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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Conto fantástico, o petróleo, ou um dia na vida de João

dedicado aos economistas que no Eurogrupo e nos governos dos bancos centrais, sem um mandato expresso eleitoralmente, desenvolvem políticas deflacionárias, aos políticos e às administrações que nas instâncias internacionais controladoras do preço do petróleo comprimem artificialmente o seu preço, e aos que  nas universidades teorizam sobre essas políticas, todos hipocritamente apregoando as vantagens dos preços baixos, mas desprezando na realidade o interesse e o bem estar das populações                   




João, contrariamente ao habitual, passara o fim de semana em casa.
Divertiu-se quando encontrou no sótão uma coleção de revistas de 20 anos atrás.
Um dos artigos mostrava as preocupações sobre a evolução do preço do petróleo, que ameaçava baixar todos os indicadores das bolsas.
Que os governos responsáveis tomariam medidas se a cotação do petróleo continuasse a diminuir e atingisse os 20 dólares por barril.
Apenas 8 anos depois da crise financeira internacional de 2007-2008 era a descida do preço do crude que ameaçava a economia, ainda não completamente refeita, especialmente na Europa.
João recordou o ambiente internacional tenso de então, com guerras e terrorismo em demasiadas zonas estratégicas, sempre com a problemática do petróleo por trás.
Na segunda feira, João passou pelo posto de combustível antes de seguir para o trabalho, numa empresa de transportes coletivos da sua área metropolitana.
Apesar dos esforços dos movimentos ambientalistas, de alguns governos e dos fabricantes de automóveis e dos progressos na motorização elétrica e a partir do hidrogénio, a motorização térmica com combustíveis fósseis era ainda a preferida, dada a sua maior densidade energética, conforme as leis da mecânica quântica mostravam.
João encheu o depósito e recebeu do robô do posto o talão e 20 euros, pensando de si para consigo que a gasolina tinha aumentado mais do que pensava. Ainda na quinzena anterior (o rendimento dos motores térmicos era agora perto de 60%, pelo que a ida às bombas era menos frequente) tinha recebido apenas 15 euros pelo depósito cheio. Provavelmente o governo tinha aumentado o seu imposto injetando 5 euros.
Um aumento brutal, mas despreocupadamente seguiu o seu caminho, autojustificando a utilização de automóvel privado apesar de trabalhar numa empresa de transportes coletivos, com a persistente inexistência da linha circular de metro.
João tomou o seu pequeno almoço na cafetaria da empresa, a preços especiais; recebeu do robô do balcão 1 euro por ele, enquanto observava com inocente prazer os movimentos com que a eletricista da assistência externa executava as tarefas de rotina de manutenção do robô. Dava-se a coincidência dela ter sido estagiária numa das oficinas do serviço de João e ter deixado ótima impressão, não só pelas suas habilitações como pela disponibilidade para a resolução dos problemas.
O trabalho de  João era interessante e abrangente, obrigando ao constante controle de qualidade do serviço prestado e acompanhando a evolução da procura em toda a área metropolitana.
A descida contínua do preço do petróleo nos últimos anos tinha alterado totalmente a problemática dos transportes coletivos. A empresa conseguia pagar a todos os seus passageiros valores razoáveis por passageiro.km . Os fornecedores da empresa, nomeadamente a elétrica regional, pagavam regularmente e satisfatoriamente os fornecimentos necessários ao serviço de transporte.
Os receios de há 20 anos tinham-se concretizado numa descida para além do limite de 20 dólares por barril, continuando até aos 10 dólares, apesar dos esforços de grandes companhias que chegaram a manter uma centena de grandes petroleiros pós Panamá, completamente carregados, esperando vãmente nos oceanos que o preço voltasse a subir.
Mas não. Foi então que os principais governos e os produtores de petróleo reuniram uma cimeira que, surpreendentemente, proibiu o fabrico, a comercialização e a utilização de qualquer tipo de armamento fora do controle da ONU e, por proposta de um economista português da muito cotada top business school da universidade católica de Lisboa, que apresentou um estudo académico exaustivo para a fundamentar sem contestação, decretou um intervalo variável de preços negativos do petróleo à saída do poço.
A partir de então, os produtores de crude pagavam aos transportadores  e às refinarias o preço internacionalmente estabelecido do petróleo que extraíam,  que por sua vez entregavam às distribuidoras o petróleo e os outros refinados, juntamente com o valor acrescentado. Era parte deste dinheiro que os automobilistas recebiam quando enchiam os seus depósitos nos postos de combustível.
O sistema funcionava sem problemas, tal como os investidores se tinham habituado a pagar pelos seus investimentos em vez de receber juros,
  com uma continuada deflação, não só porque a guerra do petróleo tinha cessado nas respetivas áreas estratégicas, mas também porque se tinham encontrado formas de extração por fratura hidráulica sem contaminação dos aquíferos e sem provocar terramotos, e de extração das areias betuminosas sem poluição de partículas, óxidos de azoto e dióxido de carbono. O predomínio das energias limpas e renováveis na produção de energia primária estava assim adiado.
Além disso, os fabricantes de equipamentos pesados para a extração do petróleo cumpriam religiosamente os seus contratos, entregando dentro dos prazos o equipamento e o dinheiro do valor correspondente, proveniente maioritariamente dos seus funcionários e dos fornecedores de robôs e dos outros fatores de produção.
Todos os economistas e académicos tiveram de se reciclar para compreenderem que ao longo dos anos o preço do petróleo sempre tinha sido enganador, uma vez que dado o seu papel central na economia, os seus custos espalharam-se lentamente e consistentemente por todos os produtos da economia.
Sendo assim, a tendência universal para redução dos custos de produção através do recurso massivo a robôs e sucessivas taxas crescentes de deflação levaram a um efeito multiplicador da redução do custo do petróleo, que por sua vez só poderia prosseguir através de valores negativos dos preços do próprio petróleo.

