domingo, 9 de fevereiro de 2014

O gabinete exiguo no ministério da Economia

Dou notícia do andamento dos protestos pelos cortes dos complementos de reforma.
Pacificamente continuamos a protestar.
Contratos são para cumprir e o governo não está a cumprir.
O argumento da falta de dinheiro dilui-se quando somos informados de que vão ser pagos os subsidios de natal e de férias de 2012 aos reformados do Banco de Portugal.
Falha bem visível do conceito de equidade que só este governo tem.
Poderiamos sentar-nos a uma mesa e acertar um valor de desconto para aplicar a todas as reformas.
Assim não. Não cortar nada a uns e cortar em média 40% da reforma bruta que anteriormente se recebia (pensão da segurança social mais complemento de reforma) a outros não é evidentemente equitativo.
Estamos reunidos na praça Luis de Camões e as jovens reporteres das televisões vão fazendo as suas habituais entrevistas, tentando sempre saber quanto maior é o valor do complemento que é cortado em relação à pensão média que os reformados em Portugal recebem.
O governo agradece que os noticiários digam que um reformado do metro recebia uma reforma bruta de 2000 euros e ficou sem o complemento de reforma que eram 1000 euros, que é muito mais do que a maioria das reformas que não chegam a 600 euros.
A menina da entrevista ri-se, não sente a questão. É jovem e acha que a juventude é eterna e que as leis do mercado a hão de premiar que é jovem e saudável. Os fracos e os idosos baquearão.
Não quer discutir a questão do leque salarial. Talvez compreendesse porque a pensão média é tão baixa.
Nem quer saber que grandes interesses instalados não querem legislação para taxar as transações mobiliárias na Bolsa, nem taxar o jogo on line e as transações pela internet.
Essas taxas permitiriam aliviar os cortes aos reformados.
Esclarecer a questão do leque salarial ajudaria a apontar pistas contra o desequilíbrio dos rendimentos e dos impostos do trabalho e do capital. Os números podem ser torturados até confessarem tudo, como diz Pedro Nogueira Ramos no seu livro, mas dizem as estatísticas que o salário médio no concelho de Alcochete é de 1.700 euros, e não há lá metropolitano, e que o peso do trabalho no PIB é menos de 50% mas os rendimentos do trabalho são 75% da receita fiscal.
Destaca-se da reunião o pequeno grupo de 5 elementos, a comissão dos reformados. Vão entregar na Secretaria de Estado uma pequena nota dando conta da evidente inconstitucionalidade do não cumprimento de um contrato. A nota não contem nenhuma ameaça de penhora dos bens da entidade que contratou e não pagou. Várias propriedades imobiliárias em Lisboa. O ativo dos terrenos de Sete Rios, onde funciona uma central de camionagem que não paga renda  (pertencerá ao movimento "okupas"?), um prédio na Rua Ivens, em ruinas. Apartamentos no Cacem e em Massamá, para desalojados das expropriações do crescimento do metro.
São 4 horas da tarde de uma sexta feira de fevereiro. 3 policias de intervenção acompanham os 5.
O segurança informa que apenas está disponível para  receber a delegação o adjunto da senhora adjunta da secretária do assessor adjunto do chefe de gabinete do secretário de Estado adjunto do ministro adjunto, uma vez que se encontra em reunião no exterior na reunião de atribuição das quotas dos fundos comunitários o secretário de Estado adjunto dos transportes, o assessor do secretário de Estado dos Transportes, o adjunto do secretário adjunto dos transportes e o próprio secretário de Estado dos Transportes, além de que o senhor ministro da Economia, os seus assessores e adjuntos nada sabem de transportes.
Mas há uma pequena questão.
O gabinete do senhor  adjunto da senhora adjunta da secretária do assessor adjunto do chefe de gabinete do secretário de Estado adjunto do ministro adjunto é extremamente exíguo. O edificio já é antigo e não comporta espaço para tantos servidores do Estado.
Apenas poderão ser recebidos 3 delegados, não 5.
Proponho que os dois colegas mais resistentes entrem com outros dois às cavalitas.
Mas o coletivo dos 5 rapidamente analisa a situação e conclui que é apenas uma manifestação de prepotencia do senhor adjunto da senhora adjunta da secretária do assessor adjunto do chefe de gabinete do secretário de Estado adjunto do ministro adjunto e do governo que ele representa.
E decidem voltar à praça Luis de Camões.
Até à próxima manifestação.









