quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Economicómio XX – O leite derramado

Claro que não vale a pena chorar sobre o leite derramado.
Mas eu choro, nem que seja só para ficar registado (“for the record”).
Cidadãos produtores de leite derramaram ontem em terras de cultivo da Bélgica 3 milhões de litros de leite.
Razão: preços baixos. Eu não sou produtor mas já tinha reparado (o leite em Portugal chegou aos 39 centimos por litro) que havia preços de damping por aí.
Os senhores economistas que nos governam (a nós, Europa; até nem estou a referir-me ao governo local) insistem em conter os preços. Para isso é preciso aumentar o desemprego (aumentando o desemprego baixa o poder de compra, baixando o poder de compra baixa a procura, baixando a procura baixam os preços, baixando os preços o leite derrama-se nos campos), mas eles não se importam porque é o desemprego dos outros (volta, La Fontaine para explicares outra vez a fábula do lobo e do cordeiro). E a propósito deste caso do leite derramado, o que vão propor agora é reduzir as quotas de produção para , baixando a oferta, subir os preços.
Brilhante. Fez-me lembrar a minha professora de história e filosofia, casada com um ministro de salazar, mas de uma formação científica a toda a prova (foi ela que me ensinou a só acreditar num testemunho se a testemunha desse provas de fidedignidade, i.é, àquilo que Fernão Lopes disse, tem de se aplicar um desconto porque pertencia ao partido do mestre de Aviz) a contar indignada como os economistas brasileiros do princípio do século passado mandaram queimar café nas caldeiras das locomotivas do caminho de ferro; terão sido viagens com aroma, para fazer subir o preço do café).
Mais um triunfo de Adam Smith com o leite derramado, ou melhor, dos adam smithistas, porque Adam Smith teria capacidade para absorver os dados do processo histórico e o que os economistas depois dele foram carreando para o património da Humanidade (só alguns, claro).

O problema é que do lado de lá do Atlantico, mais ou menos por altura da 42ª avenida de East Manhattan, chega da ONU/departamento do combate à fome, a lamentação da senhora que preside ao departamento. Diz só isto: não tem orçamento para combater a fome, há 1.000 milhões de seres humanos a passar fome e bastaria 1% do orçamento, atribuído para re-equilíbrio dos comparsas do Lehman Bros e afins, para atenuar os efeitos da fome. Já não é o velho argumento: dêem-me 1% do orçamento da defesa (defesa?), é apenas a constatação de que a concentração (acumulação, como dizia Marx) de capital nas instituições financeiras ultrapassou a decência. Mas como é sabido, a decência não faz parte do léxico da Economia.
E pensar que durante estes anos todos (desde o Tatcherismo e o Reaganismo) nos andaram a dizer que o livre mercado é que resolvia os problemas do mundo.
Acumular capital no sítio errado já é mau, mas mentir?!
Fico pior que estragado quando me mentem.

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