segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Este blogue é um gigantesco batoteiro - o obscurantismo e a queda de Salazar

Este blogue é um gigantesco batoteiro.
A acreditar no voluntarioso senhor primeiro ministro a discursar para os jovens do seu partido, provavelmente ansiosos por virem a ser como ele, assertivo quando proclamou que “a batota acabou”.
Primeiro, chamou pequena batota à desvalorização de uma moeda para embaratecer as exportações.
Talvez estivesse a chamar pequeno batoteiro ao governo chinês, que não gosta nada de valorizar o reiminbi.
Mas estaria a chamar pequeno batoteiro a este blogue, que já propôs a desvalorização do euro ou a decomposição do euro em novas moedas (mais uma vez este blogue não tem o mérito de inventar nada, estas são invenções de economistas como Sivio Caselli e John Keynes, antes de haver euro e antes de haver neo-liberais da escola de Chicago).
Depois, chamou “gigantesca batota” ao financiamento dos Estados pelo BCE a juros idênticos aos dos bancos.
Como este blogue também não se cansa de propor juros menores para a dívida, aqui se vê como é um gigantesco batoteiro.
Estamos então caídos no nível da adjetivação desmerecedora.
Provavelmente queixar-se-á o senhor primeiro ministro de que blogues como este também o insultam.
Talvez sim, talvez não, mas sempre se quis fundamentar neste blogue as acusações que se fazem ao senhor primeiro ministro, como por exemplo, citando as suas afirmações antes e depois da eleição (“a minha garantia é de que se for preciso taxarei o consumo e não os rendimentos”, “cortar o subsidio de Natal é um disparate”, etc, etc), o que conduz fatalmente a um adjetivo na verdade pouco elegante na língua portuguesa.
Até quando este blogue associou a “missão” de que este governo está incumbido de salvar o país a sintomas de hipomania (forma menos grave do distúrbio psicológico de quem tem dificuldade de assimilação da realidade, nunca aceita submeter-se a tratamento e imagina que o destinaram a uma função messiânica; alem de que exibir sintomas de uma doença não significa necessariamente que se sofre dela)  se baseou nas próprias afirmações do senhor primeiro ministro, agora confirmadas com a interrogação  “…pergunto-me se as pessoas percebem que nós estamos a lançar as raízes para uma sociedade mais justa”.
Realmente as pessoas percebem, ou pensarão, dadas as  suas insinuadas limitadas capacidades de compreensão, que percebem que talvez o engenheiro Moreira da Silva, mais dado a tratamento de dados que o senhor primeiro ministro, lhe tenha passado a mensagem que um país com o coeficiente de Gini como o de Portugal não é sustentável (aquilo de ter dito na mesma reunião de juventude partidária que “os 20%  mais ricos recebem 33% do rendimento enquanto os 20%  mais pobres recebem 13% do rendimento ficou-lhe mesmo bem, não ficou?).
Mas também percebem, as pessoas, que quando se quer uma sociedade mais justa e se tem mesmo de cortar, deixam-se os cortes nas pensões  para depois (é estranho, quando  me reformei a Segurança Social atribuiu-me uma  pensão provisória, refez os cálculos com mais calma e depois atribuiu-me a definitiva; estranho haver pensões mal calculadas por aí; se há, porque será?) e primeiro aplicam-se medidas de emprego e corta-se nos grandes rendimentos do capital, como costumam dizer Jerónimo de Sousa e Warrem Beaty. E quando duas pessoas assim tão diferentemente posicionadas dizem a mesma coisa, a probabilidade de terem razão é “gigantesca”.
Enfim, como eu costumo dizer, só se deve discutir com base em dados concretos, não sobre virtualidades, e por isso recorri, para  fundamentar a minha proposta de “gigantesca batota” de redução dos juros, ao site do congresso das alternativas (http://www.congressoalternativas.org/ ), com um pequeno cálculo sobre o valor dos juros na dívida pública:

“Na realidade, não há verdadeira alternativa ao Orçamento aprovado que não passe pela redução da única despesa que pode ser cortada sem efeitos recessivos e com benefício na libertação de recursos para o investimento e a criação de emprego: os juros da dívida pública. Os juros da dívida representam 9% da despesa e 4,3% do PIB, quase todo o défice previsto para 2013. Um corte de 1% nos juros vale dois mil milhões de euros. Seria possível diminuir a despesa em quatro mil milhões na despesa (como agora se estima ser necessário) com base num corte de 2% juros. Esse é aproximadamente o valor que os fundos europeus nos cobram acima da taxa a que esses fundos obtêm os seus empréstimos.”

É isto uma “gigantesca batota”?!

A propósito de batota, continua sem se falar na auditoria à dívida privada, a grande competidora da dívida pública, para sabermos onde nós, os privados, gastámos mal o dinheiro.
É que sem auditoria não temos ideia do desvio do que deveria ter sido o caminho.
E isso é mau, é desnorte, ou navegação à vista.

E ainda a propósito de discutir sobre dados concretos e não sobre virtualidades, achei interessante um pequeno gráfico com origem na Comissão Europeia sobre a evolução da dívida pública desde 1994 publicado no DN de 17 de dezembro: adivida cresceu em 1994 e 1995 com o senhor ministro das finanças Catroga, sendo primeiro ministro Cavaco Silva. Depois baixou até 2000 com o ministro das finanças Pina Moura, sendo primeiro ministro Guterres. Com Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix, sendo primeiros ministros Durão Barroso e Santana Lopes, subiu de 2002 a 2005, e depois, com Teixeira dos Santos, ao mesmo ritmo, até 2008. Seguiu-se o descalabro de 2009 com subidas superiores a 10% ao ano, ritmo que se mantem com o atual governo apesar dos cortes e graças à contração da procura e do PIB.

Tudo isto me leva a não ter confiança no atual governo e a considerar que o ambiente cultural em que vivemos, porque cultura é interpretar o que nos rodeia, é de obscurantismo, apesar do esforço evidente dos agentes culturais; o obscurantismo da “noite neo-liberal”, como diz Rafael Correa.
E obscurantismo faz-me lembrar o tempo de antes da II Republica, traduzido por aquela anedota do passageiro da linha de Cascais que todos os dias comprava o jornal, olhava para a primeira página e  deitava-o fora, e quando lhe perguntavam porquê, respondia: “não traz a notícia de que eu estou à espera, a queda do Salazar”.

Lua adversa de Cecília Meireles


Lua Adversa, poema de Cecília Meireles, citado no ultimo programa do Camara Clara, sabe-se lá se como metafórica alusão a astrologias que nos condicionam a democracia em desencontros adversos neste obscurantismo em que os senhores governantes nos querem imersos:


Tenho fases, como a lua,

Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...).
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...


Cecília Meireles, in 'Vaga Música'

Rafael Correa, presidente do Equador na cimeira de Cadiz de 3 de dezembro

Retirei do site da Auditoria cidadã
o relato sobre a intervenção do presidente do Equador, Rafael Correa, na cimeira de Cadiz de 3 de dezembro de 2012.
Contou como o FMI e o Banco Mundial aplicaram à exaustão a receita da austeridade pela austeridade durante a "longa noite neo-liberal". Quando chegou ao governo em 2007 , contrariou o seu banco central e auditou e reestruturou a divida, recusou a «dívida ilegítima» e recuperou títulos de dívida a 35 por cento do seu valor nominal. Depois pagou o resto, «para se livrar do condicionamento do FMI, como haviam feito o Brasil e a Venezuela». Correa terminou lembrando que «expulsei de Quito a missão do Banco Mundial e há seis anos que a burocracia financeira internacional não voltou ao meu país.  Agora estamos melhor do que nunca» e pediu que a Europa não cometa os mesmo erros de submissão ao FMI e BM.
 Ver em:

 
 
Pena a imprensa não ter divulgado.

domingo, 16 de dezembro de 2012

A propósito de Mario Draghi e das privatizações

Transcrevo declarações do senhor presidente do BCE, Mário Draghi neste dezembro de 2012:
“Desistir agora [das políticas de austeridade] como alguns sugerem seria estragar os imensos sacrifícios feitos pelos cidadãos europeus”
“Os países com dívidas e défices elevados devem compreender que perderam a sua soberania em detrimento das suas políticas económicas de um mundo globalizado. Trabalhando juntos numa união orientada para a estabilidade significa recuperar a soberania”
“O acordo sobre o mecanismo de supervisão bancário europeu único irá contribuir para uma união económica e monetária estável”.