Ao fim do dia de trabalho João verificou o que tinha recebido e concluiu que tudo estava bem porque era mais do que suficiente para entregar ao robô de controle da empresa para crédito desta. Se o resto do mês corresse bem poderia destinar as sobras para o pequeno gabinete de engenharia com que de vez em quando colaborava e o restante seria para a simpática inquilina da casinha que tinha herdado já arrendada. A continuar assim poderia escolher ainda nesse ano a agência de viagens que mais lhe oferecesse por um programa de férias no estrangeiro ou, até, escolher a marca do novo carro que mais dinheiro oferecesse com o carro.
Calmamente passou pelo supermercado para recolher as compras que a mulher lhe tinha pedido para o jantar, e achou que, graças à campanha de promoções da semana, o dinheiro que recebeu do robô do supermercado com as compras foi razoável , embora tivesse de lá deixar 1 euro correspondente ao vale de pontos que a mulher andava a juntar para ter mais um pirex.
De facto, os produtores de leite e de carne de porco cada vez ofereciam mais dinheiro para os supermercados lhes ficarem com os produtos, para que os seus funcionários pudessem depois receber dinheiro quando fizessem compras no supermercado, dinheiro esse que depois iria para os produtores, que depois iria para os supermercados, que depois iria para os compradores como o João... e assim sucessivamente.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

