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quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Desde Valencia, uma voz lúcida




O municipio de Valencia tem 790 mil habitantes e a sua área metropolitana  1,54 milhões. 
São valores próximos  dos de Lisboa, o que vem a propósito para analisar o número de passageiros da ligação de alta velocidade a Madrid. 
Cerca de 2,5 milhões de viagens Valencia-Madrid em 2018, quota de mercado de 89% comparativamente com o avião (distancia em linha reta: 286 km) Ver  https://www.lasprovincias.es/comunitat/valenciamadrid-alcanza-record-20181228001414-ntvo.html
Uma estimativa não otimista para a ligação em alta velocidade Lisboa-Madrid daria 2,2 milhões de viagens, para 4,4 milhões por avião  (ver https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/25384/1/Nuno_Maranhao_Eco_TP_2014%5BCD%5D.pdf  ) .
Por outro lado estima-se para a ligação Lisboa-Porto 730 mil passageiros/ano por avião (ver https://www.jornaldenegocios.pt/empresas/transportes/aviacao/detalhe/tap-aumenta-numero-de-voos-diarios-na-ponte-aerea-lisboa-porto--) e 1,5 milhões por Alfa pendular (ver http://webrails.tv/tv/?p=32734).
Dir-se-ia que, a menos que uma análise custos-beneficios desse resultados extremamente negativos (o que é improvável, porque a rentabilidade das ligações ferroviárias é assegurada pela complementaridade do serviço de mercadorias tanto no caso de Lisboa -Porto, com linha nova para passageiros deixando a atual linha do norte para mercadorias, regional e suburbano, como para Lisboa-Madrid, com serviço partilhado), se justifica a imediata construção das novas linhas de alta velocidade para o Porto e para Madrid. Novas linhas, não remendos, que não se fazem autoestradas aproveitando as estradas convencionais.
No entanto, considerando o anuncio do XXI governo dos investimentos para 2030, parece que os decisores estão contentes com o âmbito restrito da rede ferroviária nacional. 
Dir-se-ia antes que se sentem bem aprisionados nas suas ideias e na realidade tão distante dos padrões europeus, aprisionada também a economia do país.
Estão, além disso, empenhados em difundir a falsa imagem de uma Espanha sem bitola UIC. É verdade que a região de Mérida, Cáceres e Badajoz se queixa da falta de investimento na linha de alta velocidade com bitola UIC para Madrid, cuja obra avança lentamente. Não admira, os governos portugueses têm-se sucedido a desinteressar-se da obra, a contentar-se com remendos em bitola ibérica. Pior ainda na linha de Salamanca, apesar da posição bem definida da CIP emdefesa de linha nova Aveiro-Salamanca por Almeida. É preciso chegar a Medina del Campo (perto de Valladolid) para encontrar a bitola UIC. Mas não é verdade que a Espanha não tenha bitola UIC e não tenha planos para a expandir. Não é bonito querer enganar os eleitores.
Curiosamente, na mesma fonte de que retirei os dados de Valencia, reparei numa noticia local, desta vez sobre estratégia rodoviária:
O ministério de fomento aprovou o aumento do número de vias (carriles) da circular externa rodoviária de Valencia. São cerca de 288 milhões de euros (estimo eu que sejam 60 km). A porta voz de um partido politico aplaudiu, com os argumentos distantes das razões técnicas  que os politicos costumam utilizar para convencer os eleitores. Com palavras ocas como "melhorias funcionais, segurança viária e integração ambiental".
Mas pela voz de Monica Oltre, vice-presidente do Conselho da Generalitat Valenciana, a crítica fundamentada:
«Se tendrá que ver la sostenibilidad del proyecto porque más carriles son más atascos», dijo, poniendo como ejemplo un caso de obstrucción arterial. «Si lo que tienes es una obstrucción de venas, no haces más by-passes, sino que dejas de tener colesterol y haces dieta sana. Esto es lo mismo, si pones más coches, más carriles, tendrás más atascos porque las salidas del bypass al terminar serán las que son», advirtió.
También apuntó que «igual es necesario revisar la movilidad en este tiempo, en el siglo XXI, y el abuso que se hace de los coches» y apostó por la necesidad del Corredor Mediterráneo «para quitar transporte por carretera». Por ello, «cualquier obra pública de esta envergadura tenemos que analizarla con el paradigma de la transición ecológica y de lucha contra el cambio climático. Cuando a la luz de esto se haya analizado este proyecto, podremos tener más datos para pronunciarnos».
Lá como cá, existe uma entidade superior que tem sempre a melhor solução, mesmo que os argumentos técnicos sejam claros a demonstrar o erro.
Neste caso, é o paradoxo de Braess: quando aumentamos a capacidade duma ligação rodoviária saturada, provocamos um aumento de procura porque inicialmente melhora o escoamento e portanto a atratividade, mas em seguida atinge-se novo nível de saturação. É por isso que a solução é a transferencia para o modo ferroviário. No caso de Lisboa, os decisores têm tentado aplicar o paradoxo de Braess ao contrário: reduzindo a capacidade das vias em Lisboa, para diminuir a sua atratividade e assim reduzir o tráfego automóvel. Como compensação, oferta de serviços de bicicletas  e trotinetes elétricas. Sem melhoria da rede de metro, ou prometendo com a linha circular o que ela não pode dar, aumento da capacidade dos canais de acesso a Lisboa (aumentando a procura do interface do Cais do Sodré e, consequentemente, a sua saturação, deixando por servir a área ocidental da cidade).

sábado, 12 de novembro de 2016

O Metropolitano de Lisboa em duas entrevistas, nos primeiros dias de novembro de 2016


Introdução 
Provavelmente, nas sociedades primitivas ainda nómadas, em situações de emergência e de fuga, funcionaria uma escala de prioridades com o objetivo de preservar o  grupo, com eventual sacrificio dos individuos mais fracos, ou menos importantes para o futuro do grupo. Mais recentemente ficaram registados os casos do sacrificio sistemático dos primogénitos, coisa consagrada pelas religiões de povos como os cartiganeses e fenícios, ou a eliminação das crianças com deficiência, ou simplesmente com indícios de menor reação às ameaças exteriores, como tambem ficou registado na antiga Esparta.
No fundo, mecanismos biológicos para a manutenção da espécie,fenómenos a estudar na antropologia, na sociologia, na psiquiatria (aquela questão dos níveis dos neurotransmissores que afetam a capacidade de adesão ou, ao menos , de compreensão, do que o outro diz, por exemplo).
E um desses mecanismos era a importancia dada aos velhos que mantivessem a capacidade de pensar. Em situações de emergência, a assembleia de seniores, graças à experiencia dos seus membros, analisava e propunha soluções, a executar pelos mais fortes ou a seguir por toda a comunidade. O étimo de senado mostra isso mesmo. Em situações de fuga, a prioridade era dada às mulheres em idade fértil, aos homens mais fortes, aos velhos, e só depois aos jovens (estes a sacrificar como carne para canhão). Porque em qualquer altura as mulheres em idade fértil reporiam o nível demográfico e a capacidade de propor soluções dos velhos era sempre necessária.
Provavelmente a evolução tecnológica, a sedentarização, a proteção sanitária e os mecanismos de pacificação contribuiram para o desprezo dos velhos, considerados agora como um peso inútil a sustentar pelas novas gerações.
E contudo, são os grandes grupos económicos que mostram o poder dos velhos, através dos mecanismos da herança (ver Picketty, 900 páginas, ou Zuckman, 150 páginas), de Angola ao Casaquistão, do Continente ao Pingo Doce, da corticeira às tintas Barbot, da Zara ao Santander, o discurso da tomada de posse na renovação das gerações termina sempre como na anedota, obrigado, papá. Na verdade, não podemos responsabilizar a ferramenta, que não tem culpa do objeto de quem a maneja, não devemos acusar de cumplicidade no assalto ao banco o fabricante do automóvel que serviu de apoio. Mas seria desejável que a experiência dos mais velhos pudesse beneficiar a comunidade, como fazem aqueles grupos...

