segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Economicómio XXV_A conferência na Gulbenkian “o ambiente na encruzilhada” ou “au carrefour de l’environement”

Comentário à recente conferência por eminentes pensadores, na Fundação Gulbenkian, subordinada ao tema “O Ambiente na encruzilhada” ou, se quisermos um toque mais cosmopolita, na melhor tradição provinciana, como dizia Sofia de Melo Breyner, “au carrefour de l’environement” .
Ver por favor (saltar por cima do primeiro recorte) em
http://www.gulbenkian.pt/index.php?section=49
e o programa em
http://www.parlamentoglobal.pt/parlamentoglobal/cidadania/Fundação+Gulbenkian/2009/10/19/191009+conferencia+gulbenkian+programa.htm

Pessoalmente, sinto-me arrependido por ter faltado.
Perdi uma oportunidade de testemunhar as intervenções das mentes brilhantes convidadas, de que são exemplo David King e Gilles Lipovetsky.
Não conheciam, pois não? Eu também não. Somos ignorantes.
Tentemos uma análise técnica.
No sentido de análise feita do mesmo modo que as feitas por um técnico que procure a causa ou raiz da falha do sistema; o que é que falhou aqui; e o que falhou aqui, para já, foi não haver ligação de conhecimento entre o trabalho destes senhores, David King e Gilles Lipovetsky, e pessoas ignorantes como este humilde escriba.
(Esta da raiz da falha do sistema é uma pequena homenagem ao meu colega que anda sempre a pregar, nem sempre com êxito que o programa é complicado de aplicar, as maravilhas do programa de análise de falhas RCFA – root cause failure analysis)
Refiro-me somente à falha de circulação de informação entre as mentes brilhantes e as não brilhantes, e não às causas dos horrores e das ameaças à sustentabilidade da nossa (nossa da espécie humana) presença no planeta, que essa análise só está ao alcance das mentes brilhantes.
E já que as mentes brilhantes fugiram um bocadinho à conclusão de que existe mesmo uma falha de comunicação entre o trabalho delas e a realidade dos restantes membros da espécie humana, tenta o humilde escriba divulgar um pouco da conferência.
1 – David King – Pregou uma transformação cultural como se estivéssemos no Renascimento, ou em nova revolução industrial.
Uma educação global e obrigatória poderia por exemplo levar a uma diminuição da taxa de natalidade nas sociedades com menos recursos económicos (terá falado em Malthus?). Mais uma vez, serão as mulheres e as mães que têm de tomar as decisões que irão garantir o futuro sustentável da espécie.
Por outro lado, a produção , nomeadamente de alimentos, deslocalizou-se. Graças à globalização, os países de menores recursos soçobraram na produção de alimentos porque os alimentos que vêm do outro lado do mundo são mais baratos. O problema é que produzir alimentos já cria gases com efeitos de estufa. Ainda por cima, transportá-los gera mais gases. Logo, objectivo: descentralizar a produção.
2 – Gilles Lipovetsky – Anda à volta do conceito do hiperconsumo. Desperta em mim saudades da minha professora de filosofia, em 1961, a dizer que o grande problema era que era preciso produzir para pagar aos operários, e portanto a produção tinha de crescer cada vez mais porque as necessidades consumistas dos produtores cresciam também sempre.
Os hiperconsumidores são a multidão de escravos que os adam smithistas desejam ardentemente para alimentar o aumento dos lucros, porque acreditam como qualquer seguidor de uma religião que o interesse individual dos apropriadores das mais valias se converte por milagre no interesse colectivo dos hiperconsumidores.
O senhor Lipovetsky receia, e eu também, e se um sábio receia uma coisa que é receada por um ignorante, é porque a coisa é mesmo feia, dizia eu que o senhor Lipovetsky receia que a reacção à crise financeira, agora que as taxas de juro e de inflação parece quererem subir e a recessão parar, seja a de voltar ao mesmo, isto é, ao “business as usual”.
Por outras palavras, a tentar desmesuradamente aumentar a produção e os lucros, quando o senhor Lipovetsky pede para reduzirmos o hiperconsumo (diria a minha professora de filosofia que isso conduz a fechar fábricas) , ou talvez que as empresas sejam menos predadoras, que possam reduzir as margens de lucro, para não ser só pedir aos trabalhadores para reduzirem os seus salários.
A ameaça é que as conquistas da tecnologia (pobre Marx que pensava que o progresso das tecnologias servia para satisfazer as necessidades básicas da espécie humana e a seguir trazer-lhe a felicidade; afinal não houve amanhãs a cantar), como por exemplo o desenvolvimento das energias renováveis, sirva apenas para subir um nível no caminho para a desgraça do hiperconsumo, permitindo manter o mesmo modo de vida de desperdício durante mais um tempo.
Como dizia o professor Ilharco, a energia é o problema fundamental da humanidade. E continuar de modo não sustentável, ou sustentável a poder de tecnologia mas apenas durante mais três ou quatro gerações, vai ser mau.
Porque democraticamente, num sistema como este de elevadíssima inércia, as decisões de mudança só serão maioritárias depois do desastre, não antes, e o desastre do Lehman Bros não é nada, comparado com a ameaça.
Pode ser que a imprensa não esteja a ajudar muito, insistindo com temas superficiais (estou a seguir a conferência)…
E há sempre a dúvida se, com as taxas de desemprego elevadas necessárias a manter os preços baixos, de modo a evitar a revolta social, será possível conter essa mesma revolta social e a criminalidade.
Conclusão beatífica da conferência: conter o hiperconsumo, moderar a competição entre indivíduos, estimular a solidariedade social…
Acham que será possível com as ideias liberais que orientam os nossos governos?
Não será essencial centrarmo-nos na educação pública obrigatória e monitorizada?
Mesmo correndo o risco de sermos acusados de querer lavar o cérebro às criancinhas, normalizando-as egualitariamente e prescindindo do orgulho de pertencer ao colégio mais bem colocado no “ranking”?
Seguimos a recomendação do senhor David King?
Cuidado que é preciso mudar a política do nosso ministério da Educação…menos competição individual… predomínio da função social da empresa relativamente à preocupação pelo lucro…

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