sábado, 8 de junho de 2019

Ao senhor ministro do Ambiente, a propósito da sessão plenária da AR de 5 de junho de 2019


Exmo senhor ministro do ambiente

A propósito das suas declarações no plenário da AR sobre alterações climáticas e transportes em 5 de maio de 2019   (http://www.canal.parlamento.pt/?cid=4081&title=reuniao-plenaria), sinto-me na obrigação de fazer alguns comentários, embora sem esperança que atendam os meus argumentos, o senhor ministro, ou o senhor secretário de Estado da mobilidade, a quem um dos senhores deputados se referiu de forma menos elegante como o seu alter ego, supondo eu que com isso quereria dizer que estaria, o senhor secretário de Estado, mais bem preparado para falar das questões próprias dos sistemas de transporte, o que não põe em causa de maneira nenhuma a excelente preparação do senhor ministro no campo da transição energética, expressão muito feliz mas talvez mais adequada num ensaio ambiental do que num organograma de um governo, ainda que outros governos na Europa o reproduzam, tendo sempre bem presentes os números com que alça o pais à condição de líder na descarbonização.
Disse o senhor ministro que o senhor deputado Carlos Silva faz sempre a mesma pergunta sobre o projeto da linha circular do metropolitano de Lisboa, e que o senhor ministro dá sempre a mesma resposta.
Sobre a pergunta do senhor deputado, eu diria que os argumentos contra o projeto da linha circular são já muitos e de natureza técnica, e mereceriam pelo menos a consideração pelo senhor ministro sem preconceitos.
Na formação técnica do senhor ministro ensinaram-lhe o mesmo que a mim. Que não é a autoridade de um autor que certifica a veracidade de um estudo. É o referendo desse estudo pelos especialistas, pelos pares. E quando o senhor ministro diz que a sua resposta é sempre a mesma, que “estudos” demonstraram que a linha circular responde à maior procura, eu digo-lhe que está a citar conclusões, não está a citar o estudo, porque a divulgação pública dos tais estudos foi pedida e admitida na sessão da Ordem dos Engenheiros de 3 de abril de 2018. Mas até hoje não houve possibilidade de avaliar a correção desses tais estudos.
Cujos resultados são, como publicamente divulgado, um acréscimo de 9 milhões de passageiros por ano. Parece muito, mas são 27 mil passageiros por dia e cerca de 5,3% do volume de passageiros em 2018. Sendo que o acréscimo que se registou de 2017 para 2018 foi de cerca de 4,8%, ainda antes da redução do preço dos passes. Isto é, sem fazer nada, temos praticamente o mesmo acréscimo do que gastando 266 milhões de euros (incluindo mais 22 unidades triplas). Dizem ainda os estudos, que comparando com 2 linhas equivalentes em vez da linha circular, que teríamos neste caso menos 3 milhões de passageiros por ano do que com a circular, ou 9 mil por dia.
Considerando a margem de erro, que 3 milhões são cerca de 1,8% do volume de passageiros em 2018, e que as linhas independentes têm vantagens operacionais sobre a linha circular, optar por esta parece uma má escolha.
O senhor ministro aceitará este último argumento porque na sua alma mater ensinaram-lhe na cadeira de probabilidades o mesmo que me ensinaram na minha alma mater, que a probabilidade de uma ocorrência simultânea em 2 linhas independentes é igual ao produto das probabilidades em cada uma delas, isto é, menor, enquanto na linha circular única, a probabilidade, sendo proporcional ao comprimento, é superior. Isto é, vai paralisar a linha toda enquanto não se estabelecem as condições de operação parcial.
Este e outros argumentos técnicos (maior dificuldade de regulação e de recuperação de perturbações, curvas e gradiantes penalizadores dos consumos e da manutenção, continuação da falta de serviço da zona ocidental da cidade, agressão arquitetónica dos viadutos do Campo Grande) fazem parte de uma documentação que enviei há muito ao senhor secretário de Estado da mobilidade solicitando-lhe audiência ou por um seu assessor.
Quer o senhor ministro acreditar que não recebi sequer acusação de receção? Possivelmente por declaradamente o conforto dos passageiros ocupar um lugar irrelevante nas preocupações do senhor secretário de Estado. Daí não ter esperança que a resposta do senhor ministro ao senhor deputado venha a ser diferente.
Comentando a sua afirmação que devemos ter uma linha circular no centro da cidade antes de desenvolver as radiais, diria que isso me faz lembrar a pequena história das linhas circulares dos metros de Moscovo e de Pequim. Conta-se que quando os engenheiros do metro de Moscovo apresentaram o projeto a Estaline, este ficou absorto,  bebeu o seu café e pousou a chávena em cima do mapa. Um solícito colaborador levou a chávena, ao mesmo tempo que o enfadado Estaline se levantou e saiu da sala. No mapa ficou a circunferência do fundo da chávena, e assim nasceu a linha circular. O curioso é que uns anos depois a história repetiu-se com Mao e o metro de Pequim. Rapidamente os engenheiros chineses compreenderam que a circular era um complemento. E não querem ver que parece estar a repetir-se em Lisboa?
A maioria dos técnicos do metropolitano de Lisboa não são contra a existência de linhas circulares, que também têm vantagens, só que a esta que se propõe faltam-lhe radiais ou transversais que permitam aos passageiros caminhos alternativos em caso de avaria na circular. Coisa que sucede em Moscovo, em Pequim, em Madrid e, evidentemente, na tão falada pelos defensores da linha circular de Londres.
E contudo, a linha circular de Londres de circular só tem o nome, agora é uma linha em espiral, ou em laço, ou em loop, como já foi proposto (Odivelas-Campo Grande-Rato-Cais Sodré-Alameda-Alvalade-Telheiras e volta) para minimizar os danos da proposta nossa linha circular, apressando-se os seus defensores a justificá-la com “estudos” que mostram  que a sua procura é sempre superior. Muito bem, mostrem esses estudos para vermos os pressupostos e os processos de cálculo.
É que se poupava a construção dos dois viadutos no Campo Grande e “mexidas” desaconselháveis na estação e nos tabuleiros dos viadutos atuais. Pode informar-se sobre isto no LNEC.
Vale a pena falar da circle line, porque o senhor ministro e o senhor secretário de Estado já afirmaram que os comboios da linha de Odivelas vão continuar, como atualmente, sem transbordos em Campo Grande, até ao centro da cidade (penso que se referem à estação Rato).
Como já informado publicamente, entre outros pelo senhor deputado Carlos Silva, esse esquema de operação implica intervalos elevados não só na linha de Odivelas, mas também na própria linha circular, por razões de segurança, uma vez que é necessário reunir as respetivas condições nos pontos de cruzamento dos comboios (situação que o regulamento de segurança atual do metropolitano não admite). Acresce que este facto proporciona a geração de atrasos sempre que houver um excesso de afluência em estações ou uma perturbação.
Transcrevo uma frase de uma análise da linha circular de Londres: “continuous circulating compound delays, terminating trains absorb delays” . Isto é, circular numa linha circular gera atrasos, comboios nos términos absorvem atrasos.
E sobre o problema dos aparelhos de mudança de via nos quais se cruzam comboios (“junctions”), do livro “Rail transit capacity”:  “Correctly designed junctions should not be a constraint on capacity. Where a system is expected to operate at close headways (intervalos) high use junctions invariably be grade separated”(desniveladas).  
Isto é, mesmo usando sistemas de controle desenvolvidos  do tipo CBTC (communications based traffic control) e “moving block” (cantão móvel) que permitem intervalos teóricos melhores, a sujeição a atrasos é constante, como acontece na circle line de Londres, que partilha alguns troços e aparelhos de mudança de via com outras 3 linhas.
Porque é a circle line de Londres um problema? Que com o prolongamento à superfície para Hammersmith se abriu em 2009 a linha em espiral e depois disso apenas se tenta solucionar (programa de modernização 4LM) com material circulante novo e novo sistema de controle, sem corrigir a falta de tuneis para fugir aos cruzamentos? Porque as linhas envolvidas resultaram de uma evolução histórica em que havia várias companhias a operar sem um planeamento comum e otimizado e a correção dos túneis e individualização das linhas fica carissima. É uma situação herdada, e já não é circular.
Não queiramos reproduzir ou copiar o que está mal, por mais sedutor que seja o carrocel, de turistas, de funcionários british da city, de yupis das avenidas novas, de executivos das grandes empresas da avenida da Republica, de empreendedores e promotores imobiliários, de funcionários de escritórios de fundos de pensões da Europa do norte ou de fundos abutre da América do Norte.
Dê-se prioridade ao cidadão e à cidadã nos seus movimentos casa-emprego sem recurso ao transporte individual nem a transportes coletivos mais poluentes devido ao contacto pneu-asfalto (pensemos na descarbonização, de preferência fugindo à saturação prometida da estação Cais do Sodré com a proposta linha circular).
Com os melhores cumprimentos, na cada vez mais ténue esperança de que se corrija o plano de expansão do metro