Embora lamentando que o BCE não atenue as medidas de austeridade que afetam as vitimas da crise  e não os seus determinantes principais (as entidades financeiras que primeiro especularam e depois foram resgatadas com dinheiros públicos contribuindo para agravar  a recessão que fez diminuir as receitas fiscais), registo a evidencia da perda de soberania e congratulo-.me com “a união económica e monetária estável”.
Mas tenho de registar também que desde Setembro de 2010 o manifesto dos economistas aterrados  (ver em
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2010/10/economicomio-lxii-as-22-medidas-dos.html      )
vem defendendo o reforço da intervenção do BCE  para a estabilização da tal união económica, para o que propôs 22 medidas concretas.
È verdade que por razões ideológicas o poder politico da UE não quer aceitar muitas dessas medidas, e as que vai aceitando é a custo. Mantêm-se os fundamentalismos (embora não esteja aqui a usar o termo no mesmo sentido que o senhor ministro da Economia lhe atribui) da minimização das entidades púbicas e da subordinação à livre concorrência, mesmo quando tecnicamente do ponto de vista da engenharia, como no caso da produção e distribuição de eletricidade e dos transportes, haja contra-indicações.
Não me parece que o conceito de supervisão e de regulação seja adequado porque para isso é preciso “know-how” e este vai sendo retirado às entidades públicas pelos fundamentalistas, até ser insuportável a promiscuidade entre o poder politico e o poder económico-financeiro-bancário.
Talvez que se explicasse bem aos eleitores europeus a origem da crise e da recessão (europeias, uma vez que a pequena economia portuguesa e os disparates do senhor ex-primeiro ministro Sócrates nunca poderiam por si sós provocar uma crise tão grande), a facilidade com que o capital foge para as off-shores enquanto os pensionistas e os trabalhadores por conta de outrem não o podem fazer (ainda agora o presidente da Google veio gabar-se de ter economizado 1.500 milhões de euros de impostos por pagar impostos numa off-shore nos Barbados e não em Inglaterra), talvez que os eleitores deixassem de votar nos mesmo ideólogos que estiveram por trás da crise e da recessão e que agora aplicam as medidas de austeridade recessiva.
Talvez que se se voltasse a falar na gestão inteligente da linha de separação variável entre a atividade privada e a atividade pública de que Melo Antunes falava, sem fundamentalismos nem fé cega em teorias, com análises isentas de subordinações partidárias ou de subordinações aos lucros das off-shores, talvez que se pudessem ir aplicando mais medidas concretas para ir resolvendo as coisas.
Por isso Portugal deve continuar na UE e na zona euro, para defender os interesses das comunidades e não das entidades financeiras.
Analogamente ao que Melo Antunes fez: manteve-se como operacional , vigiado de  perto pela PIDE, num exército que fazia uma guerra colonial, até chegar a altura de acabar com a guerra colonial (ver “Biografia politica de Ernesto Melo Antunes”, de Maria Inácia Rezola, no suplemento Q do DN de 15 de dezembro de 2012).
Mas falo nisto apenas como analogia, comparando o obscurantismo de antes do 25 de Abril com o obscurantismo dos atuais governantes.
(Notas:
1 - a simples medida de taxação das transações financeiras continua sem avançar em Portugal, apesar de já adotada noutros países; é verdade que o volume de negócios da banca de Lisboa está a baixar (30% num ano) e que a adoção dessa taxa poderia agravar essa redução, mas se considerarmos a estimativa de 20 mil milhões de euros para 2012, uma taxa de 2,5% daria uma receita fiscal de 500 milhões de euros
2 – o fundamentalismo privatizador não se verifica apenas na TAP, na ANA e na RTP (não se deve vender em período de baixa, não se deve vender o que está a dar resultados positivos dizem os manuais; e não se deve vender o que é serviço público, dizem mais de 25% de eleitores). Vem agora a senhora ministra do Ambiente dizer que a Empresa Geral do Fomento, sub-holding do grupo Águas de Portugal, é para ser privatizada em 2013. O  objeto da empresa é a gestão dos resíduos sólidos urbanos. Pela sua importância para a gestão integrada e transversal da energia e da produção de energia por fontes renováveis em centrais de bio-massa, trata-se, de um ponto de vista técnico de engenharia, de um disparate. Mas com a desculpa do memorando feito à pressa sem considerar as razões técnicas de engenharia, provavelmente far-se-á. Será mais um exemplo de fundamentalismo obscurantista
3 – a propósito de privatizações, registo o ar triste, triste mesmo, com que o senhor ministro das finanças Vítor Gaspar apareceu na televisão a dizer, em cerimónia no ISEG de homenagem ao professor João Ferreira do Amaral, que o atual processo de privatizações era “um exemplo de sucesso” e que “não devemos procurar crescimento por si só; é preciso crescimento sustentado e criador de emprego”.  Serão pérolas de retórica mal sentida, como o comentário do senhor ministro Miguel Relvas sobre as privatizações: “transparentes e imaculadas”, talvez como virgens. Que pena me faz, terem de poupar em conselheiros de comunicação e  imagem)


 

A plataforma para o crescimento sustentável - uma visão pós-troika, e os think tanks

Com surpresa, certamente por ter andado desatento, e sendo agradável a surpresa, li a noticia sobre o relatório do think tank “Plataforma para o crescimento sustentado – uma visão pós-troika”. Ver em:

Em 8 de março de 2011 transcrevi e comentei um artigo de Manuel Maria Carrilho sobre os think tanks:

E em 28 de Novembro de 2012, num diálogo imaginado sobre os resultados eleitorais na Andaluzia, com o pouco humilde objetivo de discutir a ideia de democracia, citei a proposta de Paulo Trigo Pereira, no seu livro Portugal: Divida Publica e défice democrático, de recurso aos think tanks:

Por isso gostei muito de saber do lançamento do relatório (só disponível on line a partir do dia 27 de dezembro de 2012), resultado de um debate com especialistas e da sua integração, com 27 desafios estratégicos e 511 recomendações.
Como disse o presidente da direção da plataforma, Jorge Moreira da Silva, engenheiro de formação base, e portanto com uma visão mais concreta e assente em dados das questões e das soluções, especialista de economia de energia (e por isso comentador paciente das afirmações estouvadas sobre o ambiente do senhor ministro da Economia),
“chegou  a hora de libertar o potencial de crescimento de Portugal” e “acreditamos no valor das comunidades”.
Também disse que, com as recomendações do relatório, já não se (o governo?)  poderia continuar a dizer que a sociedade civil não apresenta propostas de soluções (aqui, penso que as iniciatvas para a auditoria da divida e o congresso das alternativas, para não falar deste humilde blogue, têm vindo a apresentar sugestões).
A plataforma não tem filiação partidária, pese embora o seu presidente ser vice-presidente do PSD, e o presidente da mesa da assembleia geral ser o ex-primeiro ministro Pinto Balsemão. As más línguas já começaram a dizer que é um recurso do partido para tentar bons resultados nas próximas eleições autárquicas.
Mas a associação não tem nos seus estatutos o objetivo de ser única; prova que afinal no partido do governo há pessoas cultas e inteligentes que divergem do barbarismo, da ignorância e da falta de visão integradora de alguns ministros; e nem ficaria bem a este blogue, depois de ter defendido a ideia dos think tanks, opor-se à iniciativa.
Por isso aguardo a publicação do relatório para “espreitar” as 511 medidas.
Destaco uma das  medidas, a taxação por 9 euros da tonelada de CO2 emitida (Portugal emite cerca de 75 milhões de toneladas), que tem o aspeto antipático de ser mais uma taxa, para particulares e empresas, mas que está de acordo com a politica do ambiente da Europa e favorece a redução das emissões.
Igualmente é de muito interesse discutir as propostas de mudança de leis eleitorais. Embora apoie vivamente o voto preferencial sugerido pela plataforma, já não posso concordar com o voto por círculos uninominais, por contrariar a representação proporcional dos pequenos partidos (não obstante ser possível atenuar a repulsão destes).

