quarta-feira, 16 de maio de 2012

A Estatística e os chefes de Estado

Este blogue não é para discutir política, mas o seu escriba não resiste aos encantos da Estatística quando aplicada a temas políticos.
Já se viu a correlação entre o estreitamento das faixas da população com maiores rendimentos com o crescimento do respetivo rendimento per capita nessas faixas, enquanto as faixas de população com menos rendimentos aumenta a sua largura e diminui o rendimento per capita.
Falou-se já também na expressão matemática desse fenómeno através do coeficiente de Gini, ou de desigualdade social, em que Portugal vai perdendo os lugares que sucessivamente foi ganhando ao longo dos anos.
Poucos dias depois das eleições do chefe de Estado francês, vejo outra interpretação estatística interessantissima.
Uma empresa de sondagens e marketing, daquelas que correlacionam o código postal do comprador com a natureza, qualidade e custo dos artigos que compra e das lojas em que os compra, deu-se ao trabalho de correlacionar os bairros classificados pelo rendimento per capita dos seus habitantes, com os resultados eleitorais.
Os resultados que se obtivera são impressionantes pela regularidade e pouca dispersão (apertado intervalo de confiança) das curvas. Embora as variações das votações entre bairros sejam pequenas e a diferença entre os dois candidatos em cada bairro tambem seja pequena, verificou-se uma nitida correlação e uma veriação continua desde a votação mais significativa em Sarkozy nos bairros de maior rendimento, diminuindo progressivamente à medida que se consideram os bairros com o rendimento per capita a decrescer, até inverter a tendencia, com a votação mais significativa em Hollande nos bairros de menor rendimento per capita.
Ninguem manipulou os dados, é Estatística, amigo, diria este blogue.
E porque não é mais significativa a votação em Hollande, já que as faixas de população de menores recursos são mais largas?
Ora, isso aprendi eu na História de Portugal, nas guerras liberais, com a aliança das classes populares à aristocracia de D.Miguel.
E nos tempos que correm, com a campanha sistemática de desacreditação nos meios de comunicação social de tudo quanto seja serviços e servidores públicos, e com o endeusamento da "classe" de consumidor, aliás já entendida pelos imperadores romanos, quando falavam em panem et circensis.

É a Estatística...nem sempre em boas mãos.

terça-feira, 15 de maio de 2012

A 25ª cimeira ibérica de 9 de maio de 2012 - transportes ferroviários

A 25ª cimeira ibérica de 9 de Maio de 2012 não trouxe dados concretos sobre a construção das novas redes ferroviárias de ligação à Europa.

Continua a discussão bizantina sobre o privilégio a conceder ao transporte de mercadorias, esquece-se o transporte de passageiros entre as capitais Lisboa e Madrid (suscitando fundadas duvidas de que o objetivo é servir os interesses das low cost aéreas) e continua a “reafirmar-se a importância estratégica da bitola europeia para a competitividade das exportações “ e a formular-se intenções de que tudo avance “quando possível” e “o mais rapidamente possível”.

Todavia, não se deu conta de que equipas de engenharia estejam desenvolvendo os projetos e quais as decisões que terão de ser tomadas perante problemas concretos que vão surgindo (só surgirão se as equipas de projeto desenvolverem o trabalho).

Salvo melhor opinião, estamos a perder tempo com conversa fiada (pobre grupo de trabalho para  amelhoria do Lusitania-Hotel, como pode melhorar-se a linha pelo ramal de Caceres e Valencia de Alcantara sem grandes investimentos?) e a perder fundos europeus já decididos há muito com a Comissão Europeia (engraçado este argumento: no caso do transporte de passageiros em alta velocidade podem quebrar-se os acordos anteriores com a Comissão Europeia, mesmo que ela financie a construção e defina como 3ª prioridade, em toda a Europa, as ligações ferroviárias em alta velocidade ente Lisboa e a Europa).

Evidentemente que se aplaude a decisão de eletrificar Vilar Formoso – Medina del Campo (perto de Valladolid) , mas isso já tinha sido aprovado em anterior encontro Ana Pastor-Alvaro Santos Pereira, porque muitas toneladas.km de mercadorias ainda hão-se passar por Irun antes de termos bitola europeia para lá chegar (e não é tão grave como isso, o transbordo; é grave, mas não é tanto como muitas vezes se pinta; e são os próprios operadores que o dizem; evidentemente que um utilizador, como a Auto-Europa, ganharia com a rapidez do transporte, mas não é tão grave como isso).

Lamenta-se a ilusão que se mantem sobre a ligação ferroviária Porto Vigo, prometendo-se um “melhoramento progressivo e substancial através de, numa primeira fase, da potenciação como serviço internacional e, a médio prazo, através duma atuação sobre a infraestrutura ferroviária” (por Hermes e por Mercúrio, pelos deuses protetores dos transportes e do comércio, que conversa fiada de “potenciação” é essa? Um serviço ferroviário só melhora quando se atua nas infraestruturas e no material circulante; não há decreto-lei que possa alterar isto; andam a enganar as pessoas sérias do Norte que querem uma ligação ferroviária a sério, de mercadorias, que Vigo é um dos principais portos pesqueiros da Europa, e de passageiros, que a economia avança também com a deslocação de pessoas, como qualquer negociador que conheça as limitações e os inconvenientes das videoconferências sabe; só a médio prazo se vai atuar na infraestrutura?!).



Enfim, pode considerar-se parada a ligação ferroviária Sines-Irun. Amanhã, ao fim do dia, a situação estará no mesmo ponto em que estava ontem, ao fim do dia.

E na próxima cimeira continuará a reafirmar-se “a importância estratégica da bitola europeia”, e na próxima visita a Sines continuarão a formular-se votos para que a ligação seja o “mais rápido possível”.



Entretanto, submeto aos leitores este esquema topológico com os principais pontos por onde passarão as ligações ferroviárias de mercadorias e de passageiros à Europa.

Pelo comunicado da 25ª cimeira fica-se com a ideia de que a parte portuguesa não tem negociado convenientemente com a parte espanhola (por exemplo, a ligação pela hipotenusa entre Caia e Cáceres poupava quilómetros relativamente aos catetos por Merida; idem com o desvio por Toledo; e se a saida em alta velocidade se fizesse por Valencia de Alcantara e não por Caia? até que ponto não seria preferível fazer uma ligação direta Cáceres-Medina del Campo ainda antes da ligação de mercadorias Aveiro-Salamanca que é uma construção caríssima? E antes da ligação passageiros em alta velocidade Cáceres-Madrid (a ligação seria por Ávila-Madrid; já terá sido estudado, isto?) , que não há uma frente comum para negociar com a Comissão Europeia e que se está a perder tempo quando se devia estar a adaptar o projeto anterior para começar o mais depressa possível as obras (as tais de bitola europeia ou bi-bitola enquanto não houver continuidade) Sines-Poceirão-Caia.

Pelos menos é o que me parece.

O esquema ajuda talvez a compreender a complexidade da questão (se é complexa deve ser debatida abertamente).

Destaco o relativo consenso dos percursos Sines-Poceirão-Caia, os custos elevados da ligação Aveiro-Salamanca, a necessidade de melhorias das ligações atuais em bitola ibérica (de que a eletrificação Vilar Formoso-Medina del Campo é um bom exemplo). Os custos da ligação Aveiro-Salamanca já forma oportunamente estudadso quando se discutiu o traçado Lisboa -Madrid. De facto era tentador construir duma assentada as ligações Sines-Lisboa-Porto (passageiros tambem, claro) e sair por Salamanca até Madrd. Mas é carissima, a construção Aveiro-Salamanca, para as mercadorias não terem um gradiante superior a 1,7% e poderem ter curvas de raio superior a 1000 m. Por isso se foi para o traçado Poceirão-Caia...

A ligação Barcelona-França de alta velocidade em bitola europeia já está a funcionar (mercadorias e passageiros) e a ligação Saragoça-França foi chumbada pela Comissão Europeia. A ligação Algeciras-Barcelona vai arrancar rapidamente. Será uma pena se não se aproveitar para melhorar a ligação Caia-Madrid (reduzindo os quilómetros dos desvios).



