Enviei o seguinte comentário ao autor do artigo https://www.publico.pt/2025/10/25/local/entrevista/aceitamos-carros-mal-estao-chamase-motonormatividade-2152003 no Publico sobre sinistralidade rodoviária de 25out2025:
Parabens pelo excelente artigo e obrigado pela informação nele contida. Não conhecia o conceito de
Ian Walker. De facto há uma tirania do automóvel.
Recordo o desabafo do representante de Marrocos
num seminário sobre segurança rodoviária, que não valia a pena tomar medidas contra a
sinistralidade, porque se os acidentes acontecia era porque era a vontade de Alá.
No fundo, é a
convicção geral de que os acidentes só acontecem aos outros porque a nossa relação com o
automóvel é sagrada porque ele ´o símbolo perfeito de afirmação pessoal.
Eis porque numa
campanha publicitária não devem mostrar-se imagens de acidentes, devem mostrar-se exemplos de
bom comportamento para gerar imitação. E da Psicologia sabe-se que se uma coisa é um símbolo de
afrmação é porque existe uma insegurança ou insificiência própria que tem de se compensar (com
todos os riscos decorrentes da concretização dessa compensação, provar que se sabe conduzir a 200
km/h, por exemplo).
No nosso caso parece-me que se estão criando modelos ideais com eliminação dos automóveis nas
nossas cidades por um lado por culpabilização dos automobilistas, e por outro importando propostas
de contextos de cidades muito diferentes das nossas. Isto é, as nossas principais cidades exibem
graves distorções do conjunto mobilidade urbanismo que não se verificam em cidades que
privilegiam os modos suaves mas em que a quota do transporte público, nomeadamente
metropolitano pesado, e a extensão da sua rede, são muito superiores, sendo certo que a eliminação
das distorções requerem redução significativa da quota do automóvel ligeiro e subida significativa da
quota do transporte público sem congestionamento rodoviário.
Por deformação profissional, tento abordar este tipo de problemas com números, procurando-os nas
estatísticas da ANSR e do Eurostat.
Tomemos o caso dos atropelamentos. Nos relatórios da ANSR de 2024 http://www.ansr.pt/Estatisticas/RelatoriosDeSinistralidade/Documents/2024/Relat%C3%B3rio%20An ual%20de%20Sinistralidade%2024h%20e%20fiscaliza%C3%A7%C3%A3o%20rodovi%C3%A1ria%20de %202024.pdf
temos que a percentagem de peões vítimas mortais foi de 15% , ou 69 para um
total de fatalidades em acidentes no Continente para todo o tipo de vítimas de 463 ( total a 24horas;
estimo um fator de 1,3 se quisermos obter as vítimas mortais a 30 dias).
De 5 em 5 dias morre um
peão atropelado, de 3 em 3 meses morem atropeladas tantas pessoas como as vítimas do elevador
da Glória. Mas como diz nos seus artigos, o total de vítimas mortais nas estradas portugesas equivale
a um acidente como o do elevador da Glória de 9 em 9 dias, ou à queda de 3 aviões por ano.
Tem razão Ian Walker, perdemos a capacidade de reagir quando se trata do automóvel.
Voltando aos peões, foi muito raro o tratamento jornalístico do atropelamento fatal de Flávia
Vasconcelos, a bióloga brasielira falecida numa passadeira de peões na avenida Snu Abecassis. O
Público deu a notícia, mas não vi em lado algum na comunicação social uma investigação mínima de
como terá acontecido o acidente. . E isso justificava-se porque teve impacto internacional.
Decorrerão entretanto investigações por parte das companhias de seguros ou de eventuais ações de
indemnizaçãoes por parte de familiares.
Tentei no local verificar as condições do atropelamento e
recolher algumas informação. Sob reserva de não haver certezas, parece que o acidente ocorreu por
falta de visibilidade, ao anoitecer e com a vítima vestida de preto, entre o peão e o condutor do carro
que a atropelou e que ultrapassava pela via da direita provavelmente a velocidade próxima de 30
km/h (contrariamente ao anunciado, não há limitação de velocidaade na avenida abaixo dos 50
km/h) outro veículo que circulava na via da esquerda e que abrandara ou parara para o peão passar.
