segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Religo III – Frei Miguel Contreiras


Religo III – Frei Miguel Contreiras

Divertidíssima a descoberta do que já se sabia.
Que não há documento histórico que prove a existência de Frei Miguel Contreiras, apresentado como fundador da Santa Casa da Misericórdia e confessor da rainha Dona Leonor.
O primeiro documento histórico de que se dispõe, referindo este Frei Miguel Contreiras, data de mais de 70 anos depois da sua suposta morte (i.é, quando à face da lei actual os seus direitos de autor teriam caducado).
Fica assim como mais provável a hipótese de que terão sido os frades da ordem da Trindade a criar o mito para obter do papa a manutenção da sua ordem e a importância do seu papel na vida das Misericórdias.

Seria interessante aplicar o mesmo método científico à comprovação da existência histórica das personagens religiosas e nacionais que tanto acarinharam a nossa infância, ver os testemunhos históricos de outras fontes…
A própria igreja católica já riscou muitos santos do seu hagiológio, por exemplo Santa Filomena.

E aqueles episódios de intervenção divina nas batalhas de Ourique e dos Atoleiros, que não sendo protagonizados por personagens fictícias, tão bem representam a capacidade de enganar as populações? Certamente em nome de uma boa causa…

A criação artificial de figuras também se justifica pelas boas causas.
Por exemplo, o matemático Nicolas Boubaki. Durante muitos anos, já na segunda metade do século XX, assinou artigos que fizeram avançar a matemática moderna. Foi muito respeitado pela comunidade científica, mas não existia; era o pseudónimo de um grupo de matemáticos franceses. Dos melhores exemplos do que é uma inteligência colectiva, sem génios condutores de homens. Que os deuses nos livrem dos grandes génios, ou, como dizia Camões, das maravilhas fatais que nos governam (Camões não pedia aos deuses que nos livrassem das maravilhas fatais que nos governam, que isso a Inquisição não iria deixar, mas chamava maravilha fatal a quem governava os cidadãos da época; foi, na verdade, fatal, D.Sebastião).

Vem-me também à ideia o Tenente Kije.
Kije entrou para o exército do czar Paulo I de todas as Rússias como oficial da sua guarda, em consequência de uma confusão de pronuncia que o secretário do czar não teve coragem de desfazer depois de o czar aprovar o tenente Kije (em russo “tenente Kije” pronuncia-se de forma muito semelhante à de “os tenentes, contudo” )
O tenente Kije fez comissões de serviço na Sibéria, casou, teve filhos, ganhou medalhas em batalhas, foi promovido. Quase como o nosso santo António, quase coronel do exército português.
O tenente Kije é uma novela de Iuri Tinianov, dos soviéticos anos 20, que foi passada ao cinema em 1934 com música de Prokofief. Ver acima o cartaz do filme. O mesmo Prokofief que respondeu a Estaline, depois deste o ter criticado por não achar a sua música politicamente forte: e eu não acho a sua política musicalmente forte. Coisa que é aplicável a muitos bons governantes.
Não percam a música do tenente Kije e não deixem de ir ao Teatro Maria Matos e aos cinemas King, na Av.Frei Miguel Contreiras.

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