quarta-feira, 15 de maio de 2013

O acidente do Jolly Nero no porto de Génova

Localização da torre de controle e zona de inversão no porto de Genova; assinala-se a existencia de depósitos de combustível demasiado próximos da linha de água
porto de Génova; observe-se, para melhor compreensão da problemática do negócio internacional dos portos, a extensão dos molhes de proteção, a quantidade de cais de atracação e a presença de um aeroporto com uma pista de 2400 m

Porto de Genova – Elevada densidade de movimento de navios de grande porte, da ordem de 300 metros de comprimento que acostam em cais em espinha relativamente à linha da costa.  Protegido por molhes extensos ao longo da costa. Os navios que acostam na zona oeste do porto têm de sair em marcha à ré ao longo do canal formado pelo molhe e rodar de modo a apontar a proa à barra para saírem para o mar. A torre de controle estava situada nessa zona de inversão de marcha, onde se poderá inscrever um circulo de cerca de 500 m de diâmetro.
Registo da rota do Jolly Nero:
http://www.youtube.com/watch?v=iiNRB__Ang4

Animação da rota correta e da rota de colisão:


Manobra do Jolly Nero – O navio percorreu o canal em marcha à ré, apoiado por um rebocador à popa e por outro na proa. Os rebocadores não têm por missão rebocar o navio, mas apenas acompanhar a manobra e suster o navio. A tração deste e as ordens  de manobra competem ao navio, com um piloto do porto na sua torre de comando. Os navios mais modernos, que dispõem de hélices de proa (para manobrabilidade) e hélices principais azimutais (orientáveis) não necessitam do acompanhamento de dois rebocadores. De acordo com os registos de localização dos três barcos durante a manobra de marcha à ré, parece que o rebocador da proa “deixou ir” o Jolly Nero sem que o piloto a bordo deste tivesse interrompido a manobra. O rebocador de popa, ao verificar que a popa do Jolly Nero se aproximava demasiado da torre de controle foi impotente para segurá-lo, até porque, por regulamento, devia aguardar a ordem de tração. O rebocador de proa parece não ter o cabo ligado (sublinho “parece”). Aparentemente (sublinho “aparentemente” porque a velocidade registada era inferior à regulamentar) terá havido excesso de confiança na manobra de marcha à ré, gerando-se o acidente por acumulação de duas circunstancias: 1) falha de comunicações, sem disponibilidade de meios alternativos rápidos, entre a ponte de comando do Jolly Nero e o rebocador de popa; 2) demora da operação de inversão do sentido de marcha dos motores do Jolly Nero (exige paragem dos motores em marcha à ré e atuação de ar comprimido para arranque do motor no sentido da vante).
O  arranque dos motores falhou na primeira tentativa, pelo que a popa do navio colidiu, de esquina, com o cais sobre estacas e, eventualmente galgando o cais, com os pilares do edifício acoplado à torre de controle. Apesar da velocidade ser muito baixa (5,4 km/h), a massa do Jolly Nero (40.000 toneladas), o facto da colisão se ter dado com a esquina da popa (o que aumenta a pressão = força por unidade de superfície), e o facto  do cais artificial estar assente em estacaria e o edifício ter os pilares muito perto da linha de água (pilares não dimensionados ao corte para suportar uma força destas) contribuiram para a gravidade do desastre.

conceção arquitetónica: edificio assente em  pilares esbeltos por sua vez assentes em pequenos módulos de cais assentes em estacaria; estes terão aguentado o embate mas transmitido a vibração, tipo abalo sísmico, aos pilares, que não estavam dimensionados para resistirem; eventualmente terá havido galgamento dos módulos de cais e colisão direta com os pilares, seguindo-se a reação em cadeia de queda por cada vez haver menos pilares a suportar o peso do edificio

I
o Jolly Nero depois do acidente; a popa aloja a carga ro-ro (rodoviária)


a forma do casco na popa sugere que poderá ter havido galgamento dos módulos de cais

os danos na popa são menores, provavelmente por a colisão se ter dado em esquina





Recomendações - Independentemente dos inquéritos regulamentares, destaque-se a debilidade do projeto ao não fazer uma análise de riscos da proximidade da torre de controle da zona de inversão de marcha (recordo que só é possivel inscrever um círculo de 500 m de diâmetro para os navios de 300m de comprimento rodarem de modo a saírem a barra de proa. Essa análise de riscos concluiria que a estacaria do cais artificial deveria suportar esforços maiores de corte ou ter capacidade de absorver os choques sem transmitir a vibração aos pilares, ou, pelo menos, estar protegida por enrocamento (ver, por exemplo a torre de controle do porto de Pedrouços em Lisboa). Assinale-se a presença de depósitos de combustível demasiado próximos da linha de água, sem proteção de enrocamento.
Anote-se ainda a obsolescência do JollyNero, que não dispõe nem de hélices de proa nem de hélices principais azimutais. Falta, apesar de grandes progressos já verificados internacionalmente, nomeadamente ao nível das comunicações, da localização de navios, da obrigatoriedade de duplo casco nos petroleiros, uma normalização mais rigorosa no domínio da segurança. No caso de portos saturados como este, penso que deveria privilegiar-se o uso de navios de sentido duplo para dispensar a manobra de virar de proa e facilitar as manobras de saída do porto.

Conclusão - Enfim, provavelmente teremos as conclusões habituais de sacrifício dos executantes, enquanto as medidas preventivas de projeto e gestão só muito lentamente se vão impondo, e por vezes com retrocesso por considerações de economia a curto prazo (que deveria ser sempre comparada com as mortes provocadas por não serem aplicadas as correspondentes medidas preventivas, embora se compreenda que a competitividade dos portos no negócio internacional pode conduzir à redução dos custos de segurança).

Longa vida ao napo , até 2016

Este blogue aplaude a câmara de Nápoles, que lançou recentemente a sua moeda "napo", complementar ao euro, por funcionar como um talão de desconto (permite liquidar 10% de uma compra).
Não é exatamente como o bitcoin ou as cédulas da experiencia de Worgl, mas é seguramente uma moeda de circulação local para estímulo da economia local, representando  a resposta das comunidades locais à perda de empregos e ao arrefecimento da economia, enquanto presumivelmente os senhores engravatados nos gabinetes dos ministérios das finanças estalam de raiva contra este tipo de iniciativas.
Ver experiencias anteriores em:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/search?q=bitcoin

Penso que uma condição sine qua non para que este tipo de iniciativas resista ao despeito dos senhores governantes seja a realização de um depósito em euros equivalente ao volume de napos que se põe em circulação.
Sendo assim, faz lembrar a anedota do turista que deixou uma nota de 50 euros como reserva num hotel e depois essa nota foi permitindo  o fecho dos negócios pendentes do gerente do hotel com o canalizador, deste com a sua fornecedora de serviços especiais, e desta com o gerente do hotel, até que o turista regresou e levantou a nota porque decidira não ficar na cidade.

É bonito ver a resposta de uma sociedade civil às ameaças do sistema económico europeu.
Desejar-se-ia novas iniciativas, sempre com prazo de validade para estimular a circulação do dinheiro e sempre com uma reserva em euros igual aos montantes em circulação.
Que tal, se o senhor João Jardim se entendesse com todas as forças políticas da sua região e "emitisse" "zarcos"? Ou "açores" nos Açores ou "miranduns" em Bragança?
E "hermínios", aceitam, nesta pastelaria de Viseu?


