sábado, 30 de maio de 2015

a rapariga do tuk tuk

Dedicado aos utilizadores da estação Baixa-Chiado e às imigrantes, que são uma promessa de melhores dias, uma hipótese de renovação da população envelhecida e de compensação dos jovens emigrantes. Outras imigrantes terão filhos, insistirão por que estudem e tenham sucesso nas escolas. Esperança no futuro.


A rapariga do tuk tuk


O miradouro de Santa Catarina faz parte da lista de locais por onde passeio a inutilidade da minha reforma.
Gosto de ver aquela pedra, embora não admire o mito do Adamastor, e de espreitar o Tejo, parcialmente encoberto mas visível parte do estuário e a barra.
O miradouro é agora ponto de encontro de turistas e de juventude desocupada. E também de reformados, como eu, que me iludo que combato a inutilidade que referi com tentativas de escrever qualquer coisa que me ligue à minha vida ativa passada.
Por isso nos meus passeios de reformado vou pensando em histórias que mesmo remotamente possam ser associadas às estações de metro próximas.
Pensei que a rapariga do tuk tuk que estacionava na parte sobranceira do miradouro, não longe da estação Baixa-Chiado, pudesse ajudar-me.
Sentada no seu veículo, de blusa branca contrastando com o rosa do tuk tuk, calções claros e ténis brancos, parecia aguardar clientes, por entre a miríade de turistas que por lá passava. 
De óculos escuros, o cabelo apanhado atrás, a cabeça orientada para a ponte 25 de abril a ocidente,  pousado nos joelhos um smartphone, cheio de ligadores e de fios abraçados por elásticos, certamente de elevada capacidade, em termos de processamento e de velocidade de transmissão, os dedos de ambas as mãos moviam-se com presteza e os lábios pareciam acompanhar uma canção, mas não era música que ela ouvia.
Acordei com ela um passeio até Belém, à zona dos museus, e volta. Eu queria estabelecer a relação entre o serviço dos tuk tuks e a utilização do metropolitano pelos turistas naquela zona da Baixa. E ressaltar a falta que faz uma ligação rápida entre o Chiado, com o seu museu de arte contemporânea e igrejas ricamente barrocas e setecentistas,  e os museus da zona de Belém, Etnologia, Marinha, Arqueologia, Coches, passando pelo museu de Arte Antiga.
Estranhei o ligeiro atraso com que respondia às minhas perguntas, como aquelas correspondentes de televisão nas reportagens por satélite, e o sincopado com que falava, mas como lhe notei um ligeiro sotaque, abrindo muito as vogais no fim das palavras e arredondando anasaladamente os ditongos, ao princípio atribui esse atraso à dificuldade natural de uma jovem estrangeira com o português.
Enquanto ela conduzia, fui conseguindo perceber que vinha de Kazan, no Tartaristão, filha de mãe russa e pai tártaro.
Sorriu contente quando lhe disse, Kazan, Kazan, gritava Ivan o Terrível no filme de Eisenstein.
- Sim, sim, fomos conquistados no século XVI, por Ivan o Terrível.
Tatiana, sempre com o seu sotaque e a fala sincopada, respondendo depois de um hiato de segundos e movendo continuamente os lábios, explicou-me porque decidira abandonar a sua terra, depois do assassínio do pai, pequeno empresário, por máfias dos negócios. Não encontrara companheiro que valesse a pena para enfrentar o caos, a anarquia total que se instalara. Todos os jovens eram desinteressantes e caiam no alcoolismo antes dos 30 anos. Passara pela Grécia, pela Itália, por Espanha, e agora estava em Portugal.
Tirou os óculos e virou-se brevemente para trás - agora podemos falar mais à vontade, estão no intervalo - Apreciei os seus olhos verdes, provavelmente devidos à mãe, e as maçãs do rosto risonhas e salientes, do seu lado asiático. - Graças à informática e ao meu jeito por línguas consegui sempre ganhar a vida e viajar muito. Uso a rede de alojamento couchsurfing. Gosto de conhecer as pessoas. Gosto dos portugueses. Estive nos Açores 6 meses. Agora em Lisboa monto empresas start up com aplicações para smartphones em plataformas heterogéneas geograficamente dispersas. Já tenho ganho alguns concursos.
Percebi que estava diante duma empresária de sucesso no campo da informática de programação Android e Java, utilizadora frequente da rede do metropolitano, entre a residência numa comunidade russa na zona de Arroios, a incubadora de start ups perto do Terreiro do Paço, e a base do seu tuk tuk no Chiado.
Num instante demos a volta à praça de Belém e Jerónimos.
E se já estava admirado, mais admirado fiquei quando ela me explicou que tinha estado a servir de intérprete, daí o movimento contínuo dos lábios atrás de um microfone direcional com filtro de ruídos ambientais, numa reunião de negócios, ou melhor, numa teleconferência, entre um importador russo e um exportador americano, cada qual no seu país. Daí as suas respostas sincopadas e diferidas. A plataforma de comunicação tinha sido desenvolvida por ela.
Mas não era tudo. Tinha encontrado num dos concursos de start ups a sua alma gémea, um jovem português que neste momento se encontrava na Califórnia, a trabalhar numa subsidiária da Google no projeto dos carros de condução automática. Por isso usava aqueles óculos escuros, na realidade um minicapacete de realidade virtual em cujas lentes podia ver as recomendações do processador da condução automática, com base nos sensores de bordo e na ligação de localização precisa por GPS, em função do contexto que rodeava a trajetória do tuk tuk. Era um programa em ensaios reais, subrotina do programa de condução automática integral.
Tatiana era então quase um robô multitarefa com janelas de tempo partilhado. Uma criação espantosa da Natureza.
Que me conduziu em segurança de volta à pedra do Adamastor.
Despedi-me com um sonoro - Zdorovia, Tatiana - na esperança de um abraço apertado e dois beijos eslavos.

Mas não, Tatiana riu-se muito, os olhos verdes rasgados sobre as maçãs do rosto tártaras, acenando com o braço esquerdo em movimentos rápidos e circulares enquanto com a mão direita atendia o recomeço da reunião de negócios russo-americana.

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