Também gostaria que a plataforma se preocupasse com o esclarecimento do peso das componentes da divida privada, interna e externa, quem são os credores, o que se deve e em que tipos de despesa foi gasto o dinheiro que se pediu emprestado e que hipóteses haverá de reconvertê-la.
Do ponto de vista político, consideraria desejável o esclarecimento dos eleitores sobre
os fundamentalismos que atormentam algumas das orientações estratégicas da União Europeia, como a minimização do Estado e a prioridade à livre concorrência. A fé, para mim fundamentalista,  nas supervisões e nas regulações parece-me incompatível com a minimização das estruturas públicas, uma vez que exige “know-how”, e quem tem “know-how” numa atividade deve poder  praticá-la. Se as entidades públicas não podem praticar a atividade por não terem “kno-how”, isso significa monopólio para as atividades privadas, subordinadas à lógica do lucro para os acionistas e cair-se-á fatalmente, como muitas vezes se verifica (caso das PPP e das privatizaçoes ou concessões apressadas), numa promiscuidade entre o poder politico e o poder económico e financeiro. Mas confesso que pode ser difícil para muitos dos participantes da plataforma aceitar estes pontos de vista (o que não impede, obviamente, que sejam trocadas impressões sobre qualquer tipo de medidas que partam desses pontos de vista).





quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Comentário de 12 de dezembro ao "post" Diminuição de passageiros no metro de Lisboa-cont., de 6 de dezembro

Caro comentador em 12 de Dezembro ao “post” Diminuição dos passageiros do metro de Lisboa – continuação, de 6 de Dezembro:

São pertinentes as suas observações e possível e tristemente verdade a sua conclusão que 50 anos não serão suficientes para pagar a divida do metropolitano (quase 4.000 milhões  de euros) sem adotar medidas pouco simpáticas.
No entanto, faço também algumas observações, ponto a ponto:
1 – investimentos não assumidos pelo Estado nas infraestruturas de longa duração do metro nem pela CML nos arranjos exteriores – foi um facto, não tendo os sucessivos governos encontrado fontes de financiamento para o fazer, por inércia e porque grande parte da receita fiscal provem do setor automóvel, cuja circulação os transportes coletivos visam reduzir; assim, financiamentos em uso em França e na Inglaterra, como contribuições das empresas para os transportes coletivos, portagens à entrada das cidades, taxas sobre os postos de combustível, ou participação nas mais valias obtidas com as urbanizações servidas pela rede, não foram replicados em Lisboa.
Quanto à CML, recordo o pagamento pelo metro da requalificação da praça do Rossio, o pagamento de elevadas indemnizações à Suíça e ao Pic-Nic, e a reparação dos frescos de igrejas na Baixa; parece exagerado imputar estes custos totalmente ao metro, de facto
2 – intervenções de arte e acabamentos  – é também verdade que houve exagero. No entanto, em termos percentuais, comparando com o custo total de uma estação (50 a 300 milhões de euros dependendo da dificuldade construtiva) os custos serão pouco significativos. Isso não quer dizer que não se deva economizar; por exemplo, em 1997, em pleno período de afluência de dinheiro ao país, foi recusada uma intervenção artística na remodelação da estação dos Restauradores orçamentada em 100.000 euros. Mais recentemente, a administração em 2007 (antes da declaração oficial da crise)  decidiu aprovar a intervenção dos desenhos da estação Aeroporto mas vetou qualquer intervenção artistica nas estações de Moscavide e Encarnação. Devo ainda referir que as pessoas gostam de ver as intervenções artisticas e ainda há pouco o Daily Telegraph e a CNN elegeram a estação Olaias como uma das mais bonitas (pessoalmente, não é a minha opinião, mas esta é a estação em que os acabamentos foram mais caros).
3 – tamanho das estações – por vezes o tamanho das estações não é consequência da megalomania dos arquitetos (algumas vezes era, e é preciso não esquecer que os honorários eram proporcionais à estimativa da obra; por outro lado a escolha dos arquitetos não era feita por concurso, e as administrações pouco ligavam aos pedidos de contenção feitos pelos técnicos, preocupados com os futuros custos da manutenção) mas sim uma resultante do processo construtivo – se a céu aberto, tinha de se escavar todo o volume do paralelepípedo da envolvente da planta da estação, caso de Terreiro do Paço, por exemplo, alem de que a sua profundidade foi determinada para que deixasse espaço para um túnel rodoviário passasse por cima do túnel do metro.
4 – reformas e regalias – trata-se de um tema delicado, que põe em confronto gerações diferentes de trabalhadores. É inegável que aos novos trabalhadores foram reduzidos os direitos relativamente aos mais antigos, numa manifestação de perícia da parte do poder dominante ao conseguir pôr trabalhadores a atribuir as culpas a outros trabalhadores, em vez de se concentrarem nas causas mais acima. Não foram seguramente as regalias (notar que regalias” faz parte da definição de “salários”) dos trabalhadores antigos portugueses que motivaram as alterações restritivas das leis do trabalho no Michigan que provocaram as manifestações de 12 de Dezembro de 2012. A propósito de “regalias”, recordo que, quando entrei para o metro, em Fevereiro de 1974, o meu vencimento foi de 55 euros, quando nas empresas privadas o vencimento de entrada era de 70 euros.
Até cerca de 1990 os vencimentos no metropolitano foram inferiores não só aos das empresas privadas, mas também aos de outras empresas publicas (recordo que o cálculo das reformas tem em conta toda a carreira contributiva, que nos primeiros tempos não foi famosa).
Efetivamente a afluência de capitais para investimento na expansão da rede provocou maiores subidas comparativamente com os outros setores, e algumas dessas subidas, aprovadas por sucessivas administrações, tiveram a oposição dos técnicos de chefias intermédias.
Penso que o grande problema da gestão das empresas públicas está nas nomeações das administrações como comissários políticos dos partidos vencedores das eleições, e a solução estará em mudar esse critério pelo da competência técnica, precisamente porque tenho confiança na competencia técnica da grande maioria dos trabalhadores do metropolitano (por essa razão também não concordo com a privatização, porque substitui o critério do comissariado politico pelo critério do lucro; a eficiência pode ser assegurada poupando o lucro com a competência dos trabalhadores, como tentei demonstrar em

Cumprimentos 

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Business as usual




Ficou bem ao ministério da educação reconhecer algum mérito ao esforço dos professores e alunos que, tal como com o PISA, mostraram nos resultados do TIMSS e do PIRLS algumas melhorias.
Porém, os cortes na educação são por demais ameaçadores, com provável declínio e contribuição para o aumento da violência e criminalidade na mesma  geração agora avaliada.

O PISA é o programa internacional para avaliação dos estudantes do secundário.
O TIMSS é o programa que avalia a evolução do ensino da matemática e das ciências dos alunos do 4º ano (10 anos de idade) e 8º ano (14 anos).
O PIRLS avalia a literacia.