COP21, uma opinião

Com as limitações próprias, mas exercendo o respetivo direito, expresso a minha opinião sobre a conferencia do clima de Paris.
Não serei tão rigoroso como James Hansen, 74 anos, reformado da NASA e da universidade de Columbia, militante desde a conferencia de 1988 contra a contribuição humana para as alterações climáticas, com prisões por protestos junto da Casa Branca, que qualificou o acordo de Paris como "uma fraude, uma farsa", por ser insuficiente e não fixar medidas realmente concretas nem definir uma taxa efetiva sobre as emissões (até o FMI já publicou estudos que qualificam a inexistencia dessas taxas como subsidio aos produtores e distribuidores de combustíveis fósseis).
Será injusto qualificá-lo assim quando certamente entre os representantes dos 195 países que assinaram o acordo haverá gente séria e bem intencionada, especialmente se considerarmos o empenho de Christiana Figueres, 59 anos, porto-riquenha, secretária executiva da convenção-quadro da ONU para as alterações climáticas.
Mas é deprimente ver a hipocrisia dominante, ver o desinteresse e a ineficência, na prática, pela monitorização efetiva da concretização das medidas contra as alterações climáticas, e ver o tempo passar e continuar a assistir à subordinação de grande parte, a maior parte da humanidade, aos interesses dos grandes produtores e distribuidores de combustíveis fósseis.
Christiana Figueres será parte interessada, como qualquer português, porque o seu país não é produtor de petróleo, na redução da sua produção global.
Mas recusará, como também nós deveremos recusar, desistir perante  a superioridade dos produtores e dos políticos que servem os seus interesses. No nosso caso, é essencial, com apoio de fundos comunitários, aumentar a produção de renováveis e construir infraestruturas para exportação da energia produzida e para a sua conversão em vetores de transporte (hidrogénio, ar comprimido, baterias).
Apesar de, efetivamente, a mecânica quântica confirmar que é impossível uma energia competitiva em termos de eficiência energética (1 litro de gasolina ou gasóleo, ou 1 m3 de gás natural, contêm 10 kWh de energia, equivalentes a 70 kg de baterias lítio-ferro) e de facilidade de utilização.
Tal como a idade da pedra já passou, e continuam a existir pedreiras, mas sem que a sua exploração deva prejudicar as comunidades, também a idade do petróleo tem de passar, deixando-o nas jazidas cuja extração prejudica as comunidades (a melhor prova foi a recusa de um CEO duma petrolífera da extração por fracking no subsolo da sua quinta privada).

Com a devida vénia à RTP, registo as seguintes imagens de uma sua reportagem sobre a COP21:











sexta-feira, 7 de março de 2014

A doença venezuelana

Penso que alguns indicadores são, par um país, o que as análises podem representar em caso de doença de uma pessoa.
O gráfico seguinte mostra as principais reservas comprovadas de petróleo por país e inclui já as estimativas do petróleo de xisto e areias betuminosas.
A Venezuela é o país que detem  a maior reserva.

fonte:A.Luis Fernandes

Considerando as notícias que chegam da Venezuela, nomeadamente descontrole da criminalidade e disfuncionalidade na distribuição alimentar, poderá talvez fazer-se o diagnóstico (mesmo sem cair no facilitismo de justificar com conspirações internacionais, apesar de ser do interesse das grandes mutinacionais de energia que o poder politico mude) de que é altamente provável que Nicolas Maduro sofra da mesma doença do primeiro  ministro português, de achar que deve governar com apoio expresso nas eleições de 29% dos eleitores.
O método proporcional permite que nos governos estejam representadas todas as tendencias acima de uma dada percentagem (3-5%).
A doença é não querer admiti-lo.
Pelas noticias chegadas de Viana do Castelo, parece também improvável que os asfalteiros venham a ser lá construidos.
Mas essa, a doença que destruiu os estaleiros, apesar da legislação europeia permitir apoios estatais no caso de equipamento de defesa (patrulheiros) e apesar da própria UE reconhecer que deve alterar a legislação de modo a alargar a intervenção do Estado em certos casos, pertence a outro tipo de doença, comum emPortugal, especialmente nos níveis decisórios das empresas e do governo.