PS em 16mai2012 - Ver a declaração conjunta em

O esquema ajuda a imaginar como o ministerio de fomento espanhol deve ter ficado descansado com a cimeira. Apenas tem de se preocupar com a eletrificaçãozinha até Medina del Campo e com umas melhoriazitas no Lusitania Hotel. O resto pode esperar. Entretanto, todo o vapor (projetos e negociação de fundos com Bruxelas) com a ligação de Algeciras a Barcelona (Tarragona) e com a ligação Madrid-Irun por Valladolid. Quem conhece a história das negociações das águas desde meados do século passado entende o que pretendo dizer. Na atualidade, isso significa que o governo português entendeu qye nºao precisava de ter uma frente comum com o governo espanhol para concretizar a 3ª prioridade das redes transeuropeias. Estou tentado a fazer um exercício de imaginação: se eu fosse alemão ou francês não entendia porquê.

domingo, 13 de maio de 2012

A imagem é mais clara do que a argumentação

Tem razão os críticos da oposição.
Perdem-se em palavras e discussões bizantinas.
Mais vale uma boa imagem, como a do cartonista do DN, e fica esclarecida a afirmação do senhor primeiro ministro, que ele aprendeu nos powerpoint dos cursos acelerados de boa gestão, sobre a transformação da ameaça do desemprego numa oportunidade.



Eu creio que a imagem do senhor que sai do seu emprego também pode ilustrar aquela ideia que, depois de descer por um declive abaixo, se retoma o crescimento (passem as redundancias, claro).

Transcrição de Boaventura Sousa Santos de novembro de 2010


Este texto foi escrito por Boaventura Sousa Santos e publicado numa quinta feira, em 18 de Nov de 2010:


“…A preocupação com as dívidas é importante mas, se todos devem (famílias, empresas e Estado) e ninguém pode gastar, quem vai produzir, criar emprego e devolver a esperança às famílias?

Neste cenário, o futuro inevitável é a recessão, o aumento do desemprego e a miséria de quase todos.

A história dos anos de 1930 diz-nos que a única solução é o Estado investir, criar emprego, tributar os super-ricos, regular o sistema financeiro. E quem fala de Estado, fala de conjuntos de Estados, como a União Europeia. Só assim a austeridade será para todos e não apenas para as classes trabalhadoras e médias que mais dependem dos serviços do Estado...”

Como pois pode alguém vir agora dizer, dezoito meses depois, que os números do desemprego são inesperados? Especialmente depois do estado português ter utilizado dinheiros públicos não para investimento, mas para salvação de acionistas de bancos?



A crise explicada às crianças




Fico um bocadinho de pé atrás com os livros que explicam às criancinhas as coisas económicas.
Não gosto do livro de João César das Neves quando dá o exemplo do egoísmo do padeiro como resposta à necessidade do pai da criancinha encontrar pão para ela, esquecendo a outra parte da ideia de Adam Smith, que o padeiro deve ter uma responsabilidade social.
Com o novo livro ilustrado de João Miguel Tavares, "A crise explicada às crianças", continuamos a discutir se se deve ser de esquerda ou de direita. Mas reconheço que não era possível apresentar no livro cálculos fundamentadores de medidas a tomar para atenuar a crise e que a ideia do livro, apresentando duas perspetivas opostas, é interessante (problema: vai induzir as criancinhas a perguntar qual o lado dos bons e o dos maus; quando se devia retirar de ambos os lados aquilo que pudesse contribuir para a solução).
O défice é o urso guloso que se endivida, o mel é o capital e os mercados são as abelhas laboriosas.
O senhor ministro das finanças teve a simpatia de apresentar o livro e, obviamente, disse que a culpa tinha sido do urso.
Isto de andar à procura de culpados também não me parece saudável para as criancinhas, bem basta a inserção no subconsciente da culpa do pecado original, que porque ninhuem o viu tem mesmo de ser subconsciente.
E questionado sobre a questão do desemprego, nada disse.
Mas digo eu.
O desemprego foi aquela doença inexplicável e inesperada (do ponto de vista da direita, claro) que atacou as abelhas e arruinou a maioria das colmeias dos apicultores norte-americanos e levou a que houvesse mel insuficiente para repor aquele que tinha sido consumido. Ou dito de outra forma, a toxicidade do mel acabou com a saúde dos mercados.
Quanto à inexplicabilidade da doença, os especialistas estudaram o assunto e concluíram: alguns pesticidas tinham um componente que provocava degeneração das abelhas, tornando-as incapazes de produzir o mel necessário.
É isso, os mercados não podem ser deixados entregues a eles próprios, que se arriscam a criar produtos tóxicos para eles próprios. Só precisam de uma pequena ajuda do urso imprudente para completar o quadro da tragédia.

Mas pode ser que urso e abelhas ganhem juízo.

http://sicnoticias.sapo.pt/economia/2012/05/12/vitor-gaspar-explicou-crise-as-criancas-mas-esquivou-se-a-perguntas-para-adultos

PS em 21 de maio de 2012 - Fiquei chocado quando recentemente li a notícia de que a produção de mel em Portugal cairá muito este ano devido ao período de seca (falta de água , florescimento fora de tempo e crescimento excessivo e não sustentável dos enxames). Depois de há tempos se ter verificado uma corrida à compra de enxames e ao seu roubo por incapacidade de responder à procura, estamos agora na situação de ter de importar mel.
É possível que o autor do livro da crise explicada às crianças pondere que afinal não é bonito estar a atirar com as culpas para cima do urso, que não tem culpa nenhuma da seca. Tampouco as abelhas têm culpa da seca. Isto de causas externas é assim.
Algures, onde pelos vistos autor, ilustrador, apresentador, leitores e comentadores ainda não vislumbram, haverá um ponto de equilíbrio entre o urso, as abelhas  e o mel.
PS em 5 de junho de 2012 - dada a proximidade do tema, convirá ver este "post" em conjunto com o de Victoria Grant, uma criança a discursar sobre a crise:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2012/06/victoria-grant-public-banking-institute.html
Imaginemos a contrariedade do autor e do seu ministro das finanças se a menina Victoria tivesse intervindo na sessão de lançamento, a criticar o aumento dos impostos que o urso tem de pgar para os juros do mel poderem subir...




No reservations - culinária interveniente

A senhora diretora do Magazine semanal do DN ficou desolada com o programa de culinária No Reservations, de Anthony Bourdain, que o canal Travel dissemina pelo planeta.

A senhora diretora costuma encher as páginas do magazine com exemplos de heróicos portugueses e portuguesas que espalham o seu talento pelo país e pelo estrangeiro.

Vidas de sucesso e de coragem a seguir, para combater a crise.

Eu, que como pessoa mediana acho que as pessoas normais é que devem resolver a crise, funcionando como pessoas normais, sem heróis nem lideres superiores, pensei dedicar-lhe um comentário sobre a ópera Albert Herring, de Benjamin Britten, outro que não acreditava em heróis condutores de homens:
http://en.wikipedia.org/wiki/Albert_Herring


Como costumo dizer, a ópera é um fenómeno subversivo, e esta goza com a ideia da eleição de um modelo que sirva de exemplo à comunidade, no caso a rainha de Maio.

Como nenhuma das candidatas podia classificar-se como irreprensível, do ponto de vista da moralidade vigente, foi eleito o rei de Maio, Albert Herring, filho bem comportadinho da dona da mercearia da terra, dedicado ao trabalho e livre de tabaco e álcool.

Mas na festa da coroação alguém lhe misturou aguardente na limonada e as coisas acabaram por ser pouco exemplares.

Talvez Bourdain, na sua visita a Lisboa, tenha posto aguardente na limonada. A senhora diretora do Magazine não gostou de ver as ruas decrépitas de Lisboa e o desanimo dos portugueses perante a crise, desde António Lobo Antunes a José Quintela. Que, no entanto, vão discorrendo de forma bizantina sobre o carater do povo português.

Ficou escandalizada. Talvez tenha sido mais um caso de dissonância cognitiva (discrepância entre aquilo em que se acredita ou o que se pensa ou sente sobre uma coisa e o que, de repente, se vê como sendo realidade).

Pena a senhora nunca ter tido uma palavra de crítica contra os iluminados gestores que foram desertificando Lisboa através da deslocação de serviços para a periferia.

Nem nas páginas da sua revista criticou a importação de alimentos e de acessórios de moda feminina.

Ao menos podia aplicar a sua teoria de admiração dos bons exemplos a Carla, a senhora pescadora de Lisboa que apanha polvos, robalos e marisco que não precisam de vir da Tailandia e do Vietname. Mas a personagem não tinha carisma.   Alem de que é uma vergonha não denunciar a politica vergonhosa contra os pescadores de Lisboa (não houve sucedâneo para a doca de Pedrouços).

