Mostrar mensagens com a etiqueta reforma. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta reforma. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O choro dos Deolinda III, o professor de economia, e o meu choro

O professor de economia que escreve na revista semanal do DN  reafirma que vivemos num sistema de reforma do tipo pay and go, isto é, os descontos dos ativos pagam as reformas dos reformados,  e termina a sua crónica assim: se os jovens no futuro se recusarem a pagar a reforma dos seniores, quem os condenará por isso?
Pode ser uma interpretação do choro dos Deolinda, quando dizem que "esta situação dura há tempo demais" (parece-me a música melhor que a letra).
Vou ter de me lamentar, daí o choro no título.
Lembro-me do filme de Chabrol, em 1974, para uma série televisiva de históras insólitas: Les gens de l'été - as pessoas do Verão, sobre uma história de Shirley Jackson.
Um casal de reformados há anos que passava o verão numa pequena povoação, idílica e  campestre, do Puy de Dôme. Naquele fim de verão deixaram-se ficar. Os aristocratas da terra já tinham dado a festa de despedida e já tinham regressado a Paris. O dono do minimercado, que tinha sido tão simpático a ajudar a pôr a garrafa de gás no porta bagagens, no dia seguinte insinuou que estariam melhor em Paris do que ali. Os habitantes da terra consideravam que já tinham feito  sua obrigação durante todo o verão a atender com gentileza os burgueses de Paris; já tinham merecido assim o dinheiro que eles deixavam. Os velhos que se fossem, portanto. Mas de Paris  a filha responde pelo telefone que se deixem estar, como quem diz que têm muito que fazer e não lhes podem dar atenção. Chabrol mostra os olhares impacientes dos habitantes, sempre a interrogar, quando se vão embora, e o desespero dos velhos que decidem deixar a garrafa de gás aberta.
Uma solução à Stefan Zweig, só que este deixou escrito que se suicidava, em 1942, por não ter forças para combater a barbárie do nazismo, a oficialização de que uns são diferentes de outros, mas que tinha confiança nos jovens para que fossem eles a fazer esse combate.
Nos tempos que correm acha-se natural, pelo menos o professor de economia achou, que os jovens deixem de  pagar as reformas dos velhos.
Mas não penso numa solução tão radical por tal razão, tipo balada de Narayama.
Pensemos um pouco, e uma nova geração tão bem preparada certamente que compreenderá este raciocínio.
Na década de 70 do século passado havia, suponhamos, 3 ativos a pagar a reforma de 1 reformado, aliás pequena, a reforma.
Agora, nos anos 10 deste século, há 1 ativo a pagar a reforma de 1 reformado.
Deixemos de lado esta verificação tão simples: foram os seniores que contribuiram para tão elevados níveis de desemprego e para tão reduzidas taxas de natalidade? foram os seniores que levantaram obstáculos à plen integração do simigrantes, especialmente dos mais qualificados? Ou estamos a ser vítimas dos especuladores internacionais do género do Lehman Bros ?
Vejamos antes: houve mais 2 ativos, para alem de mim, que nos anos 70 pagaram a 1 reformado. Quer dizer que não foi preciso tudo o que eu descontei para sustentar o referido reformado, que por sua vez também tinha descontado na sua vida ativa. Sobrou dinheiro. Eu ingenuamente pensava eu que os meus descontos tinham servido para investir e para obter rendimento, que as reformas não vinham só dos descontos dos ativos num dado instante.

Terá razão o professor de economia?
Por essa ordem de razões, a que departamento do ministério das Finanças devo dirigir-me para reclamar o diferencial entre o que me pagariam no mercado de trabalho da altura e o que me pagaram durante os três anos de serviço militar obrigatório? E a dívida para os que não tiveram a minha sorte e estiveram mesmo no teatro da guerra colonial? E a dívida para as famílias dos que morreram nessa guerra ainda mais estúpida do que as outras?

Mas não vale a pena discutir, porque não dispomos de dados completos.
Valia mais a pena aplicar o artigo 22 da Declaração Universal dos Direitos Humanos: 
"Toda a pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social; e pode legitimamente exigir a satisfação dos direitos económicos, sociais e culturais indispensáveis, graças ao esforço nacional e à cooperação internacional, de harmonia com a organização e os recursos de cada país."