sábado, 30 de março de 2013

Diálogo breve num posto de combustível

- Que maçada, aumentou outra vez, a gasolina
- E vai continuar a aumentar.
- A cotação do petróleo até está baixa, mas as distribuidoras estão sempre a fazer dinheiro à nossa custa.
- É interessante. Por um lado é verdade, até a troika tem razão, os combustíveis como fator de produção, como fator que entra para a composição do preço de qualquer produto, estão demasiado caros. Mas também é verdade que a energia é um bem escasso e não renovável, no caso dos combustíveis fósseis, e portanto só pode ser caro.
- Mas o petróleo está barato.
- Artificialmente barato, por motivos políticos e no interesse dos grandes grupos económicos e financeiros. Imaginemos que se voltava aos tempos do padrão ouro e se substituia o ouro pela energia. O preço das coisas seria referido ao preço da energia e expresso em unidades de energia. Acontece que há 50 anos se gastava pouca energia para extrair o petróleo. Por cada unidade gasta obtinham-se 50 unidades de nova energia. Agora, com o petróleo cada vez mais escondido e de dificil acesso, uma unidade obtem apenas cinco.
- Mas o petróleo pouco mais caro está agora do que há 50 anos.
- É verdade, porque o aumento dos custos da extração são diluidos por toda a economia, ou melhor, são repercutidos em toda a economia. Tudo está orientado para sustentar o baixo preço do petróleo. É natural que a economia esteja distorcida. E com a globalização, a distorção propaga-se como um virus de que a humanidade não se vê livre.
- E assim vamos de crise em crise, em sucessivas alternancias de bem estar e mal estar.
- É pena. A ciencia económica já tinha tido tempo para sistematizar uma organização melhor das comunidades, estruturalmente imune às vagas recessivas. Mas para isso precisava de conseguir a autonomia relativamente aos combustiveis fósseis e, sobrepondo o interesse público ao da concorrencia dos grandes grupos e às forças de mercado, desenvolver as energias renováveis.
- Aí está uma boa utopia.
- Tu o dizes.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Energis IV – As curvas de Hubbert

Com a devida vénia, comento o que aprendi num livrinho que um amigo me recomendou: O fim do petróleo (J.H.Kunstler – ed.Bizancio).
Eu diria que o livro tende para o pessimismo e para o quase catastrófico. Não tem em consideração alguns progressos nas tecnologias que melhoram a eficiência da conversão de algumas formas de energia de maior utilização no futuro. Mas a visão sobre a necessidade de racionalizar a utilização dos combustíveis fósseis não renováveis é muito lúcida.
Lucidez não é a qualidade mais apreciada pelos eleitores e pelos abstencionistas, mas será um critério para analisar a questão da energia.
O livrinho explica umas curvas curiosas, as curvas de Hubbert, relativas à produção de petróleo, e relaciona-as com as perturbações políticas e militares.
Pormenorizando:
Curva da evolução da descoberta de poços de petróleo nos USA: a descoberta de poços de petróleo no território dos USA começou significativamente no início do século XX, atingiu um máximo nos anos 30 e decaiu desde então até valores insignificantes, exceptuando-se a descoberta no Alasca nos anos 60;
1ª curva de Hubbert ou o pico da produção de petróleo nos USA – a curva da evolução da produção de petróleo nos USA segue a curva da descoberta com uma desfasagem de cerca de 40 anos. Isso quer dizer que o pico da produção do petróleo nos USA ocorreu nos anos 70 (i.é, a produção anual decaiu depois desses anos para cerca de metade), com a agravante do pico ter coincidido com a data a partir da qual a produção de petróleo nos USA é inferior à procura.
Curva da evolução da descoberta de poços de petróleo no exterior dos USA – a descoberta de reservas de petróleo atingiu o seu máximo nos anos 60, com o Alasca e o Mar do Norte, embora actualmente se verifiquem algumas descobertas de poços exploráveis (i.é, em que é possível retirar mais energia do petróleo extraído do que a energia necessária para ao extrair).
2ª curva de Hubbert ou o pico da produção de petróleo no exterior dos USA – extrapolando, com o que isso tem de falível, mas de provável, se a curva do pico acompanhar com uma desfasagem de 40 anos a curva das descobertas, teremos o pico da produção mundial na primeira década do século XXI. (por curiosidade, a Rússia atingiu o pico em 1986, o Mar do Norte em 2004 com as perturbações que suscita na Inglaterra, a Venezuela nos anos 70…)
E, de facto, há indícios de que a produção mundial de petróleo está a decair e é expectável deixar de contar com o petróleo depois do meio do século XXI.
Por outras palavras, a produção anual mundial de petróleo tem tendência a baixar até ao ponto em que o petróleo restante não é rentável (haverá sempre crentes que acreditarão em milagres de melhorias de rendimento de extracção; porém essas melhorias não inverterão as tendências), e esse ponto estará provavelmente a 40 anos de distancia.
Mas os economistas, os políticos e os eleitores comportam-se calmamente reivindicando gasolina mais barata para os seus automóveis.
Interpretam o direito à mobilidade como o direito a desperdiçar petróleo queimando gasolina no transporte individual. Todo o conceito de transporte automóvel individual tem de mudar (por exemplo, na Holanda, a velocidade máxima nas auto-estradas é 90 km/h).
Talvez os economistas já tenham percebido que têm de conter o desenvolvimento económico para evitar o aumento da procura de um bem não renovável que cada vez se produz menos… O que seria demasiado maquiavélico: como o principal combustível deixou de ter capacidade de resposta à procura, vamos arrefecer a economia, baixamos os PIB, aumentamos o desemprego para conter a inflação, com a inflação contida podem fazer-se guerras …
Dir-se-ia que é urgente mudar de combustível. Já mudámos para o gás, temos de voltar ao carvão, renováveis é para continuar, e do nuclear não escapamos.
Tinha razão o professor Ilharco, a energia é o problema fundamental da humanidade.
Se não pudermos contribuir para a resolução dos problemas, ao menos que os compreendamos.
E, por favor, não me interpretem mal. Não estou a dizer que não devemos andar de automóvel nem consumir combustíveis derivados do petróleo. Estou apenas a sugerir que o devemos fazer de modo a prolongar o seu uso, reservando-o cada vez mais para fins específicos (aviação comercial, p.ex) e a poder preparar-se calmamente a transição para outras fontes de energia, provavelmente com critérios de economia de consumo diferentes. De modo a que as novas gerações não tenham o desgosto de ver secar a torneira,