Ver:
http://www.jn.pt/PaginaInicial/Economia/Interior.aspx?content_id=3213743&page=-1

PS em 15 de maio - A informação de hoje é a de que existem 6 mil milhões de euros de faturas por pagar, correspondentes a empresas que fecharam. Sem prejuízo de uma solução ser a  de que o próprio governo atual fala, de acelerar o pagamento das suas compras, seria interessante que este tipo de moeda fosse experimentado para atenuar este desastre. Evidentemente em domínios geográficos bem limitados e com o depósito cativo prévio de euros no montante da moeda "emitida". Mas os publicanos detentores da sabedoria financeira, para além de não gostarem da inovação, têm os seus dogmas refratários...

terça-feira, 14 de maio de 2013

Pobre Pedro, ou a negação das elites


Pobre Pedro, assim se intitulava o email que circulou pela internet.
Pretensamente escrito por um antigo colega do atual primeiro ministro, dos tempos da juventude partidária.
Pobre porque afastado dos ideais juvenis de solidariedade com as pessoas.
Com ou sem veracidade, o email suscita a reflexão sobre as elites deste país, a sua contribuição ao longo do tempo para o bem ou mal da comunidade, como se acede à elite, e também a sua avaliação.
Do dicionário Houaiss: 
elite - minoria que detem o prestígio e o domínio sobre o grupo social; o que há de melhor e de mais valorizado num grupo social; carater de impressão correspondente a 12 letras por polegada; do latim eligere, escolher,eleger, por via do francês.

Dito assim, a natureza democrática de uma sociedade pareceria estar garantida se o formalismo do ato de "escolher, eleger" as elites conduzisse a uma delegação ou a uma representação dos eleitores junto ou pelas elites.
Apesar do antipático “domínio sobre o grupo social”.
Infelizmente, esse antipático é demasiado forte para nos contentarmos com o estado atual da democracia.
Não é só o antipático do que se diz durante o ato de eleger e escolher já não ser o que se pratica quando se é primeiro ministro, é principalmente a incipiencia e a ineficiência das instituições em termos de participação dos cidadãos e cidadãs no debate e nas tomadas de decisões.
Por outras palavras, as elites dominam mesmo os grupos sociais.
As elites são então pequenos grupos que por delegação ou incumbência de outros pequenos grupos exercem o poder e dominam os grupos sociais compostos pela maioria da população.
Digamos que a origem do poder estará então nos pequenos grupos das grandes empresas internacionais, dos grandes bancos, dos grandes grupos financeiros, que precisam, todos eles, de elites para gerirem os seus negócios e para ganhar o voto dos eleitores para se poder dizer que os representam.
Se é assim, não vale a pena pedir a convocação de eleições antecipadas quando se chega a um ponto de rotura social, com o agravamento do coeficiente da desigualdade de Gini e o abaixamento contínuo do rendimento individual da maioria e do PIB nacional.

A experiencia mostra que, em casos extremos, que poderão classificar-se como de “armadilha social” (armadilha – aparelho para captura de animais ou artifício ou ardil para logro de pessoas, que não permite a libertação depois de se cair nele, mesmo utilizando a força e os meios que em condições normais garantem a liberdade de movimentos do capturado; do castelhano do século XIII armadilla com origem no latim arma, arma) a população prejudicada por elites que aplicaram políticas que a prejudicaram valida, em novas eleições, as mesmas elites ou que defendem as mesmas políticas.
Haverá alguma sabedoria nesta decisão, porque por definição de armadilha a saída é difícil.

As experiencias que demonstraram a dificuldade de sair da armadilha são as ultimas eleições na Grécia e na Bulgária, em que os eleitores recearam mudar de elites ou assumir formas de organização da sociedade em democracia direta (aliás, por definição de armadilha, sem intervenção exterior e alteração das condições de relação com o exterior a armadilha dificilmente poderá ser vencida; entretanto, mantendo-se a armadilha, até os investimentos que serão rentáveis noutras condições não trarão neste caso retorno).
Não se pôs com suficiente intensidade a solução da população aceder à área decisória, em vez de votar para mudar de elite ou mantê-la.
A democracia direta não é um sonho.
Alguns dos seus componentes são até utilizados para a manutenção de regimes que nem formalmente cumprem critérios de democracia como eleições periódicas; fazem-no através de assembleias de controle popular no nível de maior proximidade das populações.
Por outro lado, algumas experiencias de iniciativa popular, vulgo “sociedade civil”, têm apontado caminhos em países mais desenvolvidos.
Cito novamente “A sabedoria das multidões” de James Surowiecki, como repositório do tipo de organizações e métodos de democracia direta.
O objetivo principal é o de deixar de depender de elites aumentando o grau de participação popular e de acessibilidade aos mecanismos de decisão (ou alterar estes mecanismos de modo a reduzir a componente de delegação ou de representação e alargar a participação social), acabando com a prevalência da oligarquia (oligarquia – regime em que o poder é exercido por um pequeno grupo de pessoas; do grego oligarkhia, governo por um pequeno grupo de pessoas ou famílias).
Mais perto de nós, o testemunho de António Coutinho, já referido em

…”deveria ser reformulado o papel dos partidos, centrando-os na ação formativa, sem prejuizo da sua liberdade ideológica, evidentemente, mas reservando a representação dos cidadãos no Parlamento a técnicas de amostragem (amplamente conhecidas da estatística, da sociologia, das    metodologias das sondagens).
Isso permitiria uma mais perfeita representação da vontade e do sentir da população … a ideia do interesse egoísta como motor económico pode ser muito interessante nas sebentas das universidades dos economistas, mas é um monstro que derrota a dignidade dos profissionais e o bem estar das comunidades e é uma mentira que ilude os eleitores”…

Se o estado do país é lamentoso, foram as elites que o conduziram até ele; nunca as populações exerceram o poder direto nem definiram os montantes dos empréstimos e os rácios da dívida.

Mas as elites não querem reconhecer o seu falhanço, e insistem nas suas políticas e no auto elogio.

Segundo Tim Harford, no seu livro “Adapte-se”, pagina 285 da 1ª edição da Ed.Presença, são três as fases que as elites seguem quando cometem os seus erros:
- negação – por mais evidente que seja o erro, a elite considera-se superior à realidade e nega-a
- ampliação das perdas – em vez de seguir o caminho de tentativa e erro aprendendo com este, a elite prefere insistir no erro, ampliando os efeitos negativos, compensando os erros com mais erros
- revisão hedonista – qualquer pequeno êxito ou insucesso é ampliado ou valorizado pela perceção da elite e apresentado como grande sucesso, justificando assim as politicas destrutivas seguidas.

Choca um pouco o levantamento destes comportamentos já estar feito, já se ter chegado à conclusão de que a participação efetiva dos cidadãos e cidadãs na vida pública tem de aumentar, e serem tão pouco palpáveis os progressos.

Há alternativas ao que os nibelungos estão a fazer. Dizer que não há alternativas é uma forma de insistir na negação e no erro. Se se acaba com as obras públicas e com o emprego, é natural que o desemprego aumente, as despesas com a segurança social aumentem e as suas receitas baixem. é como uma crinça partir um brinquedo e depois dizer que foi ele que se partiu.


Há alternativas, mas os nibelungos, ou melhor, as elites e os Alberich que os comandam, acham que não se deve aplicar a taxa das transações financeiras, nem alargar a base de incidencia fiscal reduzindo impostos de acordo com  a lei de Laffer, nem simplificar as burocracias, nem investir em obras públicas de infraestruturas de transporte ferroviário (as cimeiras ibéricas têm sido fumo de diversão) ou de produção de energia solar com fundos comunitários, nem renegociar as taxas de juro, nem pressionar o BCE e a UE para a união bancária e fiscal e o fim dos subsidios ao monopólio dos bancos (aquilo de obrigar os governos a contrair empréstimos nos bancos, em vez de diretamente ao BCE).


Só nos resta ir tentando divulgar as alternativas até às próximas eleições.




