quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Rodoviarium X –A bala e o jipe, ou a velocidade assassina

As variações dos fenómenos estatísticos permitiram que o massacre da sinistralidade rodoviária dos últimos dias e Portugal continental tenha sido menos intenso.
Estarão as autoridades mais esperançadas que o acréscimo de mortos, relativamente ao ano passado, não seja muito grande.
Inútil insistir que não é através destas comparações estatísticas que se deve atacar o assunto, mas eu não desisto, pelo menos para já.
Peço desculpa pela morbidez do tema de hoje.
É a comparação entre o poder mortífero de uma bala e de um veículo automóvel, e tem por objectivo avaliar se é mais seguro atravessar a linha de fogo de um atirador numa carreira de tiro, ou uma passadeira para peões.
Tomemos uma Magnum .357 .
.357 significa o calibre da pistola. Balas de cerca de 9 mm de diâmetro (0,357 polegadas).
A Magnum é uma das armas preferidas pelas polícias para defesa.
O conceito de defesa, em termos militares, poderá não coincidir com o sentido lato, mas estas coisas já foram pensadas.
Na impossibilidade real, pelo menos enquanto não for praticado o tal ensino obrigatório e monitorizado que “lave o cérebro” das criancinhas impedindo-as de aderirem à criminalidade, e enquanto não for reformada a última reforma penal do senhor ministro que coordenou a comissão dessa reforma, que já foi condenada (a reforma) pelo Procurador Geral da Republica e pela Associação dos Juízes há mais de 2 anos e agora pelo Observatório da Justiça, mas que continua em vigor assim como o seu coordenador continua como ministro demonstrando que é grande a distancia ente a realidade dos técnicos e a burocracia gestionária e virtual dos decisores, prejudicando assim o interesse da comunidade, comunidade essa que no entanto, por insondáveis desígnios dos fenómenos estatísticos, na altura da votação valida a política do partido que mantem o senhor como ministro, para continuar a prejudicá-la, a ela à comunidade, como ia dizendo, temos de concordar que as polícias sim, devem preocupar-se com as armas de defesa.
E temos assim que a Magnum .357 tem a vantagem de não ter por objectivo principal matar o atacante (não podemos dizer só mal da polícia, não é?).
As balas têm um pequeno espaço oco , na parte da frente, para ficarem mais leves e provocarem, graças à elevada velocidade, um efeito de atordoamento.
Chama-se a isso o “stopping power”, ou capacidade de parar o adversário, sem o matar, para o poder dominar enquanto estiver atordoado com o impacto da bala.
Claro que, se virem agentes da polícia com espingardas ou metralhadoras, o objectivo será outro…
Mas quantifiquemos (porque, como dizia Lord Kelvin «Se não podes medir aquilo de que estás a falar, nem expressá-lo em números, o teu conhecimento é pobre e insatisfatório»[1], embora devamos tratar esta máxima com prudência, quando estivermos a falar de física quântica, economia moderna ou beleza feminina), à moda de um problema de Fermi (ver um dos blogues anteriores) :
No caso da pistola Magnum .357 :
Massa de uma bala: 10 g
Velocidade da bala: 400 m/s
Energia cinética da bala: 0,5 x 0,01 x 4002 = 800 J

No caso de um jipe, ou melhor dizendo, de um crossover car (relativamente modesto para os padrões dos nossos apreciadores) com :

Potência: 106 CV
Peso com condutor: 1580 Kg
Velocidade com que se aproxima da passadeira de peões: 12,5 m/s (45 Km/h)
Energia cinética com que bate no peão: 0,5 x 1580 x 12,52 = 123437 J

Podemos então afirmar que o condutor dispõe de uma arma, o seu crossover, que atinge a vítima com uma energia cerca de 150 vezes superior à obtida com a pistola.