Questões deontológicas
Eis porque hesito sempre que escrevo sobre questões de transportes. Posso estar a mostrar uma reforma mal aceite, apesar de na altura pensar que estava a fazer a transição de acordo com os manuais, ou a petulancia de um saber superior ao dos mais novos. Talvez devesse cortar com o passado, mas não, insisto, embora receando beliscar os princípios deontológicos que mandam respeitar o trabalho dos outros, não desmerecer dos mais jovens, nos quais aliás tenho confiança. Não quero que eles possam ser acusados de me passar informações que afetem a imagem do metropolitano ou dos seus dirigentes. Por isso o que escrevo baseia-se fundamentalmente nas memórias e registos que tenho e no que vem a público, tal como escrevi, preocupado com questões deontológicas, em:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2016/08/depois-da-reposicao-dos-complementos-de.html

em texto que aliás enviei em agosto de 2016 ao secretariado da administração do metropolitano com o pedido de transmissão ao seu presidente. Em julho as comissões sindical e de trabalhadores tinham divulgado publicamente as condições de degradação no metropolitano e as ameaças para a retoma da procura depois das férias. Alinhei uma série de sugestões e questões como a falta da encomenda de rodados e da admissão de 30 trabalhadores que não mereceram qualquer resposta.

Existem perturbações
E agora é a campanha dos meios de comunicação social sobre as perturbações na linha azul, na linha amarela, na linha verde, na linha vermelha. Claro que existem perturbações, mas como mostrou a amostragem que fiz, não exageremos:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2016/10/uma-amostragem-o-metropolitano-de.html

E eis que sou surpreendido, nesta euforia jornalística com as deficiências de funcionamento do metro, por duas entrevistas televisivas nos primeiros dias de novembro de 2016.

Entrevista de 7 de novembro com o senhor presidente
Na primeira, na SIC, em 7 de novembro, respondendo à reporter sobre o que se está a fazer para melhorar o serviço prestado, o senhor presidente do metropolitano diz que estão a reparar os 18 comboios avariados (18 comboios parados em 111, não 18 carruagens como dito na entrevista) e a formar 30 novos maquinistas.
Ora, é público através das informações das comissões sindical e de trabalhadores, que os rodados encomendados ainda não estão disponíveis (previsão durante o resto do mês de novembro de 2016), e que ainda não há 30 novos funcionários para libertar 30 agentes de estação para o curso de  novos maquinistas (seleção a iniciar e concurso interno previsto para fins de novembro de 2016).
Será suscetibilidade minha, mas cresce-me ao ouvir isto um sentimento de vergonha, pela incompreensão quando atempadamente os técnicos propuseram a encomenda de novos rodados, pelas demoras burocráticas, com a desculpa não confessada de que se quer cumprir o défice. Pelas inaceitáveis demoras nas obras de Arroios (as sugestões que eu já fiz...), de conclusão das obras de adaptação de Colégio Militar a pessoas com mobilidade reduzida e início dessas obras em Campo Grande (já realizada a ligação da superfície ao primeiro piso), Entrecampos, Jardim Zoológico, Baixa-Chiado (falta ligação da superfície ao mezanino).  Pela incapacidade de dinamizar a elaboração de projetos e programas base a submeter a candidaturas de fundos europeus, como aliás já se tem feito, mas não vejo os jovens colegas do metro e Ferconsult lançados nessa via.
Uma nota ainda para a falta de esperança na entrega da gestão da Carris à CML. Não tenho confiança na sensibilidade para as questões de planeamento de transportes no seio da CML, nem acredito nos autocarros de gás como solução. Continuo a acreditar que deviamos ter um operador único a gerir e a estudar o planeamento das redes de transporte na área metropolitana de Lisboa (confesso também a minha falta de confiança na solução "autoridade metropolitana  de transportes", por manifesta falta de meios e recursos humanos).

Entrevista com o senhor ministro no dia da inauguração da web summit
E no dia 8, no dia da web summit, a segunda entrevista, do senhor ministro do Ambiente que tutela os transportes (eu diria que o peso dos transportes justificaria que fosse o contrário e que os transportes estivessem integrados em ministério como o da economia, energia ou infraestruturas, ou melhor, como antigamente, nas Obras Públicas, mas as pessoas gostam de inovações).
http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/web-summit/confusao-no-metro-de-lisboa-deveu-se-a-numero-invulgar-de-utentes-diz-ministro

Questionado pelo excesso de afluência na linha vermelha, a caminho de Oriente, disse uma verdade, que apesar de tudo foi cumprido o plano de intervalos entre comboios, no caso 6 minutos e 15 segundos, e reconheceu uma evidencia, que quem trabalha no metropolitano o faz em condições deficientes e com dedicação.
Mas também disse que a linha vermelha não pode ter intervalos inferiores a 6 minutos e 5 segundos por razões de engenharia e de exploração.
Concordo que por razões de exploração possa dizer-se isso, é uma questão de dimensionar em conformidade a chamada almofada, destinada a absorver perturbações, isto é, oscilações em torno do intervalo médio.
imagem retirada do noticiário da RTP, cais de Alameda II cheio depois da partida do comboio; felizmente as pessoas respeitam a faixa amarela  e as de trás não empurram

Mas não posso concordar com a invocação de razões de engenharia. Aliás, preferiria ver um técnico do metro a falar nas razões de engenharia e no intervalo possível do que o senhor ministro.
A entrevista induziu em mim  a nostalgia do tempo em que fazia as contas do intervalo mínimo na linha, que é o mesmo que calcular a capacidade máxima de transporte de passageiros por hora e por sentido ((=60min/intervalo em min) x lotação do comboio). E fi-lo para o sistema ATP/ATO (automatic train protection/ automatic train operation) que esteve a funcionar entre 2000 e 2009 e que foi desativado quando a linha foi prolongada de AlamedaII a S.Sebastião II. Quem tinha o poder e a falta de conhecimento técnico decidiu assim, a pretexto de custos de manutenção (claro, a segurança e a rapidez paga-se), embora a principal causa das perturbações, aliás dentro do razoável, estivesse relacionada com o modelo de gerador taquimétrico em uso no material circulante. Não guardei os cálculos, de modo que os refiz agora, com a reserva de, como disse acima, nada ter pedido aos colegas no ativo, para que alguém mal intencionado não os possa acusar de me passar informações. O que segue é de minha exclusiva responsabilidade.

Cálculo do intervalo mínimo entre comboios
O intervalo entre comboios depende da distancia de libertação dos sinais, que nesta linha é maior porque foi projetada para ATP com sinalização mais simples, de recurso, apenas com sinais de saida e de manobra (sem sinais de entrada), Isto é, um comboio só pode sair duma estação depois do comboio precedente ter saido da estação seguinte e deixado um espaço de cerca de 200 metros depois da estação para servir de distancia de travagem de emergencia. A condicionante do intervalo será assim a soma do tempo de percurso, mais o tempo de saida e entrada de passageiros, mais o tempo para o arranque e atingir os tais 200 metros livres. Ou seja, cerca de 2 minutos e meio.
Mas não é isto que impõe o limite mínimo do intervalo, é o estrangulamento do término de S.Sebastião II, inserido numa zona de condições topográficas desfavoráveis, em curva e em rampa, e com uma ligação de serviço com a linha azul.  Ver esquema no fim do quadro Excel seguinte.




