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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

A ferrovia tem de se preparar para o agravamento do clima, caso do acidente na Catalunha

 


Imagens dos danos nas vias férreas da tempestade Kristin em 28jan2026 em Portugal:

https://share.google/WfHPR916gCM4ySvOa


na Catalunha em 19jan2026

https://railmarket.com/news/infrastructure/50212-gelida-and-rubi-landslides-split-catalonia-s-disruption-into-two-freight-blockages

início dos trabalhos de reparação na kinha R4 de Rodalies a 2km para sul de Gelida : reposição do muro de contenção da autoestrada AP-7






Acidente junto da autoestrada AP-7 visivel no topo da foto. A deformação da carruagem indicia que o muro caiu à passagem do comboio com deslizamento de terras por falta de drenagem e de monitorização, quer da gestora da autoestrada, quer da gestora da ferrovia, enste caso indiciando dificuldades na repartição de competências entre o governo central e o autonómico

ameaça à ferrovia da costa de Barcelona

A necessidade de preparação da ferrovia para os eventos extremos tem sido tratada neste blogue:


destaco os textos de 1out2025 sobre a necessidade de preparação da ferrovia para os efeitos das tempestades, de 15set2010 sobre a manutenção e controle da sua eficácia, e 31jan2010 sobre o secretismo das entidades e sobre o ordenamento do território.

Talvez haja progressos na divulgação dos diagnosticos , normalmente  a posteriori relativamente à ocorrência dos eventos extremos e apenas em curtos períodos de destaque mediático, mas mantem-se a inércia da concretização das medidas para reduzir a probabilidade de danos graves.   

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Sinistralidade rodoviária - continuação 1

 

A comunicação social tem dado relevo à subida em 2025 das vítimas mortais em acidentes rodoviários, de acordo com os registos da GNR e da PSP. É grave, mas as estatísticas deste tipo podem conter variações de um ano para o outro nos dois sentidos dentro de uma margem de incerteza. Não é uma atenuante para uma situação que pode considerar-se catastrófica (cerca de 600 vítimas mortais a 30 dias do acidente durante um ano; posição inadmissível nas estaísticas europeias) e que exige medidas concretas com mobilização de muitos meios que não se sabe se a Estratégia de Segurança Rodoviária em fase de aprovação poderá vir a implementar em prazo útil.

https://www.publico.pt/2026/01/06/sociedade/noticia/mortes-estrada-aumentam-31-periodo-festivo-202526-38-vitimas-18-dias-2160202


Causas apontadas pela PSP , GNR e secretário de Estado da Proteção Civil                  https://www.acp.pt/o-clube/revista-acp/atualidade/detalhe/governo-promete-aprovar-estrategia-de-seguranca-rodoviaria-em-2026:

  1. excesso de velocidade
  2. consumo de alcool e drogas
  3. desatenção       
Não se contesta, evidentemente, a importancia destas causas e o seu tratamento prioritário. Não se duvida da competência técnica e da boa vontade dos membros da ANSR e da PRP, embora se creia na limitação dos seus recursos humanos, infraestruturais e financeiros. Mas existirão outras causas e circunstancias que tambem exigem atuação imediata:
  1. falta de civismo (condução egocêntrica)
  2. insuficiencia de fiscalização em mobilidade, nomeadamente no incumprimento dos limites de velocidade e nas mudanças de via (qualquer pessoa pode testemunhar isso nas deslocações que faz)
  3. cultura de facilitismo (por exemplo abolindo a obrigatoriedade de capacete de segurança em bicicletas e trotinetas com motor auxiliar; normalizando a prática de passagem com o vermelho por estes veículos)
  4. ausencia de programas de sensibilização pública (dar a notícia de um acidente com vítimas mortais atrai audiencias mas o sentimento é o de que as tragédias só acontecem aos outros; impõem-se campanhas com imagens dos comportamentos corretos para estimular a imitação)
  5. ausencia de inquéritos a acidentes tipo e divulgação de resultados (não basta dar a notícia, devem esclarecer-se e divulgar, com um inquérito preliminar, as causas e as circunstancias e o que fazer para evitar a repetição dos acidentes mais mediáticos)
  6. ausencia de revisão do Código da Estrada (reformulação do conceito de velocidade excessiva e de espaço livre, restrições na aproximação de passadeiras de peões, e do seu uso por velocípedes; reposição da cláusula revogada da equiparação destes com obrigatoriedade do uso de capacete; reformulação das regras nas rotundas com o conceito de velocidade angular para impedir ultrapassagens; redefinição dos procedimentos, especialmente em autoestradas à noite em caso de perda de visibilidade por nevoeiro ou queda extrema de chuva ou neve)
  7. inexistencia de rails de segurança em locais com consequencias graves em caso de despiste (mais de um mês depois do acidente que vitimou 6 jovens na avenida das Forças Armadas, o pilar onde embateu o veículo continuava sem proteção)
  8. pouca consideração das gestoras públicas de infraestruturas  pela relação estreita entre mobilidade e urbanismo (nas cidades devem evitar-se artérias de dois sentidos e o estacionamento à superfície;  a expulsão dos habitantes de grandes cidades para as periferias agrava o tráfego automóvel se não se desenvolverem os transportes coletivos em sítio próprio segregado e se  não se construirem parques de estacionamento à entrada das cidades e redes de distribuição ditas "capilares" , complementares do transporte pesado, como transporte a pedido em "cabinas autónomas"  em vias reservadas)

Saúda-se a posição do secretário de Estado, tentando dinamizar as medidas contra as 3 causas indicadas e apoiando a Visão Zero 2030 da União Europeia

e a ação da ANSR e da PRP


Esperemos que a habitual incapacidade de planeamento e de organização em tantas áreas no nosso país não seja um obstáculo à concretização com passos seguros da Estratégia de Segurança Rodoviária.



