Ouvido numa reportagem da televisão, com a voz disfarçada:
"Somos todos consequencia disso. Somos todos iguais, e muitos não têm dinheiro nos intervalos da escola para comer. Têm de ir à rua buscar dinheiro, para comer e para as coisas que todos têm. Às vezes temos de ir para o crime".
O programa era sobre os jovens e os gangues de rua.
Parece ser um diagnóstico correto. Um membro do gangue faz a análise digna de um catedrático de sociologia.
Devia servir de reflexão sobre a teoria da liberdade dos mercados a funcionar, sobre o conceito de igualdade, de direitos e de oportunidades.
Como pode esperar-se uma sociedade de igualdade se há jovens com fome e sem uma familia com rendimentos suficientes para a sua educação?
Mas não, depois batemos palmas aos senhores comentadores bem informados a aos senhores empresários de sucesso que dizem que o problema é a falta de qualificação da mão de obra. Os senhores empresários que precisam, para o seu sucesso, da mesmissima liberdade para resolver os seus problemas de mercado que os jovens da reportagem utilizam para cometer os seus pequenos (roubo de telemóvel, de relógio, de ténis) - grandes (impossibilidade de integração) crimes.
sábado, 30 de setembro de 2017
Somos todos consequencia disso
Aeroporto do Montijo - VIII a Ryanair
Não me dá prazer nenhum ver uma companhia aérea em apuros, quer seja a TAP quando há uns tempos teve os seus problemas nos voos de verão, quer agora a Ryanair a cancelar voos.
Parece que tem 400 aviões e 4000 pilotos, que alguns deles sairam e que houve um problema na elaboração das escalas. Parece também que desistiu de comprar uma participação na Alitalia.
Isto é, o panorama não é tranquilizante. Espera-se que seja uma crise passageira e que não seja um sintoma de ter atingido o patamar dos rendimentos decrescentes.
Porque também não me agrada que seja utilizado o argumento que temos de construir o aeroporto do Montijo porque a Ryanair precisa de estacionar na pista 17/35 e precisa de mais uma pista próximo de Lisboa. Não gosto que seja uma companhia estrangeira a condicionar o plano de infraestruturas aeroportuárias (o argumento utilizado foi: nenhuma companhia quer ir para o NAL de Alcochete).
Mas tenho de confessar, depois da ANA ter pago 3000 milhões de euros pela concessão a 50 anos, e desses 3000 milhões terem desaparecido na voragem da divida, temos pouca capacidade de decisão.
PS em 3 de outubro - a questão agravou-se, a companhia Monarch declarou insolvencia. Os especialistas explicaram que não foi surpresa, que desde 2004, quando optou pelo regime low cost que estava em declínio. Porque os destinos que explorava perderam volume de tráfego por causa do terrorismo, porque a concorrencia nas low cost é muito forte e praticamente só a Ryanair e a Easy Jet conseguem os preços tão baixos. Mas a Ryanair deu mostras de ter crescido mais do que o sustentável (terá sido apenas um erro de escalas?) e a Easy Jet não se mostrou interessada em ir par ao Montijo. Isto é, será que os preços das viagens aéreas são simples dumping? que as companhias não são rentáveis? que andam a acumular dívida ou beneficiam de subsídios disfarçados? Não há certezas, mas duvidas existem, escolher o aeroporto do Montijo porque a ANA e Ryanair disseram que queriam, parece-me pouco curial. Especialmente quando me lembro do senhor presidente da ANA a dizer que não esperava mais do que 8 movimentos por hora no Montijo.
PS em 4 de outubro - com a devida vénia ao Expresso:
https://www.msn.com/pt-pt/financas/negocios/afinal-o-que-se-passa-com-as-low-cost/ar-AAsSqH2?li=BBoPWjC&ocid=mailsignout
também a Air Berlin declarou a insolvencia. Outra das causas para a crise da Ryanair é a saída de pilotos para a Norwegian por razões slariais. Porém, consta que esta também está em crise por não ter dinheiro para pagar os aviões encomendados (será também um problema da TAP, mas por enquanto ocultam-se eventuais problemas e o montante da dívida). Talvez possa portanto concluir-se que chusmas de comentadores e especialistas em jornalismo económico nos andaram a enganar sobre as maravilhas da inovação, da competitividade e da capacidade de gestão das low cost. Na realidade, embora tenham aplicado alguma racionalidade na gestão, muitas vezes em prejuízo dos empregados, dos passageiros e da segurança (redução da margem de reserva de combustível, por exemplo) não conseguiram iludir as regras da economia clássica, que um investimento tem de ter retorno e que esse retorno, se não é serviço público a fundo perdido, tem de basear-se em receitas. As low cost parasitaram as companhias "normais" beneficiando das suas infraestruturas de manutenção, beneficiaram dos subsidios escondidos de taxas aeroportuárias reduzidas ou de agencias de turismo. Praticaram preços de dumping e deficitários. Depois protestavam contra as empresas públicas. Não me agrada ver companhias aéreas em dificuldades, até porque isso traduz-se em dificuldades para os seus tripulantes e para o turismo, mas desagrada-me também ver companhias low cost a dizer a um país onde deve ter os seus aeroportos.
PS em 10 de novembro de 2017 - apesar das dificuldades da Ryanair, parece que ela vai querer montar no Porto um hub para os seus voos de maior curso e reforçar a ponte aérea Lisboa-Porto. Parece estranho, parece imprudente, mas confesso a minha ignorancia nestas coisas. Apenas lamento o desperdício energético em ligações aereas de 300km, em detrimento da pobre linha do norte.
Parece que tem 400 aviões e 4000 pilotos, que alguns deles sairam e que houve um problema na elaboração das escalas. Parece também que desistiu de comprar uma participação na Alitalia.
Isto é, o panorama não é tranquilizante. Espera-se que seja uma crise passageira e que não seja um sintoma de ter atingido o patamar dos rendimentos decrescentes.
Porque também não me agrada que seja utilizado o argumento que temos de construir o aeroporto do Montijo porque a Ryanair precisa de estacionar na pista 17/35 e precisa de mais uma pista próximo de Lisboa. Não gosto que seja uma companhia estrangeira a condicionar o plano de infraestruturas aeroportuárias (o argumento utilizado foi: nenhuma companhia quer ir para o NAL de Alcochete).
Mas tenho de confessar, depois da ANA ter pago 3000 milhões de euros pela concessão a 50 anos, e desses 3000 milhões terem desaparecido na voragem da divida, temos pouca capacidade de decisão.
PS em 3 de outubro - a questão agravou-se, a companhia Monarch declarou insolvencia. Os especialistas explicaram que não foi surpresa, que desde 2004, quando optou pelo regime low cost que estava em declínio. Porque os destinos que explorava perderam volume de tráfego por causa do terrorismo, porque a concorrencia nas low cost é muito forte e praticamente só a Ryanair e a Easy Jet conseguem os preços tão baixos. Mas a Ryanair deu mostras de ter crescido mais do que o sustentável (terá sido apenas um erro de escalas?) e a Easy Jet não se mostrou interessada em ir par ao Montijo. Isto é, será que os preços das viagens aéreas são simples dumping? que as companhias não são rentáveis? que andam a acumular dívida ou beneficiam de subsídios disfarçados? Não há certezas, mas duvidas existem, escolher o aeroporto do Montijo porque a ANA e Ryanair disseram que queriam, parece-me pouco curial. Especialmente quando me lembro do senhor presidente da ANA a dizer que não esperava mais do que 8 movimentos por hora no Montijo.
PS em 4 de outubro - com a devida vénia ao Expresso:
https://www.msn.com/pt-pt/financas/negocios/afinal-o-que-se-passa-com-as-low-cost/ar-AAsSqH2?li=BBoPWjC&ocid=mailsignout
também a Air Berlin declarou a insolvencia. Outra das causas para a crise da Ryanair é a saída de pilotos para a Norwegian por razões slariais. Porém, consta que esta também está em crise por não ter dinheiro para pagar os aviões encomendados (será também um problema da TAP, mas por enquanto ocultam-se eventuais problemas e o montante da dívida). Talvez possa portanto concluir-se que chusmas de comentadores e especialistas em jornalismo económico nos andaram a enganar sobre as maravilhas da inovação, da competitividade e da capacidade de gestão das low cost. Na realidade, embora tenham aplicado alguma racionalidade na gestão, muitas vezes em prejuízo dos empregados, dos passageiros e da segurança (redução da margem de reserva de combustível, por exemplo) não conseguiram iludir as regras da economia clássica, que um investimento tem de ter retorno e que esse retorno, se não é serviço público a fundo perdido, tem de basear-se em receitas. As low cost parasitaram as companhias "normais" beneficiando das suas infraestruturas de manutenção, beneficiaram dos subsidios escondidos de taxas aeroportuárias reduzidas ou de agencias de turismo. Praticaram preços de dumping e deficitários. Depois protestavam contra as empresas públicas. Não me agrada ver companhias aéreas em dificuldades, até porque isso traduz-se em dificuldades para os seus tripulantes e para o turismo, mas desagrada-me também ver companhias low cost a dizer a um país onde deve ter os seus aeroportos.
PS em 10 de novembro de 2017 - apesar das dificuldades da Ryanair, parece que ela vai querer montar no Porto um hub para os seus voos de maior curso e reforçar a ponte aérea Lisboa-Porto. Parece estranho, parece imprudente, mas confesso a minha ignorancia nestas coisas. Apenas lamento o desperdício energético em ligações aereas de 300km, em detrimento da pobre linha do norte.
domingo, 24 de setembro de 2017
Aeroporto do Montijo VII - custos da saída dos militares do Montijo
Com a devida vénia ao DN:
http://www.dn.pt/portugal/interior/militares-dao-luz-verde-a-aeroporto-no-montijo-8793362.html
e
http://www.dn.pt/portugal/interior/deslocalizar-forca-aerea-do-montijo-custara-130-me-nos-proximos-cinco-anos-8645339.html
foram estimados pela Força Aérea em 130 milhões de euros os custos de deslocalização das instalações militares do Montijo, a que deverão somar-se cerca de 240 milhões do campo de tiro de Alcochete (exercicios de tiro incompativeis com 24 movimentos por hora no aroporto civil do Montijo).
Verifica-se assim que, quanto a custos de deslocalização das funções militares, a solução Montijo é 130 milhões de euros mais cara do que a solução CTA (campo de tiro de Alcochete).
Curioso verificar que o senhor ministro Pedro Marques já admite agora que a solução Montijo"não elimina a possibilidade de construção de um novo aeroporto nos terrenos do CTA". Possivelmente alguém terá citado a cláusula 42.3 do contrato que impunha à concessionária o estudo de uma solução mais eficiente do que a do novo aeroporto (90 movimentos por hora, quando Portela+Montijo são 72).
Estão ainda por contabilizar os custos e o financiamento das acessibilidades do aeroporto do Montijo, e por concluir o relatório de impacto ambiental (curiosamente, associações ambientalistas parecem preferir a solução Montijo em detrimento da solução CTA por motivo de interferencia neste caso com lençois freáticos, culturas hortícolas e colisão com um corredor secundário de migração de aves - notar que os dois primeiros inconvenientes podem ser atenuados com uma férrea política de taxação de novas construções e que o terceiro inconveniente pode ser atenuado com a deslocação para poente e sul dentro do perímetro do CTA); aguardemos o estudo do Montijo para comparação definitiva).
Para efeitos de comparação, recordo que o estudo da Roland Berger empolou os custos das acessibilidades da solução CTA, favorecendo assim artificialmente a opção Montijo.
http://www.dn.pt/portugal/interior/militares-dao-luz-verde-a-aeroporto-no-montijo-8793362.html
e
http://www.dn.pt/portugal/interior/deslocalizar-forca-aerea-do-montijo-custara-130-me-nos-proximos-cinco-anos-8645339.html
foram estimados pela Força Aérea em 130 milhões de euros os custos de deslocalização das instalações militares do Montijo, a que deverão somar-se cerca de 240 milhões do campo de tiro de Alcochete (exercicios de tiro incompativeis com 24 movimentos por hora no aroporto civil do Montijo).
Verifica-se assim que, quanto a custos de deslocalização das funções militares, a solução Montijo é 130 milhões de euros mais cara do que a solução CTA (campo de tiro de Alcochete).
Curioso verificar que o senhor ministro Pedro Marques já admite agora que a solução Montijo"não elimina a possibilidade de construção de um novo aeroporto nos terrenos do CTA". Possivelmente alguém terá citado a cláusula 42.3 do contrato que impunha à concessionária o estudo de uma solução mais eficiente do que a do novo aeroporto (90 movimentos por hora, quando Portela+Montijo são 72).
Estão ainda por contabilizar os custos e o financiamento das acessibilidades do aeroporto do Montijo, e por concluir o relatório de impacto ambiental (curiosamente, associações ambientalistas parecem preferir a solução Montijo em detrimento da solução CTA por motivo de interferencia neste caso com lençois freáticos, culturas hortícolas e colisão com um corredor secundário de migração de aves - notar que os dois primeiros inconvenientes podem ser atenuados com uma férrea política de taxação de novas construções e que o terceiro inconveniente pode ser atenuado com a deslocação para poente e sul dentro do perímetro do CTA); aguardemos o estudo do Montijo para comparação definitiva).
