segunda-feira, 9 de abril de 2018

Sociedade civil, episódio de 9 de abril de 2018 - Pontes

https://www.rtp.pt/play/p4365/sociedade-civil

Perdoe-se-me o sentimentalismo, mas programas como este emocionam-me e fazem-me acreditar no género humano. Por razões de afinidade, encontro nos técnicos (e no autor do programa) que participaram a noção do serviço público e a vontade de bem servir. Dentro das razões das coisas, em oposição aos decisores que pelo seu lado são uma ameaça quando sobranceiramente ignoram os pareceres técnicos de quem tem a experiência.
Gostei particularmente da resposta à pergunta: faz sentido a fusão estradas-caminho de ferro? Resposta: do ponto de vista das pontes, sim...
E especialmente gostei da afirmação do colega José Gil (ex-REFER...evocando as notas de um engenheiro do princípio do século XX que alertava para o risco do pilar da ponte de Entre os Rios que era o unico que não tinha enrocamento e que não ia ao fixe...o desastre podia ter sido evitado...):
"há sempre segredos que apetece perceber ... mas há segredos que infelizmente nos escapam"  (ver 14'53").
Por mim, evoco o contentamento de duas senhoras de Coimbra, na sua viagem de comboio para a Figueira, ao passarem na ponte do Marujal  a 70 km/h (se medi bem a largura do vão) depois de anos de limitação severa de velocidade e após as obras de reforço, ali à beira da foz do rio Soure no Mondego e dos campos de arroz.

viaduto do Marujal

sábado, 7 de abril de 2018

A querença do plano de expansão do metro e 4 hipóteses para limitação dos danos




Querença  (dicionário: manifestação de vontade, convicção, ardor)

Já se viu que o XXI governo tem uma querença, uma forte convicção de que o plano de expansão do MOPTC de agosto de 2009 é uma boa opção. E, em colaboração com a câmara municipal de Lisboa (curioso, como em épocas de crise financeira, como no tempo dos Filipes, a câmara de Lisboa tem recursos disponíveis, ou em receitas, ou em financiamento exterior) determinaram ao metropolitano de Lisboa a implementação da 1ª fase do plano: a criação de  uma linha circular e, em 2ª prioridade, os estudos para prolongamento da linha vermelha a Campo de Ourique.

Já na altura da aprovação do plano na assembleia municipal de 2009 (as coisas que se aprovam em período eleitoral...) foi deixado  no metropolitano de Lisboa o parecer técnico, do ponto de vista dos critérios de operação e de manutenção de metropolitanos, que reprovava a maior parte daquele plano. Este foi elaborado, a partir de ideias da própria secretaria de Estado e da administração do metro, sem audição formal das áreas de operação,de manutenção e de desenvolvimento, como institucionalmente previsto.

Para melhor compreensão do que poderá suscitar conflito entre os critérios de projeto geral e as necessidades específicas das especialidades ferroviárias, junto uma ligação para um pequeno estudo realizado no âmbito dos trabalhos em conjunto com as redes homólogas na UITP com o título “Manual do projetista de novas linhas de metropolitano preocupado com a eficiência energética”:

Não é exigível que os técnicos que fazem os projetos gerais dominem as especificidades das disciplinas ferroviárias como a via férrea, a sinalização ferroviária, a energia ou as telecomunicações. Mas  o normal é que oiçam os respetivos ténicos com atenção, como aliás era prática corrente no metropolitano para preparação, realização e acompanhamento dos empreendimentos.

Junto também ligação para o parecer negativo deixado no metropolitano (ver depois da página 18):

Passados 9 anos, depois de quase 1 ano e meio sobre o anúncio pelo XXI governo que se iria fechar o anel da linha verde sobre a linha amarela formando uma linha circular, não tendo sido apresentados publicamente  pelo metro, apesar de pedidos,  os “estudos” de tráfego que, segundo ele, justificam a linha circular, e com a agravante de se saber que esses estudos comparam a geração de tráfego adicional da linha circular com uma alternativa limitada ao prolongamento de S.Sebastião a Campo de Ourique, em vez de Alcântara, como de há muito previa o plano estratégico de expansão do metro anterior mas que não poderá concretizar-se por incompatibilidade com os objetivos da exploração imobiliária para a zona,  concluir-se-á que é demasiado forte a convicção do governo e da CML para desistirem da linha circular, por mais negativo que seja o parecer dos técnicos com experiencia de operação e de manutenção.

Não foi um caso em que tenham sido respeitadas as  condições de uma democracia que submete aos seus cidadãos todos os elementos de uma questão estratégica para um debate aberto e esclarecido. Nem sequer se pode falar de debate se primeiro se decide e depois se comunica a decisão. Mas é a situação real.

E no recente debate na Ordem dos Engenheiros, verifiquei o curioso fenómeno de cidadãos interessados na boa gestão da coisa pública terem feito propostas concretas, não para eliminar completamente a linha circular, mas para reduzir os danos que se antevêem na proposta oficial.Basicamente evitando a danificação do património edificado no Campo Grande constituido pelos viadutos poente,  e a inserção neles de dois  novos viadutos.

Eis as 4 hipóteses que surgiram:






1 – linha Odivelas-Telheiras em loop – manutenção das condições atuais em Campo Grande ; nova ligação de Cais do Sodré a Rato e linha amarela.   A rede ficaria apenas com  3 linhas: azul,  vermelha e verde/amarela (Odivelas-Telheiras). Proposta de Miguel Mateus



2 -  manutenção das condições atuais em Campo Grande ; prolongamento da linha verde de Cais do Sodré a Rato(correspondencia com a linha Amarela)  e Amoreiras (correspondencia com a linha vermelha); prolongamento da linha amarela de Rato a Alcantara; prolongamento da linha vermelha de S.Sebastião a Amoreiras (correspondencia com a linha verde) e Campo de Ourique. Proposta de Pedro Brás, arq Nuno Raimundo e Frederico Leonel



3 - manutenção das condições atuais em Campo Grande e no Cais do Sodré; prolongamento da linha amarela de Rato a Santos; correspondencia através de passadiços cobertos com tapetes rolantes da estação Santos do metro com a estação Santos da linha de Cascais e a estação Cais do Sodré.
  
