Mostrar mensagens com a etiqueta Declaração universal dos direitos humanos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Declaração universal dos direitos humanos. Mostrar todas as mensagens

domingo, 29 de novembro de 2015

Terrorismo

Terrorismo - modo de impor a vontade pelo uso sistemático de violência ou coisa que amedronta (dicionário Houaiss)

Está assim a comunidade sujeita às consequências da prática por alguns, à margem dos mecanismos da democracia, de atos de terrorismo.
Desde atentados, à bomba ou a tiro, com morte de inocentes, à utilização da emenda constitucional dos USA para comprar armas e usá-las contra as pessoas que estão numa clínica onde se pratica a interrupção voluntária da gravidez, ao uso do automóvel através duma condução perigosa que estatisticamente provoca mortes.
Independentemente das medidas de prevenção e de contenção do terrorismo, convinha perceber as razões psicológicas deste comportamento, que do ponto de vista individual é patológico, mas que do ponto de vista sociológico pode ser sintoma de disfunção da própria sociedade, ou, hipótese a colocar, ser simplesmente um movimento irracional, como os movimentos das moléculas de ar num recipiente fechado.
Do ponto de vista indiviual e psicológico, tal como Haruki Murakami demonstrou no seu livro Underground, quem comete atentados sofre de frustrações, mesmo que tenha vindo de uma carreira profissional aparentemente de sucesso, ou apenas sofre de insegurança, baixa auto-estima e incapacidade de auto-controle.
Do ponto de vista sociológico é natural que uma  parte da sociedade, não atingindo os mínimos de vida digna e pacífica, tenha comportamentos irracionais. Falhando a razão, é também natural que o papel das religiões seja importante. Como disse Voltaire, se alguém consegue convencer outro de uma coisa absurda, facilmente o convencerá a fazer coisas terríveis. Além de que as forças e os interesses económicos, numa globalização entregue a si própria (um sistema entregue a si próprio tende para um estado de entropia máxima), exploram facilmente as discrepâncias entre grupos sociais ou nacionais.
Parecerá que, como medidas preventivas, teremos de forma imperativa a educação das crianças e jovens e as políticas de emprego para os adultos.
Conviria também explicar aos fanáticos de qualquer religião que tem de se saber interpretar os textos a que chamam sagrados, que até não foram escritos pelos profetas mais seguidos, mas por continuadores que foram parte interessada naquilo que escreveram e por conseguinte são de credibilidade sob reservas.
Não seria mau também revisitar criticamente  a história.
Por exemplo desde a guerra da Crimeia (que faziam exércitos ingleses e franceses em 1854 na Crimeia, morrendo de mosquitos, de obuses e dos primeiros canos estriados de espingardas?), e estudar e divulgar os textos de Eça de Queiroz sobre o bombardeamento de Alexandria pela esquadra inglesa, e olhar melhor para o papel de Lawrence da Arábia no armadilhar da região para o futuro, e estudar na história da aviação os bombardeamentos no Afeganistão pelos primeiros bombardeiros biplano... pode ser um caminho eficaz para o diálogo ocidente-oriente...
Educação e emprego obrigatórios subordinados a critérios laicos serão uma limitação da liberdade, aumentar a importancia das escolas face ás tradições familiares, e tornar imperativa uma ocupação produtiva.
Mas aparentemente é isso que, como escreveu Freud, distingue a civilização da barbárie, de quem vive em grupo organizado ou de quem vive num deserto sujeito à lei do mais forte.
Dir-se-ia que os limites da liberdade são impostos pelas outras duas vertentes do lema da revolução francesa: igualdade e fraternidade.
Não pode haver fraternidade quando alguns andam com armas, quer sejam compradas em lojas legais nos USA ou no mercado negro no médio oriente, ou quando se anda de carro nas ruas de Lisboa a atropelar mortalmente, por velocidade excessiva, cidadãos nas passadeiras de peões.
Não parece que os mercados tenham capacidade para compreender o terrorismo e implementar as medidas preventivas.
E infelizmente parece que a maior parte dos governos também não.
Pelo menos fazem-se esquecidos relativamente ao texto da declaração universal dos direitos humanos (direito ao emprego, á inclusão...).
Direitos esses indissociáveis dos deveres simétricos, claro, claro, lá está, a obrigatoriedade...

sábado, 1 de novembro de 2014

Agora, trabalhos forçados e corrupção






Agora, que vivemos sob o ímpeto desmantelador do conceito do metropolitano como serviço público prestado por um operador público, e menosprezador dos seus ativos humanos, físicos e intangíveis, faço esta reflexão a propósito da reportagem do DN/Magazine de 26 de outubro de 2014, sobre os trabalhos forçados a que alguns idosos estão sujeitos pela falencia da politica de proteção aos mais desfavorecidos.
A foto é retirada da reportagem.