Para efeitos de comparação, recordo que o estudo da Roland Berger empolou os custos das acessibilidades da solução CTA, favorecendo assim artificialmente a opção Montijo.
quinta-feira, 31 de agosto de 2017
Citações de verão e encontro na praia
O DN tem estado neste verão a entrevistar pessoas mais ou menos famosas ou apresentadas como modelos a seguir. É um pouco a técnica das revistas cor de rosa, embora os escolhidos sejam de mais interesse. Não aprecio o culto da personalidade, mas a verdade é que vale a pena registar algumas citações dos entrevistados:
- de José Fragata, diretor do serviço de cardiologia do hospital de Santa Marta, de que discordo da visão que tem do Serviço Nacional de Saúde por me parecer que não devia haver senhores doutores (nem senhores engenheiros, claro), nem estruturas hierárquicas demasiado verticais, nem esta competição público-privado, mas confesso que não tenho elementos para contestar: "a reforma é a coisa mais triste que existe É muito triste uma pessoa aos 60 anos, cheia de experiência, ser posta de lado".
- de José Augusto Bernardes, da biblioteca geral da universidade de Coimbra : "a ideia de novidade induz um efeito poderoso de facilitação e de deslumbramento", a propósito do digital e do livro impresso. De facto, muitos projetos úteis são postos de lado porque alguém se lembra de que "agora, há uma solução melhor", e não há, quer sejam baterias seguras e de baixo peso para os automóveis, quer sejam melhores soluções que o transporte ferroviário
- de Rui Ramos, da empresa Bike in rio, instrutor de bicicleta aos fins de semana em Belém : "as empresas deviam dar mais valor aos seus trabalhadores. Se as pessoas estiverem felizes no ambiente laboral trabalham muito melhor, com mais imaginação e criatividade" . E isso até é contabilizável...
- de Maria Pereira, doutorada em ciencias farmaceuticas, da Gecko Biomedical : "Todos temos talento, uma coisa que falta em Portugal é o trabalho em equipa, a competição é saudável se for uma coisa construtiva e não destrutiva. As pessoas em geral, e as instituições em particular, têm de pensar que estamos todos a trabalhar para o mesmo fim. Tem-se um pouco a mania de pensar: "isto é o meu trabalho, é a minha quintinha" e não vamos mais longe precisamente por não trabalharmos em equipa. Isso aprendi em Boston, as pessoas competem entre elas, sim, mas também sabem trabalhar em equipa. A formação existe, temos pessoas de topo, mas falta trabalhar em equipa e em conjunto para um fim maior."
E é aqui que entra o encontro de praia, com um mais jovem colega ainda ao serviço, que me responde desanimado à pergunta "como vai o metro?": eu tenho confiança na minha equipa, são competentes e trabalhadores, mas o ambiente geral desmobiliza, falta o trabalho de equipa, há muitas quintinhas ...
É isso, bate certo, o diagnóstico está feito. Pena os decisores ainda não terem entendido. Talvez que se trabalhassem em equipa, tipo "bottom-up", em vez de quererem impor diretivas superiormente definidas, o ambiente não fosse tanto de "quintinhas". . .
- de José Fragata, diretor do serviço de cardiologia do hospital de Santa Marta, de que discordo da visão que tem do Serviço Nacional de Saúde por me parecer que não devia haver senhores doutores (nem senhores engenheiros, claro), nem estruturas hierárquicas demasiado verticais, nem esta competição público-privado, mas confesso que não tenho elementos para contestar: "a reforma é a coisa mais triste que existe É muito triste uma pessoa aos 60 anos, cheia de experiência, ser posta de lado".
- de José Augusto Bernardes, da biblioteca geral da universidade de Coimbra : "a ideia de novidade induz um efeito poderoso de facilitação e de deslumbramento", a propósito do digital e do livro impresso. De facto, muitos projetos úteis são postos de lado porque alguém se lembra de que "agora, há uma solução melhor", e não há, quer sejam baterias seguras e de baixo peso para os automóveis, quer sejam melhores soluções que o transporte ferroviário
- de Rui Ramos, da empresa Bike in rio, instrutor de bicicleta aos fins de semana em Belém : "as empresas deviam dar mais valor aos seus trabalhadores. Se as pessoas estiverem felizes no ambiente laboral trabalham muito melhor, com mais imaginação e criatividade" . E isso até é contabilizável...
- de Maria Pereira, doutorada em ciencias farmaceuticas, da Gecko Biomedical : "Todos temos talento, uma coisa que falta em Portugal é o trabalho em equipa, a competição é saudável se for uma coisa construtiva e não destrutiva. As pessoas em geral, e as instituições em particular, têm de pensar que estamos todos a trabalhar para o mesmo fim. Tem-se um pouco a mania de pensar: "isto é o meu trabalho, é a minha quintinha" e não vamos mais longe precisamente por não trabalharmos em equipa. Isso aprendi em Boston, as pessoas competem entre elas, sim, mas também sabem trabalhar em equipa. A formação existe, temos pessoas de topo, mas falta trabalhar em equipa e em conjunto para um fim maior."
E é aqui que entra o encontro de praia, com um mais jovem colega ainda ao serviço, que me responde desanimado à pergunta "como vai o metro?": eu tenho confiança na minha equipa, são competentes e trabalhadores, mas o ambiente geral desmobiliza, falta o trabalho de equipa, há muitas quintinhas ...
É isso, bate certo, o diagnóstico está feito. Pena os decisores ainda não terem entendido. Talvez que se trabalhassem em equipa, tipo "bottom-up", em vez de quererem impor diretivas superiormente definidas, o ambiente não fosse tanto de "quintinhas". . .
1º debate televisivo sobre as eleições autárquicas em Lisboa, em 30 de agosto de 2017, na SIC Notícias
Interessante, o debate. Pena os candidatos não se disporem a trabalhar em conjunto, sem maiorias dum lado e minorias do outro, ou sem coligações dum lado e oposições do outro. Prevalece a velha ideia, a força mais votada pode impor o seu projeto. Em vez de trabalharem em equipa. Cooperação, em vez de competição e imposição pelo maioritário, muitas vezes com soluções impostas por cegueira ideológica. Decidir por maioria absoluta parece uma regra democrática, mas não, a democracia tem inimigos íntimos, como dizia Tzvetan Todorov. Sim à inclusão das minorias.
Sobre o tema transportes e mobilidade, assinalo que ficaram sem resposta duas perguntas ao incumbente, atual presidente da câmara de Lisboa: que pensa dum plano de expansão do metropolitano a sério, com expansão para ocidente, em vez do erro crasso da linha circular, e qual é o plano para a 2ª circular (de que já está executado o viaduto de ligação da 2ª circular à Av.do Padre Cruz).
Corretamente definida pela maioria dos candidatos a relação entre a habitação e os transportes.
Sobre o tema transportes e mobilidade, assinalo que ficaram sem resposta duas perguntas ao incumbente, atual presidente da câmara de Lisboa: que pensa dum plano de expansão do metropolitano a sério, com expansão para ocidente, em vez do erro crasso da linha circular, e qual é o plano para a 2ª circular (de que já está executado o viaduto de ligação da 2ª circular à Av.do Padre Cruz).
Corretamente definida pela maioria dos candidatos a relação entre a habitação e os transportes.
terça-feira, 22 de agosto de 2017
15700
15700, 15700, 15700 toneladas
de aço
de chapa de aço
dizia na imprensa diária o discreto anúncio
para construção naval
no estado em que se encontra
e pela melhor oferta
desde que superior ao valor de licitação
mas esse não dizia o discreto anúncio
qual é
qual será a razão
quais serão as razões
por que se vendem assim 15700 toneladas de aço
de chapa de aço
para construção naval
em discreto anúncio
na imprensa diária publicado
mas só por um dia
discretamente perdido numa página de anúncios
em retangulo pequenino
ao fundo da página, do lado direito
por uma comissão liquidatária
de um estaleiro
que foi de todos nós
que por força das leis da união
da nossa união,
da europa união,
podia e devia ter construido com as 15700 toneladas
os patrulheiros que defenderiam as costas marítimas da união,
ou até asfalteiros para um país petrolífero
mas que nem uma coisa nem outra deixaram que florescesse
15700, 15700, 15700 flores lançadas ao mar
em sinal de luto
PS em 31 de agosto - curiosa a entrevista do diretor da Douro Azul, que encomendou a construção de um navio de cruzeiros para a Antártida, com viagens já contratadas, à West Sea, antigos estaleiros navais de Viana do Castelo. O mesmo senhor que ficou em segundo lugar no concurso para venda do Atlantida com uma proposta de 8 milhões de euros. O ganhador, com uma proposta de 13 milhões, desistiu. Adjudicado por 8 milhões, o adjudicatário deve ter gasto à volta de 4 ou 5 milhões em manutenção e na viagem para a Suécia, e vendeu-o a uma empresa de cruzeiros norueguesa por 17 milhões. Excelente negócio, que juntamente com o garrote imposto aos estaleiros (tudo segundo a lei, claro, embora o tratado da UE permita a injeção de fundos públicos em assuntos de defesa, como era o caso dos patrulheiros - a Europa não precisa de vigiar as suas costas? - ou de apoio a regiões ultraperiféricas como os Açores a que se destinava o Atlantida) , serve para alimentar a propaganda de ue o privado é que sabe gerir, o público não (mais de 6 meses esteve um pedido de encomenda de material para os patrulheiros à espera de autorização...). Se apertarmos bem o pescoço, as dificuldades de respiração e a capacidade de movimentação aumentam...
PS em 19 de outubro - o mesmo senhor da Douro Azul informa que tem à venda o Trafaria Praia, decorado por Joana Vasconcelos para uma bienal de Veneza, e que comprou em 2014. Que deixou de fazer passeios no Tejo paara turistas porque com as caraterísticas do barco não era rentável. E a manutenção do barco a navegar era de cerca de 500.000 euros por ano (!?). Arriscada, a vida empresarial privada, eu diria que tal como a pública, só que é sempre possível que o senhor empresário não perca dinheiro com este negócio.
http://www.jornaldenegocios.pt/empresas/detalhe/mario-ferreira-e-o-cacilheiro-de-joana-vasconcelos-foi-um-flop-turistico-ja-perdi-um-milhao-chega-ganhei-juizo
de aço
de chapa de aço
dizia na imprensa diária o discreto anúncio
para construção naval
no estado em que se encontra
e pela melhor oferta
desde que superior ao valor de licitação
mas esse não dizia o discreto anúncio
qual é
qual será a razão
quais serão as razões
por que se vendem assim 15700 toneladas de aço
de chapa de aço
para construção naval
em discreto anúncio
na imprensa diária publicado
mas só por um dia
discretamente perdido numa página de anúncios
em retangulo pequenino
ao fundo da página, do lado direito
por uma comissão liquidatária
de um estaleiro
que foi de todos nós
que por força das leis da união
da nossa união,
da europa união,
podia e devia ter construido com as 15700 toneladas
os patrulheiros que defenderiam as costas marítimas da união,
ou até asfalteiros para um país petrolífero
mas que nem uma coisa nem outra deixaram que florescesse
15700, 15700, 15700 flores lançadas ao mar
em sinal de luto
PS em 31 de agosto - curiosa a entrevista do diretor da Douro Azul, que encomendou a construção de um navio de cruzeiros para a Antártida, com viagens já contratadas, à West Sea, antigos estaleiros navais de Viana do Castelo. O mesmo senhor que ficou em segundo lugar no concurso para venda do Atlantida com uma proposta de 8 milhões de euros. O ganhador, com uma proposta de 13 milhões, desistiu. Adjudicado por 8 milhões, o adjudicatário deve ter gasto à volta de 4 ou 5 milhões em manutenção e na viagem para a Suécia, e vendeu-o a uma empresa de cruzeiros norueguesa por 17 milhões. Excelente negócio, que juntamente com o garrote imposto aos estaleiros (tudo segundo a lei, claro, embora o tratado da UE permita a injeção de fundos públicos em assuntos de defesa, como era o caso dos patrulheiros - a Europa não precisa de vigiar as suas costas? - ou de apoio a regiões ultraperiféricas como os Açores a que se destinava o Atlantida) , serve para alimentar a propaganda de ue o privado é que sabe gerir, o público não (mais de 6 meses esteve um pedido de encomenda de material para os patrulheiros à espera de autorização...). Se apertarmos bem o pescoço, as dificuldades de respiração e a capacidade de movimentação aumentam...
PS em 19 de outubro - o mesmo senhor da Douro Azul informa que tem à venda o Trafaria Praia, decorado por Joana Vasconcelos para uma bienal de Veneza, e que comprou em 2014. Que deixou de fazer passeios no Tejo paara turistas porque com as caraterísticas do barco não era rentável. E a manutenção do barco a navegar era de cerca de 500.000 euros por ano (!?). Arriscada, a vida empresarial privada, eu diria que tal como a pública, só que é sempre possível que o senhor empresário não perca dinheiro com este negócio.
http://www.jornaldenegocios.pt/empresas/detalhe/mario-ferreira-e-o-cacilheiro-de-joana-vasconcelos-foi-um-flop-turistico-ja-perdi-um-milhao-chega-ganhei-juizo
terça-feira, 15 de agosto de 2017
Do futebol ao ditador
O professor de economia escolhe por vezes temas interessantes. Recentemente observou que o valor da transferencia de Neymar constituia o cume de uma série em que o segundo jogador mais valioso "custaria" cerca de metade, o terceiro cerca de um quarto e por ai fora.
Trata-se da lei de Zipf, inicialmente elaborada para interpretar a frequencia com as diferentes letras ocorrem num texto, verificando-se uma ordenação em escada.
Esta lei pode relacionar-se com outra, a de Fermat-Weber, que mostra o poder cada vez maior dos elementos de maior peso num sistema entregue a si próprio. Isto é, a natureza não é democrática, por um lado despreza os elementos minoritários, e por outro ordena os seus elementos numa escala em que os a diferença de valor é grande, com a agravante de ir sucessivamente agravando as diferenças (variante da lei da entropia, que cresce no sentido da maior desordem num sistema entregue a si próprio).