PS em 15 de maio - manda o respeito pela verdade deixar registado que, entre secretários de Estado e técnicos ao serviço dos ministérios ou seus conselheiros, existe ainda alguma lucidez. Por exemplo, nas medidas de simplificação burocrática para atividades turisticas, ou na intenção de manter a receita fiscal do IRC através da sua diminuição com aumento da base de incidência (medida válida se, e só se acompanhada de simplificação burocrática e de confiança nos critérios declarativos dos cidadãos, em clara aplicação da lei de Laffer).











segunda-feira, 13 de maio de 2013

O desacerto social um ano depois


Em termos de interpretação da realidade pelas elites decisoras, ou melhor, em termos do que as elites decisoras querem que a população entenda, estamos mais ou menos no mesmo ponto de Janeiro de 2012:

Cortam pois nas pensões também abaixo de 3 salários mínimos, que é apenas uma parte do bolo global do rendimento nacional.
Problema de matemática dos primeiros anos do ensino da matemática, a compreensão do conceito de percentagem.
Se cortar é preciso, deve-se cortar na fatia que contribuir com a maior percentagem para o rendimento nacional, não nas fatias de menor contribuição.
Talvez que o senhor ministro Crato possa explicar isto aos colegas decisores, e de caminho explicava o conceito de quociente, que aumentar o número de horas de trabalho, isto é, um fator de produção que está no denominador do quociente produtividade (em que no numerador está o volume da produção), diminui a produtividade com elevado grau de probabilidade (porque o crescimento da produção vai ser inferior ao crescimento das horas de trabalho).

Podia ainda, por exemplo, para não ter de se cortar em pensões, aplicar-se a taxa sobre as transações financeiras. Arranjavam-se assim os tais 400 milhões.
O senhor ministro das finanças até tinha prometido que ia pensar nela, embora isso fosse antes daquele retumbante sucesso do regresso aos mercados e do contínuo crescimento da dívida enquanto a taxa de juro for superior à taxa de crescimento do PIB (outra vez o conceito do quociente a estragar tudo).

Assim vamos, seguindo a ideia do senhor muito poupadinho que cortou na ração do cavalo.

Viver acima das possibilidades

Vivemos acima das nossas possibilidades aquisitivas.
É um facto.
Mas vejamos este parque, o parque da Bela Vista.



Utilizado para espetaculos como o RockinRio ou outros de musica pop.
Muito apreciados e participados, os espetaculos.
Mas as infraestruturas do parque são insuficientes.
Refiro-me à falta de cafés, restaurantes e instalações sanitárias.
Não se gastou nele acima das possibilidades.
Não tem o prestigio do Central Park, não se vêem pessoas de rendimentos elevados a passear ou a fazer jogging, não se vêem rickshós puxados por ucranianos, nem à sua beira há hoteis de charme dos anos 30 frequentados pelo grande Gatsby.
Não se fazem concertos de Simon e Garfunkel nem da orquestra filarmónica de Nova York com o seu maestro de smoking branco.
Mas é o meu parque, vê-se o Tejo ao fundo, e eu gosto muito dele.
Gosto de ver as pessoas que habitam ao lado a usufrui-lo.
Da zona J, da zona N, do bairro do Armador.
Vivemos acima das nossas possibilidades, dizem as pessoas, de elevados rendimentos e com capacidade executiva  por delegação, que não frequentam o parque (exceto quando os espetaculos têm tendas VIP com fotógrafos).
Claro, as nossas possibilidades estão muito abaixo das nossas potencialidades.
Sendo p as nossas possibilidades, P as nossas potencialidades, e v o nivel de vida em que viviamos, então P-p será o valor da nossa capacidade de geração de poupanças, verificando-se  
P>v
e
(P-v)~(v-p)
Toda a gente que frequenta o parque da Bela Vista sabe isto, que diabo, que o parque podia ser muito melhor aproveitado e até dar rendimento com visitas de turistas e usufruto por mais pessoas. Que tem potencialidades. Porque razão não o entendem os tais não frequentadores, de rendimentos elevados e capacidade executiva por delegação?
Por outras palavras, vivemos claramente abaixo das nossas potencialidades. 



domingo, 12 de maio de 2013

Fábula de La Fontaine

Não admira que La Fontaine, ao contemplar cenas como esta,  tivesse concebido as suas fábulas, apesar de não parecer ter tido dificuldades financeiras na sua vida, pelo menos que se saiba dos seus diálogos com a sua musa Íris, a senhora da La Sablière.


As ovelhas e as cabras a pastar, sem dar problemas às famílias, seus donos.
Produzindo lã (estão tosquiadas), ou leite.
Valha a verdade que em caso de penúria de pastos se podia e pode sempre racionalizar (racionar?).
E se algumas ovelhas querem ir consumir pastos do outro lado da estrada, afetando assim os valores de mercado, há os pastores alemães que vão lá buscá-las.
Além de que há os ministros, perdão, os pastores propriamente ditos, com os seus cajados, para tomar conta.
Mas as coisas evoluem.
O ser pacífico no tempo de La Fontaine era mesmo do agrado dos donos.
Entretanto, a ideia da não violencia ganhou força,
Não é preciso ir para a luta, basta aprender com Gandhi.
E as resoluções da ONU até ajudam.
Até porque há pastores alemães simpáticos.
Dispostos a colaborar.
Necessário porém as ovelhas saberem escolher o apoio estrangeiro, perdão, do cão pastor, não nos vá, perdão, não lhes vá sair em rifa o lobo do Pedro e o Lobo que são muito parecidos de aspeto, os pastores alemães e os lobos.

sábado, 11 de maio de 2013

Análise e prevenção de riscos segundo Tim Harford.

Há uns anos, a leitura dos  livros de Tim Harford, "o Economista disfarçado", ed.Presença, e de Steven Levitt/Stephen Dubner, "Freakonomics", ed. Presença, entusiasmou-me pela demonstração do método científico através da recolha de dados sociais, do seu tratametno, do estabelecimento de correlações e da apresentação de conclusões testáveis pela observação e experimentação.
Tratava-se de uma disciplina de economistas aplicada aos estudos sociais, baseada em dados reais.
Coisa que habitualmente não se vê, uma vez que nós, portugueses, preferimos a emotividade e a discussão com argumentos ideais e virtuais.
Embora sem o entusiasmo da novidade do primeiro livro, apreciei agora de Tim Harford ,"Adapte-se", ed Presença, com a recolha de muitos dados de casos da industria e das finanças, estabelecendo interessante analogia entre  desastres como os das plataformas petrolíferas e os grandes desastres financeiros, suas causas e formas de prevenção.
Estamos perante a disciplina de "Análise e prevenção de riscos" tratada de um ponto de vista de economista, com lucidez, embora seja sempre mais fácil explicar um acidente depois dele ter acontecido e de recolher os dados de todo o seu processo.

Os últimos dias têm sido férteis em acidentes: acidentes ferroviários com explosões em Schellebelle na Belgica e Rostov na Russia, queda ou incendio de grandes edificios sede de fábricas texteis no Bangladesh, explosão de camião cisterna numa autoestrada no México, colisão de um porta contentor e destruição do edificio da torre de controle do porto de Génova,  morte de um velejador num treino para a Taça América por se ter virado o catamaran de 60 pés.