En passant, esclareço que as condições desfavoráveis do término resultaram de:
1- os decisores não terem aceite a solução de maior proximidade entre as duas estações de S,Sebastião de correspondencia com o pretexto de servir melhor a zona da Duque de Ávila
2 - os  decisores, incluindo os da CML, terem alterado o traçado original, mais retilineo e mais plano (se nos lembrarmos que as obras de ampliação de Arroios chegaram a estar adjudicadas mas foram canceladas por imposição da CML, que não queria obras simultaneamente em S.Sebastião e Arroios, eventualmente por razões eleitorais - como se mudam as vontades - compreende-se porque não gosto de ver ministros ou a CML a falar de  questões técnicas de metropolitanos) .
Na realidade, o comboio de Saldanha só pode sair depois do comboio precedente ter carregado passageiros no cais único de inversão e depois de ter passado pelo aparelho de via e deste ter voltado à posição de via direta.
De acordo com a linha  14  do quadro, esse tempo, incluindo uma almofada de 30 segundos para absorção de perturbações, é de 5 minutos e 28 segundos se considerarmos a velocidade atualmente limitada a 45 km/h, ou de 5 minutos e 16 segundos, se repusermos o limite de 60 km/h.

Não há portanto razões de engenharia que não sejam falta de material circulante disponível  para o intervalo ser de 6 minutos e 5 segundos. Aliás, o horário inaugural do término de S.Sebastião II tinha um intervalo de 5 minutos e 35 segundos.
Mas evidentemente, por razões de exploração pode haver, basta aumentar o tempo da almofada (para absorver o "engarrafamento" de descidas e subidas nas escadas do lado poente de S.Sebastião II que não foram dimensionadas para chegadas e partidas - poderia reservar-se uma para subida e outra para descida).

Pode ainda melhorar-se o intervalo introduzindo o chamado condutor de reforço, um maquinista que aguarda a chegada do comboio em S.Sebastião na extremidade nascente e entra logo para a cabina, substituindo o maquinista anterior. Obriga a mudar de maquinista em todas as inversões em S.Sebastião. Exige um pouco mais de esforço aos maquinistas, mas o esquema chegou a funcionar há muitos anos, antes da extensão de Alvalade para Campo Grande.
Poupa-se o tempo de mudança de cabina e chega-se aos valores da linha 16:      4 minutos e 8 segundos para limite de 45 km/h e 3 minutos e 56 segundos para limite de 60 km/h.

Finalmente, pode ainda reduzir-se o intervalo se se fizer a inversão no aparelho de via a jusante. Tem o inconveniente de estar em rampa, mas o material circulante permite isso. Por razões de segurança, convirá prever a presença de um maquinista ou inspetor na extremidade nascente do cais de inversão enquanto o  maquinista faz a mudança de cabina. Como se encontra longe da estação (por causa da ligação de serviço) a economia de tempo não é muito grande.
Na linha 22 do quadro dão-se os valores:   3 minutos e 52 segundos para o limite de 45 km/h e 3 minutos e 40 segundos para o limite de 60 km/h.

Espero não me ter enganado nas contas nem nas distancias.

PS - a propósito da web summit, não podendo constituir-me em investidor, embora alinhasse num crowdfunding, gostaria de ver a concretização de aplicações ou equipamentos robotizados para informação aos passageiros do estado de funcionamento dos elevadores, do intervalo real praticado em todas as linhas (em vez do antipático anuncio "existem perturbações") ou para guiamento e informação nas estações de cegos e amblíopes.



sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Atualidade no nosso mundo dos transportes na primeira semana de janeiro

1 - suspensão das greves silenciosas no porto de Lisboa (silenciosas porque se limitavam às horas extraordinárias, embora no caso do porto de Lisboa isso possa ter consequencias graves) e retoma do processo negocial da contratação coletiva - agradou-me muito a notícia. Embora tenha muitas discordancias, do ponto de vista técnico de transportes, da senhora ministra e da senhora diretora do porto de Lisboa (aquela ideia de transferir o porto de Santa Apolónia para o Barreiro de águas nada profundas...mas apreciei muito o seu trabalho nos radares de Lisboa) , apreciei a sua vontade de conseguir entendimentos entre sindicatos e operadores. Pelo menos por enquanto. Votos de que levem a bom porto a negociação das convenções de trabalho;

2 - a TAP anunciou a abertura de 600 vagas para pilotos, pessoal de cabina e manutenção - a mim parece-me estranho que uma companhia que estava à beira da falencia antes da privatização agora tenha planos como este, como a reformulação da encomenda dos 53 aviões, como a substituição dos aviões da Portugália, a renovação dos interiores dos aviões para maior ocupação, os sharklets, a concertação com a Ana para explorar o aeroporto da Portela e o do Montijo até ao tutano, tudo com milhões de euros de que o Estado é avalista. Parece-me estranho, pronto, mas como não sou especialista, só posso dizer que desconfio, que não acredito, por ordem de capacidade decisória, no senhor Neeleman, nem no senhor Barraqueiro (já chegou a acordo com a REFER sobre a taxa de uso pela FERTAGUS? já tem uma proposta para pagamento do uso dos seus autocarros das instalações públicas da central de camionagem de Sete Rios?); numa coisa estamos de acordo, a gestão das empresas públicas, demasiadas vezes, tem sido muito má; tem de se mudar a forma de escolha dos gestores das empresas públicas
3 - a anulação das concessões (subconcessões) dos transportes urbanos - apreciei a coerencia e alguma coragem do governo atual ao anular as concessões, considerando o  clima desfavorável criado pelos pensadores de direita adeptos do consenso privatizador de Washington e pelos comentadores inflamados e agressivos na internet contra os trabalhadores das empresas públicas. Votos de sucesso à nova administração, embora por razões de coerencia minha eu preferisse a nomeação após concurso público (será influencia no meu pobre espírito do exemplo do governador do banco de Inglaterra), não tivesse nada a objetar á concessão á Transdev do metro do Porto, sem prejuízo de se ir definindo o padrão futuro com a participação dos respetivos trabalhadores e alguma moderação dos desejos dos "autarcas" envolvidos, e, finalmente, eu mantivesse receios de ser lesiva das finanças municipais a responsabilidade pela gestão dos transportes urbanos, para mais havendo pouca experiencia especializada em metros na câmara de Lisboa e alguma dificuldade na articulação com as câmaras limítrofes (nestas coisas, os modelos a considerar, não direi seguir cegamente, mas a estudar e ver até onde pode ir entre nós, é a RATP  e Londres, esta como exemplo de grande município aglutinador de municípios originais; um país deve contar com áreas metropolitanas de peso significativo na sua economia e isso não é compatível com o atual esquema disperso de municipalidades à volta de Lisboa e do Porto, o que se reflete danosamente, como o senhor ministro do Ambiente reconhece, na organização do território e nos transportes) . Se quiserem dar alguma importancia a este pobre blogue, podem os novos decisores utilizarem como bem entenderem os argumentos a usar contra pedidos de indemnização pela reversão das concessões em:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2016/01/dialogo-de-reformados-do-metro-no.html
e considerarem as formas de financiamento dos transportes urbanos listadas na comunicação ao debate sobre a mobilidade em 2014 na assembleia municipal da câmara de Lisboa em:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2014/06/ultima-sessao-do-debate-sobre.html





segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Da rua do alecrim ao cais da ribeira e ao terreiro do paço



Rua do Alecrim, com um cacilheiro e o pórtico da Lisnave na bruma



Alguns prédios antigos de Lisboa são reabilitados. Aumentam a procura e a oferta de alojamento turístico ou para estudantes estrangeiros. Bom para a balança de pagamentos, mas a reabilitação não me parece que seja sempre estrutural, nem que preveja, sem emparcelamento, infraestruturas mínimas para atrair habitantes de rendimentos normais, como espaços para garagens e logradouros.
 Um exemplo de residencias para rendimentos acima dos normais:
 Que resultará da obra? Não vi o letreiro da ordem, com essa informação.