Por mim, embora não seja apreciador de programas de culinária, acho que devia pegar-se no tema e fazerem-se uns programas com uns cálculos, sobre o que há a fazer em Lisboa e as necessidades de emprego para isso.
http://www.travelchannel.com/tv-shows/anthony-bourdain/photos/no-reservations-lisbon-pictureshttp://www.travelchannel.com/tv-shows/anthony-bourdain/photos/no-reservations-lisbon-pictures

sábado, 12 de maio de 2012

Mais alimentos com grande pegada ecológica

Nas bancas da fruta mais vestígios de grande pegada ecológica, dada a necessidade de transporte de tão linge:
Melancias do Senegal, peras da África do Sul, melões de Marrocos.
Passagem à banca do peixe e produtos do mar:
Mexilhões de Portugal (admiro-me) a 1,99 € o quilo, caracois cozidos de Marrocos a 6,99 € (mas basta ir a Palmela para comprar toneladas de caracois a tuta e meia...) ameijoas de França a 7,49 €, canivetes da Holanda a 3,99 €.
E assim vamos continuando a pôr no estrangeiro o dinheiro que recebemos aqui, sem diminuir a dívida externa e gastando o tempo em discussões bizantinas sem fazer cálculos concretos.
Eu tinha uma sugestão, mas os senhores economistas e financeiros que nos governam são capazes de não concordar.
Mantinhamos o euro a circular, mas criávamos mais duas moedas,o escudo e o banker. As pessoas receberiam o seu ordenado ou a remuneração de qualquer serviço prestado em duas partes:  uma parte em euros, correspondendo ao que é importado, e uma parte em escudos, correspondente ao que é produzido no país. Cambio dependente do mercado. Nos exemplos dados, os mexilhões seriam pagos no supermercado em escudos e os caracois cozidos de Marrocos em euros. A terceira moeda, o banker, seria aquela em que os bancos negociariam com o BCE. Não convertível fora dos circuitos bancários. Como reagiriam os mercados?

Falas de governantes - eu não minto, não engano, não ludibrio

É curioso analisar as falas de governantes.
O senhor minstro das Finanças do governo anterior, Teixeira dos Santos, dizia que se podia enganar, mas que não enganava ninguém.
O atual senhor ministro, Vitor Gaspar, diz que não mente, não engana, não ludibria.
Não é por ter lido o testemunho elogioso de um antigo colega italiano do senhor ministro nas lides da finança central da Europa, que o dá como pessoa sensível, mas até acredito que não mente nem engana.
O que não quer dizer que eu não me sinta enganado.
Quando se faz um orçamento com base no preço do petróleo a 80 dólares eu sinto-me enganado, independentemente de me quererem enganar ou não ou de admitirem que se enganaram como Teixeira dos Santos.
Acredito, apesar de receber muito mal a informação de que os numeros do desemprego são superiores ao esperado.
Porque esperaram mal, porque acreditaram que os manuais por onde estudaram estavam completos e não estavam.
Porque ignoraram a correlação entre o desemprego e o custo de vida (lei de Philips).
Parece que os senhores economistas do poder central da Europa já perceberam que têm de deixar a inflação subir um pouco.
Mas ainda não confessaram porque receiam a reação da população.
Cortar em tudo, provocar a recessão e achar que os numeros são inesperados?! ( na verdade para mim são, esperava mais; em agosto do ano passado fiz contas a um abaixamento do PIB de 5%; parece que será 3,3% a 3,5%; tambem me engano eu, mas não sou economista, nem disponho das informações de que os senhores governantes dispõem).
É caso para dizer, como a senhora deputada Heloisa Apolónio: "os senhores andam a dormir?" Ou será um caso de dissonancia cognitiva? Sensível aos prejuizos que causa, mas a sentir-se obrigado a causá-los?
Já que o senhor  ministro gosta de citações, vou comparar, talvez abusivamente, mas como tambem considero abusivo eu ser enganado desta maneira com as previsões orçamentais e de desemprego e com a ignorancia da lei de Philips, vou mesmo comparar o seu ar pungente quando toma contacto de perto com a triste realidade do desemprego, com a atitude pungente da branca e inocente vestida de rendas,  ignorante da fealdade deste mundo, a heroína do Germinal de Zola, Cecile Gregoire, quando desce aos infernos da vida dos mineiros deVoreaux.
A rapariga ignorava que se vivesse tão mal e o episódio acabou  em tragédia. Coisa que sinceramente não lhe desejo, nem a ninguém. Desejaria apenas que se abrisse mais às propostas de quem não pensa como o senhor.
Por exemplo, para não estarmos a fulanizar com ninguém da atualidade, vamos até ao ano 1907 neste abençoado país.
Como sabe, Portugal não podia, desde a bancarrota de 1892, ir aos mercados , como novorricamente se diz agora porque estava num plano de resgate com o Barings que veio a falir em 1995 com os derivados de Singapura. Em 1907 aconteceram duas coisas que contradisseram frontalmente a teoria do corte de investimentos quando há escassez de capital.
Uma, foi o inicio da construção das fábricas químicas da CUF nos terrenos do Barreiro. Iniciativa de Alfredo da Silva, engenharia do francês Stinville. Agora que vivemos a esperança das renováveis, evoco que uma das produções era óleo combustível obtido a partir do bagaço da azeitona. Em Portugal somos assim, conhecemos as soluções, mas gostamos de descobrir toda e qualquer espécie de dificuldade para evitar que as soluções se executem.
Outra, foi a decisão de construção da central termo-elétrica da Junqueira.
Ambas as ações exigiram investimento que os senhores economistas que detêm o poder de decisão neste momento em Portugal considerariam desajustado ao estado das finanças de então.
Ambas as decisões exigiram a participação de uma engenharia atualizada na construção das fábricas e da central.
Não se vê neste momento no governo nenhuma destas condições essenciais.
Os senhores economistas e financeiros decisores não querem aceitar que o seu papel deve ser o de encontrar soluções que tornem possíveis os investimentos (isto é, que não os precludam, ou não os precluam, como gosta de conjugar o senhor ministro das Finanças) que têm de se fazer, não o de avaliar e decidir a eficácia física do investimento.
E a ausencia da engenharia, da sua visão física, no ministério da Economia e dos Transportes, é gritante, sem desprimor pelos colegas que lá estão, que eu refiro-me ao nivel decisório.
Mensagem, contra a paralisação dos investimentos, para os senhores ministros das Finanças e da Economia: citação de Ronaldo: "Assim não ganhamos o jogo"; citação de Manuel de Oliveira: "Parar é morrer".

Referencias:
- 100 anos da CUF, a fábrica no Barreiro, António Camarão, António Sardinha Pereira, José Miguel Leal da Silva, ed. Bizancio
- A central Tejo, a fábrica que eletrificou Lisboa, Fernando Faria, Luis cruz, Pires Barbosa, ed. Bizancio

Notícias das low-cost em maio de 2012

A Easy jet vive feliz. Aumentou os preços dos bilhetes atendendo ao preço dos combustíveis, registou um aumento de oferta e de procura. Mas teve prejuízos no ultimo semestre. nada de grave, a British Airways e a Iberia também tiveram prejuízos.
E a Easy jet tem razões para estar feliz. Segundo o seu diretor em Portugal, o governo português, que a "convidou" para o terminal 2 da Portela, até já lhes perguntou pelo "tamanho dos seus aviões", para ver que aeroporto secundário há-de escolher (realmente, a unica pista do Montijo compativel com o aeroporto da Portela é um bocadinho pequenina e Alverca e Sintra são pouco compativeis).
Doutra "low cost" vêm também noticias: os protestos da Ryanair sobre as investigações da Comissão Europeia sobre eventuais privilégios anti-concorrencia concedidos a aeroportos alemães de "low-cost"; que essas investigações podem prejudicar as receitas do turismo. Interessante, quando são os próprios atores a chamar  a atenção para as suas graças.
Mas podem continuar tranquilos.
A cimeira ibérica não está a pensar poupar nas emissões de CO2 nas ligações Lisboa-Madrid.
Há mercado para continuarem, com a satisfação dos preços baixos pelos seus clientes.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Bernardo Sassetti

Fiquei profundamente emocionado com a noticia da morte de Bernardo Sassetti.
Porque para mim a música é a  mais elevada das artes, pela sua abstração, e Bernardo Sassetti era um grande músico.
Era também uma pessoa bem formada.

Este blogue referiu-se a ele, a propósito do metropolitano,  em :

Destaco o  espetaculo de bailado "Uma coisa em forma de  assim", para o qual compôs música maravilhosa que interpretou no palco do espetaculo:





Pela sua morte prematura, fica a imagem dum país em que os cidadãos e as cidadãs não conseguem dar o que podem dar.

Micro ensaio sobre a dicotomia consenso-cotejamento

Amavel comentador repreendeu-me por neste blogue, a propósito da poesia de Sofia de Melo Breyner,  eu dar alguma importancia  ao confronto esquerda-direita.

