidas as propostas, que são as da ideologia neo-liberal, de reduzir as despesas do Estado e de empobrecer a atividade económica com medidas de austeridade.
Às inevitáveis dificuldades diretamente consequentes destas medidas seguir-se-á, nisso se tem fé, o período de salvação ou de franco crescimento e de alivio das dificuldades.
Profeticamente e periodicamente, o senhor primeiro ministro anunciará as datas em que se verificará o inicio desse período, estimulando tambem  profetas menores, os outros senhores ministros, a de vez em quando anunciarem a feliz data, tendo sempre o cuidado de sincronizar esse anuncio com o calendário das próximas eleições.
Este complexo messiânico está associado a um fenómeno extraordinário do cérebro humano, que é a capacidade de criar entidades virtuais, externas ao cérebro, com as quais se pode dialogar e debater decisões a tomar, como muitas crianças desde cedo revelam.
Esta carateristica, quando explorada em relação a um eleitorado, permite a esse eleitorado ter fé no conjunto de ideias ou programa eleitoral do paciente.
Mais curioso ainda, o programa eleitoral torna-se tanto mais atraente quanto mais inexequivel for.
Exatamente pela capacidade do cérebro dos eleitores em acreditar, através dum mecanismo de imitação ao nivel dos neurónios-espelho, nas fantasias do programa e na sua superioridade em relação às trivialidades da realidade.
Analogamente, um adolescente conquista a sua adolescente prometendo uma vida de eterno amor, sendo certo que dificilmente a conquistará se não o fizer. A tónica na verdade só será colocada depois de a conquistar.
Nesta perspetiva, prometer numa campanha eleitoral , em caso de necessidade de reduzir defices, penalizar através de impostos o consumo e nunca o rendimento do trabalho, não é uma mentira, mas um teste à capacidade  dos eleitores de gerarem fé  em torno das construções virtuais do cérebro do paciente.
Por mais que  a realidade mostre evidencias, como seja o papel que a falta de regulação, deixando as entidades financeiras especular e manobrar verbas nos off-shores, teve na disseminação da crise, ou a omissão do BCE em emprestar diretamente aos estados ou emitir moeda até determinados limites de inflação, a construção virtual insistirá sempre e normalizará os apoiantes de modo a manter o poder politico, atribuindo as culpas de tudo a quem não pense como o paciente.
Sempre que o governante vítima do complexo messiânico, nas suas prédicas às multidões, cometer erros de análise devidos à grande distancia entre as criações do seu pensamento e a realidade, os seus sacerdotes virão em seu auxílio explicando que o paciente não errou na interpretação da realidade, mas foi antes a multidão que não soube interpretar corretamente as suas  palavras.

Será ainda curioso analisar se o complexo messiânico será uma manifestação de juventude inexperiente e impulsiva, ou se a convicção de se ter recebido uma revelação sobrevem apenas na maturidade.
A hipótese é a de que no caso vertente se trata de uma simbiose, de uma mistura das duas condições tornada possível pela projeção, entendida aqui também no seu sentido psicológico, de gestores experientes de empresas (do grupo de empresas em que o senhor primeiro ministro exerceu atividade profissional), associada à revelação-ideologia neo liberal de minimização do orçamento do estado e desregulação das iniciativas empresariais (representada, por exemplo, pelo senhor ministro das finanças).
Quem toma as decisões gestionárias da res publica é assim a  projeção da virtualidade de um gestor ideal, ajustando setor a setor as percentagens de população aos meios disponiveis, sem o condicionamento de limites à taxa de pobreza e ao coeficiente de desigualdade de Gini.
Assim se entende a politica de redução de ativos, quer materiais (privatizações, mesmo que o rendimento do capital obtido seja inferior aos dividendos anteriores), quer de recursos humanos (dispensa de funcionários publicos adstritos à saúde, educação, etc) e a sua eventual deslocalização para países estrangeiros (emigração).
Todas estas ideias-força se encontram em entrevistas de qualquer CEO de empresa de relevo.
Ainda neste caso de projeção psicológica não se poderá falar em humilhação ou desprezo pelos governados, dado que a componente do inconsciente se sobrepõe à vontade consciente, inibindo assim a imputação de qualquer intenção nesse sentido.

Como diria Mr Spock, do Startreck, fascinante, a problemática da psicologia, tão fascinante, que poderia sugerir-se a criação de um cargo público, à semelhança do Procurador Geral da Republica, de um Psicólogo Geral da Republica, para monitorização psicológica de quem exerce cargos públicos.

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Tentativa de análise psicológica de governantes com perceção elogiosa de si próprios

Por me interessar pelo tema, li alguma coisa sobre o complexo de Hubris já tratado pelos antigos gregos para retratar alguns dos seus governantes mais autoritários. Sintomas do complexo de Hubris:  falta de humildade, arrogancia, sentimento exagerado de auto-importancia, convicção de que se tem razão, presunção, falta de compreensão da realidade e criação de um mundo próprio para ser compatível com o sentimento de ter razão.  https://fcsseratostenes.blogspot.com/search?q=hubris

Mais recentemente, Freud explicou alguma coisa, mas é mais sugestiva a interpretação de Murray e Fromm com a sua teoria das necessidades psicogénicas dos governantes, para quem governar com sobranceria é uma necessidade intrínseca como a alimentação, e que impede o paciente de aceitar evidencias que contrariem as convicções próprias.  https://fcsseratostenes.blogspot.com/search?q=murray

A explicação do comportamento sobranceiro de um governante, especialmente se não se sentiu realizado exercendo uma profissão, será como a de um menino teimoso. Murray e  Fromm concordariam, a necessidade do menino poderoso se afirmar, certamente por insegurança no meio do seu grupo em que quer mandar e quer ver a rodeá-lo num círculo de proteção (aqui é Freud e as ligações do cordão umbilical).