Mais informação, comentários desde janeiro de 2023

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2025/12/anatomia-de-crime-acidente-numa-rotunda.html

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2025/12/a-predominancia-do-automovel.html

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2025/12/novembro-de-2025-continua-o-martirio-da.html

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2025/10/morte-por-aropelamento-de-flavia.html

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2025/08/acidente-numa-passagem-de-nivel-na.html

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2025/07/acidentes-em-autoestradas-em-zonas-sem.html

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2025/06/acidentes-em-passagens-de-nivel.html

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2025/05/relatorio-de-sinistralidade-de.html

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2025/02/colisao-do-ice-com-um-camiao-ccarregado.html

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2025/01/pequena-amostragem-em-2-de-janeiro-de.html

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2024/11/os-motociclistas-meus-amigos-vao-ficar.html

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2024/09/uma-noite-no-transito-de-lisboa.html

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2024/07/mais-um-acidente-na-a2-km-1759-com.html

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2024/05/o-momento-da-seguranca-rodoviaria.html

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2024/04/os-limites-de-velocidade.html

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2024/03/deslizamento-de-terras-e-aluimento-no.html

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2024/01/acidentes-rodoviarios-na-a2-ao-km85-em.html

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2023/10/observando-mobilidade.html

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2023/10/pequena-cronica-de-um-incidente-banal.html

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2023/09/a-mobilidade-no-futuro.html

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2023/06/acidentes-ferroviarios-em-passagens-de.html

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2023/05/a-melhor-solucao-dizem-os-estudos-e-um.html

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2023/02/acidentes-na-passagem-de-nivel-de.html

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2023/01/o-acidente-ao-km-85-na-autoestrada-para.html

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2022/11/a-pobre-mobilidade-de-lisboa.html

 

 

 

 

 

 

 



quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Preparação da ferrovia contra as alterações climáticas

 A ocorrência de deslizamentos de terras na sequência de excesso de precipitação, provocando interrupção das vias de comunicação e acidentes ferroviários e rodoviários leva também a aumentar o nível da monitorização das infraestruturas e da manutenção.

Dão-se a seguir alguns exemplos da realização de seminários sobre o tema e de episódios de excesso de precipitação e de acidentes ocorridos. A ferrovia terá de se adaptar às alterações climáticas.



Conferência da ERA (European Railway Agency) em 16jun2025

https://www.era.europa.eu/content/conference-rail-resilience-climate-change

Conferência Rail Net Zero em 14-15out2025

https://www.railnetzerosummit.com/

Conferência Intelligent Rail Summit  "Ferrovia à prova do clima" da Rail Tech em 4-5nov2025

https://events.railtech.com/i ntelligent-rail-summit-2025/programme/



Deslizamento de terras em Nesvatnet, Levanger, Noruega:

https://www.ngi.no/en/research-and-consulting/natural-hazards-container/avalanches-and-slides/quick-clay-landslides/large-quick-clay-slides-in-norway/

https://www.railtech.com/all/2025/09/26/could-norways-fatal-rail-landslide-have-been-foreseen-satellite-data-suggests-yes/

o caminho de ferro encontra-se a um nível inferior ao das estradas; estas são-lhe
paralelas e constituem uma barragem que acumula água por insuficiente drenagem numa zona em que o nível freático é elevado devido ao lago Nesvatnet . A zona do deslizamento encontra-se numa cota mais baixa relativamente aos terrenos envolventes nos perfis longitudinal e transversal 




perfi longitudinal



perfil transversal




Pequeno deslizamento de terras em Riedlingen, Alemanha e descarrilamento:

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2025/08/descarrilamento-em-riedlingen-bechingen.html

Deslizamento de terras em Stenungsund, Suécia em set2023:

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2023/09/os-desastres-de-derna-e-de-stenungsund.html

Aluimento no IC2/Águeda:

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2024/03/deslizamento-de-terras-e-aluimento-no.html

Aluimentos na A41 e A14

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2016/04/os-aluimentos-da-a41-e-da-a14.html

Aluimento no balastro da linha de Casdcais em 2013:

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2013/02/no-melhor-pano-cai-nodoa-reflexoes.html

Aluimento na linha do Norte peerto da Pampilhosa:

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2023/01/aluimento-em-aterro-na-linha-do-norte.html



CONCLUSÃO:  é essencial monitorizar as condições de drenagem especialmente no perfil transversal e evitar o paralelismo com rodovias a cota superior

PS em 3nov2025 - mais um descarrilamento em consequencia de deslizamento de terras, desta vez em Cumbria, na ligação de Glasgow a Londres:

https://www.independent.co.uk/news/uk/home-news/shap-cumbria-train-derailment-b2857220.html

local onde terá ocorrido o deslizamento de terras e a colisãona via da direita, sentido esquerda-direita


A colisão provocou o arranque da frente da primeira carruagem que descarrilou. A direita aspeto da zona de colisão, indiciando necessidade de reforço da contenção




sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Descarrilamento em Riedlingen - Bechingen em Baden-Wurtemberg em 28jul2025

Condolências aos familiares das vítimas e votos de recuperação dos feridos.

Este acidente impressiona pela aparente prigosidade antes da precipitação elevada que provocou acumulação de água numa estrada sobranceira à linha.Sem drenagem suficiente, a àgua provocou o deslizamento de terras e pedras do leito da estrada para a via férrea, situada num talvegue entre dois taludes com cerca de 10m de altura e sem valas de drengem suficientes.

A primeira carruagem terá descarrilado e sido empurrada pela segunda carruagem (põe-se a questão, caso isso tenha ocorrido,  se não deveria haver um automatismo de desligação da tração) até bater em árvores ou no talude da esquerda, seguindo-se o efeito de armónio dobrando-se e partindo-se a carruagem .

Este risco de acumulação de água e drenagem insuficiente é relativamente frequente. Há poucos meses terá havido um descarrilamento na mesma região, Baden-Wurtemberg, sem vítimas, tal como no próprio dia 28 de julho houve outros danos na via férrea, também sem vítimas.

Em Porttugal, tivemos recentemente este fenómeno com deslizamento de terras  na estrada IC2 em Águeda e, há uns anos, em Arco de Valdevez e em Guimarães.