                        

4 - manutenção das condições atuais em Campo Grande e no Cais do Sodré; transformação da linha de Cascais em linha de metro e sua ligação em viaduto em Alcantara à linha vermelha.

Esta hipótese foi sugerida pela minha neta, que mora perto da Estrela. Depois de ver o video da minha apresentação, perguntou-me: então se o problema é chegar com o metro a Alcantara e ligar a linha de Cascais à zona da avenida da Republica, então porque não põem a linha de Cascais no metro e a ligam à linha vermelha em Alcantara?

E eu pensei, é o ovo de Colombo, é ela a dizer que o rei vai nu, sendo o rei o governo e eu . Dois em um. Não é curioso? Viver na zona de maior PIB per capita do país, sair de casa, apanhar o metro e sair no aeroporto ... (balcões de check in precisam-se, na estação de Cascais). Que dirá o governo, a CML e a administração do metro? são os argumentos deles... (atenção que uma obra destas não é para fazer num ano, é para integrar num plano de duração superior aos ciclos eleitorais, e há fundos comunitários para concorrer). É verdade que obriga a um estudo aturado da reorganização da urbanistica de Alcantara e dos viadutos para a frente de água (doca de Santo Amaro) e para a travessia do vale de Alcantara para ligar à linha vermelha (Alcantara terra, encosta sul dos Prazeres, Campo de Ourique), que colide com os interesses imobiliários e com os pruridos dos impactos visuais. Mas é um estudo interessantissimo.

PS - amável correspondente chamou-me a atenção para a diferença de bitolas, ibérica na linha de Cascais, UIC no metro.  Claro, mas é possível um faseamento durante as obras de substituição da via férrea, com sucessivos troços com travessas bibitola, as quais têm 3 conjuntos de furações para 3 carris, e que  permitem a utilização por comboios de bitolas diferentes (não confundir com as travessas polivalentes de 4 conjuntos de furações e 2 carris de cada vez, as quais precisam de mudança dos carris para utilização pelos comboios da outra bitola). Quanto ao troço Alcantara-Cais do Sodré da linha de Cascais será para continuar, não só para o transbordo de quem vem de Cascais para o Cais do Sodré, como para alimentar a garagem e oficina de pequenas intervenções em Cais do Sodré; a considerar ainda o prolongamento desse troço para ocidente.

http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2018/04/entrevista-de-fernando-medina-no-dn-de.html
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2018/01/ultima-tentativa-ultima-chamada-da.html

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Debate na Ordem dos Engenheiros em 3 de abril de 2018 sobre o plano de expansão do metro

Resumo da minha intervenção e das questões colocadas pela assitencia:


A intervenção centrou-se na sua experiencia profissional no metropolitano de Lisboa ao longo de 36 anos nas áreas de operação  e de manutenção e na integração das disciplinas ferroviárias nos novos empreendimentos, incluindo a preparação dos processos de homologação para colocação em serviço dos novos troços. Teve por isso, por mais de uma vez, e tal como no caso presente, oportunidade de defender junto dos colegas de projeto e construção da FERCONSULT os interesses específicos das disciplinas ferroviárias, em oposição aos pontos de vista desses colegas, sem experiência em operação e manutenção de metropolitanos.
 Criticou o plano de expansão de 2009 com base no plano de 1974 da Siemens-Deconsult, que já previa o interface em Alcântara para correspondência com a linha de Cascais e o alívio do interface do Cais do Sodré. Pediu mais uma vez o fornecimento dos estudos de tráfego que estão na base da proposta da linha circular, como é normal nos procedimentos de referendo científicos, considerando não ser curial tirar conclusões de um estudo em que a alternativa perdedora é o prolongamento apenas até Campo de Ourique e não Alcântara. Pediu também a consulta ao Imperial College, com o qual o metro tem um convénio, sobre a necessidade da linha circular, numa altura em que em Londres a circle line foi quebrada entre outras razões por dificuldades de operação.
Evocou o métido TOD (distancia máxima até uma estação de metro) como fator do planeamento de redes, e sugeriu a garantia anual de 0,5% do PIB para investimento em infraestruturas ferroviárias .
Concluiu, mostrando com exemplos, que no contexto atual, a linha circular proposta está sujeita a uma taxa de avarias superior à do conjunto das duas linhas autónomas equivalentes, tem dificuldades acrescidas de regulação em caso de afluência excessiva ou resolução de perturbações, não preenche os critérios de economia de energia e de manutenção que evitam curvas e pendentes,  não serve a zona ocidental da cidade e constitui uma agressão ao património edificado sob a forma de alteração dos viadutos poente do Campo Grande.
Respostas a questões postas pela assistência:
Questão 1 – O interface de Alcântara exige a construção do metro em viaduto, deverá permitir a correspondência com a estação da REFER do Alvito e eventualmente com barcos da Transtejo.
Resposta – de acordo, mas deve assinalar-se que o plano de urbanização de Alcântara prevê uma exploração imobiliária que inteerfere com a construção de viadutos e que privilegia a ligação enterrada da linha de Cascais à linha da cintura e remotamente estações enterradas do metro
Questão 2 – Quem teve experiência profissional afim deve ser ouvido. A linha circular tem menor fluidez nas entradas e saídas de comboios, maior dificuldade de regulação por ausencia de almofada temporal nos términos e ausencia de vistoria pelo maquinista na mudança de cabina
Resposta – de acordo
Questão 3 – Nenhum dos oradores debateu um plano estratégico
Resposta – numa apresentação de 20 minutos não é possível varrer todos os aspetos. No entanto, encontram-se ligações na apresentação que remetem para questões do planeamento estratégico
Questão  4 - Se o governo e o metro estivessem seguros da sua opção divulgariam o estudo e o plano deveria ter sido submetido a discussão pública
Resposta – de acordo
Questão 5 – Deveria privilegiar-se o modo LRT
Resposta – de acordo, uma das críticas ao plano é a existência de bifurcações. Não deveria haver bifurcações que geram maus índices de fiabilidade, devendo um dos ramais ser em LRT
Questão 6 – Não são conhecidos estudos sobre a previsão dos índices de fiabilidade da linha circular
Resposta – Estranha-se que os estudos referidos como sustentando a linha circular não apresentem um comparativo com as alternativas da fiabilidade. Técnicas de análise de riscos (norma EN 50126) permitem estimar a probabilidade de ocorrência de avarias com base no histórico de avarias e de comboios-km. Obtido o número de combois-km por avaria e introduzindo o número previsto de comboios diário  obtem-se o intervalo entre avarias. Como a linha circular tem o dobro do comprimento de cada uma das duas linhas normais equivalentes e a probabilidade de ocorrência de avarias simultâneas nestas é um produto, a comparação não resulta favorável para a linha circular.