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Energis II – Homenagem ao Prof.Ilharco

O professor Ilharco dava a cadeira de Quimica Geral do primeiro ano dos cursos de engenharia civil, electrotécnica e mecânica do Instituto Superior Técnico nos anos 60.
Fazia-o de acordo com o modelo universitário da época, que ao que parece, felizmente mudou um pouco no nosso país, melhorando a ligação com a economia real (pelo menos, quero crer).
Como em qualquer análise histórica, devemos considerar o contexto da época em que o modelo funcionava, embora na altura já sonhássemos com os campus das universidades norte-americanas.
O professor Ilharco era irmão do director do Hospital psiquiátrico Julio de Matos e esse facto, juntamente com uma preocupação em exigir aos alunos a apresentação uniformizada dos cadernos de apontamentos, contribuía para uma fama injusta.
Porém nesta história o porém é mesmo importante.
E tive a sorte de me explicarem o porém (foi um colega já com o curso concluído) ainda era eu aluno do primeiro ano.
O porém era que o professor Ilharco aproveitava a sua cadeira para injectar logo à entrada do programa dois grandes enunciados (que ele insistia para que os alunos sublinhassem duas vezes):
Um, era o problema fundamental da Humanidade. E embora eu na altura pudesse pensar que o problema fundamental fosse o Amor, a verdade era que o que ficava escrito nos cadernos era qualquer coisa como isto:
- O problema fundamental da Humanidade é a Energia. A sua produção e a sua utilização.
Sem entrar em pormenores explícitos, o professor dava-nos assim as bases para, caso inisistissemos que o problema fundamental era o Amor, analisarmos as kcalorias dos alimentos necessárias para repor a energia muscular consumida, por exemplo, num acto de Amor. Ou calcular as kcalorias para recuperar dum exame e garantir a oxigenação dos tecidos e dos neurónios. Ou entender por que a chita só corre atrás do antílope diminuido se as kcalorias que tiver de dispender na corrida forem menos do que as kcalorias que puder obter ao devorar o antílope. Ou ver com olhos de físico o que Karl Marx queria dizer com aquela de ser necessário fornecer ao produtor energia para repor a capacidade de produção e, mais qualquer coisa. O professor Ilharco não falava em Marx, mas nós falávamos.
O outro enunciado, era o problema fundamental do engenheiro. Coisa que para todos nós na altura estava um pouco distante e, infelizmente para uma maioria, se revelou como a linha do horizonte, afastando-se à medida que nos tentávamos aproximar dela. Por outras palavras, muitos de nós foram sendo impedidos de exercer efectivamente a profissão , e levados a ser gestores virtuais da burocracia, sem utilizar as ferramentas da arte nem instrumentos de medida. Ditava o professor:
- O problema fundamental do engenheiro é a utilização da matéria e da energia de modo a obter benefícios para a comunidade da forma razoavelmente mais económica possível.
As primeiras aulas eram dedicadas ao panorama energético na Terra.
E , num tempo em que o pico da produção de petróleo nos campos do Texas ainda não tinha sido atingido (i,é, em que a produção crescia a olhos vistos de ano para ano antes de entrar em declínio no fim do século XX), e em que a produção dos campos de petróleo da Arábia Saudita ainda balbuciava, longe do pico e do declínio que só agora surgiu, já o professor Ilharco anunciava que os engenheiros não podiam concentrar-se apenas na petroquímica, mas tinham de, o mais tardar no princípio do século XXI, atacar em força a carboquímica.