sábado, 8 de fevereiro de 2014

a greve

                                                   o texto seguinte faz parte de umas memórias no metropolitano





Já tinha reparado nele, nas viagens diárias de metropolitano. Entrávamos na estação de Sete Rios, vindo ele não sei de onde e eu de Benfica, de autocarro.
Teria menos de 30 anos, um ar pacífico, não jovem pela forma como se penteava e vestia. Era fácil imaginá-lo sentado na sua secretária, a conferir faturas e a esperar que fossem horas de almoçar uma sanduíche de leitão ou uma bifana num qualquer estabelecimento de vinhos e comidas da Baixa.
No meio da multidão ameaçadora, olhava fixamente para o vidro da cabina do chefe de estação, que nela se recolhera, a meio do cais, depois de tentar fazer-se ouvir, explicando aos passageiros que não iria haver comboios durante o resto da manhã, por motivo de greve.
Não por ele, que não tinha aderido à greve, mas porque todos os maquinistas tinham paralisado. 
O  metro ainda não tinha crescido para o Colégio Militar nem para a Pontinha e Amadora.
Num tempo que não fixei, entre o fim do quinto governo provisório, o da enumeração dos projetos de engenharia estratégicos para o país, porque o primeiro ministro, Vasco Gonçalves tinha essa formação, e o início das intervenções do FMI, a greve fora decretada para reposição do poder de compra dos trabalhadores.
Logo a seguir à revolução de 25 de abril de 1974 tinha havido de facto uma transferência de rendimentos do fator capital para o fator trabalho, coisa que se acentuou depois das nacionalizações de Março de 1975.
Porém, a inflação contrariava os aumentos de salários e, no caso do metropolitano, a política do governo era perigosamente idealista por conter o aumento do preço dos bilhetes, mantendo-o artificialmente baixo e comprometendo o equilíbrio das receitas e despesas.
Por isso havia greves e o cidadão a que me refiro continuava a olhar fixamente para o vidro da cabina do chefe de estação enquanto a multidão se comprimia no cais.
De repente, ergueu ambas as mãos e começou a bater compassadamente no vidro da cabina.
Aproximei-me e disse-lhe, cuidado que assim pode produzir um balanço e o vidro parte-se.
Eu queria referir-me ao fenómeno físico da ressonância, em que num movimento vibratório de frequência próxima da frequência própria da estrutura, as amplitudes das vibrações sofrem um fenómeno de realimentação positiva e aumentam até ao colapso da estrutura. É por isso que os pelotões atravessam as pontes em marcha à vontade e não sincronizada.
Ele não me ouviu, manteve o olhar distante e as batidas no vidro.
Ursos, alguém gritou, por cima do bruáá da multidão, querendo com isso dizer que achava que os sindicatos que tinham declarado greve se guiavam por uma ideologia política parente do regime político da união soviética, o das terras dos ursos siberianos. O que não era inteiramente verdade, uma vez que um dos sindicatos mais influentes que declarar greve, o dos eletricistas a que pertenciam os operadores da central de comando e distribuição de energia, se reclamava de pureza democrática não enfeudada a nenhuma central sindical.
O vidro partiu-se, o que terá ajudado a desmobilizar a multidão, que zangada acabou por sair da estação. 
Outras greves se sucederam, em torno do conceito de contratação coletiva do trabalho, cuja aplicação formal vinha já de antes da revolução. O primeiro acordo coletivo de trabalho no metropolitano tinha sido assinado em 1973, ilustrando a modernidade da empresa.
O nível dos salários no  metropolitano não era ainda superior ao das empresas privadas. Em troca da segurança no trabalho aceitávamos vencimentos inferiores aos dos colegas das empresas privadas fornecedoras de equipamentos e serviços, com os quais trabalhávamos na execução das empreitadas. O sucesso dessas empresas era também devido aos concursos que lançávamos, beneficiando de financiamentos cada vez mais generosos, em nome da coesão dos estados da união eiuropeia.
Ao longo do tempo, a orientação dos sucessivos governos foi a de evitar o conflito social. Raramente se aplicou a lei da greve, sem que os serviços mínimos fossem acordados, nem que fosse decretada a requisição civil, já que, se a greve prejudica a economia, seria de esperar do governo que o evitasse. Algumas medidas, como a substituição do ciclo de 5 dias de trabalho interrompido por 2 dias de descanso para o trabalho por turnos contínuos (há sempre quem trabalhe no metropolitano, 24 horas por dia, ao longo de todo o ano), foram aceites de forma acrítica com o parecer contrário dos técnicos que tinham outras soluções que respeitavam o direito laboral.
No entanto, a fundamentação das reivindicações estava correta, porque a inflação reduzia efetivamente o poder de compra.
A crise internacional de 2008 e do agravamento do endividamento inverteu a relação dos níveis de salários. De repente os salários dos trabalhadores do  metro eram superiores à média nacional (se excluirmos os setores não transacionáveis da banca e dos seguros e dos escalões de topo das grandes empresas industriais e de distribuição).
Se antes da primeira intervenção do FMI em 1978 muitos passageiros se agastavam com as reivindicações dos trabalhadores do metro, agora era muito difícil obter o apoio da população quando a maioria das pessoas recebia vencimentos inferiores.
Por isso se mudou a estratégia.
Os sindicatos, qualquer que seja a sua opção ideológica,  continuarão a defender a contratação coletiva, aliás caraterística de qualquer país civilizado respeitador dos direitos da declaração universal. Igualmente defenderão, sem quererem apoucar as experiencias de alguns metropolitanos cuja exploração foi concessionada, a manutenção na esfera pública do respetivo operador. Coisa aliás aceite pelas diretivas europeias e razoável se se pensar que a maioria dos operadores públicos, incluindo o de Lisboa, apresentam indicadores de funcionamento de bom nível, pelo que dificilmente um operador privado, sem protecionismo estatal, poderá retirar lucro, para os seus acionistas, do diferencial de produtividade que conseguir.
A próxima greve será decretada sob o conceito de greve de zelo.
Os passageiros serão informados de que a greve se realiza também para defender o direito deles, passageiros, ao trabalho e a remunerações e condições justas, num leque reduzido de vencimentos e numa repartição equitativa dos impostos pelo fator trabalho e pelo fator capital.
Que se lamenta os incómodos e que se fará tudo para os minimizar. Os canais de acesso nos átrios de entrada estarão abertos. Os dias de greve serão acrescentados à validade temporal dos passes. O horário diário de trabalho dos grevistas será nos meses seguinte voluntariamente incrementado de modo a não perderem a remuneração do tempo de greve. Os comboios circularão, apenas com algum atraso, para que nas estações os comités possam explicar a fundamentação da greve e aproveitem para recordar os procedimentos de segurança a observar, desde o afastamento da borda do cais aos cuidados com a entrada e saída de carrinhos de bebés, e a discutir as formas de obtenção de financiamento para as obras de melhoria do existente e de construção de novos empreendimentos. Coisa que, como se sabe, é possível através da negociação de fundos comunitários com a apresentação de projetos concretos.

Ignora-se se o governo, preocupado com uma perturbação do PIB nacional da ordem de 150 mil milhões de euros a dividir por 250 dias úteis, por 20% correspondentes à área metropolitana de Lisboa e por 10% como contribuição do fator transporte para o valor acrescentado da produção de uma empresa por dia, o que dará uma perda para o PIB de 12 milhões de euros por dia de greve, decretará a requisição civil, considerando que é plausível, com esta estratégia, a sintonia e a compreensão mútua entre grevistas e passageiros.
Não se espera que alguém parta os vidros da cabina.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Nós, reformados, acusamos este governo

Nós, reformados, acusamos este governo,


de rasgar os contratos roubando pensões de velhice, de sobrevivencia, complementos de reforma,

de representar servilmente os grandes interesses financeiros, esmagando com impostos os reformados e os trabalhadores, enquanto alivia os rendimentos do capital

de desmantelar a segurança social, pública, solidária e universal, conquistada com a revolução de abril, para a transformar em instrumento ao serviço do capital especulador

de destruir o serviço nacional de saúde público, em benefício dos interesses privados

de destruir a economia, lançando no desemprego e na emigração forçada os nossos filhos e netos

de vender a retalho e ao desbarato o património nacional que ajudámos a construir

de um comportamento ilegal, com sucessivos atropelos à Constituição 

de destruir a esperança de uma vida digna no tempo que nos resta, desrespeitando direitos humanos

de mentir ao eleitorado para conquistar o poder

de, com a cumplicidade do presidente da República, querer implantar uma ditadura de capitalismo selvagem, amoral, que destroi os direitos sociais, despreza os valores da solidariedade, transforma os trabalhadores em mão de obra descartável e os reformados em alvos a abater




                             Extratos da convocatória da manifestação de reformados de 1 de fevereiro de 2014






Hoje, 6 de fevereiro, foi noticiado que os subsidios de natal e de férias de 2012 serão devolvidos aos pensionistas do Banco de Portugal. Existe fundamento legal para isso, e porque a solidariedade deve estar acima de invejas, é de aplaudir, esperando que identico procedimento se estenda a todos os pensionistas, considerando que são uma propriedade fixada em contrato e que não deve ser roubada. Porem, o principio da equidade deverá aplicar-se e portanto, se os sacrificios devem ser repartidos por todos, incluindo na taxação dos rendimentos do capital, então sobre os subsidios devolvidos deverá incidir uma taxa regressiva, assim como se admite que se aplique uma taxa aos complementos de reforma do metropolitano, embora nunca superior a 10%, para que não se diga demagogicamente que cortando 1000 euros a quem recebia 2000 euros brutos, esses 1000 euros são mais do que a maioria das pensões (o mal está nas pensões serem baixas...). Não é admissivel que os cortes sejam bruscos e concentrados numa parte da população, deixando de fora os rendimentos mais altos e os rendimentos do capital, o que sugere proximidade indesejada do ex secretário de estado com a gestão das pensões do Banco de Portugal

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O autocolante para as eleições europeias

É imperioso que se reduzam as pensões e os ordenados da função pública, e que se promova o desemprego que contenha a inflação, para que  haja dinheiro para cobrir as imparidades do BPN que não foram vendidas ao BIC e para que as entidades externas que detêm o poder possam ser ressarcidas a um juro de 4% pelos seus empréstimos e satisfeitas por verem aplicadas as suas teorias desfasadas da realidade e comprovadamente assentes em previsões falhadas. As doenças atacam-se nas causas. E as eleições de maio de 2014 para o parlamento europeu poderiam ser um tratamento eficaz contra a doença. Mas receia-se que o autocolante, encontrado por aí, tenha razão, e que pensar custe muito.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Sun Tzu, senhor e teórico da guerra


Mensagem de Sun Tzu, senhor e teórico da guerra,  à CGTP, a propósito das greves:

- "É preferível capturar o exército inimigo a destruí-lo. Travar uma centena de batalhas não é o cúmulo da habilidade. Dominar o inimigo sem combater, isso sim é o cúmulo da habilidade… A suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar.” 

 

Mensagem de Sun Tzu ao governo e ao teóricos da produtividade e competitividade, para que não despeçam tanto:

 


-“O verdadeiro método, quando se tem homens sob as nossas ordens, consiste em utilizar o avaro e o tolo, o sábio e o corajoso, e em dar a cada um a responsabilidade adequada”.