Pôr do sol na barra do Tejo:



Vistos do cais da Ribeira, obstruindo parte da visão do rio de quem está em Santa Catarina, os dois blocos da nova sede da EDP, empresa com cerca de 17.000 milhões de euros de dívida, com 1 milhão de euros de dividendos exportados e contribuinte para o défice tarifário



Antes serem exigidos 50 centimos com direito a talão dedutível no IRS do que ter as instalações sanitárias fechadas na estação do Cais do Sodré. Mas fico a pensar que o valor comercial dos componentes ali deixados pelos cidadãos e cidadãs passantes, então se considerarmos a tão necessária ureia para que os carros diesel tenham o seu óxido de azoto convertido no inócuo e fertilizante nitrato, supera em muito o imposto cobrado.


Surpresa, para mim, cidadão pouco informado sobre os planos da câmara de Lisboa para o Cais do Sodré (insondáveis serão os desígnios das consultas públicas, que só se dá por elas no termo do seu prazo...oque convenhamos é muito mais conveniente para os objetivos pretendidos) - está montado o estaleiro na esplanada sobranceira ao rio (quando não das maré vivas) :


Poente da ribeira das naus, terraço dos adoradores do sol poente (eu também sou adorador do sol). Os guias da cidade e as aplicações geograficamente heterogéneas de qualquer smartphone já impõem aos turistas como obrigatórios a visita ao cais das colunas e o ritual do pôr do sol


Os mesmo adoradores do sol vistos por trás:


E eis um exemplo de como não se devem atirar pedras aos decisores embora haja motivos para isso. A travessia da zona ribeirinha central da cidade limita o transporte individual e isso por um lado é bom, mas também dificulta o transito de autocarros. O traçado do metro não ajuda, e possivelmente a câmara de Lisboa desculpar-se-á que as obras no cais do sodré vão agilizar a circulação dos elétricos. Eu não acredito. Em princípio, a zona central da aldeia não deve ser atravessada à superfície nem por transporte individual (especialmente por transporte individual) nem por transporte coletivo.  A solução é conhecida, tem várias hipóteses, chegou a ser prevista quando a linha de metro começou a ser construida entre a baixa e santa apolónia, mas esgotou-se a disponibilidade financeira: túnel rodoviário do campo das cebolas à 24 de julho. Ou eliminação dos constrangimentos da 1ª circular (av.Ceuta-Av.Berna-Av.Mouzinho de Albuquerque). Ou tunel em semi circulo sob Alfama. Ou tunel de módulos pré-fabricados afundados e encostados à frente ribeirinha. Mas país pobre, adapte-se à poluição desta procissão.


A procissão poluidora em sentido inverso (um dos principais problemas do transito de Lisboa é a sistemática utilização de dois sentidos em todas as artérias de comunicação). Tão perto do rio, neste ponto já é insuportável o cheiro dos fumos do escape:


Junto do ponto de onde se tirou a fotografia anterior, um mal apresentado portão do torreão poente, com o painel anti-inundação degradado e quase ausente:



Na esquina do torreão poente, uma antiga régua de monitorização de assentamentos. Ainda se fará a monitorização? E não se pensa fazer? E se não se pensa fazer, coisa que ponho como hipótese por falta de informação, que nome poderemos dar a decisores, que acham que não vale a pena fazer?


Portão do torreão poente virado para o terreiro do paço:


Nunca me consegui libertar de Cesário Verde, desde que o li no longínquo liceu.
Por mais que a cultura dominante promova nos meios de comunicação social a glorificação da cultura urbana auto-gratificante, auto-suficiente e pró turista, não me faz esquecer a angústia e o cheiro da poluição opressiva das ruas de Lisboa e a "soturnidade, ...a melancolia, ... as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia,...que me despertam um desejo absurdo de sofrer".
Transporte coletivo é para diminuir a poluição.
Mas autocarros diesel, ainda por cima em carreiras por cima de linhas de metro ... não, ... não, ... não...


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

O medo

Acontece por vezes, a um idoso como quem escreve estas linhas.
Dobra-se uma esquina e voltamos atrás 30 anos.
É que já não via o meu amigo e colega de curso há 30 anos.
Está quase na mesma, com mais algumas rugas , claro, mas inconfundível com a sua voz apaixonada. Não o reconheci imediatamente, graças ao boné para proteger do frio a calva que já tinha e os óculos.
Revoltado com a situação e com a nossa geração.
Longe estão os tempos em que nos encontravamos ao almoço, ele vindo do edifício dos CTT, nas esquina da Conde de Redondo com  Luciano Cordeiro, eu vindo da subestação do Metro na Sidónio Pais.
Discutiamos a fibra ótica e a passagem das centrais eletromecânicas para as de comutação espacial (ainda não havia centrais de comutação temporal, ao tempo que isto foi...).
E agora discutimos a desgraça, a destruição das empresas estratégicas de interesse público.
Foi quando eu lhe disse que tinha escrito um livro, umas crónicas de 36 anos de vida profissional no metropolitano, e que um amigo e colega do Porto o tinha classificado como muito "farpeado", de que as pessoas com influencia podem não gostar e limitar a divulgação. Ou coisa pior ainda.
Foi o que o meu amigo de há 30 anos respondeu.
Que tinha também começado a escrever as suas crónicas dos CTT e depois da PT, mas que tinha desistido. Por medo. Assim dito, por medo, de ser processado por difamação.
Pois, medo. De facto, ninguém está livre de ser processado. Mas como pode escrever-se sobre
a vida profissional em empresas estratégicas de serviço público, sem deixar o testemunho de que os decisores abusaram do seu poder, impediram a gestão participativa e à vista do público, subordinaram as suas decisões ao interesse privado em detrimento do interesse das populações (será isto subjetivo? não está patente?)
E não sendo possível, é isso difamar?
Aguardemos as crónicas de umas telecomunicações.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Teoria do transporte de passageiros - miniensaio

resumo: recordam-se aqui algumas fórmulas fundamentais para a exploração de uma linha de transportes, e alguns gráficos que traduzem as relações entre o fluxo de tráfego e a densidade de veículos numa via rodoviária, nomeadamente na formação de engarrafamentos. Tenta-se ainda o relacionamento com o comportamento dos condutores. Fontes: metropolitano de Lisboa e "Critical mass", de Philip Ball, ed.Arrow Books, 2004


Um indicador importante para o dimensionamento da exploração de uma linha de metropolitano, de comboios suburbanos ou de autocarros, é a capacidade de transporte de passageiros numa secção da linha, por hora e sentido.
Por analogia com a mecânica dos fluidos, essa capacidade é a medida do fluxo de tráfego de passageiros, determinada a partir de matrizes de deslocação casa-emprego, de inquéritos e do planeamento de organização do território.
A capacidade horária da linha depende da capacidade c' de cada veículo e do intervalo de tempo ∆t entre comboios, ou tempo de espera máximo, em segundos, segundo a fórmula:

                                   C = 3600.c' / ∆t

O número n de veículos em toda a linha, nos dois sentidos, é igual ao quociente entre o tempo total de percurso dos dois sentidos da linha, incluindo os términos, e o intervalo entre comboios (n=T/∆t).
Considerando a velocidade média  v em km/h de circulação em toda a linha, incluindo os términos, e o comprimento L em km da linha de ida e volta, incluindo os términos, verificam-se as seguintes fórmulas:

                                  ∆t = 3600.L / v.n
                             
                                  C = c'.v.n / L

                                  n = 3600.L / ∆t .v

Para uma dada capacidade de um comboio, o intervalo de tempo entre comboios é imposto pela capacidade horária desejada (tanto maior quanto maiores a capacidade do comboio, a velocidade média e o número de comboios em linha, e tanto menor quanto maior o comprimento da linha).
O número de comboios necessário em linha, para esse intervalo entre comboios, dependerá então da velocidade média que puder manter-se (o número de comboios será tanto maior quanto maior for o comprimento da linha e tanto menor quanto maiores o intervalo e a velocidade média).