Questão  7 - Sendo a linha circular composta por 2 aneis (vias) uma avaria num deles permite a continuação da exploração na outra via.
Resposta  - Uma análise de riscos elementar interdita formalmente esta hipótese enquanto nao se domina a situação. Um dos maiores acidentes na história dos metropolitanos ocorreu quando não foi interrompida a circulação numa via, quando na outra se tinha declarado um incendio numa composição (https://en.wikipedia.org/wiki/Daegu_subway_fire ). Notar que avaria no material circulante ou infraestrutura com paralisação da linha é diferente de perturbação, por exemplo, por excesso de afluência, com eventual paralisação e subsequente recuperação.
Questão 8 – A apresentação violou os deveres da deontologia profissional ao desmerecer nos colegas que elaboraram e os que suportam o plano de expansão de 2009
Resposta – Julgo ter sido claro na apresentação ao definir os trabalhos nos viadutos de Campo Grande como de elevada complexidade, mas que os colegas eram competentes para resolver as questões construtivas. Mas também fui claro que, do ponto de vista de planeamento de redes, no contexto existente, mexer nos viadutos e projetar linhas com as curvas e pendentes de Rato-Cais do Sodré são erros. Lamento ter ferido suscetibilidades e peço desculpa se ofendi alguém, mas lamento informar que sempre fui inflexível na minha vida profissional, e tenciono continuar a sê-lo, na defesa do predomínio dos critérios da operação, primeiro , e segundo, da manutenção,  quando em confronto com os critérios do planeamento de redes e da construção.


Powerpoint da minha apresentação:
https://1drv.ms/p/s!Al9_rthOlbweih5IWO3ANff3kMxA

Reportagem da Transportes em Revista:
http://www.transportesemrevista.com/Default.aspx?tabid=210&language=pt-PT&id=57950

Parecer da Transportes em Revista:
https://www.youtube.com/watch?v=KgO9SFZfFms&feature=youtu.be

domingo, 1 de abril de 2018

Expansão do metro


Caro colega e amigo

Não sei se a primeira designação se aplicará ainda, dado que há muito que deixámos de nos encontrar em reuniões de trabalho para debatermos as nossas análises sobre questões do metropolitano. Não sei pois se na minha condição de reformado ainda o posso tratar por colega. Mas a segunda designação posso com certeza afirmá-la, apesar das divergencias que, possivelmente por ter uma formação de economista e eu de engenharia, mais preocupado com as leis da física, as suas quantificaçoes  e as suas manifestações nas realizações humanas, sempre vamos alimentando.
Eis porque volto ao seu contacto, no seguimento da conversa que tivemos sobre a expansão do metro e sobre os mecanismos de tomada de decisão.
O meu amigo seguro de si, reafirma o direito, como gestor, a decidir com base nos, para mim frágeis como qualquer estudo de procura, estudos de tráfego. Digo frágeis por causa da escala da população e das infraestruturas em análise, e por causa da omissão, pelos ilustres profissionais dos estudos, das tais questões físicas. De  que para mim o melhor exemplo é a lei de Fermat-Weber, que sintetizando com algum modo desajeitado como é próprio dos engenheiros quando abordam leis matemáticas (pois, a engenharia não é uma ciencia exata, deixamos isso para os discípulos de Gauss, o qual, aliás, é admirado por qualquer engenheiro) eu diria que, num sistema pouco regulado, os elementos mais fortes tendem a aumentar o seu poder de atração e ao exercê-lo tornam-se cada vez mais fortes aumentando a desigualdade relativamente aos outros elementos. Como economista, concordará comigo se eu invocar as diferenças de produtividade e de competitividade que vão sucessivamente aumentando a divergencia dos indicadores macroeconómicos. Sobrevindo depois o sermão do castigo divino quando o que esta em causa é apenas uma lei da física matemática, que traduz o poder e a dimensão e não o pecado do mais fraco.
Isto a propósito, como certamente pressentiu, de eu não aceitar o seu argumento que a zona da avenida da Republica sendo a mais procurada, tudo tem de girar , enquanto nova linha circular, em torno dessa zona, O que digo é que o governo e a CML querem que a zona seja cada vez mais procurada, estimulando a construção de imobiliário de serviços,e naturalmente valorizando o metro quadrado, incluindo aqui os serviço da moda, de raiz informática (e contudo, uma das vantagens da informática é não exigir a centralidade e a proximidade...)
E não aceito porque estudos de procura são um elemento de análise, que nem deve ser o mais importante.  Verdade que a parafernália matemático-informática dos métodos de análise constituem um deslumbramento para os decisores e os comuns dos mortais, fascinados pelos algoritmos de mais ou menos learning machine. Mas eu circulo mais terra a terra, preocupando-me com a forma e a facilidade com que se gere a operação de uma linha, e a manutenção das infraestruturas e do material circulante. Em vez de estudos de procura, eu preferiria o método TOD (transit oriented development): nenhuma habitação ou empresa distará mais de uma distancia pedonal razoável de uma estação de metro (half mile, p.ex.)
Aqui discordamos fortemente. O meu amigo diz que o decisor tem o direito de decidir (eu diria que sim, mas à luz das leis predominantes, assim como Bossuet decretava o poder divino delegado nos reis absolutos, assim os seus, seus de Bossuet, émulos de agora sublinham o carater quase divino da delegação por voto. O partido constituiu governo, logo, pode).