Vai uma grande confusão com as 48 horas e a idade da reforma






“Chenhor doutor do travalho e do deszemprêgo: dchecupeme deregirme achim ao chenhor mas tive q abandonar a ‘scola pra bir travalhar aqui na suicha á muitoa anhos.
I atão ‘staba no kafé a ber a vola e óbi d’zer q’os ministros do travalho dos binte i cete houberam pro ben meter a smana com córenta i oito oras e tamvemcum a idade da rfórma.
Óra eu tenho lomvo é pra travaiar e eu isso auguento, q’os comunas q beem pra cá quando são as eleissões num teem  nada q dzer que só podem ser 35, 36 ou 39 . Iço era quando bibiamos avaicho das nossas puçibilidadeds.
Agora, q bibemos achima das noças puçivilidades porqos calões dos travalhadores portugueses que teem  tão vaicha produtibidade e cumptibidade que lanssaram  toda a Óropa nesta crise de inflassão ó  dfláxão, numsei vem,  e damiassa de carencias alimentárias, pur lo menos era o qos comaintadroes inconómicos deziam, qa culpa era dos travalhadores portugueses,  u q temos de fazer é travailhar inda mais e mlhór e cum menus paga.
U que me tá a fazer cufonzão às meninges é que na mesma reunião che dezeu q sóbér acordo cu funcionário, o q quer dezer que su  funcionário num quiser chegar mais depressa ao fim  do contrato a termo inserto, atão pode fajer 60 horas de travalho pur semana.
Eu cumu só tenho a carta claçe, chó chei dezer q 7 dias da çhemana a óito horas dá cincoenta e seis horas, cumu raio é que em 56 horas se conchegue travailhar 60. E um chenhor minstro inté dezeu q pur acordo tamvem pudiam fazer 65 horas.
A minha Lórentina, quinté tem estuidos, ê inté pinso q chão cosas dus cumunas qando cá bêem, dezeu q num pudia cher purq as óito horas de jornada foi uma coisa do front populère, está cumbinado que são 8 horas e num che fala mai nisso.
Por lo tanto chó pode cher chinco bejes oito dá córenta hoiras pur chemana.
A menos q me digão qafinal é pra travailar ao çhábado.
Mas atão eu lembru-me qus tais cumunas q baineem pra cá nas eleissões desseram qu Karl Marx lá deles dezeu q cu desnbolbimento industrial e das farramentas infurmáticas (eu esta já num chei dezer çeles desseram infurmáticas ou ótumáticas) a pródutibidade ómentaba e já num era prechizu travailar tantu.
Atão che calhar o denbolbimento num foi achim tão grande cumu os inconumistas neo liverais desseram qhouve nus paises q num ligaram ao Karl Marx.
Ó atão abeu achim um grande desnbolbimento mas os rendimentos ovtidos foram só  praálguns, q agora querem q agente travailhe inda mais.
Ó chenhor mnistro du travailho e do deszemprêgo, eu num qero cher má-creiado, qa falta dinducaçhão de mim é mais feia qa falta de cultura du goberno.
Mas ólhe qeu vou ter de le chamar um nome feio porque isto achim chamache crime e eu num quero que o chenhor dótor cheja criminoso, até puq acreditu qu chenhor penchou logo muito mal dosl mnistrus q decheron akilo das 48 horas e ós despois das 60 horas.
A menos q os chenhores mnistros chejam uns paus mandadus dos tais recolectores das maiores fatias dos rendimentos, q era cumu o almirante roja cóitinhu chamaba aos mnistrus du cabacu, o que tamém num gostaba de chamar ao chenhore dótor da mota bêspa purq o chenhore até tem cara de quem está enganadu no goberno em q está.
Ólhe chenhore mnistru.

Us mês comprimentus e beija che conchegue qisto num azéde pq le digu qísto póde ficar muito feio.

o Chilba purtuga


 

o canal Mezzo em fevereiro de 2014: Le fou d'Elsa, Laurent Petitgirard e Louis Aragon

Graças ao canal mezzo, tomo conhecimento do compositor contemporâneo Laurent Petitgirard e de algumas das suas composições, num concerto em Moscovo, em Fevereiro de 2013.
Uma das peças é a interpretação musical do poema de Louis Aragon, “Le fou d’Elsa” (o louco por Elsa), sobre os tesouros da cultura islâmica, como o poema persa Majnun e Leila, equivalente ao Romeu e Julieta, a propósito da conquista de Granada pelos reis católicos,   sobre a riqueza da diversidade cultural, sobre a intolerância religiosa, sobre a decadencia das sociedades islâmicas depois da queda de Granada, sobre a colonização que se lhe seguiu.
Pena não serem utilizados argumentos destes para a compreensão entre os povos.
Talvez seja porque a cultura é uma arma, mas que deve estar escondida, se necessário cortando-lhe as verbas, apesar de ser rentável, como faz o atual governo, não vá o povo votar contra os seus interesses, dele, governo.
Se puderem vejam nesta ligação, “”Le fou d’Elsa”:



segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Governo e câmara de acordo para a concessão/privatização do metropolitano de Lisboa?


Quem escreve estas linhas é reformado do metropolitano de Lisboa. Pertenceu a uma comunidade de trabalho cujo nível remuneratório era, nos últimos anos, cerca de 1,7 vezes superior à média. É verdade que há 20 anos era inferior à média nacional, claramente abaixo dos valores que se pagavam nas empresas privadas (considerando apenas os valores declarados por estas, omitindo o que se pagava sem registo).
Como uma das tarefas do signatário era estudar a segurança da circulação, ele aprendeu que o nível remuneratório e os gastos com a saúde dos trabalhadores estão intimamente ligados à segurança. O setor de medicina do trabalho, com os seus exames de  rotina aos maquinistas é, assim, um fator indispensável de segurança. A ignorancia destes factos pode justificar alguns comentários boçais que se lêem nas caixas de comentários da internet sobre o nível remuneratório no metropolitano e o amesquinhamento do horário de trabalho e da compensação negociada para substituição da função do fator de fecho e abertura de portas (só e admissivel aumentar o horário de trabalho se existir um sistema automático de proteção e controle contínuo da velocidade - vejam-se os casos dos acidentes do AVE em Santiago e do Metro North em Nova Iorque).
Foi entretanto desenvolvida pelo "marketing" do governo atual uma cultura semelhante à da revolução cultural maoista dos anos 60 do século XX, de punição dos professores, licenciados, médicos, engenheiros, funcionários públicos que se opõem à venda das empresas públicas.
Dever-se-ia lutar contra os critérios minimalistas da troika,  deveria nivelar-se por cima, e não por baixo,  repartir o esforço contributivo pelo trabalho e pelo capital em igual proporção...
Mas não. A cobrança de IRS subiu 35%, a do IRC 18%.
Mantêm-se isenções de IMI, de taxas de transações bolsistas, de taxação dos negócios, apostas e especulação bolsista pela internet, de taxas de carbono.
A propaganda do governo atual continua a diabolizar as iniciativas dos sindicatos e trabalhadores do metropolitano, embora condescenda na realização de greves e manifestações, mas sem sequer negociar os serviços mínimos (provavelmente para depois rasgar as vestes com os incómodos causados à população).
Não resisto a contar um episódio na manifestação de hoje, junto do ministério do Trabalho.
Recebida pelo adjunto do secretário de Estado do Emprego, a comissão expôs a indignidade de a contribuição extraordinária sobre as pensões continuar a ser calculada sobre um total que incluia o complemento de reforma que deixou de ser pago unilateralmente.
Foi-lhe então perguntado pelo senhor porque não iam ao ministério da Economia.
Custa a aceitar que se pense uma coisa e se não tenha tempo para medir o alcance daquilo que se deixou dizer. Parafraseando Marx, a situação da maioria dos reformados, com ou sem complemento de reforma, com ou sem cortes significativos para a contribuição extraordinária, é trágica, mas o que os senhores governantes dizem é burlesco.
A estratégia do atual governo mantem a intenção de concessionar a empresa, de colaboração com a câmara municipal de Lisboa, que desempenharia o inócuo papel de "regulador" e de adjudicante de estudos tarifários e de traçado de linhas.
O adjudicatário privado ficaria com a exploração simples, sem custos de manutenção das infraestruturas nem de aquisição de material circulante (parece que querem que seja a REFER a ficar com os prejuizos). Estes custos ficariam assim para o Estado, isto é, seria despesa pública.
Esta receita neoliberal é semelhante à teoria do "bad bank". Se num grupo alguma coisa dá prejuízo deve separar-se do que dá lucro.
Até aqui estamos todos de acordo. Mas o que dá lucro podia ser uma fonte de receita permanente do Estado (ou fator de valorização do museu de arte moderna se não for vendido como a coleção Miró do ex-BPN), e o que dá prejuízo, segundo a teoria séria dos economistas, deveria ser o acionista principal do que dá lucro.
Sem o que o sistema não funciona, ou melhor dizendo, cortando o vínculo entre o "bad bank" e a parte lucrativa, o sistema funcionará a contento dos grupos privados interessados na concessão/privatização das empresas públicas, reservando para o Estado a "regulação", sendo certo que nunca houve em Portugal força e "know-how" para impor "regulação" a grandes grupos internacionais (é verdade que a Siemens vai fechar a fábrica do Sabugo?).  
Considerando que os indicadores do metropolitano de Lisboa estão ao nivel dos homólogos, e considerando que nada impede nas diretivas europeias que a exploração esteja entregue a operadores públicos, discorda-se da estratégia seguida pelo atual governo.

