domingo, 22 de novembro de 2009

Economicómio XXX – Apelo para uma subscrição pública

Os dias de Natal vão caindo sobre nós, economistas ou não, mas duma maneira que os economistas devem saber explicar melhor do que eu.
Não podendo eu explicá-lo de acordo com as regras da economia, apenas posso manifestar os factos que observo, com muita pena de não ver nenhum economista a explicar os ditos factos.
E os factos que vejo e que desta forma testemunho são, numa grande superfície comercial, onze bancadas cobertas de caixas e saquinhos de chocolates para serem consumidos nesta época de Natal.
Admitindo, de acordo com os princípios dos problemas de Fermi, que cada bancada tem 9 m2 de área, que estão sobrepostos 5 caixas ou saquinhos, cada um com uma área média de 200 cm2 e com 100g de chocolates, teremos que nas 11 onze bancadas foram postos à disposição dos consumidores 25 toneladas de chocolates.
O que chamou a minha atenção para o fenómeno foi que só encontrei uma das onze bancadas com chocolates com a etiqueta do código de barras a começar por 560, isto é, o indicativo de que tinham sido manufacturados em Portugal. Devo dizer que, fazendo o papel do velhinho com obsessões particulares, mas inofensivas, espreitei por amostragem grande quantidade de códigos de barras. Só noutra bancada encontrei chocolates 560, mas numa pequena porção. A esmagadora maioria (esmagadora até pela tonelagem em jogo), era chocolate vindo de Espanha, França, Bélgica, Suíça, Polónia, Indonésia, China, Brasil, Inglaterra.
Poderá afirmar-se que naquela cadeia de hipermercados se importou 90% do chocolate a vender neste fim de ano (desprezo, nesta contabilidade, a matéria prima importada).
As grandes marcas portuguesas de chocolate estavam modestamente representadas.
Como sou do contra, ou, pelo menos, faço por retirar da globalização o que bem entendo, tirei para o meu carrinho de compras 3 saquinhos, de 100 g cada, de amêndoas cobertas de chocolate, saídos da confeitaria da Ajuda, cujas operárias gosto de ver quando calha passar à hora do almoço pela rua do centro cultural do meu bairro (Alvalade).
Eu sei que sou ignorante em economia, mas gostava que os economistas e os eleitos das autarquias compreendessem que os bairros devem ter oficinas e industria. Por causa do PIB, entre outras coisas, mas principalmente por razões de fixação das pessoas às povoações. Da forma como escrevi, parece uma redundância, e é-o na verdade, mas os decisores da câmara de Lisboa têm dificuldade em perceber, e deixam fechar as oficinas, as marcenarias, as fábricas de chocolate (lembram-se da Favorita?).
E agora andamos a subsidiar os fabricantes de chocolate estrangeiros.
Damned. Temos mesmo de os subsidiar?
Se pensarmos que 80% dos alimentos que consumimos são importados, fechamos o quadro do pessimismo (reforçado, esse pessimismo, com a ideia de que, para termos cá esses 80% de alimentos, temos de emitir mais umas doses de CO2 para ajudar ao efeito de estufa).
A importar esta quantidade de alimentos só podemos continuar a endividarmo-nos cada vez mais.
Provincianamente, e contra o parecer de Drucker, o guru dos anos 80 e 90, abandonámos a produção tradicional (o chocolate era uma delas, a metalomecânica ligeira e a pesada também, ainda bem que ainda se faz vinho, azeite e cortiça) e vamos indo atrás de algumas modas.
A Zara salvou, de momento, a industria têxtil do vale do Ave. As T-shirts vão de camião do vale do Ave para Madrid e de Madrid são distribuídas por todo o mundo, por exemplo, por camião para Setúbal, para Lisboa e para as Caldas da Rainha, e por avião para Macau e Hong Kong.
A Zara é um case study nas universidades norte americanas. Já encheu páginas da Harvard Business Review.
Mas, quem salva as fábricas de sapatos?
É que a Aerosoles, uma companhia americana, deixou cair a sua pequena filial portuguesa (será o método GM a funcionar? Como fizeram na Alemanha com a Opel?).
E agora, para os lados de Esmoriz, só criando uma nova empresa com o apoio do Governo.
Mas se não vier o apoio do Governo acabou-se (a fábrica, não o Governo).
Há um ano que os trabalhadores da Aerosoles almoçam um pão e uma sopa (está nos registos da cantina).
Há anos e anos que há mercado internacional para absorver os sapatos produzidos em Portugal. Mas a produção tinha de ser em grandes quantidades. Por causa do efeito de escala. Trabalho artesanal infantil, daquele que se leva para casa, não dá.
E o Governo diz que não tem dinheiro mas que gostava de resolver o problema (ou o que diz é por ordem inversa).
Antigamente, no tempo em que os caixeiros viajantes da Favorita e da Regina colocavam os seus chocolates nas festas de Natal das empresas, quando faltava o dinheiro, fazia-se uma subscrição pública (podiam chamar-lhe aumento de capital por emissão de acções ou de obrigações, mas também podia acontecer por efeito de solidariedade).
Agora existem o micro-crédito, os business angels, os especialistas da bolsa, o instituto de apoio ao investimento para a exportação e a provável falência das soluções para os trabalhadores da Aerosoles.
Então eu pergunto:
Alinham numa subscrição pública para lançar a Investvar, independente da Aerosoles?
Já existe uma agência de publicidade que faz a campanha e só recebe quando os resultados chegarem.
Ou será que não querem que o mercado funcione?
Eu, por mim, até acho que a empresa podia ser pública, assim como assim, como temos de nos endividar por causa da importação dos 90% de chocolate, endividámo-nos mais um bocadinho para fabricar sapatos em escala industrial.
Mas como a maioria dos portugueses vota de acordo com regras económicas contrárias, parece que a única solução é fazermos a subscrição.
Alinham?
PS - Não conheço os pormenores da organização, mas talvez tenha interesse participar na conferencia sobre o consumidor responsável. Ver em http://www.transportesemrevista.com/Default.aspx?tabid=390

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