Os resultados dos testes feitos em 2011 (portanto sem nada dever às medidas do atual governo, e, salvo melhor opinião, sem nada dever à introdução dos exames do 4º ano, porque introduzidos no mesmo ano dos testes) foram agora publicados em:

Segundo a análise do DN, os alunos:
- na leitura,  “não têm  fluência suficiente para fazer interpretações baseando-se no texto”,
- nas ciências, “têm apenas compreensão elementar sem domínio suficiente dos conhecimentos”
. na matemática, “não têm domínio suficiente dos conhecimentos para resolverem problemas de resolução não imediata”

Salvo  melhor opinião, porque me parece que as crianças refletem com fidelidade os seus pais (“não te preocupes, filho eu também nunca gostei de matemática”), e são os mesmos pais que votam, estamos em mais uma situação catastrófica, que ainda não é grave.
Não pretendo culpar os eleitores, apenas reafirmar que a nossa democracia tem poucas defesas contra políticos de falsas promessas que com falinhas mansas se aproveitam da tradiciona pouca preocupação em discutir as coisas em debates alargados baseados em cálculos fundamentados.
Esperemos que a demagogia dos políticos que ganham eleições com essas falsas promessas não vingue novamente em Itália (ou de como uma verdade, que a politica europeia é germanocentrica, como diz Berlusconi, se pode transformar numa catástrofe ainda mais grave).

E até pode acontecer que o problema de dificuldade em interpretar os dados da realidade não seja só português.
Se os grandes bancos internacionais já vão fazendo o seu negócio especulativo “as usual”, com generosidade até para pagar multas aos USA por branqueamento de capitais em off-shores  (caso do USB suíço e do HSBC), porque não haveriam:
- os bancos portugueses de anunciar “fundos” de elevada rendibilidade (com as tais letrinhas pequenas a dizer que a dita não é garantida),
- as empresas de financiamento particular insistir nos seus serviços, com TAEGs mais ou menos especulativos
- o Volkswagen Bank instalar-se com condições irresistíveis para os portugueses comprarem mais carros da marca (isto é, feitas as contas, apesar da Auto Europa, com o negócio da Volkswagen sai mais dinheiro do país do que entra, ou dizendo melhor, o dinheiro que a Alemanha empresta serve para comprar carros alemães com juros; eu ainda sou do tempo em que os bancos não emprestavam dinheiro para compra de automóveis),
- as agencias de viagem anunciarem cruzeiros de 7 dias com pensão completa a preços inferiores aos de estadia igual num hotel,
- as companhias aéreas não “low cost” que apresentaram resultados negativos anunciarem “air shoppings” em capitais europeias a preço de saldo?

Acho que o enunciado do problema  é muito claro:

1 – todos entendem a questão básica, que é a de que o PIB deve crescer
2 – também se compreende que o PIB é expresso por uma fórmula matemática
3 – também é elementar, e como tal, tal como no TIMSS, se compreende, que nessa fórmula apareça como termo negativo as importações (isto é, quanto maiores as importações, menor o PIB)

Então porque cargas de água andamos a estimular as importações, em plena euforia “business as usual”?
Ou talvez o defeito de interpretação seja meu, que não sou capaz de entender que talvez não fosse necessário informar a União Europeia que, devido à crise e à situação de emergência, não é possível a este país garantir a plena e livre circulação de mercadorias e serviços através das suas fronteiras, assim como se suspende o acordo de Schengen quando convem (aos puristas da economia livre recordarei as teorias das vantagens comparativas de David Ricardo que não foram revogadas pela fúria globalizante).
Que talvez fosse suficiente aumentar as taxas pagas por este tipo de publicidade e explicar em programas de serviço publico na televisão porquê.

Não sendo assim, tudo continuará  com “business as usual”, e nesta situação catastrófica embora ainda não grave.

PS em 14 de dezembro - O DN voltou ao tema dos resultados do TIMSS  através de Fernanda Cancio, que chamou a atenção para que, em matemática, cerca de 40% dos alunos portugueses estão nos 2 (em 4) niveis mais elevados, quando a média internacional é de cerca de 30%.
Portanto, as dificuldades de resolução serão comuns a outros paises da Europa, Alemanha incluida (seria interessante ver se há alguma correlação entre o sistema dual de ensino incensado pelo senhor ministro Nuno Crato e essse mau resultado dos alunos alemães; mas provavelmente será apenas o aumento do fosso entre os alunos mais bem preparados e os alunos pior preparados).
E o panorama não seria assim tão catastrófico para Portugal.
O problema é que a diferença entre alunos bem e mal preparados é grande (cada vez maior? interessava ver isso) e talvez a dificuldade de interpretação justifique as más escolhas de politicos que os europeus foram fazendo ao longo de décadas.
Salvo melhor opinião, claro.

 

Rui, Guanes e Rostabal, ou da atualidade de Eça de Queiroz


Fidalgos decadentes de ascendência visigótica nas Astúrias do tempo da “Reconquista”, imaginados por Eça de Queiroz no conto “O tesouro”, que o programa de Português no meu tempo nos obrigava a ler.
Não guardo recordações amigas do meu  professor, embora com a distancia lhe tenha reconhecido o valor dos seus conhecimentos.
Mas no caso deste conto, só nos chamou a atenção para a elegância da escrita, a correção formal e o simbolismo implacável que até se poderia considerar moralista.
Difícil posição a dum professor de Português perante adolescentes de 13 anos.
Por um lado, havia que preparar as crianças para a economia da selva em que iriam trabalhar (sim, desde a instrução primária que ouvi dizer que o mundo é uma selva  e por isso tínhamos de estudar para conseguir bem estar), mas por outro, havia que disseminar a mensagem que a ganância pode deitar tudo a perder.
Era a moral do conto: depois de descobrirem um tesouro na mata de Roquelanes, um dos irmãos é enviado à povoação para comprar comida e bebidas para celebrar, os outros dois matam-no no regresso para aumentarem o quinhão, e um deles mata o outro. O último irmão morre porem ao beber o vinho que o primeiro tinha envenenado para matar os outros dois. E Eça de Queiroz termina o conto, aguçando a nossa curiosidade: “O tesouro ainda lá está”.
Não ocorreu ao meu professor de Português dar-nos a lição de que a originalidade (ou em termos de “economês”), a inovação não é o essencial.
Que se deve desconfiar quando alguém aparece com uma inovação redentora e competitiva.
Mas ter-lhe-ia ficado bem informar-nos que a história não era mesmo original, que talvez Eça a tenha ouvido no Oriente, aonde foi para assistir à inauguração do canal do Suezm, perder-se de amores pela rainha de Sabá (As minas de Salomão) e escrever umas reportagens ferinas sobre o colonialismo britânico no Egito e no Afeganistão.
A história é uma das tradições islâmicas referidas ao magistério do profeta Jesus (é, para o Islão,Jesus Cristo e um profeta integrado na tradição de Abraão), precisamente para lutar contra a ganância.
Depois há referencia da mesma história nos Contos de Canterbury, de Chaucer, século XIV.
E ainda no reportório moralista do convento de Alcobaça no século XV, o Horto do Esposo, referindo claramente que a atração pelo dinheiro é a raiz de todos os males (“radix malorem est cupiditas”) – as coisas que se lêem na internet …
Goldman government Sachs não gostaria que os meninos lessem um conto assim durante a sua formação.
Nem tão pouco os ministros e os economistas que enchem a boca com a competitividade e a inovação.
De facto, não digo que se combata de modo fundamentalista a vontade dos acionistas e dos credores de obter lucro, mas uma discussão aberta e participada seria um bem para todos.
Para os que recebem os lucros, embora reduzidos, que estamos em crise, como para os produtores diretos ou beneficiários indiretos, a quem já se lhes reduziu muito.
Seria um bem debater as coisas com argumentos e cálculos fundamentados, em vez de querer envenená-las.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

José Adelino Guerra - ACAPO

Lamento profundamente a morte por acidente de José Adelino Guerra, ex presidente da ACAPO, com votos de solidariedade para a família e a ACAPO.