Este blogue tem colocado a hipótese de que políticas de economia de recursos podem estar correlacionadas com este tipo de acidentes, mas vai tentar reproduzir em próxímos "posts" as conclusões de Tim Harford.
Sem prejuízo de continuar a defender que a globalização tem tambem de ser a da normalização técnica e de segurança.
Existem leis internacionais que proibem a injeção de capitais públicos em empresas com a desculpa de que prejudicam a concorrencia (e contudo, se 75% dos eleitores validarem esse uso do dinheiro dos contribuintes, como poderemos condenar essa injeção de dinheiro público?).
Por maioria de razão existem leis anti-dumping.
Essas leis validam a proibição de negociar com empresas que exploram a mão de obra barata e as condições de trabalho não conformes com a segurança, como no caso do edificio desmoronado do Bangla Desh.
Mas reconheço que é dificil, enquanto os governos dos paises ricos e pobres não tiverem força para impor as resoluções da ONU, Declaração universal dos direitos humanos incluida.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Privatizar ou não privatizar, a novela em maio de 2013

A novela quase shakespeariana de concessionar a privados ou não concessionar a privados dos senhores governantes continua, com o senhor secretário de Estado Sergio Monteiro a confessar com o ar de aluno bem classificado, que afinal, graças ao problema dos CDSwaps, a concessão a privados das redes de transporte urbano pode não ser conseguida , como tinham prometido (ameaçado?) até ao fim do ano.
Que os senhores administradores tiveram de roubar tempo à tarefa insana de preparar os concursos de concessão (não eram os consultores que estavam a fazer o caderno de encargos? ou os consultores andavam a perguntar nas empresas o que deviam escrever no concurso? ).
Entretanto, a propósito de uma notícia, talvez espúria, mas notícia, de que motoristas da Carris desmaiavam em serviço, as caixas de comentários dos jornais que a transmitiram encheram-se dos habituais apelos um pouco primários de "privatização já".
Com ou sem fundamento a notícia requeria investigação séria por parte da Carris e informação fidedigna à população se são ou não cumpridos os procedimentos de segurança de monitorização das condições psicotécnicas e de saúde dos motoristas.
Qualquer empresa de transportes deve ter ou pagar um serviço de medicina de trabalho e de assistencia social que vigie constantemente as condições dos seus profissionais.
Isso custa dinheiro e é incompatível com a política dos cortes.
Mas depois não se admirem.
E não se esqueçam de culpar liminarmente (e portanto, de forma um pouco primária), atribuindo as culpas do acidente a "falha humana".
Como se fez com o acidente de Schellebelle na Bélgica, de Génova com o Jolly Nero, e agora com o acidente ferroviário em Rostov (claro, se poupam no pessoal que faz a manutenção das agulhas e no que faz a manutenção das válvulas dos vagões de transporte de produtos químicos, é natural que haja acidentes).
Vale a pena interrogarmo-nos se os senhores governantes têm ou não consciencia da sua temeridade ao esperar que uma gestão privada leva em consideração estas preocupações de segurança.
Especialmente numa altura em que a própria TST vem explicar que tem um prejuizo de 5,5 milhões de euros por lhe "desviarem" verbas dos passes sociais.
Ou como quem diz que a gestão privada faz tudo melhor desde que o Estado lhe pague bem (claro, faz o papel dela, obter lucros).
Repito, agora na certamente vã esperança de que o assunto seja discutido com números e factos, os cálculos de:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2012/10/dedicado-ao-senhor-secretario-de-estado.html

destacando as conclusões:

1 - a renda paga pelo concessionário deverá ser superior à diferença entre a nova compensação indemnizatória e a antiga; caso contrário a concessão não tem interesse económico para o Estado (chama-se a atenção que um concessionário deve pagar uma renda ao proprietário das infraestruturas que explora, embora seja estranho que depois lhe peça uma indemnização compensatória);

2 - os resultados operacionais com a gestão privada deverão (sem o que a concessão não tem interesse económico para o Estado) exceder os resultados operacionais com a anterior gestão pública no valor  da soma:
·         do lucro
·         com a diferença entre o investimento publico e privado depois e antes da concessão, descontando o valor da indemnização compensatória anterior à concessão (mas incluindo o serviço da eventual aquisição da dívida pública acumulada anterior).

3 - interessará ao concessionário, para que economicamente resulte vantagem para o Estado, com evidentes prejuízos para a qualidade e preço do serviço:
  • reduzir a despesa operacional (reduzindo salários, o quadro de pessoal ou a manutenção, ou subcontratando pessoal ou manutenção precários, por exemplo)
  • aumentar a receita (aumento de tarifas, agravamento dos custos da circulação automóvel)
  • minimizar os investimentos (adiar melhorias)
Em resumo, desprezando serviço de dívida, o lucro deverá ser inferior à soma da indemnização compensatória anterior com a diferença entre os resultados operacionais depois e antes da concessão a privados


Mas enfim, reconheço que o problema é complexo, não pode ser tratado de forma pouco primária nem acreditando em dogmas ou em contos de fadas; ou melhor, poder pode, as consequencias é que podem ser graves.
Aguardemos.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Estação Alameda, sequencia às 11:00


Sequencia na estação Alameda, às 11:00 de um dia util.
Contemplando quem viaja no metropolitano, em trabalho, em estudo, em lazer, questiono-me se as pessoas merecem que o valor do seu esforço seja tão diminuido pelos senhores economistas de gabinete e de mãos limpas e civilizadas. 
Mas se tem de ser diminuido, esse valor, ao menos esforcem-se, senhores governantes e representantes dos credores,  por não lançar tanta gente no desemprego.
É evidente a diminuição da procura de transporte, é evidente quererem reduzir a 40% a vida deste país.
Dirão nos seus gabinetes que será o ponto de equilíbrio.
A isto respondem as pessoas continuando a trabalhar, a estudar, e a usufruir do lazer que podem.
Mas não é bonito ver a desvalorização do trabalho das pessoas.
Também não foi bonito ver a entrega do projeto desta estação a arquitetos e engenheiros que não olharam a gastos, apesar das críticas oportunamente expressas.
Malhas do império, sem que um manual de boas práticas seja amplamente debatido e aprovado.
Pelo menos, por enquanto.


A tormentosa novela do acordo ortográfico em dia de menor tormenta

Que querem, gosto de ler Vasco Graça Moura.
Especialmente quando a sua prosa não é descortês, como daquela vez em que indiretamente me incluiu no grupo dos pantomineiros a propósito do que cada um pensa sobre o novo (de 1990) acordo ortográfico.
Gosto de analisar os argumentos, mesmo que não concorde com eles (correndo o risco de a discordância apenas reforçar a convicção).
E gosto especialmente de seguir a elegância da escrita.
Até quando Vasco Graça Moura, na sua habitual catilinária contra o acordo no DN, introduz no seu comentário de 8 de maio o coloquial "é assim".
"Ninguém sabe dizer nada", é o tema, sobre o que se faz ou não faz com o acordo.
E contudo, António Vieira já prega segundo ele, acordo, pese a "anestesia paralisante no que toca às decisões urgentes de suspensão e revisão do Acordo" (não precisa o ilustre Poeta - e escrevo assim apesar do acordo me facultar o uso de minúscula - de invocar a necessidade de revisão; por definição o acordo está em permanente revisão, como qualquer normativo- ou cânone, como Vasco Graça Moura gostará de escrever; quanto à suspensão, discordamos, claro).
De lamentação  me parece, o tom do título e de todo o comentário.
Lamentação eu a recupero, oportunistamente, para fazer o paralelo com a "anestesia paralisante" que nos impede de ações concretas em vez do "crédito de confiança contra tudo o que nos está a tornar (a vida) mais complicada".
Para que não se pudesse dizer como é diferente o discurso dos ministros em Portugal (Dantas, Dantas, perdão) quando Poiares Maduro diz que bater o pé aos credores benfeitores só depois de cortar até ao último grama a carne pedida.
Enquanto Rajoy, de braço dado com Letta, entoa em terças perfeitas: " nós fazemos os inevitáveis trabalhos de casa, mas a UE tem de fazer mais" e em quintas harmoniosas: "não podemos perder a oportunidade de, no Conselho Europeu de junho, apresentar propostas contra o desemprego juvenil e em favor da união bancária; adiar decisões para dezembro seria um erro imperdoável".
Escusava de ter ouvido isto, o senhor ministro Poiares Maduro, tão incensado pelo seu alto nível intelectual e conhecimentos das burocacias jurídicas da UE.
Junho é para o mês que vem.
Ah, mas falava do artigo de Vasco Graça Moura sobre o acordo.
Cerca de 800 palavras.
Apenas uma nos divide: "exatamente" (atenção que o novo acordo admite as duas escritas no caso de expectativa e expetativa).
E a elegância do texto permaneceria se o autor a tivesse omitido.
É que ninguém diz exa-c-tamente, pois não? pese embora a pureza da ascendência latina do étimo exactus, aquele que é acabado de forma perfeita.
Enfim, aguardemos os próximos capítulos da tormentosa novela, desta vez em dia de tormenta menor, enquanto se acumulam as ameaças de degradação do ensino (não me refiro à qualidade do ensino, refiro-me à cada vez maior desigualdade entre os poucos bons alunos de uma turma, capazes de compreender o étimo e porque caiu a diacrítica, e os muitos maus alunos, para quem o étimo nem precisa de existir, no processo de insucesso escolar comprovadamente com origem na degradação das condições socio económicas dos respetivos encarregados de educação).