Porém, o melhor esclarecimento da dissonância do governante que se auto-glorifica acima das realidades foi dado por Margaret Thatcher numa crítica que fez ao encenador de uma peça que retratava o comportamento menos próprio de Mozart, e que registos históricos confirmam. Thatcher, depois do espetáculo, invetivou o encenador explicando-lhe que Mozart era um homem superior que nunca se comportaria assim.  E evidentemente que não respondeu depois ao envio para Downing Street de copiosa documentação sobre o tema que o encenador lhe enviou.

Inutil argumentar com tão sábios ignorantes. Mas não, não nos habituaremos.

terça-feira, 4 de abril de 2023

O metropolitano de Lisboa neste início de Primavera

Neste início de Primavera o metropolitano de Lisboa divulga no seu sítio da internet as suas ações de expansão: 
https://projetos.metrolisboa.pt/

- prossegue a obra da linha circular, estando já concluido o túnel entre o término de Rato e a estação Santos, faltando a ligação a Cais do Sodré; ignora-se se durante a obra foram atingidos os limites previstos de deformações do edificado,
- prossegue a obra dos viadutos de Campo Grande, faltando ligar os tabuleiros novos aos viadutos existentes e estando em instalação a estrutura de suporte da cobertura acústica junto da torre vicentina; de maio a julho interromper-se-á a exploração entre Quinta das Conchas e Cidade Universitária para a ligação dos novos viadutos cessando a ligação de Odivelas ao Rato; objetivo de colocação em serviço da linha circular em 2024
- inicia-se a instalação do CBTC (communications based train control) na linha azul (abril de 2023); será extensível a toda a rede e toda a frota, incluindo 27 milhões para um adicional para o prolongamento da linha vermelha e resto da frota
- aguarda-se o fornecimento da primeira unidade do novo material circulante (abril de 2024)
- aguarda-se a adjudicação do concurso para o fornecimento das especialidades complementares (acabamentos) da linha circular (objetivo colocação em serviço 2025)
- aguarda-se a adjudicação do concurso dos toscos do prolongamento da linha vermelha a Alcantara 
Terra (objetivo: adjudicação 3ºtrimestre de 2023 + 6 meses para projeto de execução e RECAPE + colocação em serviço 2026 por causa do PRR, mas não parece possível)
- aguarda-se o lançamento do concurso para a chamada linha violeta, o percurso em U do Hospital 
Beatriz Ângelo ao Infantado, passando por Odivelas, depois da consulta pública do EIA de janeiro a fevereiro de 2023
- divulgado um novo mapa de expansão com o prolongamento da linha amarela de Telheiras a Benfica


A equipa de marketing do metro terá feito um bom trabalho na apresentação de todas estas ações, assim como o seu presidente na sua intervenção na comissão de Economia do Parlamento.

Mas infelizmente é discutível o mérito e especialmente a qualidade técnica das soluções escolhidas (não me refiro à técnica da construção dos túneis - embora haja vantagens do TBM -, dos viadutos e das estações, mas sim à conceção) com exceção do CBTC e do novo material circulante, de inquestionável qualidade em ambos os casos.

A situação é notavelmente grave quanto aos traçados da expansão da rede, uma sucessiva acumulação de erros em que cada passo desintegrado dum equilibrado plano de expansão (o plano de expansão de 2009 contem erros graves e foi imposto à revelia do PROTAML e dos PDM anteriores a 2016 inclusivé, através dum simples despacho da secretária de Estado dos Transportes de 2009 represtinado pelo ministério do Ambiente em 2016 e dado seguimento escrupuloso pelos missi dominici do metro sem obediencia aos princípios de aprovação de investimentos  de transportes públicos, ainda antes da nomeação do atual presidente).

Isto acontece num contexto em que os titulares da direção superior e da direção executiva de empreendimentos do metropolitano não dispõem de formação e experiência profissionais que lhes permitam conhecer em profundidade  os problemas da conceção de uma rede de metropolitano, sua operação e manutenção.

Dir-se-ia que uma forma simples de contornar essa falta de currículo poderia ser um contacto franco com os técnicos reformados do metropolitano, mas a direção superior chegou a proibir a visita por esses técnicos aos gabinetes dos colegas no ativo. É o contrário da prática científica e académica, o referendo entre pares. Não admira que, apesar dos encómios da secção de marketing, depois da administração do metro e do ministério do Ambiente rejeitarem com laivos de detenção da infalibilidade e do síndroma de Hubris as críticas, a valia dos projetos atuais deixe tanto a desejar (mais uma vez exceção do novo material circulante e do CBTC).


Comentários sobre o ponto da  expansão:

- linha circular - deveria ser prestada informação sobre o nível de deformações no edificado, a terem ocorrido, durante a obra; igualmente é desejável a prestação progressiva de informação rigorosa, publicamente, à medida que avança a obra da estação Santos e da ligação à estação Cais do Sodré; idem para a disponibilização pública da calendarização da preparação e da colocação em serviço da linha circular, incluindo os períodos e a extensão dos troços fora de serviço

- viadutos de Campo Grande - é impressionante a sobranceria (complexo de Hubris) com que a administração do metro e o ministério do Ambiente rejeitaram, para além do incumprimento do artigo 282 da lei 2/2020 (a pretexto de haver pareceres jurídicos que retiram obrigatoriedade ao que chamam propostas cavaleiras ou aproveitadoras da lei do orçamento) , as críticas a esta agressão paisagistica e urbanistica e ao erro das zonas de mudança de via e de aparelhos de dilatação (implicam número excessivo de aparelhos de dilatação, redução de velocidade, incómodo para os passageiros, e desgaste de via e do material circulante com redução dos períodos de substituição de carris e rodados). A própria CML demitiu-se das suas responsabilidades desistindo da opção da linha em laço ou espiral, solução adotada em Londres, que evitaria a obra dos novos viadutos. 
No momento atual subsiste a falta de informação sobre que solução será adotada na estação Campo Grande  para o acesso de pessoas com mobilidade condicionada e instalações sanitárias (não existe acessibilidade para aquelas pessoas e as IS encontram-se permanentemente desativadas).. Não existe informação sobre a data de cessação do serviço Odivelas-Rato. Não foi feita confirmação formal sobre  a possibilidade no sistema de sinalização e de via férrea de retorno à exploração Odivelas-Rato (e consequentemente Rato-Cais do Sodré-Campo Grande -Telheiras). Idem para o modo de "partilha" anteriormente propagandeado pelo ministério do Ambiente (exploração de que se discorda por implicar intervalos maiores nos troços centrais).