Não queria dar muita importancia.
Não sou adepto do mazdeismo do segundo milénio antes de Cristo, com a sua criação do inferno e do paraíso.
Mas não posso ignorar a dialética que se sobrepõe à evolução tecnológica.
E posso dar mais importancia a outros métodos, conforme tenho referido a propósito da Sabedoria das Multidões e da Revolução sem lider.
Também posso deixar-me iludir, nem que seja por um breve instante, com a expressão maravilhosa que o presidente do PASOK, terceira força mais votada, encontrou para o seu objetivo de formar governo: um governo "ecuménico".
"Ecuménico", palavra grega, é isso mesmo, etimologicamente, "aberto para o mundo inteiro", sendo aqui o mundo inteiro uma nação que precisa  de recordar que é o berço da cultura ocidental.
Recordar até o episódio em que a ganancia de Atenas pelo tesouro de Dilos rebentou com a confederação grega.
Aberto também aos criminosos de braço estendido?
Se isso salvar a nação sem violencia, onde está o mal?
Posso sentar-me ao lado de um pitbull se ele estiver açaimado e controlado, não?

Mas deixem-me apresentar o micro ensaio sobre a dicotomia esquerda-direita ,ou a dicotomia consenso-cotejamento.
Os jornais enchem-se com apelos dos políticos ao "consenso", não é?
Infelizmente "consenso" significa sempre a submissão, a troco de uma ilusão, de uma ideia a outra, em vez de se cotejarem as ideias, se fazerem as contas e se retirar de cada uma das ideias o que pode contribuir para a melhoria comum.
É fácil de demonstrar que o cotejamento tem vantagens.
Repare-se em dois grupos de jovens, um de rapazes e outro de raparigas, a chegar a uma esplanada com lugares vagos.
O grupo de rapazes busca imediatamente um consenso que não é mais do que a subordinação das vontades pacíficas da maioria de rapazes que reconhece a um deles a liderança para a escolha. Sentarem-se onde o "lider" propôs, poupa à maioria energia para se concentrar em assuntos mais importantes, como fazer propostas de ocupação de tempo do grupo, e analisar as vantagens e inconvenientes de cada proposta; possivelmente para o lider decidir depois, uma vez que não tem tempo para congeminar os pormenores de cada proposta.
O grupo de raparigas leva mais tempo a sentar-se, mas é um encanto vê-las; cada uma delas volta-se para cada uma das outras a interrogar "ficamos aqui?" enquanto percorrem toda a esplanada; estão a cotejar hipóteses (segundo o método científico no seu melhor) até que se sentam em animada conversa coletiva; está ali um grupo a pulsar em conjunto sintonizado, embora cada uma delas possa estar a dizer coisas diferentes umas das outras. Isto é, a decisão sobre o local de poiso  foi tomada após múltiplas trocas de opinião, e já estão a utilizar o mesmo método para a discussão sobre como vão ocupar o tempo.
Feitas as contas, cada tomada de decisão leva mais tempo, mas o conjunto de tomadas de decisão levou menos tempo e envolveu todas ou quase todas, o que melhora a coesão do grupo e a dedicação de cada uma no grupo.
Por outro lado, os resultados do PISA mostram com clareza que as raparigas ficam mais bem colocadas nos tetes de compreensão e interpretação de dados.
Não admira portanto que internacionalmente, por se seguir o método do "consenso", os resultados estejam tão mal.
Posto isto, ainda há duvidas que os grandes decisores têm de reconhecer que têm seguido caminhos errados até aqui?
Vá lá, governos ecuménicos, precisam-se.

Foyse gastando a esperança - ou a história económica de 5 séculos contada muito depressa

"Foyse gastando a esperança" é uma canção de autor anónimo português do século XVI que chegou até nós através do Cancioneiro de Paris.
É provável que seja uma composição de Pero de Escobar, que passou grande parte da sua vida em Espanha.
Um pouco anterior a Camões, que glosou o tema numas redondilhas ("... no meio desta porfia, de quanto bem pretendia , foi-se gastando a esperança ... quando já não era meu, fui entendendo os enganos...").
Não consegui encontrar uma versão para três vozes, conforme o original, mas a adaptação para piano de Nuno Raimundo é uma beleza.






O século XVI em Portugal foi caracterizado por uma grande acumulação de riqueza em faixas restritas da população, graças às mais valias do comércio das especiarias e da escravatura da India e de África, e do intercambio comercial com a Europa central.
Enquanto a nobreza e a realeza contraiam dívidas e a população fornecia mão de obra barata para a expansão.
Esperemos que 5 séculos depois as pessoas deste país não gastem a esperança em vão.
É que os esforços dos habitantes deste país, da sua maioria, dos que trabalham e não têm o poder de decisão, ao longo destes 5 séculos, raramente atingiram a convergencia necessária para melhorias substanciais.
E mesmo assim, nesses poucos casos, apareceram sempre depois alguns conterraneos muito senhores dos seus meios de produção ou fontes de rendimento a repreender a maioria dos seus concidadãos e concidadãs.

Voltando à poesia de Sofia de Melo Breyner - os Gracos

Voltando à poesia de Sofia de Melo Breyner, graças ás maravilhas da internet e do google, transcrevo uma fala da peça os Gracos, enquanto oiço do youtube a cena de Frigia e Spartacus

:


Os ricos nunca perdem a jogada

Nunca fazem um erro. Espiam
E esperam os erros dos outros
Administram os erros dos outros
São hábeis e sábios
Têm uma larga experiência do poder
E quando não podem usar a própria força
Usam a fraqueza dos outros
Apostam na fraqueza dos outros
E ganham
Tecem uma grande rede de estratagemas
Uma grande armadilha invisível
E devagar desviam o inimigo para o seu terreno
Para o sacrificar como um toiro na arena.

                                    Sofia de Melo Breyner

                     Os Gracos. I Acto. II Cena – Obras completas - 1968


Os Gracos foram tribunos da plebe na Roma do século II AC. Promoveram leis de reforma agrária e de promoção da plebe que os consules patricios anularam depois. Spartacus conduziu a sua revolta contra a escravatura já no século I AC.
É possivel que Sofia de Melo Breyner tenha visto o filme de 1960 com Kirk Douglas e se tenha lembrado de ir buscar o episódio dos Gracos.
Dum e doutro lado da cortina de ferro, como dizia Churchill, a humanidade produziu duas obras primas pela forma e pela mensagem.
Donde, não parece ser boa prática extremar as posições e pô-las a competir.
Embora ao longo da história se tenha assistido a esta luta entre quem quer generalizar os benefícios e quem os quer reservar a uns poucos.
Não se pretende diabolizar os ricos, embora a disseminação do video sobre os donos de Portugal possa ser interpretado por alguns como isso.
http://vimeo.com/40658606

Nem persegui-los.
Apenas se desejaria que eles se democratizassem, isto é, que as suas famílias não se fechassem tanto, não fossem tão ciosas dos oligopólios.
A humanidade também já conquistou a ideia da não violencia, de Gandhi, e a declaração universal dos direitos humanos (direito ao trabalho, vem lá).
O que já é suficiente, sem necessitar de argumentar com os custos da confrontação,  para nos deixarmos de propor a supremacia de uma ideia sobre outra.
Como diz José Matoso, é da diversidade que vem a regeneração, não do consenso que é mais uma forma de opressão de um pelo outro.
Devia ser o critério a seguir na formação dos governos, a participação alargada a todas as sensibilidades.
Mas como no tempo dos Gracos, há sempre alguém que não quer alargar a participação na res publica.
Pena.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Ruinas de Lisboa - o parque Mayer


decoração do que resta das paredes do teatro ABC


mais decoração no ABC


teatro ABC


mesmo ao lado do cinema S.Jorge, a caminho do parque Mayer
Uma pequena reflexão sobre o parque Mayer.
O parque deve o nome a Adolfo de Lima Mayer, sogro de Jorge de Melo (o antigo) e bisavô pelo lado paterno de Cristina de Melo, esposa de Antonio Champalimaud e neta de Alfredo da Silva, o dos bancos resgatados por decreto de Salazar aquando da crise internacional de 1929 (que, como se sabe, foi provocada pelos excessos dos portugueses) e fornecedor de barcos para o transporte dos revoltosos de Francisco Franco no inicio da guerra civil espanhola.
Recentemente um tribunal deu por inválida a permuta entre a câmara municipal de Lisboa e uma empresa imobiliária.
A câmara perderá assim a posse do parque Mayer.
Há uma hipótese de expropriação, mas não está, que eu saiba, ainda decidida.
A decisão de efetuar a permuta foi, a seu devido tempo, tomada de forma formalmente democrática na câmara.
Apenas um partido, com representação minoritária, votou contra, embora a opinião pública atribua a outro partido essa votação.
Posteriormente ficou amplamente provado que a permuta não era legítima (os preços unitários do terreno de Entrecampos, da antiga feira popular, pertença da câmara, foram minimizados, e os preços do parque Mayer, pertença da sociedade imobiliária, foram maximizados).
Estamos portanto perante um exemplo de claro erro da maioria e de como a democracia não dispõe, pelo menos por enquanto, de meios que a protejam da ganancia e da sofreguidão de alguns  empresários.
Aparentemente, seriam suficientes dois meios:
- o método seguido pelas empresas de produção, de incluir no seu organigrama orgãos especificamente de qualidade e de controle da conformidade de processos; estes e os orgãos restantes da empresa funcionam em regime de controle mútuo;
- o envolvimento de cidadãos e cidadãs, até ao nível de maior proximidade, no debate das propostas e disseminação dos resultados, segundo mecanismos de democracia direta, com a participação dos partidos mas sem a subordinação formal aos partidos (bibliografia que se propõe: A sabedoria das multidões, de James Surowiecky, ed. Lua de papel;  A revolução sem lider, de Carne Ross, ed. Bertrand)
 