Carlos Drummond de Andrade, o Lutador

Ouvido na Antena 2, o poema de Carlos Drummond de Andrade.
Pensei primeiro que o poeta se desiludia de lutar contra a opressão cultural e social, contra o uso da força pelos detentores do poder económico e financeiro.
Ilusão minha, claro, que a luta é contra as palavras, não com as palavras do nosso lado.
E também não é, parece, contra uma musa difícil de conquistar (ou melhor, musas difíceis de conquistar), sem ter de recorrer aos ais trovadorescos, embora pareça que é uma luta semelhante.
Mas pensando melhor, e se as palavras forem mesmo armas que os tais poderes económicos e financeiros não conseguem derrotar por mais intensa que seja a sua força?
Então, mais vale não calar, e ir falando, por mais grave que sejam, a crise e a solércia dos senhores governantes (ler o poema, por favor, para compreender o étimo) .
Falemos, pois.

Lutar com palavras
É a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.
Insisto, solerte*.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue...
Entretanto, luto.
Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.
Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.
Iludo-me às vezes,
pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
outra sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor
me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca
tudo se evapora.
O ciclo do dia
ora se conclui
e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
Ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas
a luta prossegue
nas ruas do sono.

                    Carlos Drummond de Andrade, o Lutador

*esperto, desembaraçado, ardiloso, "chico-esperto" em coloquial
                                  
                     

Afinal a PT não vai processar Sergio Denicoli

Afinal a PT já não vai processar, por esgotamento do prazo para o fazer, Sergio Denicoli, que numa tese de doutoramento tinha analisado indícios de corrupção no processo de transição para a TDT, com favorecimento para a PT.
Este blogue já tinha referido a vergonha e a crueldade para com os idosos privados deste processo:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/search?q=tdt

Por um lado congratulo-me com o facto, pela aceitação pela PT da validade desses indícios.
Mas por outro, como o cronista Pedro Malaquias da Antena 2 disse, isto é como um acidente, ficamos a olhar para ele, até podemos saber como o acidente aconteceu, mas não fazemos nada, ou não podemos fazer nada.
Isto é, muitos idosos, dentre os que entretanto não morreram, vão continuar sem a sua televisão.
Vergonha e crueldade, quando uma nova tecnologia, por imperativo deontológico, permite sempre fazer o que a tecnologia anterior fazia sem agravamento económico para os seus beneficiários.
Vergonha também por estarmos até prova em contrário perante um caso de apropriação por uma mepresa de capitais privados de mais valias devidas a um serviço público de acesso à informação, coisa consagrada na Constituição.
Enfim, é a cultura de esperteza e de vivacidade empreendedora aplicada às inovações tecnológicas.
E também de desprezo por grupos economicamente mais débeis.
Coisa que tem tudo menos o nome de democracia.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Antena 2, refugio de cultura


Deixo registado que no dia 7 de maio de 2013 a Antena 2 passou no seu programa Teatro sem fios, dois monólogos da peça O Palácio do Fim, de Judith Thompson, sobre casos reais no Iraque:
http://www.rtp.pt/antena2/?t=TEATRO-SEM-FIOS.rtp&article=1776&visual=2&layout=5&tm=10

Um dos monólogos relata a experiencia do diplomata inglês David Kelly, encarregado de inspecionar as armas de destruição maciça no Iraque. Ao verificar que não existiam, relatou a um reporter da BBC que o pretexto para a invasão era uma mentira. Suicidou-se no seguimento das perseguições a que foi sujeito. O caso também é contado por Carne Ross, seu colega, no seu livro "A revolução sem lider",ed.Bertrand (ver
http://www.carneross.com/ 
e
http://www.independentdiplomat.org/  )

É uma pena que estas coisas se não divulguem, continuando a "dopar-se" os cidadãos com a televisão e o futebol. Podia começar-se por à segunda feira se concederem beneficios fiscais às televiõoes que transmitissem cultura
Mas é dificil, já os imperadores romanos sabiam a importancia do divertimento alienante.
E será que a Antena 2 não corre riscos de a atenção dos imperadores se concentrar nela?


Adriano Moreira

Gosto de seguir o raciocínio de Adriano Moreira, de ver a elegancia com que o seu cérebro interpreta os casos reais.
Não partilho de todos os seus ideais e da sua ideologia, mas gosto de reconhecer uma estatura humana e uma inteligencia atenta e ponderada.
E pode ser ingenuidade da minha parte, mas acredito na sua versão, de que Salazar o demitiu de ministro do Ultramar porque até ele, Salazar, não tinha força para se opor aos grandes grupos económicos da época (da época e, parcialmente, da atualidade, ver "Os donos de Portugal").
Talvez porque será uma análise marxista.
Mas isto vem a propósito do texto de Adriano Moreira no DN de 7 de maio de 2013, evocativo da "Geografia da Fome" de Josué de Castro, de que cito:
"... há uma leitura obrigatória para os governos de todo o mundo, e tambem para os ricos e pobres da Europa, que é a Declaração Adotada pela Assembleia Geral da ONU, com o número 66/228, intitulada 'o futuro que nós queremos', documento resultante da conferencia da ONU sobre o desenvolvimento durável. Talvez ajude, entre nós, a reconhecer que, além da Constituição da Republica Portuguesa, e da suposta sabedoria da troika, existe o paradigma global da ONU, ao qual todos os países da organização estão obrigados..."
Ou dito de outro modo, se é tão importante cumprir "a outrance" o memorando com a troika (e contudo, o multiplicador cortes-recessão estava errado, tal como o coeficiente da correlação divida-taxa de crescimento), tambem é importante cumprir os contratos de trabalho com os funcionários públicos, pensionistas e trabalhadores em geral, a Constituição, a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Declaração 66/228.
Coisa que deveremos repetir "a outrance", porque os economistas fechados em gabinetes são como os engenheiros fechados em gabinetes, ignoram a realidade.