Nós portugueses temos esta grave limitação, de nos inibirmos quando deviamos estar a organizar o trabalho de equipa e a planear as ações  (ou pela ordem inversa, não interessa essa discussão). Por isso os mecanismos de decisão, as mais das vezes de indecisão, são o que se vê. Depois os nossos cronistas fazedores de opinião escrevem belos artigos a dizer que assim não pode ser e que tem de se fazer de outro modo, que têm de se fazer as reformas (quando dizem quais são o cidadão interroga-se, mas isso não é a função normal, é preciso chamar reforma a isso?) e, tudo ponderado, vem a saber-se que o cronista nunca desempenhou funções naquilo sobre que opina.
Que é precisamente a minha crítica: o plano de expansão do metro, elaborado com o apoio das administrações partidárias, fora das áreas de operação e de manutenção do metropolitano,  desceu em agosto de 2009, de modo top-down, da secretaria de Estado, espalhou-se pelas estruturas  partidárias dos transportes e erigiu-se em plano estratégico. Claro que por razões de fidelidade partidária poderá ter havido exceções, mas pergunte-se hoje a qualquer técnico de operação ou de manutenção do metro cuja resposta não comprometa a sua estabilidade na empresa, e veja-se o que ele diz do plano, que o cumprem porque têm de obedecer.
Notável é a eficiência da propaganda do governo e da CML para “vender” o seu plano de exxpansão. Como aliás na capacidade de convencer as pessoas que estamos bem. Não estamos, enquanto as importações valerem mais do que as exportações não teremos autonomia, enquanto o investimento privado(nacional e e estrangeiro)  continuar afastado da criação de infraestruturas, a economia não descolará. E a nossa incapacidade de planear a longo prazo tudo agrava. Exemplo disso a afirmação do senhor primeiro ministro que as linhas de alta velocidade são e serão um tabu em Portugal. Pobres de nós, dependentes de negócios limitados, com graves obstruções de ligação à Europa, enquanto a propaganda repete a mentira de que Sines é a porta de entrada da Europa. Afirmação típica dos inseguros perante portos  concorrentes, em Espanha e Marrocos,  com volumes de negócio muito superiores.
O complexo de hubris (orgulho sobranceiro e desmesurado) dos decisores não aceita a sugestão do plano Juncker para o desenvolvimento das infraestruturas, ao disponibilizar gabinetes de apoio técnico. Vamos perdendo o “know-how”, vamos deixando passar as oportunidades de candidaturas vencedoras a fundos comunitários, mas vamos orgulhosamente convencendo-nos de que são boas soluções, a linha circular do metro, o aeroporto precário do Montijo, o parco plano ferroviário só até 2020, o infeliz metro do Mondego agora ameaçado de vir a ser um BRT atrofiado, a proposta circulação massiva de autocarros na A5, a ausência de estratégia para a linha de Cascais mas aspirando a ligar à saturada linha de cintura, o pobre terminal agora rebatizado como de multi-usos do Barreiro (porque não confessam? queriam fechar o terminal de Santa Apolónia, precioso para  a nossa economia, e transferi-lo para o Barreiro, para vender os terrenos para urbanizações de luxo... porque não confessam?). Não são boas soluções, são más ou limitadas.
E são exemplo dos resultados dos métodos de tomada de decisões que prevalecem entre nós e de que discordo. Por simples rejeição do pensamento mágico e imediatista (pode dizer-se primário, mas a palavra ganhou uma conotação pejorativa), que sem pensar uma segunda vez, ignora relações de causa e efeito e o aprofundamento de melhores soluções.
 Felizmente que no metro ainda existe capacidade de projeto. Mas Murphy foi mais uma vez implacável. Corria-se o risco de pôr bons técnicos a desenvolver maus projetos. E se era possível fazê-lo, então fez-se mesmo. E repare o meu amigo que quase um ano e meio depois do anúncio público do prolongamento Rato-Cais do Sodré, ainda não existia, ao tempo da nossa conversa, solução definitiva para as ligações dos novos viadutos do Campo Grande, nem para as ligações ao término do Cais do Sodré. No primeiro caso, porque os parâmetros geométricos e de conforto dos aparelhos de via e de dilatação colidem com a tortura de torcer as linhas para fechar o anel ou para ligar Odivelas a Telheiras. A solução estrutural, ainda não selecionada, poderá passar por encostar os novos viadutos aos existentes e ligá-los por uma plataforma de dificil compatibilização com a natureza pré-esforçada dos tabuleiros existentes e  exploração para fazer a obra. Fica por cumprir a regra, em novos empreendimentos, de comparar variantes para escolher a solução final, quando nem sequer temos uma variante definida.
Do lado do Cais do Sodré, obra muito cara para escavar os aluviões e aterros da 24 de julho (razão pela qual a construção em Alcantara dever ser em viaduto), e mais uma vez dificil compatibilização o existente no término com as pendentes e curvas  e interferências com os edifícios  existentes ou a construir.
Nestas condições, como se diz na marinharia, devem-se minimizar os danos. Se querem mesmo ligar o Rato ao Cais do  Sodré, em vez de expandir para a periferia (se Alcântara pode considerar-se periferia...). Deixem o Campo Grande como está, os percursos de transbordo não são punitivos. E parem em Santos. Façam a correspondência com a linha de Cascais através de passadiços cobertos com tapetes rolantes.
A propósito, deram-me a informação que as estações entre Odivelas e Quinta das Conchas movimentam cerca de 18 milhões de passageiros por ano (à volta de 54 mil por dia, entradas e saídas) enquanto no Cais do Sodré, de e para o metro, são 15 milhões (45 mil por dia). Isto é, o governo e a CML, poeticamente elogiando a abertura da linha circular ao rio e a defesa da classe operária (sic) da margem sul, estão mesmo empenhados em desenvolver o imobiliário da avenida da República.
Mas voltando aos mecanismos de decisão. A ideia do plano de expansão foi-se consolidando. Foi-se até aperfeiçoando. Por exemplo, espera-se da introdução do CBTC a possibilidade de reduzir os intervalos. Compete-me recordar que os automatismos devem permitir intervalos curtos com segurança, mas a fluidez de exploração  que permitem tanto vale para uma linha circular como para as linhas normais desde que estas disponham de infraestrutura para inversões alternadas, o que é o caso das linhas amarela e verde.
E de facto, como disse, a existencia de aparelhos de via nos que serão os términos intermédios da linha circular (Campo Grande, Alvalade, Marquês de Pombal, Rato, Cais do Sodré) permite alguma flexibilidade na retirada de comboios avariados em plena exploração. Vantagem de ao longo das gerações termos construido términos com diversidade de aparelhos de via. Mas curiosamente, enquanto nos términos das linhas normais o comboio a recolher entra “de cabeça” e fica recolhido, no caso da linha circular isso só acontece no Campo Grande e em Alvalade no sentido de circulação dos ponteiros do relógio, obrigando a inversão (2 minutos só para mudança de cabina a somar ao intervalo normal) nos outros casos. Repare que será possível sair "de cabeça" para Telheiras, mas perturbando a outra linha, Odivelas-Telheiras. E não argumente que na linha circular um dos sentidos pode funcionar quando há uma avaria no outro. Um dos piores acidentes em metros aconteceu precisamente por não ter sido interrompida a exploração na outra via, não aquela em que um comboio pegou fogo (como eu dizia à nossa simpática administradora, precisamos de 10 minutos para perceber o que se está a passar depois da deteção de uma avaria ou perturbação; é imprudente decidir sem o saber).
É pena os portugueses não se entenderem nestas questões técnicas. O transporte ferroviário urbano encontra a sua justificação, acima dos valores de tráfego próprios, na economia de energia primária consumida para transportar um passageiro-km . E isso verifica-se mesmo que os modos concorrentes, o autocarro e o automóvel privado, sejam elétricos. Acresce a menor emissão de gases com efeito de estufa.
O que justificaria, por sua vez, o recurso a fundos comunitários e ao plano Juncker. Cujas candidaturas exigem projetos que os  decisores não deixam fazer. Seguindo uma sugestão de Alfredo Marvão Pereira, uma voz lúcida na análise dos investimentos públicos, se nos países desenvolvidos a média anual de investimentos públicos em infraestruturas é de 2 a 3% do PIB, em Portugal deveriamos prever 0,5%, ou 850 milhões de euros por ano. Poderíamos contar com 600 milhões de fundos comunitários e a indução pelos multiplicadores de investimento privado. Num plano a 10 anos da ordem de 15 mil milhões de euros. Mas a ordem vinda de cima, no país dos 17 mil milhões de prejuízos dos bancos cobertos pelos contribuintes que andam de metro, autocarro e automóvel privado,  é: isso é tabu.