No longínquo ano de 1972, quando cumpri o serviço militar no Porto, havia duas tarefas que os oficiais do quadro, alguns dos quais futuros capitães de abril, mas que nessa altura ainda nos diziam que não podiamos falar sobre o problema de Angola sem lá ir (felizmente eles foram e compreenderam), de bom grado deixavam para os milicianos executarem.
Uma era o acompanhamento dos funerais dos soldados mortos nas colónias nas suas terras. Tive a sorte de nunca ter sido escalado.
A outra, que por várias vezes executei, era o chamado processo de amparo, que encerrava alguns riscos. 
Tratava-se de entrevistar a família de soldados que se reclamavam de ser o unico sustento ou amparo da familia e que portanto solicitavam a isenção da mobilização para as colónias. 
Os riscos eram os de poder vir a ser acusado, em eventual recurso do exército, de excesso de generosidade, a que hipocritamente se poderia acrescentar a injustiça de um tratamento diferenciado relativamente aos que partiam para a guerra (como tudo neste mundo, realça-se um aspeto acessório quando não se quer enfrentar o problema principal, a indignidade da guerra colonial em si mesma).
Recordei isto ao deparar-se-me esta foto, de uma senhora de 81 anos, doente, que ainda trabalha quando pode e não pode a lavar escadas e que recebe a pensão mínima (lá está, eu e os privilegiados reformados do metropolitano, que protestamos porque nos cortaram um complemento de reforma superior à pensão mínima, e disso somos acusados napraça pública, por quem acha que não deve antes criticar a magreza da pensão mínima).
Recordei-me porque a imagem se sobrepôs à registada na minha memória quando visitei outra senhora numa habitação semelhante, nas realidade uma arrecadação num pátio de uma vila nas Fontaínhas.
O mesmo teto de tábuas imbricadas, numa tentativa de isolamento térmico, as cortinas, a pobreza.
À saída, depois da entrevista, a senhora (que cronologicamente poderia ser a senhora da foto), convencida talvez de que o aspirante ia propor a aprovação do pedido de isenção, meteu-me na mão uma nota de vinte escudos dobrada em quatro, desculpando-se por não poder dar mais.
Seriam hoje 5 euros, uma forma elementar de corrupção popular. 
Não inclui o episódio no relatório.
Espero ter convencido a senhora que se devolvia a nota não era por a achar uma oferta indigna, e não esperava que 42 anos depois se incumprisse assim a Declaração Universal dos Direitos Humanos (lá está, porque durante esse tempo, como dizem os comentadores afetos ao paradigma dominante, eu e os meus colegas do metropolitano vivemos acima das nossas possibilidades...).


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Apelo ao militantes - o pior ainda não passou

Rajoy, junho de 2013 – “o pior já passou”
Passos Coelho, Outubro de 2013 – “o pior já passou”
Poiares Maduro, Novembro de 2013 – “o pior já passou”
Samaras, Janeiro de 2014 – “o pior já passou”
Passos Coelho, Janeiro de 2014 , na preparação do congresso eletivo do seu partido – “o pior já passou”


A frase é recorrente.
No caso do primeiro ministro português o seu uso visa ganhar as eleições para o seu partido.
Argumentos: os indicadores estão a  melhorar graças aos sacrifícios.
Os indicadores são o ligeiro crescimento do PIB, através do consumo e exportações, e do desemprego.
Mas não cita os indicadores do ligeiro crescimento da mortalidade infantil, da tuberculose, das dificuldades de acesso à saúde, de aumento das desigualdades.
São todos de variação  ligeira, inferiores ao intervalo de segurança, mas uns são num sentido e outros noutro.
Portanto a utilização é ilegítima.
E não corresponde à verdade: para quem vai ter cortes nas pensões e nos salários o pior ainda não passou. No caso dos reformados do metropolitano, muitos vão ter cortes novos superiores a 50%. O pior ainda não passou.