Temos aqui uma dialética interessante.Estamos sempre a apregoar a união com a natureza. Mas ela é discriminatória (como aliás Darwin explicou com o sacrifício dos mais fracos em honra dos mais fortes). A própria ideologia ultraliberal, de supressão de qualquer intervenção no funcionamento dos mercados aparenta a defesa de uma anarquia que deixa entregue à lei de Fermat-Weber a seleção dos mais poderosos, ordenados segundo a lei de Zipf. Os seus defensores, quando carinhosamente dizem que "autorizam" uma regulação pelo Estado (funcionamento deficiente dos mercados: externalidades, informação assimétrica, escassez), sabem que essa regulação só funcionaria se o próprio Estado tivesse experiencia nas atividades que regularia (o que dispensaria a preocupação dos ultraliberais com a falta de vocação do Estado para gerir negócios) e se os seus executivos não estivessem dependentes do poder económico dos regulados.
É perigoso analisar as coisas pela lei das analogias, mas não será mesmo uma constante da natureza esta tendencia para a entropia máxima? e se não quisermos assim temos mesmo de intervir, arriscando-nos a que erros graves tenham consequencias sucessivamente mais penalizantes dos próprios elementos mais fracos que se queria proteger (analogia com os falhanços dos sistemas socialistas?)?
Como sair desta encruzilhada? Talvez pensando que a história da engenharia e da técnica está cheia de exemplos em que são contornadas as leis da natureza. O homem habita casas e voa sem cair de acordo com a lei da gravidade, nem se afoga quando viaja a bordo de submarinos.
Isto é, têm de se aproveitar outras leis da Física (interessante, haver oposição de interesses naquilo que diferentes leis servem, uma espécie de analogia com a luta de classes) para resolver caso a caso as dificuldades.
Ou na gestão das sociedades, tem de apelar ao concurso de todas as forças que interessam à solução. Ou de como não deve haver classes dominantes nem individuos a quem pela lei de Fermat-Weber, pela lei de Zipf, e pelos mecanismos eleitorais vigentes que, de acordo com as leis de Kenneth Arrow, são o produto de ignorantes da matemática (Napoleão não era ignorante matemático, mas constituiu-se como o Neymar mais valorizado pelos cidadãos para anular a lei matemática eleitoral de Charles Bordas). Pelo que se poderia dizer que o sistema de governo por um partido único ou condicionado por um homem só, um Neymar ditatorial, não preenche os critérios da democracia.
Ou como diria qualquer engenheiro ou técnico encarregado dum projeto ou da soluçção de um problema, as coisas resolvem-se em trabalho de equipa, do planeamento à execução, controle, monitorização do funcionamento, exploração e desmantelamento no fim de vida, independentemente das ideologias de cada uma.
Mas para iso é preciso estuar as leis da Física e da Matemática, para mão haver predomínio de nenhuma delas.
Trata-se da lei de Zipf, inicialmente elaborada para interpretar a frequencia com as diferentes letras ocorrem num texto, verificando-se uma ordenação em escada.
Esta lei pode relacionar-se com outra, a de Fermat-Weber, que mostra o poder cada vez maior dos elementos de maior peso num sistema entregue a si próprio. Isto é, a natureza não é democrática, por um lado despreza os elementos minoritários, e por outro ordena os seus elementos numa escala em que os a diferença de valor é grande, com a agravante de ir sucessivamente agravando as diferenças (variante da lei da entropia, que cresce no sentido da maior desordem num sistema entregue a si próprio).
Temos aqui uma dialética interessante.Estamos sempre a apregoar a união com a natureza. Mas ela é discriminatória (como aliás Darwin explicou com o sacrifício dos mais fracos em honra dos mais fortes). A própria ideologia ultraliberal, de supressão de qualquer intervenção no funcionamento dos mercados aparenta a defesa de uma anarquia que deixa entregue à lei de Fermat-Weber a seleção dos mais poderosos, ordenados segundo a lei de Zipf. Os seus defensores, quando carinhosamente dizem que "autorizam" uma regulação pelo Estado (funcionamento deficiente dos mercados: externalidades, informação assimétrica, escassez), sabem que essa regulação só funcionaria se o próprio Estado tivesse experiencia nas atividades que regularia (o que dispensaria a preocupação dos ultraliberais com a falta de vocação do Estado para gerir negócios) e se os seus executivos não estivessem dependentes do poder económico dos regulados.
É perigoso analisar as coisas pela lei das analogias, mas não será mesmo uma constante da natureza esta tendencia para a entropia máxima? e se não quisermos assim temos mesmo de intervir, arriscando-nos a que erros graves tenham consequencias sucessivamente mais penalizantes dos próprios elementos mais fracos que se queria proteger (analogia com os falhanços dos sistemas socialistas?)?
Como sair desta encruzilhada? Talvez pensando que a história da engenharia e da técnica está cheia de exemplos em que são contornadas as leis da natureza. O homem habita casas e voa sem cair de acordo com a lei da gravidade, nem se afoga quando viaja a bordo de submarinos.
Isto é, têm de se aproveitar outras leis da Física (interessante, haver oposição de interesses naquilo que diferentes leis servem, uma espécie de analogia com a luta de classes) para resolver caso a caso as dificuldades.
Ou na gestão das sociedades, tem de apelar ao concurso de todas as forças que interessam à solução. Ou de como não deve haver classes dominantes nem individuos a quem pela lei de Fermat-Weber, pela lei de Zipf, e pelos mecanismos eleitorais vigentes que, de acordo com as leis de Kenneth Arrow, são o produto de ignorantes da matemática (Napoleão não era ignorante matemático, mas constituiu-se como o Neymar mais valorizado pelos cidadãos para anular a lei matemática eleitoral de Charles Bordas). Pelo que se poderia dizer que o sistema de governo por um partido único ou condicionado por um homem só, um Neymar ditatorial, não preenche os critérios da democracia.
Ou como diria qualquer engenheiro ou técnico encarregado dum projeto ou da soluçção de um problema, as coisas resolvem-se em trabalho de equipa, do planeamento à execução, controle, monitorização do funcionamento, exploração e desmantelamento no fim de vida, independentemente das ideologias de cada uma.
Mas para iso é preciso estuar as leis da Física e da Matemática, para mão haver predomínio de nenhuma delas.
domingo, 13 de agosto de 2017
Gaye Akyol, pintora e cantora, turca
Não sou apreciador deste tipo de música:
https://www.youtube.com/watch?v=s6nEDq6xN7s
mas uma entrevista no DN chamou-me a atenção para Gaye Akyol. Foi chamada à policia para esclarecer a letra desta canção.
Pobre Turquia, país tão rico de culturas.
Como diz Gaye, e não se refere apenas ao seu país, "estamos a ser governados por idiotas", "não há uma cultura melhor do que outra", "a religião e a economia são meios fáceis de controlar e empobrecer as pessoas".
https://www.youtube.com/watch?v=s6nEDq6xN7s
mas uma entrevista no DN chamou-me a atenção para Gaye Akyol. Foi chamada à policia para esclarecer a letra desta canção.
Pobre Turquia, país tão rico de culturas.
Como diz Gaye, e não se refere apenas ao seu país, "estamos a ser governados por idiotas", "não há uma cultura melhor do que outra", "a religião e a economia são meios fáceis de controlar e empobrecer as pessoas".
quarta-feira, 26 de julho de 2017
Metropolitano de Lisboa - planos de expansão em julho de 2017
Cita-se muito a previsão de 70% como a percentagem da
população mundial residente em cidades em 2050.
A concentração populacional permite maior eficiência na
ocupação do território, no consumo energético e na redução de emissões de gases
com efeito de estufa, mas exige um planeamento cuidadoso das redes de
transporte.
A forte contribuição duma área metropolitana com a dimensão
da grande Lisboa para o PIB justifica os investimentos nas suas
infraestruturas, desde que de uma forma equilibrada relativamente ao restante
país, especialmente o interior.
Por razões de eficiência energética, o sistema de
transportes de uma área metropolitana deve assentar no transporte ferroviário
(linhas suburbanas, metropolitano, LRT – light rail transit), prevendo-se nas
respetivas estações nós de correspondencia intermodal com modos mais ligeiros
de transporte, desde os elétricos, autocarros, transporte a pedido, frotas
partilháveis (car sharing e bike sharing), desejavelmente recorrendo a
tecnologia elétrica. Só assim poderá cumprir-se o objetivo de redução do
desperdício energético devido à massiva utilização do transporte individual.
Este planeamento deve ainda ser integrado com o planeamento
da organização do território, incluindo a urbanização, a reabilitação urbana e
a instalação dos setores secundário, terciário e quaternário.
Os investimentos necessários são passíveis, dadas as
orientações comunitárias no sentido da descarbonização, de cofinanciamento pela
UE, através dos quadros comunitários de apoio de vigência de 7 anos e do plano
de investimentos em infraestruturas Juncker.
Para o sucesso das candidaturas é porém indispensável que
sejam apresentados programas base ou projetos preliminares consistentes e com
fundamentação de custos-benefícios ao longo do ciclo de vida, e não meras
intenções.
Ora, o que se verificou nos últimos anos em Lisboa, não
apenas pelas dificuldades financeiras do país, foi o abandono de planos de investimento na
ferrovia urbana e de coordenação entre os modos de transporte.
O plano de expansão
do metropolitano apresentado em 8 de maio de 2017 como dispondo já de financiamento, está
aparentemente integrado num plano que prevê para uma segunda fase o
prolongamento da linha vermelha na direção de Alcântara, sem esclarecer a sua
integração no plano de urbanização de Alcântara, eventualmente a reformular.
No entanto, dado que a intervenção proposta se centra na
transformação de duas linhas independentes (a amarela e a verde) numa linha
circular, como tal mais sensível a perturbações na sua exploração, considerando
que a ampliação da rede se limita a 2 km, que por isso a cobertura da rede pouco
evolui, que serão parcialmente destruidas ou desaproveitadas infraestruturas dispendiosas
como os viadutos poente da estação Campo Grande ou o término atual de Cais do
Sodré, e que, finalmente, não foram devidamente divulgados os estudos de
procura que são apresentados como fundamento principal do plano proposto, é
legítima a preocupação relativamente à sua coerencia e eficácia (receia-se que
a comparação da variante selecionada tenha sido apenas com a extensão a Campo
de Ourique e não a Alcantara, onde se faria a correspondencia com a linha de Cascais;
se é assim, a comparação e as conclusões estão falseadas).
A existência de um plano de expansão do metropolitano, a sua
coordenação com os outros modos de transporte, nomeadamente com as linhas
ferroviárias suburbanas, e com a política urbanística e a sua aplicabilidade em
período superior aos ciclos eleitorais é altamente desejável, por ser condição
indispensável ao financiamento comunitário e a uma despesa anual em
investimento suportável.
Mas tal plano, desejavelmente para execução até 2030, não existe ainda oficialmente. É apenas um mapa com expansões idealizado em agosto de 2009, numa época eleitoral, sem a aprovação dos técnicos do metropolitano de operação e de manutenção, pelo que
se torna necessária uma ação colaborativa entre entidades, governo
e partidos, área metropolitana de transportes, autarquias da área
metropolitana, IMT, empresas, universidades, associações profissionais, revistas
técnicas, técnicos, em debate público à medida que se for estruturando o plano.
Se assim não se fizer, toda a população da área
metropolitana de Lisboa continuará sujeita a intervenções por avanços
desgarrados e às insuficiencias da sua rede de transportes.
Por isso se propõe aos políticos a aprovação de medidas de
promoção da referida ação colaborativa.
terça-feira, 18 de julho de 2017
Acidente com uma passageira no metro de Roma
Esperemos que a senhora recupere dos ferimentos graves ao
bater no tímpano do cais ou na cancela de acesso à via. Observando o video, é possível que não tenha batido
com a cabeça (informaão posterior: foi operada ao queixo e a fraturas múltiplas, recuperando no hospital). Verifica-se que a senhora transportava uma mala pendurada no
ombro direito, tentou entrar com as portas a fechar, hesitou ao ver-se entalada
e tentou sair. É uma das situações mais perigosas. Por exemplo, se se leva uma
mala a tiracolo, as portas entalam a correia que não tem espessura suficiente
para ser detetada e a correia aperta a pessoa. Detetores de presença não
resolvem em situações de grande afluencia. Mesmo a deteção contínua ao
longo das borrachas das portas pode não
detetar uma situação destas. Tivemos um acidente mortal julgo que em 1976, na
estação Rossio. Aparentemente, a rapariga que morreu estava num grupo e tentou sair com as portas a fechar. Outra situação de grande perigo é para
passageiros com mochila, que pode ficar presa por uma das alças. Ou um casaco
comprido ou gabardina com um objeto volumoso num dos bolsos. Isto deveria impor
uma campanha sistemática de prevenção e informação aos passageiros para
sistematicamente ser recomendado evitar transportar objetos como malas ou
mochilas presos por correias ao corpo, e, se for esse o caso, entrar ou sair
com o objeto transportado colado ao corpo (firmemente abraçado, como se se
quisesse evitar uma queda num abismo). E evidentemente abster-se de entrar ou
sair após anuncio de fecho de portas. Igualmente carrinhos de bébé deverão
sempre ser empurrados e não puxados.