Tabela de valores construida para uma linha de 10 km (ida e volta mais términos) e comboios para 400 passageiros:



Para uma capacidade horária desejada de 10.000  pass./h ter-se-á um intervalo entre comboios de cerca de 150 segundos:

Entrando com o valor de 150 s no gráfico que relaciona ∆t  com v obtem-se nas curvas de  n  o valor de 10 comboios se puder garantir-se a velocidade média de 23-25 km/h.
Se for possível garantir uma velocidade média um pouco superior a 31 km/h serão suficientes 8 comboios (mais os 10% para imobilização para manutenção):




Outra forma de apresentação do resultado, sob a forma do gráfico da capacidade da linha em função do número de comboios para várias retas de velocidade:



Esta análise mostra assim a importancia das duas grandezas, a capacidade horária ou fluxo de tráfego, por um lado, e o número de veículos em linha ou densidade espacial de veículos, por outro.
Mostra-se que a mesma capacidade (ou intervalo de tempo entre veículos) pode ser alcançada com um menor número de comboios se se conseguir uma velocidade média maior.



Esta conclusão pode tornar-se perigosa quando se faz a transição para a análise rodoviária, sabendo-se que existe uma correlação fortemente positiva entre a velocidade média de deslocação dos automóveis e a sinistralidade rodoviária. Dados da ANSR indiciam que uma redução de 5% da velocidade média induz uma redução do número de acidentes de 30%.
Essa correlação deve-se aos condutores, para além de razões comportamentais, não disporem de toda a informação sobre o espaço à sua frente, nomeadamente sobre os indicadores de aderencia ao solo, de adequação às condições ambientais (por exemplo, o campo de visão reduz-se impercetivelmente ao aumentar a velocidade, a existencia de nevoeiro reduz as referencias para a estimativa da distancia de travagem) e de aproximação de obstáculos, com a agravante de se tratar de variáveis aleatórias.

Considerando para simplificar uma via num unico sentido, com uma distribuição uniforme de veículos ao longo da via a velocidade constante, vamos estabelecer uma tabela para vários valores do intervalo de tempo entre veículos e de velocidade, para traçar os gráficos que relacionam o fluxo de tráfego (ou número de veículos por hora numa secção da via) com o intervalo de tempo entre veículos, e o fluxo de tráfego com a densidade de veículos na via (ou número de veículos por km):


Verifica-se que o fluxo de tráfego ou capacidade horária de transporte do sistema é inversamente proporcional ao intervalo de tempo entre veículos (ou diretamente proporcional à frequencia com que passam numa dada secção).
O fluxo de tráfego em veículos por hora é também igual ao produto da densidade espacial de veículos, em veículos por km, pela velocidade em km/h, aqui suposta uniforme.
Isto é, uma mesma capacidade pode ser conseguida com uma velocidade baixa mas elevado número de veículos na estrada (densidade elevada, intervalo de tempo entre veículos pequeno), ou com poucos veículos, mas velocidade elevada.
No gráfico seguinte representam-se as funções:
               -      F, fluxo de tráfego, em função da densidade por km D, sob a forma de uma reta para cada valor de velocidade v ;
               -      F em função do intervalo de tempo entre veículos, ∆t
Entrando no ponto 1 com uma densidade de 20 veículos/km, obtem-se no ponto 2, na reta para v=108km/h, o valor de F=2016 veículos/h.
Deslocando para o ponto 3 obtem-se na curva de F em função de ∆t o valor de 1,8 s, no ponto 4.



O gráfico seguinte mostra outra forma de relacionar a velocidade em função do intervalo de tempo entre veículos, com as curvas para a densidade de veículos por km, crescente com a diminuição de ∆t e de v  (densidade em veículos por km inversamente proporcional ao produto de ∆t por v).



Estas fórmulas e gráficos, após breve análise das principais regras do tráfego automóvel, permitem abordar o fenómeno dos engarrafamentos, nomeadamente em autoestradas, e a fundamentação das recomendações para otimização do tráfego, de que se destaca a moderação da velocidade e a manutenção de um intervalo entre veículos superior ao espaço correspondente ao tempo de reação para a velocidade efetiva.

Regras elementares (segue-se com um pequeno acrescento a exposição do livro Critical mass):
- a tendencia dos condutores é acelerar até atingir uma velocidade objetivo
- um dos objetivos da condução é evitar colisões
- é fisicamente impossivel aos condutores adotarem as acelerações e desacelerações exatas em função das condições envolventes, donde a tendencia é, após o tempo de reação, adotar uma desaceleração superior à do carro que seguia em frente e abrandou
- em qualquer condução existem flutuações de velocidade devidas a pequenas distrações ou acontecimentos fortuitos (atravessamento da estrada por animais, ressalto de pedras, picada de insetos, etc)
- a condução é influenciada  por fatores comportamentais, como euforia devida a acontecimentos de impacto social, consumo de drogas, afeções psicológicas, compulsão para afirmação própria ou compensação com manobras aberrantes como ultrapassagens pela direita, mudanças bruscas de via, excesso de confiança, etc.
Nestas condições, o tráfego é um sistema de variáveis aleatórias sujeito a níveis de ruído não controláveis de forma determinista, dependendo as condições de segurança mais de regras gerais que deverão ser observadas por todos do que análises racionais caso a caso em tempo real.
Do livro Critical mass retiro a este propósito uma citação de Freud (as análises da sinistralidade rodoviária deveriam dar mais atenção aos aspetos psiquiátricos da condução, e os condutores deveriam ter mais consciencia das limitações da sua liberdade individual numa estrutura partilhada com outros):

"A liberdade do individuo não é uma dádiva da civilização. Seria maior antes de existir qualquer civilização, embora na verdade não teria grande valor, uma vez que o individuo estava em má posição para a defender. O desenvolvimento da civilização impôs-lhe restrições, e a justiça exige que ninguém deverá escapar a essas restrições ... esta substituição do poder do individuo pelo poder de uma comunidade constitui o passo decisivo da civilização" (S.Freud, A civilização e os descontentes)  

No gráfico seguinte representam-se as trajetórias de 5 veículos em via única sob a forma de espaço em função do tempo, inicialmente com uma velocidade uniforme de 108 km/h para os 5 veículos, espaçados também uniformemente de 30m e 1s.
Esta é uma situação não recomendável, porque o intervalo de tempo entre veículos é inferior a 2 segundos, considerado o tempo médio seguro de reação a mudanças na envolvente (é possível conduzir com concentração de modo a ter um tempo de reação inferior a 0,5s, mas numa viagem longa é impossivel garanti-lo permanentemente).
Admitindo que no instante t=2 o veiculo 1 sofreu uma desaceleração imprevista, passando a velocidade de 108 km/h para 36km/h (o exagero é propositado), e que o tempo de reação de condutores e equipamento é de 1s, o veículo 2 percorre 30m (distancia percorrida em 1s a 108km/h) até ficar à distancia de 10m do veiculo 1. Segue-se uma travagem com uma desaceleração superior à do veiculo 1, para uma velocidade de 27km/h. Repetindo-se o processo, o veiculo n que vier atrás poderá ter de abrandar até à paragem total, em que tivesse ocorrido nada de extraordinário, apenas um abrandamento do primeiro veículo, que nem terá sido afetado pela propagação da perturbação para montante.
A deslocação de grupos de automóveis com intervalos de tempo inferiores ao tempo de reação médio de segurança é assim um equilibrio instável, agravado por comportamentos individualistas como ultrapassagens que obrigam outros condutores a travar. O condutor incorreto poderá chegar mais cedo mas a média geral e o consumo adicional de combustível da maioria piorou. Daí  a citação de Freud.