Desprezando a massa da vítima na conservação do movimento, admitindo que o crossover travou depois de bater na vítima, e que a queda se faz segundo uma linha a 45º relativamente à superfície, teremos que a vítima bateu no chão à velocidade de (componente vertical):

12,5 x sen 45º =8,8 m/s (32 km/h)

Considerando que o pavimento não sofre deformação, e admitindo 0,2 s para a imobilização da vítima (em 0,2 s o corpo percorria, à velocidade de que vinha animado, 1,8 m) , a passagem da velocidade de 8,8 m/s para 0 m/s em 0,2 s, corresponderá a uma desaceleração de:

8,8/0,2 = 44 m/s2

equivalente a 4,5 G e a uma queda na posição horizontal de uma altura de 4 m , o que provocará na maior parte das pessoas hemorragias internas irreversíveis.
A velocidade de 45 km/h é já uma velocidade assassina.

Temos assim, de um lado, uma pistola que, na maior parte dos casos, não perfurando nenhum orgão vital, atordoa um cidadão; admitamos que mata em 40% dos casos.
Do outro, um veículo que, na maior parte dos casos, mata um cidadão, admitamos que em 95% dos casos.

Admitamos que numa linha de uma carreira de tiro se disparam 20 carregadores por hora (intervalos de 3 minutos) e na passadeira para peões, sem semáforos, a seguir à curva ali ao pé do Hospital da Luz, para quem vem da Avenida Marechal Teixeira Rebelo e quer atravessar a Avenida dos Condes de Carnide, passam 20 carros por hora.

Simplificando o cálculo das probabilidades (10 segundos para disparar um carregador, 10 segundos para atravessar a passadeira, 1 travessia por hora), admitamos que a probabilidade de se ser atingido na carreira de tiro é 20x10/3600 = 0,056 <> 5,6% e igual à do atropelamento na passadeira para quem atravessa aleatoriamente as duas zonas de risco, 1 vez por hora.

A probabilidade de morte no caso da carreira de tiro será de :

0,056 x 0,4 = 0,0228 <> 2,28% (2 fatalidades em 100 travessias ou 100 horas)

E, no caso da passadeira, de:

0,056 x 0,95 = 0,0532 <> 5,32% (5 fatalidades em 100 travessias ou 100 horas)

Vem então a ser mais seguro atravessar a correr, aleatoriamente, a linha da carreira de tiro.
A probabilidade seria da mesma ordem de grandeza para 2 atiradores a disparar na carreira de tiro…

Para diminuir a probabilidade de acidente nas passagens de peões, o código da estrada é claro: devem os automobilistas abrandar à aproximação das passadeiras para peões de modo a poder parar se um peão tiver iniciado a travessia.

Costumam ver os automobilistas a abrandar à aproximação de uma passadeira?

Interroguemo-nos sobre o significado da licença de porte de armas: exige testes psicotécnicos que comprovem estabilidade emocional.
O significado da licença de condução deveria ser o mesmo. Talvez que o número de automobilistas baixasse drasticamente.
Teriamos de adaptar a essa situação o transporte colectivo.
Poupava-se no consumo de energia…

MAS A MENSAGEM A TRANSMITIR AOS NOSSOS CONDUTORES E CONDUTORAS APRESSADAS É ESTA:
1 - A PARTIR DO MOMENTO EM QUE ALCANÇO A VELOCIDADE ASSASSINA DE 45 KM/H, SE ATINGIR UM PEÃO, QUER SEJA ELE QUE NÃO ME TENHA VISTO, QUER SEJA EU QUE O NÃO TENHA VISTO, COM ELEVADA PROBABILIDADE… MATO-O
2 – NINGUÉM PODE GARANTIR QUE NÃO TENHA UM LAPSO DE ATENÇÃO
3 – LOGO, É UMA OBRIGAÇÃO MÍNIMA CUMPRIR OS LIMITES DE VELOCIDADE

[1] Fonte: Boletim de Comunicação, Informação, Cultura e Identidade Cultural da Gestão da Manutenção
do Metropolitano de Lisboa, E.P.E. Ano I - Número 9 – Novembro 2009, ou
http://www.fisicastronomorais.com/pdf/SIeNTR.pdf , ou
http://www.sociologia.ufsc.br/cadernos/Cadernos%20PPGSP%2026.pdf

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