O triunfo do regresso aos mercados

Contentinhos que ficaram, um exito.
De longe um sucesso superior ao fracasso da diminuição do PIB e do crescimento do desemprego.
Que bom para quem vive em gabinetes poder ostentar um triunfo assim, um empréstimo a 5,6% a 10 anos, tomado por credores de confiança que já conhecemos.
Já não é preciso propor alterações aos tratados da Europa.
Não pensam agora em defender a união bancária, a mutualização da dívida e a harmonização fiscal.
Um exito, os credores já não se enervam connosco.
E contudo, tão escandalizados que ficaram por causa dos "swaps" indexados toxicamente à baixa das taxas de juro.
Que foi o que aconteceu, as taxas de juro baixaram, a taxa de cedencia do BCE já está em 0,5%.
Grande exito, portanto, uma taxa de 5,6%.
Foi preciso Silva Lopes explicar que, apesar do valor de 5,6% ser melhor do que o esperado, uma dívida de 5,6% não é sustentável, porque só é possível o desendividamento se a taxa de crescimento do PIB for superior à taxa de juro da dívida.
Esta é uma condição sine qua non.
Tenham pudor, não cantem vitória enquanto a taxa de juro da dívida for superior à taxa do PIB.
Que triunfo este, nem sequer é uma vitória de Pirro, mas vamos ter de ouvi-los a gabarem-se e a sorrirem na televisão, a dizer que o caminho que traçaram está certo.
É isto o funcionamento regular das instituições?

PS em 8 de maio - Segundo o DN, os senhores governantes não consideraram o leilão da divida um sucesso, mas sim "um grande sucesso". Mais acrescentou o senhor ministro das finanças que o ajustamento orçamental em Portugal era "muito mais bonito". Devia ter sido o subconsciente cego pelo exito do leilão. Eu diria que é um verso de um poema surrealista, para não invocar outra vez a frase de Marx, que ao princípio o erro é uma tragédia e depois uma sucessão de farsas, trágicas, mas farsas. O atual plano de pagamento de dívida termina em 2041, e como a taxa de variação do PIB continua inferior à taxa de juro, lá vamos nós vivendo em divida permanentemente crescente. Mas claro que é tudo culpa do governo anterior, como até o senhor ministro Maduro, apesar das suas credenciais intelectuais, já veio dizer, culpa da bancarrota do governo anterior (anteriores? até ao fim dos anos 80, com a desindustrialização, desarmamento pesqueiro e desertificação agrícola dos governos de Cavaco Silva?). 
E outra correção: afinal o juro conseguido não foi de 5,6%, foi de 5,669%. É um erro de comunicação no montante de 1,2% . É pequeno, o erro, mas é mais uma amostra da imprecisão dos senhores governantes. E nem é assim tão pequeno, é 240% da taxa de cedencia do BCE, de 0,5% .

Imagens do metropolitano

escada de acesso ao átrio sul da estação Anjos

azulejos de Maria Keil
 
gradeamento no passeio, de proteção da entrada de ventilação

A 50 km de Lisboa

Serra de S.Luis, ao fundo, adjacente à serra da Arrábida. Serra de S.Francisco em primeiro plano, vale e serra do Alcube em segundo plano.
Bom para turismo, a 50 km de Lisboa, 38º32'56"N,  08º57'42"W   .


segunda-feira, 6 de maio de 2013

Correlação liberalização ferroviária-acidentes ferroviários?

Lamenta-se mais um acidente ferroviário com consequencias graves.
Desta vez um comboio de mercadorias transportando cianoetileno (acrilonitrilo) descarrilou com explosão , incendio e derrame desse liquido altamente tóxico (anteriormente usado para pesticidas, atualmente usado para fabrico de fibras sintéticas resistentes).
Não se pode afirmar com segurança que existe uma correlação entre a liberalização a que se assiste na operação ferroviária e os acidentes ferroviários.
Mas deve colocar-se a hipótese (ver 
- a frequencia com que ocorrem os acidentes depois das liberalizações na Bélgica: em fevereiro de 2010 acidente em Buizingen com morte de passageiros; em maio de 2011 choque de dois comboios de mercadorias em Godinne
- a acusação feita às empresas públicas de que gerem mal os recursos embora muitos desses recursos se destinem à segurança ferroviária
- a argumentação dos decisores de Bruxelas da UE e dos governos neo liberais  de que a concorrencia é util para os cidadãos .

Deveriam os senhores governantes, burocratas de Bruxelas e grupos interessados na liberalização da exploração ferroviária aceitar que a concorrencia depende sempre da lei do lucro, que o lucro varia normalmente em sentido inverso ao investimento na segurança , e que as potenciais vítimas de acidentes ferroviários podem nem sequer ser utilizadores do sistema ferroviário (configurando uma externalidade, como dizem os economistas, terem de pagar para o que não utilizam).
Foi o caso do acidente de 4 de maio de 2013 em Schellebelle, a 13km de Gand, na Bélgica , e a 36 km de Bruxelas. O derrame do gás decorrente da explosão matou um habitante por intoxicação, feriu gravemente cerca de 50 pessoas e contaminou as águas do rio e os lençois freáticos. A proximidade de grandes nucleos populacionais dá ideia da extensão da catástrofe que poderia ter acontecido.
Causa do acidente: funcionamento deficiente de uma agulha de ponta ou velocidade excessiva na aproximação da agulha, num itinerário não habitual devido a trabalhos noturnos na via; inexistencia de sistema de controle automático de velocidade.
O maquinista era holandês, o comboio alemão, e a gestão da rede ferroviária belga. 
O que poderá fazer-se para que os economistas, os gestores, os burocratas, os sacerdotes do neo liberalismo, os professores das faculdades de economia de mãos limpas por nunca as terem sujo num comboio ou numa agulha de mudança de via, compreendam que as suas teorias não têm correspondencia na prática do transporte de passageiros e de mercadorias? 
Acidentes semelhantes nos USA levaram a uma concentração de empresas ferroviárias (não à sua pulverização) e a um controle reforçado do departamento federal (contrariando a teoria da redução sistemática do peso do Estado).
No caso do acidente de Schellebelle é legítimo questionarmo-nos se as condições de segurança em consequencia dos trabalhos na via estavam asseguradas e compreendidas pelo maquinista, e se este tinha ao seu dispor um sistema ATP de controle automático de velocidade com capacidade para gerir situações anormais de zonas de obra (evidentemente que por razões de economia o operador privado tem tendencia para poupar no investimento).
Igualmente é de questionar como um liquido tão perigoso é transportado em vagões que não resistem ao choque, mais precisamente as válvulas, ponto fraco (ver o caso de Viarregio numa das ligações acima).
Enfim, como não estamos nos USA, nem mesmo no UK, onde a tradição anglo saxónica impõe o debate aberto e a disseminação das análises aos acidentes, antes estamos no território dos burocratas que impõem os dogmas da liberalização a todo o preço sem atender às especificidades dos sistemas, e que para isso lhes é conveniente deixar cair estes casos no esquecimento, enquanto apelam à privatização ou concessão das rede ferroviárias, provavelmente ficarão por divulgar as circunstancias e causas deste acidente. 
Certamente que os nossos governantes continuarão a insistir no que me parece um erro grave: a liberalização do setor ferrovia´rio, que por razões de segurança deveria ser mantido na esfera pública (inútil explicar isto aos senhores da troika;  não sabem nada de transporte ferroviário).

Mais informação sobre  o acidente em

PS em 8 de maio - Mme Chantal Monet explica muito melhor do que eu os riscos da liberalização e da falta de regulamentação eficaz que permite o transporte de produtos inflamáveis e combustíveis tóxicos/reativos. 20% do transporte de produtos químicos na Bélgica é feito por ferrovia (o que significa que os riscos do transporte rodoviário são enormes). Seria interessante que a opinão de quem defende linhas de mercadorias independentes de linhas de passageiros fosse mais respeitada:
http://www.rtl.be/videos/video/442500.aspx?CategoryID=496



sexta-feira, 3 de maio de 2013

Citação de Mourinho

Ouvido em entrevista de Mourinho:

"Há problemas quando alguém pensa que está acima dos outros".