A figura seguinte representa, num gráfico do fluxo F em função da densidade por km D, a ocorrencia do fenómeno de engarrafamento atrás descrito e a evolução da sua recuperação.
Existe, para cada velocidade e em função do intervalo de tempo, uma densidade crítica para a qual o equilíbrio é instável.
No caso do gráfico, considerou-se, para um intervalo de 1s, uma densidade de 33 veículos por km, o que dá uma capacidade de transporte de 3600 veiculos/h.
Ocorrendo a perturbação, a velocidade vai sucessivamente baixando e a capacidade tambem, mantendo-se o intervalo em 1s, até ao ponto em que a densidade sobe para 160 veiculos por km e a a capacidade desce para 1640 veiculos/h.
Caso não ocorram novas perturbações poderá retomar-se a curva da velocidade de 108km/h mas num ponto de menor fluxo, isto é, num fenómeno de histerese.
Verifica-se assim que, para uma velocidade menor e um intervalo maior, por exemplo 72km/h e 2s, será maior a probabilidade de garantir em permanencia um fluxo mais elevado, 1800 veiculos/h , do que em condições de perturbação para 108km/h e 1s.
Esta a razão por que nalgumas autestradas alemãs existe, em horas de ponta, limitação de velocidade a niveis suficientemente baixos para, juntamente com uma distancia entre veiculos razoável, garantir o escoamento em permanencia.
Os dois ultimos gráficos são retirados do livro Critical mass e representam gráficos de engarrafamentos com medidas em tempo real do fluxo de tráfego e espaço-tempo efetuadas em autoestradas alemãs.







Nota: Existe uma edição em português , Massa crítica, de Philip Ball, ed.Gradiva de 2009 , preço 45 euros.
Pela aplicação de métodos e leis da física, de métodos estocásticos e da estatística de sistemas de variáveis aleatórias, à economia, à sociologia e à politica, este livro deveria ser estudado nas empresas de serviços, salvo melhor opinião, naturalmente.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Os metropolitanos na literatura - Rio de Janeiro

Um metropolitano é um  local de encontro de pessoas.
Por momentos há uma proximidade de histórias reais de gente diversa.
Também poderemos dizer o mesmo dos elevadores, por exemplo, mas nos metros há um talvez mais forte sentimento de partilha entre os que ocupam momentaneamente o espaço e uma maior facilidade em meditar na vida, em ter "um minuto de sossego".
Do outro lado do Atlântico chega uma crónica de Hugo Gonçalves, de que transcrevo do DN uma parte, mostrando que os metropolitanos têm vida, e que por isso também vivem na literatura, no caso da crónica, a observação da associação entre o metro e os telemóveis.


Retrato de rapariga

Está sentada ao meu lado, bonita, jovem, um piercing no nariz.
Passam as estações de metro e ela não tira os olhos do reflexo do seu rosto no telemóvel - não se trata de um espelho, mas da câmara que serve para ensaiar a sua beleza.
O comboio lasca a escuridão das entranhas do Rio, e ela prossegue, agora fazendo dezenas de selfies - beicinho e olhos de eyeliner. No resto do vagão, mais pessoas olham para os seus insetos eletrónicos, mantendo contacto com o mundo exterior, teclando para prosseguirem sempre presentes, para existirem continuamente diante de uma audiência que não vêem.
Ninguém quer estar sozinho, o cérebro liberto, um minuto de sossego. A promoção permanente do eu tornou-se compulsiva. Tudo o que fazemos, pensamos ou fotografamos é suscetível de nos engrandecer se ampliado no éter do ciberespaço - uma patética ilusão de eternidade e de autoimportancia. Esse egocentrismo e essa alienação impedem, por exemplo, o entendimento do que deveria ser tão óbvio: usar o telefone enquanto conduzimos implica o risco da própria morte ou de matar alguém. No entanto, nem a possibilidade de morrermos impede a burrice de teclar ao volante...
... ... "precisamos da habilidade de estar sozinhos, apenas estar, sem fazer outra coisa ao mesmo tempo. Foi isso que os telemóveis nos roubaram, porque agora queremos saber o que se passa a todo o momento"... ... ... as benesses da tecnologia são uma dádiva, mas estão aqui para nos servir e não para nos escravizar... ...




sexta-feira, 3 de outubro de 2014

No equinócio do outono de 2014, ainda os complementos de reforma

Alguém teve a ideia, uma vigília.
Numa estação de metro, para chamar a atenção dos passantes e, mais uma vez, da comunicação social.
Uma espécie de uma pequena "occupy a metro station", nada que se compare com a "occupy wall street", ou a "occupy Hong Kong", que desgraçariam a policia do senhor ministro Macedo.
E assim foi que nos encontrámos na estação do marquês, bem cedinho, ainda não eram as sete da manhã, quando os desprezados pelos senhores importantes do governo viajam nos transportes coletivos, saindo das tarefas noturnas de limpeza ou de manutenção, ou caminhando para a abertura e o apoio das células de produção.
Como escreveu Carlos Oliveira ao descrever o acordar de Lisboa:

Acordam pouco a pouco os construtores terrenos,
gente que desperta no rumor das casas,
forças surgindo da terra inesgotável,
crianças que passam ao ar livre gargalhando.
Como um rio lento e irrevogável,
a humanidade está na rua.