Mais do que responsabilizar alguém, interessará antes, para evitar estes acidentes, conseguir que a cultura de todos nós evolua para considerar importantes todos os pormenores que possam constituir obstáculo à acessibilidade de pessoas com mobilidade reduzida, como os cegos, ou constituir perigo para a sua integridade física.
A altura e solidez dos parapeitos são muitas vezes negligenciadas. A configuração e a ocupação dos passeios também.


foto do DN
No caso do acidente (Adelino Guerra tropeçou e o parapeito não foi suficiente para impedir a queda) a altura parece ser inferior a 1,25 metros, altura mínima de segurança em sítios públicos (muitas vezes considera-se indevidamente que 90 cm ou 1,10 m é suficiente, quando o contexto até pode recomendar maior altura, como no caso da ponte de D.Luis, que serve o metro do Porto).
Eu sei o que custou conseguir umas simples guardas  ao lado de um dos acessos do  metropolitano na estação Belavista para proteção contra quedas para o talude adjacente. Demasiados intervenientes e de nenhum deles dependia a resolução do assunto, que era sempre com outro.
Mas conseguiu-se.
Igualmente eu sei as dificuldades que se levantam a quem quer cumprir a lei europeia de adaptação das estações de metropolitano às pessoas com mobilidade reduzida (na transposição para Portugal, o Plano Nacional para a Promoção das Acessibilidades, de prazo sucessivamente prorrogado).
Dificuldades agora ampliadas coma crise financeira, pese embora a possibilidade de recurso a fundos comunitários.
Mas desejo que a ACAPO e organizações congéneres, como a APD, nunca desistam.

PS em 14 de dezembro: Asduas primeiras fotografias mostram a saída do parque de estacionamento frente à sede da Caixa Geral de Depósitos ao lado do palácio Galveias. Altura do murete: 70 cm. Intolerável.




Fotografia seguinte: Murete guarda-corpos sobre a via férrea, na estação de metropolitano de Alameda I. Altura do murete: 90 cm. Indesejável.


 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Thaïs, uma ópera a dedicar ao senhor primeiro ministro



Nota prévia – Como levar o governo atual a mudar de opinião? A aceitar os pontos de vista dos cidadãos que fizeram contas, calcularam os malefícios dos juros que foram fixados e propuseram medidas como as taxas sobre transações financeiras e sobre os movimentos do  multibanco, como o alargamento do prazo de pagamento e a redução dos juros e das comissões? Como resolver o conflito que parece insanável da dificuldade em discutir sobre dados concretos e chegar a uma decisão participada independente das opções politicas dos cidadãos? Como combater sem violencia os fundamentalismos entrincheirados?
Como levar o primeiro ministro e o seu ministro das finanças a aceitar pontos de vista diferentes?
Insistindo nas criticas, por mais evidentes que sejam os cálculos fundamentadores e os indicadores económicos, só parece até agora terem por efeito reforçar a teimosia dos senhores governantes.
Apelar ao sentimento do bem comum nada resolve, que eles até fundamentam as medidas que tomam com esse bem comum.
Então pensemos em formas subrepticias de os levar a mudar de opinião. Como repteis coleantes  ocupando posições dominantes na estrutura do pensamento.


Thaïs, ópera de Jules Massenet, em versão de concerto no S.Carlos (para ficar mais económica), em dezembro de 2012.
Uma das poucas récitas deste ano, depois do desarticular lento e sádico do principal teatro de ópera do país (não se sabe se em 2013 haverá espetáculos de ópera no S.Carlos), iniciado ainda no tempo do ministério da Cultura do anterior governo.
A ópera poderá ser um espetáculo elitista (custos demasiado elevados para tão poucos espetadores) , mas é uma forma de arte em que convergem as capacidades de expressão dos seres humanos.
Por isso pode ser um espetáculo popular, com aumento dos espetadores e difusão televisiva; pode ser  revolucionário, porque trata de assuntos que dizem respeito Às pessoas.
E como tal, por poder ser revolucionário, há muito que o camarote principal do S.Carlos não vê nem o presidente da República, nem o primeiro ministro.
Não se dão bem com a ópera (recordam-se do ar enjoado dos ministros do atual governo quando foram obrigados a comparecer num concerto sinfónico no palácio da Ajuda? Como devem ter sofrido).
A ópera pode ajudar a combater a incompreensão entre culturas diferentes (“A morte do senhor Klinghoffer, de John Adams), a desumanidade dos oligarcas da finança (Banksters, de Nuno Corte Real) ou da hierarquia religiosa (Don Carlo de Verdi).
A ópera não interessa a este governo.

Mas eis que, assistindo à Thaïs, reparo que as semelhanças da ação do herói com a do senhor primeiro ministro são muito grandes.
Por isso julgo de se lhe dedicar a apresentação desta ópera no ano de crise de 2012.

Antes de mais, o barítono no papel de Athanael é fisicamente parecido com o senhor professor João César das Neves, que nas suas crónicas no DN vem defendendo a politica do senhor primeiro ministro, chegando ao ponto de afirmar que Passos Coelho e o senhor ministro das finanças estão a tentar curar uma doença que não geraram (é verdade que não geraram a doença; os gastos públicos com a educação do senhor ministro, referidos por ele próprio, são desprezáveis perante o défice, e os fundos europeus conseguidos pelas empresas de que o senhor primeiro ministro foi anteriormente administrador ou consultor também não terão tido impacto significativo no défice; mas estarem a curar a doença parece uma afirmação mal fundamentada; as tentativas de cura da hipertensão com ventosas e sanguessugas às vezes também resultavam, quando não sobrevinha uma anemia; melhor dizendo: não parece bem o senhor professor João César das Neves dizer que a doença resulta da acumulação da divida externa nos últimos 15 anos, quando o governo do senhor professor Cavaco Silva aumentou excessivamente a despesa pública com o DL 353-A/89 para ganhar as  eleições de Outubro de 1991, o que foi há  mais de 15 anos; também não fica bem sabermos que a divida externa total é de 386 mil milhões de euros e conhecermos a composição da divida externa publica, mas desconhecermos onde foi utilizada, por tipo de despesa, a divida externa privada).
Apesar das semelhanças físicas, o papel de Athanael adequa-se melhor ao do próprio senhor primeiro ministro.
A ação passa-se no século III DC em Alexandria.
Quando me falam neste local e neste tempo, lembro-me logo de Hipatia e do filme Agora (nome grego para o fórum, centro de decisões da cidade) , com Raquel Weisz, que descreve a tomada do poder por grupos de monges cristãos fundamentalistas inimigos do conhecimento cientifico helenista. Estes sacrificaram Hipatia (o senhor professor João César das Neves responderá com o martírio de Santa Apolónia, padroeira dos dentistas, num confronto desigual porque Hipatia é uma personagem histórica com testemunhos de fontes diversas e Apolónia não).
Lembro-me também do decreto do imperador Teodósio, proibindo irrevogavelmente a escrita hieroglífica (este é um tema interessantíssimo: perante a questão da historicidade das principais figuras fundadoras do cristianismo, faltam fontes contemporâneas dos acontecimentos que sejam historicamente validadas e que confirmem a historicidade das figuras; mas pode colocar-se a hipótese de ter sido a corrente ortodoxa da religião crescente que numa fúria depuradora tenha eliminado todas as referencias históricas não compatíveis com a ortodoxia).
A ópera Thaïs não foca a luta dos monges para impor a sua religião em expansão.
Athanael é um monge cristão cenobita que pede autorização ao seu superior para ir salvar a alma de Thaïs, a mais famosa cortesã de Alexandria, responsável pela dívida pública, perdão, pela devassidão e dissipação que se vivia em Alexandria.
Entre parênteses, excertos do libreto de Luís Gallet, sobre o romance de Anatole France.
(o meu coração está cheio de amargura…a cidade entregou-se ao pecado! Uma mulher, Thaïs, é fonte de corrupão! Por causa dela, o inferno governa os homens.)
O superior bem lhe diz para não se meter nisso (meu filho, não nos misturemos com as pessoas do mundo), mas Athanael é teimoso, convenveu-se de que foi incumbido de uma missão salvífica e quer curar a economia, perdão , Thaïs, com uma dieta rigorosa de orações e austeridade de vida.
(Ensinar-lhe-ei o desprezo da carne, o amor pela dor, a austera penitencia)
Thaïs, como sacerdotisa de Vénus, ainda lhe pergunta como pode ele acreditar no que diz
(que triste loucura te faz fugir ao destino de amar e de conhecer; quem te cegou assim?)
Porem, talvez que a cortesã estivesse já doente. A medicina da altura não obtinha grandes sucessos. Ou, hipótese malévola, talvez que os monges bem organizados lhe tenham incendiado a casa de tolerância e perseguido com atentados os clientes de maiores rendimentos.
Thaïs não resistiu ás modulações da voz do barítono e, temerosa das punições da vida eterna e crédula nas promessas de felicidade na outra vida, deixa-se convencer pelo monge. Depois de uma ultima hesitação e da célebre meditação de Thaïs (oiçam no Youtube)


decide partir com ele para um convento de freiras no deserto.
(Não muito longe daqui há um mosteiro onde as mulheres vivem como anjos em perfeito recolhimento…lá encerrar-te-ei numa estreita cela até à libertação divina)
Mais uma vez se vê um caso em que as vítimas de uma ideia acabam por ser as suas melhores defensoras.