Como seria se os decisores (não me refiro só aos governantes atuais, embora o raciocínio lhes seja principalmente aplicável) compreendessem , ou aceitassem que é assim, que a sobreposição do ego aos outros cria problemas?
Em vez de se iludirem com conceitos de liderança que já demonstraram e sua ineficiencia.
Mas para isso tinham de analisar a realidade de forma científica, o que não é propriamente do seu interesse.

Carta ao diretor - os cortes

Carta enviada hoje ao diretor do jornal


Exmo Sr Diretor

Venho mais uma vez dirigir-me ao vosso prestigiado jornal, na esperança de que o meu protesto encontre eco nos decisores que governam a nossa sociedade.
E faço-o porque a insistencia na realização de cortes, a torto e a direito, de forma indiscriminada e sem atender às consequencias, tornou a vida da nossa sociedade insuportável.
Isto sem pôr em causa a necessidade de alguns cortes, mas que deveriam ser seletivos e devidamente ponderados.
Os cortes provocam, sem apelo nem agravo, perturbações gravissimas na vida das populações atingidas, no fluxo normal, na pulsação dos mecanismos de quem produz e necessita de se deslocar de umas para outras áreas económicas, de simples lazer, ou de prestação de serviços.
Com os dispositivos necessários à execução dos cortes, torna-se impossivel, pela acumulação de fatores negativos, atingir os objetivos traçados anteriormente e cumprir os prazos.
Solicito portanto que divulgue o mais possível este protesto, motivado exclusivamente por ter estado num engarrafamento ao descer a rua do Conde de Redondo, devido ao corte de árvores com uma grua e um camião de recolha de bio massa.

Com os melhores cumprimentos,


quarta-feira, 1 de maio de 2013

o dia tem 24 horas, alberto pimenta

o dia tem 24 horas

os canais de televisão
em conjunto
fazem delas perto de 100

a banca
para organizar os seus assaltos súbitos
à bolsa
e vive versa
trabalha
em conjunto ou em separado
mais de 300 horas por dia
que depois podem render
mais de cem mil salários anuais
de cem mil trabalhadores

os cursos de balística
de exército e da polícia
ocupam entre todos eles
muitas centenas de horas
por dia
a treinar
a fatalidade e o erro científicos

para derrotarem o adversário
em décimos de segundos
ou menos
os atletas treinam
sem trégua
milhares de horas por ano
durante vários anos da sua vida

o homem aproveita
engenhosamente
o tempo
e nos intervalos
produz os novos escravos
do novo tempo

os donos dele
sucedem-se

o tempo tem dono
e é hereditário


            Alberto Pimenta, em De Nada, ed. Boca,  citado em "Resumo, a poesia em 2012", edição Documenta, e na Antena 2, no programa Império dos Sentidos, no 1º de maio de 2013 (os pequenos nibelungos ainda não conseguiram silenciar a Cultura)



"... o homem aproveita engenhosamente o tempo e nos intervalos produz os novos escravos do novo tempo... o tempo tem dono e é hereditário"

Estaria também a referir-se aos donos de Portugal, Alberto Pimenta?

1º de maio

Parabens ao Google, pela imagem que escolheu para assinalar o 1º de maio.
Marx teria gostado, e quereria saber se o fruto do trabalho das personagens revertia para o bem estar duma sociedade de desigualdade mínima, só a que a natureza determinou, compensada pela necessária redistribuição. Não esta redistribuição, a determinada pelos senhores burocratas-chefe da central de comando da troika, e executada pelo pobre representante no ministério das finanças, sempre no sentido dos produtores diretos das mais valias para as centrais financeiras.
São mesmo ferozes e ameaçadores defensores da luta de classes, estes decisores prepotentes e sobranceiros, enquanto publicanos como virgens púdicas apelam a consensos, sendo certo que consenso significa alguém impor e outros desistirem (simples análise de um dilema de equilíbrio de Pareto: se o que perco na luta for mais do que o que perder no consenso, desisto e aceito o consenso)...


Também para o dia 1º de maio, na Antena 2, depois do Império dos sentidos ter mais uma vez passado a história da revolução francesa de Alberto Pimenta                  
 (http://www.blogger.com/blogger.g?blogID=8324446730271013022#editor/target=post;postID=791542472621978633;onPublishedMenu=allposts;onClosedMenu=allposts;postNum=0;src=postname) ,
Luis Caetano escolheu, para o seu programa Vida breve, o poema Mensagem à Poesia, de Vinicius de Moraes:



Não posso
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível
Agora não pode ser
É impossível
Não posso.
Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.
Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo
A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo
Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe
Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso
reconquistar a vida
Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos
Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
Ponderem-lhe, com cuidado – não a magoem... – que se não vou
Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere
Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.
Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus
Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem
Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto
Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada
A terrível participação, e que possivelmente
Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.
Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe
Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado
Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento
Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada
Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há
Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem
Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande
Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações
Há fantasmas que me visitam de noite
E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
No amanhã
Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde
De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável
Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
Por um momento, que não me chame
Porque não posso ir
Não posso ir
Não posso.
Mas não a traí. Em meu coração
Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
Envergonhá-la. A minha ausência.
É também um sortilégio
Do seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-la
Num mundo em paz. Minha paixão de homem
Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha
Loucura resta comigo. Talvez eu deva
Morrer sem vê-Ia mais, sem sentir mais
O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr
Livre e nua nas praias e nos céus
E nas ruas da minha insônia. Digam-lhe que é esse
O meu martírio; que às vezes
Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas
Forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a treva
Mas que eu devo resistir, que é preciso...
Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
Com toda a violência das antigas horas de contemplação extática
Num amor cheio de renúncia. Oh, peçam a ela
Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
A quem foi dado se perder de amor pelo direito
De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
E uma menininha de vermelho; e se perdendo
Ser-lhe doce perder-se...
Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
É mais forte do que eu, não posso ir
Não é possível
Me é totalmente impossível
Não pode ser não
É impossível
Não posso.

domingo, 28 de abril de 2013

Crítica musical - a música subversiva

"C'est par la musique qu'a commencé l'indiscipline" - frase atribuida a Heráclito de Efeso, escrita aqui em francês por ser a língua materna de Françoise Schein , a artista que concebeu a renovação da estação Parque do metropolitano de Lisboa, nos anos 90  (ver http://fr.wikipedia.org/wiki/Fran%C3%A7oise_Schein  ).

Penso que a ideia de Heraclito seria a de que a disciplina de um musico é de longe superior à dos políticos.
Talvez fosse isso que Prokofieff quis dizer a Estaline quando lhe respondeu à crítica da sua musica ser politicamente fraca, que a politica de Estaline era musicalmente muito fraca.
E temos mais um exemplo do que a musica pode fazer aos politicos, despindo-os das suas vaidades e das suas certezas prepotentes e sobranceiras, nos concertos de 25 e 26 de abril de 2013 na Gulbenkian, com a mini ópera de George Benjamin, "Into de little hill".
Adaptação do conto do Flautista de Hamelin.
O ministro quer ser reeleito, mas a multidão avisa-o que só votará nele se exterminar os ratos. É estranho a multidão achar que são ratos, porque a filha do ministro vê que eles usam roupas. A multidão acha que não, que eles só roubam (será analogia com a crítica que o senhor ministro da Economia faz aos trabalhadores das empresas públicas de transportes, que com as suas regalias estão a roubar as finanças públicas, esquecendo que o que agrava em 2/3 a dívida são os encargos financeiros e as taxas de juro relativamente crescentes?). E aparece um salvador que promete ao ministro livrar a cidade dos ratos. Feito o contrato, o ministro é reeleito mas não quer cumprir a promessa ao exterminador. É apenas mais um exemplo de um politico que não cumpre as promessas feitas na campanha eleitoral e que se justifica dizendo que não tem dinheiro para pagar porque o gastou todo em infraestruturas (será analogia com os cortes das pensões do senhor ministro das Finanças, que só tem dinheiro para pagar juros, mas salários da função pública não?).
O facto é que o exterminador fez o que já se sabe, transformou as crianças em ratos (será analogia com os cortes na Educação? e o consequente estímulo ao aumento da iliteracia, do abandono escolar, do desemprego e da criminalidade?).
Crítica profunda aos políticos e aos seus métodos de dissimulação e de diversão da atenção dos eleitores para o acessório.