Isto é, tal como na Alemanha, o gestor de infraestruturas deverá investir na manutenção e no cumprimento das regras de segurança. Neste caso, garantir drenagem suficiente, que estradas paralelas não constituam uma barragem, que haja valas paralelas à via férrea com capacidade de drenagem e acumulação temporária de detritos, que os taludes sejam tratados e fixados. Em Portugal há boas experiencias com bons exemplos na fixação de encostas, como na linha do Douro (no caso de Baden-Wurtemberg, a linha acompanha o percurso do Danubio, isto é, atravessa as linhas de água que correm para ele). Pode ser uma aplicação de robôs autónomos de monitorização.

É evidente que tudo  isso custa dinheiro, mas a justificação da existencia da ferrovia é precisamente a economia de energia e pressupõe um aumento de oferta.



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Documentação do acidente de Baden.Wurtemberg:

https://events.railtech.com/news/news/2025/07/29/landslide-derails-regional-db-train-in-germany-killing-3/ 

https://www.youtube.com/watch?v=eqgXHSBA-Iw


mapa topográfico vendo-se o traçado do rio, o relevo adjacente e o local do descarrilamento






acumulação de água por insuficiente drenagem


terça-feira, 26 de março de 2024

Deslizamento de terras e aluimento no IC2 em 12mar2024 entre Águeda e Albergaria

 

Notícia no JN com informação da IP sobre as causas:

https://www.jn.pt/7251149092/cratera-no-ic2-em-agueda-provocada-pela-saturacao-de-agua-no-solo/

É possível uma crítica violenta à tutela que deixa as coisas chegar a este ponto. E aos assessores técnicos que na tutela ou na IP não tomam atitudes firmes de oposição aos critérios puramente de economia.

O deslizamento no IC2 ocorreu num caminho de escoamento de águas numa reentrância num talude e num pequeno troço em que o pavimento da estrada tem (tinha) uma ligeira depressão que acumulava água que depois fez o seu caminho sob a estrada. Desatenção no projeto que não instalou drenagem, e falta de vigilância. O que não admira porque como se sabe porque superiormente se decidiu corta nos recursos dos cantoneiros para reduzir o défice.

Junto figuras elucidativas.












segunda-feira, 25 de março de 2024

Um artigo descrente da viabilidade da alta velocidade ferroviária

Um colega enviou-me um artigo curioso com uma perspetiva altamente pessimista sobre a viabilidade de uma rede de alta velocidade em Portugal :

https://ionline.sapo.pt/artigo/811746/tgv-portugu-s-ou-a-ignor-ncia-em-alta-velocidade?seccao=Opiniao_i

Embora reconheça algum fundamento às questões técnicas levantadas pelo autor, engenheiro civil com a especialização de Transportes, julgo que ele deveria expressar-se com mais calma e menos agressividade proporcionando uma eficiente troca de impressões.


Mensagem recebida do meu colega:


Tirando uma confusão (?) do autor com a bitola estreita (a estreita não é a nossa; é a dos outros, se por estreita se quiser dizer bitola UIC), concordo com a ideia de que Portugal não deveira dar um passo maior do que a perna. Há anos que ando a dizer que acho que Portugal não deve passar das 2h45 Lisboa-Porto, para 1h15m, o que obrigaria a velocidade máximas de, de... vá, digam lá!... não se acanhem!

A prioridade, para mim, vai para a velocidade elevada  para passageiros (240km/h máxima e 200 de média); e para o direito de Portugal a atravessar Espanha em bitola europeia, importando e exportando de forma muito mais barata e ecológica.


Meu comentário:

Meu caro

Tem razão, internacionalmente referem-se à bitola UIC como estreita quando se fala na ibérica de 1668mm ou na russa de 1520mm. Exceção em Espanha que chamam estreita à via métrica.

Quanto às velocidades, deixe-me adivinhar, 300 km/h de velocidade operacional máxima para fazer 290km Lisboa-Porto em 1h15min, o que implicaria uma velocidade de projeto de mais ou menos 310 a 320 km/h. Não encareceria muito a obra em terrenos favoráveis, mas tem custos de energia na operação e, como diz Lucena Gaia, na manutenção.

Concordo com a proposta de 240km/h de velocidade operacional máxima (velocidade máxima de projeto 250 km/h) que, com um coeficiente de 0,8 (há sempre troços com curvas ou zonas de agulhas em que deve abrandar-se, vejam-se as curvas de Santo Ovídio para a Campanhã de mais um arquiteto genial, tem razão Lucena Gaia quando diz que uma linha de alta velocidade não é para ter paragenzinhas umas atrás das outras) dá uma viagem Lisboa Porto de cerca de 1h30min, o que me parece bem e concorrente com o avião.

Curiosamente, os nossos “concorrentes” bálticos, que já têm o projeto da Rail Baltica de 870km a andar em obra, devagarinho mas a andar, optaram  por velocidade máxima de projeto 249km/h para terem uma velocidade máxima operacional de 234km/h (haverá que multiplicar por 0,8 para ter a média, e chegando à Polónia impõem limites mais apertados).

De facto, quando se fala em ferrovia, também me parece que o essencial era trabalhar a sério para antecipar o mais possível o exercício do direito de atravessar Espanha com as nossas mercadorias de exportação em bitola UIC. Mas quem decide prefere namorar a Galiza. É bom que se namore a Galiza (e já agora a Extremadura), mas com o tempo que vai demorar a construir a ligação em UIC para atravessar Espanha devia estar-se a trabalhar em força nisso.

 

Agora permitam-me um comentário ao artigo do colega Lucena Gaia, que, para além dum excelente técnico, tem uma faceta muito interessante de escritor.

Mas eu com os meus cabelos brancos atrevo-me a sugerir um pouco de calma e menos agressividade nas suas análises, por mais que as falhas que refere sejam motivo de escândalo.

