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terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

O medo

Acontece por vezes, a um idoso como quem escreve estas linhas.
Dobra-se uma esquina e voltamos atrás 30 anos.
É que já não via o meu amigo e colega de curso há 30 anos.
Está quase na mesma, com mais algumas rugas , claro, mas inconfundível com a sua voz apaixonada. Não o reconheci imediatamente, graças ao boné para proteger do frio a calva que já tinha e os óculos.
Revoltado com a situação e com a nossa geração.
Longe estão os tempos em que nos encontravamos ao almoço, ele vindo do edifício dos CTT, nas esquina da Conde de Redondo com  Luciano Cordeiro, eu vindo da subestação do Metro na Sidónio Pais.
Discutiamos a fibra ótica e a passagem das centrais eletromecânicas para as de comutação espacial (ainda não havia centrais de comutação temporal, ao tempo que isto foi...).
E agora discutimos a desgraça, a destruição das empresas estratégicas de interesse público.
Foi quando eu lhe disse que tinha escrito um livro, umas crónicas de 36 anos de vida profissional no metropolitano, e que um amigo e colega do Porto o tinha classificado como muito "farpeado", de que as pessoas com influencia podem não gostar e limitar a divulgação. Ou coisa pior ainda.
Foi o que o meu amigo de há 30 anos respondeu.
Que tinha também começado a escrever as suas crónicas dos CTT e depois da PT, mas que tinha desistido. Por medo. Assim dito, por medo, de ser processado por difamação.
Pois, medo. De facto, ninguém está livre de ser processado. Mas como pode escrever-se sobre
a vida profissional em empresas estratégicas de serviço público, sem deixar o testemunho de que os decisores abusaram do seu poder, impediram a gestão participativa e à vista do público, subordinaram as suas decisões ao interesse privado em detrimento do interesse das populações (será isto subjetivo? não está patente?)
E não sendo possível, é isso difamar?
Aguardemos as crónicas de umas telecomunicações.

domingo, 24 de novembro de 2013

Para si, a privatização dos CTT


Exmo Senhor Francisco de Lacerda,
dignissimo presidente do conselho de administração dos CTT


Assunto: Privatização dos CTT

V.Exa não me conhece.
Sou um dos destinatários que receberam a sua carta subordinada ao tema em epígrafe.
A carta, envolta num sobrescrito com o símbolo dos CTT e um endereço "Para si", é um convite que V.Exa faz de forma delicada e simpática, formulando o desejo de que eu "esteja cada vez mais presente na vida de uma grande empresa".
Tal delicadeza e simpatia merecem, só por si, que a carta seja respondida.
Faço-o porém com tristeza , por não poder aceitar o convite.
É-me impossível subscrever ações depois de a minha família ter sido prejudicada pela insignificancia das indemnizações correspondentes ao "crash" da bolsa no seguimento da crise petrolífera de 1973.
Também o que colegas meus perderam depois da euforia da reabertura da bolsa, levados, levados sim, pelo pensamento do capitalismo popular de Thatcher, ao subscrever ações de que tiveram de se desfazer, me impede de aceitar o convite.
Podia ser por uma razão ideológica, o não poder subscrever ações, mas não é, é um simples ato de gestão, ao observar os insucessos que citei, ou as declarações de economistas com cargos dirigentes na politica nacional, alertando para os riscos bolsistas ou confessando privilegiar produtos financeiros mais seguros, como certificados de aforro ou obrigações do Tesouro.
Melhor dizendo, segundo a sabedoria popular, que é um ato de boa gestão, não querer mexer em equipa ganhadora, como a carta de V.Exa expressamente refere que é, ao enumerar os bons resultados alcançados.
É também um ato de prudencia, ou talvez do que V.Exa poderá chamar de desconfiança popular de um empreendimento do capitalismo popular, se pensarmos que atenção poderão dar os grandes investidores que irão poder tomar as decisões sobre a estratégia da empresa, aos pequenos acionistas.
E não só de desconfiança popular, se pensarmos que nem sequer se sabe se os CTT poderão formar um banco postal.
Não gostaria de retribuir a simpatia do convite de V.Exa com um trocadilho desagradável, mas peço-lhe que me releve o considerar o apelo à participação nesta privatização como "populismo capitalista".
E que considere nessa relevação  o choque que profundamente feriu a minha sensibilidade ao ler, no prospeto cuja leitura em www.ctt.pt a carta de V.Exa também expressamente refere não dispensar, que a subscrição só deverá ser feita por pessoas "relevantes".
Dirá V.Exa que é o inócuo jargão financeiro.
E eu direi que "relevante", e isso o devemos à revolução francesa, é a igualdade na expressão "uma voz, um voto", independentemente do número de ações subscritas.
E isso, perdoará, nada tem de ideológico, só tem de indissociavelmente ligado ao processo de evolução do pensamento humano, de desenvolvimento das técnicas de gestão das comunidades organizadas em estruturas a que poderemos chamar, às comunidades, "nação", e à organização das estruturas, "estado".
Ninguém quer impedir quem quer que seja de se dedicar ao negócio de transporte de encomendas ou de  mensagens digitais.
Mas isso não quer dizer que a "nação organizada" não possa ter as suas estruturas de correio e tenha de prescindir dos dividendos que a sua boa gestão consegue, até porque atualmente já existem lojas concessionadas... (se agora partirmos de um ponto de vista ideológico, aceitar-se-ia a privatização dos CTT como legítima se ela fosse decidida sem pressões externas, quaisquer que elas fossem, por 2/3 dos deputados da Assembleia da República ou de referendo popular convocado para o efeito - assim como está a ser feita esta privatização, não o será em meu nome, contribuinte que sou, e como tal ainda pequeno acionista dos CTT).