O Código da Estrada deveria ser alterado na aproximação das passadeiras de peões,
interditando formalmente a utrapassagem de veículos que estejam parados ou abrandando noutras
vias e só permitindo a ultrapassagem da passadeira, no caso de ultrapassagem de veículos parados,
depois de paragem completa.
Mas como diria Ian Walker, não vejo as entidades competentes com
capacidade para reagirem nesse sentido (ou melhor, não têm recursos humanos nem orçamento
para darrem andamento). Posso enviar-lhe, se quiser, um texto meu sobre este acidente (out2025).
Recentemente foi noticiado o julgamento do taxista que atropelou mortalmente um dois dois jovens
mortos em passadeiras de peões na av.Estados Unidos e na av.das Forças Armadas (agosto e
setembro de 2024). São descritos os factos e entrevistados familiares mas omitem-se
sistematicamente os pormenores técnicos que uma vez esclarecidos poderiam servir para evitar a
repetição do acidente. Observo que na av.Estados Unidos foram introduzidas alterações na marcação
do pavimento e colocados pilaretes de orientação que "acalmam" o tránsito, mas continua sem
qualquer fiscalização do excesso de velocidade, também sistemático.
Alargando a análise nos relatórios da ANSR
(http://www.ansr.pt/Estatisticas/RelatoriosDeSinistralidade/Pages/default.aspx ) e do Eurostat
(https://ec.europa.eu/eurostat/statistics-explained/index.php? title=Road_safety_statistics_in_the_EU), tivemos no primeiro trimestre de 2025, em Portugal
continental, 42 vítimas mortais (a 24h) em autos ligeiros, 28 em motos e 8 em bicicletas. E que fazem
as autoridades e a comunicação social? campanhas de sensibilização sem alcance suficiente e
notícias segundo critérios editoriais, de rápido esquecimento e sem a eficácia de uma boa campanha
publicitária .
Talvez Ian Walker dissesse que é assim que aas pessoas querem (ou com que pactuam),
os acidentes acontecem.
Sobre o relatório do Eurostat relativo a 2023, temos nas estradas as seguintes vítimas mortais por
milhão de habitantes : média na EU e EFTA 45, em Portugal 60 ( 6ª posição em 30) , nos Paises
Baixos 34 e na Suecia 21.
Isto é, não se faz em portugal o suficiente, o número de vítimas mortais em
2024 manteve-se.
Falta de recursos humanos, falta de organização, falta de planeamento, erros de
nomeação de dirigentes, falta de vontade política e da sociedade civil, falta de orçamento e falta de
coordenação técnica e financeira com a Comissão Europeia.
Será interessante comparar as percentagens de vítimas mortais por modo de transporte (mais
correto seria a referência aos pessoas.km percorridos, mas não se dispõe desses valores; as
percentagens elevadas de VMs em autos na Suecia e de bicicletas nos Paises Baixos refletem maiores
pessoas.km nesses modos nesses países):
EU Portugal Paises Baixos Suecia
Totais (100%) 21286 642 608 227
autos ligeiros 44% 36% 33% 47%
motos 17% 26% 8% 13%
bicicletas (inclui mopeds) 12,5% 9,6% 39% 15%
peões 18% 17% 12% 12%
Se tiverpaciencia para ler uns textos meus sobre esta problemática posso enviar-lhos:
- comentário ao relatório da PSP sobre sinistralidade de trotinetas e bicicletas (mai2025)
- acidentes em autoestradas com falta de rails de segurança (jul2025)
- campanha publicitária em Lisboa liberdade e mobilidade (out2025)- motociclos e semáforos (nov2024)
Da minha parte, pode utilizar os elementos que forneço como bem entender, com ou sem referência
ao meu nome.