Nos tempos que correm a informação já foi passada e está ao alcance de qualquer um: o primeiro combustível fóssil a desaparecer será o petróleo (não vai chegar ao fim do século XXI…mesmo que existam reservas), e o seu uso devia ser disciplinado e racionalizado. Depois desaparecerá o carvão (não vai chegar ao fim do século XXII…). Mas tem de ser estudado o seu aproveitamento de modo a não poluir muito.
O professor Ilharco escrevia os seus apontamentos no quadro e repetia martelando as sílabas:
A carboquímica. Será o grande desafio dos engenheiros nos próximos anos.
Estranho mundo este, em que uns quantos diagnosticam os problemas, traçam esquemas de procura de soluções, alguns encontram-nas, mas quando chega a altura de passar à fase seguinte entra em funções uma maldição incógnita.
Será a mão invisível do Adam Smith? (já vos contei que a mão invisível não é a intervenção divina que premeia os justos que crêem firmemente nos mercados? Adam Smith criou o conceito da mão invisível depois de ver Lady Macabeth de Shakespeare, e o castigo implacável e misterioso que se abateu como força invisível sobre o casal oportunista, como metáfora do castigo que aguarda quem se porta mal na economia , ou finanças também, está bem de ver).
E então a mão invisível lançou a insensatez sobre os actores dos mercados dos grandes consumos. Por um lado os rendimentos dos motores de gasolina e de gasóleo subiram dramaticamente, como dizem os anglo-saxónicos, para isso servem os engenheiros, que com o mesmo litro de gasolina põem o carro agora a percorrer o dobro da distancia de há 20 anos. Mas puseram mais potência no motor, tentaram os utilizadores a acelerar mais e mais. Aumentaram a produção e querem vender cada vez mais . O combustível escoa-se. A poluição aumenta. É insustentável. Mas continua a vender-se o sonho do automóvel eterno.
Terá sido a tentação “Tudo isto será teu se prostrado me adorares, a mim ao objecto de grande consumo, se cortares no bife para poderes pagar a prestação do carro”?
A carboquímica não se desenvolveu como o professor esperava. E a petroquímica ignorou o convite à racionalização.
A mão invisível traiu a herança do professor. Mais uma vez se verificou que o caminho descoberto numa dada altura do processo é esquecido depois. O nome deste blogue ilustra o facto: o diâmetro da Terra e o comprimento da milha ou do arco do minuto foram calculados por Eratóstenes no século III A.C. Vieram depois uns ignorantes com capacidade de tomar decisões que decretaram que o sol andava à volta da Terra, e mais disseram que a milha tinha 1609 metros (ou o equivalente em estádios, que era o que se usava na altura). Enganaram-se. Só no fim do século XVIII se confirmou a correcção do cálculo de Eratostenes. A milha tem 1852 metros. Deve ter sido a mão invisível, a baixar um véu sobre a compreensão dos povos.
A mão invisível tramou por exemplo o projecto interessantíssimo do presidente Carter, antigo engenheiro naval que percebeu os dados do problema. Entre as medidas que propôs ao congresso estava o desenvolvimento da carboquímica, concretamente a transformação maciça de carvão em petróleo e em gás (lembram-se de ouvir falar nos gasogéneos que convertiam madeira em gás e punham os automóveis a andar durante a segunda guerra mundial?).
A mão invisível e o congresso chumbaram a proposta. Depois veio o reaganismo e tatcherismo ricos em petróleo e no seu desperdício. Será possível estabelecer uma correlação entre a política energética errada dos USA e as guerras no médio Oriente?
Assim parece, o que só viria confirmar a tese do professor Ilharco, de que a energia (logo, a Paz) é o problema fundamental da Humanidade.
Saravá, professor Ilharco.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Energis I – O petróleo das areias do Canadá