                                            Algumas ligações
Circle line:

Cálculo da capacidade de uma linha:

Apresentação em 3 de abril de 2018 na Ordem dos Engenheiros:

Cálculo de intervalos na operação partilhada da linha circular e da linha de Odivelas:

PS em 9 de junho - Um dos deputados que interveio chamou a atenção para o contraste entre o percurso para o emprego do senhor secretário de Estado da mobilidade (provavelmente num automóvel elétrico, descarbonização oblige) e a sua recomendação de viajar bem apertadinho. O senhor secretário de Estado sorriu, com um sorriso amarelado mas sorriu. Não se estava à espera, da parte do engenheiro José Mendes, considerando o seu curriculo profissional, que ele fosse tão defensor da linha circular, mas a forma como desconsidera o conforto dos passageiros faz-me lembrar a boutade da aia de Maria Antonieta, a protestar por não terem pão, comam brioche. Ou da mãe Bush depois do Katrina, ainda bem que veio o ciclone porque eles viviam tão mal e agora vão ser ajudados. São frases que ficam para a história, não por bons motivos, mas ficam.

PS em 10 de junho - A propósito das viagens como sardinha em lata em todos os metros do mundo, junto fotos da linha 2 do metro de Pequim, num dia útil de dezembro de 2018, cerca das 18.40

notar as portas de cais


notar as portas de cais

notar, à esquerda, o posto com pórtico de deteção de metais, existente em todos os acessos, guarnecido com 3 funcionários, um dos quais olhando com interesse para mim

2 comentários:

  1. Este auto-intitulado ministro da descarbonização deveria ser coerente e, em vez de promover uma inexplicada e infundamentada linhazinha circular, seja para poder dizer que também temos uma (deslumbramento típico dos medíocres responsáveis que temos tido) seja para promover o sector imobiliário idealizado pelo Urbanista-mor da CML, deveria dar prioridade absoluta às linhas radiais, única forma de evitar a galopante invasão diária de veículos rodoviários (e poluentes) na cidade de Lisboa.
    Mas isso obrigava a puxar pelos neurónios, a ser racional e coerente e a enfrentar os interesses dos DDT. Só problemas, não é ?

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  2. E já agora este escândalo: https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/psd-quer-audicao-urgente-do-ministro-do-ambiente-sobre-os-filtros-de-particulas-dos-veiculos-a-gasoleo-454244

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