quarta-feira, 28 de abril de 2010

Economicómio XLIX - Adam Smith e Joseph Stiglitz num concerto na Gulbenkian

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Os instrumentistas e o coro já estavam instalados quando Adam Smith se sentou discretamente no plano desnivelado à esquerda do palco.
Do outro lado, atrás dos contrabaixos, entrou logo a seguir Joseph Stiglitz, prémio Nobel da Economia de 2001, que se sentou também num plano desnivelado, pousando ao seu lado a pasta com o computador portátil.
No centro, uma harpa imponente, dando a sua esquerda ao piano, enquanto o coro, predominantemente feminino, se dispunha em escada até ao órgão.

Ia cantar-se a Cantata Misericordium de Benjamin Britten.

Adam Smith não chegou a conhecer Benjamin Britten porque Benjamin Britten escreveu a sua cantata misericordiosa, com texto em latim de Patrich Wilkinson, sobre um episódio bíblico, em 1963. Por isso, de semblante carregado, aguardava a execução. Da peça, a execução, a sua performance, como ele diria.
Do outro lado, Stiglitz, com o seu ar despreocupado e engravatado de professor da universidade de Columbia e de antigo conselheiro de Bill Clinton, mantinha, por detrás dos óculos de lentes grandes, uma expressão de expetativa.

O maestro baixou com energia ambos os braços e um som metálico das trompetes e das trompas, de vozes claras e sincopadas, e de fortes acordes do piano só aparentemente incompatíveis, encheu a sala.

- En viator qui descendit ab Ierusalém in Iericho (um viajante descia de Jerusalém a Jericó).

Stiglitz pensou que estávamos perante uma exibição do direito à mobilidade e, provavelmente neste caso, do direito ao comércio.
E pensou bem, mas Adam Smith, com a sua infinita permissividade, não devia ter estranhado o que se passou a seguir.

- Cave, viator, cave! Latent istis in umbris latrones (cuidado, viajante, cuidado! Escondem-se ladrões nessas sombras)

Stiglitz lançou um olhar irado ao colega do outro lado.
As políticas liberais e de concorrência desenfreada, o funcionamento irracional dos mercados, que não são propriamente uma fonte de sabedoria, porque são predadores e muitas vezes estúpidos, podem danificar toda a economia europeia (citação); as políticas liberais de contenção dos preços e redução de salários podem também enfraquecer a economia  (citação) e estimular o fecho de empresas e o desemprego.
Entretanto a globalização falhou estrondosamente porque são os paises desenvolvidos que mantêm a proteção dos seus próprios produtos contra a importação dos países pobres (ver "Globalização, a grande desilusão"   em   http://www.terramar.pt/20019.htm ;   Stiglitz sabe do que fala porque foi vice-presidente do Banco Mundial, muitas vezes em rota de colisão com os economistas insensíveis do FMI).

Tudo isso só podia contribuir para o aumento da criminalidade que iria culminar com o assalto ao pobre viajante.

- Eheu relinquor humi prostratus, semivivus,solus, inops (ai de mim, prostrado no chão, meio morto, só e sem dinheiro)

Assim se lamentava o barítono, enquanto o coro ondulava chocado e a orquestra sublinhava o dramatismo da situação, do viajante e da economia.
O coro introduziu a cena seguinte, anunciando a aproximação de um sacerdote:

- Is certe sublevabit (Certamente te salvará).

Mas a orquestra respondeu com o repudio do sacerdote, que se afastou em andamento rápido, sublinhado pelos acordes agressivos dos violinos.
E o coro novamente solidário, a anunciar a aproximação, agora de um professor de direito, mentor de um partido confessional ligado ao poder, e dos seus guarda-costas, enquanto o barítono geme:

- Fer opem atrociter mihi vulnerato (ajuda-me, estou muito ferido)

Mas o professor de direito, receoso de um assalto, também passou de largo.
Adam Smith teve um movimento de impaciência. Devia aquela economia ter musculado a defesa dos seus empreendedores. A polícia já devia ter prendido os ladrões, e o viajante se não estava já a ser tratado era porque não tinha pago um seguro eficaz.
E eis que chega o samaritano, que seria assim como um cidadão rústico, sem o polimento das classes altas.
O barítono entoa:

- Miserere mei, hospes, afflicti (Tem piedade, desconhecido, eu sofro)

E o tenor, que era o samaritano:

- Quid ante pedes iam vídeo? (que vejo a meus pés?)

Alegra-se o coro, cantando sobre a orquestra triunfal que o samaritano tratou o ferido e o levou até à estalagem onde o alimentou e o fez recuperar.

- Optime hospitum, quis es? (bondoso desconhecido, quem és?)

- Quis sim, parce quaerere (quem sou não interessa)

Os violinos, as violas, os violoncelos e os contrabaixos acompanham os harpejos da harpa e o coro prossegue, apoiado no piano, uma canção doce em crescendo progressivo

- Morbus gliscit, Mars incedit, fames late superat. Sed mortales alter quando alterum sic sublevat e dolore procreate caritas consociat (a doença grassa, a guerra espreita, por toda a parte impera a fome, mas quando um mortal ajuda outro a dor e a compaixão geram a solidariedade).

Stiglitz estava radiante (teria preferido acrescentar o desemprego aos cavaleiros do apocalipse citados e a vencer com a Declaração Universal dos Direitos do Homem : a doença, a guerra e a fome). Adam Smith impassível.
O coro e a orquestra continuam o seu crescendo. Embora moderna, a musica é um canto chão quase gregoriano.
O maestro pediu e os intérpretes dão o seu máximo.
O som do coro e da orquestra é fortíssimo.

- Vade et tu fac similiter (Vai e procede da mesma forma).

Os braços do maestro estão levantados. É o acorde final. Os dedos das duas mãos muito abertos, que assim se mantêm durante vários segundos depois de todos se calarem.

A minha mensagem é esta, gritou Stiglitz a Adam, por cima da orquestra, no meio dos aplausos ao maestro, ao coro, à orquestra e aos solistas: assim como Keynes apelava ao intangível da confiança e ao aproveitamento da capacidade instalada nas fábricas, eu apelo ao intangível da solidariedade contra os especuladores e as politicas restritivas.
Adam Smith saiu, zangado.
Não tinha gostado da musica, nem do texto, nem do que Stiglitz tinha dito.
Fez mal, ao menos podia ter apreciado a beleza da musica, já que é insensível à mensagem.


Benjamin Britten, Cantata Misericordium, op.69, texto de Patrich Wilkinson, coro e orquestra Gulbenkian, maestro Fernando Eldoro, tenor Toby Spence, barítono Hugo Oliveira, na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, em 23 de Abril de 2010; as intervenções de Adam Smith e de Joseph Stiglitz foram imaginadas, mas procuraram aproximar-se da realidade e contêm algumas citações verídicas.


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