não é só deformação da lente; as gaiolas de vidro modernistas estão mesmo tortas


Reconheça-se que a execução do segundo ponto deste programa é difícil, mas o aproveitamento do trabalho já realizado ao nível das freguessias e o seu reforço poderia ser um caminho a seguir (evidentemente em sentido contrário ao da fúria dos cortes cegos e extinção de freguesias e à triste ideia de acabar com o método proporcional nas representações partidárias) .

teatro Variedades

  
 Já começaram as obras no parque Mayer, pelo menos no teatro Capitólio, mas o tempo vai passando e as ruinas vão continuando.


teatro Capitólio

As paredes do teatro Variedades estão pintadas com reproduções de cartazes de espetáculos. Alguns eram lindissimos






cartaz de Almada Negreiros
Soleil de nuit, decor de Larionov - Ballets russes, 1913
uma bela doceira de Odivelas, a competir com as lavadeiras
uma bela artista desconhecida
digna de Josephine Baker

teatro Capitólio

obras do Capitólio

azulejos no guarda roupa Paiva


decoração mural junto do guarda roupa Paiva

guarda roupa Paiva; inutil tentar alugar um fraque, fechou

















Mais um corte cego - o pequeno penso

A senhora das análises abriu a embalagem dos pensos e exclamou: "Tão pequeno".
Era, de facto, muito mais pequeno do que o último lote que ela tinha usado para tapar o furo na epiderme deixado pela seringa da análise do sangue.
Terá sido mais um corte, também cego, porque a senhora estava com muita dificuldade em acertar no furo.
E terá sido significativa, a poupança?
É que se começarem a pôr dois pensos em vez de um é capaz de ser pior.
Parece estéril, a observação?
Não estou seguro disso.
Devemos criticar a ideia dos cortes cegos, para que não se instale no subconsciente com autorização dos centros cerebrais de ética e comportamento.

segunda-feira, 7 de maio de 2012





Arvo Part, compositor estonio contemporaneo; ver: 
http://en.wikipedia.org/wiki/Arvo_P%C3%A4rt
Dedicado principalmente a musica sacra, segundo um estilo místico minimalista, perdoe-se a rotulagem imperfeita.
Já falado neste blogue em:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2011/12/arvo-part-compositor-estonio-e-o-seu.html
A musica, como diz Eduardo Lourenço, é pela sua abstração a mais elevada das criações humanas, e  também aquilo que nos une, independentemente do que cada um possa pensar.

Eu compreendo que as pessoas se afastem deste tipo de musica.
Que achem aborrecida.
Mas a mim faz-me lembrar a extraordinária musica grega ortodoxa que ouvi numa igreja de Atenas.
E por associação de ideias imagino que esta musica podia unir os gregos, não sob a tirania religiosa, mas como o encontro da contribuição dos partidos e dos cidadãos e cidadãs, de forma ativa e alargada,  de uma forma semelhante, para termos os pés mais próximos da realidade,  à que os islandeses estão realizando com conselhos de cidadãos e sem grandes preocupações de cumprirem os formalismos dos partidos.
A um país com uma população semelhante à de Portugal e com um PIB quase duplo, bastaria apenas isso, a convergencia de esforços .
Salvo melhor opinião.

O rio da minha aldeia - cenas de transportes


O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.

Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.


                                                          Alberto Caeiro




Gosto de me sentar a ver o rio.
Sente-se a vida das pessoas que viajam  e trabalham.
E apesar de tudo, o Tejo é o rio da minha aldeia.

domingo, 6 de maio de 2012

Sugestões para a cimeira ibérica de 9 de maio de 2012

No âmbito da energia e dos transportes, sugiro ao senhor ministro da Economia e Transportes, para debate na cimeira, o estudo de uma colaboração entre Espanha e Portugal (por esta ordem porque a Espanha já construiu uma central) para a construção de uma série de centrais solares de concentração em circuito de sais fundidos.
Trata-se de uma central solar de produção de energia elétrica de elevado rendimento (graças aos sais fundidos é possível manter aprodução de energia algumas horas depis do sol posto), embora exija a colocação dos espelhos concentradores numa área razoável (não necessita de paineis fotovoltaicos nem paineis térmicos).
A localização das centrais não precisa de ser em Portugal, dado que os eletrões, ou mais corretamente, os níveis de energia dos eletrões não conhecem fronteiras (quero eu dizer que a energia produzida, por exemplo, pelas eólicas do Oeste, junto do oceano Atlantico, para ser exportada para a Alemanha não precisa de vajar até lá; entre Portugal e Espanha acertam-se as contas do transito de energia nos dois sentidos através da sua fronteira; depois entre Espanha e França a mesma coisa, e entre França e a Alemanha, idem).
Pelo que deixei escrito entre parenteses se deduz que haver excesso de capacidade instalada para produção de nergia a partir das renováveis é ótimo, e há espaço para instalar mais, desde que se exporte.
Claro que deixar isto ao mercado livre e aos investidores é capaz de não funcionar, porque o mercado e os investidores percebem mais de negócios do que de eletricidade e o transito de energia precisa de salas de controladores bem equipadas.
Agora que a Alemanha talvez faça como o Japão, desinvestindo no nuclear enquanto não surge uma nova geração de centrais nucleares mais segura, com menor produção de residuos e com menor consumo do combustível nuclear não renovável, talvez seja um bom negócio, envolvendo os fundos estratégicos da UE dada a escassez de liquidez e a disponibilidade dos técnicos portugueses.
Tambem gostaria de sugerir ao senhor ministro que acerte finalmente com os homólogos espanhois por onde vai a linha de mercadorias de bitola internacional .
Isto é, por onde quer Espanha começar .
Não é submissão, é que Espanha tem 3 corredores possiveis e qualquer deles serve Portugal desde que bem tratado, por exemplo com traçados complementares em Espanha:

- o de Irun em bitola ibérica mas com troços  em construção em bi-bitola ou internacional - compatível com o projeto do concurso anulado do Poceirão ao Caia, apesar das voltinhas antes de chegar a Madrid para poder ligar a Àvila-Valadolid (na verdade, foi uma pena, a seu devido tmpo, não se terem convencido os homólogos espanhois à ligação em alta velocidade Lisboa Madrid não ter de ir a Toledo pelos catetos de um triangulo retangulo com a sobrecarga e estrangulameto da entrada em madrd pela linha de Sevilha, e não dar aquela volta por Mérida para chegar a Caceres por outros catetos, mas imagino a pressão das regiões autónomas e a economia de querer aproveitar linhas existentes); pressupõe o inicio da construção (ou pelo menos a conclusão do projeto)  entre Sines e o Poceirão em bi-bitola dado o ritmo lento de instalação da bitola internacional (essa lentidão e os custos com viadutos e tuneis de uma linha rápida para mercadorias em bitola internacional Aveiro/Leixões-Vilar Formoso obrigará a melhorar as linhas existentes em bitola ibérica, nomeadamente com travessas bi-bitola, em Portugal e Espanha)
- o corredor central (de Madrid a Saragoça-Huesca e travessia dos Pirineus para Toulouse (no papel, ainda, e a UE não concordou; pena não ter concordado porque era a distancia mais curta para as mercadorias portuguesas); também compatível com o projeto pré-existente para a ligação em alta velocidade Poceirão-Madrid, sem ter de passar por Ávila;  mas já há linhas de alta velocidade Madrid-Saragoça-Irun, Madrid-Saragoça-Barcelona, embora principalmente só para passageiros (isto de misturar mercadorias com passageiros não é boa ideia, porque comboios pesados de mercadorias obrigam a muita manutenção e comboios de alta velocidade de passageiros tambem; se quisermos utilizar a mesma linha para as duas coisas sobra pouco tempo para a manutenção, que é essencial para a segurança de pessoas e bens)
- o corredor do Mediterraneo, que servirá Algeciras -Barcelona, sendo que de Barcelona para França já se vai em alta velocidade e em mercadorias de bitola internacional (o governo espanhol dá prioridade a este corredor, o que não é grande coisa para Portugal); também compatível em menor grau com o projeto pré-existente:
                   -  até Merida com construção de ligação a Puertollano para ter seguimento por Albacete-Valencia ou Madrid-Saragoça ou Madrid-Valadolid
                   - até Madrid para ter seguimento por Madrid-Albacete-Valencia ou  Madrid-Saragoça ou Madrid-Valadolid