- CBTC  e novo material circulante - espera-se a concretização com sucesso, incluindo a informação para o tempo de espera, considerando as boas referências dos fornecedores e dos técnicos da especialidade do metro 

- especialidades complementares (acabamentos) da linha circular - recordo que durante a minha vida ativa, os concursos para o fornecimento das especialidades ferroviárias (via férrea, média tensão, baixa tensão, eletromecânica, telecomunicações, sinalização) eram conduzidos pelos técnicos do metropolitano, sendo os próprios cadernos de encargos devia férrea, média tensão, telecomunicações e sinalização elaborados também internamente. A coordenação da integração destas disciplinas na obra era da responsabilidade do metro com o apoio do departamento de planeamento da FERCONSULT. A elaboração dos processos de normativos e de homologação para aprovação pelo IMT da colocação em serviço era também interna. Infelizmente, com ideias inovadoras da administração no fim da primeira década do século XXI, no prolongamento da Gare do Oriente para Aeroporto várias das especialidades complementares foram alvo de concursos conduzidos pelos empreiteiros gerais de construção civil. Dizem alguns que o acidente ocorrido no término do aeroporto com colisão com o fim do túnel nada teve a ver com esse facto. Recordo ainda o erro crasso da curva de raio pequeno de Oriente para Moscavide em vez de prosseguir para Sacavém/Portela em curva aberta - o serviço do aeroporto deveria fazer-se por viaduto e túnel de Campo Grande-Aeroporto-Avenida de Berlim-Oriente, mas as instancias superiores do metro na altura acharam que não. Será a síndroma dos decisores de gabinete longe das frentes de trabalho apesar dos benefícios da teleinformática, que infelizmente já vem de há muito. 

- prolongamento de S.Sebastião a Alcântara Terra - com alguma ingenuidade, não protestei na consulta pública da EIA contra a inserção de uma estação de metro (ao menos que estivesse mais próxima da estação da CP de Alcântara Terra), com a forma arquitetónica dos antigos armazens de mercadorias junto das estações, praticamente a meio do acesso rodoviário em Alcântara Terra à ponte 25 de abril, mas apresentada como uma solução requalificadora do urbanismo da zona. Apenas inclui nas sugestões uma maior pormenorização dos desenhos da estação para esclarecer como a inserção do edificio não iria limitar a fluidez do transito automóvel nem pôr em risco os passageiros que saissem pelo lado sul da nova estação. Ingenuidade porque ter-me-ei deixado levar pela afirmação no  próprio EIA que o ideal seria prolongar a linha vermelha até Algés, uma vez que na altura do EIA ainda não estava decidida a construção do LRT (eu diria que melhor designação será "tramway" , mas os decisores gostam mais da designação LIOS). No EIA nada consta sobre a imputação dos custos adicionais consequência da construção do interface com o LIOS, da remodelação das vias de entrada, de saída e de circulação do bairro da quinta do Jacinto (Alvito) e muito menos da necessária construção de novo acesso rodoviário à ponte 25 de abril, eventualmente junto da ETAR. Para compor o quadro, os decisores insistem cada vez mais que a ligação da linha de Cascais à linha de cintura (alguma vez tais decisores terão gerido uma linha ferroviária saturada?) é para se fazer, paredes meias com o caneiro de Alcântara, e que a estação de Alcântara Terra é para abater porque tal ligação inclui uma nova estação junto da rua Fradesso da Silveira. Mas nada consta no EIA dos custos da correspondência entre as novas estações do metro e a ligação da linha de Cascais. Nem dos custos das ligações mecânicas entre a eventual estação do Alvito da CP , a estação do metro e a estação da linha de Cascais. Por isso fico a pensar porque é apresentado o aumento de custos da construção, na intervenção que o presidente do metro fez na Comissão de Economia, Obras Públicas, Planeamento e Habitação em 9mar2023 na AR, como se fosse uma surpresa, derivada da rotura das cadeias de abastecimento, da guerra e da inflação. Mais uma vez sublinho, não ir o metro a Alcântara Mar em viaduto (com a desculpa a posteriori do LIOS e sem apresentação dos "estudos" que rechaçaram uma opção estudada no metro há mais de 20 anos e integrando o PROTAML) e não considerar a linha de Cascais como de vocação metropolitana a não misturar com tráfego interurbano, são erros graves em termos de planeamento de uma área metropolitana.

- LRT Odivelas-Hospital B.Ângelo e Odivelas-Infantado - apesar das participações na consulta pública (mais de 500) terem merecido tratamento, não há esperança, face à prática habitual do governo e dos seus missi dominici de virem a ser aplicadas as sugestões feitas. Por exemplo, porquê um LRT com troços à superfície e uma correspondência com a estação do metro de Odivelas ao ar livre,  em vez de investir um pouco mais no túnel integral, se a própria ligação Odivelas-Hospital já prevê 3 km de túnel, aliás poupando em expropriações? igualmente o EIA é omisso na possibilidade de integração da ligação Odivelas-Infantado na grande circular externa prevista no PROTAML; mais informação em:

- novo mapa de expansão com o prolongamento de Telheiras a Benfica - diz a comunicação do metro, com um certo ar displicente escondendo o orgulho por ter um novo mapa de expansão mas ao mesmo tempo com desejo de que sintam  esse orgulho embora sem avaliar se há motivo para ter orgulho, que decorrem "estudos" para avaliar qual a melhor solução para o prolongamento de Telheiras para Benfica. E felizes porque aceitaram a sugestão, quiçá do seu correlegionário da junta de freguesia, de estender a linha até a uma das  estações de Benfica. Inconscientemente recuamos séculos até aos tempos escolásticos do "magister dixit", "estão a decorrer estudos". Então mostrem-nos, não sigam a tradição dos "estudos" da linha circular, os "estudos" do prolongamento da linha vermelha. É evidente o conflito de interesses, se o metro pagou os "estudos" não pode invocar análise independente das suas decisões (fácil demonstrar, no caso da linha circular, foram eliminadas pela administração opções antes de contratado o gabinete que fez os "estudos"). Deixem a escolástica, desde o século XVII que há referendo entre pares, que as conclusões se discutem em tempo útil, sem ocultações.