Em princípio, a melhor solução consiste em portas duplas:
portas na plataforma do cais, do tipo de portas de elevadores, e portas do
material circulante com encravamento mútuo. Esta é uma condição essencial para
a marcha automática driverless (com a exceção de Nuremberg, que aliás teve uma
fatalidade nos primeiros meses de funcionamento). Contudo, já houve acidentes
mortais com as portas de cais, quando a distancia demasiado grande entre as
portas da automotora e as portas dos cais permite o entalamento de uma pessoa franzina. No
entanto, e isso justificaria uma discussão internacional no ambito da UITP com
os metropolitanos nossos homólogos, talvez se consiga um detetor eficaz
combinando as condições lógicas de velocidade e de presença de obstáculo na
vertical exterior a 5 cm da linha de fecho de portas (v>5km/h e presença na
vertical de 5 cm implica corte da tração):
Neste caso do metro de Roma, parece que é mais importante a imagem do espelho do que a de camaras de tv que através de monitores transmitam a imagem ao maquinista no caso de comboios longos, como era o caso. Nota-se que a segunda câmara está colocada a 2/3 do cais (abrange as 4 ultimas carruagens, pelo que dará ao maquinista imagrns pouco definidas, no caso dele dispor dessas imagens. Por outro lado, se o maquinista é visto a comer, conviria que a empresa analise bem os tempos de condução e de serviço e os intervalos de descanso. Concorda-se com a suspensão por razões psicológicas para tranquilidade e recuperação do maquinista. Se é para fazer recair as culpas sobre o maquinista discorda-se (a menos que se suspenda também a alta direção da empresa, embora possa ser ilibada pelo comportamento de risco da passageira, por ineficiência de câmaras de TV de apoio ao maquinista, por desequilíbrio de horários e por ignorância deliberada de que o cérebro humano é uma máquina sujeita a falhas como todas as máquinas e que por isso não pode ser o único responsável pela segurança dos passageiros. e material circulante – admite-se uma falha de atenção em 104 operações, supondo 200 operações de fecho de portas por dia teremos uma probabilidade elevada de erro todos os 50 dias).
Ver também, a senhora recupera no hospital:
http://roma.repubblica.it/cronaca/2017/07/16/news/donna_investita_dalla_metro_a_roma_risento_quelle_urla_la_paura_del_conducente_si_scateneranno_contro_di_me_-170906634/?refresh_ce
PS - De acordo com o testemunho de um passageiro que puxou o sinal de alarme, ele não atuou, tendo o comboio parado apenas na estação seguinte, deixando a passageira no cais da estação do acidente. Se foi assim, (o sinal de alarme deve atuar enquanto o comboio ainda está na estação; fora da estação admite-se que estabeleça apenas comunicação com o maquinista), a gravidade do caso é muito grande, e a ATAC escusa de deitar as culpas para o maquinista. É possivel que cortes no orçamento tenham espaçado as intervenções da manutenção para comprovar o estado de funcionamento do sinal de alarme, mas isso não iliba o operador. A gravidade é altissima e é ignóbil a ATAC pedir que se espere pela conclusão do inquérito. A irmã da vítima recusou responder aos jornalistas dizendo que estava um inquérito em curso. É a maneira portuguesa e italiana de lidar com acidentes. Não digo latina porque duvido que os consules e os questores da república romana admitissem um comportamento tão complacente para com uma entidade que aparenta não cumprir as regras de segurança. Mais uma vez recordo o comportamento correto anglo-saxónico: é imediatamente dada uma conferencia de imprensa pela entidade independente de investigação dos acidentes ao mesmo tempo que pede a colaboração das testemunhas e são dadas outras conferencias de imprensa para dar conta do avanço da investigação e da busca de medidas que evitem ou atenuem o acidente. Por cá e por Roma pede-se que as pessoas esqueçam o inadmissível (o sinal de alarme não ter funcionado). Adicionalmente, nalgumas redes existem postos de emergencia nos cais em que é possivel parar um comboio. Por razões de vandalismo não é uma solução mandatória. Há anos traçou-se um plano de instalação de pontos de emergencia nos cais, mas os cortes impediram a concretização. Para parar um comboio a partir do cais é necessário contornar a cancela de acesso à via a atuar a primeira alavanca de disparo (de corte da energia de tração), o que não é do conhecimento público, mas repito que aquela não é uma solução universal
http://www.unita.tv/focus/donna-trascinata-metro-video-macchinista/
PS em 22 de julho - segundo o maquinista, o tempo de condução contínua é de 5 horas.
http://www.oggi.it/attualita/notizie/2017/07/17/roma-donna-trascinata-dalla-metro-per-135-metri-mentre-il-macchinista-mangiava-alla-guida-le-immagini-choc/?refresh_ce-cp
Se é verdade, a direção da ATAC pode ser acusada de negligencia, uma vez que as tarefas de maquinista exigem um estado de atenção elevado (recordo os acidentes em Nova York com maquinistas que sofriam de doenças não controladas pela operadora).
Voltando ao acidente, é provável que o saco que a senhora transportava a tenha protegido (sofreu fraturas multiplas e a perfuração de um pulmão), mas insisto na campanha contra malas ou outros objetos a tiracolo (a considerar a inclusão de um elástico nas correias para facilitar a libertação). Igualmente devem ser evitados os lenços compridos envolvendo o pescoço (acidente de Isadora Duncan).
Em resumo, aplauso para as informações publicadas pela imprensa, crítica severa pelo silencio da ATAC, que configura falta de transparencia.
terça-feira, 4 de julho de 2017
Metro do Mondego V
Não vale a pena argumentar, quando do outro lado só há certezas e a afirmação do poder.
Por isso tiro o chapeu ao programa Donos disto tudo, da RTP, que abordou o caso do metro do Mondego. E encontrou a explicação do que se passou e do que as estruturas do poder pretendem fazer. Como o presidente da câmara diz, "Há estudos que têm de se fazer antes de reparar o troço da via"
Terminal Rúben é a solução, mais eficiente, mais económica, mais integrada na região.
https://www.rtp.pt/play/p3143/e295184/donos-disto-tudo/583363
Ver entre os minutos 28 e 34 .
Por isso tiro o chapeu ao programa Donos disto tudo, da RTP, que abordou o caso do metro do Mondego. E encontrou a explicação do que se passou e do que as estruturas do poder pretendem fazer. Como o presidente da câmara diz, "Há estudos que têm de se fazer antes de reparar o troço da via"
Terminal Rúben é a solução, mais eficiente, mais económica, mais integrada na região.
https://www.rtp.pt/play/p3143/e295184/donos-disto-tudo/583363
Ver entre os minutos 28 e 34 .
segunda-feira, 3 de julho de 2017
Reflexões sobre as ligações ferroviárias à Europa - ou de como o nosso país se torna uma ilha ferroviária na união europeia
O extraordinário potencial dos
combustíveis fósseis em termos de concentração de energia utilizável em
pequenos volumes acabou, a partir dos transportes, por condicionar toda a
economia, moldando de forma subreptícia os preços das mercadorias. Este
fenómeno manifesta-se por exemplo na absorção pelos preços das mercadorias dos
aumentos de preços do petróleo.
Não admira portanto que os
cidadãos mais preocupados com as questões económicas de um país como Portugal
se preocupem especialmente com os custos de energia associados ao transporte,
quer de passageiros, quer de mercadorias.
No domínio do transporte de
passageiros, a preocupação, partilhada aliás com a União Europeia, centra-se na
transferência da quota do transporte individual para o tansporte coletivo, e do
transporte aéreo de curta distância para o transporte ferroviário, com a
fundamentação na redução das emissões de
gases com efeito de estufa e na redução dos custos de congestionamento.
No domínio do transporte de
mercadorias, a orientação da União Europeia, depois de verificar a excessiva
quota do transporte rodoviário, mais ineficiente do ponto de vista energético
dado o maior coeficiente de atrito do pneu com o asfalto relativamente ao
coeficiente de atrito da roda de aço com o carril, é claramente no sentido do
desenvolvimento das infraestruturas do transporte ferroviário, para aumentar a
respetiva quota, demasiado pequena atualmente.
Por razões identicas, a União
Europeia pretende criar condições para o desenvolvimento do transporte marítimo
de mercadorias.
Em ambos os casos, não deveremos
ignorar a estratégia da União Europeia, não só por respeito pelos compromissos
internacionais de redução das emissões, mas também no próprio interesse
comercial do país.
Neste contexto, e na previsão,
não necessariamente otimista, de que já
nos encontramos num ciclo ascendente da economia, e que a próxima década verá
um crescimento assinalável do comércio internacional, é essencial que o país se
concentre num plano independente de ciclos eleitorais de desenvolvimento das suas
infraestruturas de transporte.
Considerando a situação do país,
esse plano terá de ser apoiado em fundos
comunitários, nomeadamente o plano Juncker, vocacionado para infraestruturas de
transportes e de energia, sendo que é condição sine qua non que para a
concessão desses fundos seja apreentado um anteprojeto bem definido das
ligações pretendidas.
Como em qualquer questão complexa
e que envolve planeamento a longo prazo, a tendencia comum é a de tentar adiar,
ou acreditar em soluções de curto prazo, ou, pior ainda, ter fé em
desenvolvimentos tecnológicos que disponibilizarão soluções quase milagrosas.
Foi assim que se criou a ilusão
de que o transporte rodoviário individual de passageiros e o de mercadorias
será resolvido com veículos elétricos e veículos autónomos, esquecendo-se a
sempre, por razões físicas, menor eficiência energética do transporte
rodoviário e os custos de congestionamento nas estradas e túneis rodoviários.
Assim também se criou a ilusão de que o porto de Sines,
tal como está, pode ser a porta da Europa para o tráfego acrescido do canal do
Panamá.
Poderá sê-lo, na verdade, mas a
Europa tem 400 portos, melhor localizados do ponto de vista logístico, porque a
competitividade de um porto depende das ligações ferroviárias aos centros
consumidores. Pelo que é indispensável corrigir o traçado da ferrovia de Sines
e dotá-la da bitola europeia.
Sendo que é provavelmente outra
ilusão, a de que basta fazer as obras de grande manutenção e reabilitação
previstas para a ferrovia, no seguimento do levantamento feito pelo GT-IEVA, esquecendo
a bitola europeia. Que bastaria instalar travessas bi-bitola nas ligações aos
portos secos de Vigo, Salamanca e Badajoz. Que a solução não disponível
comercialmente de eixos telescópicos para vagões de mercadorias acabará por
aparecer.
Infelizmente não são suficientes
estas soluções, enquanto a Espanha
cumpre um plano de execução de infraestruturas ferroviárias com bitola
europeia, que lhe assegurará ligações rápidas à Europa (já em bitola europeia
entre Barcelona e Perpignan, trabalhos em curso no “Y” basco e na ligação de
Madrid a Badajoz), sem as perdas de imobilização nos portos secos de transferencia
da bitola ibérica para a bitola europeia.
A própria 29ª cimeira luso
espanhola , em que muito se falou nas ligações ferroviárias, evitou o tema da
bitola europeia e das pendentes dos atuais traçados ferroviários que prejudicam
o transporte de mercadorias, entre Vilar Formoso e Salamanca, e à saída de
Sines. Por isso a eletrificação do troço Vilar Formoso-Salamanca não basta.
A ausência de Portugal na
EXPO2017 em Astana, capital do Kazaquistão por onde passa a nova rota da seda
ferroviária China-Europa, veio ilustrar o isolamento da atual
estratégia nacional de ligação à Europa e a ideia ilusória de que Sines
é a porta da Europa.
Impõe-se a criação de
ligações ferroviárias internas e externas em bitola europeia, definindo com
cuidado as prioridades e candidatando os anteprojetos a fundos comunitários:
ligação de mercadorias Sines-Poceirão-Caia (tráfego misto Poceirão-Caia de
passageiros e mercadorias, cerca de 2000 milhões de euros), ligação de
mercadorias Aveiro-norte de Vilar Formoso, cerca de 4000 milhões de euros),
ligação de passageiros Lisboa-Porto (cerca de 3000 milhões de euros), ligação
Porto-Leixões-Vigo (cerca de 1500 milhões de euros).
Nada se fazendo neste sentido,com o argumento de que as
nossas empresas de camionagem e as empresas de transporte ferroviário operando
em Portugal em bitola ibérica assegurarão a menores custos o serviço entre os
portos e as plataformas logísticas de Vigo, Salamanca e Badajoz, teme-se pelo
seu futuro pelo patamar de menor
competitividade e pela impossibilidade de alargar o volume de tráfego de
mercadorias pelas limitações dum sistema que obriga a imobilizações por
transbordo. Teme-se ainda pelas diretivas rigidas da União Europeia no sentido
da limitação do tráfego de camiões, quer para redução de emissões, quer para
redução do congestionamento rodoviário.
Claro que não se consegue
uma união de esforços dos técnicos e entidades (universidades, associações
profissionais, revistas técnicas) mais ou menos ligados ou interessados nesta
problemática que produzisse um plano de ação, faseado ao longo de vários ciclos
eleitorais, e suportado em programas de apoio comunitário.
É difícil chegar a um
acordo sobre a metodologia a seguir, e apontam-se sempre falhas ou omissões ao
que quer que se proponha.
Mas talvez fosse possível,
pouco a pouco, ir construindo esse tal plano, e por tentativas do tipo de resolução de problemas de Fermi, ir elaborando
umas análises de custos-benefícios que o suportassem, não obstante a
falibilidade do que possa estimar-se...