                                                                            sobre a teoria do "badbank", ver "Adapte-se"  
                                                                            de Tim Harford,  ed. Presença

3 bilhetes postais para 3 governantes - 3 - para a senhora ministra das finanças

3 bilhetes postais que não serão lidos pelos destinatários, nem sequer pelos seus assessores
3 - para a senhora ministra das Finanças

Não iria gostar de ler este bilhete postal.
Apesar dele negar que haja qualquer traço de dissonancia cognitiva no seu discurso.
Não existe oposição entre o que a senhora diz e a realidade.
Não existe uma espiral recessiva, mas existiu sim um domínio angular em que ao crescimento da coordenada angular tempo correspondia o crescimento da distancia polar que representava a queda do PIB (fórmula da espiral logarítmica, aquela em que razões de crescimento de angulos correspondem a razões de crescimento iguais para as distancias polares :  distancia polar = ekθ).
Tal como ainda existe um domínio de uma espiral em que ainda se verifica o crescimento da dívida pública.
Isto é, os indicadores macroeconómicos não estão tão maus como isso porque os privados, como diz João Cesar das Neves, já "ajustaram", embora à custa das transferencias das pensões para o setor privado.
Já reparou que 10% do PIB europeu se destinaram a ajudas diretas dos tesouros públicos aos bancos? E que as ajudas implícitas serão o dobro? 
Vivemos acima das nossas possibilidades e agora financiamos os bancos acima das nossas possibilidades também?
Claro que a senhora não precisa de se preocupar com o sacrificio dos pensionistas, dos que pouco ou nada recebem, dos desempregados e dos emigrantes e até acredito que esteja convencida de estar a ter a atitude correta. 
A sua consciencia apenas a obriga a acertar as contas no exercicio de contabilidade prática que a troika lhe passou e em que vai ter boa nota.
Não precisa (e se precisasse seria indício de que teria a reação normal de criar empatia perante a infelicidade alheia) de se preocupar com o indício preocupante da parte de impostos paga pelo fator trabalho, com peso no PIB inferior ao do fator capital, ser de 75% e estar a crescer de cada vez que se cortam pensões e de cada vez que as receitas fiscais do IRS aumentam 35% e as do IRC 18%.
O seu olhar permanecerá frio, embora eu reconheça que é a unica maneira de sobreviver ao que faz sem recorrer a apoio solidário.
Não quererá contradizer os ideólogos monolíticos de visão tubular anti-keynesiana da escola de Chicago ("sickago").
E assim vai equilibrando as contas ao sabor da  maré e da corrente de transferencia do capital das pensões para os bancos. Apenas aparentemente, claro, porque a margem de erro dos indicadores é superior às melhorias que apregoa, pese embora a sensatez com que pede contenção.
Peça contenção a quem compra Mercedes, Audis e BMWs, a quem lucra com as manipulações fiscais, as exportações de capitais  e as transações bolsistas e no ciberespaço, desde as apostas no FOREX e nas Ava Capital ("regulada" pelo banco da Irlanda?! porque se divertem com quem trabalha?) até às start-ups empreendedoras do que não vemos.
Não peça contenção a quem vive de pensões, deixou de poder ajudar os filhos e  os vê partir para a Austrália e Angola (300 que saem do país por dia, a senhora faz ideia da extensão do crime que isto indicia?).
Claro, claro, 40% do país está a viver bem, claro, só ontem, vi dois Range Rover do último modelo, daqueles todos automáticos, quando fui comprar o jornal, e a votar nos politicos que estão a tomar as decisões que não contrariam o ditado da troika.
Mas seria bom que explicasse ao senhor doutor Medina Carreira, que, honra lhe seja feita, clama contra a imoralidade das PPP, rendas e CMECs mas também acha que não há dinheiro para as pensões (ainda bem para ele que o fundo de pensões que lhe paga a pensão ainda não foi integrado na segurança social), que afinal, a segurança social é superavitária em 2014: receitas 18 500 milhões de euros, despesa 15 300 milhões de euros.
Eu sei que foi por causa do perdão fiscal (mas grande parte da dívida não era à segurança social?),  de transferencias do Estado (mas o Estado não tem de contribuir como qualquer empresa?) e dumas facilidades contabilisticas (afinal, negociar com a troika é possivel, não façam as coisas em segredo, que falta de espírito aberto; já reparou que no  mês seguinte aos públicos lamentos do senhor primeiro ministro de que a troika andava a tratar-nos mal os juros dos "mercados" baixaram? ironizo, claro, apenas para dizer que não eram as eleições antecipadas que iriam fazer subir os juros, são mecanismos estocásticos que escapam ao controle linear).
Haverá de facto um problema de piramide demográfica, mas não é agora, será mais tarde, se o seu governo continuar. 
Ah, outro sintoma de melhoria, as taxas do aeroporto subiram pela terceira vez desde a privatização (ups!, não se dizia que as empresas públicas gerem mal e não sabem baixar as taxas competitivas? a senhora também acreditou quando o seu colega especialista de PPP e secretário de Estado dos transportes lhe vendeu essa? pense duas vezes, pergunte a quem sabe como o mundo dos transportes funciona...).
Eu penso que os senhores governantes deviam deixar de se considerar detentores de verdades e de estratégicas únicas e as melhores. 
Deviam repartir o debate e as decisões, mas não devia ser só com o outro partido do arco da governação, devia ser com os outros e com os grupos de cidadãos (que tem contra o congresso das alternativas? contra a iniciativa para a auditoria da dívida?).
Olhe que na Islandia deu bom resultado...
É que assim como estamos, tão dependentes que somos do poder central europeu (eu gostava de lhe falar numa lei da Física, que explica porque num sistema de constituintes de crescimento proporcional à grandeza instantanea, os constituintes de maior rendimento tendem a aumentar a diferença para os constituintes de menor rendimento, mesmo que esse rendimento seja muito bom; é a lei de Fermat-Weber, que a reserva federal dos USA domina, ao contrário do que faz o BCE; mas não temos oportunidade para discutir isso, bem sei), resta-nos esperar que o ciclo económico externo chegue à alternancia positiva.
Eu diria que o mal é geral e exterior, que assenta muito mais a montante da desigualdade da repartição da riqueza -  assentará na desigualdade da repartição dos meios de produção. É que quanto mais privatizarem maior será a desigualdade.
E como se sabe, países de menores desigualdades sociais funcionam melhor do que países mais desiguais (até o senhor professor Vitor Gaspar falou do coeficiente de Gini).  
É outra lei da Física, um sistema cujos parâmetros do  movimento têm menor dispersão estatística têm um movimento mais estável do que os que apresentam maiores amplitudes.
E também, graças à escola de Chicago e aos exitos históricos globalizantes de Reagan e Thatcher, respaldados pelo petróleo barato do golfo e do mar do norte, podemos ignorar as leis da Física, só que não por muito tempo.
Ah! É verdade, também gostava de comentar a sua afirmação de que nada é dado de graça. 
Olhe que não, lembre-se do que dizia o inventor da vacina contra a poliomielite, Jonas Salk:
"Eu tenho o meu ordenado no laboratório, e a vacina é do povo, não tenho de patentear nada"
Que chocante que isto deve ser para um economista que sabe quanto se tem de pagar por uma coisa mas que ignora completamente o valor dessa coisa...