Mas vamos ao novo mapa, que o "Lisboa para pessoas" teve a amabilidade de divulgar.




Comentários sobre a expansão a Benfica:

1 - mantem-se, apesar do projeto de linha em U   Odivelas-Hospital Beatriz Angelo/Odivelas-Loures-Infantado, a prioridade dada pelos decisores do metro/ministério do Ambiente ao serviço de zonas urbanas em detrimento de zonas periféricas de concelhos exteriores ao  município de Lisboa, sem menor consideração pela população de Telheiras e de Benfica

2 - mantem-se a não atualização do PROTAML e PDMs e a inexistencia de SUMPs conforme as diretivas da União Europeia, sujeitando assim a comunidade da AML, com o beneplácito dos juízes do Tribunal de Contas, aos inconvenientes dum processo de crescimento da rede de transportes públicos por passos desarticulados entre eles e comprometendo uma solução coerente

3 - a adoção da linha circular e o desvio da linha de Odivelas para Telheiras limitam gravemente as opções de expansão da rede de metro. Isto mesmo é ilustrado pelo que aconteceu com o previsto no mapa de 2009 : o prolongamento da linha vermelha de Oriente ao Aeroporto e seguimento para Campo Grande, Telheiras, Pontinha e seguimento para Amadora conforme também previsto quando se projetou o prolongamento a Pontinha e Amadora. A linha de Odivelas terminaria em Campo Grande,  fazendo-se a ligação entre viadutos para a linha circular a nascente da estação e não a poente como está a fazer-se. A linha vermelha seria assim mais um exemplo da síndroma dos decisores que idealizam linhas em U ou circulares, que em pontos decisivos voltam para trás em vez de prosseguir para  as periferias, servindo-se aos cidadãos a ideia de que estas voltas dinamizam o transporte público e atraem os utilizadores do transporte individual.

4 - numa ótica do PROTAML, em vez da linha circular, mais correto seria o prolongamento da linha verde de Campo Grande a Telheiras-Pontinha-CRIL/parque dissuasor -Famões . Sublinha-se que a linha circular inviabiliza esta solução, pelo que é de considerar a transformação, a exemplo do metro de Londres, da linha circular em linha em espiral ou laço, com o prolongamento atrás referido de Telheiras a Famões.

5 - o prolongamento de Telheiras à praça de S.Francisco e de seguimento para Colégio Militar tem o grave inconveniente da curva junto daquela praça ter um raio inferior a 250 m, portanto gerador de desgaste do material circulante e dos carris. Já foi afirmado pelo metro que no seu normativo são acceites curvas de raio 250 m. Sendo verdade, mas apenas porque a proposta que apresentei em 2008 para atualização do normativo, incluindo a subida do limite mínimo para 500 m, foi deixada pela administração, na totalidade, na gaveta.

6 - ressalvando que se discorda da solução linha circular e do prolongamento Telheiras-Benfica, apresenta-se nas imagens seguintes duas opções para evitar a curva de raio excessivamente curto.

6.1 - seguimento da praça de S.Francisco com raio maior pela avenida Cidade de Praga-PMOIII-Pontinha-Benfica/igreja-estação Santa Cruz/Damaia e seguimento para Alfragide e Algés:



6.2 - não seguindo para a praça de S.Francisco, ligação de Telheiras pela rua Fernando Namora-Colégio Militar-Benfica/igreja-estação Santa Cruz/Damaia e seguimento para Alfragide e Algés:






Voltemos à audição da administração do metro na AR:

1 - "vastíssima equipa" - Em primeiro lugar, ressalta do início da intervenção do presidente do metro a palavra "vastissima" aplicada à equipa que tem desenvolvido o projeto do prolongamento da linha vermelha, desde arquitetos e engenheiros eletrotécnicos, como uma validação da sua qualidade. Mais uma vez refiro que nunca se pôs em causa a competência dos colegas que estão a trabalhar no que considero um erro de traçado. Estão a cumprir a sua função de acordo com as instruções superiores de imposição de um traçado do qual não são responsáveis, desde o mirífico endeusamento do LIOS à agressão ao acesso à ponte 25 de abril (não constituindo a nova estação de metro a ligação entre as duas partes separadas pelo acesso, se atendermos aos desenhos do EIA devido aos riscos de travessia rodoviária na saída sul da estação; nem a rotunda pivotante referida pelo senhor presidente do metro parece repor a capacidade de tráfego rodoviário atual no acesso à ponte atendendo à partilha referida no EIA com o tráfego do bairro da quinta do Jacinto) e à fuga como o diabo da cruz de Alcântara Mar (perdoe-se a descrença que o prolongamento a Alcântara Mar do LIOS nem o percurso pedonal à superfície, sejam boas soluções, pese embora a rígida convicção do senhor presidente  do metro de que o serão) . Terá o senhor presidente do metro, que teve uma experiência profissional importante no sistema de autoestradas e num empreiteiro de obras públicas, e igualmente a senhora vogal da administração que o acompanhou na AR, a amabilidade de considerarem que quem escreve estas linhas teve a honra de conhecer algumas "vastíssimas" equipas interdisciplinares com quem executou durante alguns anos a coordenação da inserção interativa das especialidades ferroviárias na obra de construção civil e a preparação dos processos de homologação para colocação em serviço dos novos troços, servindo-lhe essa experiência de escusa por poder parecer-lhe, ao senhor presidente, uma intromissão em funções alheias, quando o faz por imperativo deontológico ao criticar o que a sua experiencia lhe diz que está mal, e porque como cidadão não aprova que se ignorem os procedimentos definidos pela Comissão Europeia para os planos de organização do território das áreas metropolitanas e urbanas (SUMP) , nem que sistematicamente se ocultem da população passos essenciais no desenvolvimento dos projetos escudados em "estudos" pouco escrutinados e condicionados por quem contrata. As muitas reuniões com juntas de freguesia referidas na audição não são suficientes deste ponto de vista, especialmente quando realizadas depois do fecho da consulta pública (embora se saiba que é difícil aceitar as sugestões que se fazem na consulta pública). Como disse o deputado Antonio Proa, o metropolitano teria vantagens junto da população se se abrisse ao diálogo, pese embora a rígida insistência do presidente do metro que os contactos com a CML antes do EIA tudo justificam.