Efetivamente, o acidente de Soure revelou uma falha grave, aliás recordada pelo gabinete de investigação de acidentes no seu relatório. A probabilidade de um acidente acontecer é grande quando se verificam várias causas ou circunstancias. Para além de falha na comunicação entre o veículo de manutenção e o centro de comando e incumprimento dos regulamentos, houve a circunstancia da posição dos semáforos gerar confusão, iludindo o condutor do veículo que além disso não reagiu ao forçar da agulha que estava na posição de não acesso à via principal. Mas a principal falha foi a ausência no veículo de dispositivo de travagem automática por ultrapassagem de sinal vermelho. Nisso tem razão Lucena Gaia. Outro exemplo de falta de manutenção seria o acidente na Adémia, com avaria de um vagão de mercadorias. Ainda outro exemplo foi a queda de motores na linha de Cascais provocando um descarrilamento. Foi na altura das cativações, dos cortes no pessoal e na aquisição de peças … Parece-me que a forma um tanto alarmista como a questão é apresentada não corresponde à competência técnica que ainda existe nas oficinas da CP . Obviamente que se se perder essa competência o risco de acidentes aumenta, quer na ferrovia convencional, quer na desejada alta velocidade, mas isso terá como consequência o tráfego fugir para a rodovia onde as análises de custos benefícios mostram que as externalidades  (aumento de sinistralidade e de custos energéticos por passageiro-km) acabam por ficar mais caras do que o que se poupa.

Tem razão Lucena Gaia quando refere os custos elevados da manutenção. No entanto, terá de se considerar um efeito de escala, isto é, os custos unitários baixarão com o crescimento da rede. Estimando 1000km de bitola UIC a instalar em Portugal num período de 20 anos a 20 milhões de euros por km (possível financiamento comunitário se dentro das especificações do regulamento 1315 entre 30% e 85%) e custos de manutenção de 5% a 10% do investimento, teremos ao fim de 20 anos uma despesa anual de 1000 a 2000 milhões de euros. É efetivamente muito (comparar todavia com o consumo anual de cerca de 3000 milhões de raspadinhas e jogos da Santa Casa, ou 5000 milhões de automóveis novos, ou 6000 milhões em viagens e turismo ao estrangeiro, ou 14000 milhões em jogos on line por um terço da população), mas deve comparar-se com a manutenção das autoestradas fustigadas pelo peso dos camiões cada vez mais e mais carregados, não esquecendo os frequentes cortes por deslizamento de terras por falta de manutenção das drenagens (IC2 em 2024, A14 e A41 em  2016, avenida de Ceuta em 2017). Concordo com o Tribunal de Contas Europeu (ECA), análises de custos benefícios preferem a rede única ferroviária europeia em bitola UIC. Aliás, faço parte de um grupo que em julho de 2022 apresentou no 10ºcongresso rodoferroviário português, no LNEC um estudo sintético de justificação da rede de bitola UIC em Portugal, incluindo uma análise de custos benefícios com uma TIR de 2,23% (não é muito, mas é qualquer coisinha). Foi pena não ter havido uma discussão de prós e contras centrada em argumentos  consistentes. Pode consultar-se essa apresentação pesquisando na internet por “As linhas da rede transeuropeia TEN-T e os desafios para o transporte ferroviário internacional de mercadorias (e passageiros) além Pirinéus”.


 

 




quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Acidentes rodoviários na A2 ao km85 em dezembro de 2022 e na A1 ao km 167 em janeiro de 2024

 

Em recente edição do  programa Linha aberta, da SIC,  foi dito que não tem sido divulgada informação adicional sobre o acidente ao km85 da A2, no sentido N-S, que vitimou Cláudia Isabel. Isto é, o processo de inquérito estará parado ao fim de mais de um ano.

Voltar ao tema será sempre violentar a mãe de Claúdia Isabel, que entretanto perdeu a própria mãe e em entrevista em outubro de 2023 disse que não tinha conhecimento do resultado da autópsia.

No entanto, como já referido, é importante que se esclareçam todas as questões do acidente para reduzir a probabilidade de repetição.

Nesta perspetiva, parece-me importante que sejam esclarecidas as seguintes questões e aplicadas as recomendações respetivas:

1 – qual foi o resultado da autópsia? A vítima faleceu ou estaria desmaiada antes do despiste? Ou faleceu em consequência do embate na vala? Tinha o cinto de segurança posto? Os vestígios de travagem junto do km85 pertenciam ao smart da vítima? Estes esclarecimentos são necessários para se saber se a existência de rail de segurança ou de um talude de inclinação menor poderia evitar a morte.  

2 – existem grandes extensões da autoestrada sem rail de segurança do lado exterior. Se a morte ocorreu após o despiste essa terá sido uma circunstancia que contribuiu para ela em grande parte. Curiosamente, mais ou menos na mesma altura outra cantora teve um acidente semelhante, tendo saído da autoestrada mas após bater em rails de segurança que amorteceram a colisão e salvaram a vida da senhora

3 – uma simulação em que se supõe como 180 km/h a velocidade do veículo que embateu no smart e 50km/h a velocidade deste no momento do embate conduziu à velocidade resultante de 70 km/h e a uma aceleração brusca inferior a 2G, que em princípio não será responsável pela morte do condutor, até porque o banco do smart tem proteção contra este golpe. O inquérito apurou as velocidades após o embate?

4 – mesmo que não se venha a provar que a morte de Cláudia Isabel se ficou  a dever à ausência de rail de proteção na zona do despiste, isso não invalida que os operadores das autoestradas devam equipar os troços com falta de rails. Para se ter uma ideia da gravidade dessa ausência para um despiste a 70km/h e colisão com o talude, ela equivale  a uma queda a partir duma situação de repouso, duma altura de 20 metros (para um despiste a 120kmH, a altura de queda equivalente a partir do repouso seria de 55 metros)

5 – no primeiro dia de janeiro de 2024, mais um trágico acidente com a morte da mãe das duas crianças que com ela viajavam, ao km 167 na A 1 no sentido norte-sul junto da povoação de Gasconho  (ver imagem Google earth abaixo). Tudo indica que o despiste foi antes do rail de proteção sobre o túnel da estrada secundária que cruza a A1, num intervalo entre rails de proteção com 130m. O carro depois do despiste ter-se-á deslocado cerca de 150m com um desnível de 10m capotando sobre uma conduta de escoamento de águas pluviais. A ausência de rails é inadmissível.

