quinta-feira, 1 de abril de 2010

Um triunfo do bom senso


A notícia deve ter caído como uma bomba no inefável Diretorate dos Transportes da UE.
O cidadão inglês que assessora o Diretor Geral deve ter sentido uma grande vontade de rir e terá sugerido displicentemente nomear uma comissão de peritos para avaliar a questão.
A China anunciou que no início do próximo ano chinês, cerca de 7 de Fevereiro de 2011, a circulação automóvel passará a fazer-se pela esquerda em todo o território chinês, uniformizando assim o código da estrada relativamente ao que já acontecia em Macau (ver a fotografia dos acessos, que terão de ser mudados, à ponte do Lotus, que liga a China a Macau/Coloane) e em Hong Kong. Decorrerá até lá, em todo o território, o período de formação e de adaptação pública à ideia (uma vez que não poderá haver sobreposição das duas circulações).
A percentagem da população mundial que circula pela esquerda passará assim dos 33% atuais para cerca de 50%.
O Ministro dos Transportes chinês justificou a decisão com a regra da prioridade à direita, de carater universal, aplicada às rotundas, apelando à ONU para que todos os países, nomeadamente os USA e a UE, aderissem à circulação pela esquerda, e com a uniformização no Pacífico Ocidental. O apelo é extensível às convenções marítimas, em que as regras da prioridade e a circulação pela direita são universais, mas em que as cores das balizas de aproximação de um porto são diferentes na UE (o navio que entra deve dar o bombordo à luz vermelha) e nos USA (o navio que entra deve dar o estibordo à luz vermelha).
Efetivamente, a regra da prioridade à direita cria, nos países de circulação rodoviária pela direita, uma grave situação: nas rotundas, onde a prioridade deve ser dos veículos que lá se encontrem, é necessário instalar sinais de perda de prioridade em todas as entradas na rotunda; se um dos sinais falhar ou se o condutor se confundir por estar habituado a ceder a passagem a quem vem da direita e não da esquerda, pode ter-se uma situação de perigo. Igualmente nos acessos secundários em entroncamentos, circulando pela esquerda já se sabe que a primeira via de rodagem da via principal tem sempre prioridade, o que não acontece circulando pela direita.
Como curiosidade, recordo que o primeiro país a legislar sobre o sentido da circulação foi a Inglaterra, através de uma lei de 1756, confirmada em 1773 pelo General Highways Act. No entanto, os vestígios de estradas romanas de circulação dupla indiciam que a circulação se fazia pela esquerda (mão direita mais preparada para um mau encontro, possivelmente).
Todos os países de colonização inglesa circulam agora pela esquerda, à exceção dos USA e Canadá. A razão disso, comum com o início no século XVIII da circulação pela direita em França, na Dinamarca e na Russia, foi a rápida expansão dos transportes de mercadorias e o crescimento da produção agrícola, antes do aparecimento do caminho de ferro. Os carroções tinham de ser puxados por mais de uma parelha de cavalos e assim era difícil ao condutor, se sentado no cavalo da esquerda, controlar nos cruzamentos o lado direito dos cavalos e dos carroções. Sentava-se num cavalo para não roubar espaço de carga e no da esquerda porque é pela esquerda que se montam os cavalos . Como em Inglaterra as carroças eram mais pequenas, o condutor sentava-se num banco chegado à direita para poder controlar os cruzamentos, continuando a subir para o banco pelo lado esquerdo da estrada, protegido do tráfego em sentido contrário e respeitando o lado correto de montada dos cavalos (válido para cavaleiros solitários).
A decisão da China não é virgem. Já se verificou a mudança da circulação da direita para a esquerda em Timor Leste (em 1975), em Okinawa (1978 – não esquecer que no Japão sempre se conduziu pela esquerda), e na Samoa (2009).
Refiro ainda que a circulação em Portugal se fez pela esquerda até 1928, ano em que, mais uma vez seguindo o exemplo da região de Madrid, passou para a direita (o mesmo aconteceu na Suécia em 1967). Foi, em Portugal, mais uma das sequelas do regime saído do 28 de Maio de 1926.
Nos caminhos de ferro, tirando a alta velocidade, a circulação faz-se maioritariamente pela esquerda.
Sauda-se assim a decisão chinesa.

Para mais informação sobre a história dos sentidos de circulação, ver em    http://en.wikipedia.org/wiki/Right-_and_left-hand_traffic 


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