2 - rejeição da ida a Alcântara Mar - sempre se soube no metropolitano que o traçado de túneis em Alcântara não é recomendável por causa do caneiro de Alcântara, pelo que se estranhou a inserção de túneis de metro no PUA de 2012 - assim se reconsidere por esta razão a ligação da linha de Cascais à da cintura - o que se pretendia era a ligação em viaduto com rápida correspondência entre a linha de Cascais e o metro. E não vale a pena falar em impactos visuais e paisagísticos com os exemplos do hospital CUF Tejo, da agressão dos novos viadutos de Campo Grande ou da própria estação de Alcântara Terra no acesso à ponte 25 de abril. Não parece assim relevante invocar o relatório do LNEC, estranhando-se a insistência do senhor presidente do metro em ligações pedonais à superfície com semaforização (com os riscos associados), especialmente quando há uns anos existia uma ligação pedonal em viaduto entre as estações de Alcântara Mar e Terra.

3 - eventual impacto em projetos imobiliários - estranha-se a referência, considerando que o habitual é o  prolongamento do metro valorizar os empreendimentos imobiliários, tanto assim que em casos como o do metro de Hong Kong, as respetivas mais valias financiam o prolongamento

4 - LIOS - por maioria de razão também se considera irrelevante, para a rejeição de Alcântara Mar, a invocação do traçado do LIOS quando no próprio EIA se reconhece que a melhor solução seria o prolongamento da linha vermelha a Algés transferindo a correspondência do metro com a linha de Cascais de Alcântara Mar para Algés (e impondo, como o próprio EIA também diz, meios mecânicos protegidos entre as estações Alvito, Alcântara Terra e Alcântara Mar. Convém recordar que se o LIOS tiver um percurso à superfície, as interferências com o tráfego pedonal, velocipédico e automóvel e as caraterísticas do percurso determinarão um elevado tempo de deslocação entre Algés e Alcântara Terra.

5 - profundidade da estação Amoreiras - eventualmente por deficiência minha de entendimento, a profundidade do troço respetivo não foi questionado pelo facto de ter de passar sob o túnel rodoviário, até porque justificaria um traçado mais retilíneo pela rua Ferreira Borges sem colisão com os restos do aqueduto nem obrigatoriedade de passar pelo Jardim da Parada (eventual aproveitamento dos terrenos do quartel)

6 - agravamento de preços - como já referido, estranha-se que só agora se reconheça que o orçamento tinha sido muito por baixo, como aliás é vulgar, porque vieram as revisões de preços influenciadas pela rotura das cadeias de abastecimento, pela pandemia, pela guerra, pela inflação, e, o que poderia ter sido evitado, por implicações com o traçado do LIOS, com novos traçados no bairro da quinta do Jacinto (Alvito), uma nova rotunda, até imprevisto (?) reforço da muralhas do Livramento. Mas como disse o deputado Filipe Melo, não se encontra fundamento para os 25% da revisão de preços consultando a evolução dos preços de materias primas e de mão de obra (naturalmente porque terá havido suborçamentação)

7 - três empreiteiros falidos - muito curiosa a referência do senhor presidente aos 3 empreiteiros falidos que tiveram de abandonar a obra quando iniciou funções no metro: remodelação para acessibilidades e ventilação das estações Colégio Militar, Areeiro e Arroios. Não se criticam as soluções encontradas até porque resultaram, mas convém determo-nos um pouco nas causas do abandono da obra pelo empreiteiro. No primeiro caso, ainda estava ao serviço quem escreve estas linhas, em vão propus à administração da altura alterações ao caderno de encargos para que não se adjudicasse a proposta mais barata; no segundo caso em vão propus a ligação pedonal coberta à estação da CP ; no terceiro caso em vão propus que não se interviesse no lado norte da estação para que a obra ficasse mais económica. Pena não se aprender com os erros. A propósito da referência ao processo construtivo de transferência de cargas na obra de remodelação de Arroios, como aliás já foi sendo feito ao longo da história do metro noutras estações, sugeria que fosse sistematicamente fornecida informação rigorosa aos interessados através do sítio da internet do metropolitano.

8 - o prolongamento da linha vermelha trará mais 12 milhões de passageiros por ano - curiosa a conclusão. Quando se publicitou a linha circular através do EIA foi anunciado um acréscimo de passageiros de 9 milhões por ano. Sabendo-se que o aumento de passageiros entre 2018 e 2019, sem acréscimo da rede, foi de 14 milhões , ficamos com uma ideia da mais valia da linha circular.