 

Em resumo, numa altura em que a Comissão Europeia constata o nível inadmissível da sinistralidade rodoviária em toda a União (dados de 2022: média da UE 46 mortes por milhão de habitantes; Roménia 86; Bulgária 78; Portugal 63) e mantem o objetivo de redução a zero até 2050, é importante a rápida conclusão dos inquéritos deste tipo de acidentes com todas as variáveis  e a divulgação das recomendações.

 

 

Notas

1 -: anterior comentário ao acidente de Cláudia Isabel:

https://fcsseratostenes.blogspot.com/2023/01/o-acidente-ao-km-85-na-autoestrada-para.html

 2 - Acidente ao km167 na A1 em 1jan2024:

a seta indica o provável ponto de despiste seguindo-se o deslizamento por um declive com conduta para escoamento e com desnível de 10m até à imobilização; o gráfico mostra o perfil do percurso

terça-feira, 26 de setembro de 2023

Os desastres de Derna e de Stenungsund

 Não têm comparação em termos de perda de vidas humanas as inundações de Derna na Líbia em 10set2023 e o deslizamento de terras em Stenungsund na Suécia em 22set2023. Mas em ambos os casos há´fenómenos estudados na Física que aparentemente foram descurados, na altura da construção das casas junto do mar e no enfiamento de uma linha de água de declive elevado e em forma de garganta ladeada por planaltos de altura superior a 100metros, em Derna, e na altura da construção da autoestrada em Stenungsund entre um monte argiloso e uma linha de água.  Foram desastres de gravidade muito diferente e no caso sueco era difícil prever o acidente. Mas deixo aqui as vagas semelhanças topográficas do primeiro caso com o urbanismo de Alcântara e de Oeiras, ambas na extremidade de uma linha de água de uma área hidrográfica significativa de declive acentuado. No segundo caso há semelhanças com deslizamentos de terras recentes em Guimarães e Arcos de Valdevez e, há mais tempo, em estradas no Alentejo e na região do Oeste.

foto aérea da estrutura montanhosa onde se insere a linha de água que termina em Derna


deslizamento de terras na Suecia - à direita autoestrada destruida pela pressão dos terrenos da encosta e pela sucção dos cursos de água à superfície e subterrâneos; à esquerda estrada de acesso destruida pela proximidade do curso de água pré existente - fotos do jornal Dagens Nyheter


Assistimos na TV e imprensa à responsabilização das duas barragens na Líbia pela extensão da catástrofe. Seria interessante que, por exemplo através do LNEC, o governo português oferecesse o estudo das causas do desastre. Pessoalmente, apenas tive uma cadeira de Hidráulica Geral e um estágio na barragem do Picote que não me deram competência técnica para fazer afirmações com elevado grau de certeza. Apenas posso pôr a hipótese que me parece que, perante uma precipitação de 400 milímetros em 24 horas concentrada na área hidrográfica da linha de água que termina em Derna, o desastre era inevitável, com ou sem as duas barragens . Mas repito que seria interessante o LNEC esclarecer isso porque a forma como as notícias foram dadas induz a fação ambientalista anti barragens a condenar qualquer proposta de construção.

Observo que as duas barragens na Líbia eram de aterro compactado e tinham uma altura útil de 20 metros aproximadamente. As barragens de aterro não têm resistencia, bem mantidas ou não, para uma enchente que ultrapasse o seu nível máximo, e essa enchente normalmente destroi-a. Segundo um artigo informado da BBC  

https://www.bbc.com/news/world-africa-66799518
, a barragem junto de Derna encontra-se a 2,4 km do mar e tinha uma capacidade de 22,5 milhões de m3 . A altura era de 20 m o que, considerando o declive da linha de água e a largura do vale de 200m, daria um comprimento segundo a linha de água de 1600m.  Admitindo afluentes em mais 5000m, teremos para o volume armazenável cerca de 13 milhões de m3. Dados retirados do Google Earth/caminho/perfil da elevação.

Segundo o estudo da BBC, o volume da albufeira da barragem superior seria de 1,5 milhões de m3 para uma altura de barragem também de 20m e um comprimento da albufeira de 2.000m o que daria cerca de 8 milhões considerando os afluentes.

Supondo uma área hidrográfica de 70.000m x 3.000m teríamos para a precipitação de 0,4m por 24h cerca de 80 milhões m3 por 24h e provavelmente 8 milhões m3/hora mais intensa ou 2.200 m3/s. Para uma altura média de 300m no declive desde as montanhas teríamos então uma potencia destrutiva em Derna de 6.600 MW.



Se for assim, as barragens atrasaram um pouco o desastre, até serem destruidas, mas o volume de água que caiu foi superior à sua capacidade de armazenamento e acabaria por produzir o mesmo resultado.

Em conclusão, não deviam ter sido construidas casas à mesma cota da barragem mais próxima do mar, o que me leva a questionar as condições de segurança em Alcântara e Algés, e a capacidade dos túneis de drenagem do plano geral, sendo que em momentos de maré alta não poderá haver descargas em Santa Apolónia da água recolhida em Campolide proveniente da Amadora, Sete Rios e Praça de Espanha. 

Sobre o deslizamento de terras na Suecia a fotografia supra é elucidativa.  Teria sido difícil prever esta situação, mas dada a natureza argilosa dos solos deveria ter havido uma revisão de projeto por entidade especializada. Entretanto pôs-se a hipótese do movimento de terras em obras no outro lado do monte ter provocado ou ampliado os efeitos do dessastre.


na outra encosta do monte adjacente à auto estrada destruida decorrem obras com escavações e aterros: põem-se a hipótese de a pressão decorrente da acumulação de terras juntamente com a elevada precipitação ter provocado a liquefação dos solos argilosos descendo a encosta da autoestrada à superfície e no subsolo; aconteceu um fenómeno semelhante na construção do Hospital da Luz junto da estação de metro de Colégio Militar que, ao retirar terras escavadas da obra do centro comercial,  provocou por descompressão a elevação de alguns centímetros do túnel o que foi detetado pelos maquinistas à passagem pela sobreelevação dos carris.





região de Derna em topographic-map.com



zona da autoestrada de Stenungsund em topographic-map.com

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Descarrilamento na Adémia em 1 de abril de 2017

Sobrepondo-se à guerra e à violência por esse mundo, as duas notícias de hoje, mortes em Mocoa na Colombia por deslizamento de terras (espera-se da engenharia colombiana medidas para reduzir os riscos de repetição) e mortes no metro de S.Petersburgo, só podem levar-me a votos de condolências para os familiares das vítimas.