PS em 29 de julho :
PS em 29 de julho :
Exemplo de plano a 30 anos de prioridades
para a bitola europeia (a confirmar com análises custos-benefícios, insistindo
nos custos da ausencia de comboios diretos no caso da bitola ibérica):
1-Sines-Poceirão-Caia;
2- Porto-Vigo;
3-Lisboa-Poceirão;
4-Aveiro-Salamanca (a
norte de Vilar Formoso);
5-Lisboa-Porto . sábado, 1 de julho de 2017
Os corredores ferroviários trans-europeus de mercadorias e a fixação dos preços
Pelo título, pareceria que este texto seria uma análise macroeconómica.
Mas não é, nem eu o conseguiria fazer.
Não que faça bem o que o texto é, apenas um comentário a um filme, porque os espetadores de cinema têm o direito de comentar os filmes.
Este texto é assim um comentário ao filme bulgaro Gloria.
http://www.leopardofilmes.com/02A_proxima_estreias.php?id=487
Mas porque escolhi este título pomposo?
O filme trata da corrupção no seio do ministério dos transportes búlgaro e no interior da companhia de caminhos de ferro. A alto nível através da venda de bons vagões ainda em bom estado por baixo preço e compra de usados de má qualidade por preço elevado. A nível mais baixo através do desvio por um pequeno gang do combustível das locomotivas de manobras. Gloria é o nome do fabricante de relógios que o cantoneiro da via férrea perde nas peripécias que tem com a chefe do departamento de relações públicas e comunicação do ministério dos transportes.
E eu lembrei-me da nossa triste condição de ilha ferroviária na Europa, sem ligação às redes europeias em bitola internacional da UIC, apesar dos sucessivos apelos da União Europeia para a concretização dos corredores ferroviários da rede trans-europeia, quando no filme aparece o senhor ministro búlgaro muito contente, a apresentar o projeto de ligação às redes europeias da cidade industrial de Ruse: de Ruse a, na Roménia, Bucareste e Constanta, esta no mar negro, a 200km; de Ruse a, na Bulgária, Burgas no mar negro, e a Sofia. E de Sofia e de Bucareste às redes europeias principais.
Com financiamento europeu, claro, já que países como Portugal desperdiçaram as oportunidades (Poceirão-Caia, por exemplo) e libertaram fundos para outros países (o corredor Báltico. por exemplo, ligando a Estónia, Letónia e Lituania à Polónia). Apesar da corrupção no ministério (da Bulgária...), e segundo o filme...
Mas não é, nem eu o conseguiria fazer.
Não que faça bem o que o texto é, apenas um comentário a um filme, porque os espetadores de cinema têm o direito de comentar os filmes.
Este texto é assim um comentário ao filme bulgaro Gloria.
http://www.leopardofilmes.com/02A_proxima_estreias.php?id=487
Mas porque escolhi este título pomposo?
O filme trata da corrupção no seio do ministério dos transportes búlgaro e no interior da companhia de caminhos de ferro. A alto nível através da venda de bons vagões ainda em bom estado por baixo preço e compra de usados de má qualidade por preço elevado. A nível mais baixo através do desvio por um pequeno gang do combustível das locomotivas de manobras. Gloria é o nome do fabricante de relógios que o cantoneiro da via férrea perde nas peripécias que tem com a chefe do departamento de relações públicas e comunicação do ministério dos transportes.
E eu lembrei-me da nossa triste condição de ilha ferroviária na Europa, sem ligação às redes europeias em bitola internacional da UIC, apesar dos sucessivos apelos da União Europeia para a concretização dos corredores ferroviários da rede trans-europeia, quando no filme aparece o senhor ministro búlgaro muito contente, a apresentar o projeto de ligação às redes europeias da cidade industrial de Ruse: de Ruse a, na Roménia, Bucareste e Constanta, esta no mar negro, a 200km; de Ruse a, na Bulgária, Burgas no mar negro, e a Sofia. E de Sofia e de Bucareste às redes europeias principais.
Com financiamento europeu, claro, já que países como Portugal desperdiçaram as oportunidades (Poceirão-Caia, por exemplo) e libertaram fundos para outros países (o corredor Báltico. por exemplo, ligando a Estónia, Letónia e Lituania à Polónia). Apesar da corrupção no ministério (da Bulgária...), e segundo o filme...
Estimativa de custos para a limpeza de terrenos florestais
Os senhores comentadores põem a tónica na necessidade de limpeza dos terrenos florestais. O que está correto porque a limpeza e recolha da biomassa reduz a carga combustível nos terrenos e a biomassa obtida pode produzir energia em centrais elétricas e de calor. No entanto, deverá considerar-se que a limpeza pode acelerar a erosão dos solos e, junto de cursos de água, ajudar ao assoreamento.
Junto um pequeno quadro Excel com alguns dados oficiais e algumas estimativas, parte das quais, relativas aos rendimentos da limpeza são baseadas na observação e na experiência própria (embora por razões pessoais a minha produtividade possa ser exageradamente baixa). Gosto sempre de debater números e argumentos, mas eventuais comentários deveriam considerar isso, que são baseadas na observação e experiência. Embora, como sou um adepto do "brainstorming", até concorde que alguns comentadores comentem assuntos que desconhecem na prática. Podem sempre surgir boas ideias.
Curioso observar a coincidencia da estimativa, com trator com grades dentadas, com os valores gastos pelas celuloses com prevenção e combate a incendios. Interessante verificar que, sem meios mecãnicos, a limpeza dos terrenos exigiria uma população capaz de a executar, numa estação, de cerca de 10% do total da população ativa, isto é, abaixo deste número há o risco da desertificação (ou despovoamento).
Quem estiver interessado, poderá experimentar outros valores de partida no quadro Excel editável em:
https://1drv.ms/x/s!Al9_rthOlbwehXOyZC7KJQjpD7Oq
O quadro não editável poderá ser visto em:
https://1drv.ms/x/s!Al9_rthOlbwehXIYaoD2-mgm4RXb
Mais informação sobre incêndios florestais em:
http://fcsseratostenes.blogspot.com.es/2017/06/os-incendios-florestais.html
http://fcsseratostenes.blogspot.com.es/2010/09/oratoria-da-floresta-simpatica.html
http://fcsseratostenes.blogspot.com.es/2011/06/o-fogo-inimigo-silencioso-e-invisivel.html
PS em 10 de julho de 2017 - é o que acontece quando um ignorante como eu se põe a escrever sobre estas coisas; graças a um amigo, registo a informação que o crescimento do mato, nas bermas das estradas, sob as linhas de transmissão, sob as árvores da floresta (sem prejuízo de apostar no sobreiro e na azinheira e no cultivo inteligente e produtivo do eucalipto, o que exige a associação em cooperativas para rentabilizar o eucalipto - em pequenas propriedades o rendimento não ultrapassa 4m3 por ha e não é rentável, nos terrenos das celuloses pode atingir 15m3 ) se controla com o glifosato:
http://sementesfiscalizadas.com.br/artigos/8/informacoes-tecnicas-sobre-o-herbicida-glifosato/
Junto um pequeno quadro Excel com alguns dados oficiais e algumas estimativas, parte das quais, relativas aos rendimentos da limpeza são baseadas na observação e na experiência própria (embora por razões pessoais a minha produtividade possa ser exageradamente baixa). Gosto sempre de debater números e argumentos, mas eventuais comentários deveriam considerar isso, que são baseadas na observação e experiência. Embora, como sou um adepto do "brainstorming", até concorde que alguns comentadores comentem assuntos que desconhecem na prática. Podem sempre surgir boas ideias.
Curioso observar a coincidencia da estimativa, com trator com grades dentadas, com os valores gastos pelas celuloses com prevenção e combate a incendios. Interessante verificar que, sem meios mecãnicos, a limpeza dos terrenos exigiria uma população capaz de a executar, numa estação, de cerca de 10% do total da população ativa, isto é, abaixo deste número há o risco da desertificação (ou despovoamento).
Quem estiver interessado, poderá experimentar outros valores de partida no quadro Excel editável em:
https://1drv.ms/x/s!Al9_rthOlbwehXOyZC7KJQjpD7Oq
O quadro não editável poderá ser visto em:
https://1drv.ms/x/s!Al9_rthOlbwehXIYaoD2-mgm4RXb
Mais informação sobre incêndios florestais em:
http://fcsseratostenes.blogspot.com.es/2017/06/os-incendios-florestais.html
http://fcsseratostenes.blogspot.com.es/2010/09/oratoria-da-floresta-simpatica.html
http://fcsseratostenes.blogspot.com.es/2011/06/o-fogo-inimigo-silencioso-e-invisivel.html
PS em 10 de julho de 2017 - é o que acontece quando um ignorante como eu se põe a escrever sobre estas coisas; graças a um amigo, registo a informação que o crescimento do mato, nas bermas das estradas, sob as linhas de transmissão, sob as árvores da floresta (sem prejuízo de apostar no sobreiro e na azinheira e no cultivo inteligente e produtivo do eucalipto, o que exige a associação em cooperativas para rentabilizar o eucalipto - em pequenas propriedades o rendimento não ultrapassa 4m3 por ha e não é rentável, nos terrenos das celuloses pode atingir 15m3 ) se controla com o glifosato:
http://sementesfiscalizadas.com.br/artigos/8/informacoes-tecnicas-sobre-o-herbicida-glifosato/
É possível que eu esteja enganado
É possível que eu esteja enganado. Não devemos ter certezas, e o que é válido num domínio bem definido e num certo tempo pode não o ser noutras coordenadas.
Mas por outro lado devemos fazer o que pudermos para tentar compreender o que nos rodeia e o que nos afeta, utilizando os velhos passos do método científico, observação, experimentação, verificação dos resultados, colocação de hipóteses, tentativa de teoria, submissão à revisão e referendo dos especialistas...
Isto a propósito do que nos desgosta nestes dias, por um lado as perdas de vidas e bens do incêndio de Pedrogão, por outro a fragilidade de um Estado que deixa roubar material de guerra.
Dizia Mário Soares que o grande embuste do século XX tinha sido o comunismo. Penso que é prudente acolher com reservas a afirmação, vinda de quem em jovem tinha militado no respetivo partido. Mas pegando no termo, e beneficiando da perspetiva histórica, podemos dizer como Jacques Valier (Breve história do pensamento económico de Aristóteles aos nossos dias) que a experiência soviética entrou em processo gravemente degenerativo a partir dos anos 30 do século XX devido à captura do poder pela classe burocrática que atraiçoou os princípios e os fins da própria ideologia. Igualmente podemos dizer como Tzvetan Todorov (Os inimigos íntimos da democracia), que à falta de liberdade e ao desrespeito por direitos humanos da experiência que se tentou ser socialista sucedeu no mundo ocidental uma democracia que contem em si própria inimigos íntimos.
Eu diria pois, pela mentira que depois da escola de Chicago (Friedman, Haieck) nos quiseram fazer crer a todos que as leis do mercado desregulado correspondiam ao interesse das populações, e que as desigualdades diminuiriam. Não só não diminuiram como por esse mundo fora os direitos humanos são desrespeitados , muitas vezes em nome dos valores democráticos, como, por exemplo, os 24 milhões de crianças que anualmente morrem de fome. E isso não tem nada que ver com ideologias de esquerda ou de direita, tem que ver como Parta Dasgupta disse (Economics, a very short introduction) que "as pessoas têm ainda de aprender como viver em paz umas comas outras", sejam quais forem as culturas e as convicções de cada um.
Por isso seria preferível que deixasse de haver governos monopartidários ou de orientação exclusiva, e que os defensores de um ou de outro lado se preocupassem mais em procurar formas de colaboração do que em querer destruir sistematicamente o que os outros fazem.
Esta última afirmação é destinada aos defensores do estado mínimo e do mercado desregulado, que se queixam agora da fragilidade de um Estado que não tem um sistema de prevenção eficaz e que deixa roubar armamento, depois de anos de acusações de um Estado pesado (apesar de não ser o que as estatísticas comparativas dizem) e de, em 2016, o pagamento de juros atingiu 4,2% do PIB, as despesas de educação foram de 3,9% e as despesas de defesa, segurança e ordem pública foram de 2,7% ! É verdade que são também condicionamentos externos e imposições da contenção do défice, mas podia ser um apelo à colaboração, sem os vícios ideológicos dos mercados (sabendo-se as falhas que o mercado tem, assimetrias de informação ou de acesso a tecnologias, escassez, externalidades, promiscuidade interesses económicos-estrutura jurídica-poder político) ou do intervencionismo (poder burocrático, limitações de liberdade, direitos humanos). No caso português, é ainda de assinalar a progressiva fragilização da estrutura militar, desde a supressão do serviço obrigatório e aos cortes orçamentais à interpretação facciosa da Constituição que retira à Marinha e às forças armadas a condução da reação a catástrofes ou a situações de riscos, subordinando-as a estruturas civis geridas por vezes sem o conhecimento desses riscos.
Mas posso estar enganado, não tenho certezas, embora gostasse de as ver debatidas.
Mas por outro lado devemos fazer o que pudermos para tentar compreender o que nos rodeia e o que nos afeta, utilizando os velhos passos do método científico, observação, experimentação, verificação dos resultados, colocação de hipóteses, tentativa de teoria, submissão à revisão e referendo dos especialistas...
Isto a propósito do que nos desgosta nestes dias, por um lado as perdas de vidas e bens do incêndio de Pedrogão, por outro a fragilidade de um Estado que deixa roubar material de guerra.