De tal maneira que me ocorreu uma sugestão a fazer aos políticos: gerir a coisa pública deveria obedecer a critérios de qualidade equivalentes aos que se usam nas empresas certificadas. Então, para selecionar os políticos, deveriam os candidatos submeter-se à prestação de provas psicotécnicas.
As provas psicotécnicas são muito úteis, e permitem até detetar o perfil psicológico da pessoa, a sua capacidade de trabalhar em equipa, de não impor a sua vontade discricionária, o seu respeito pelo debate alargado com vista a um resultado participado e representativo das sensibilidades das populações, o seu respeito pela verdade.
Munidos dos relatórios dos seus testes psicotécnicos os candidatos apresentar-se-iam então na campanha eleitoral, fornecendo assim aos eleitores informação preciosa para a escolha conscienciosa.




A peça de resistencia dos concertos foi porem Dido e Eneias, de Henry Purcell.
Trata-se de uma das primeiras óperas inglesas, com a curiosidade de ter sido composta pouco tempo antes da Revolução Gloriosa de 1688, que marcou a consolidação dos princípios democráticos e da participação institucional dos cidadãos na vida politica, reduzindo os poderes da monarquia e controlando o Parlamento através de pluripartidarismo ao  mesmo tempo que a revolução industrial arrancava (por acaso em Portugal tambem arrancou por essa altura, graças aos esforços de pessoas como o conde da Ericeira, mas a coisa não vingou) e a sociedade das ciências impunha o método cientifico e a obrigatoriedade da disseminação do conhecimento (coisa que não, não aconteceu em Portugal nessa altura nem nos tempos mais chegados - será que as duas coisas estão relacionadas? não parece haver muitas dúvidas, pois não? já dizia o prof.Carvalho Rodrigues, a ciência tem de fazer parte da equação; ora, por aquilo que se vê e ouve, não é o que os politicos, os comentadores e os interventores estão fazendo, pois não? tratar os problemas com o método científico).


Música, indisciplinada por ser mais dura a sua disciplina do que a dos politicos.




Crítica de cinema - é o amor, de João Canijo e Anabela Moreira

É um filme documentário muito interessante sobre a vida de trabalho com o peixe de mulheres de Caxinas, com destaque para a mestra empresária do Marta Sofia, de que o marido é o mestre, responsável por uma tripulação de 10 pesacadores.
Os críticos do DN atribuiram-lhe a classificação de 4 (bom) em 6.
Não quero desmerecer, até porque o filme beneficiou da retoma do apoio oficial (o "mercado" português não tem dimensão para ser de outro modo) mas eu atribuiria 3 (com interesse), apesar da qualidade técnica e da riqueza das situações de vida real filmadas.
Não surge, durante todo o filme, a pergunta já ouvida numa reportagem da TV: "Como quer que valha a pena ir pescar se o peixe que vem do Vietnam é vendido muito mais barato nos grandes supermercados?". Seria interessante o filme analisar como é possível a estes 11 homens competirem com os grandes supermercados (até porque o mérito poderá ser da mestra).
Só de fugida se fala numa questão importantissima: a filha da mestra diz que quer ir viver para Lisboa quando for crescida, e o filho mais velho não sabe se quer tomar conta do negócio.
O filme escolheu uma família de Caxinas do segmento médio alto, proprietária do barco de pesca. Deixa os espetadores na ignorância sobre os pescadores de menores rendimentos da povoação.
Os pescadores moram em Caxinas e o barco aporta a Aveiro. Durante a viagem por estrada, na carrinha de apoio ao transporte do peixe e do pessoal, assiste-se a conversas pelo telemóvel pela condutora, enquanto o filho mais novo é transportado ao colo no lugar do morto sem cinto de segurança.
O filme é apoiado pela associação pró segurança dos homens do mar, mas veem-se os pescadores sem os fatos térmicos que substituem os coletes de segurança, vestindo calças de oleado com botas que agravam as condições de flutuabilidade em caso de queda ao mar.
Fala-se em GPS, não se fala em balizas de chamada de emergencia nem em rádios de identificação digital e chamada seletiva (pouparia o trabalho ao mestre de, por telemóvel, pedir à mulher para os ir esperar a Aveiro; esta poderia segui-lo pelo programa localizador de barcos).
Poderá parecer pretensioso da minha parte falar nestes pormenores, mas muitas das mortes de pescadores de Caxinas em naufrágios e nas estradas poderiam ser evitadas com melhor apoio à divulgação e aquisição de equipamento de segurança.
Nesse sentido foi pena não ter sido explícitada a utilização de equipamentos de segurança.
Ter-se-á perdido uma boa oportunidade para sensibilizar os pescadores para o seu uso, e as entidades oficiais para a necessidade de apoio.
Receio que as pessoas da cidade acabem por apreciar o filme pela sua curiosidade, pôr uma senhora da cidade, atriz com dramas existenciais de insegurança da sua profissão, a viver durante os meses de verão no meio das mulheres que trabalham duramente com o peixe em Caxinas e em Aveiro.
Esteticamente é muito bonito, mas penso que as normas e os equipamentos de segurança poderiam ter intervindo mais.





quinta-feira, 25 de abril de 2013

Viva o 25 de abril







                                    Viva o 25 de abril de 1974





















Estaleiros de Viana do Castelo, 24 de abril de 2013

Honradamente se indignam os trabalhadores dos estaleiros e o presidente da câmara de Viana do Castelo perante o que tudo indicia ser uma conduta de sabotagem económica por parte do senhor ministro Aguiar Branco.
Ao não querer fundamentar perante a Comissão Europeia os 181 milhões de euros de fundos públicos nos estaleiros.
Ao não querer apresentar um plano de reestruturação que dinamize os estaleiros (a câmara já apresentou as bases para esse plano) e resolva o caso do Atlantida. 
Continua a aguardar-se o dinheiro para os motores e chapa para os asfalteiros, embora o senhor ministro da Economia anuncie uma verba de 3.500 milhões de euros para a reindustrialização.
Se isto não é sabotagem económica, insensibilidade, incompreensão, ignorância profunda das realidades industriais, o que será? 

Por isso, por este ser um caso paradigmático do mal que os nossos governantes estão a fazer ao país, transcrevo as palavras elegantes com que Batista Bastos os define no DN:

"Olho para os rostos destes que nos têm governado e não reconheço neles qualquer semelhança com os nossos rostos comuns ... As sombras que neles poisaram são repintadas de vigílias tétricas em que se arredaram o bater comovido do coração humano e o pulsar da  mais escassa ternura. Como conseguem viver nesta  miséria de fazer mal, de nos fazer mal?"

PS em 6 de maio - Segundo uma noticia de 29 de abril do Transportes em revista, foi adjudicada a primeira partida de chapa para os navios asfalteiros. É desejavel que estas coisas não se passem em secretismo, mas a cultura dos nossos decisores é assim. Vai ser extremamente dificil cumprir o contrato, aguardemos a evolução da relação com o cliente venezuelano.
Entretanto, soube-se que existe uma exceção na diretiva europeia à proibição de investimento público em empresas públicas: quando se trata de equipamento para a defesa nacional. O que no caso dos estaleiros de Viana era o caso, passe a redundancia. Não haverá portanto razão para a devolução dos 181 milhões de euros.