Perante esta evidencia, a reação primária seria ofender o senhor.
Porém, a reação secundária será buscar uma justificação para este comportamento que não seja o vício político que destrói o que a natureza humana tem de bom.
E a justificação vem da psicanálise. Insisto que o senhor mostra sintomas de hipomania, de convencimento de que as convicções são mais reais que a realidade e que foi escolhido para uma missão salvadora (ele próprio o diz). O alheamento da realidade traduz-se por falta de empatia, isto é, de incapacidade para imaginar ou sentir o sofrimento alheio, por mais que repita que “compreende” esse sofrimento, considerando-o como um sacrifício redentor, utilizando os mecanismos subconscientes da tradição religiosas judaico cristã e do fundamentalismo moralista luterano de culpa das próprias vítimas só redimidas por sacrifícios.

Por tudo isto, e porque infelizmente o pior ainda não passou, reside agora a esperança nos militantes que vão votar. O voto é secreto. Não queiram ser cúmplices na mentira de que o “pior já passou”. Informem-se. Adiram à corrente de opinião que a saída da crise deve ser feita em conjunto, com a colaboração de todos, não só dos partidos habituais da governação, mas com participação cada vez  maior dos cidadãos e, nas áreas que envolvem questões técnicas, com debates abertos a quem conhece os problemas, listando ponto a ponto os objetivos a atingir.
Que o principal objetivo e a prioridade seja cumprir o artigo 25 da declaração universal dos direitos humanos, não a tirania dos mercados, que até têm rosto, que no caso da dívida pública são os bancos:
“Toda a pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e à sua família saúde e bem estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência fora do seu controle.”    
E isso não se pode fazer com os mecanismos dos partidos, estranguladores e dependentes de uns poucos.
Não precisam para já de arranjar já no fim de semana do congresso outro para eleger.
Basta exprimirem que não querem este, por dizer coisas afastadas da realidade, e votarem branco.

Depois se arranjará outra solução, não será preciso muito tempo, porque no vosso partido há gente com capacidade para compreender a premencia das questões tecnicas, para delegar, para corrigir os ministros prepotentes e para coordenar as atividades necessárias para uma saída da crise em colaboração com quem pensa de maneira diferente.


 Nota sobre o cálculo da taxa de desemprego: é intelectualmente desonesto jogar com as dificuldades naturais de apreensão dos conceitos matemáticos e com a pouca confiabilidade da recolha dos dados.
A taxa de desemprego é o quociente entre a população desempregada que procura trabalho e a população ativa (empregada ou procurando trabalho).
Segundo o INE o seu valor no 3º trimestre de 2013 é, representando milhões:  0,84/(0,84+4,55)=15,6%
Se se contabilizasse como população desempregada 100 mil emigrantes e 140 mil frequentadores de ações de formação, teríamos uma taxa de desemprego mais real:
(0,84+0,24)/(0,84+0,24+4,55)=19,2%   (isto é, a população desempregada  cresce a uma taxa superior à da população em idade ativa).
Mas admitindo que apenas 50% dos emigrantes e frequentadores de cursos tivessem ficado no país, então essa taxa seria:
(0,84+0,12)/(0,84+0,12+4,55)=17,1%
Considerando ainda que muitos desempregados não se registam como procurando trabalho oficialmente, e que  do 3ºtrimestre de 2012 para o 3ºtrimestre de 2013 a população desempregada nos setores industriais, de construção e energia aumentou 102.000, mais valia que o senhor primeiro ministro não exibisse o seu alheamento da realidade.
   

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Declaração universal dos direitos humanos, 65 anos

Comemorando a aprovação da Declaração universal em 10 de dezembro de 1948, reproduzo extratos dos artigos 22, 23, 24 e 25.
Em Portugal o governo não respeita os direitos humanos, e a troika também não.
Regrediram.