Só que depois de a deixar, Athanael cai irremediavelmente apaixonado pela senhora e muda de ideias.
Corre ao convento mas a economia, perdão, Thaïs estava mesmo doente e a intervenção anterior de Passos Coelho e Vítor Gaspar, perdão,de Athanael só veio agravar a doença.
Em vão Athanael protesta o seu amor carnal junto de Thaïs
(só me recordo da tua beleza mortal… desta sede insaciada que só tu saberás apaziguar… menti…o céu, nada existe… nada é verdade que não seja a vida e o amor entre as criaturas… eu  amo-te… diz-me, vou viver, tu pertences-me)
Mas Thaïs só lhe responde, 
(encanta-me o som das harpas douradas…)
E morreu…
Deste modo, embora tardiamente, Athanael descobriu com a morte que há mais vida para alem da austeridade, que as aspirações e os direitos  humanos têm de ter prioridade sobre os interesses financeiros.
No intervalo do espetáculo, entre o 2º e o 3º atos, um espetador transmitia por telemóvel as suas impressões enquanto dava largas passadas no salão nobre do S.Carlos:
"Tens de compreender, isto na vida é assim, há insanidades, há fluxos para um lado e para o outro..."

Interessante, não é?
Ver como os autores, no ambiente moralista do fim de século XIX, deixam o herói expor a sua ortodoxia religiosa para no fim lhe dar a volta a 180º, fazê-lo mudar completamente de opinião, e já sem remédio.

Interessante imaginar que o barítono Athanael é o primeiro ministro do atual governo, que Thaïs é a economia portuguesa sujeita à austeridade redentora com a crença num futuro melhor (quem te cegou? Hayeck? Friedman? Reagan? Thatcher?).
Que o seu superior Palemon possa ser o seu antigo chefe Ângelo Correia, a pedir-lhe para não se meter em trapalhadas.
Que pode chegar um momento em que as evidencias levam mesmo uma pessoa a mudar de opinião, e lá se vai a determinação obssessiva.

Que diabo, por que cargas de água os monges fundamentalistas não se sentam à mesa com quem não pensa como eles e com quem conhece as questões,  e discutem formas de organização de unidades de produção de bens e serviços úteis para que as pessoas possam beneficiar das suas potencialidades aqui na vida real, em vez de pregar moralismos redentores ?

O comité de sábios

Primeiro, não são os comités de sábios que descobrem soluções onde os outros só vêem dificuldades
Segundo, é o debate alargado aos cidadãos, com a participação de técnicos dispondo de dados concretos e tratados que permite as soluções inteligentes, sem paternidades ou benefícios exclusivos
Terceiro, dificilmente se descobre algo de novo. Recordam-se da ultima cena de um filme catástrofe, sobre o incêndio de uma torre em Nova Iorque? O filme é dos anos 80, e o chefe dos bombeiros, Steve McQueen, fala o arquiteto principal da torre, Paul Newman: agora já sabemos quais os pontos fracos da sua construção, de que os principais são a dificuldade de evacuação e a inflamabilidade dos materiais; isso já estava nos nossos relatórios, mas agora já tem a experiencia.; e pode sempre contar com a nossa colaboração; sabe onde nos pode encontrar.
Sabe-se como é difícil aos construtores darem ouvidos às normas de segurança.
E sabe-se como é difícil às autoridades chamarem os técnicos com mais experiencia para lhes ouvir recomendações.
Sim, sabemos isso (se me é permitido falar por outros alem de mim) .
Por isso não nos surpreende que seja preciso vir um senhor de fora, German Efromovitch, propor um comité de sábios para analisar um problema complexo como a venda da TAP.
Há anos que o plano estratégico de transportes flutua num impasse com as manobras de diversão da necessidade das alterações estruturais (estruturais em sentido virtual, claro).
Idem para as infra-estruturas de produção de energia. Requiem pelos empreendimentos do QREN  (será que os contactos do senhor ministro da Economia com os seus colegas europeus para a reindustrialização da Europa são uma esperança de que começam a compreender?).
Como dizia Steve McQueen, sabem onde nos podem encontrar.

Análise de riscos, análise de acidentes - tunel de Sasago, choque de Busan


Este blogue é adepto do conceito de análise de acidentes do NTSB,National Transportation Safety Board, organismo do ministério dos transportes dos USA (esperemos que nunca um Tea Party com a fé cega na minimização do Estado consiga dar cabo do NTSB). As investigações de um acidente decorrem calmamente mas com divulgação do progresso. O objetivo principal é o de recomendar medidas para evitar a repetição do acidente.
Este conceito contrasta frontalmente com o que as administrações defendem em Portugal: inquéritos à porta fechada e consequentemente, sem mecanismos de controle mutuo que impeçam a exclusão de elementos ditos confidenciais e sem o valor das contribuições dos cidadãos.

A análise de acidentes, parente próxima da análise de riscos, não é assim uma atividade sado-masoquista, é antes um mecanismo de garantia de segurança.

Tomemos um exemplo português: o acidente da queda da cobertura da estação de Cais do Sodré em 1961.
A cobertura assentava em vários pilares metálicos com um dispositivo de absorção de dilatação do fuste. Por outro lado, o terreno era de aterro onde anteriormente era o rio. Convergiram, como em qualquer acidente, várias circunstancias e causas: o terreno foi abatendo com o tempo, de forma desigual em cada pilar; dada a proximidade do ambiente marítimo de elevada corrosão, os mecanismos de dilatação griparam de forma desigual conforme o pilar; a acumulação de água por entupimento da drenagem aumentou o esforço sobre os pilares.
Em consequência, a carga total foi-se aplicando de forma desigual sobre os pilares, ficando alguns deles sem absorver o esforço como se etivessem desligados do terreno e fazendo recair cada vez mais carga sobre cada vez menos pilares até ultrapassar o limite de resistência.
Pode dizer-se que o projeto não era perfeito, por não prever medidas que compensassem as circunstancias desfavoráveis, mas não pode afirmar-se que tenha sido a única causa. Uma manutenção cuidada teria monitorizado a carga de cada pilar e o seu estado de corrosão e detetado a tempo o perigo.

A identificação das causas e circunstancias não foi divulgada de modo franco, e as culpas acabaram atribuídas aos projetistas, desvalorizando o papel da manutenção.
Mas não devia interessar encontrar os culpados, devia antes interessar principalmente evitar que acidentes deste género se repitam, sendo que a ideia chave é a de que este tipo de obras exige uma monitorização dos parâmetros de segurança e uma manutenção rigorosas.