Receei que das correntes de gente que se deslocavam apressadas na correspondencia entre as duas linhas, escoando-se por entre os reformados com cartazes, saissem vozes criticas e discordantes.
È que o corte médio nos 1400 reformados foi de cerca de 640 euros, valor superior ao do vencimento de muitos dos que passavam.
Mas não, adivinho a contrariedade em alguns rostos, aqui ou ali uns resmungos, mas até comentamos entre nós que aos poucos as pessoas compreendem que o mal é a política de desvalorização dos salários que nos é imposta pela troika e pelos seus seguidores cegos, que prejudica todos os que trabalham em empregos não de favor.
Esta deflação mata-nos, porque os  preços baixos perseguidos pelo BCE e pela Alemanha só se conseguem com desemprego elevado, que faz baixar a procura nas regiões periféricas, enquanto nas regiões centrais e mais ricas condiciona o crescimento.
Muitos de nós já não aguentam muito tempo de pé. 
Sentamo-nos na esplanada do quiosque dos croissants e cafés. 
As reporteres da TV aproveitam para entrevistas que depois serão cuidadosamente visionadas antes da transmissão para não desagradar aos acionistas principais ou aos delegados do governo, no caso da RTP (estou a chamar delegados do governo aos admiinistradores, já que não foram nomeados após concurso público, como o é, por exemplo, o governador do banco do UK), a quem interessa que a opinião pública considere os reformados do metro uns privilegiados.
Um de nós explica pacientemente à reporter que se finge desinformada que os complementos de reforma se destinavam a aproximar o valor recebido após a reforma do ultimo salário, de acordo com uma fórmula válida no acordo coletivo da empresa desde 1973 e que deixou de ser aplicada aos novos empregados depois de janeiro de 2004.
E que a própria empresa, para apresentar indicadores de redução do quadro de pessoal, se empenhou em facilitar as saidas antes da idade da reforma.
 Isto é, havia um contrato em vigor que deixou de ser cumprido por uma das partes, e que agora a justiça nacional é rica em obstáculos que impedem o que se faz quando um contrato não é cumprido: ação de penhora sobre os bens imobiliários, que os há, ou sobre as rendas comerciais não ligadas ao transporte, que também as há (aluguer de fibra ótica, de espaços comerciais, de publicidade, de utilização do parque de sete rios para a camionagem).
Que era uma cláusula de privilégio? 
Sim, era, mas contratada numa altura em que os salários no metro eram inferiores ao das outras empresas públicas ou privadas.
E agora num sistema em que se mantem a exploração descarada dos trabalhadores menos qualificados (lá está, a bíblia da competitividade). E em que existem planos de pensões, de complementos e de créditos fiscais mais favoráveis em empresas como a PT, a EDP, o banco de Portugal, os CTT, a TAP...
E que se deve nivelar por cima e não por baixo, como os passageiros do metro compreendem.
Há casos em que o rendimento de um eletricista reformado era de 1400 euros brutos e foi reduzido de 700 euros, apesar de 42 anos de descontos. De um engenheiro com 40 anos de descontos que recebia 2000 euros e lhe foram cortados 1000 euros.
E quanto aos trabalhadores ativos atuais, apresentados pela comunicação social como privilegiados que absorvem os dinheiros dos contribuintes? 
Um maquinista próximo do nível máximo ganha menos de 1400 euros brutos; com os subsidios, nomeadamente de quilometragem, notando-se que estes não contam para o cálculo da pensão, pode chegar aos 2800 euros brutos.
No caso de um eletricista de sinalização, o vencimento não chega a 1200 euros e, com os subsidios, pode chegar a 1900 euros.
Mas tem de se reparar que são profissões que exigem qualificação, uma formação rigorosa em procedimentos de segurança, e que erros nesta profissão podem provocar acidentes.
Estranham-se estes vencimentos e estas pensões?
Então o que se deve fazer? pergunta a reporter, ao que o entrevistado responde: a primeira coisa a fazer é demitir o governo, para encetar politicas de crescimento.
Acho que essa parte foi cortada, bem como aquela em que o colega, já um pouco exaltado, dizia que era engenheiro, e não reconhecia competencia ao secretário de Estado Sergio Monteiro para opinar sobre as maravilhas das privatizações ou concessões das empresas ferroviárias de transporte,  nem ao senhor ministro Maduro para discutir e decidir quais os investimentos para os fundos comunitários, porque são assuntos de engenharia, não juridicos nem politicos.
Indiferente à discussão, o colega reformado especialista de telecomunicações, que se tem mantido atualizado, aproveitava o wi-fi gratuito na estação para seguir no seu smartphone o programa da rtp2 sociedade civil, dedicado, nem de propósito, aos idosos.
O sociólogo explica que o conceito de violencia sobre os idosos alargou-se, há por exemplo a violencia financeira... (como se aplica aos reformados em geral pelas pequenas reformas, e em particular aos reformados do metro, pela redução brutal dos rendimentos) ... e esta ideia desgraçada da centralização hospitalar, ajudando a desertificar o interior... (pois, para poupar impostos aos habitantes das cidades)...
Mas eis que vejo vinda do corredor do tapete rolante a figura do professor Cesar das Neves.
Eu simpatizo com o senhor.
Não é o caso do meu colega reformado que resmunga, aquele malandro, anda a dizer que somos uns privilegiados, como se não nos tivessem já imposto sacrifícios que não impuseram a outros. Como se a ameaça da concessão não seja por si só suficiente para os  protestos. Ele que se informe sobre o resultado das privatizações e concessões em Londres.
Mas eu simpatizo porque o vejo a frequentar os transportes coletivos.
Não é como o seu colega professor que foi um efémero ministro da economia mas que se desloca de carro com motorista para assistir a uma sessão num museu da Baixa ou para se deslocar das suas consultorias para as suas universidades. Nunca se lhe ouviu uma palavra sobre a insustentabilidade da importação de combustíveis fósseis para fazer deslocar carros com motorista de um lado par ao outro de uma cidade de tráfego automóvel saturado nas horas de ponta.
É isto que digo ao professor Cesar das Neves quando ele diz que não há dinheiro depois da bebedeira dos gastos com infraestruturas públicas como o metro.
Como justificar a compra de 10 000 automóveis ligeiros por mês para encher as cidades e as vias rápidas de acesso às cidades?
São mais de 2 000  milhões de euros por ano.
É verdade que o negócio dos importadores não iria gostar.
Que me diz, professor, do primeiro anuncio na TV a seguir ao programa do doutor Medina Carreira em que ele se cansa a dizer que não há dinheiro para as despesas sociais seja o Mercedes classe C de quase 40 000 euros?
É que há dinheiro, mas em segmentos bem delimitados da sociedade.
Não no grupo de reformados do metro a quem cortaram duma vez entre 40 a 50% do seu rendimento, a que se deve adicionar o corte geral nas pensões de segurança social, independentes dos complementos de reforma.
Mas o professor não me responde, embrenhado na discussão com outros reformados, a quem faz questão de garantir que compreende porque estão revoltados e sentidos.
Diz isso porque é cristão, e  é a sua maneira de aliviar através do perdão a sua consciencia.
Eu gostaria de lhe dizer, mas não posso, que ele já se perde na corrente dos passageiros que se engolfam nas escadas para  linha amarela.
Que também já fui cristão, e que penso ter conservado a compaixão, a solidariedade e o espirito de igualdade depois de me ter desligado das obrigações da fé.
E que por isso me comovo quando leio citações como esta, que encontrei no livro "os dez erros da troika em Portugal, a austeridade, sacrificios e empobrecimento", de Rui Peres Jorge, ed. a esfera dos livros:

"orgulhamo-nos hoje de ser suficientemente duros para infligir sofrimento aos outros. Mas se observassemos um costume antigo segundo o qual ser duro consistia em suportar o sofrimento em vez de o impor aos outros, talvez pensassemos duas vezes antes de tão friamente preferirmos a eficiencia à compaixão"  Tony Judt, em Ill fares the Land 