Artigo XXII
        Toda a pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social e à realização, pelo esforço nacional, pela cooperação internacional e de acordo com a organização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento da sua personalidade.
Artigo XXIII
        1.Toda a pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego.   
        2. Toda a pessoa, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por igual trabalho.   
        3. Toda a pessoa que trabalhe tem direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência compatível com a dignidade humana, e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social.   
        4. Toda a pessoa tem direito a organizar sindicatos e neles ingressar para proteção de seus interesses.

Artigo XXIV
        Toda a pessoa tem direito a repouso e lazer, inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e férias periódicas remuneradas.
Artigo XXV
        1. Toda a pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência fora de seu controle.   

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Bineka tungal ika

"Bineka tungal ika" significa, em javanês, "unidade na diversidade" e é a divisa da Indonésia.
Agora que o triste episódio do conflito com a Indonésia por causa de Timor já passou, conviria Portugal aproximar-se da Indonésia, até porque há muito de comum na história dos dois países. E também da Holanda, em episódios que nada a honram, como os genocídios no século XVII nas ilhas da noz moscada e do cravinho (o "vice-rei" holandes achou que os naturais das ilhas não podiam cultivar essas especiarias porque fariam baixar o seu preço).
Mas o que interessa agora é a unidade na diversidade (em termos religiosos: islâmicos, católicos, protestantes, budistas, hindus, confusionistas), a capacidade de reconhecer a todos os direitos da Declaração Universal, sem que iluminados ou detentores de revelações, sejam fundamentalistas religiosos ou técnicos da troika, imponham o que quer que seja contra o sentir das populações.
Escrevo isto apenas por isso, para sublinhar bem a importancia da divisa, "Bineka tungal ika".

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A meia lágrima e o transporte gratuito

Cai-me na caixa de correio dos emails um comunicado da administração conjunta da Carris e Metro.
Esclarecimentos de pormenor sobre os cortes nas remunerações.
E no meio de outras informações, esta de que cessa, em 1 de Fevereiro de 2013, o transporte gratuito para reformados.
Eu sou de temperamento secundário.
Embora tenha sido treinado para analisar friamente e fazer cálculos fundamentadores do que for capaz, reajo emocionalmente.
Sinto que a minha ligação ao Metro sofreu uma agressão.
Mas é uma ligação sentimental, não é uma agressão mensurável ou sequer detetável.
Não é uma regalia grande que cortam, nem vale a pena discutir o montante que provavelmente será poupado.
Nem discutir se o transporte gratuito era discriminação que ofendia os concidadãos que não beneficiavam da regalia.
Aliás, se eu tivesse de fazer os tais cálculos fundamentadores, chegaria não a uma equação mas a uma inequação;  num dos membros as incomensuráveis mesquinhez e falta de respeito pelos velhos (velhos; idosos ou seniores era no tempo do regular funcionamento das instituições), e no outro a pequenez, quase valor simbólico, da regalia.
Na verdade, de acordo com os padrões internacionais de trabalho, não era uma regalia, era uma forma de remuneração e, no caso dos reformados, uma compensação complementar devidamente informada e contratualizada na altura da entrada para a empresa; embora o pensamento dominante ache que não deve passar-se a vida numa empresa, que é como quem diz, o princípio de Peter passou a ser: quando tiver algum nível de competência numa empresa mude, para ser incompetente durante uns tempos noutra empresa.
Nem a administração podia contrariar o desatino da decisão tutelar, proferida com determinação entusiástica e pose estudada, com o espírito de missão de salvar o país pelo sacrificio e redenção.
Provavelmente achando que eu também ajudei a descapitalizar a empresa e o país e apelando aos despeitados das caixas de comentários que diabolizem os trabalhadores das empresas públicas, todas, e os dos transportes principalmente.
Mas como digo, não vale a pena discutir, até porque de facto é pouca coisa, não vale a pena.
Se escrevo isto, é porque eu me emociono.
Sou eu que tenho um temperamento secundário.
E nasce-me uma meia lágrima.
Sei que é uma meia lágrima porque escorreu e secou a meio da face.
Não foi uma lágrima inteira, porque essa nasce-me quando vejo um sem abrigo numa estação do Metro, e de raiva impotente por não poder pôr os senhores financeiros dos centros do poder a debater e a tomar decisões que melhorem a vida do sem abrigo.
Não é isso que diz a Declaração universal dos direitos humanos, perseguir o bem-estar?
(Ler-se-á sem um vergonhoso sorriso escarninho a declaração universal dos direitos humanos nos gabinetes dos financeiros?).
E não vou agora chorar uma lágrima inteira por ficar sem o transporte gratuito no Metro em que criei uma ligação sentimental.
Só meia lágrima, já secou.
Vou comprar um cartão recarregável, desses com nome de marketing de que nunca gostei.
Também tenho a mania de não gostar de certas coisas.
Mas carrego-o à mesma.
Para poder sentir o Metro de perto.
Continuar a senti-lo.