Não se atingiu o objetivo. Anos mais tarde ocorreu o acidente da ponte de Entre os Rios, classificável também como de deficiente manutenção.
1 - E mais recentemente, em Dezembro de 2012, o acidente do túnel de Sasago no Japão.
Embora o inquérito e as inspeções em túneis com estruturas semelhantes estejam a decorrer, já é possível, graças à informação disponível na internet,

formular algumas hipóteses que podem servir de recomendações para evitar desastres semelhantes.
O que abateu não foi a estrutura primária do túnel, mas sim uma laje de cerca de 100 m de comprimento suspensa da abóbada do túnel, presumivelmente destinada à ventilação do túnel.
A laje era composta por lajetas pré-fabricadas de cerca de 5 x 1 m, solidárias entre si através de perfis metálicos e suspensas por pendurais ligados a ferragens, por sua vez fixas ao teto por parafusos e buchas químicas (adesão das buchas ao betão através de resinas adesivas).
A inauguração do túnel foi em 1977.
Admite-se que por efeito da corrosão, eventualmente agravada por esforços sísmicos alguns parafusos ou buchas se tenham degradado e partido, ou, por efeito de dilatações diferenciais, também com agravamento por esforços sísmicos, alguns pendurais tenham perdido o estado de tensão, levando à sobrecarga dos outros para alem da sua resistência, seguindo-se o colapso em cadeia (melhor fora as lajetas não estarem solidárias).
Facto já comprovado: não houve manutenção.
As inspeções visuais que foram feitas são insuficentes . As batidas com martelo como se vê nas fotos das inspeções realizadas a seguir ao acidente são também insuficientes. São necessárias inspeções com meios de radiografia e de deteção de corrosão por processo eletroquimicos (método iCorr).
Penso ser ainda aplicável o comentário de que o projeto de elementos metálicos associados a estruturas de betão armado deve ser mais prudente, precisamente pela exigencia de uma manutenção rigorosa.
Foi agora revelado que um acidente semelhante (corrosão de elementos de suspensão de tabuleiro no teto do túnel) ocorreu num túnel em Boston em 2006.
São conhecidas as dificuldades e custos elevados de manutenção de estruturas metálicas como as utilizadas no estádio do Benfica ou na estrutura sob a ponte 25 de Abril na margem norte.
No caso do metropolitano de Lisboa, julgo de chamar a atenção para os chumbadouros e pernos de fixação à parede de todo o mezanino da estação Baixa Chiado (sujeitos portatno ao corte, que será uma situação mais favorável, mas não isenta dos riscos da corrosão). No túnel do lado sul da mesma estação, há a assinalar a suspensão das condutas de ventilação do teto.
Todos estes elementos de fixação foram, para efeitos da receção definitiva em 2006, inspecionados conjuntamente pelo empreiteiro e pelo metropolitano, admitindo que nova inspeção, elemento a elemento de fixação, com determinação precisa do grau de corrosão entretanto verificado, deverá ser feita nunca depois de passados 10 anos.
Estas considerações serão também aplicáveis aos elementos de fixação da laje de proteção contra quedas de objetos sobre a via na estação Ameixoeira, e das chapas de reforço da abóbada do túnel adjacente ao túnel rodoviário da Av.Fontes Pereira de Melo.
Trata-se de ações de manutenção que não é necessário fazer todos os anos e que, por isso mesmo, estão associadas aos riscos de “esquecimento” ou perda da informação sobre os procedimentos corretos de manutenção.
O acidente do túnel de Sasago veio mostrar as possíveis consequências da omissão da manutenção.
Estes riscos agravam-se em épocas de crise, em que a tendência dos gestores será a de economizar em tarefas que não parecem urgentes.
Relembro, a propósito, entre outras necessidades de manutenção:
- a importância da realização periódica (10 anos) dos procedimentos de manutenção dos aparelhos de apoio dos tabuleiros dos viadutos, já realizados no caso dos viadutos de Olaias e do Campo Grande, com o escoramento dos tabuleiros para reparação ou substituição de aparelhos de apoio;
- idem para a medição periódica do estado de tensão das pregagens das fundações da estação Oriente
- o meritório funcionamento até ao presente do sistema de monitorização dos parâmetros geométricos do tunel doTerreiro do Paço, que permite medir continuamente as deformações que as aduelas vão sofrendo, e cuja permanencia se deseja.


2 –Um comentário ainda para o acidente no metro de Busan, na Coreia do Sul,  em novembro de 2012.

No seguimento da imobilização na galeria de um comboio por avaria, outro comboio foi evacuado na estação anterior, prosseguindo a marcha até ao comboio avariado para o empurrar. Trata-se de uma manobra de marcha à vista, em que os sistemas de proteção automática da velocidade (ATP) não têm condições para funcionar, em que a sinalização lateral está proibitiva, e em que a segurança do movimento reside apenas no maquinista.
No caso do acidente de Busan o comboio estava imobilizado a seguir a uma curva e o maquinista do comboio em movimento não conseguiu parar a tempo. Mesmo embatendo a uma velocidade reduzida, por exemplo 20 km/h, os efeitos sobre os passageiros que se encontravam dentro do comboio implicaram alguns ferimentos graves e a primeira carruagem embatida descarrilou.
Nas circunstancias anteriores ao acidente, não deve fazer-se avançar um comboio sobre outro sem que primeiro os passageiros tenham sido retirados e conduzidos até à próxima estação pelos caminhos de evacuação da galeria; só depois deverá o comboio proceder ao acoplamento.
Outra medida recomendada será, nos casos em que existe sistema ATP, reservar diariamente um período para circulação exclusivamente manual, para os maquinistas não perderem o treino.
Pode ainda especificar-se, no caso de aquisição de um sistema de proteção e condução automáticas, a possibilidade de aproximação com proteção automática a velocidade reduzida sobre outro comboio parado em qualquer ponto, embora não seja funcionalidade normal.
Por tudo isto, espera-se que o maquinista responsável não seja castigado de forma desproporcional.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Citações de Oscar Niemeyer

“Se o sujeito pensar que é importante, e eu acho isso tão ridículo, ele está fora do mundo”

“Continuo a defender a mensagem básica que é possível reconhecer nos escritos de Marx – a sua confiança no advento de uma sociedade mais justa e mais fraterna”

“Preocupam-me a pobreza, a injustiça, as crianças nas ruas sem apoio. Nisso temos de pensar,  ficando menos bichos”

“Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem … o que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito o universo”.


Que pena, incensar-se este homem, e depois preferir-se a inflexibilidade artificial das linhas retas definidas pelos homens que detêm o poder… Se não forem hipócritas, podem aprender com ele.

sábado, 8 de dezembro de 2012

O governo quer acabar com os cartões de desconto?



Este blogue sentiu-se importante, coisa que não devia, mas sentiu-se, ao ler a notícia, porque  até parece que o governo o leu e decidiu agir depois de o ler.
Afinal, vozes de burro podem chegar aos céus.
Claro que os preclaros governantes não iriam fazer exatamente o que este humilde blogue escreveu, mas precisamente o contrário.
Foi o caso.
Claro que não foi exatamente assim, este blogue não é nada importante e o governo não o leu.
Se o blogue fosse lido pelo governo, então escreveria que sim, sim, o governo deve insistir na mesma receita, deve continuar a aplicar a austeridade cada vez maior e limitar as hipóteses de crescimento e aumento da produção e da procura interna, que não é nada loucura, como dizia Einstein, fazer muitas vezes a mesma coisa à espera que por fim aconteça uma coisa diferente.
Para que o governo fizesse o contrário do que o blogue escrevia.
Mas vamos ao tema.
Lembrou-se então o governo de mandar estudar uma proposta de lei (fica bem, a humildade ao governo; não é capaz de fazer propostas de lei, manda fazer) para interditar o uso de cartões de desconto nos supermercados e do sistema de milhas da TAP.
Que estranho queixarem-se os senhores governantes que o Estado não é mínimo  e a quererem que o Estado intervenha nas campanhas de marketing das empresas e impeçam o  yeld management.
Não sei se os cartões Lisboa Viva do metropolitano estarão a salvo.
Agora é que o governo vai evitar a repetição de qualquer experiencia de Worgl (emissão de vales equivalentes a dinheiro para circulação interna).
Os pobres dos dirigentes de associações empresariais já se queixaram que será mais um fator de diminuição da procura interna,
São fundamentalistas, ou então foram vitimas de algum alcaloide alucinogeneo.
Não merecem respeito que eu escreva doutro modo.