Mas como vão dizer que o país não tem dinheiro para satisfazer este artigo, vamos esperar o próximo movimento da geração Deolinda. No fundo, o lugar-comum continua válido: o futuro pertence-lhes.

Nota: segundo os meus recibos durante a vida ativa profissional, a taxa social dos meus descontos foi, durante grande parte do tempo, 35% do salário bruto.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O preconceito da reforma

Com a devida vénia ao DN, remeto para o artigo sobre as reformas em Portugal:

http://dn.sapo.pt/bolsa/emprego/interior.aspx?content_id=1743268

Conviria combater o preconceito que a comunicação social e alguns economistas  nos querem pôr a pensar , de que os portugueses são uns oportunistas que trabalham pouco e se reformam muito cedo.
Tentei contrariar o preconceito no texto de 29 de Março de 2010:

http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/03/leitura-do-dn-no-domingo-28-de-marco-de.html

Hoje, o DN vem dizer que a idade média efetiva da reforma em Portugal está a subir (63 anos) e que a idade média na UE é inferior, além de que a esperança de vida em Portugal é menor do que a média da UE.
Não é para vitimização, é para contrariar o preconceito. Que o aumento da despesa pública com a segurança social não é a principal causa do estado das coisas.
Números, considerando uma população ativa de 5,5 milhões:
reformados:               1,9 milhões
por sobrevivencia:      0,7    «
por invalidez:              0,3    «
Podemos ter baixa produtividade, mas também não é por aí que o gato vai aos filhoses (como dizer isto em inglês, para que os economistas dos centros orientadores que formatam os nossos economistas, o compreendam? que o banditismo financeiro pode não explicar tudo, mas que tem a parte de leão no estado atual das coisas, tem).

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Almoço na esplanada da Gulbenkian 8 - o jantar da despedida

O nosso último almoço na esplanada da Gulbenkian foi nostálgico, no preciso dia seguinte ao do jantar de despedida do meu amigo.
Despedida porque está à espera da carta da Segurança Social para iniciar a sua reforma.
Ele ainda é da escola do antigamente, quando se pensava que os técnicos com profissões que exigem elevada especialização e que estão relacionadas com a segurança precisam de muitos anos numa empresa. Para apreender conceitos, o que demora muito mais do que aprender a dominar o funcionamento de equipamentos e de sistemas. Mas os gestores de agora (que não dominam conceitos, nem sistemas, nem equipamentos) acham que se deve mudar de emprego frequentemente. O que vale é que ainda há muita gente que não lhes faz a vontade.

O jantar foi o que a simpatia dos colegas é capaz de fazer, um ritual a que as pessoas se sentem obrigadas para homenagear a nostálgica passagem à reforma e para desejar felicidades, enquanto não chega a vez delas.

E eis que no meio do almoço na esplanada da Gulbenkian com espargos verdes, a eterna fatia de quiche lorraine , ovos verdes e tajine de ameixas, amendoas e pinhões, o meu amigo puxa de um papel e mostra-me o discurso que leu aos amigos e colegas, diz ele para lhes deixar umas pistas para a vida nas empresas:



                             O Discurso do Não             em 8 de Dezembro de 2010

Sempre fui um mau aluno nas orais.
Sempre tentei dispensar na escrita.
Também por isso precisei de mais 2 anos para acabar o curso.
Assim, não admira que esteja a ler este discurso para vos agradecer a vossa presença em vez de fazer um agradecimento de improviso sem papel à vista.
Esta é a despedida, predita facilmente, de dois colegas que têm em comum um grande respeito pelos conceitos da engenharia, em oposição à facilidade das manobras de diversão e da fuga para o predomínio do virtual sobre o real, da ilusão da imagem sobre o conteúdo, e do acessório sobre o essencial.
Peço portanto desculpa por vos pedir a vossa atenção para um discurso que pretende transmitir a quem fica algumas ideias que possam beneficiar-vos, e que resultam da experiencia.