9 - o interface de Alcântara - como já referido, descrê-se, em concordância com o deputado Bruno Dias, da funcionalidade do interface previsto, nomeadamente na ligação às estações da CP Alcântara Terra, Alcântara Mar e Alvito, e aos autocarros. Como o senhor presidente do metro acabou por reconhecer, a diferença de cotas sugere o recurso à solução teleférico, que não é inovadora, existe em muitos locais por esse mundo fora, e repete-se que foi demolido há cerca de 10 anos um viaduto pedonal com tapetes rolantes numa ação de claro atentado à mobilidade urbana por submissão a critérios particulares de empresa.

10 - a casa de Goa e os moradores do quarteirão da futura estação Estrela - registo com apreço os bons resultados nas expropriações temporárias junto da estação Santos, confirmando o historial do metropolitano (se excetuarmos a perturbação visual aos moradores da torre vicentina de Campo Grande). Igualmente registo a tranquilidade do senhor presidente do metro relativamente ao sucesso de futuras negociações com a proprietária do imóvel, a CML. e à participação do metro numa boa solução para a casa de Goa. Por isso deixo também essa espetativa para o encontro de uma boa solução para os moradores do quarteirão da futura estação Estrela em sintonia com a sua junta de freguesia (a atual não é uma boa solução pelas perturbações temporárias e definitivas dos moradores, sendo possivelmente uma boa solução a deslocação da estação, apesar dos inconvenientes, para o exterior do perímetro dos prédios).


CONCLUSÕES 

A rígida insistência com que a direção superior do metro recusa as críticas e repete que as suas soluções são as melhores, que foram realizados "estudos", que não mostra, que o comprovam, e que o diálogo sobre as alternativas de traçado é sempre intenso com as juntas de freguesia antes da apresentação dos EIA justificando assim a sua inamovibilidade, mostra que é inútil a discussão, por mais fundamento técnico que tenham os argumentos utilizados e até mesmo que exista uma lei que determine a suspensão do processo construtivo.

Isso acontece porque o ministério da tutela (já de si uma distorção porque uma rede de metro é uma infraestrutura) e o governo lhe dão a força que os imperadores medievais davam aos seus missi dominici,  e porque os eficientes conselheiros de imagem e "marketing" transpõem para a atualidade a justificação para o exercício do poder, da delegação divina no rei de Bossuet,  para a delegação pelo processo eleitoral nos eleitos, com ou sem distorções na proporcionalidade dos escolhidos.

Sistematicamente são ignorados ou enviesadamente mimetizados os procedimentos participativos dos planos  PROTAM  e  SUMP na definição das redes e dos traçados. O que for construido será útil e os passageiros beneficiarão com os novos troços do metro, mas as soluções poderiam ser melhores.

No entanto, enquanto existir o direito de liberdade de expressão, ele será exercido. 


Infomação relacionada:

http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2018/01/ultima-tentativa-ultima-chamada-da.html










sábado, 14 de setembro de 2019

Uma autarquia dinâmica e uma lista de trabalhos

A câmara de Lisboa é sem dúvida uma autarquia dinâmica. Mas tem um defeito, é demasiado dinâmica, isto é, decide coisas grandiosas sem ouvir os cidadãos e quando eles protestam diz que foi tudo legal, que foram feitas consultas públicas (e é verdade, às vezes, mas de um público muito restrito) e que se for preciso fazem-se umas reuniões de esclarecimento para os "departamentos explicarem as opções tomadas". Esquecem-se de que essas reuniões deveriam ser para os departamentos tambem serem esclarecidos e as decisões serem tomadas depois de consideradas as objeções dos cidadãos. São  incapazes de reconhecer um erro ou uma precipitação nas decisões. Deve ser uma forma de complexo de hubris. Queixei-me uma vez numa sessão pública de que a câmara não dá atenção aos argumentos e factos contrarios às suas estratégias e politicas. Que não, respondeu ofendida a senhora diretora, que todos os processos são desenvolvidos com transparencia, por exemplo, aquele de que se tratava na sessão, que se estava a estudar o assunto com uma entidade credenciada, mas que não podia dar pormenores por isso mesmo. Isto é, os processos são transparentes, mas não se pode saber o que se está a resolver porque os gabinetes de estudos contratados não gostam da luz do sol. De facto, aqueles célebres "estudos" que demonstram que a linha circular do metro é a melhor opção nunca foram divulgados, apesar de pedido publicamente. Pena esquecerem-se da história da ciencia, desde o século XVII que a academia das ciencias inglesa estabeleceu que o que se descobre é para ser conhecido. Pena, este secretismo.

Junto uma lista de locais onde a CML intervem ou tem projetos para intervir, esperando os agradecimentos da população.