PS em 9 de dezembro - talvez que a sanha contra os cheques tenha a mesma origem; no fundo um cheque é uma emissão de moeda que até pode circular se for endossado, parece-me. Mas é pena, não serem mais utilizados.

Mais uma vez, o livro Diamantes de sangue

Como?
A Tinta da China, na pessoa da sua editora Bárbara Bulhosa, foi constituída arguida no processo contra Rafael Marques, por ter editado o seu  livro Diamantes de Sangue?
Como?
O direito romano está esquecido?
Onde está provado que Rafael Marques difamou sem fundamento?
O processo que pediu em Angola contra os generais foi arquivado.
Agora os generais põem um processo a Rafael Marques e a editora por difamação e estes são constituídos arguidos?
Onde estão os indícios?
Não é inverter o ónus da prova, é termos uma denuncia de factos passados em Angola; essa denuncia deve ser investigada até ao fim pela justiça angolana; se foi arquivada, ninguém se pode queixar de difamação, salvo melhor opinião, claro.
É essencial à democracia que os jornalistas possam fazer as suas investigações e as suas denuncias, mostrar as suas testemunhas ou os efeitos das violações de direitos.
Verdade que o conceito de arguido é muito português (aquele que alegadamente se pode constituir razão ou motivo de uma acusação), isto é, não existe no direito anglo-saxónico, por exemplo.
Se há indícios para acusar, acuse-se; mas publicar um livro com testemunhos de vitimas de violações de direitos humanos é crime, ou sequer indicio de crime cometido por quem denuncia?
Em Novembro de 2011 este blogue comentou a denuncia por Rafael Marques, no seu livro, das violações de direitos humanos na extração de diamantes em Angola e a promiscuidade entre o poder politico e os negócios (cronycapitalism, sempre).

Numa altura em que não se sabe como vai correr a investigação pelo poder judicial português a altos dirigentes angolanos por atividades em Portugal, e em que a dependência da economia portuguesa relativamente à angolana cresce (sendo que muitos jovens portugueses estão empregados em Angola), é um caso a seguir este, o das acusações que impendem sobre Rafael Marques e sobre a sua editora em Portugal.
Talvez que a curto prazo a afirmação clara de que não devem violar-se os direitos humanos, por mais florescente que seja uma relação comercial, se traduza por graves prejuízos económicos.
Seguramente que a longo prazo, pelo menos de acordo com a experiencia histórica após o fim de regimes de grande concentração da riqueza em poucos, o apoio silencioso à plutocracia angolana será prejudicial à economia portuguesa.
Do ponto de vista diplomático, talvez que o Brasil pudesse ajudar Portugal a defender os direitos humanos junto de Angola.
Mas com a crise, a atenção para estas coisas é diminuta.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A propriedade privada

Este blogue já por várias vezes recomendou a coleção da Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Os livrinhos custam 3,15 euros e podem ser comprados na cadeia de supermercados Pingo Doce.
O objetivo desta coleção é “contribuir para a identificação e resolução dos problemas nacionais e promover o debate público… em duas palavras, pensar livremente”.
Interessante, como no meio  das batatas francesas e dos chocolates belgas e suíços, surgem estes livrinhos a suscitar debate público (se ao menos os clientes do Pingo Doce  dessem mais atenção aos livrinhos e reduzissem a alimentação importada).

Do livro “Propriedade privada: entre o privilégio e a liberdade”, de Miguel Nogueira de Brito, cito as 3 leis fundamentais do Código da Natureza de Etienne Gabriel Morelly, publicado em 1755:
“ 1.   Nada na sociedade pertencerá singularmente nem em propriedade a qualquer pessoa, a não ser as coisas de que esta faça um uso efetivo, seja para as suas necessidades, prazeres ou trabalho diário.
2.      Todo o cidadão será um homem publico sustentado, alimentado e ocupado à custa do Público.
3.       Todo o cidadão contribuirá pela sua parte para a utilidade pública segundo as suas forças, os seus talentos e a sua idade; é sobre isso que serão regulados os seus deveres, conformemente à leis distributivas.”

Mas atenção, o autor Miguel Nogueira de Brito não é fundamentalista e faz esta citação para a integrar na evolução do pensamento e para compreender a génese das ideias socialistas e a incompatibilidade de ideias radicais com a base das sociedades modernas, que é  “a diferenciação funcional entre diferentes esferas sociais, ou autonomização da política face à religião, da economia face à política, da ciência face à religião … e assim sucessivamente … pluralismo e multicentrismo, ausência de um principio normativo único presidindo à estruturação da ordem económica e social”.
Como este blogue também se esforça por não ser fundamentalista (já se tem falado na linha flexível que separa o público do privado, à maneira de Melo Antunes), pensa que não deve deixar passar a oportunidade para observar que os políticos e financeiros que presidem atualmente à coisa pública da união europeia estão reféns dum pensamento único e duma ideologia radical que se opõe ao pensamento humanista que se pode ver retratado no livrinho da coleção da Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Aliás, numa altura em que se fala tanto do Estado Social (ou do Bem-estar) é de grande interesse a análise que sobre a sua problemática é feita no livro.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Grupo GPS, um caso de cronycapitalism



Já se tem falado, neste blogue, de cronycapitalism.
Ou a promiscuidade entre o poder económico-financeiro e o poder político.
Uma espécie de nepotismo oligárquico, a que se chamou na linguagem parodiante, a sociedade dos conhecimentos.
Ver

Graças à TVI e à sua repórter Ana Leal.
Ou de como até é possível uma televisão privada fazer serviço público.

O direito dos cidadãos à informação sobre o destino dos dinheiros públicos está na Constituição da Republica Portuguesa e este tipo de informação pode ser considerado serviço público.
A reportagem parece credível e confirmar o que o presidente Paulo Morais  da Transparencia Portugal vem afirmando há muito, que no Parlamento há um conjunto de escritórios que tratam de negócios e das suas ligações ao poder politico.
Não admira, neste contexto, que o primeiro ministro atual tenha uma história de pesquisador de financiamentos públicos para as suas empresas e tenha até criado uma OMG para o efeito.
É a sua ideologia, destruir os serviços públicos que possam transferir o rendimento (rendimento no sentido do PIB)  para empresas privadas.
Salvo melhor opinião, assim devem ser entendidas as referencias às margens de manobra mais largas na Educação do que na Saúde na recente entrevista, a canalização de dinheiros públicos para subsidiar a iniciativa privada através das concessões aos colégios privados.
Depois é só dizer que uma turma privada por 85.000 euros por ano fica mais barata do que numa escola pública (se ficar, o preço é o fator mais importante? Os fatores independência entre cargos políticos e cargos nas empresas, e igualdade de acesso à informação não pesam mais? foram contabilizados todos os custos, incluindo os custos de combustível por aumento das distancias percorridas pelos alunos?).
A presente reportagem informa que o financiamento do grupo GPS (26 colégios privados, 50 empresas várias)  atingiu 25 milhões de euros. Do grupo fazem parte dois colégios das Caldas da Rainha cuja autorização de construção está envolta  em condições nebulosas (aprovação do financiamento 5 dias antes do termo do governo de Santana Lopes, depois de diligentemente e capciosamente se pôr a circular que as escolas públicas das Caldas da Rainha estavam super-lotadas) e empregou ex membros de governo dos dois principais partidos. Não é a entrega de 25 milhões de euros que choca, é a promiscuidade entre os ex-governantes e o poder económico, a transição imediata, sem o período de nojo recomendado pela Transparência entre o governo e as empresas.
Como diz um amigo meu assumidamente de direita, é com casos destes que melhor se ataca e descredibiliza a direita liberal e defensora dos direitos humanos.