Topologicamente complicado?
Talvez não, sendo que o problema é sempre o dinheiro para o investimento.
Espero que o senhor ministro insista nos fundos que a UE tem cativados para o corredor Lisboa-França (incluindo passageiros, naturalmente porque, como o senhor ministro saberá mas não quer dar o braço a torcer, publicamente, a tonelada do CO2 está, a 14 euros,  artificialmente barata; se não estivesse, as "low cost" aéreas, atualmente protegidas pelos governos, não seriam competitivas com os comboios de alta velocidade até 700 km).

Mas não desista, senhor ministro, da ligação a Madrid com passageiros (pode sempre estudar-se a partilha com mercadorias, como o próprio projeto abandondo previa, com 3 vias paralelas).
Não se esqueça que Lisboa-Madrid e Madrid-Valadolid-Irun-Bordéus é o projeto com a prioridade nº3 do plano TEN-T da UE, ver:
 http://tentea.ec.europa.eu/en/ten-t_projects/30_priority_projects/priority_project_3/priority_project_3.htm

Crítica de cinema - Imigração clandestina, "Welcome", "Il villagio di cartone"


Com a devida vénia à RTP2, que passou estes dois filmes, sobre a temática dos imigrantes, nas suas sessões de sábado à noite.

Os filmes passaram despercebidos na programação dos cinemas portugueses, e eu corro o risco de ser acusado de desprezar os cidadãos e cidadãs que preferem a programação que enche os cinemas dos grandes centros comerciais, com fantasias que não consigo classificar de outra forma que não seja de alienação (alheamento, diversão, distanciamento) da realidade e de afastamento da discussão e do debate alargados que deviam caraterizar a vida democrática.

Nesta perspetiva, a televisão pública cumpre a sua função de serviço público, mas deveria repetir as sessões de modo a tentar “apanhar” mais espetadores.
De notar que a cinemateca nacional também os passou.

1 – Welcome, de Philippe Lioret

A cultura curda continua a sofrer atualmente com a situação política.
Os curdos estão dispersos por território turco e iraquiano (semelhantemente aos bascos repartidos entre França e Espanha), separados por uma fronteira definida pelos ocupantes que derrotaram o império otomano na primeira guerra mundial, mas com pouca consideração pelos povos que habitavam o território.
Existem grupos armados de curdos que combatem as tropas turcas.
Não concordo com Tomás de Aquino, doutor da igreja católica, quando escreveu que é legítima a luta armada contra um ocupante.
Mas também não concordo com a recusa de negociações da Turquia e da UE com esses grupos.
Depois do exemplo de Gandhi sabe-se que a não violência pode ser mais forte do que os exércitos.
A UE deveria servir de mediadora do conflito propondo um grau de autonomia ou de federação dos curdos.
Infelizmente não parece que os senhores ministros dos estrangeiros da UE estejam de acordo comigo.
E arrumam simplesmente os grupos armados curdos na gaveta dos terroristas internacionais.

Entretanto, os curdos imigram e refugiam-se noutros países.
Com a resistência ativa das autoridades e o apoio dos cidadãos e cidadãs bem postos e desejosos de manter a sua tranquilidade burguesa, como se dizia antigamente.

http://www.youtube.com/watch?v=NkMpxvhzCVs

Por isso surgem filmes assim, como Welcome, que conta a história de uma tentativa de travessia a nado do canal da Mancha por um refugiado curdo-iraquiano, falhada no último momento.
O filme mostra que há cidadãos e cidadãs europeus que pensam de outra maneira que não seja a expulsão, e foi feito com sensibilidade.
É uma pena não ser “comercial”, como se dizia antigamente e se continua a dizer.

Por mim, como cidadão europeu, voto pela integração da Turquia na UE e pela autonomia dos curdos.
Interessante ver a descrição do filme e de medidas de proteção aos imigrantes num site oficial do governo em 2009; apesar da política oficial repressiva e nada integradora da imigração, ainda há quem tenha outras ideias nas instancias europeias:
http://www.acidi.gov.pt/_cf/28522

2 – Il villagio di cartone (a aldeia de cartão) de Ermmano Olmi

Este blogue descreve melhor do que eu o filme:
http://temposinteressantes.blogspot.pt/2012/04/filme-aldeia-de-cartao-de-ermanno-olmi.html

http://www.mymovies.it/film/2011/ilvillaggiodicartone/

http://anotacoescinefilo.com/2011/11/11/il-villagio-di-cartone-ermanno-olmi/

Trata-se também da imigração clandestina, agora que se morre a tentar atravessar do norte de África para Itália como náufragos da Medusa (ver http://fcsseratostenes.blogspot.pt/search?q=medusa ).

Nada se pretende demonstrar, a não ser que os governos, do G3, do G7, do G8, do G20, do G qualquer coisa, deviam ser menos exigentes no cumprimento da lei repressiva da imigração, e mais exigentes no cumprimento dos artigos da declaração universal dos direitos humanos que falam de igualdade e do direito ao emprego.

sábado, 5 de maio de 2012

O custo marginal de uma garrafa de whisky

Devo isto ao professor Daniel Barbosa, que dava aulas de economia no IST nos anos 60.

Vamos que uma destiladora produz  500.000 garrafas de whisky por mês (é uma hipótese).
O custo unitário poderá ser de 3 unidades de conta à saida da fábrica (é uma hipótese).
Mas eis que a empresa produtora, beneficiando das potencialidades da sua maquinaria, aumentou a produção para 700.000 garrafas.
As primeiras 500.000 garrafas ficaram-lhe ao custo unitário de 2,8 unidades de conta e as restantes garrafas ao custo de 0,8  unidades de conta.
Vamos também que a destiladora vende as 500.000 garrafas aos distribuidores escoceses ou irlandeses a 3,1 unidades de conta a garrafa, mas vende aos importadores portugueses as 200.000 a 0,9 unidades de conta.
Os distribuidores agravarão com os custos de transporte e as suas margens de lucro.
Poderão por exemplo vender a garrafa a  8 unidades de conta, com um lucro da ordem de 8 - (0,9 + transporte + armazenamento) ~ 6 unidades de conta.
Eis que alguem da distribuidora portuguesa se lembra de "oferecer" um desconto de 50% sobre as garrafas de whisky que vende por 4 unidades de conta.
Reduziu portanto o seu lucro para 2 unidades de conta.
É dumping?
É; porque se tivesse comprado as garrafas pelo seu preço médio à saida de fábrica (2,47 unidades de conta) estaria a vendê-las por preço inferior aos custos de produção.
Mas facilmente apresentará à entidade "reguladora" um papelinho em como as comprou a 0,9 e teve com elas custos de 1,1 de transporte e armazenamento.
E a "reguladora" que não pense em fazer voz grossa ao fabricante escocês ou irlandês, porque este apresentará outro papelinho, à "reguladora" da terra, comprovando que aquelas 200.000 garrafas foram produzidas a 0,9 unidades de conta cada, o chamado custo marginal, fruto da produtividade e rendibilidade devidas à escala da produção.

Isto é, apesar das almas crédulas nas virtudes dos mercados a funcionar livremente, que repetem como a personagem de Armando Cortês num programa de passagem do ano dos tempos da televisão monocanal "o que era bom era que a televisão transmitisse"- o que era bom era que a reguladora regulasse,  "isto", como se diz em linguagem corrente, não vai com "regulações".
Como André Macedo, do DN e Dinheiro Vivo diz hoje, o problema não está nos descontos nem no dumping, o problema está no duopólio Pingo Doce - Continente.
Podem os cidadãos crer firmemente que com a concorrencia ficam a lucrar, mas não ficam; os preços baixos do Pingo Doce devem-se a uma escandalosa predominancia de importações que contribuem para o aumento do endividamento de todos nós.
E vamos todos assistindo à luta dos dois campeões, à espera que um deles caia para o lado, para que o vencedor possa subir os preços à sua vontade (caminho seguido pelos estaleiros sul-coreanos na construção naval).
Pena os nossos decisores não repararem no sistema norte-americano, com as suas leis anti-cartel, fruto da experiencia com o funcionamento dos mercados, em vez de insistirem em taxas que as distribuidoras duma maneira ou outra encaixarão umas vezes nas suas largas margens de lucro, e outras vezes farão subtilmente repercutir nos custos dos consumidores.
Já o profeta do Jordão dizia que os economistas dos grandes grupos, perdão, os filhos das trevas, são muito mais inteligentes que os filhos da luz.
E os consumidores deixam-se alegremente embalar pelo canto da sereia dos descontos e da concorrencia, mas pagando, enquanto comunidade, o predomínio corrosivo das importações.