domingo, 26 de janeiro de 2014

3 bilhetes postais para 3 governantes - 2 -para o senhor secretário de Estado Agostinho Branquinho

3 bilhetes postais que não serão lidos pelos destinatários, nem sequer pelos seus assessores
2 - para o senhor secretário de Estado Agostinho Branquinho

Não iria gostar de ler este bilhete postal.
Acabei de ver o filme "Golpada Americana" e não achei nada que fosse americana, a golpada, nem entertenimento despreocupado. Com congressistas presos por promiscuidade economico-politica, facilitação da aprovação de projetos imobiliários e de casinos, para alargar as bases tributárias e desafogar as finanças dos partidos, a história é universal, até parece inspirada no caso do nosso grande autarca de Oeiras. 
Também por isso a contrapartida dos "arrependidos" foi a atenuação da pena do "mayor" de Camden, que no fundo servia os interesses dos seus eleitores. 
Sim, Camden, a cidade mártir de New Jersey, falida há 20 anos,há mais tempo do que Detroit, exemplo vivo do que acontece quando se desindustrializa e se dá de bandeja o poder decisório aos "banksters" (remeto para o texto de Vasco Graça Moura, libreto da ópera do mesmo título, de Nuno Corte Real, sobre Jacob e o anjo, de José Régio).
Como se explica no filme, enganamo-nos a nós próprios, é isso que o nosso cérebro faz, convence-nos a acreditar em coisas que não existem e a fazer o que não queremos, iludindo-nos com uma falsa realidade.
Porque não havemos de enganar o nosso próximo?
Por isso é tão ténue a distancia entre legalidade e corrupção.
Legalidade é quando os negócios e os interesses económicos privados  coincidem com os interesses dos politicos no poder, com maior ou  menor sagacidade na interpretação das leis existentes ou a reformular. 
Corrupção é quando não.
Daí a justificação para aquele slogan: "Menos Estado, melhor Estado". Eliminam-se conflitos, deixam-se os interesses económicos evoluir.

3 bilhetes postais para 3 governantes - 1 -para o senhor secretário de Estado dos transportes

3 bilhetes postais que não serão lidos pelos destinatários, nem sequer pelos seus assessores  
1 - para o senhor secretário de Estado dos transportes

Não iria gostar de ler este bilhete postal.
Não bastava ele lembrar-lhe aquela frase metafórica, quando o senhor governante, antes de ser governante e enquanto especialista de planos de financiamento formulou o desejo que o sol destronasse as nuvens que impediam o arranque do Poceirão-Caia.
Não bastava este bilhete postal ligar esse seu desejo à sua afirmação de agora, que a linha de mercadorias para Madrid também poderia, condescendentemente, transportar passageiros.
E disse isto depois de uma entrevista com a senhora ministra Ana Pastor, que derrotava o senhor ex-ministro Álvaro sempre que faziam cimeiras ibéricas de transportes.
Será que a senhora lhe explicou que o transporte ferroviário é mais eficiente energeticamente que o avião?
Ou o senhor secretário de Estado levou estes anos todos a convencer o seu governo do disparate de ter suspenso o Poceirão-Caia apesar de 85% de comparticipação?
Senhora de difícil conversa, porque da parte portuguesa nunca temos estratégia coerente a prazo que se veja, não é?
Já reparou que Sines porta de entrada na Europa não entra no plano espanhol de portos (Vigo e Algeciras) e corredor atlantico (por Valladolid) e mediterranico (por Valencia) ?
Dificil, ser secretário de Estado de transportes.
E ainda, para fechar o bilhete postal, que contrariedade estas greves que ainda vão baixar o preço da concessão (ou por isso mesmo não será contrariedade, dando jeito as ditas greves para com preços mais baixos atrairem mais interessados?).
E que foram estudar os modelos ingleses e encontraram a melhor solução para a concessão.
Estranho, há 5 vezes mais tempo do que o senhor é secretário de Estado de transportes que eu tive contactos com o setor de transportes inglês e não vi desde então as maravilhas que o senhor anunciou, ou estará a referir-se ao investimento público na nova linha transversal de Londres do metropolitano e ao estatuto do transportes de Londres, com participação da câmara?
Talvez seja isso, o acordo secreto de que só agora fala com o senhor presidente da câmara de Lisboa. O senhor concessiona e o senhor presidente da câmara de Lisboa "regula". Saberão os senhores alguma coisa de transportes, ou os vossos assessores por vós, evidentemente sem qualquer ligação comercial às soluções que apresentarem, para dizerem que vão "regular"? Fazem lá ideia do que seja "regular" uma concessão de transportes.





sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

as duas secretárias de Estado vão lá estar

                                           o texto seguinte faz parte de umas memórias do metropolitano de Lisboa



Franklin Duques já tinha acedido ao pedido de Assis Garrido para chamar a si a coordenação dos trabalhos de adaptação das estações do metropolitano à diretiva europeia, transposta para a legislação portuguesa, de acessibilidade das pessoas com mobilidade reduzida.
O que significava que me tinha desligado desse projeto. Fê-lo com coerência, porque sempre recusara as minhas propostas de intervenção e de submissão dos projetos a candidaturas aos fundos europeus.
A sua visão economicista das coisas não lhe permitia sentir-se na pele das pessoas em cadeira de rodas.
Porém, sempre que algum jornalista pedia informações sobre o estado do projeto, era a mim que continuava a pedir o ponto da situação, que apesar de tudo alguma coisa se ia fazendo, de colaboração com a secretaria de Estado da segurança social e o seu secretariado para reabilitação e integração (SNRIPD)  e com associações como a ACAPO, associação de cegos e amblíopes de Portugal, e a APD, associação portuguesa de deficientes.
A nossa jovem arquiteta tinha aproveitado uma parte significativa da nave das oficinas do parque abandonado de Sete Rios, não ocupada pela central de camionagem provisória que libertara a área do arco do cego, para uma instalação experimental de pavimento tátil para guiamento de cegos, conforme o normativo internacional. A experiencia era importante e interessou a várias empresas de transporte e câmaras municipais.
O parque tinha sido abandonado duas administrações atrás, quando da inauguração do sumptuário parque de oficinas e material circulante em Carnide/Pontinha.
Um outro jovem arquiteto fez um projeto de aproveitamento dos terrenos com uma urbanização de 3 torres, um hotel, uma central de camionagem (definitiva), um edifício para a sede executiva e central de operações do metropolitano e uma zona de garagem para facilitar o lançamento de comboios em exploração durante as horas de ponta.
As mais valias obtidas com a comercialização do imobiliário serviriam para um plano de pensões dos reformados do metro e para remunerar parcialmente os antigos proprietários do terreno expropriado para fins públicos.
O imobilismo e a inércia institucionais, porém, foram deixando passar os anos sem que nada do projeto se concretizasse. A central de camionagem provisória eternizou-se, as alterações do plano diretor municipal não tiveram consequências. O metro nunca recebeu rendas pela utilização da central provisória.
Franklin Duques condescendeu com a experiencia mas não manifestou interesse nenhum em assistir à inauguração.
Embora não fosse da minha responsabilidade, mas porque recebera a informação do meu antigo interlocutor do SNRIPD, telefonei à secretária de Duques.
-“Colega, agradecia que informasse o doutor que para a inauguração do pavimento experimental tátil está confirmada a presença das duas secretárias de Estado, a da segurança social e a dos transportes. Depois diga qualquer coisa, está bem?”