São já cinco da tarde.  
Continua uma presença significativa de reformados.
Já passaram por aqui deputados dos partidos que não os do governo, delegações da CGTP, da UGT, da APRE, do MRPP.
Salva-nos Tatiana e as suas colegas, que operam o quiosque de croissants, cafés e merendinhas.
Este governo vai manter o corte dos complementos. 
Total. 
Não quer saber da redução brutal de 60% a 70% dos rendimentos, entre 2013 e 2014. Preocupar-se-á com medidas de maior impacto mediático para se preparar para as eleições de 2015.
Vai manter a hipocrisia de "suspender" os complementos enquanto os resultados liquidos do metro forem negativos. 
Claro que, da forma como são contabilizados, com indemnizações compensatórias e distribuição de receitas arbitrárias, sem contabilizar os benefícios da poupança de emissão de CO2 e de importação de combustíveis fósseis, claro que são negativos.
Não há metropolitanos no mundo que os tenham assim positivos. 
Isto digo ao meu colega reformado, apoiado na sua bengala mas felizmente muito melhor depois da operação.
Ah, mas reparo agora, vindo dos lados da EDP, cuja sede ainda não se deslocalizou para a zona da Boavista e São Paulo, com vistas para o rio, a roubar campo de visão ao miradouro de Santa Catarina, que se aproxima Sergio Figueiredo, um dos administradores da fundação da EDP, que ainda não se deslocalizou para a beira do rio, a nascente do museu da eletricidade. Projeto  à beira rio de integração estética, oportunidade e razoabilidade financeira duvidosas.
Não é reconhecido pelos meus colegas porque não entra em programas de televisão como Cesar das Neves.
Mas eu sigo a coluna dele no DN e apreciei imenso a análise que ele fez da evolução do PIB dos USA e do UK depois da crise de 1930, do Japão depois da crise de 1992 e da zona euro depois da crise de 2008.  Relacionou a duração antes da retoma com as medidas tomadas, crescimento após investimentos públicos, para aplaudir as orientações de Draghi e do BCE para os ditos investimentos públicos.
Por isso me chocou o artigo que dedicou às empresas de transporte, às medidas do senhor secretário de Estado, acreditando que vai poupar as indemnizações compensatórias,  e à divida de 20.000 milhões das empresas públicas de transporte, 3 vezes superior á do BES.
Deu-me a impressão de que falava sobre o que não sabia.
Ignorará que a enorme hemorragia da dívida do metro se deve aos investimentos do Estado nas infraestruturas dos tuneis que foram indevidamente levados à conta do metro e não às contas públicas (embora o Estado tivesse dado o aval)? Ignorará que foram os comissários politicos nomeados pelos governos (porque não sujeitos às regras dos concursos públicos) que contrataram os swaps?
Mas valerá a pena argumentar, quando a dívida da EDP é de 17.500 milhões de euros e o défice tarifário que lhe compete é da ordem de 2.400 milhões de euros (pois, o preço do título de transporte no metro também está abaixo do custo de produção)?
Valerá a pena argumentar que sim, o transmontano paga com parte dos seus impostos o  metro de Lisboa, assim como eu pago com parte dos meus impostos o serviço nacional de saude em Trás os Montes, que no interior é por definição de economia de escala economicamente menos eficiente.
Isto me preparava eu para discutir com Sérgio Figueiredo quando ele se deteve a ler os cartazes colados nos pilares, "alguns dos reformados do metro estão em dificuldades", "o complemento de reforma era um contrato desde 1973" ...  mas num instante retomou o passo e desapareceu na multidão.  
Em breve eram oito da noite.
Rarefaziam os reformados presentes, que era dia de jogo na TV.
Tatiana recolhia os restos nas mesas da esplanada.
Ajudei-a a apanhar uns guardanapos de papel do chão.
Tinha apreciado a melhoria do negócio do dia que os reformados lhe tinham trazido, mas não estava certa de concordar com a iniciativa, embora lhe parecesse que os cortes dos complementos eram apenas uma faceta da politica de desvalorização do fator trabalho que também a afetava a ela, e que, de acordo com o que aprendera, nós, os reformados, eramos credores e não parasitas.
Assim como assim, licenciara-se em sociologia, não chegava a ganhar 300 euros mas tinha esperança de ser chamada para um projeto em que se inscrevera numa universidade de Madrid, para inquéritos e estatísticas sobre a mobilidade de pessoas e seu relacionamento com o urbanismo, a implantação industrial, a circulação automóvel, segundo os critérios que os discípulos de Durkheim utilizam, diferentes das demagógicas opiniões dos nossos politicos e comentadores. 
Os últimos membros da comissão de reformados embrulharam os cartazes, os últimos grupos despediram-se com o jogo no pensamento, e eu desci as escadas com o nosso colega animado com a recuperação da operação que fizera no serviço nacional de saúde, até à próxima manifestação.

Referencias:

sexta-feira, 7 de março de 2014

Portem-se bem, senão...


Pessoalmente, não simpatizo com algumas técnicas publicitárias, provavelmente por excesso de suscetibilidade minha.
No metropolitano, onde este anuncio está exposto, aconteceu uma vez afixarem um anuncio , integrado numa campanha de segurança rodoviária, que dizia: "Atravesse em segurança, olhe para os dois lados". Isto, numa estação de metro, era demais.
Neste caso, embora não tenha a gravidade de aconselhar uma travessia de vias eletrificadas,  parece-me revelar  insensibilidade na forma como se tratam os passageiros.
Diz o anuncio que a falta de validações pode levar a menos carreiras de autocarros, menos comboios na linha e portanto maior tempo de espera e, consequentemente, degradação do serviço.
1 - Quem lê não tem título de transporte válido. Trata-se de um utilizador que não liga muito à programação das suas atividades. Não se importará com a degradação do serviço. Quando ele estiver mais degradado adaptar-se-á à situação. É coisa que não o preocupa. Desenrascar-se-á.
2 - Quem lê validou. Pagou o seu direito a circular com um aumento de 1% quando a inflação foi de metade, é prejudicado pelos cortes de investimento e de operação para reduzir custos e é agora ameaçado com menos autocarros, menos comboios, mais tempo de espera e mais degradação? Porque os outros, os que não validaram, continuam a não validar? Querem que se organizem milícias de passageiros enfurecidos contra os que não pagam?
Na verdade, as perdas devido às fraudes  implicam degradação de serviço se não forem compensadas financeiramente. Depositar a principal responsabilidade no cartão viva ou zapping permite de facto reduzir o tempo que o motorista de autocarro dedica à entrada de passageiros e portanto melhora a produtividade em termos de numero de autocarros e de motoristas. Idem para o numero de bilheteiras do metro. Porem, os custos do equipamento e a antipática obrigatoriedade de comprar o cartão desapareceriam em grande parte se se gastasse algum dinheiro com um quadro de pessoal mais elevado nas brigadas de fiscalização.
Fiscalizar e organizar sistemas de cobrança eficazes é obrigação da empresa.
Garantir condições de cidadania, de educação dos cidadãos, de emprego e de convivencia saudável é obrigação do governo (ver constituição).
Se a taxa de fraudes é elevada, isso é consequencia principalmente de disfuncionalidade social e as suas consequencias constituem dívida do Estado à empresa. Acresce que os seus custos deveriam ser incluidos na análise custos-benefícios quando se despedem pessoas, se estimula o desemprego, se degrada o ensino e a assistencia na saúde, ou se baixa o nível cultural das emissões de TV (estou a pedir demais à capacidade de entendimento dos defensores dos despedimentos?). Por exemplo, os custos com circuitos internos de televisão de segurança pessoal deveriam ser levados à conta do estado e não da empresa, tal como o serviço da dívida. Qualquer gestor de empresa privada candidata à concessão/privatização pode explicar isto ao senhor secretário de Estado, não preciso de ser eu.
Quanto à empresa, apesar do relativo sucesso da gestora do sistema de cobrança sem contacto Otlis, seria bom que reconhecesse que o sistema não é amigável para utilizadores ocasionais e contem algumas deficiencias graves, desde a impossibilidade física dos equipamentos evitarem a fraude e portanto não permitirem a redução significativa da fiscalização (coisa de que pessoalmente informei os colegas decisores na altura, acrescentando que há outros meios eficazes de contagem de passageiros para distribuição de receitas de contagem eletrónica a simples inquéritos regulares), nomeadamente no caso dos autocarros, à dispendiosa aquisição e manutenção dos equipamentos (a título de exemplo, são raras as redes alemãs com sistemas semelhantes de canais fechados).

Enfim, se quisermos explicar às criancinhas, é o critério de equidade que nos governa. Uns são os bons, os que validam e registam a sua efatura no respetivo site. Outros os  maus, os que abraçam o passageiro que vai a passar pelo canal de acesso e os que não usam fatura. Quem paga os prejuízos são sempre os bons, e se for preciso aumentam-se os custos ou degrada-se o serviço.
Não, não estou a diabolizar os maus, estou a criticar a fábrica de maus em que se tornou o governo e a troika. O principal criminoso não é quem puxa o gatilho, é quem paga para que ele puxe o gatilho ou não exerça a função social que pudesse evitar que ele puxasse o gatilho.
Tal como na medicina, a fraude combate-se prioritariamente evitando-a, não castigando-a.