Um tema de sociologia, tratado à maneira dos problemas de Fermi

Considere-se uma distribuição arbitrária, como se fosse um modelo da realidade da população portuguesa dividida em faixas classificadas segundo o seu grau de afetação pela crise.
0 sem ser afetada ou até  a ser favorecida, 4 gravemente afetada:

0 -   2% da população - ricos ou muito ricos, incluindo as cem famílias "donas de Portugal"
1 - 18% da população  - classe média
2 - 25% da população  - classe média baixa, sendo que destes, 10% estão ligados à função pública  ou  a empresas públicas
3 - 30% da população  - desempregados ou em risco de pobreza ou exclusão,  sendo que destes,10%estão ligados à função pública ou a empresas públicas
4 - 25% da população -  pobres

Como disse, é uma distribuição arbitrária, com hipóteses à maneira de Fermi.
Mas seria interessante que os sociólogos estudassem o problema e encontrassem os numeros mais aproximados; tlavez partindo dos números do IRS.
Porque uma distribuição assim é como se fosse uma lente para observar a realidade.
De que faixas vêm os impostos, as mais valias das exportações, em que faixas habita o desemprego, a contribuição para os suicídios, para a mortalidade, para os diversos tipos de doença, para a toxico-dependencia., qual a percentagem do rendimento nacional em cada faixa de população, em que faixa está a pessoa que se sentou à nossa frente no banco da carruagem de metro?
A largura das faixas está a variar em que sentido? isto é, que transferncias entre faixas estão a ocorrer?
Que correlações existem, por um lado, entre a largura das faixas e sua variação, e, por outro lado, os níveis de rendimentos e sua variação , de desemprego, de níveis de preços, e as medidas de austeridade?
Com números mais proximos da realidade compreendia-se melhor a dita realidade.
Seria vantajoso compará-los com os indicadores de qualidade de vida, nomeadamente o coeficiente das desigualdades de Gini, e seguir a evolução da distribuição ao longo do tempo.
Mas é dificil ver isto tratado na comunicação social e nos livros editados; a tradição portuguesa não gosta de números.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Globalização e liberalismo

Ainda dentro do tema sobre a fruta importada, ver em:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2012/04/pera-red-barlet-vermelha-e-saborosa-vem.html    ,

será verdade que a grande sociedade de hipermercados que tem uma rede de lojas na Polónia vende nelas uma percentagem de produtos polacos de 95% relativamente ao total de vendas?
É que, se for assim, o comportamento é diferente em Portugal, em que as romãs são israelitas, as laranjas sul-africanas, as maçãs francesas, as ameijoas vietnamitas, a pescada e as uvas chilenas, etc, etc.
E atua no sentido contrário ao desejável, que é  (ou seria?) o desendividamento.
Globalização e liberalismo internacional é infelizmente isto em muitos casos: os outros instalam empresas cá e levam as mais valias (vá lá que criam algum emprego, até nem estou contra); mas nós instalamos as empresas lá, e é la´que ficam as mais valias.
Dito assim, em linguagem corrente, para se perceber bem, apenas com o pedido de não generalizarmos, porque a saída seria talvez o que se costuma chamar um "mix", com diversidade de soluções.

Falas de governantes - a conjugação do verbo "precular" pelo senhor ministro das finanças, Vitor Gaspar

Lido pelo senhor ministro das finanças na assembleia da Republica:


“o DEO (documento de estratégia orçamental) , como documento de trabalho para efeitos do MOU (memorandum of understanding) , não precule a sua apreciação em simultâneo pelo Parlamento, razão pela qual se prevê no calendário acima a obrigação de submissão à Assembleia da República antes da sua conclusão definitiva”.

Pode ser irrelevante debruçar-nos sobre isto, mas eu diria que é importante aplicar a semiótica para tentarmos ver se há algum problema de dificuldade de expressão do senhor ministro ou se o excesso de preocupações perturbou os seus mecanismos de linguagem.
Veja-se o caso do colega do senhor ministro das finanças com a pasta dos assuntos parlamentares, que confessou que o governo não consegue dormir por causa do desemprego (sugere-se que algum economista do governo explique ao senhor ministro a lei de Philips, que correlaciona o custo de vida baixo com a taxa de desemprego elevada).
Se assim for, esta crítica será bem mais útil ao senhor ministro das finanças, que assim poderá atacar as causas da sua instabilidade linguística, do que os aplausos dos admiradores de linguagem tão rebuscada.
Depois do senhor ministro ter citado Pangloss (personagem do Candide de Voltaire, defensor de “tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos”) para criticar os adversários da austeridade “a tout prix”, foi criado um nível de exigência linguístico que justifica determo-nos um pouco sobre a frase supra.

1 – “precule”- Deduzo que se trata do tempo de um verbo. Talvez do verbo “precular”.
Perguntei à minha amiga professora de português se sabia deste verbo; não sabia. Consultei o Houaiss e a internet. Nada.Pensei ser uma corruptela de percolar, aquela assunção de humidade passando por capilaridade pelos interstícios do cimento, como se este fosse um filtro, mas fazia pouco sentido, dizer que o DEO não filtra ou não é filtrado na assembleia.
De modo que, por sugestão da internet, me pareceu que houve aqui uma confusão da linguagem anglo-saxónica com o raciocínio da expressão em português.

Tentemos o verbo “to preclude” (tornar impossível):
http://www.thefreedictionary.com/preclude

Talvez, talvez seja isso, a vasta experiencia internacional do senhor ministro, sempre a exprimir-se, longe da realidade portuguesa, na língua de Shakespeare, mesmo que recorrendo a termos de pouco uso como “preclude”, é natural que o lapso surja.

Ficaria então que “o DEO não se torna impossível de ser apreciado em simultâneo pelo parlamento…”

Mas a internet sugeriu outra coisa, também digna da cultura clássica do senhor ministro, uma criação de Rabelais:
http://www.jimena.com/cocina/apartados/rab_pant.html

Transcrevo uma frase do texto de Pantagruel e Gargantua, chamando a atenção para que os barbarismos neo-latinos de Rabelais são da sua lavra:
“Et submirmillant mes precules horaires, elue & absterge mon anime de ses inquinames nocturnes…”
Que talvez possa traduzir-se assim:
“e sussurrando as minhas preces diárias, elevo e liberto a minha alma das inquietações nocturnas…”


E aqui está, também faz sentido, “precule” como oração, prece, numa altura em que as preces da senhora ministra Assunção se converteram em água, como em rosas os pães da rainha santa. O senhor ministro das finanças a “precular” pela conversão dos mercados…

2 – “conclusão definitiva” – eu sei que a legitimidade democrática da maioria absoluta tem dispensado os senhores ministros de pensar bem e avaliar a extensão possível do que dizem, mas se não exercem esse auto-controle nos conceitos, podiam usar nas redundâncias, não?


PS em 9 de maio de 2012 - Ignorancia a minha, que o meu amigo jurídico me pôs a nu: o preclude  anglo-saxónico é latim, e jurídico; tem o étimo precludis ou precludere, e deu em português o precluir ou precludir , que só os jurídicos usam, ou os senhores financeiros gostariam de usar na sua forma correta. Precule é que não, como se costuma dizer, a menos que se quisesse usar no sentido da prece gargantuesca. 

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Acidente em Caxias


Trazeira e testa dos comboios sem danos aparentes. Fotografia do DN
Continuo a discordar das opiniões dos senhores e senhoras relações públicas após um acidente.
Ninguém põe em causa a conveniencia de um inquérito e que se aguardem as conclusões credíveis.
Mas podem e devem por-se hipóteses porque um acidente pode ser indício de que há algo a corrigir, e a pressão da opinião publica, mesmo que não conheça as causas e as circunstancias objetivas, pode ser util para a correção.
Até porque as conclusões do inquérito demoram sempre muito tempo e , quando conhecidas, o impacto mediático será menor.