O discurso é sobre o Não

Não se preocupem com a ciência nem com a parte técnica – lembrem-se de que quem toma decisões também não as utiliza
Não percam tempo com a lógica das decisões; vejam antes donde sopra o vento
Não deixem o conteúdo sujar a imagem, porque é a imagem que convence quem não conhece o conteúdo
Não esperem que as razões do essencial predominem sobre o acessório, porque o acessório não cansa tanto a cabeça
Não se isolem do grupo mais bem posicionado porque assim poderão estabelecer melhor os vossos objetivos.



Ah! Mas reparem bem que este é um discurso do Não.
Por isso não façam o que estes 5 Nãos disseram.
Digam antes sim a estes sins:

Criem laços.
Criem laços entre vós.
Criem laços entre vós e aquilo que fazem.
Criem laços entre o que fazem e a comunidade e as pessoas da comunidade, cujo bem estar e o usufruto dos bens e serviços produzidos é o fim último daquilo que vocês fazem
Criem laços entre a ciência e o que fazem
Ponham hipóteses, recolham os dados e os factos
Criem laços entre uns e outros de vós e entre o que uns fazem e o que os outros fazem.
Criem laços.
Não se importem, os laços são a essência, a imagem é o acessório.
Os laços são a solidariedade, quer no sucesso, quer no insucesso.


E, para finalizar, como não consigo cantar, sugiro-vos que pesquisem no Google, escrevendo “youtube everytime we say goodbye I die a little”; basta escrever “everytime we say”, e oiçam, por exemplo, Ella Fitzgerald a dizer isso mesmo, que dizer adeus é morrer um pouco, por isso é melhor não dizer adeus.


Everytime we say goodbye, I die a little.




                           

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Hoje anuncio que me despeço

Uma amável comentadora deste blogue já tinha cometido a inconfidência de revelar a proximidade do termo da minha vida profissional .
Talvez este blogue tenha facilitado a transição, que tenha ajudado a preparar a nova forma de vida, que espero seja ativa, mas sem compromissos profissionais.
Não me iludo com a ideia de ir vender “know-how” e pôr a render a experiencia adquirida.
Os compradores de agora compram outras ilusões, que a experiencia desacredita o fator de produção mais concreto.
Este é o tempo da inovação e da imagem, em detrimento da comprovação e do conteúdo real. E já vem tudo feito.
Por isso, com a satisfação de ter vivido o tempo da nossa integração na comunidade europeia e de ter assistido à consolidação do sistema de segurança social, em sintonia com o artigo da Declaração Universal dos Direitos do Homem, vou , sem beliscar a minha consciência, porque nunca quis chegar-me aos degraus e aos lugares da frente, libertar a minha empresa da obrigação de me pagar salário.
Por isso leio, como se quisesse que pudesse ser meu, este poema de Tolentino Mendonça:

Sobre um improviso de John Coltrane

Ainda espero o amor
Como no ringue o lutador caído
Espera a sala vazia

Primeiro vive-se e não se pensa em nada
Não me digam a mim
Com o tempo apenas se consegue
Chegar aos degraus da frente:
É difícil
É cada vez mais difícil entrar em casa

Não discuto o que fizeram de nós estes anos
A verdade é de outra importância
Mas hoje anuncio que me despeço
À procura de um país de árvores

E ainda se me deixo ficar
Um pouco além do razoável,
Não ouvem? O amor é um cordeiro
Que grita abraçado à minha canção

(José Tolentino Mendonça, Baldios, ed. Assírio & Alvim)


