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segunda-feira, 3 de maio de 2010

As bodas de Fígaro, ou Le nozze de Figaro, ou La folle journée

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Lembram-se dos excelentes espetáculos de ópera no S.Carlos com Niobe, rainha de Tebas?
Ver em           http://fcsseratostenes.blogspot.com/search?q=s.carlos
Pois imaginem que as Bodas de Fígaro, a última ópera da direção do diretor demitido pela senhora ministra, voltou a ser um sucesso. Além de que é um prazer ver o soprano português Joana Seara num dos principais papeis (Susana).



O público do S.Carlos não tem andado muito entusiasmado com este tipo de produções.
É uma pena.
Como Beethoven dizia, não era o critério dos espetadores que ele seguia para escrever sinfonias.
É uma pena perder-se a colaboração do diretor demitido, que evangelicamente se contentou com uma indemnização igual a uma pequena fração do correspondente ao tempo que lhe faltava para o fim do contrato (facto logo aproveitado pela senhora ministra para cantar aos ventos que tinha feito um grande negócio).
O novo diretor certamente conseguirá produções razoáveis, mas é uma pena perder-se a colaboração com o teatro de Erfurt.


É possível que a maioria dos espetadores não goste da explicitação do que Lorenzo da Ponte escreveu e Mozart compôs: a reivindicação da igualdade pelas classes do povo e do respeito pela mulher.
A ópera estreou-se em 1786, data que, como se sabe, está perto da revolução francesa.
Mas está lá escrito com todas as letras:
- referindo-se ao direito do senhor feudal sobre as noivas: “Renunciando (o senhor) a um direito que ofende e ultraja” (a un dritto cedendo, che oltraggia, che offende).
- e também: “No mundo, meu amigo, sempre foi um perigo medirmos forças com os grandes: dão noventa por cento e ganham mesmo assim” (nel mondo, amico, l’accozzarla co’grandi fu pericolo ognora, dan novanta per cento e han vinto ancora).
- e mais: “sob uma pele de burro podemos fugir às vergonhas, aos perigos, ao ultraje e à morte” (ch’onte, pericoli, vergogna e morte col cuojo d’asino fuggir si può)
- e uma pequena homenagem aos amores adolescentes: “já não sei o que sou, nem o que faço…qualquer mulher me faz corar, qualquer mulher me faz palpitar” (non so più cosa son, cosa faccio…ogni donna cangiar di colore, ogni donna mi fa palpitar - ver em:
http://www.youtube.com/watch?v=hQdT7DZNAcY  ).

Convenhamos que para século XVIII, na catolicissima e imperial Viena, era uma mensagem forte de libertação social e do pensamento.

O que me leva a achar precipitada a demissão do diretor pela senhora ministra, citando abusivamente os espetadores (de cujo conjunto faço parte), como se fosse o presidente de um clube de futebol que perdeu um jogo (o Morcego) e ganhou os outros com táticas e estratégias de que muitos adeptos não gostam (mas não todos).


O que me leva a formular votos para que o senhor presidente da Republica não deixe o camarote principal vago, e assista a um dos últimos espetáculos, até dia 8 de Maio de 2010, concentrando a sua atenção naquela frase “nel mondo, amico, l’accozzarla co’grandi fu pericolo ognora, dan novanta per cento e han vinto ancora” e se abalance a abençoar uma taxação de rendimentos que tenda para a igualização dos cidadãos.
Como diz o mote da revolução francesa.
E como se deduz da observação de que 90% dos rendimentos se concentram em 10% dos cidadãos e muito maus cidadãos serão, tão maus que é mesmo melhor mudar de país, se se assustarem e fugirem com os seus investimentos por lhes aumentarem as taxas.

Que viva Mozart.
As suas óperas serão extremamente atuais enquanto a desigualdade dos rendimentos for tão grande.
Podem comprar os bilhetes em:
http://www.saocarlos.pt/gca/?id=654


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segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Economicómio XXXVII - Uma situação explosiva 1

Uma situação explosiva

Com a devida vénia, retiro do Diario de Notícias de 2 de Janeiro de 2010 a descrição duma situação explosiva, com números do Banco de Portugal.
Provavelmente existe aqui uma analogia com a pólvora. O nitrato não explode sem um poucochinho de enxofre e outro de carvão.
Já temos o nitrato da dívida externa a que juntámos o enxofre da criminalidade/desemprego/insucesso escolar. Resta misturar o carvão que se deixa à imaginação do utilizador.

1 - Dívida da banca nacional ao estrangeiro (não esquecer que a banca pede empréstimos ao estrangeiro para emprestar aos cidadãos portugueses a uma taxa superior):
em Setembro de 2009: 47% do PIB (vá que em Setembro de 2008 era 55%;
PIB à volta de 160000 milhões de euros)

2 – Dívida pública ao estrangeiro (venda de títulos por exemplo):
em Setembro de 2009: 53% do PIB (mal que em Setembro de 2008 era 45% e
que em Dezembro de 2009 é capaz de ser 80%)

3 – Dívida das empresas privadas ao estrangeiro:
em Setembro de 2009: 12% do PIB (mal que em Setembro de 2008 eram
credoras de 0,5%)

4 – Dívida total externa:
em Setembro de 2009: 112% do PIB (mal que em Setembro de 2008 era 94%)

5 – Défice externo (importações-exportações):
em Outubro de 2009: 7% do PIB (vá que em Outubro de 2008 era 9%)

6 - Juros da dívida pagos em 2009 pela administração pública:
5000 milhões de euros (3% do PIB)

7 – Dívida das empresas públicas:
50000 milhões de euros

8 – Dívida de Estradas de Portugal, CP, Metro de Lisboa, Metro do Porto:
25000 milhões de euros

9 – Total de depósitos de cidadãos portugueses em contas “off-shore”:
16000 milhões de euros (excluídas movimentações com
sobrefaturações de falsas empresas, tipo operação furacão;
por curiosidade, o governo holandês recebeu dos seus
concidadãos, como declaração de depósitos “off-shore”, cerca
de 1600 milhões de euros)

10 – Considerando os 4600 milhões de euros movimentados pelo Multibanco em Dezembro de 2009 e os 16000 milhões de euros em “off-shores”, verifica-se que será mais uma questão de desequilíbrio distributivo e de mecanismos institucionais paralisantes do que de insuficiência de dinheiro para investimentos reprodutivos

11 – Moral da história:
Devíamos aplicar os métodos de abordagem dos problemas coletivos descritos na “Sabedoria das Multidões”. Parafraseando o autor, nenhum de nós tem uma solução para isto melhor do que o conjunto de todos nós. Apoiam?

Nota: A extensão das minhas limitações na compreeensão dos mecanismos contabilisticos faz-me passar vergonhas destas (a ideia dos especialistas também é não deixar que os leigos comentem estas coisas, porque os comentários acabam sempre em: "se os especialistas não são ignorantes, porque deixaram as coisas chegar a este ponto?") . No ponto 4, eu pensaria que a dívida total externa seria a soma das parcelas anteriores. Mas os números do Banco de Portugal não são 112% do PIB mas sim 108.9% do PIB (em Setembro de 2009), de modo a resultar o célebre indicador do défice , que em Setembro de 2009 seria de 8,9% do PIB. Assim, isto parece um pouco nebuloso. Vou ter de me informar como é que se calcula o PIB e o défice.