Em resumo, o que nos divide é no fundo a forma de organizar o trabalho, de analisar o contexto e os fatores, e de tomar as decisões. É o médico que decide se é necessário operar o paciente para lhe salvar a vida, não é o administrador do hospital. Quando muito, este diz que não tem dinheiro para garantir a operação, e que levem o paciente a outro hospital. Na decisão da expansão de uma rede de metro deve ser determinante o parecer dos técnicos de operação e de manutenção.

O que , mais uma vez na história do metropolitano, não foi o caso.

No contexto atual, a linha circular proposta está sujeita a uma taxa de avarias superior à do conjunto das duas linhas autónomas equivalentes, tem dificuldades acrescidas de regulação em caso de afluencia excessiva ou resolução de perturbações, não preenche os critérios de economia de energia e de manutenção que evita curvas e pendentes, e não serve a zona ocidental da cidade e constitui uma agressão ao património edificado sob a forma de alteração dos viadutos poente do Campo Grande.

Só me resta pois dizer: os decisores têm, no contexto atual, legitimidade para decidirem assim, e eu tenho legitimidade, como cidadão e como profissional com experiencia no metropolitano de Lisboa e contactos com redes homólogas, para dizer que é um erro que contraria o interesse público.

Mas no meio destas divergências, receba um abraço,





documentação relacionada em:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2018/01/ultima-tentativa-ultima-chamada-da.html

https://1drv.ms/p/s!Al9_rthOlbweih5IWO3ANff3kMxA


segunda-feira, 26 de março de 2018

Aeroporto do Montijo IX - Esgotado, o aeroporto da Portela, diz o Jornal de Negócios

https://www.msn.com/pt-pt/financas/empresas/aeroporto-de-lisboa-esgotado-montijo-tem-de-acelerar/ar-BBKHW94?li=BBoPWjC&ocid=mailsignout


Esgotado, diz o Jornal de Negócios, noticiando que a concessionária notificou o governo que os 4 triggers (é fino, dizer triggers) ou valores para desencadear a ação para um novo aeroporto, complementar ou propriamente novo, foram atingidos em 2017.

Primeiro, a Portela só estará esgotada depois da construção do taxiway (para permitir utilizar a parte norte da pista principal), da saída da Força Aérea do Figo Maduro (idem) e depois da aquisição do sistema de controle aéreo com maior capacidade do que o atual. Portanto, salvo melhor opinião, esta informação é deficiente. Depois,  o contrato de concessão de 2012, no anexo 16,diz as especificações (mínimas) do novo aeroporto. É verdade que os timings estão desfocados, por natureza excessivos e por força da evolução verificada, com os prazos agora apertados. Mas a cláusula 42.3 é clara quando pede à concessionária para apurar se há alternativa mais eficiente (não só menos dispendiosa) do que um novo aeroporto. Ora as especificações do NAL eram de 90 a 95 movimentos por hora, a solução Portela +Montijo não ultrapassa os 72 movimentos. Não é pois mais eficiente. Acresce que nas cláusulas 45.3 e 46.1d se fala na obrigação do concessionário apresentar um plano de financiamento para a construção do novo aeroporto.
Na verdade, o contrato de concessão não estava assim tão mal redigido como isso, uma vez que prevê a resolução do contrato de concessão no caso da concessionária não rever o processo de candidatura ao NAL conforme as especificações mais eficientes (cláusula 51) ou por não ser do interesse público (47.2c). Reconheço que juridicamente é dificil sustentar essa resolução, mas poderíamos negociar, passando a pente muito fino o contrato de concessão.
Pelo que dirá a Vinci, e com alguma propriedade, que por já não podermos dispor dos 3000 milhões recebidos pela venda da ANA por 50 anos para construir um novo aeroporto com 2 pistas,  e por termos uma proposta de solução que, apesar de precária e com graves limitações, funcionará, teremos de engolir a solução que nos é pro(im)posta, no fundo, por quem os pagou. Mas eu acrescentarei que é bom que o façamos sem nos calarmos.