Mas gostaria de escrever qualquer coisa sobre o descarrilamento da Adémia.

A minha experiencia ferroviária limitou-se ao metropolitano mas fiz tambem alguns trabalhos no ambito mais vasto da análise de riscos. Nessa perspetiva, considero muito grave o descarrilamento da Adémia que associo a um risco classificável segundo a norma 50126 como intolerável, dada a probabilidade não nula de presençade um comboio de passageiros na via contrária à do acidente.
Felizmente não aconteceu, mas se um comboio de passageiros tivesse partido de Coimbra B pouco antes do descarrilamento, não teria espaço para parar, apesar da ocupação dos circuitos de via e da destruição das catenárias pelo descarrilamento. Distância do local do acidente a Coimbra B: 3,9 km.
Por não ter esperança que a CP, a IP/REFER, o GISAF (agora GPIAAF) ou a Transfesa/DB Schenker prestem a curto prazo informação consistente sobre as circunstancias e causas do acidente (consultados os respetivos sites em 3 de abril à tarde, são omissos sobre pistas de investigação, em postura diametralmente oposta à cultura anglo-saxónica perante acidentes), formulo aqui deduções e hipóteses que podem não corresponder à realidade, pedindo aos colegas que possuam informações que as corrijam.
Aparentemente o comboio terá saído da fábrica de cimentode Souselas com vagões da Transfesa/DB Schenker com cinzas (ou cimento?) com destino a Sines. A ligação à linha do norte é feita por uma agulha de talão a 3,2 km do local do acidente. Ponho a hipótese de uma deficiência num dos vagões ou na agulha (rodados fora das especificações geométricas de projeto ou de homologação, nomeadamente diâmetro ou conicidade; gripagem dos pivots), ou numa segunda agulha, esta de ponta e a 3 km do local do acidente (é possível uma peça suspensa encaixar num componente de uma agulha de ponta e descarrilar um rodado). A hipótese é também a do vagão parcialmente descarrilado ter sido arrastado e tombado na ligeira curva para a direita imediatamente antes do local do acidente. Seguiu-se o "harmónio" dos outros vagões ocupando ambas as vias . A locomotiva não terá descarrilado. A assinalar ainda dois pequenos viadutos, provavelmente com aparelhos de dilatação, a 1,3 km e a 3,05 km a montante do local do acidente.
Neste caso, as ligações desativadas Figueira da Foz-Pampilhosa ou Covilhã-Guarda não constituem percursos alternativos para este tipo de serviço que terá sempre de utilizar um troço da linha do norte.
Isto põe a questão da saturação da linha do norte (pendolinos, intercidades, regionais, mercadorias, manutenção) que, por si só e do meu ponto de vista, justificaria uma linha nova dimensionada para 350km/h (não necessariamente para ser explorada com esta velocidade) dedicada a passageiros para substituir parcialmente o tráfego aéreo Lisboa-Porto, mais ineficiente energeticamente. Mas enfim, não há dinheiro (notícia de hoje do DN: os contribuintes portugueses já contribuiram com 13 mil milhões de euros para resgate de bancos (apesar de 6 mil milhões do resgate europeu não terem sido utilizados).
Uma palavra ainda de confiança no valor e na experiência dos colegas da manutenção da REFER e no seu compromisso com a segurança apesar de todos os constrangimentos.
 Aguardam-se esclarecimentos que não sejam par a "plateia ver", da CP.IP/REFER, GPIAAF, Transfesa/DB Schenker.

http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/descarrilamento/linha-do-norte-cortada-por-tempo-indeterminado


sentido de deslocamento para a direita; efeito harmónio


agulha de ponta a 3 km, a verificar se tem vestígios de toque

local do descarrilamento, à saída de curva ligeira


outra foto do mesmo rodado

percurso de 3,2 km do ramal da fábrica de Souselas ao local do acidente 
trabalhos de remoção dos vagões cisterna (80 ton?) com grua mais potente; noto que infelizmente o trabalhador na foto não usa capacete de segurança, apesar de manipular as correntes de suspensão
PS em 4 de abril - Informação da IP/REFER de hoje: circulação restabelecida através de uma das vias com limitação a 30 km/h. Nenhuma informação sobre hipóteses de explicação do acidente nem medidas tomadas para investigação ou para evitar a repetição, o que naturalmente lamento.
Entretanto, amáveis comentadores observaram que o troço do acidente tem a via por modernizar (apesar das travessas serem bibloco). Falta ainda modernizar cerca de 30% da linha do norte, tarefa cara e dificil dado o seu tráfego intenso: Ovar-Gaia, Entroncamento-Santarem e CoimbraB-Pampilhosa. Faz de facto muita falta uma linha nova. O troço do acidente tinha limitações de velocidade dado o estado da via. Admite-se assim que um problema de via, por exemplo balastro em falta, fadiga da via ou combinação com uma deficiencia de um vagão deu em acidente. Uma palavra para o esforço de quem está a trabalhar na reparação. 
Informação no site do GISAF: última investigação em curso - Descarrilamento do comboio de passageiros IR 868 na estação da Livração, na linha do Douro, em 15-01-2017, processo aberto em 27 de fevereiro. Escrevo isto como protesto pela privação de meios imposta ao GISAF.
Do site da Transfesa, última notícia - Transfesa lançou uma nova web em 30-4-2015.  Como se diz num programa da Euronews, "no comments".
PS em 10 de abril - segundo informação do GISAF, agora GPIAAF, de 7 de abril, foi aberta investigação ao descarrilamento de 1 de abril. É dad a informação de que o comboio circulava dentro dos limites de velocidade, e que a operadora é  a Medway. Última notícia no site da Medway:01 de fevereiro 2017MEDWAY GANHA CONTRATO COM A ALB





segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Acidente na linha suburbana Metro-North, em Spuyten Duyvil, Bronx, em 1 de dezembro de 2013