Dizia Mário Soares que o grande embuste do século XX tinha sido o comunismo. Penso que é prudente acolher com reservas a afirmação, vinda de quem em jovem tinha militado no respetivo partido. Mas pegando no termo, e beneficiando da perspetiva histórica, podemos dizer como Jacques Valier (Breve história do pensamento económico de Aristóteles aos nossos dias) que a experiência soviética entrou em processo gravemente degenerativo a partir dos anos 30 do século XX devido à captura do poder pela classe burocrática que atraiçoou os princípios e os fins da própria ideologia. Igualmente podemos dizer como Tzvetan Todorov (Os inimigos íntimos da democracia), que à falta de liberdade e ao desrespeito por direitos humanos da experiência que se tentou ser socialista sucedeu no mundo ocidental uma democracia que contem em si própria inimigos íntimos.
Eu diria pois, pela mentira que depois da escola de Chicago (Friedman, Haieck) nos quiseram fazer crer a todos que as leis do mercado desregulado correspondiam ao interesse das populações, e que as desigualdades diminuiriam. Não só não diminuiram como por esse mundo fora os direitos humanos são desrespeitados , muitas vezes em nome dos valores democráticos, como, por exemplo, os 24 milhões de crianças que anualmente morrem de fome. E isso não tem nada que ver com ideologias de esquerda ou de direita, tem que ver como Parta Dasgupta disse (Economics, a very short introduction) que "as pessoas têm ainda de aprender como viver em paz umas comas outras", sejam quais forem as culturas e as convicções de cada um.
Por isso seria preferível que deixasse de haver governos monopartidários ou de orientação exclusiva, e que os defensores de um ou de outro lado se preocupassem mais em procurar formas de colaboração do que em querer destruir sistematicamente o que os outros fazem.
Esta última afirmação é destinada aos defensores do estado mínimo e do mercado desregulado, que se queixam agora da fragilidade de um Estado que não tem um sistema de prevenção eficaz e que deixa roubar armamento, depois de anos de acusações de um Estado pesado (apesar de não ser o que as estatísticas comparativas dizem) e de, em 2016, o pagamento de juros atingiu 4,2% do PIB, as despesas de educação foram de 3,9% e as despesas de defesa, segurança e ordem pública foram de 2,7% ! É verdade que são também condicionamentos externos e imposições da contenção do défice, mas podia ser um apelo à colaboração, sem os vícios ideológicos dos mercados (sabendo-se as falhas que o mercado tem, assimetrias de informação ou de acesso a tecnologias, escassez, externalidades, promiscuidade interesses económicos-estrutura jurídica-poder político) ou do intervencionismo (poder burocrático, limitações de liberdade, direitos humanos). No caso português, é ainda de assinalar a progressiva fragilização da estrutura militar, desde a supressão do serviço obrigatório e aos cortes orçamentais à interpretação facciosa da Constituição que retira à Marinha e às forças armadas a condução da reação a catástrofes ou a situações de riscos, subordinando-as a estruturas civis geridas por vezes sem o conhecimento desses riscos.
Mas posso estar enganado, não tenho certezas, embora gostasse de as ver debatidas.
domingo, 18 de junho de 2017
Os incêndios florestais
Sentidas condolências aos familiares das vítimas.
Votos de que um relatório apresente brevemente recomendações para evitar tanto quanto possível a repetição da tragédia, considerando a influencia das causas naturais e a semelhança com identicos acidentes na Califórnia e na Austrália.
Destaco as declarações de Jaime Soares, da Liga de bombeiros, chamando a atenção para a necessidade de emparcelamento da floresta (apenas 3% é pública), cadastro e integração em planos abrangentes (nomeadamente com aceiros para dificultar a propagação e facilitar os acessos, e a proteção da envolvente das aldeias, o que está relacionado com a desertificação do interior).
Gostaria tambem de ver medidas para reforço da vigilancia (deteção precoce e orientação nos caminhos de fuga) e imunidade das comunicações (só uma rede por satélite ou por feixes hertzianos com caminhos múltiplos podem garantir operacionalidade permanente, o SIRESP tal como está não). E ainda a avaliação da utilização de aviões Canadair e Beriev. Penso que é assunto para colaboração de fundos comunitários.
PS em 20 de junho - Parece-me muito lúcida a intervenção do eng.Mineiro Aires:
http://www.ordemengenheiros.pt/pt/atualidade/artigos-de-opiniao/incendio-em-pedrogao-grande/
Votos de que um relatório apresente brevemente recomendações para evitar tanto quanto possível a repetição da tragédia, considerando a influencia das causas naturais e a semelhança com identicos acidentes na Califórnia e na Austrália.
Destaco as declarações de Jaime Soares, da Liga de bombeiros, chamando a atenção para a necessidade de emparcelamento da floresta (apenas 3% é pública), cadastro e integração em planos abrangentes (nomeadamente com aceiros para dificultar a propagação e facilitar os acessos, e a proteção da envolvente das aldeias, o que está relacionado com a desertificação do interior).
Gostaria tambem de ver medidas para reforço da vigilancia (deteção precoce e orientação nos caminhos de fuga) e imunidade das comunicações (só uma rede por satélite ou por feixes hertzianos com caminhos múltiplos podem garantir operacionalidade permanente, o SIRESP tal como está não). E ainda a avaliação da utilização de aviões Canadair e Beriev. Penso que é assunto para colaboração de fundos comunitários.
PS em 20 de junho - Parece-me muito lúcida a intervenção do eng.Mineiro Aires:
http://www.ordemengenheiros.pt/pt/atualidade/artigos-de-opiniao/incendio-em-pedrogao-grande/
Pessoalmente, participei na consulta pública sobre a lei da reforma florestal. Não tenho a pretensão de ter escrito coisas certas, mas não recebi retorno do que escrevi, quanto mais não fosse para esclarecer, a mim e à opinião pública. Penso que as contribuições são simplesmente ignoradas, e como diz o bastonário, desarticulam-se organismos e despreza-se o trabalho dos engenheiros . Importante a chamada de atenção para a riqueza que podia ser a biomassa.
E quanto à forma bem pensante e bem falante com que alguns senhores jornalistas escrevem sobre esta tragédia, direi que não, que "não está tudo dito", que o método científico diz que podemos sempre aprender e alargar o conhecimento, nenhum técnico ou cientista deve dizer isso, aprender sempre, especialmente quando ocorre um desastre destes.
Fazendo agora a analogia com os acidentes ferroviários, num país anglo saxónico a comissão de inquéritojá estaria dando conferencias de imprensa com os avanços na investigação e nas propostas de medidas e no pedido de contribuições e informações. Aqui assiste-se ao sado-masoquismo das reportagens (que ainda assim é útil porque contem informações para a investigação) e aos vómitos nas caixas de comentários à procura de bodes expiatórios e de culpados.
PS em 21 de junho - Notáveis estes documentos, recebidos do colega João Correia, os videos sobre prevenção, o documento pdf sobre financiamentos
https://www.youtube.com/watch?v=TnSdncUT_yo&feature=share
https://www.youtube.com/watch?v=eE7SJzcNkS0&feature=share
https://1drv.ms/b/s!Al9_rthOlbwehW9RWah1Y7OvC3fk
PS em 1 de julho - recordo este texto que escrevi em 2010:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2010/09/oratoria-da-floresta-simpatica.html
Ver também a propósito da limpeza dos terrenos:
http://fcsseratostenes.blogspot.com.es/2017/07/estimativa-de-custos-para-limpeza-de.html
PS em 21 de junho - Notáveis estes documentos, recebidos do colega João Correia, os videos sobre prevenção, o documento pdf sobre financiamentos
https://www.youtube.com/watch?v=TnSdncUT_yo&feature=share
https://www.youtube.com/watch?v=eE7SJzcNkS0&feature=share
https://1drv.ms/b/s!Al9_rthOlbwehW9RWah1Y7OvC3fk
PS em 1 de julho - recordo este texto que escrevi em 2010:
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2010/09/oratoria-da-floresta-simpatica.html
Ver também a propósito da limpeza dos terrenos:
http://fcsseratostenes.blogspot.com.es/2017/07/estimativa-de-custos-para-limpeza-de.html
sexta-feira, 16 de junho de 2017
Análise crítica da evolução da rede do metropolitano de Lisboa
Reformulei um pouco o texto, que tomei a liberdade de enviar à administração do metropolitano. A ideia é mostrar os erros cometidos ao longo da história do metro, muitos deles não assacáveis aos seus técnicos, recordar o excelente plano de expansão de 1974 pela Siemens-Deconsult, e que isso ajude a evitar o erro da linha circular, do ponto de vista operacional, do ponto de vista construtivo (é chocante a destruição que se pretende dos viadutos poente de CG) e do ponto de vista de serviço da área metropolitana.
O plano inicial
Beneficiando do desafogo financeiro do
período posterior à segunda guerra mundial, pôde finalmente constituir-se a
sociedade do metropolitano de Lisboa, em 1948, por concessão da câmara
municipal.
Graças à qualidade dos seus técnicos, responsáveis por monografias dedicadas às diferentes especialidades, foi possível iniciar a exploração em dezembro de 1959.
A concessão especificava exploração subterrânea, o que terá sido algo forçado mas se compreenderia num ambiente de concorrencia com os modos existentes, com intervalos máximos de espera de 5 minutos (10 minutos em cada um dos ramais, Sete Rios-Rotunda e Entrecampos-Rotunda).
Ficou registada a pena dos técnicos pelas limitações financeiras, que os obrigou, por exemplo, a construir as estações com cais apenas para composições de 2 carruagens (cais de 40 metros) e usar métodos construtivos e materiais de baixo custo e boa resistência.
O plano inicial da rede continha, porém, alguns erros, que poderão atribuir-se mais a uma conceção egocentrica da administração decisória e do carater autoritário da câmara da altura, do que a erros de planeamento da equipa técnica.
Temos assim aqui um exemplo da dissonância entre a estrutura técnica e os orgãos decisórios, ou de transmissão das decisões politicas.
Sobressai a preocupação do afastamento das estações do metro relativamente às estações da CP. Não vingou o conceito de integração intermodal, o que motivou, por exemplo, a saída do processo do eng.Guimarães Lobato, em divergência com a administração e a câmara municipal da altura.
Os outros erros da rede inicial eram a existência da bifurcação na Rotunda, comum aos dois ramais, e o formato em "V" com curvas apertadas em Restauradores e Rossio.
A existencia da bifurcação configurava um risco para a fiabilidade da exploração, uma vez que qualquer avaria nas agulhas da Rotunda provocava a paragem da circulação nos dois ramais.
A existencia do "V"implicava que, por exemplo na hora de ponta da manhã, um dos braços do "V" , no sentido da periferia para a baixa, estava sobrecarregado, enquanto o braço contíguo, no sentido da baixa para a periferia, estava pouco carregado. Como os dois braços estavam em série, isso provocava perturbações na exploração ao mais pequeno excesso de afluencia, com demora dos comboios nas estações, acumulação de comboios num troço e rarefação no outro (a maximização da capacidade de transporte duma linha de metro ocorre quando os comboios circulam igualmente espaçados). Era uma circunstancia semelhante à exploração de uma linha circular.
As curvas de pequeno raio de Restauradores e Rossio significavam consumo adicional de energia por resistencia ao movimento, desgaste dos carris e desgaste dos rodados, implicando em ambos os casos a sua frequente substituição, ou, no caso dos rodados, a sua reperfilagem por torneamento.
A segunda parte do plano inicial, que não chegou a realizar-se, embora tenha sido lançado um concurso público em 1972, era constituida por uma linha marginal, duplicando o serviço da CP, de Algés ao Cais do Sodré, infletindo para o Rossio e daí para Santa Apolónia seguindo para o Poço do Bispo.
Graças à qualidade dos seus técnicos, responsáveis por monografias dedicadas às diferentes especialidades, foi possível iniciar a exploração em dezembro de 1959.
A concessão especificava exploração subterrânea, o que terá sido algo forçado mas se compreenderia num ambiente de concorrencia com os modos existentes, com intervalos máximos de espera de 5 minutos (10 minutos em cada um dos ramais, Sete Rios-Rotunda e Entrecampos-Rotunda).
Ficou registada a pena dos técnicos pelas limitações financeiras, que os obrigou, por exemplo, a construir as estações com cais apenas para composições de 2 carruagens (cais de 40 metros) e usar métodos construtivos e materiais de baixo custo e boa resistência.
O plano inicial da rede continha, porém, alguns erros, que poderão atribuir-se mais a uma conceção egocentrica da administração decisória e do carater autoritário da câmara da altura, do que a erros de planeamento da equipa técnica.
Temos assim aqui um exemplo da dissonância entre a estrutura técnica e os orgãos decisórios, ou de transmissão das decisões politicas.
Sobressai a preocupação do afastamento das estações do metro relativamente às estações da CP. Não vingou o conceito de integração intermodal, o que motivou, por exemplo, a saída do processo do eng.Guimarães Lobato, em divergência com a administração e a câmara municipal da altura.
Os outros erros da rede inicial eram a existência da bifurcação na Rotunda, comum aos dois ramais, e o formato em "V" com curvas apertadas em Restauradores e Rossio.
A existencia da bifurcação configurava um risco para a fiabilidade da exploração, uma vez que qualquer avaria nas agulhas da Rotunda provocava a paragem da circulação nos dois ramais.
A existencia do "V"implicava que, por exemplo na hora de ponta da manhã, um dos braços do "V" , no sentido da periferia para a baixa, estava sobrecarregado, enquanto o braço contíguo, no sentido da baixa para a periferia, estava pouco carregado. Como os dois braços estavam em série, isso provocava perturbações na exploração ao mais pequeno excesso de afluencia, com demora dos comboios nas estações, acumulação de comboios num troço e rarefação no outro (a maximização da capacidade de transporte duma linha de metro ocorre quando os comboios circulam igualmente espaçados). Era uma circunstancia semelhante à exploração de uma linha circular.