domingo, 5 de agosto de 2012

Nascer da lua na praia

Homenagem à série televisiva Espaço 1999.
Criada em 1972, prevendo a colonização da lua em 1999 e o depósito de residuos nucleares na sua face oculta.
Não foi bem o que aconteceu.
Também se previa na altura que em 1999 o combustível dos aviões seria o hidrogénio.
Não será das coisas piores que aconteceram, ou não aconteceram.
Na origem da história contada por Espaço 1999, a explosão do depósito nuclear e a saída da lua da sua órbita.
Recordo o episódio em que os 300 colonos tiveram o seu ultimo dia de sol.
Mas na vida a real a lua visita-nos todos os dias (ou noites) e promete a continuação, pelo menos para alguns.
Pode ser que lá mais para a frente no processo histórico essa esperança não seja só para tão poucos, que seja mais compatível com a declaração universal dos direitos humanos, e das obrigações, claro, claro.


domingo, 15 de abril de 2012

Titanic

Tal como o naufrágio da Medusa, em 1816 ( http://fcsseratostenes.blogspot.pt/search?q=medusa ), retiraram-se ensinamentos do desastre do Titanic, passando a vigorar normas mais rigorosas de segurança.
No entanto, algumas questões permanecem.

Analisadas agora as chapas e os rebites utilizados na construção do Titanic (e do seu gémeo Olimpic) verificou-se  que alguns eram de menor qualidade. Terão sido utilizados por falta de material para a construção num período de intensa procura.
Ter-se-á poupado no peso dos compartimentos estanques e no casco duplo (só o fundo estava reforçado), porque se pretendia um navio capaz de velocidades elevadas (23 nós de velocidade máxima).
Afinal, a White Star poupou bastante na construção. Até na falta de binóculos e de baleeiras de salvamento.
Se tudo corresse bem, o navio era ótimo, como aconteceu com o Olimpic, mas não estava preparado para navegar no meio de icebergs.
Nos tempos que correm, a rapidez de execução (para economia de custos de construção) e as velocidade elevadas (para rendibilidade da exploração) continuam a ser inimigas da segurança, o que volta a pôr a questão do lucro versus segurança nos transportes.
Isto é, é perigoso insistir na tecla do “fazer mais com menos” e de conseguir economia de custos “custe o que custar” (expressão recentemente utilizada pelo ditador argentino Videla, ao afirmar que as sete mil vítimas que confessou terão sido o preço a pagar para evitar a subversão).

Graças às notícias sobre o centenário do afundamento, construí o pequeno quadro com as percentagens das vítimas.



O objetivo não é emitir juízos de valor sobre uma prática corrente na altura (a rentabilização de um navio de luxo graças ao elevado número de passageiros de 3ª classe em condições menos seguras do que em 1ª classe – metáfora de uma forma de organização de uma sociedade) mas mostrar um exemplo de aplicação estatística que revela a correspondência, ou correlação, entre a organização da sociedade e os resultados de circunstancias externas desfavoráveis.
A percentagem de vítimas entre os tripulantes foi superior à dos passageiros, o que honra a memória dos tripulantes.
A percentagem de vítimas entre os passageiros de 3ª classe foi semelhante à dos tripulantes.
A percentagem de vítimas entre os passageiros da 2ª classe foi inferior à da 3ª classe, e a da 1ª classe inferior à da 2ª classe.
A percentagem de vítimas entre os passageiros da 1ª classe (37,5%) foi cerca de metade da percentagem total de vítimas (68%).
Os normativos navais foram alterados para evitar esta distribuição, (idem para os normativos de arquitetura de edifícios, estações de comboios e recintos desportivos em termos de segurança de evacuação) mas a metáfora não garante que o mesmo tenha sido feito para a organização da sociedade, ou terá sido escrita a declaração universal dos direitos humanos, mas os governos não a aplicam.