A amarelo percurso previsto. A locomotiva estava na cauda da composição. Todos os veículos descarrilaram.
 AP Photo/Mark Lennihan


Enquanto se aguardam os esclarecimentos que o NTSB (National Transportation Safety Board) prestará depois de ler a “caixa negra” e durante a investigação que está a fazer sobre o descarrilamento em Spuyten Duyvil (Bronx), registo os seguintes comentários:

1 – a composição de 7 carruagens de 2 tipos estava a ser empurrada (e não puxada) por uma locomotiva diesel quando descarrilou numa curva de raio inferior a 300m numa zona de limitação de velocidade de 48 km/h imediatamente a seguir a uma reta com limitação de 110 km/h
2 – pelas fotos, o estado da via parece bom, mas encontra-se junto de uma encosta arborizada, o que tem os riscos de queda de obstáculos que podem causar descarrilamentos ou de folhagem cuja decomposição pode causar deslizamento na travagem (patinagem) se as carruagens não estiverem equipadas com areeiros ou travagem por eletroimans (o comboio que descarrilou era o primeiro naquela  manhã, penso que sem inspeção prévia da via)
3 – há 7 meses descarrilou um comboio de mercadorias perto do mesmo local, também junto d euma encosta
4 - não existe sistema de controle automático de velocidade, pelo que a segurança depende apenas do maquinista, que neste caso estava na cauda da composição (ignoro se havia um tripulante  na primeira carruagem a transmitir informação ao maquinista ou se ele vigiava a via por televisão)
5 – de assinalar, pela negativa, a ausencia na via de carril de segurança ou de contra-carril, que são  medidas contra descarrilamentos em curva
6 - é imprudente fazer uma exploração com a locomotiva na cauda da composição, sendo de risco uma travagem em curva (maior inércia da locomotiva, eventuais graus diferentes de travagem das carruagens ou riscos de gripagem de rodas com o carril e galgamento, de engates ou de pivôs de bogies destas); nestas condições, o limite de velocidade deveria ser muito mais baixo
7 – o operador público de Nova York, responsável pela operação da linha, prevê a instalação de um sistema de controle automático de velocidade em 2015
8 – a despesa pública com as infraestruturas ferroviárias de ligação de zonas suburbanas à zona central geradora de empregos de Nova York é necessária porque a deslocação das pessoas em transporte privado constitui desperdício energético e saturação das vias de comunicação (curiosa a resposta de uma passageira dos transportes alternativos quando a entrevistadora lhe perguntou se tinha avisado o seu chefe de que ia chegar mais tarde: que não era preciso porque le também apanhava o mesmo comboio)

Transcrevo uma das notícias sobre o caso:

“Think-tanks such as the World Pensions Council (WPC) have argued that years of neglect and deliberate underinvestment in public transportation infrastructure in the United States and Canada could eventually lead to an increase in technical failures and derailments- notably in urban areas- if states and municipal authorities don’t allocate the required resources needed to maintain and renovate existing public transportation assets”

PS em 3 de dezembro - Foi noticiado que a velocidade atingida antes do descarrilamento era de 130 km/h e que os travões foram aplicados 5 segundos antes do descarrilamento (travar numa curva, com a agravante da composição ser empurrada e não puxada, potencia o descarrilamento).A limitação de velocidade na curva é de 48 km/h mas não existe controle automático de velocidade. Isto é, uma desatenção do maquinista pode de facto provocar esta tragédia, por ausencia de automatismo de proteção 

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Três passos que desejaria não serem no sentido da privatização-concessão

1º passo – os para-choques da estação do Cais do Sodré da linha de Cascais

Vemos na fotografia três para-choques deslizantes. No fim das três linhas mais a norte do feixe de linhas da estação do cais do Sodré da linha de Cascais.

Observando bem, verificamos que o para-choques da linha do meio está desalinhado.
Terá havido uma colisão violenta de um comboio numa manobra de estacionamento mal calculada.
Pela posição e deformação do para-choques, o comboio não deveria ter batido a mais de 30 km/h. A inércia de um comboio é muito grande. Mesmo batendo a uma velocidade baixa, a energia cinética é muito elevada, porque proporcional à massa do comboio e ao quadrado da velocidade. De pouco serve aquela caixinha amarela, que é uma baliza de travagem automática pontual (só um controle automático contínuo da velocidade do tipo ATP, automatic train protection, poderá evitar colisões em caso de desatenção do maquinista). Ainda bem que o para-choques tinha espaço para recuar. Isso evitou que o comboio colidisse com o cais.
O para-choques da linha do meio foi deixado desalinhado porque esta via não serve passageiros. Alguém terá achado que não valia a pena gastar tempo e dinheiro da manutenção com a reposição do para-choques (e muito menos com o controle automático de velocidade). Terá sido menos consideração para com a segurança física de um maquinista com uma falha de atenção, e das pessoas que trabalhem ou frequentem a livraria e o bar vizinhos.
Por maioria de razão, não se vem gastando dinheiro na linha de Cascais para atualizar o material circulante e a infrraestruturas, ambos em caminho de acentuada degradação, testemunhada pela taxa de disponibilidade do material circulante, pelas baixas velocidades por precaução, e por acidente como os descarrilamentos.
Refiro-me a este passo apenas porque o senhor secretário de estado dos transportes mantem viva a fé nas privatizações, a começar pela linha de Cascais, apesar das queixas pungentes de que o tribunal constitucional é um empecilho ao equilíbrio operacional das empresas de transportes preparadas para as privatizações ou concessões (esquecendo porem o diferencial enorme entre as indemnizações compensatórias para a FERTAGUS e para as empresas públicas).
Dificilmente umaentidade privada fará investimentos de substituição do material circulante, de novas subestações de tração (pessoalmente acho defensável passar dos atuais 1,5 kVDC  para 3 kVDC com catenária rígida, mas se quiserem garantir a interoperabilidade, teremos os 25 kVAC).
Claro que se podia estudar uma parceria com um consórcio envolvendo fabricantes de material circulante e de infraestruturas, mas o código de contratação pública não ajuda e era preciso um grupo de técnicos imune a influencias exteriores, especialmente independente das simpatias do governo, que debatesse em ambiente aberto todas as problemáticas e que, naturalmente, conhecesse o negócio de comboios nos seus aspetos técnicos.
O recurso a verbas do QEE 2014-2020 poderia ser uma solução, mas o governo parece querer privilegiar pequenas empresas que, sendo honoráveis, não têm o efeito multiplicador dos investimentos em infraestruturas eficientes de serviço público.
Não admira assim que o senhor secretário de estado vá protelando o anuncio das decisões.