Atualização em 14set2019 da lista  

  • Empreendimentos adjacentes à projetada linha circular do metro:
    • Terrenos de Entrecampos
    • Envolvente da estação Campo Grande, nova estação rodoviária em vez de desloca-la para a periferia? Construção de novo bloco a norte da estação?
    • Terrenos da Portugália/Alm.Reis
    • casos da rua D.Luis , projetos da edp, cml e junto do IADE
    • quartel bombeiros Av.D.Carlos I
    • antigo hospital militar principal da Estrela
    • mono do Rato, a esclarecer a legalidade do projeto
    • av.F.P.Melo 41, esclarecidas as condições de autorização do aumento do numero de andares?
  • Remodelação da praça de Espanha
  • colina de Santana – manutenção de valências de saúde, evitar transformação total dos conventos/hospitais em alojamento turistico
  • Matinha - traçado do LRT para ligação a sta Apolónia e Expo? Condomínios fechados?
  • plano de urbanização de Alcantara - revisão do nó de Alcantara, ligação ao terminal de contentores e prolongamento do metro em viaduto com correspondencia com a linha de Cascais; reanalisar ligação à linha de cintura  evitando estação subterranea
  • empreendimento da Tapada do Alvito
  • relação da zona ribeirinha com o empreendimento ribeirinho Pedrouços-Caxias
  • empreendimentos Carnaxide (Aquaterra; outro junto da A5) e sua relação com os planos de expansão do metro de superficie
  • o que se pensa fazer na zona das Comendadeiras/Santos o Novo/Vale de Sto António?
  • casos da rua do Quelhas/Museu da radio(investidor VGPT- http://cidadanialx.blogspot.com/2018/05/o-projecto-novo-para-o-antigo-museu-da.html)/Palácio dos Machadinhos(como se vende um bem público e se perde a sua fruição?investidor família Esteves provavelmente para hotel de charme- https://cidadanialx.blogspot.com/search?q=machadinho)
  • quais os edificios do plano Revive ou suscetíveis de o integrar?
  • Destino dos palacios leiloados pela CML (https://www.publico.pt/2008/12/16/jornal/camara-de-lisboa-vai-tentar-vender-quatro-palacios-e-dois-predios-288127)?
    • Machadinho (3,3 M€?)
    • Braamcamp (1,8M?)
    • Benagazil (1,4M? aeroporto)
    • Pancas Palha (4M?)
    • Ex museu marionetas LgRodrigues Freitas (1,5M?)
  • relação com os planos de expansão das redes de metro e de LRT ou BRT previstos no PNI2030 sem discussão pública efetiva
  • terrenos do metro PMOI – central de camionagem definitiva? Edificios de escritórios não de habitação devido ao cone de aproximação do aeroporto? Transferencia da subestação do metro? Impossibilidade de garagem para algumas composições do metro?
  • Planos para o Parque Mayer?
  • Planos para a praça Martim Moniz?
  • Quarteirão da Suiça? – é o mesmo investidor do Aquaterra de Carnaxide
  • Interferências do plano de drenagem (Campolide-Sta Apolónia , Beato-Poço do Bispo)
  • antigo Hospital militar da Ajuda (largo da Boa-hora), é a cml que decide unidade de cuidados continuados e espaço publico no antigo convento?
  • Terrenos para  a feira popular em Carnide e ligação ao metro?
  • Evolução das propostas da cml para remodelação de 10 praças, para 5 obras para transportes e para obras em 2 zonas ribeirinhas, conforme a Time Out de 4fev2019 (https://www.timeout.pt/lisboa/pt/coisas-para-fazer/conheca-as-novas-pracas-de-lisboa):
    • Praças:
      • Pç Espanha
      • Alto S.João
      • Lg Conde Barão
      • Lg Boa Hora (quais os projetos para o antigo hospital militar?)
      • Pç da Mouraria
      • Lg S.Sebastião da Pedreira
      • Sete Rios  (quais os projetos para os terrenos do metro do PMOI incluindo desativação da subestação de tração?)
      • Lg Rio Seco
      • Alameda do Beato
      • Pç Chile (como compatibiliza com as obras o meto de Arroios?)
    • Obras para transportes:
      • Expansão do metro
      • Corredor verde de Alcantara
      • Estação sul e sueste
      •  
      • Aeroporto do Montijo/remodelação aeroporto da Portela
      • Estação ferroviária subterrânea de Alcantara
    • Zonas ribeirinhas:
      • Ligação parque verde Expo-Sta Apolónia
      • Marginal de Almada





sexta-feira, 17 de junho de 2011

Não em meu nome I - a semi-deusa grega

O título deste texto é retirado do movimento contra o desmembramento da Bélgica.
A intenção do seu uso aqui é exprimir a oposição à agressão ao conceito de cultura e civilização europeias pelas forças policiais em Atenas.
Valha a verdade que é melhor do que os tiros assassinos dos exércitos sírio e israelita neste mês de junho de 2011.
Mas porque não deixam a rapariga em paz?








Possivelmente porque recearam que ela lhes batesse nos escudos, com as mãos nuas, como a rapariga da outra fotografia (uma rapariga para dez policias).
Na verdade, há que recear a força da razão quando só se tem a força física.



A rapariga que está a ser arrastada está a sofrer violencia fisica, recebendo uma pena sem julgamento. Na foto vêem-se ela e mais quatro policias...
Não vale a pena argumentar com os doutores da propaganda que repetirão os argumentos do costume, de defesa da ordem e da propriedade, normalmente dos bancos.
A rapariga foi sumariamente julgada pelo policia e condenada à pena de arrastamento pelos cabelos.
Nunca estive numa situação assim.
O mais perto disso foi num dia 5 de Outubro, talvez de 1966.
Nesse tempo, ir ao cemitério do Alto de S.João ou parar para olhar a estátua de António José de Almeida na Av.Miguel Bombarda no dia 5 de Outubro significava exprimir a oposição à barbárie e à indigencia cultural que nos governava.
Por isso os doutores da propaganda da altura explicavam que a policia de choque do capitão Maltês tinha de intervir.
Lembro-me dos olhos assustados do pobre moço policia, debaixo do capacete de aço, com a coronha da espingarda prestes a bater-me,  mas a tremer  e a pedir-me em voz baixa e aterrorizado : "Vá-se embora".
Já Freud explicou há muito tempo que a violencia é a manifestação da insegurança de quem acha que tem o poder.
Mas não a glória.
A rapariga da camisola encarnada parece uma semi-deusa grega. Fez-me lembrar a Venus de Rodes, com a diferença de que era a própria Venus que esticava os seus cabelos.