Notas sobre as condições do naufrágio:


1 – A simples aplicação das regras de navegação teria evitado o acidente. No entanto, a White Star queria reduzir os tempos de viagem. Não compete a uma administração de uma empresa de transportes definir as velocidades de segurança dos seus meios, compete aos técnicos. Naquelas circunstancias, não deveria ter-se seguido a rota mais curta (a ortodromia), mas a loxodromia (a rota de ângulo constante com o meridiano), mais a sul, ou simplesmente fazer-se como os outros navios, parar.


2 – Não é uma crítica ao oficial que ordenou a viragem a estibordo tentando evitar o icebergue, mas a ironia do destino é que provavelmente o navio ter-se-ia salvo se tivesse batido de proa, inundando apenas alguns compartimentos estanques. Também na vida real às vezes mais vale deixar bater do que tentar fugir, mas ninguém pode saber quando se vê numa situação dessas.


sexta-feira, 17 de junho de 2011

Não em meu nome I - a semi-deusa grega

O título deste texto é retirado do movimento contra o desmembramento da Bélgica.
A intenção do seu uso aqui é exprimir a oposição à agressão ao conceito de cultura e civilização europeias pelas forças policiais em Atenas.
Valha a verdade que é melhor do que os tiros assassinos dos exércitos sírio e israelita neste mês de junho de 2011.
Mas porque não deixam a rapariga em paz?








Possivelmente porque recearam que ela lhes batesse nos escudos, com as mãos nuas, como a rapariga da outra fotografia (uma rapariga para dez policias).
Na verdade, há que recear a força da razão quando só se tem a força física.



A rapariga que está a ser arrastada está a sofrer violencia fisica, recebendo uma pena sem julgamento. Na foto vêem-se ela e mais quatro policias...
Não vale a pena argumentar com os doutores da propaganda que repetirão os argumentos do costume, de defesa da ordem e da propriedade, normalmente dos bancos.
A rapariga foi sumariamente julgada pelo policia e condenada à pena de arrastamento pelos cabelos.
Nunca estive numa situação assim.
O mais perto disso foi num dia 5 de Outubro, talvez de 1966.
Nesse tempo, ir ao cemitério do Alto de S.João ou parar para olhar a estátua de António José de Almeida na Av.Miguel Bombarda no dia 5 de Outubro significava exprimir a oposição à barbárie e à indigencia cultural que nos governava.
Por isso os doutores da propaganda da altura explicavam que a policia de choque do capitão Maltês tinha de intervir.
Lembro-me dos olhos assustados do pobre moço policia, debaixo do capacete de aço, com a coronha da espingarda prestes a bater-me,  mas a tremer  e a pedir-me em voz baixa e aterrorizado : "Vá-se embora".
Já Freud explicou há muito tempo que a violencia é a manifestação da insegurança de quem acha que tem o poder.
Mas não a glória.
A rapariga da camisola encarnada parece uma semi-deusa grega. Fez-me lembrar a Venus de Rodes, com a diferença de que era a própria Venus que esticava os seus cabelos.

Zeus terá querido abusar dela, da semi-deusa da manidestação. Ter-lhe-á prometido crédito fácil, acessórios para a sua feminilidade, cavalos à disposição no motor de um carro bonito e promessas de poder. Mas a rapariga repeliu os avanços de Zeus, por demais conhecidas que são as suas práticas, recusou a prestação de serviços que os empréstimos pressupunham e acabou arrastada pelos cabelos nas ruas de Atenas. Atenas, a cidade que acabou com a ideia formosa da confederação grega, com sede em Dilos, a pequena ilha ao lado de Mikonos, quando a ganancia dos seus financeiros impediu que o tesouro da confederação fosse posto ao serviço de todos os gregos da confederação. Depois foi o que se viu, as guerras do Peloponeso e a impertinencia dos invasores persas.
Era contra isso, contra a incompreensão do que é a Europa, a sua cultura e a sua civilização, que as raparigas protestavam.
Os doutores da propaganda acham que não (saberão o que significa Dilos?), e que é preciso manter a ordem.
Não o farão em meu nome, nem no das duas raparigas.
Preocupem-se mais em baixar o coeficiente de Gini e em cumprir a declaração universal dos direitos humanos, e não se dêem tão importantes ares quando aparecem nas televisões.
Porque já evidenciam sintomas da sindroma de Hurbis (do grego falta de humildade e excesso de sobre-estima; sindroma estudada por David Owen, ver em
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2011/06/sindroma-de-hubris.html )