Menos de cinco minutos depois tocou o telefone. Que eu fizesse o favor de também lá estar, para apoio ao senhor presidente da administração Franklin Duques, durante a visita das senhoras secretárias de Estado.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

o laboratório de lasers intensos

                                                           o texto seguinte faz parte de umas memórias do metropolitano



Quando Carmo Alberico, administrador principal, recebeu o pedido do diretor do departamento de investigação ótica do IST, Instituto Superior Técnico, já Tânia Moleiro me tinha pedido para a acompanhar a uma reunião com um grupo de professores e investigadores, preocupados com o anuncio do inicio das obras da extensão da linha vermelha, da Alameda a S.Sebastião.
Pelas vias institucionais, o IST já nos tinha feito chegar um estudo da universidade complutense com a estimativa das perturbações eletromagneticas e de vibrações mecânicas devidas à passagem dos comboios a menos de 30 metros dos laboratórios de ressonância magnética nuclear, de metrologia do magnetismo, de ensaio dos microcircuitos, dos microscópios eletrónicos de transmissão e varrimento, do espetrómetro de massa de 600 MHz para líquidos,  dos líquidos criogénicos, e dos lasers intensos.
A grande taxa de variação da corrente de tração dos comboios e dos circuitos de retorno, podendo atingir 5.000 A em picos de 20 segundos na fase de recuperação,  induz campos eletromagnéticos variáveis que por sua vez induzem forças eletromotrizes que falseiam as medições de equipamentos laboratoriais.
O grupo recebeu-nos pouco amistosamente e com algumas intervenções pouco contidas, reivindicando indemnizações para deslocalização dos laboratórios.
Ficaram porém surpreendidos quando apresentámos cálculos e medições dos campos eletromagnéticos produzidos pela circulação dos comboios que já tínhamos realizado nas imediações do túnel em outros locais, igualmente por reclamações de moradores na vizinhança.
Confirmei-lhes que os campos eletromagnéticos podiam interferir a menos de 30 metros mas que a partir dessa distancia a solução mais correta seria blindar os gabinetes de ensaio com gaiolas de Faraday, pela razão simples de que a intensidade dos sinais perturbadores era da mesma ordem de grandeza das perturbações causadas por máquinas elétricas como motores de compressores de frigoríficos ou de emissores de radiotelefones.
Os valores medidos a 15 metros da circulação dos comboios eram de 0,05 mT (mili Tesla) para o campo magnético em DC e de 20 nT (nano Tesla) para 250 Hz.
Para o campo elétrico os valores eram de 12 V/m a 50 Hz e de 60 dB μV/m a 463 MHz, portanto valores suportáveis com a referida blindagem.
Quanto às vibrações mecânicas, informei que o nível que se poderia esperar do tipo de via férrea que iria ser instalada, com manta absorsora de elastómero, da ordem de 66 dB ou 0,1 mm/s de valor pico a pico, era inferior ao intervalo de tolerancia dos equipamentos laboratoriais.
Porém, o investigador dos lasers e o diretor do seu departamento não concordaram, acharam que as molas sobre que se apoiava o tabuleiro dos lasers, repleto de lentes, alvos  e percursos dos feixes concentrados emitidos pelas junções de semicondutores, não absorveriam as vibrações, além de que, por definição de ótica, eram perfeitamente insensíveis às interferencias eletromagnéticas.
Propus à administração do metropolitano uma comparticipação na blindagem dos aparelhos sensíveis às interferências eletromagnéticas e dei o meu parecer de que as vibrações mecânicas não justificavam nenhuma intervenção.
Alberico não deu andamento à proposta de comparticipação e tive de acalmar a investigadora da ressonância magnética que já tinha encomendado a blindagem.
Os outros investigadores resolveram a questão de uma forma mais prosaica, mudando os seus laboratórios para o outro lado do IST.
Todos, menos o laboratório dos lasers intensos.
Uns meses depois fui surpreendido pela assinatura de um protocolo, sem que nada me tivesse sido perguntado, entre a administração do metro e o IST, em que o metro pagava o projeto e a construção de um edifício para o laboratório de lasers no campus do IST de Oeiras até a um montante de 650.000 euros, esquecendo todos os outros.
Alberico, apesar de engenheiro, não se interessava muito pelos pormenores técnicos dos problemas, muito menos pelos valores admissíveis das interferências eletromagnéticas ou de vibrações mecânicas, preferindo deixar-se levar pela fé em caixas negras que não se sabe como funcionam, a apoiar os técnicos que tentavam estudar as questões em profundidade e a fundamentar o seu trabalho em dados resultantes de medições.
Felizmente para a contabilidade do metro, a inércia estrutural que nos atinge em demasiadas áreas impediu que o projeto do novo laboratório se realizasse, que não por causas imputáveis ao metro.
Por meu lado, consegui depois uma pequena verba para apoio da investigadora da ressonância magnética.
O laboratório de lasers lá continua, no mesmo local, numa cave na esquina da Sidónio Pais para a Alves Redol, insensível às trepidações dos camiões que descarregam as botijas de butano à superfície, e do metropolitano que passa, a 18 metros, no subterrâneo.


                                         

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O prémio Carlos V

Se soubessem História e se tivessem pudor, nunca criariam nem atribuiriam um prémio Carlos V, um senhor prepotente, convencido, instável do ponto de vista psiquiátrico e que subornou os eleitores do colégio eleitoral para ser eleito imperador. Tinha a ideia da Europa um pepino. O dinheiro do suborno veio do Goldman Sachs da altura, a família Fugger de Augsburg. Os mesmos que lhe emprestaram dinheiro para as suas aventuras militares na opressão dos Paises Baixos e da escravização dos naturais da América do Sul, e que conduziram diretamente à bancarrota que o filho, FilipeII, ajudou a propagar até Portugal.
Deviam ter pudor.
Valha a atitude de doação do prémio anunciada pelo senhor Durão Barroso.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Neill Lochery - Lisboa vista de fora, 1933-1974

Interessantissimo, este livro.
Quando queremos compreender a fatalidade portuguesa interessa ler Beckford, viajante do principio do século XIX.
O mesmo para este livro, com o ponto de vista algo snob e com um complexo de superioridade de um inglês lúcido.
Curiosa a análise que faz do provincianismo desconfiado de Salazar, com um permanente complexo de inferioridade perante as elites aristocráticas ou financeiras.
Não resisto a fazer o paralelismo com o atual primeiro ministro, também com um provincianismo não resolvido, convertido em conflito com a anterior geração, com o deslumbramento pelas teorias neoliberais da sua professora de economia e com uma raivinha surda (porque se sabe mero executante das politicas que conveem às elites),mas subserviente até à despersonalização, pelas elites financeiras que desprezaram o trabalho de servidor público do progenitor, e com uma incapacidade crónica de compreender e participar na vida cultural das elites culturais (que aliás eu não elogio).
Ou de como a análise das desgraças passadas ajuda a explicar as desgraças contemporaneas.