Mais informação:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/search?q=montijo


sábado, 17 de março de 2018

Minha querida araucária

Minha querida araucária, há tempos que ando para te escrever. Mas o assunto inibe-me. Tu própria compreenderás como me é difícil dizer-te o que tenho a dizer-te. Embora tu, por estares mais perto do que eu das nossas raízes, que são as de todos os seres vivos, por viveres melhor integrada na Natureza, sentes melhor, neste fluir incessante, a dinâmica da vida e da morte.
Não consigo esquecer-me de quando te plantei, pequenina que eras, com o torrãzito de terra pendurado nas tuas raízes. E eu um jovem. Há tanto tempo que foi. Na altura nem dei atenção ao que disse  um jardineiro que observava a operação: quando a araucária atinge a cumeeira do telhado quer dizer que se esgotou o tempo de quem a plantou. Se  eu acreditasse nestas coisas mágicas teria mandado subir o telhado, mas não. Tu cresceste e subiste ainda mais acima, e eu envelheci. E vejo-me agora neste triste dilema.
Ainda pensei ralhar contigo quando as tuas raízes se meteram pela conduta do esgoto e partiram as suas paredes. Não te disse nada na altura, mas a situação tornou-se insustentável. Cresceste muito, a tua sombra já invade o quintal do vizinho, e eu não gosto de questiunculas com os vizinhos. Só que nunca tive coragem de chamar ninguém para o trabalho.
Pior ainda do que isso, minha araucária, é que uns homens, que eu ia a escrever maus, mas que não são, maus, são apenas crédulos em mais pensamentos mágicos, em relações que crêem ser de causa e efeito mas que não são nada de causa e efeito, onde é que estão as provas? uns homens, dizia eu, vêem agora informar-me que por estares a 4 metros de distancia da casa não podes continuar a viver. Porque também tu és uma conífera, e eles não gostam de coníferas.
Minha querida araucária. Sinto-me velho e cansado. Bem tentei sugerir procedimentos que julguei mais sensatos aos homens que aí vêm. Mas a nada atenderam. E agora não consigo resistir a este ímpeto selvagem de destruição de árvores, a esta vontade de desertificar pela erosão das  terras sem sombra. Eles compreendem, que cortar árvores vai fazer crescer mais depressa o mato, porque vão faltar as folhas a secar e a fazer uma manta contra as sementes das ervas. Ah, dirão eles, mas vamos também cortar o mato. Terão feito bem as contas, aos milhões de hectares em que é preciso cortar o mato, pelo menos 3 vezes por ano, e tantas vezes em terrenos acidentados. E quanto irá isso custar, e será que um terço do ano chega para cortar tudo? E depois quando chover a terra não está segura nem pelas raízes das árvores nem pelas do mato, e vão surgir enxurradas e a erosão crescerá, e o assoreamento dos rios também. Eles compreendem isto tudo, mas formou-se a corrente de opinião que tem de se cortar as árvores num raio de 50 metros à volta da casa. Que fundamentalismo.
Mas estou cansado e velho, vou esperar que eles cheguem, não vou resistir, e quando eles chegarem vou-me embora por uns dias. Não quero ver-te cortada, minha querida araucária. Mas ao menos sei que tu compreendes, estás mais perto da Natureza do que eu, encaras isso com naturalidade, desde o nemátodo que matou os teus primos pinheiros, a carcaça esburacada, aos bicudos escaravelhos que vieram sabe-se lá de onde matar as palmeiras que te acompanhavam. Dirás que agora é diferente, não são bichos, são homens que matam, mas sei que também isso compreendes, que sabes o mal que os homens fazem à Natureza.
Abraço-te o tronco por uma última vez, minha querida araucária.


https://fcsseratostenes.blogspot.pt/search?q=limpeza
https://fcsseratostenes.blogspot.pt/search?q=orat%C3%B3ria

2ªsinfonia de Mahler, "Ressureição"

9 de março de 2018, na fundação Gulbenkian, pela sua orquestra e coro, e solistas externos, soprano e contralto, a segunda sinfonia da Mahler.
Chamada da ressureição por celebrar os herois mortos, em poesia de carater romantico.
A musica de Mahler tem muitas vezes, como nesta sinfonia, uma natureza fúnebre, mas tem também elementos simples da musica popular e momentos de grande sensibilidade. Para além de uma instrumentação rica e ainda moderna. A sua música integrava-se  no movimento intenso de renovação cultural em Viena no fim do século XIX e início do século XX. Não apenas nas artes (Klimt na pintura) mas também na ciência (Freud e a psicanálise). Mas era também um caldo de decadência e de incoerência na organização social. Depois do congresso de Viena de 1815, as monarquias europeias quiseram reconstituir-se. No seu pior, eu diria, e a dinastia Habsburgo é um exemplo trágico de progressiva decomposição. A reação à primavera de 1848 foi a reunião da familia real em torno do imperador deficiente mental. Acumularam-se as decisões insustentáveis que culminaram na primeira guerra mundial. Ver "Declínio e queda do império habsburgo" de Alan Sked. Numa altura em que tenta consolidar a ideia de Europa unida, convinha revisitar os erros passados. Por exemplo, o presidente eleito da câmara de Viena do início do século XX foi um dos principais inspiradores da ideologia de Hitler, que por lá andou nesse tempo. Como é estranho que nas comunidades possam conviver, lado a lado, o mais extremo obscurantismo e as mais elevadas formas de arte, como a 2ª sinfonia de Mahler... Razão suficiente para rever os mecanismos democráticos...

E quanto à interpretação neste concerto? Para mim, foi primorosa a interpretação do 1º andamento. Assim como as do contralto e do soprano (sinceramente preferiria, mesmo em nível menos elevado, intérpretes nacionais, mas é a orientação sufragada da Gulbenkian). Também com sinceridade acho muito rudimentar a poesia, assente em crenças religiosas de misticismo vulgar, mostrando à sua escala os grandes contrastes da sociedade vienense:  "nada para ti está perdido, é teu sim, é teu aquilo por que ansiaste, por que lutaste"  mas também  "ressuscitarás, sim, ressuscitarás, meu coração, num instante!aquilo por que lutaste a Deus te levará"... como é estranho que possam conviver, lado a lado, as maiores aspirações do homem e as crenças que mais podem iludir...
Por isso preferiria que o andamento final não culminasse num fortissimo de tantos decibeis (ignoro se Mahler anotou  fff), a suscitar aplausos no climax, como se se tratasse de um golo, e eu a  meditar nestas coisas e o ruido das palmas e dos bravos a não me deixar absorver a transcendencia daquela musica....