Com a devida vénia ao DN pelas fotografias


PS - Se critico os hipócritas, não devo ser hipócrita (mais uma palavra grega). Tenho de concordar que podemos ter de aceitar exceções temporárias ao cumprimento da declaração universal dos direitos humanos. Pode haver situações em que se justificaria arrastar uma cidadã pelos cabelos. 
Se o policia estivesse a arrastar a cidadã que não queria ir trabalhar para uma unidade produtiva de bens transacionáveis indispensável para a recuperação da economia grega, com redistribuição correta das mais valias, estando ela a fazer falta no seu posto de trabalho, então, eu concordaria com o uso da força. 
Mas com o desemprego que vai por aí, não creio que seja o caso da rapariga grega. 
Ela provavelmente não tem um posto de trabalho à espera dela para produzir. 
E o policia tambem é policia porque não tem um posto de trabalho à espera dele. 
Então é mais um exemplo do abissus abissum (abismo atrai abismo, ver Camilo Castelo Branco, ou como antes da lei de Fermat Weber já se tinha a intuição de que qualquer coisa que cresce tem tendencia para atrair mais coisas para se alimentar). 
O desemprego estimula manifestações de rua, que por sua vez estimulam o crescimento da policia, que por sua vez estimula o crescimento de cidadãos que não estão a produzir bens transacionáveis.

terça-feira, 29 de março de 2011

Stephane Hessel - Indignez-vous II

Voltando ao livro Indignez-vous , de Stephane Hessel, um dos redatores da Declaração Universal dos DireitosHumanos  (ver
http://fcsseratostenes.blogspot.com/search?q=hessel ):

A edição portuguesa intitula-se "Indignai-vos" (eu preferiria "Indignem-se").
Estrutura do  livrinho e breve resumo:

- elaboração em 1944, pelo Conselho Nacional da Resistencia, do programa para a França libertada, com os principios e os valores base da democracia moderna, incluindo:
           -  a Segurança Social que garanta a subsistencia quando os próprios não o possam assegurar pelo     
              seu trabalho
           -  reformas para os idosos acabarem dignamente os seus dias
           -  fontes de energia e grandes bancos nacionalizados
           -  regresso à nação dos grandes meios de produção monopolizados fruto do trabalho comum
           -  instauração de uma verdadeira democracia económica e social
- o motivo da resistencia é a indignação
           "ousam dizer-nos que o Estado já não consegue suportar os custos das medidas sociais. Como é possível que não haja verbas quando as tecnologias evoluiram e a produção de riqueza aumentou? apenas porque o poder do capital nunca foi tão insolente, com servidores próprios nas altas esferas do Estado; os bancos, agora privatizados não se preocupam com o interesse geral. O fosso entre os mais pobres e os mais ricos nunca foi tão grande. O motivo basilar da Resistência era a indignação "
- duas perspetivas da história:
            - otimista: a liberdade do homem progride
            - pessimista: a competição pode ser um furacão destruidor
-  a indiferença é a pior das atitudes quando se verificam os dois novos grandes desafios:
           - o enorme fosso que existe entre os muito pobres e os muito ricos
           - o incumprimento pelos governos da Declaração Universal dos Direitos Humanos (art. 22: toda a pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social; e pode legitimamente exigir a satisfação dos direitos económicos, sociais e culturais indispensáveis, graças ao esforço nacional e à cooperação internacional, de harmonia com a organização e os recursos de cada país"
- a indignação relativamente à situação na Palestina: "o terrorismo é inaceitável, mas é preciso reconhecer que a ocupação militar conduz à reação popular violenta"
- a não-violência é o caminho que devemos aprender a seguir: "a mensagem de Gandhi, de Mandela, de Martin Luther King, ultrapassa o confronto de ideologias ... é uma mensagem de esperança na capacidade das sociedades ultrapassarem os conflitos com compreensão mútua e paciencia vigilante. A violação dos Direitos Humanos deve provocar a nossa indignação"
- para uma insurreição pacifica: "uma verdadeira insurreição pacífica contra os meios de comunicação de massas que só apresentam como horizonte à nossa juventude uma sociedade de consumo, o desprezo pelos mais fracos e pela cultura, a amnésia generalizada e a competição renhida de todos contra todos"

