quarta-feira, 25 de março de 2015

As árvores da avenida Rio de Janeiro, a fala de governante e os reformados do metropolitano

Não sei se a câmara de Lisboa se a nova junta de freguesia de Alvalade decidiram substituir as árvores da avenida Rio de Janeiro.
Que deixavam cair secreções que tornavam o pavimento pegajoso, ou escorregadio se chovia e o calçado era de borracha.
Ou pior ainda, que sujavam os automóveis que estacionavam sob as árvores.
Alguém se terá queixado.
E eu lembrei-me da crónica de há muitos anos, de Isabel da Nóbrega, dos amantilhos que sujavam o peixe que as ambulantes vendiam na praça da avenida D.Carlos e galante, atendendo ao protesto das vendedoras, o inspetor da câmara mandou cortar a tília-mãe que os gerava. E Isabel da Nóbrega perdeu a sua tília.
Ignoro o nome das árvores que a fúria da junta (ou da câmara?) mandou cortar.
Davam uns frutos, não comestíveis, umas bolinhas do tamanho de uma bola de golfe.
Faziam sombra no verão e eram de folha caduca no inverno.
Ninguém deve ter protestado por tirarem a luz. Deve ter sido pelas secreções. Deve ter sido pelo atávico processo. Alguém que conhecia alguém na sede própria, decisória. E sem divulgar o pretendido, a junta (ou a câmara?) executou a sentença.
É verdade que algumas árvores, noutros locais do bairro que não na avenida Rio de Janeiro, estão condenadas, ou porque as raízes ou o porte ultrapassaram o limite,ou por doença.
Mas mesmo assim, dizem as boas práticas que não se cortam todas, só parte, e daói a uns anos, quando as novas já tiverem expressão, cortam-se outras.
Não foi o caso, foi apenas a expressão prepotente de quem tem o poder decisõrio mas não sabe informar e não sabe tornar participativo um debate sobre o que se vai fazer.
E que, pelo vistos, não tem questões mais prementes onde gastar o dinheiro.
Não tem importancia, tudo isto, exceto que é mais um exemplo da falta de respeito pelos cidadãos. Uns poucos conseguem influenciar quem decide, e quem decide considera que o fez legitimamente.
É um conceito de democracia que não me parece correto, por ser secretista.
O segredo estimula a informação assimétrica, que por sua vez impede o funcionamento regular de um coletivo porque beneficia uma minoria.
É por isso que é um conceito de democracia deficiente.
Tal como a fala da governante, orgulhosa de ter os cofres cheios, de dinheiro que não é nosso, que é dos credores, exprimindo a sua limitação de contabilista que fez bem o seu trabalho, ao substituir uma divida de juro alto por uma divida de juro baixo, mas que não compreende como funcionam as coisas para que o PIB cresça, como as importações têm de ser superiores às exportações, e como tem de haver investimento reprodutivo, porque senão a dívida continuará a crescer.
E que na sua prepotencia, sentindo-se investida de missão salvífica como profetisa, ocorre-lhe a diretiva divina: "multiplicai-vos".
É como as árvores da avenida Rio de Janeiro, simples falta de respeito pelos cidadãos, pela forma e pelas ideias que orientam os decisores.
Ou como acontece com o lento castigo dos reformados do metropolitano a quem o governo mandou cortar os complementos de reforma. A quem teve uma carreira contributiva de mais de 40 anos, que começou a trabalhar na adolescencia. A quem aos 55 anos a empresa convidou a partir para a reforma porque lhe pagaria a diferença entre a pensão da segurança social e os últimos vencimentos. A quem chamou privilegiados em vez de valorizar quem ganha menos ou de proporcionar emprego aos desempregados. Por isso me choca ler nas páginas do mesmo jornal que chamou privilegiados aos reformados do metropolitano o que a senhora jornalista olimpicamente escreveu: "... existe ainda um interesse exagerado e mesquinho, embrulhado em preconceito, pelo salário, pelo carro ou pelas férias do vizinho do lado (e pelos complementos de reforma dos reformados do metropolitano, não?). Persiste um apontar do dedo , que resulta no constrangimento de quem tem salários elevados como se fosse pecado trabalhar muito e bem (os reformados do metropolitano não trabalharam muito e bem, não fizeram um metro com indicadores ao nível dos homólogos estrangeiros?) e,por isso, ganhar adequadamente bem (os complementos de reforma são uma remuneração diferida no tempo). Traumas antigos, mesquinhez e miséria de muitos transformam frequentemente os "ricos" (e os reformados do metropolitano) em instrumentos de catarse..."
Curioso, concitar o escandalo dos cidadãos mal pagos ou desempregados contra os reformados do metropolitano com os seus privilégios, como o complemento que lhes cortaram...
Ou simplesmente, desprezar os cidadãos, os privilegiados e os mal pagos e desempregados.
Foi claro objetivo da  troika e do governo que quis ir mais além, desvalorizar quem trabalha e o produto do seu trabalho, para aumentar a diferença entre o nosso país e os paises mais desenvolvidos da União Europeia.
Nunca esconderam, ao menos são francos, na manifestação do seu desprezo pelos cidadãos e pelo seu trabalho.

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