Zeus terá querido abusar dela, da semi-deusa da manidestação. Ter-lhe-á prometido crédito fácil, acessórios para a sua feminilidade, cavalos à disposição no motor de um carro bonito e promessas de poder. Mas a rapariga repeliu os avanços de Zeus, por demais conhecidas que são as suas práticas, recusou a prestação de serviços que os empréstimos pressupunham e acabou arrastada pelos cabelos nas ruas de Atenas. Atenas, a cidade que acabou com a ideia formosa da confederação grega, com sede em Dilos, a pequena ilha ao lado de Mikonos, quando a ganancia dos seus financeiros impediu que o tesouro da confederação fosse posto ao serviço de todos os gregos da confederação. Depois foi o que se viu, as guerras do Peloponeso e a impertinencia dos invasores persas.
Era contra isso, contra a incompreensão do que é a Europa, a sua cultura e a sua civilização, que as raparigas protestavam.
Os doutores da propaganda acham que não (saberão o que significa Dilos?), e que é preciso manter a ordem.
Não o farão em meu nome, nem no das duas raparigas.
Preocupem-se mais em baixar o coeficiente de Gini e em cumprir a declaração universal dos direitos humanos, e não se dêem tão importantes ares quando aparecem nas televisões.
Porque já evidenciam sintomas da sindroma de Hurbis (do grego falta de humildade e excesso de sobre-estima; sindroma estudada por David Owen, ver em
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2011/06/sindroma-de-hubris.html )


Com a devida vénia ao DN pelas fotografias


PS - Se critico os hipócritas, não devo ser hipócrita (mais uma palavra grega). Tenho de concordar que podemos ter de aceitar exceções temporárias ao cumprimento da declaração universal dos direitos humanos. Pode haver situações em que se justificaria arrastar uma cidadã pelos cabelos. 
Se o policia estivesse a arrastar a cidadã que não queria ir trabalhar para uma unidade produtiva de bens transacionáveis indispensável para a recuperação da economia grega, com redistribuição correta das mais valias, estando ela a fazer falta no seu posto de trabalho, então, eu concordaria com o uso da força. 
Mas com o desemprego que vai por aí, não creio que seja o caso da rapariga grega. 
Ela provavelmente não tem um posto de trabalho à espera dela para produzir. 
E o policia tambem é policia porque não tem um posto de trabalho à espera dele. 
Então é mais um exemplo do abissus abissum (abismo atrai abismo, ver Camilo Castelo Branco, ou como antes da lei de Fermat Weber já se tinha a intuição de que qualquer coisa que cresce tem tendencia para atrair mais coisas para se alimentar). 
O desemprego estimula manifestações de rua, que por sua vez estimulam o crescimento da policia, que por sua vez estimula o crescimento de cidadãos que não estão a produzir bens transacionáveis.

sábado, 8 de outubro de 2011

Novela do PET - dia 8 de Outubro

Leio no DN o comentário de Perez Metelo sobre o plano.
Engraçado como seguiu o mesmo caminho que o meu comentário de dia 7.
Primeiro ao gabar o powerpoint de 7 folhas com as medidas cristalinas.
Depois citando as doutas linhas gerais ("numa primeira fase, reestruturaremos o setor empresarial do estado"..."focar  a gestão na contenção dos custos e na atração de novos clientes"... "o mar é um ativo estratégico impar" ... "a reorganização do modelo organizativo" ... "a obtenção de sinergias".
Mas terminando, o comentador, aliviado por os contribuintes se aliviarem da carga dos passivos acumulados, mas fazendo a pergunta assassina:  por que bulas será a cegueira facciosa e emproada capaz de anular a noção do ridiculo?
Isto é, é Perez Metelo mais impiedoso do que eu.
De facto, há uma cegueira emproada quando se declara, como o senhor ministro declarou, que se estão a fazer reformas e por isso está a haver gente incomodada.
Quaquer manual de psicologia explica este fenómeno.
É o complexo de Hubris e o princípio antrópico , que sobrevem quando o reformador sente a segurança do poder e subordina a realidade ao que ele próprio quer.
Mas podia poupar-nos a generalidades tão redundantes como aquelas da obtenção das sinergias e da contenção de custos em vez de explicar quais as estratégias para atingir esses objetivos e qual a fundamentação.

Ao fim de um dia do triste espetáculo na comissão parlamentar em que um deputado insiste na pergunta, a que o ministro não responde, por que privilegiam os transportadores privados (caso da Fertagus por exemplo), e porque não se informa melhor, vive-se o receio de que as fusões sejam apenas cortes nos quadros de pessoal e a entrega da operação às Transdev, Arriva e homólogos.
Até já se fala na REFER prestar serviços de manutenção às infra-estruturas do metro e da Carris (será a síndroma do alguém entrou na sala de comando e desatou a carregar em teclas ao acaso?).
Há questões de segurança em causa, e de rapidez de reposição do serviço após perturbações, pese embora o apetite de empresas privadas em prestar serviços de manutenção (deduz-se que a REFER controlaria os concursos para prestação de serviços e não a manutenção), não diga depois que não foi avisado.
Pode ser que eu não esteja a ver bem o problema, mas tenho pena do esforço de muita gente boa que não se revê nestas ameaças.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Acidente em Ancara na linha de alta velocidade

https://en.wikipedia.org/wiki/Mar%C5%9Fandiz_train_collision

https://ahvalnews.com/turkey-train-crash/train-crash-ankara-was-accident-waiting-happen

https://en.m.wikipedia.org/wiki/Ankara_train_collision


A análise deste acidente interessa muito a Portugal. Já está confirmado que esta linha de alta velocidade não dispunha de ATP 
(Automatic train protection) referido na noticia como o sistema de sinalização de proteção automática da circulação, Efetivamente, como os técnicos e os sindicalistas turcos afirmam, é condição indispensável para uma operação segura. Mas o ministro dos transportes disse que não. O comboio de alta velocidade foi indevidamente encaminhado para uma via ocupada por uma locomotiva de inspeção de via. O operador terá cometido o erro interpretando mal uma informação por rádio. Só ignorantes podem achar que uma linha de alta velocidade se explora com cantonamento radiotelefónico. Junto á teoria economicista de reduzir o pessoal, criaram-se as condições para o acidente. Não devem marginalizar-se os técnicos e secundarizar os seus pareceres com critérios eleitoralistas ou outros de natureza politiqueira. Escrevo isto numa altura em que o governo português demitiu o administrador do pelouro tecnico da Transtejo e o diretor de manutenção da EMEF , além de persistir na sua politica de complexo de "hubris" relativamente aos planos de expansáo dos metros e da ausencia de planos para ligação à Europa em bitola UIC, para não falar das cativações na manutenção, coisa muito grave.