Stephane Hessel não ficou por aqui e, de colaboração com Gilles Vanderpooten, ver

http://www.lexpress.fr/culture/livre/engagez-vous-un-nouveau-hessel-pour-le-10-mars_967474.html

escreveu  "Engagez-vous", título que eu traduziria por "Dediquem-se", a causas, a compromissos, ao trabalho util em função da comunidade, porque, na realidade, a mensagem de Hessel ficaria incompleta, se acabasse em "Indignem-se".
Aguarda-se a tradução.



Le nouveau livre de Stéphane Hessel, qui est paru le 10 mars, se propose de donner à la jeunesse contemporaine, outre des motifs d'indignation, des moyens d'action. Très classiques.

Engagez-vous!, le nouveau Hessel (éditions de l'Aube), est un recueil d'entretiens réalisés en 2009 avec Gilles Vanderpooten. Abordant les mêmes thèmes que dans Indignez-vous! (2010), Hessel insiste sur le fait que la lutte a changé de forme depuis les temps héroïques de la Résistance. Il met l'accent sur le plus fédérateur des combats contemporains, celui pour l'environnement, réclamant par exemple la création d'une Organisation mondiale de L'Environnement. Et pose également la nécessité d'un gouvernement mondial. La profession de foi, bien oecuménique, d'un diplomate-né. Extraits.

Résister ne suffit pas

"Il faut créer, car résister ne suffit pas. Toute simplification est toujours dangereuse. Il faut nous habituer à penser avec sagesse - cela ne relève pas de l'intelligence ni de la créativité, mais du sens de l'équilibre. On ne peut pas être seulement yin ou seulement yang, il faut un balancement." (p.56)

Socialisme ou écologie?

"Ma génération a contracté une véritable allergie à l'idée de révolution mondiale. [...] J'ai acquis le sentiment, peut-être injuste, que ce n'est pas par des actions violentes, révolutionnaires, renversant les institutions existantes, que l'on peut faire progresser l'histoire." (p. 20)

"Et quand je parle avec des gens de votre génération, je leur dis toujours : 'Un de vos défis les plus importants, c'est la Terre.'" (p. 34)

"Je crois en effet que l'engagement pour l'écologie est aussi fort que l'était pour nous l'engagement dans la Résistance." (p. 23)

"J'ai apporté mon soutien à Europe Écologie lors des élections européennes de juin 2009 [...] Je me considère depuis toujours comme socialiste - c'est-à-dire, selon le sens que je donne à ce terme, conscient de l'injustice sociale. Mais les socialistes doivent être stimulés." (p. 43)

Gouverner le monde

"Oui, il nous manque toujours une Organisation mondiale pour l'environnement, comme nous avons une Organisation mondiale pour le commerce (OMC)." (p. 39)

"Le droit de chacun à sa culture et le droit qu'elle soit considérée par les autres comme une réalité à respecter, c'est ce qui permet à la coexistence des cultures de créer autre chose que la confrontation." (p.47)

"La réforme des institutions à laquelle je tiens le plus, c'est la création d'un Conseil de sécurité économique et social, qui réunirait par élection les 20 à 30 États les plus responsables." (p.49)

"Nous devons [...] apprendre à devenir moins violents, pour franchir pas mal d'obstacles. Rien n'est exclu, nous sommes une espèce jeune mais qui peut se casser la figure demain, disparaître... Nous avons fait déjà beaucoup de bêtises et nous pouvons continuer à en faire - quelques bombes atomiques bien placées, et c'est la fin." (p.67)






-