Relativamente ao acidente de Caxias de 2 de maio de 2012, destaco alguma semelhança com o caso de Sloterdijk (neste caso mais grave, dado a colisão se ter dado testa contra testa, enquanto em Caxias a colisão foi com um comboio parado, circulando ambos no sentido Lisboa-Cascais).
Mais uma vez se comprova que, mesmo a velocidades baixas (neste caso inferior a 20 km/h, uma vez que não houve danos materiais, excetuando a rotura dos engates entre a ultima e a penultima carruagens dos comboio percutido, devido ao impulso do embate), uma colisão, porque não houve espaço para deformação e absorção da energia do choque, provoca feridos que podem ser graves por projeção a alguns G contra os bancos ou paredes do comboio.
Isto é, uma colisão a velocidade baixa não é uma situação segura.

Como hipótese, o cantonamento (sinalização ferroviária) e o controle automático de velocidade estariam em by-pass (por avaria ou por decisão de exploração), isto é, o comboio que embateu circularia em marcha à vista depois de ter passado por um sinal proibitivo, e dependente só do maquinista, que terá calculado mal a distancia de travagem com os carris molhados devido à chuva (repito que é uma hipótese), ou vítima de avaria nos componentes da travagem (idem), que teria reduzido a respetiva desaceleração.
Como quer que tenha sido, não é boa prática fazer recair sobre o maquinista toda a responsabilidade da segurança da circulação, sem equipamentos como o controle automático de velocidade a proteger a circulação.
A decisão de recurso a marcha à vista é sempre perigosa devido à elevada desaceleração em caso de colisão, mesmo a velocidade baixa.
Por isso não se deve mandar avançar em marcha à vista uma composição com passageiros sobre outra, sem deixar um espaço de segurança para a composição seguinte.
Também por isso, do meu ponto de vista, iliba o maquinista da totalidade da responsabilidade.


Pede-se que, a ter havido falha humana, o inquérito não proponha "castigos exemplares" na ótica maniqueísta da "perseguição dos culpados", mas antes investimento em equipamentos de segurança ferroviária, em reforço da manutenção de instalações fixas e de material circulante, com dimensionamento e meios adequados, em formação do pessoal em segurança de circulação, e em procedimentos de circulação que não "facilitem" como o recurso à marcha à vista em situações de falhas de sinalização ferroviária .
Neste caso, penso ser criticável o recurso que se fez à circulação em via unica  nos dois sentidos, logo a seguir ao acidente. Trata-se de uma situação muito perigosa em que não devem ser transportados passageiros, por mais cuidado que os maquinistas possam ter.

E muito apreciaria que se informasse a tutela, em época de plano estratégico de transportes e compressão dos gastos operacionais,  que em ferrovia é muito perigoso  "fazer mais com menos" (idem para qualquer modo de transporte).

Refiro ainda, a propósito deste acidente, que horas antes houve um atropelamento mortal na estação seguinte, Paço de Arcos, que indiretamente contribuiu para o acidente por  ter provocado perturbações na exploração e a preocupação dos controladores em "recuperar o horário". Esta é uma situação potenciadora de "stress" na exploração.
Convirá saber se o atropelamento foi acidente ou suicidio e que, se se tratou do primeiro caso, que se revejam as condições de livre acesso à via, e, se se tratou do segundo caso, que os profissionais de sociologia estudem as correlações do indice de suicidios com o ambiente que se vive no país.
Mais uma vez se verifica que um acidente normalmente não é um caso isolado do contexto.

PS em 4mai2012 - Parece que o comboio que embateu circulava em "vermelho permissivo". Insisto que, a ser assim, será conveniente rever o regulamento de circulação de comboios. Uma linha suburbana tem tráfego intenso e a circulação sem obedecer à sinalização automática induz a banalização da marcha à vista pelos maquinistas e o "baixar de defesas". É impossível, nestas circunstancias, evitar uma falha de condução. Estatisticamente é possivel, para cada rede, estabelecer os intervalos dessa ocorrencia expressas em 1 vez por ano, ou uma vez por x comboios.km.  Recordo-me, há muitos anos, quando fui admitido no metropolitano de Lisboa, se discutir se se deveria aliviar o rigor do regulamento de circulação em condições de perturbação da exploração e de posterior recuperação do horário, e o colega senior que me admitiu explicar pacientemente aos adeptos do "facilitismo" que não se deveriam deixar aproximar os comboios em marcha à vista sem deixar um intervalo de segurança entre eles, ou "overlap", mesmo à velocidade baixa da marcha à vista (porque ode ocorrer uma circunstancia que reduza  a capacidade de travagem e as consequencias d eum embate a baixa velocidade são sempre gravosas quando não há absorção da energia do choque). Não se deve dizer a um maquinista para ir avançando - os telemóveis não são equipamento de segurança ferroviária. É altamente criticável as relações públicas da CP difundirem a ideia de que "o maquinista conhece em tempo real o estado da linha à frente pelo sistema radio-som, pelos telemóveis e SMS "  , como se fosse acessório e não a essencia da segurança, "a sinalética lateral "(sinalização ferroviária). Corre-se assim o risco de os governantes, contaminados por esta ideia, desprezarem a necessidade de equipamentos de segurança ou de regulamentos prudentes.
Manter um regulamento demasiado permissivo envolve assim quem decidiu mantê-lo na responsabilidade de qualquer acidente.
 A linha deve estar dividida em cantões e dentro de cada um só deve estar um comboio. O cálculo do intervalo de segurança já deve incluir eventuais degradações das condições de travagem, quer por carril molhado, com folhas ou com óleo, quer por avaria nos componentes.
A recuperação de perturbações numa linha carregada não deve ser feita com acumulação de comboios (efeito de harmónio), mas com espaçamnto o mais pssível uniforme.
A capacidade de recuperação de perturbações exige investimento em equipamento de segurança e em material circulante (é já notória a carencia de novo material circuante na linha e Cascais - a beneficiação executada, e bem, na EMEF pressupunha a renovação da frota depois da amortização da intervenção) e em manutenção.

PS (1) em 5 de maio de 2012 - o DN não deixa cair o tema; já imagino os senhores bem postos que são muito seguros do seu sentido de responsabilidade criticar que o resultado do inquérito pode ser influenciado pelas invesigações jornalisticas, nomeadamente a fontes ligadas aos maquinistas.
Segundo o DN, o maquinista em causa terá sido sujeito há pouco tempo a uma operação à coluna. As condições físicas e psicológicas dos maquinistas são extremamente exigentes, pelo que qualquer empresa de transportes que queira garantir niveis elevados de segurança tem de gastar muito dinheiro na sua medicina do trabalho. Tambem por isso é exigivel o investimento em equipamentos de segurança , para controle da condução, e material circulante em boas condições. No caso da lina de Cascais, é urgente a substituição do material circulante. Compreende-se assim, a menos que se queira ser governante cego à realidade, que não é possível uma empresa de transportes apresentar lucros com niveis elevados de segurança.
Aplicar-se-á tambem ao maquinista do acidente, a trabalhar nestas condições, a máxima do senhor ministro "vamos acabar com as regalias"?
Recordam-se do pouso do avião no rio Hudson? o piloto foi considerado heroi, mas na cerimónia que o homenageou chocou os senhores bem postos quando disse que os pilotos americanos eram obrigados a voar em más condições, o que é um risco para a segurança.
Não concordo porém com o DN quando diz que os maquinistas deviam poder comunicar entre eles. A hierarquia das comunicações dá como prioridade a comunicação bidirecional entre uma central de controle e cada maquinista. A segurança da circulação deve repousar prioritariamente na sinalização ferroviária com cantonamento automático e no sistema de proteção automática (ATP) e as marchas de recurso em marcha à vista devem ser excecionais e rigorosamente regulamentadas, nunca devendo ser permitida a aproximação entre comboios, mesmo a velocidade reduzida; se se pretende uma maior aproximação em caso de perturbações, o que há a fazer é colocar mais sinais, isto é, aumentar o numero de cantões (refinamento do cantonamento). Claro que tudo isto custa muito dinheiro. A sinistralidade e o desperdicio de energia no transporte privado e na construção e manutenção de rodovias, também.

PS (2) em 5 de maio de 2012 - Apressou-se a CP em comunicar ao DN que o maquinista do acidente não teve baixas nos últimos meses e que todos os maquinistas dispõem de telemóvel. Embora relembrando a existencia do sistema de radio, nada refere sobre a importancia das comunicações com o posto central de controle. Informa ainda que o programa de manutenção do material circulante foi elaborado em função do grave condicionamento da impossibilidade de aquisição de novo material circulante e que o comboio acidentado tinha as revisões em dia, factos aliás que este blogue nunca pôs em causa.