Ver  comentários sobre a problemática da privatização da linha de Cascais e os acidentes de maio de 2012 e Fevereiro de 2013 em:
e



2º passo – o postalete de Cacilhas

Custou-me muito decidir-me a escrever sobre o descarrilamento do metro ligeiro do sul do Tejo em Cacilhas, no término da linha.
Porque tenho dificuldade em escrever sobre uma linha ferroviária cujos carris terminam com um postalete, antes de um poste, sem para-choques ou, vá lá nos mínimos, calços deslizantes sobre os carris, para paragem das rodas.

com a devida vénia ao DN
O descarrilamento, por saída do fim da linha, ocorreu em 8 de Setembro de 2013.
A comunicação social apressou-se a informar que a empresa estava a investigar as causas do descarrilamento.
Seguiu-se o habitual silencio.
Como também é habitual, não se escreveu que qualquer maquinista está sujeito a falhas de atenção, como qualquer mecanismo biológico. E que a repetição de tarefas rotineiras, estatisticamente, acaba por revelar isso mesmo (a sabedoria popular usa o ditado “tantas vezes vai o cantaro à fonte que um dia lá deixa a asa”). É por isso que os sistemas ferroviários, considerando as maiores distancias de travagem, quando comparadas com o modo rodoviário, devem estar protegidos com sistemas automáticos de controle de velocidade.
Mas não foi por isto que me decidi a escrever.
Já estou habituado ao silencio do GISAF sobre os acidentes (atropelamentos e colisões) do Metro sul do Tejo.
Foi porque calhou deparar-se-me um estudo interessante sobre a ineficiência e as dificuldades económicas da rede.
Numa altura de crise, convinha reduzir importações de combustíveis fósseis rentabilizando a rede do sul do Tejo e substituindo deslocações em transporte individual Almada-Seixal-Barreiro-Moita-Montijo por transporte ferroviário (o que implicaria a expansão da rede com fundos QEE 2014-2020) .
O estudo é de António Vila Verde Ribeiro e chama a atenção para que se deveria acabar com a sobreposição das carreiras de autocarros com a rede do metro ligeiro. Os dois modos deveriam ser complementares e não concorrentes.
E a secretaria de estado dos transportes pouparia dinheiro nas indemnizações compensatórias e na importação de petróleo.

Ver o estudo de Vila Verde Ribeiro sobre o metro sul do Tejo em:



3º passo – os acidentes na linha Sarmiento de Buenos Aires

Em 19 de outubro de 2013 ocorreu mais uma colisão no término da linha Sarmiento, na estação Once de Septiembre, no mesmo local onde em fevereiro de 2012 a colisão provocou 51 mortes.
O material circulante do acidente de outubro de 2013 é diferente do de Fevereiro de 2012. Neste houve encavalitamento da segunda carruagem sobre a primeira com destruição parcial desta, provocando as mortes.
No acidente de outubro de 2013 , possivelmente por haver dispositivo anti-climbing, a primeira carruagem avançou sobre o cais cerca de 15 metros, amortecendo o choque mas mesmo assim provocando feridos.


Continua a ser um erro a falta de capacidade de absorção dos para-choques, a falta de espaço para deslizamento, a falta de espaço entre o para-choques e o ponto de paragem e, naturalmente, a falta de um sistema ATP de controle automático da velocidade do comboio.
De assinalar que depois do acidente de fevereiro de 2012, na sequencia de vários acidentes graves e da evidencia de falta de manutenção do material circulante e das infraestruturas por parte da concessionária, o estado argentino retirou-lhe a concessão. A operação é atualmente assegurada por um consórcio público-privado.
De assinalar ainda que mais uma vez se evidencia que qualquer maquinista está estatisticamente sujeito a falhas como qualquer mecanismo biológico, pelo que deverá estar protegido ppor sistemas automáticos de controle de velocidade. O maquinista correu ainda o risco de ser linchado por passageiros irados e está acusado pela policia de ter roubado o disco de gravação video da cabina de condução (na sequencia do acidente o compartimento do gravador de video abriu-se e expôs a gaveta de acesso ao disco, pelo que, no meio da confusão, a sua recolha parece correta).

Ver comentário com fotografias aos acidentes ferroviários na linha Sarmiento, em Buenos Aires, em Setembro de 2011 e Fevereiro de 2012 em:

Conclusão:

Dos 3 passos anteriores permito-me tirar a conclusão de que ter fé em panaceias como a privatização ou concessão a todo o preço, .mesmo que por imposição de economistas da troika que nunca trabalharam na parte técnica dos transportes, é um caminho arriscado do ponto de vista da segurança ferrovária.
E sobre segurança ferroviária até a UE tem normas para se cumprirem.

PS em 25 de outubro de 2013 - de acordo com a Railway Gazette, o governo argentino rescindiu a concessão ao consórcio que depois do acidente de fevereiro de 2012 operava a linha Sarmiento. Não existindo ainda ATP e não estando claramente esclarecidas as causas do ultimo acidente, parece-me precipitada a decisão, mas a Argentina é um estado soberano. Igualmente a ideia de colocar o "guarda" do comboio na cabina de conduão no ultimo percurso, antes do término, parece "peregrina", com o intuito apenas de dizer qualquer coisa à opinião publica.