Por tudo isto, que muito me entristece, não posso aceitar o seu amável convite.
Mas retribuo-o, convidando-o a rever, certamente com prazer a partilhar, o filme de Kevin Costner, o Carteiro, como tratamento metafórico do tema da coesão nacional, e o filme Il Postino, ou o Carteiro de Pablo Neruda, de Michael Radford e Massimo Troisi, como tentativa de compreensão da alma humana e dos seus anseios.

Os meus melhores cumprimentos e votos de sucesso profissional

F.Santos e Silva
BI 1453978


PS em 25 de novembro 
1 - enviei aos CTT o email nos termos acima; recebi um simpático email resposta das relações públicas dos CTT informando que a minha mensagem estava a ser analisada para ser dada uma resposta satisfatória ao cliente. Aguardemos.
2 - Fui informado que uma das funções da JP Morgan, contratada para a assessoria da privatização, é a de manipular os preços das ações nos primeiros dias da oferta pública em bolsa: se os preços estiverem abaixo do intervalo previsto, a JPMorgan compra ações; se estiverem acima, vende. Não posso garantir, por não ser a minha área, mas penso que há países em que esta manipulação bolsista é punida por lei; é verdade que em Portugal não há leis que o proibam, mas é curioso pensar que os atuais governantes se arrogam a defesa do "mercado" a funcionar livremente
3 - Ainda no capítulo do vácuo de legislação sobre este assunto, de assinalar que no "prospeto" de consulta em www.ctt.pt se encontra um compromisso de não divulgação a moradores nos USA, Japão ou Canadá dos pormenores da subscrição, talvez porque existam as tais leis restritivas da manipulação bolsista. E esta, hein? como diria Fernando Peça.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Mais uma vez, não em meu nome

O senhor secretário de estado insiste, quer privatizar os CTT ainda este ano. Mais uma vez, não em meu nome.
Por mais que a troika insista nessa receita, e queiram imitar os ingleses (numa altura em que o relatório da Cruz Vermelha que 10% dos ingleses vivem na pobreza, que o fosso das desigualdades aumenta e que a Cruz Vermelha vai voltar a distribuir alimentos aos pobres) é uma decisão que deveria ser referendada por 2/3 dos contribuintes.
Além de ser mais uma decisão de má gestão.
Os CTT dão dividendos. São apetecíveis até para os grupos da banca. Parece que "oferecem" 600 ilhões de euros.
Não se vendem os aneis quando eles dão lucro.
Depois não venham queixar-se, como no caso do eventual imposto de que Moreira da Silva timidamente falou (há toda a moralidade de lançar um imposto sobre emissores de CO2 como as centrais de gás e de carvão, por mais uteis que sejam à intermitencia das eólicas; aliás, há mais meios de compensar a intermitencia) de que não se pode cumprir o contrato.
Pois não, quando se está em crise não se pode, para grande desgosto dos acionistas e dos senhores gestores das grandes empresas.
Todos, sem exceção, deverão contribuir para o reequilibrio financeiro do país, mesmo que isso envolva algum incumprimento dos contratos internos nesse país.
Desde a redução das altas taxas de rentabilidade das garantias financeiras das PPP aos respetivos bancos até à redução das compensações de "reequilibrio" às concessionárias, e à redução das benesses do banco de Portugal (o senhor governador do banco de Portugal, tão insistente na austeridade dos cidadãos, deveria ter pudor em vez de recusar dar informações sobre as benesses do seu banco - o tratado de Lisboa deve ser revisto, deve acabar-se com os privilégios dos bancos centrais, desde o BCE aos bancos nacionais, e com a distorção das baixas taxas de juro do BCE aos bancos comerciais e altas taxas de juro dos bancos comerciais às finanças públicas).
É uma vergonha, andarem a impor taxas e contribuições extraordinárias às pessoas e a privatizar um serviço público de coesão nacional quando se poderia obter dinheiro com a renegociação dos contratos das PPP e do tratado de Lisboa.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Adeus, nossa televisão