Do mesmo modo que uma fatalidade... ou de como falham bons projetos

Do mesmo modo que uma fatalidade que nos afeta a todos, é esta maneira tão portuguesa de enrolarmos as coisas e deixar que uma variável saia do domínio em que é inofensiva e se conjugue com outras para produzir uma inconformidade.
Ou dito por outras palavras, porque tem de ser assim, esta descoordenação e esta incapacidade de prever os efeitos negativos do que fazemos?
As fotografias não mostram nada de grave.
O que é fotografado não é grave, apesar de exibir em pano de fundo a crise dos saldos e da pouca procura no consumo e o bairrismo inocente de normalizar a cor das alcatifas de rua à porta das lojas, consoante o bairro (talvez seja mais grave  o apelo documentado pela montra da agencia de viagens, a estimular a exportação do nosso pouco dinheiro).
Mas o mecanismo que leva a este estado de coisas é, sim, grave, e amplia-se e estrangula-nos, porque os bons projetos acabam em desvios.
Talvez não a todos, mas a muitos.

A água que cai nos telhados deve ser drenada para o sistema de esgotos pluviais.
Sob pena de ultrapassar a carga admissível pela cobertura.
Há muitos anos um concidadão nosso, já desaparecido, projetou estas caleiras encastradas na calçada à portuguesa, pré-fabricadas, em cimento com pedaços de vidraço e face reticulada e polida, o tubo de escoamento por dentro, a todo o comprimento.
O modelo espalhou-se por todo país.

A normalização embarateceu os custos de produção.
Mas o projetista não contou com o uso massivo dos passeios para estacionamento automóvel.
As caleiras estão sempre a partir-se e gerar poças no caminho das pessoas.
Felizmente não é o caso aqui, neste passeio, sujeito a fiscalização da EMEL.
E também não contou com a forma expedita, para que os senhores com responsabilidades autárquicas fiquem bem vistos pelos eleitores, como os empreiteiros lançam tapetes de asfalto para recobrir os pavimentos fustigados pelos rodados dos pesados e dos ligeiros que desaceleram positiva e negativamente a taxas superiores às admissíveis pela integridade dos pavimentos.
É o que se vê na segunda foto.

As saídas dos tubos de drenagem sufocadas pelo asfalto adicional.
E então, voltemos à primeira foto, o tubo de queda deixou de abocanhar o tubo de escoamento horizontal,e lança , em jorro alegre, toda a água que pode no caminho das pessoas.
Funciona? funciona.
De acordo com o projeto?
Não, não funciona de acordo com o projeto idealizado.
É uma pena, o projeto até era interessante.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A conta e o tempo, ou a utilização produtiva do recurso tempo

A televisão, os smartphones e os iPad entram-nos pela mente e dizem-nos que o essencial é o entretenimento.
Em linguagem do século XVII, e invocando a entidade divina onde outros poderão ver a própria consciencia, ou a consciencia coletiva, um cidadão longínquo já pensava como outros cidadãos pensam agora, que fazer do nosso tempo?
Ou como dizia Galois, dos grupos de Álgebra, a morrer aos 21 anos e a deixar escrito "não tenho tempo".
O desperdício que é para a humanidade darmos tanta importancia ao entretenimento e ao passatempo... mas o mercado funciona assim...



Deus pede hoje estrita conta do meu tempo.
E eu vou, do meu tempo dar-Lhe conta.
Mas como dar, sem tempo, tanta conta.
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?
Para ter minha conta feita a tempo
O tempo me foi dado e não fiz conta.
Não quis, tendo tempo fazer conta,
Hoje quero fazer conta e não há tempo.
Oh! vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo em vossa conta.
Pois aqueles que sem conta gastam tempo,
Quando o tempo chegar de prestar conta,
Chorarão, como eu, o não ter tempo.
          
                 

                    Conta e Tempo ,  soneto de Frei Antonio das Chagas (1631-1682)

domingo, 12 de janeiro de 2014

taxa de desemprego=desempregados inscritos/(desempregados inscritos+empregados registados)

Desculpem insistir, caros concidadãos e concidadãs de boa vontade do partido maioritário, no que vos disse em
https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=8324446730271013022#editor/target=post;postID=206611505608283997;onPublishedMenu=allposts;onClosedMenu=allposts;postNum=2;src=link

Devemos ficar contentes por qualquer melhoria, mesmo pequena nos indicadores, mas o indicador da taxa de desemprego não tem uma melhoria consistente.
É uma questão de matemática, simples mas de assimilação suscetivel de confusão.

Taxa de desemprego (td) é igual ao numero de desempregados inscritos na procura de trabalho (D) a dividir pela soma desse numero com a população empregada devidamente registada (E).
É esse o indicador que é apresentado como melhorando.
De facto melhora, não só graças ao aumento de 48.000 da população empregada do 2º para o 3º trimestre, o que se saúda, mas principalmente à custa da emigração e das ações de formação que retiram unidades à quantidade de desempregados.
Fórmula:                       td = D/(D+E)

Fazendo para um dado trimestre:
              D=800 mil
              E=4500 mil
teremos:
td=800/5300=15,94%

Supondo que no trimestre seguinte saem do grupo D  50 mil emigrantes e formandos, os novos valores serão:
D=750mil
E=4500 mil
td=14,28%            

isto é, mesmo sem aumentar a população empregada, a taxa de desemprego baixou 10,4%

Para  monitorizar melhor a evolução dos indicadores, eu penso que nos deviamos concentrar mais no saldo orçamental, aumentando o investimento à custa dos fundos europeus e das poupanças e aumentando as exportações e contendo as importações.

saldo orçamental = investimento privado ou comunitário - poupanças  
                                 privadas + exportações – importações













Os botins de meio cano

Os botins de meio cano, vistosos, são vendidos por 29 euros.
Provavelmente o comerciante prescindiu de 1 euro no preço de venda que perfaria 30 euros.
Já as botas de cano alto estão etiquetadas com 35 euros, que talvez não tenha sido prescindir de 1 euro.
Hipótese: os botins e as botas vêm da India, aquele país que bate os outros em competitividade, em que há tempos uns miudos que faziam os sapatos já tinham crescido, cansaram-se de viver dentro da "fábrica", perderam a cabeça e mataram o encarregado da "fábrica", um italiano.
Isto é dumping, há leis contra, mas não se liga, com a desculpa da "globalização" e da vantagem de dar emprego aos miudos indianos.
A diferença de preço entre os botins e as botas não deriva da necessidade de mais mão de obra, que o preço dela é insignificante, apenas o custo da reposição de um pouco menos da capacidade de trabalho (para que ela se vá reduzindo progressivamente até justificar a substituição por outro miúdo, não importa que a sua estatura seja inferior à da média devido à má nutrição). Virá apenas do acréscimo de matéria prima.

Compare-se agora com os preços dos botins e botas fabricados em Portugal (os menos caros) e na Itália (os mais caros):
Botins: entre 110 e 300 euros
Botas de cano alto: entre 120 e 350 euros.

Por um lado, importamos da India artigos baratos e de Itália artigos caros.Amas as importações servem para desequilibrar a balança de pagamentos.
Salvo melhor opinião, deveriam aplicar-se as leis anti dumping num caso e um IVA mais elevado no outro (ah, de Bruxelas dizem que não pode ser? pena; então aplique-se uma taxa de carbono para compensar a emissão de CO2 do transportador de Itália para Portugal, que o cliente angolano, russo ou chinês da Avenida da Liberdade não se importará de pagar um nadinha mais caro).