Energis I – O petróleo das areias do Canadá

Sugiro a leitura de:
http://www.energytomorrow.org/Canadian_Oil_Sands.aspx?utm_source=website&utm_medium=banner&utm_content=oil%2Bsands&utm_campaign=March%2B2009

Vejam como se abre à industria do petróleo e do gás natural dos USA um futuro radioso.
Radioso a curto prazo, claro.
Depois de passado o pico da produção nos próprios USA e de nos aproximarmos do pico na Arábia Saudita, eis que o Canadá é o redentor fornecedor de petróleo dos USA.
Sorry, folks, it’s not fair.
Let’s study this case togheter.
Forget the profit for a while.
Explore Canada sands oil, OK, but let’s study how.
Togheter, please.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Economicómio VI – Califórnia, Califórnia

Economicómio VI – Califórnia, Califórnia

Vão mal as coisas, com a Califórnia.
O paradigma do sonho americano. A população dispersa, o predomínio do automóvel, Sillicon Valley, Hollywood. Um actor como governador do Estado.
A Califórnia, se fosse um país independente, seria o 10º em PIB.
Mas vem agora o actor governador, provavelmente depois de industriado pelos economistas neocons que lhe fazem as contas e o mapa das decisões, informar que as finanças do Estado faliram, que o deficit se tornou incomportável, e que o número de alunos por turma vai ter de aumentar.
Já tinha causado surpresa a falta de resposta dos bombeiros e da protecção civil aos incêndios que desflorestaram parte significativa da Califórnia e desalojaram muitos habitantes.
Depois, aquele acidente no suburbano de Los Angeles. Os comboios sem protecção automática nenhuma…
Mas agora compreende-se. Foi o deficit.
Isto de se ser o 10º no PIB tem os seus perigos. Foi assim que a Polónia começou, nos anos 80. Era o 10º também, na altura.
Pelos vistos não é a ideologia que resolve as coisas. O contexto multi variáveis complica tudo.
E actores como chefes de estado não ajuda, especialmente se o petróleo não está barato (seria interessante estudar a correlação entre os êxitos do reaganismo e do tatcherismo e os preços baixos do petróleo e a abundância do petróleo do mar do Norte; e também a correlação entre a crise política em Inglaterra neste ano da graça de 2009 e o declínio da produção de petróleo do mar do Norte).
De modo que os gurus economistas têm muito trabalho aqui na Califórnia para fazer.
Sugiro primeiro que vejam o “Crossing over”, como diagnóstico da imigração ilegal.
E depois, talvez rever os princípios da religião oficial, de que é preciso crescer sempre, e aumentar a produtividade.
É que se uma produção contribui para o agravamento da situação global (por exemplo, produzir automóveis agrava as coisas porque contribui para a extinção do petróleo e para o aumento da poluição), aumentar a produtividade ainda é pior.
Concordarão os distintos economistas em passar a avaliar a produção, isto é, o PIB? Em passar a calcular o valor das coisas em vez do custo e do preço da coisa? (“o economista é quem sabe o custo de todas as mercadorias, mas desconhece o valor delas”). Vale a pena investir em desenvolvimento de programas de toques e jogos para telemóvel?