O leitor, se for benevolente, terá lido a pequena nota no perfil deste blogue, em como o seu cabeçalho permanecerá negro enquanto as decisões do poder central europeu derem mostras de falta de solidariedade na Grécia, lá como cá.
Parece ainda longe o dia em que o cabeçalho do blogue viajará pelo arco-íris, como a deusa grega, depois de ver nas notícias a desligação prepotente do sinal da televisão pública grega.
Dizem ainda as notícias que a televisão pública grega não dava prejuízo.
Concluo que foi uma atitude abusiva do governo para benefício das televisões privadas, como castigo dos "funcionários públicos" que lá trabalham, e como concretização das ideias extremistas de minimização do Estado impostas pelos membros, a maioria não eleitos pelos cidadãos e cidadãs, dos orgãos centrais da União Europeia, do Banco central europeu e do FMI.
Salvo melhor opinião, o ser eleito não dá a um governo o direito de fazer isto.
Como não dá o direito de privar a população idosa da televisão gratuita no processo da TDT (quando um governo quer castigar o seu povo desliga-lhe a televisão), nem de privatizar os CTT (ao menos concessionasse, como vem fazendo parcialmente) , nem de estrangular os estaleiros de Viana do Castelo, nem de prescindir dos lucros da EDP e da  REN (e dos CTT) por transferencia para empresas estrangeiras.
Por mais que esteja no memorando, não invalida a regra dos 2/3 de representação eleitoral para poder fazer-se isso ou, em ultima instancia, a submissão a referendo universal.
Democracia não é aritmética eleitoral de maioria simples .
Hitler ganhou eleições, Estaline também.
O Marechal Hindenburg não exerceu os seus poderes de contenção do monstro, e aos povos soviéticos fo-lhes sucessivamente retirada a sua capacidade de resistencia (num processo que devia ser estudado para melhorar a ligação entre o poder político e a população, em vez de se assistir a uma demonização de tudo o que seja política de esquerda no sentido do Estado de bem estar e de participação direta).

A prepotencia grega é assim um exemplo histórico de aplicação do extremismo das ideias dos mesquinhos burocratas do centro europeu, tributários da revolução de Haieck e de Friedman de estrangulamento da ação pública para dar espaço aos grandes grupos privados (coisa aliás comentada há muito em Marx).
Parafraseando Thatcher, "em países democráticos há coisas que não se podem fazer".




sexta-feira, 31 de maio de 2013

O sucesso e o erro

O sucesso do livro de Tim Harford "Adapte-se", em que defende que o sucesso começa sempre pelo fracasso, fez-me lembrar o meu post de dezembro de 2010:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2010/12/o-sucesso-e-o-erro.html

Talvez o erro de que falou Caio Salúcio quando escreveu que "o sucesso tem uma estranha capacidade de esconder o erro" não seja o fracasso de Tim Harford, provavelmente mais perto da experiencia que antecede uma saída correta e adaptativa para um falhanço.

A tentativa, segundo Tim Harford, deve seguir as regras de Palchinsky. A principal diz que qualquer empreendimento deve prever a possibilidade de ser um erro e deve prever a saída de segurança ou recuo.
Infelizmente o atual governo acha que não comete erros.
Não tem planos B e não admite um recuo que possa salvar as suas iniciativas.
Pena encaminhar a privatização dos CTT para uma perda para os cidadãos e cidadãs. Nem sequer tem a desculpa de que é uma empresa pública deficitária. Não é. E o problema principal é que não vai prever no processo a possibilidade de recuperar o controle da empresa quando ficar evidente que a privatização teve o grave inconveniente de perder dividendos e de deslaçar a coesão entre os cidadãos  e cidadãs (até os USA sabem que não se mexe no carater público dos correios, porque unem  população dispersa). Entretanto, posicionam-se os interessados, com especial apetite pelo banco postal.
È a prosmicuidade mais evidente entre poder politico e poder económico, mas escondida, como o erro escondido pela força de quem teve sucesso, pelo formalismo democrático (e contudo, a tecnica de sondagens de opinião permitiria ao atual governo saber o seu graus de suporte pelos cidadãos e cidadãs).