Será que a ASAE, tão eficaz e pressurosa em mostrar serviço, não concordará comigo?






sábado, 11 de janeiro de 2014

Joana vai-se embora no dia 15

Os hipócritas alegram-se porque o indicador do desemprego baixa.
Sim, e vai baixar mais no dia 15, dia em que Joana se vai embora.
Uma multinacional vai-lhe pagar, líquidos, 4.500 euros por mês, mais 5 viagens a Portugal.
É bom? os hipócritas acham que sim.
Não fora Joana já lá ter estado há uns anos e pensado que já tinha cumprido a sua missão de serviço no exterior.
Agora vai sem entusiasmo e contrariada, mas que importa isso aos hipócritas se o indicador melhora e se Joana saiu da lista de desempregados à procura de emprego.
A taxa de desemprego no 3ºtrimestre de 2013 foi de 15,552094%, a tal que diminuiu.
838.600 desempregados à procura de emprego e 4.553.600 empregados.
Dá os tais 15,552094%.
Agora, se tudo se tivesse mantido (pois, depois do verão...) a partir do dia 15 serão 838.599 desempregados, uma diminuição de 0,000119246%.
E a soma dos desempregados e dos empregados passará a 5.382.199. Uma diminuição de 0,0000185453%.
O que dá uma diminuição para a taxa de desemprego de 0,000100701% ficando-se por 15,552078% .
Muito melhor portanto, para satisfação dos hipócritas.
E muito melhor se admitirmos que mais 10.000 irão neste trimestre fazer o mesmo que Joana.
A taxa baixará para 15,395196%.
Que contentes que os hipócritas vão ficar.
Vão dizer que é a globalização e que as suas políticas estão a resultar.
Infelizmente estão.
Poucos emigram por gosto.
E a matemática devia ser como a medicina, ter um código deontológico que definisse muito bem o que é utilizá-la para fins como este, o de querer justificar o sacrificio dos jovens ao deus moloch da emigração.



quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Apelo ao militantes - o pior ainda não passou

Rajoy, junho de 2013 – “o pior já passou”
Passos Coelho, Outubro de 2013 – “o pior já passou”
Poiares Maduro, Novembro de 2013 – “o pior já passou”
Samaras, Janeiro de 2014 – “o pior já passou”
Passos Coelho, Janeiro de 2014 , na preparação do congresso eletivo do seu partido – “o pior já passou”


A frase é recorrente.
No caso do primeiro ministro português o seu uso visa ganhar as eleições para o seu partido.
Argumentos: os indicadores estão a  melhorar graças aos sacrifícios.
Os indicadores são o ligeiro crescimento do PIB, através do consumo e exportações, e do desemprego.
Mas não cita os indicadores do ligeiro crescimento da mortalidade infantil, da tuberculose, das dificuldades de acesso à saúde, de aumento das desigualdades.
São todos de variação  ligeira, inferiores ao intervalo de segurança, mas uns são num sentido e outros noutro.
Portanto a utilização é ilegítima.
E não corresponde à verdade: para quem vai ter cortes nas pensões e nos salários o pior ainda não passou. No caso dos reformados do metropolitano, muitos vão ter cortes novos superiores a 50%. O pior ainda não passou.

Perante esta evidencia, a reação primária seria ofender o senhor.
Porém, a reação secundária será buscar uma justificação para este comportamento que não seja o vício político que destrói o que a natureza humana tem de bom.
E a justificação vem da psicanálise. Insisto que o senhor mostra sintomas de hipomania, de convencimento de que as convicções são mais reais que a realidade e que foi escolhido para uma missão salvadora (ele próprio o diz). O alheamento da realidade traduz-se por falta de empatia, isto é, de incapacidade para imaginar ou sentir o sofrimento alheio, por mais que repita que “compreende” esse sofrimento, considerando-o como um sacrifício redentor, utilizando os mecanismos subconscientes da tradição religiosas judaico cristã e do fundamentalismo moralista luterano de culpa das próprias vítimas só redimidas por sacrifícios.

Por tudo isto, e porque infelizmente o pior ainda não passou, reside agora a esperança nos militantes que vão votar. O voto é secreto. Não queiram ser cúmplices na mentira de que o “pior já passou”. Informem-se. Adiram à corrente de opinião que a saída da crise deve ser feita em conjunto, com a colaboração de todos, não só dos partidos habituais da governação, mas com participação cada vez  maior dos cidadãos e, nas áreas que envolvem questões técnicas, com debates abertos a quem conhece os problemas, listando ponto a ponto os objetivos a atingir.
Que o principal objetivo e a prioridade seja cumprir o artigo 25 da declaração universal dos direitos humanos, não a tirania dos mercados, que até têm rosto, que no caso da dívida pública são os bancos:
“Toda a pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e à sua família saúde e bem estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência fora do seu controle.”    
E isso não se pode fazer com os mecanismos dos partidos, estranguladores e dependentes de uns poucos.
Não precisam para já de arranjar já no fim de semana do congresso outro para eleger.
Basta exprimirem que não querem este, por dizer coisas afastadas da realidade, e votarem branco.

Depois se arranjará outra solução, não será preciso muito tempo, porque no vosso partido há gente com capacidade para compreender a premencia das questões tecnicas, para delegar, para corrigir os ministros prepotentes e para coordenar as atividades necessárias para uma saída da crise em colaboração com quem pensa de maneira diferente.


 Nota sobre o cálculo da taxa de desemprego: é intelectualmente desonesto jogar com as dificuldades naturais de apreensão dos conceitos matemáticos e com a pouca confiabilidade da recolha dos dados.
A taxa de desemprego é o quociente entre a população desempregada que procura trabalho e a população ativa (empregada ou procurando trabalho).
Segundo o INE o seu valor no 3º trimestre de 2013 é, representando milhões:  0,84/(0,84+4,55)=15,6%
Se se contabilizasse como população desempregada 100 mil emigrantes e 140 mil frequentadores de ações de formação, teríamos uma taxa de desemprego mais real:
(0,84+0,24)/(0,84+0,24+4,55)=19,2%   (isto é, a população desempregada  cresce a uma taxa superior à da população em idade ativa).
Mas admitindo que apenas 50% dos emigrantes e frequentadores de cursos tivessem ficado no país, então essa taxa seria:
(0,84+0,12)/(0,84+0,12+4,55)=17,1%
Considerando ainda que muitos desempregados não se registam como procurando trabalho oficialmente, e que  do 3ºtrimestre de 2012 para o 3ºtrimestre de 2013 a população desempregada nos setores industriais, de construção e energia aumentou 102.000, mais valia que o senhor primeiro ministro não exibisse o seu alheamento da realidade.
   

Culpem as vítimas. Elas são fracas, não resistem.




Encontrei esta referencia ao livro “Blaming the victim”, de William Ryan, sociólogo, ao ler a noticia sobre as mortes de ciclistas nas ciclovias de Londres.
A tendencia é para culpar as vítimas, os mais fracos.
Tal como os comentadores impiedosos das caixas da internet culparam os jovens que morreram na praia, como os racistas culpam a população negra de menores rendimentos por falta de iniciativa, como os jornalistas de serviço aos centros de poder culpam as próprias vítimas do estoiro financeiro (e contudo, o JPMorgan já pagou uma multa de 1,5 mil milhões de euros pelo seu papel no caso Madoff) , como o violador culpa a vítima por provocação, como o atual governo culpa os privilegiados funcionários públicos, pensionistas, reformados do metropolitano com complementos de reforma acima da média pelo défice público.
Interessantíssima a referencia a Adorno:
“Culpar as vítimas é um dos traços mais sinistros do carater fascista”.



Os acidentes mortais nas ciclovias aumentam em Londres

skycycle - fotografia Norman Foster and Partners


Proposta de Norman Foster: viadutos exclusivos para bicicletas, por cima e ao longo das vias férreas suburbanas de Londres com capacidade de 12.000 ciclistas por hora em cada sentido.
É curioso ver uma das capitais do mundo financeiro evoluído pôr como hipótese adotar o modo preferencial de deslocação na China e no Vietname dos anos 50 do século XX.
Penso que não é a melhor solução, nomeadamente pelos custos envolvidos, mas deve ser estudada e comparada com as outras soluções. Por um adicional marginal o viaduto poderia suportar sistemas guiados de itinerários “a pedido”.
Ver:



Esta proposta surge no meio da polémica sobre o acréscimo de acidentes com ciclistas como vitimas mortais nas ciclovias.

No caso de Portugal receia-se que as  novas disposições do código da estrada tenham o memo efeito nefasto, mas há sempre a esperança de que o que acontece lá fora possa não acontecer cá dentro.