Audição do presidente do metropolitano de Lisboa no Parlamento

Notícia no DN:
https://www.dn.pt/portugal/interior/administracao-do-metro-de-lisboa-diz-que-a--linha-circular-e-a-melhor-solucao-9184477.html

Comentário:

Infelizmente, a administração do metro não muda de opinião nem de argumentação, nem o governo. A administração e o governo têm pareceres técnicos que, desde 2009 (agosto, véspera de eleições) quando foi apresentado este plano de expansão (que contrariava o anterior e mais coerente  plano de expansão) criticam fortemente esta linha circular (não é por ser circular, é por ter estas carateristicas geométricas; em 2002 o metro propôs uma linha circular externa à superficie, de Algés  a Loures e Sacavem, que foi chumbada).
Contra a linha circular do governo, fundamentalmente razões de operacionalidade e fiabilidade: qualquer perturbação perturba toda a linha sem tanta capacidade de regulação como as linhas normais com términos (o plano tenta minimizar este inconveniente com o aproveitamento parcial do atual término de Cais do Sodré); quanficando, com base no histórico de avarias, a probabilidade de avaria na linha circular será de 1 em 2,5 dias, e a probabilidade de avaria simultaneamente nas atuais duas linhas , verde e amarela é de 1 em 25 dias.  Diz o sr presidente que estudos realizados dizem que... mas, apesar de pedida a sua divulgação, ela não foi feita.Ora, desde o fim da idade média se sabe que o "magister dixit" não é o melhor método. Também diz que S.Sebastião-Alcantara custaria 270 milhões. Sim, se a construção fosse subterrânea, o que por razões energéticas é um erro devido aos desníveis. O que se passa ´é que as intenções imobiliárias para Alcantara não gostam da ideia de construir em viaduto, que é mais barato, ainda por cima em zona de aluvião e aterro e na proximidade do caneiro (o que aliás justifica a não construção da ligação enterrada entre a linha de Cascais e a de cintura, para além da saturação desta se devidamente utilizadas as linhas de Sintra, ponte 25 de abril, Alcantara-Terra e Azambuja).
É ainda um desgosto ouvir esta argumentação: vamos pôr no viaduto de Campo Grande um aparelho de via (bifurcação) que permitirá ligar a linha de Odivelas ao Rato. Se se verificar que a linha circular não funciona, voltaremos ao esquema atual. Isto depois de se partir os viadutos de tabuleiro pré-esforçado para ligar Campo Grande, linha amarela, a Telheiras, e linha verde, ao túnel da Cidade Universitária. Mas enfim, estes senhores interpretam o voto democrático que receberam como uma infusão divina de infalibilidade. Bossuet dizia o mesmo dos reis absolutos. Como dizem os brasileiros ainda não baratinados pelos vandalos armados à solta, "evoé".

Marielle Franco

Associo-me ao luto e à indignação pela morte de Marielle Franco, vereadora por um partido de esquerda no Rio de Janeiro. Assassinada de forma organizada, o que indicia uma organização poderosa de malfeitores no Brasil contrariando os interesses da população que desejaria viver em paz. É preciso mudar, no Brasil.

domingo, 11 de março de 2018

Da "imbecilidade" de escrever no asfalto mão Porti

Resposta ao artigo de opinião de João Taborda da Gama.





Caro Doutor

Recentemente, em visita à Ordem dos Engenheiros, o seu ilustre colega jurista que atualmente desempenha com simpatia e alguma eficiencia a função de presidente da República, declarou, precisamente por ser um paradigma de simpatia, que considerava semelhantes as formas de raciocínio de juristas e de engenheiros.
Digo com simpatia, no pressuposto da comparação elevar assim o raciocínio dos engenheiros ao nível do homólogo dos juristas.
Como certamente já pressentiu, porque na verdade ambos os raciocínios têm em comum a lógica, embora outras coisas não, vem isto a propósito (ou a despropósito) daquela questão de escrever de forma inversa no asfalto, “imbecilidade”atribuível pelo ilustre doutor a um”muito esperto ... engenheiro, talvez” (e contudo, como diria Galileu a propósito, ou a despropósito de outras coisas mais importantes, como poderá escrever-se na vertical no asfalto se ele está na horizontal? a menos, claro, das espessuras das camadas).
De modo que, como certamente também já terá pressentido, esta missiva vem dar-lhe razão, que “não esteve um dia bom para a produção de texto, não”. Até porque a qualidade dos seus textos é normalmente elevada.
E por isso me atrevo, do baixo da minha condição de engenheiro, mas com fé que o ilustre especialista de direito fiscal também por isso mesmo tributa à matemática, e esta é uma linguagem universal, passe o lugar comum, a tentar uma explicação para a tal “imbecilidade”. Que não o será no sentido literal, mas antes consequencia de mais uma partida que a Natureza prega a quem tenta construir um edifício coerente de lógica, ou, numa versão mais derrotista para quem se desgosta com a incomensurabilidade do desconhecido e a fácil mensurabilidade do conhecimento, mais uma aberração da Natureza.
De facto, não seria mais lógico que pelo espelho do retrovisor lessemos “Ambulancia”se estivesse escrito “Ambulancia” no seu capot? Mas não. Da mesma forma, não seria mais lógico que escrevessemos e lessemos da direita para a esquerda, como os árabes, e não da esquerda para a direita ? é que assim podiamos arrumar da direita para a esquerda, por ordem crescente, os 5 volumes dos “Comboios em Portugal” de J.Ribeiro da Silva e Manuel Ribeiro, ed. Terramar (perdoe-se-me a limitação própria como especialista de transporte, embora mais para o lado ferroviário que para o rodoviário o que me incapacita para eventual explicação convincente da “imbecilidade”), ficando o primeiro volume na sua posição natural no conjunto. Ou que circulássemos pela esquerda, como os anglo-saxónicos da ex-Europa, que assim chegávamos às rotundas e não tinhamos dúvidas, prioridade a quem lá está, vindo da direita.
Porém esta lógica não se aplica totalmente à questão da escrita vertical no asfalto horizontal, pelo que coloco a seguinte hipótese para a explicar. Imaginemos aqueles aparelhos antigos para ver gravuras em movimento, com uma manivela para ajustar a velocidade de corrida das imagens à sensibilidade e acuidade dos orgãos de visão do observador. E queremos anunciar em legendas em que só cabem 4 ou 5 letras a próxima saída da via rápida.
Claro que a primeira imagem é Sete e a segunda Rios.
Se a manivela rodar devagarinho, temos tempo para reter na memória da retina a palavra Sete, e calmamente registamos a segunda, Rios. O cérebro se encarregará de digerir as duas informações e sintetizá-las, Sete Rios.
Mas se a mão se escapa ao controle da contenção e desbrida em velocidade impulsiva e compulsiva, como um condutor pouco amigo da segurança coletiva, em claro arrepio dos conselhos associados ao equilíbrio de Pareto, e as imagens se sucedem mais depressa do que a capacidade de retenção, ou se o condutor estava algo desatento à aproximação do anúncio do desvio, talvez seja Rios que predomine, ou que seja Rios Sete que o cérebro forneça ao seu dono.
É que o que se escreve no asfalto é função da velocidade ideal, ou recomendada, com que se circulará por cima. E circulando dentro dos limites a sua leitura tem alguma lógica, pelo menos aquela que os deuses consentem que os homens (e mulheres) usufruam. Mas reconheço que as frações da legenda Portimão deviam estar mais afastadas, pelo menos 1/24 segundo, que a 90km/h são 1 metro.
Mais uma uma vez o ilustre Doutor pressintirá´que eu estou a recomendar que circule mais devagar. E na verdade estou, até tenho fé que os “autónomos” venham impor-nos isso mesmo, uma velocidade mais contida.
Para melhor convivência entre todos . Ou será uma imbecilidade conter a velocidade? É que a citada Natureza desenvolveu os orgãos visuais da espécie humana para velocidades até 30 km/h, mais ou menos, como preocupado dizia o médico nos princípios do século XIX, aflito com as consequencias das cada vez mais altas velocidades dos veículos inventados pela dita espécie.
Enfim, caro Doutor, votos dos maiores sucessos pessoais, esperando que continue a escrever para os seus leitores.