Vou trocar a minha casa em Lisboa por uma casinha térrea com um terreno à volta, com frisos azuis, na região de Kuçadaci, na costa ocidental da Ásia Menor, mesmo em frente da ilha de Samos.
Vou encher os olhos com o azul do Egeu e sentar-me nas ruínas romanas e gregas.
Como foi possível aos gregos antigos libertarem-se da ocupação exclusiva com a alimentação das populações e a produção de bens e o transporte entre ilhas, com os barcos e os meios de produção de que dispunham?
Como conviveram os escravos, os matemáticos, os filósofos, quando o clima convidava à inação?
Como foi possível sintetizar toda a cultura nascida para benefício de todos nós na região do Eufrates e do Tigre, de Babilónia e de Susa?
Quando a nós próprios nos custa fazer os cálculos dos juros compostos e só no século XVIII se conseguiu igualar a precisão do cálculo do arco do minuto da circunferência terrestre que Eratostenes conseguira no século II antes de Cristo…
Posso viver em Kuçadaci porque finalmente a Turquia foi admitida na União Europeia.
Mas também porque finalmente o PKK viu satisfeita a sua reivindicação de autonomia dos curdos, passando por cima do traçado disparatado das fronteiras que as tropas do império britânico impuseram aos povos da região a seguir à vitória na primeira grande guerra.
Irei à praia em Chipre sem sair da união europeia , mas também em Gaza, agora que os fundamentalismos do lado de Israel e do lado da Palestina cederam finalmente o passo aos tolerantes.

Bom, talvez dê um saltinho a Teerão, para matar saudades .
Por lá estão a construir o caminho de ferro Ancara-Damasco-Bagdad-Teerão-Kabul-Islamabad-Nova Deli e as mulheres já andam de cabelos soltos.
Finalmente.
Vai ser uma linha que não vai bater recordes de velocidade; não vão ser mais de 300 km/h , mas vai funcionar bem , certamente.
Material circulante chinês, com elevada probabilidade.
Serão 10 horas para ir de Ancara a Nova Deli sem ter de tomar o avião.
Os técnicos sempre se entenderam melhor do que os políticos para bem dos povos e para a compreensão entre eles.

Desde que o lucro deixou de ser a primeira prioridade das grandes empresas mundiais, que as transações bolsistas em qualquer mercado são taxadas de forma inversamente proporcional ao indicador de qualidade de vida e satisfação das populações mundiais, que o sigilo bancário in ou off-shore acabou, e que os governos começaram a aplicar a Declaração Universal dos Direitos do Homem, os conflitos foram desaparecendo e as comunidades concentraram-se no trabalho para o bem comum.
Espero viver ainda o suficiente para fazer a viagem a Nova Deli.
Não me esquecerei de descer em Bagdad e fazer um desvio por Babilónia, Susa e Persépolis até Pasargada, a rever todas as gravuras do meu livro de história antiga do próximo oriente e a encontrar Manuel Bandeira (Vou-me embora pra Pasárgada, aqui eu não sou feliz, lá a existência é uma aventura de tal modo inconsequente que Joana a Louca de Espanha, rainha e falsa demente, vem a ser contraparente da nora que nunca tive … Em Pasárgada tem tudo, é outra civilização, tem um processo seguro de impedir a concepção, tem telefone automático, tem alcalóide à vontade, tem prostitutas bonitas para a gente namorar. E quando eu estiver mais triste, mas triste de não ter jeito, quando de noite me der vontade de me matar - lá sou amigo do rei — terei a mulher que eu quero na cama que escolherei. Vou-me embora pra Pasárgada.)
Mas voltando à realidade, já vai avançado o projeto da linha de Nova Deli para Pequim.
Más notícias para as companhias de aviação; mas os consumos e as emissões também já estavam insustentáveis.

E boas perspetivas para o período de reforma que se avizinha.



PS – Se o leitor teve a paciência de chegar até aqui, duvidando certamente da posse em plenitude das faculdades mentais do autor destas linhas e citações, merece ser recompensado com um esclarecimento.
O autor apenas utilizou uma figura de estilo que equivale à caricatura no desenho.
Acentuando e exagerando traços de modo a perceber-se bem a diferença entre a realidade e aquilo que desejaríamos ser possível, imitando canhestramente o que Manuel Bandeira idealizou no seu poema.
E se concorda com o autor que a diferença é de facto incomensurável, provavelmente partilhará com ele o pensamento de que ao longo dos anos os dirigentes políticos, económico-politicos e religiosos nos foram conduzindo a todos à situação em que estamos, ao mesmo tempo que sistematicamente repetiam que eram os eleitos e os melhores para tomarem decisões, pelo que esta história nos ensina que devemos antes ser nós todos a tomar as decisões, de acordo com os métodos que não são do autor, mas de que já vos tem falado ao longo deste blogue.