As curvas de pequeno raio de Restauradores e Rossio significavam consumo adicional de energia por resistencia ao movimento, desgaste dos carris e desgaste dos rodados, implicando em ambos os casos a sua frequente substituição, ou, no caso dos rodados, a sua reperfilagem por torneamento.
A segunda parte do plano inicial, que não chegou a realizar-se, embora tenha sido lançado um concurso público em 1972, era constituida por uma linha marginal, duplicando o serviço da CP, de Algés ao Cais do Sodré, infletindo para o Rossio e daí para Santa Apolónia seguindo para o Poço do Bispo.
Mais
uma vez, a ideia desta linha marginal era a concorrencia com as redes
existentes e não a sua complementaridade e serviço das outras zonas de Lisboa.
A evidencia destas inconformidades levou à
anulação do concurso e à contratação de um consultor estrangeiro para estudar e
propor um plano de expansão da rede da ordem de 15 km.
O plano de 1974
O consultor selecionado apresentou o seu
plano em fins de 1974, o que deu origem à estratégia adotada logo de seguida
pelo metropolitano
Considerando as habituais dificuldades financeiras, foi decidido ampliar os cais das estações para 6 carruagens, prolongar a galeria de Alvalade para Calvanas servindo de garagem, e definir as prioridades para, quando possível, expandir a rede.
Prioridades decididas em fins de 1974 para a expansão da rede:
- dissolução do "Y" da Rotunda e prolongamento da linha de Entrecampos para Alcantara, atribuindo a esta linha o carater de transversal à cidade
- corte da ligação entre Restauradores e Rossio e separação da linha de Alvalade, a prolongar até ao Cais do Sodré, e da linha de Sete Rios-Restauradores, a prolongar até Santa Apolónia.
É curioso, à distancia, verificar que a fundamentação do prolongamento a Alcantara consistia na progressiva deslocação da concentração das áreas de serviço para norte da cidade, relativamente à Baixa, justificando a transformação de Alcantara num polo intermodal de transferencia do fluxo de passageiros da linha de Cascais para acesso à zona do Marques de Pombal e Avenida da República. Previa-se inclusive em Alcântara um interface com as carreiras fluviais.
As dificuldades financeiras de fins da década de 70 impuseram que apenas se prolongasse a maioria dos cais para 6 carruagens e se concretizasse a garagem de Calvanas, ao mesmo tempo que se adquiria o material circulante ML 79, ainda de tração clássica. Como curiosidade, assinale-se o início dos trabalhos de prolongamento da linha da Rotunda para Alcantara sem autorização do governo, que embargou os trabalhos por ausência de capacidade financeira.
Anos 80
A etapa seguinte da expansão da rede,
possível através dum financiamento do BEI, verificou-se no fim dos anos 80, com
a extensão de Sete Rios ao Colégio Militar, e de Entrecampos à Cidade
Universitária. Neste último caso, falhou a prevista ligação ao Campo Grande e
ao novo parque de material e oficinas em Calvanas, por dificuldades
construtivas do viaduto de Campo Grande.
Pode assinalar-se que estas expansões se afastaram ligeiramente do plano de 1974 pelo "desvio" para a Cidade Universitária /Hospital de Santa Maria (uma das tentações dos planificadores de redes de metro é o desenvolvimento das linhas em desenrolar de fita, com os consequentes gastos adicionais de exploração devido aos desgastes de material e aumentos de consumos de energia - o planeamento correto consiste em ligações de metro segundo os eixos mais carregados, com cruzamento de linhas e com intermodalidade transversal a esses eixos), pelos constrangimentos impostos pelo clube de futebol da zona quanto à localização e orientação da estação Campo Grande (que veio a ser inaugurada em 1993 com o parque de material e oficinas) e pela dificilmente explicável ausencia de previsão de uma ligação ao aeroporto de Lisboa.
Pode assinalar-se que estas expansões se afastaram ligeiramente do plano de 1974 pelo "desvio" para a Cidade Universitária /Hospital de Santa Maria (uma das tentações dos planificadores de redes de metro é o desenvolvimento das linhas em desenrolar de fita, com os consequentes gastos adicionais de exploração devido aos desgastes de material e aumentos de consumos de energia - o planeamento correto consiste em ligações de metro segundo os eixos mais carregados, com cruzamento de linhas e com intermodalidade transversal a esses eixos), pelos constrangimentos impostos pelo clube de futebol da zona quanto à localização e orientação da estação Campo Grande (que veio a ser inaugurada em 1993 com o parque de material e oficinas) e pela dificilmente explicável ausencia de previsão de uma ligação ao aeroporto de Lisboa.
O plano de expansão da rede PER I
A adesão à União Europeia proporcionou fundos para um novo plano de expansão na década dos anos 90, em que se integrou a criação da linha vermelha de ligação à EXPO 98 .
Paralelamente, procedeu-se ao estudo e aquisição do novo material circulante,ML90, ML95, ML97 e ML99 já dotado de tração assíncrona com conversor de tensão de eletrónica de potência, com a consequente significativa redução de consumos de energia de tração, devida, nomeadamente, à travagem com recuperação.
Aquele plano de expansão foi concretizado em 1995 com a dissolução do "Y" da Rotunda e prolongamento até ao Rato, com a ligação da linha vermelha à EXPO98 em abril de 1998 e com a dissolução no verão de 1998 do "V" de Restauradores-Rossio e individualização das linhas de Campo Grande-Alvalade-Cais do Sodré e de Pontinha(1997)-Marquês Pombal-Baixa Chiado.
A não ligação a Alcantara, com todos os inconvenientes da sobrecarga da estação Cais do Sodré e desincentivo à utilização da linha de Cascais ao mesmo tempo que os poderes políticos privilegiavam o investimento na auto estrada de Cascais e estimulavam o transporte individual (túnel do Marquês, por exemplo) sem a contrapartida dos parques de estacionamento com correspondência "park and ride", deveu-se provavelmente a uma espécie de tratado de Tordesilhas que mais uma vez comprovou a dificuldade dos decisores em compreenderem o conceito de complementaridade e de integração de uma rede intermodal, e não concorrencial.
Por decisão governamental numa ótica de distribuição de fundos europeus, a zona oriental e central da cidade seria o campo de atuação do metropolitano, enquanto a zona ocidental, a linha de Cascais e a linha da cintura "ficariam" para a CP/REFER.
A adesão à União Europeia proporcionou fundos para um novo plano de expansão na década dos anos 90, em que se integrou a criação da linha vermelha de ligação à EXPO 98 .
Paralelamente, procedeu-se ao estudo e aquisição do novo material circulante,ML90, ML95, ML97 e ML99 já dotado de tração assíncrona com conversor de tensão de eletrónica de potência, com a consequente significativa redução de consumos de energia de tração, devida, nomeadamente, à travagem com recuperação.
Aquele plano de expansão foi concretizado em 1995 com a dissolução do "Y" da Rotunda e prolongamento até ao Rato, com a ligação da linha vermelha à EXPO98 em abril de 1998 e com a dissolução no verão de 1998 do "V" de Restauradores-Rossio e individualização das linhas de Campo Grande-Alvalade-Cais do Sodré e de Pontinha(1997)-Marquês Pombal-Baixa Chiado.
A não ligação a Alcantara, com todos os inconvenientes da sobrecarga da estação Cais do Sodré e desincentivo à utilização da linha de Cascais ao mesmo tempo que os poderes políticos privilegiavam o investimento na auto estrada de Cascais e estimulavam o transporte individual (túnel do Marquês, por exemplo) sem a contrapartida dos parques de estacionamento com correspondência "park and ride", deveu-se provavelmente a uma espécie de tratado de Tordesilhas que mais uma vez comprovou a dificuldade dos decisores em compreenderem o conceito de complementaridade e de integração de uma rede intermodal, e não concorrencial.
Por decisão governamental numa ótica de distribuição de fundos europeus, a zona oriental e central da cidade seria o campo de atuação do metropolitano, enquanto a zona ocidental, a linha de Cascais e a linha da cintura "ficariam" para a CP/REFER.
O problema de Alcântara
Esta divisão, associada à desastrada
política urbanística em Alcantara (na verdade "desurbanística"), à
não menos desastrada gestão da área portuária de Alcantara (com o abandono do
terminal de cruzeiros e com a atribuição por ajuste direto do prolongamento da
concessão do terminal de contentores a uma empresa que entretanto a transferiu
para um grupo marítimo turco), e à incapacidade de elaboração de um plano de
urbanização equilibrado e integrado numa rede intermodal de transportes,
conduziu à situação atual de caos urbanístico, de risco por não execução
do plano de retenção de cheias da bacia de Alcantara e de errada planificação
da ligação da linha de Cascais à linha de cintura.
De facto, o atual plano de urbanização de Alcantara prevê uma estação subterrânea da CP ligada à linha de Cascais, mesmo ao lado do caneiro de Alcântara. A solução é perfeitamente possível, mas é cara e ignora que a linha de cintura já está sobrecarregada ou não tem margem de ampliação do uso, apesar da quadruplicação, com o tráfego suburbano de Sintra, da margem sul, da Azambuja, da própria Alcantara-Terra, de mercadorias, de passageiros de longo curso e dos necessários trabalhos de manutenção.
Como agravante, o atual plano de urbanização de Alcantara prevê uma estação de metro (ampliação da linha vermelha) também enterrada, junto do caneiro de Alcantara, quando por razões de eficiencia energética, para redução dos gradiantes, o término do metro em Alcantara deveria ser em viaduto. Teme-se porém que os interesses imobiliários discordem, e teme-se mesmo que seja reacendida uma hipótese de gentrificação entre Alcantara e o Cais do Sodré, a exemplo do que já se ameaça entre Santa Apolónia (desperdiçando as potencialidades do terminal de contentores, aliás de ampliação viável com estacaria) e a Matinha.
Parece portanto necessário, para reverter o erro das decisões dos anos 90, reformular drasticamente o plano de urbanização de Alcantara.
De facto, o atual plano de urbanização de Alcantara prevê uma estação subterrânea da CP ligada à linha de Cascais, mesmo ao lado do caneiro de Alcântara. A solução é perfeitamente possível, mas é cara e ignora que a linha de cintura já está sobrecarregada ou não tem margem de ampliação do uso, apesar da quadruplicação, com o tráfego suburbano de Sintra, da margem sul, da Azambuja, da própria Alcantara-Terra, de mercadorias, de passageiros de longo curso e dos necessários trabalhos de manutenção.
Como agravante, o atual plano de urbanização de Alcantara prevê uma estação de metro (ampliação da linha vermelha) também enterrada, junto do caneiro de Alcantara, quando por razões de eficiencia energética, para redução dos gradiantes, o término do metro em Alcantara deveria ser em viaduto. Teme-se porém que os interesses imobiliários discordem, e teme-se mesmo que seja reacendida uma hipótese de gentrificação entre Alcantara e o Cais do Sodré, a exemplo do que já se ameaça entre Santa Apolónia (desperdiçando as potencialidades do terminal de contentores, aliás de ampliação viável com estacaria) e a Matinha.
Parece portanto necessário, para reverter o erro das decisões dos anos 90, reformular drasticamente o plano de urbanização de Alcantara.
A linha transversal
Outra consequencia das decisões dos anos
90 foi transferir o carater de linha transversal da linha amarela para a linha
vermelha,o que, não sendo propriamente um erro, alterou o plano de 1974 e
justifica agora a prioridade de ampliação da linha vermelha para Alcantara
(podendo a linha amarela ficar reservada para a ligação mais distante a Algés
ou à margem sul, consoante a estratégia a adotar para a área metropolitana de
Lisboa e a evolução da capacidade financeira).
A construção da ligação da estação Baixa Chiado a Santa Apolónia, pelo método TBM, com tuneladora, integrou-se na construção da galeria desde Restauradores a Baixa Chiado e desde Rossio a Cais do Sodré, também pelo método TBM, com que se conseguiu controlar os assentamentos à superfície, preocupantes durante um período de um mês antes de se atingir o equilíbrio através de injeções de betão.
A construção da ligação da estação Baixa Chiado a Santa Apolónia, pelo método TBM, com tuneladora, integrou-se na construção da galeria desde Restauradores a Baixa Chiado e desde Rossio a Cais do Sodré, também pelo método TBM, com que se conseguiu controlar os assentamentos à superfície, preocupantes durante um período de um mês antes de se atingir o equilíbrio através de injeções de betão.
O desastre do Terreiro do Paço
O desastre do túnel do Terreiro do Paço,
em junho de 2000, consistiu na intervenção precipitada e não fiscalizada dos
carotadores subcontratados pelo empreiteiro geral, na fase de preparação da galeria,
anteriormente construida pelo empreiteiro da tuneladora, para ligação à
estrutura da estação Terreiro do Paço de construção iniciada por outro
empreiteiro.
Nesta adjudicação terá havido uma
interpretação demasiado orientada das normas da União Europeia de salvaguarda
da concorrencia sobre contratação pública. Os orgãos decisórios da altura
não consideraram que em casos de elevada complexidade é aceitável proceder ao
ajuste direto por extensão dos trabalhos do anterior empreiteiro, e recusaram a
negociação.
Para cúmulo e ironia do destino, apesar de
na origem do desastre estar uma interpretação abusiva de normas burocráticas, a
própria burocracia impôs ao metropolitano o prejuízo da devolução de verbas
comunitárias com o pretexto de não cumprimento das regras comunitárias.
A intervenção corretiva no túnel, com
o concurso de um gabinete de engenharia holandês, com experiencia na
construção e monitorização de túneis em terrenos de aluvião, como era o caso,
permitiu a inauguração da ligação Baixa Chiado-Santa Apolónia em dezembro de
2007.