PS em 16 de março - pensando  melhor, que é coisa que deve tentar-se sempre, talvez pudessemos concordar com a escrita paralela ao sentido do tráfego no plano horizontal da estrada, isto é, perpendicular à transversal à estrada, com a primeira letra a surgir primeiro. Espero que não seja uma "imbecilidade"


segunda-feira, 5 de março de 2018

Hoje, às nove e meia da manhã

Hoje, às nove e meia da manhã o metro de Odivelas vinha cheio,ao chegar ao Campo Grande. Nove minutos de espera, tivemos nós de aguardar. Possivelmente por causa daquelas manobras dos comboios que ficam no Campo Grande e não vão a Odivelas, para tentar adaptar a oferta à procura.
Foi boa, a espera, para o pequeno quiosque no cais central. Calmamente se tomaram pequenos almoços e se satisfizeram encomendas para levar para o local de trabalho. Na instalação sonora, a poesia de Sofia de Melo Breyner (perdoem-me escrever assim, sem ph e sem duplo l), "esta é a madrugada que eu esperava, o dia inicial inteiro e limpo..."
Gosto de ver o metro cheio, sinal de que é útil o trabalho dos seus funcionários e de que os passageiros têm também, trabalho, pese a dúvida sobre os montantes das remunerações e sobre o reconhecimento do valor de quem produz mais valias. Embora neste caso o excesso de afluência se relacione com o atraso. Se o maquinista era novo, teve oportunidade de aperfeiçoar a técnica do fecho de portas em situação de sobrecarga.
Não acho que as caras dos passageiros revelem descontentamento ou aborrecimento. Apesar de apertadas, as pessoas são gentis ao facilitar as entradas e as saídas, são raros os conflitos. Reparo nos olhos de uma jovem passageira, rasgados como os baixos-relevo do antigo Egito, o branco muito vivo em angulo agudo em contraste com o negro dos olhos e da pele.  Desvia os olhos de mim mas  deve ter percebido a alusão à sua antiga antepassada. Mais perto de mim uma também jovem mulher de cabeleira loura escorrida, de ar sério, talvez para conter eventuais inconveniências, com uma toilete casual, de blusa, jeans e botas de cano alto. Esforço-me que da proximidade nada possa levá-la a pensar que a importuno. Mas os botões superiores da blusa, desabotoados, deixam ver parte de uns seios magníficos. Não serão agora os baixos-relevos egípcios, em postura de perfil, mas uma estátua de deusa grega, talvez como a pequena Vénus de Rodes, que a senhora não era muito alta.
Reparo que atrás estou encostado a uma mochila às costas de um jovem, e que dois passageiros à frente outro passageiro enverga uma mochila. Estamos todos muito juntos e verifico que as mochilas roubam espaço, mas são confortáveis para nos encostarmos. Questiono-me se não deveríamos estudar bem o assunto. O próprio  metro talvez deva recomendar o transporte das mochilas pela mão, porque são um fator de risco à saída, no caso de fecho atabalhoado de portas, e porque roubam espaço, mas a verdade é que acabam por ser cómodas em apertos. Talvez se justificasse uma tese de mestrado.
Saem e entram passageiros na Cidade Universitária, em Entrecampos e no Campo Pequeno.
Vem-me à memória as palavras de Carlos Oliveira "gente que desperta no rumor das casas, forças surgindo da terra inesgotável,... Como um rio lento e irrevogável, a humanidade está na rua. E a harmonia, que se desprende dos seus olhos densos ao encontro da luz, parece de repente uma 
ave de fogo."
Continuamos apertados. Saíram as raparigas dos olhos rasgados e dos botões desabotoados, os moços das mochilas, mas as carruagens continuam cheias. É verdade, o que dizem a câmara, os agentes de turismo e as imobiliárias, de escritórios e de habitação, a avenida da República é o centro da cidade. Para mim uma razão para dar mais atenção a outras zonas. Saio do comboio no Saldanha,  e como Fernando Pessoa, "tive pena de sair do comboio, de o deixar, ... nós, no comboio a que chamamos vida somos todos casuais uns para os outros".
Consigo evitar ser atropelado por uma bicicleta no passeio, graças ao quiosque do Campo Grande desprezo a esplanada de uma cafetaria recém inaugurada,  desvio-me da senhora que dedilha o seu smartphone, e como todas e todos, continuo ...