quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Os tecidos do hospital público e o incendio na serra de Tavira

Exmo Senhor Provedor




Sendo a primeira vez que me dirijo ao novo provedor do DN, gostaria de o cumprimentar desejando-lhe felicidades na sua função.

Escrevo-lhe para lhe pedir um comentário sobre os seguintes factos:

1 – noticiou recentemente o DN que os tecidos com a marca de um hospital publico que há tempos foram detetados em peças de vestuário no Brasil, não tinham tido origem no referido hospital.

Ora, na altura o DN deu ampla cobertura ao aparecimento no Brasil dos tecidos com a marca do hospital, que assim ficou com a fama de negligencia no tratamento dos lixos. Provado agora que tal não se verificou, seria de esperar que o DN desse igual cobertura ou, pelo menos, apresentasse desculpas formais ao hospital por a forma como tratou o assunto ter subliminarmente levado grande numero de leitores a fazer um julgamento precipitado.

O assunto tem, do meu ponto de vista, alguma gravidade, considerando que existe uma escola de pensamento que acha que o Estado não tem vocação para gerir hospitais.

2 – ainda mais recentemente, deu o DN cobertura à noticia da PJ de constituição como arguidos de trabalhadores da CME na construção do parque eólico do Cachopo, como responsáveis pelo grave incêndio na serra de Tavira, em Julho.

Embora a notícia pareça corretamente dada e pormenorizada, a leitura dos comentários leva a pensar que talvez tenha induzido nos leitores o julgamento sumário e a condenação dos “incendiários”.

A origem do fogo no fabrico do carvão ainda é uma hipótese, com elevada probabilidade, mas uma hipótese. O fabrico do carvão pode ter sido uma ação simultânea com o inicio do fogo, com outra causa. Donde será importante seguir a evolução do assunto até apuramento das causas e circunstancias.

Há ainda a agravante de, também subliminarmente, associar o parque eólico à origem do incêndio, numa altura em que uns, defendendo os seus interesses, dizem que há renováveis a mais em Portugal, e outros afirmam que conter o crescimento das renováveis, aumentando a importação de combustíveis fósseis, é uma ação de sabotagem económica do País.

Felizmente o cronista Ferreira Fernandes não deixou passar a oportunidade e, de forma semelhante ao que tinha feito com a morte do jovem em Campolide (ninguém tem o direito de matar ninguém, mas também ninguém tem o direito de julgar sumariamente o policia que cometeu um erro profissional), chamou a atenção que, até prova em contrário, não se poderia colocar hipótese mais grave do que negligencia no controle do fabrico de carvão vegetal (nas caixas e comentários já se pediam coisas horríveis para os “incendiários”; o que é a costela de espetador de autos de fé).

Seria interessante, penso eu, do ponto de vista jornalístico, aproveitar-se a oportunidade para esclarecer que o fabrico de carvão vegetal, desde que respeitando as regras de segurança, evidentemente, é uma atividade com valor ambiental do ponto de vista de poupança de combustíveis fósseis, alem de permitir uma atividade lúdica para muitos cidadãos que apreciam grelhados. Que deveria portanto ser estimulada, dentro do respeito das regras, e não condenada.

Igualmente seria interessante averiguar a eficácia dos meios aéreos empregues, sendo certo que a experiencia dos incêndios de 2003 e 2004 demonstrou que os meios mais eficazes são os aviões Canadair ou equivalente (isto é, seria necessário calcular os prejuízos havidos e compará-los com o aluguer dos Canadair).
Aliás, custa a compreender por que a união europeia não tem um sistema de proteção comum a vários países. Mas provavelmente estou a fazer aos governantes europeus o mesmo que fizeram aos trabalhadores da CME - a responsabilizá-los pelas consequências dos incêndios.

Ficaria grato se puder dedicar a sua atenção a estes assuntos.


Com os melhores cumprimentos

Fernando Santos e Silva







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