Anos 2000
A expansão de 2002 da linha verde de Campo
Grande a Telheiras pode criticar-se, dada a sua curta extensão, pela mau
aproveitamento da componente fixa do investimento, pelo que o seu custo
marginal foi elevado, com a agravante de não se dispor em Telheiras de
intermodalidade com transporte de bairro automático de baixa capacidade.
A ligação a Odivelas da linha amarela (2004), com recurso a viadutos, de menor custo e de maior eficiencia energética, não justifica críticas, a menos do efeito "desenrolar de fita" motivado pela pressão da junta de freguesia da Ameixoeira para esse desvio.
No caso da ligação da linha azul a Amadora (2004) e Reboleira (2015) critica-se o dificilmente explicável atraso na submissão e esclarecimento da candidatura a fundos comunitários e o também dificilmente explicável desvio do traçado da linha da estação central da Amadora para a zona da ex-Sorefame, numa espetativa suspensa de gentrificação da zona.
No caso da estação Arroios, a última estação com cais apenas para composições de 4 carruagens, critica-se o facto da sua ampliação ter estado adjudicada em 2006, mas o concurso ter sido anulado por constrangimento da câmara municipal, que não desejava afetar o transito automóvel com a simultaneidade de obras na zona de S.Sebastião (cuja segunda estação foi inaugurada em 2009).
A ligação a Odivelas da linha amarela (2004), com recurso a viadutos, de menor custo e de maior eficiencia energética, não justifica críticas, a menos do efeito "desenrolar de fita" motivado pela pressão da junta de freguesia da Ameixoeira para esse desvio.
No caso da ligação da linha azul a Amadora (2004) e Reboleira (2015) critica-se o dificilmente explicável atraso na submissão e esclarecimento da candidatura a fundos comunitários e o também dificilmente explicável desvio do traçado da linha da estação central da Amadora para a zona da ex-Sorefame, numa espetativa suspensa de gentrificação da zona.
No caso da estação Arroios, a última estação com cais apenas para composições de 4 carruagens, critica-se o facto da sua ampliação ter estado adjudicada em 2006, mas o concurso ter sido anulado por constrangimento da câmara municipal, que não desejava afetar o transito automóvel com a simultaneidade de obras na zona de S.Sebastião (cuja segunda estação foi inaugurada em 2009).
O plano de expansão de agosto de 2009
De assinalar a apresentação pelo XVIII
governo em agosto de 2009, em vésperas de eleições autárquicas e nacionais, no
período imediatamente anterior ao agravamento da crise financeira , do plano de
expansão da rede do metro.
É defensável a apresentação de um plano de expansão faseado ao longo de vários ciclos eleitorais, com o fundamento de que o transporte coletivo metropolitano em rede corretamente dimensionada e integrada num plano intermodal é energeticamente mais eficiente do que o sistema de transporte individual dominante, mas este plano contem erros de projeto.
Tal se deve, provavelmente, ao período vivido na altura de afastamento da estrutura técnica responsável pela manutenção, operação e definição de estratégias para servir as decisões políticas de expansão da rede.
Encontram-se assim neste plano as ideias cultivadas em orgãos de planeamento e direção de empreendimentos no metropolitano mais ligados às disciplinas de economia e finanças do que às engenharias, e nos orgãos da FERCONSULT mais ligados à elaboração dos projetos de construção civil de traçados, galerias e estações, independentemente dos critérios de economia e facilidade de manutenção do construido.
E terá sido a esses orgãos que a respetiva secretaria de transportes terá recorrido para a preparação do plano. A experiencia em manutenção e operação dos técnicos ao longo da história do metropolitano condena assim a existencia de múltiplas bifurcações, como já justificado acima a propósito do plano inicial. Se um dos ramais justifica a construção de uma nova linha, deve-se construi-la, senão, deve usar-se uma correspondencia intermodal com um modo de construção mais económico (LRT, people mover hectométrico).
Quanto à linha circular deste plano de 2009, justificada pelo conforto da redução de transbordos (contudo, a justificação de uma rede de metro é uma grelha em que os transbordos, até 2, fazem parte dos percursos normais dentro do metro), deve assinalar-se, para além dos inconvenientes técnicos referidos, que a redução dos transbordos da linha de Cascais no Cais do Sodré é contrabalançada por mais transbordos de quem vai da linha de Odivelas para a mesma zona da avenida da República, que a diferença de fluxos previstos nos estudos de procura não justifica os gastos enormes com a remodelação dos viadutos de Campo Grande, e que a verosímil razão da ligação do Rato ao Cais do Sodré é a situação de calamidade de Alcantara, onde deveria fazer-se o interface com a linha de Cascais.
É defensável a apresentação de um plano de expansão faseado ao longo de vários ciclos eleitorais, com o fundamento de que o transporte coletivo metropolitano em rede corretamente dimensionada e integrada num plano intermodal é energeticamente mais eficiente do que o sistema de transporte individual dominante, mas este plano contem erros de projeto.
Tal se deve, provavelmente, ao período vivido na altura de afastamento da estrutura técnica responsável pela manutenção, operação e definição de estratégias para servir as decisões políticas de expansão da rede.
Encontram-se assim neste plano as ideias cultivadas em orgãos de planeamento e direção de empreendimentos no metropolitano mais ligados às disciplinas de economia e finanças do que às engenharias, e nos orgãos da FERCONSULT mais ligados à elaboração dos projetos de construção civil de traçados, galerias e estações, independentemente dos critérios de economia e facilidade de manutenção do construido.
E terá sido a esses orgãos que a respetiva secretaria de transportes terá recorrido para a preparação do plano. A experiencia em manutenção e operação dos técnicos ao longo da história do metropolitano condena assim a existencia de múltiplas bifurcações, como já justificado acima a propósito do plano inicial. Se um dos ramais justifica a construção de uma nova linha, deve-se construi-la, senão, deve usar-se uma correspondencia intermodal com um modo de construção mais económico (LRT, people mover hectométrico).
Quanto à linha circular deste plano de 2009, justificada pelo conforto da redução de transbordos (contudo, a justificação de uma rede de metro é uma grelha em que os transbordos, até 2, fazem parte dos percursos normais dentro do metro), deve assinalar-se, para além dos inconvenientes técnicos referidos, que a redução dos transbordos da linha de Cascais no Cais do Sodré é contrabalançada por mais transbordos de quem vai da linha de Odivelas para a mesma zona da avenida da República, que a diferença de fluxos previstos nos estudos de procura não justifica os gastos enormes com a remodelação dos viadutos de Campo Grande, e que a verosímil razão da ligação do Rato ao Cais do Sodré é a situação de calamidade de Alcantara, onde deveria fazer-se o interface com a linha de Cascais.
A linha do Aeroporto
Relativamente à expansão da linha vermelha de Oriente para Aeroporto, inaugurada em 2012, deve assinalar-se a grave incorreção da decisão do traçado tomada em 2002, ao privilegiar um traçado com curvas apertadas e gradiante elevado, contrariando assim as boas normas de construção e manutenção económicas, e os pareceres técnicos que defendiam o recurso a viadutos para reduzir o gradiante. A justificação então apresentada pelos orgãos decisórios foi que já tinha sido obtido um financiamento FEDER. Isto não é processo para desenvolvimento de empreendimentos públicos, é uma ação por factos consumados sem respeito por critérios técnicos que são fruto da experiencia e de acordo com as normas internacionais. Aliás, a construção veio a revelar-se extremamente onerosa, com as dificuldades construtivas de ultrapassagem dos dois adutores e constantes alterações de projeto das estações que chegaram a motivar processos de corrupção dos técnicos diretores do empreendimento, os quais foram absolvidos em tribunal.
Relativamente à expansão da linha vermelha de Oriente para Aeroporto, inaugurada em 2012, deve assinalar-se a grave incorreção da decisão do traçado tomada em 2002, ao privilegiar um traçado com curvas apertadas e gradiante elevado, contrariando assim as boas normas de construção e manutenção económicas, e os pareceres técnicos que defendiam o recurso a viadutos para reduzir o gradiante. A justificação então apresentada pelos orgãos decisórios foi que já tinha sido obtido um financiamento FEDER. Isto não é processo para desenvolvimento de empreendimentos públicos, é uma ação por factos consumados sem respeito por critérios técnicos que são fruto da experiencia e de acordo com as normas internacionais. Aliás, a construção veio a revelar-se extremamente onerosa, com as dificuldades construtivas de ultrapassagem dos dois adutores e constantes alterações de projeto das estações que chegaram a motivar processos de corrupção dos técnicos diretores do empreendimento, os quais foram absolvidos em tribunal.
Situação em junho de 2017
Chegou-se assim à atual situação (desde o
verão de 2016), em que o XXI governo, a câmara municipal de Lisboa e o
metropolitano anunciam sucessivamente, com base no plano de expansão de agosto
de 2009, a ligação da linha amarela do Rato ao Cais do Sodré e a destruição dos
viadutos poente de Campo Grande com a construção de dois novos viadutos para
viabilizar, de uma forma incómoda para os passageiros (curvas apertadas à saída
da estação Campo Grande) o fecho em anel da linha verde de Alvalade com a linha
amarela de Entrecampos (e ligação da linha de Odivelas a Telheiras).
Numa perspetiva histórica, temos os erros da rede inicial corrigidos com a dissolução do "Y" da Rotunda e do "V" de Restauradores-Rossio, para, em nome das virtudes virtuais de uma linha circular, voltar às deficiencias de exploração reais da linha circular.
Convem destacar bem que, na configuração atual, uma avaria na linha verde não impede a exploração na linha amarela, ao passo que numa linha circular, qualquer perturbação ou avaria propaga-se imediatamente do troço onde agora é a linha verde, para o troço onde agora é a linha amarela.
Isto é, considerando como base dos cálculos
- o histórico da taxa de 1 avaria por 0,014 M comb.km
- 2 M comb.km por ano na linha circular
- 1 M comb.km por ano em cada uma das linhas amarela ou verde,
a probabilidade ou taxa de ocorrência de avaria com impacto na exploração será:
- na linha circular: de 140 avarias por ano ou
1 avaria todas as 50 horas, ou
0,4 avarias por dia de 20 horas,
- em cada uma das linhas amarela ou verde: de 70 avarias por ano ou
1 avaria todas as 100 horas, ou
0,2 avarias por dia de 20 horas
A probabilidade ou taxa de ocorrência de avarias simultâneas nas linhas amarela e verde será 0,2 x 0,2 = 0,04 avarias por dia de 20 horas, ou 1 avaria todas as 500 horas.
Por outras palavras, fundindo as linhas amarela e verde numa linha circular, a probabilidade de uma avaria ocorre ás 50 horas (aproximadamente 2,5 dias), enquanto na situação atual de linhas separadas, a probabilidade de ocorrência de avarias simultâneas nas duas linhas, prejudicando igualmente a mobilidade, é às 500 horas (aproximadamente 25 dias).
É verdade que a maioria das perturbações pode ultrapassar-se ou iniciarem-se os procedimentos de resolução em 10 minutos, e que uma avaria num troço após o período necessário para criar as condições de segurança não impede a exploração do troço restante, mas na exploração real a dificuldade de exploração de uma linha circular é significativa.
Numa perspetiva histórica, temos os erros da rede inicial corrigidos com a dissolução do "Y" da Rotunda e do "V" de Restauradores-Rossio, para, em nome das virtudes virtuais de uma linha circular, voltar às deficiencias de exploração reais da linha circular.
Convem destacar bem que, na configuração atual, uma avaria na linha verde não impede a exploração na linha amarela, ao passo que numa linha circular, qualquer perturbação ou avaria propaga-se imediatamente do troço onde agora é a linha verde, para o troço onde agora é a linha amarela.
Isto é, considerando como base dos cálculos
- o histórico da taxa de 1 avaria por 0,014 M comb.km
- 2 M comb.km por ano na linha circular
- 1 M comb.km por ano em cada uma das linhas amarela ou verde,
a probabilidade ou taxa de ocorrência de avaria com impacto na exploração será:
- na linha circular: de 140 avarias por ano ou
1 avaria todas as 50 horas, ou
0,4 avarias por dia de 20 horas,
- em cada uma das linhas amarela ou verde: de 70 avarias por ano ou
1 avaria todas as 100 horas, ou
0,2 avarias por dia de 20 horas
A probabilidade ou taxa de ocorrência de avarias simultâneas nas linhas amarela e verde será 0,2 x 0,2 = 0,04 avarias por dia de 20 horas, ou 1 avaria todas as 500 horas.
Por outras palavras, fundindo as linhas amarela e verde numa linha circular, a probabilidade de uma avaria ocorre ás 50 horas (aproximadamente 2,5 dias), enquanto na situação atual de linhas separadas, a probabilidade de ocorrência de avarias simultâneas nas duas linhas, prejudicando igualmente a mobilidade, é às 500 horas (aproximadamente 25 dias).
É verdade que a maioria das perturbações pode ultrapassar-se ou iniciarem-se os procedimentos de resolução em 10 minutos, e que uma avaria num troço após o período necessário para criar as condições de segurança não impede a exploração do troço restante, mas na exploração real a dificuldade de exploração de uma linha circular é significativa.
No caso da linha circular de Madrid (no
caso de Londres a linha circular deixou de o ser) existem muitas linhas
transversais e radiais que a"atravessam", possibilitando caminhos
alternativos em caso de avaria ou de período de manutenção.
Não é o caso de Lisboa, pelo que tecnicamente não parece haver suporte para o seu projeto.
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