Uma prova de que os CTT são uma empresa inovadora:

PS em 3 de junho de 2013 - Segundo o DN, os CTT já encerraram 66 balcões. Alguns deles foram substituidos por comerciantes locais. Analogamente ao que diz o anuncio, podem fazê-lo, mas não é a mesma coisa. É clara a intenção de preparar a empresa para  a privatização, com "oferta" da licença de banco postal. Salvo melhor opinião, embora esta intenção estivesse no programa eleitoral do governo atual, dada a importancia social do assunto (forma de coesão populacional), deveria a privatização ser submetida à confirmação explicita de 75% do voto expresso dos eleitores. Infelizmente, a desculpa do costume (imposição do memorando) continua a ser-nos imposta, sem que os decisores queiram debater o assunto.


sexta-feira, 30 de julho de 2010

Déjà vu

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Segundo o noticiário, os CTT vão alugar como arrendatário à Mota-Engil a sua nova sede, por cerca de 3,4 milhões de euros por ano, depois de terem vendido os seus edifícios emblemáticos, de que o mais importante será o dos Restauradores, ficando a pagar renda aos novos proprietários.
Não há volta a dar aos economistas que se lembram destas coisas.
Está um cidadão na sua casa, de que é proprietário, e um senhor economista vem explicar-lhe que é um bom negócio vender a casa e ficar a pagar renda ao novo proprietário.
É possível que o negócio seja bom, mas o cidadão tem todo o direito a dizer que só vende se lhe derem o triplo do valor comercial da sua casa, para poder comprar outra equivalente e cobrir as perdas das transferencias, impostos incluidos.
Também pode o cidadão raciocinar que, estando os juros a 1%, que o valor dos prédios, para o negócio lhe ser vantajoso, deveria ser pelo menos 200 vezes o valor da renda anual.
Como não foi nada disto o que aconteceu com os CTT, parecerá que o negócio não foi bom.
Assim, de facto, para quê manter os CTT no setor público?
Talvez comentar que isto não acontece nos USA, em que ninguém pensa em privatizar os correios nacionais (claro que há concorrência), nem em fazer disparates destes (disparates do ponto de vista do perdedor no negócio, claro).
Ignoro se haverá algum mecanismo jurídico que permita neste caso recolocar a Mota-Engil no seu lugar, como aconteceu com o disparate do nó de Alcantara, devidamente comentado, do ponto de vista técnico, neste blogue.
Mas como cidadão contribuinte nacional devo registar a esperança de que, tal como no caso de Alcantara, a Assembleia da Republica garanta a justiça, e, como cidadão contribuinte de Lisboa, exprimir a minha total oposição à saída da estação de correios dos Restauradores.
É mais um passo na desertificação da Baixa.
Não está bem.
Os CTT não têm o direito, como qualquer instituição o não tem, de contribuir para a desertificação da Baixa.
A Expo não precisa de tanto novo-riquismo provinciano.
E se pus o título déjà vu a esta pequena crónica dos financiamentos pouco esclarecidos, foi porque, a avaliar pelos gastos com consultores que as administrações dos CTT têm vindo a dispender (por exemplo, a Accenture recebeu encomendas de cerca de um milhão de euros entre 2006 e 2009; no mesmo período os contratos com consultores ascenderam a 11 milhões de euros), todo o negócio com a Mota-Engil terá resultado do esforço dos consultores.
O mal não é haver consultores; o mal é que eles são normalmente intermediários que podem subverter o relacionamento entre a empresa cliente e os verdadeiros especialistas externos de cujo "know-how" a empresa cliente necessita.
Curioso ainda, a reforçar a sensação de déjà vu, é que a ultima reestruturação dos CTT resultou de um contrato com a Deloitte, sendo que o responsável desta pelo trabalho tinha sido membro do CA dos CTT de 2005 a 2007.
Não fui eu que descobri, foi a auditoria da Inspeção geral de Finanças, que achou estranho o contrato com a Deloitte ser de 200 mil euros e, com os adicionais, ter atingido 1,1 milhões de euros.
Déjà vu, esta intromissão de consultores a prejudicar empresas públicas, através de estudos de reestruturações com a participação de colaboradores umas vezes na consultora, outras vezes na empresa pública.
Aguardemos para ver como a Assembleia da Republica vai tratar este caso.
Quanto mais não seja para ver como se comportam o poder do voto e o poder económico.

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