terça-feira, 15 de março de 2016

O DN vai mudar, em peso, e a RR também

Quando abri o DN e dei com a notícia, de que ia deixar o seu edifício no cimo da avenida da Liberdade, pensei que bela ideia que tiveram para o primeiro de abril.
Era uma mentira aonível daquela da mudança de sentido de circulação em Inglaterra. Numa semana de adaptação dos cidadãos ao novo sentido os autocarros e os camiões circulariam já pela direita e os ligeiros ainda pela esquerda.
Mas depois reparei que a mentira de primeiro de abril costuma vir na primeira página, e além disso ainda estavamos na primeira semana de março.
Nao era mentira de primeiro de abril.
O edificio foi vendido e vai ser transformado e hotel de charme.
Respeitando a traça original e mantendo os frescos interiores e as letras exteriores, claro, claro, que o edificio é classificado.
Eis mais uma vantagem da competitividade, da flexibilidade e da inovação dos gestores dos grandes conselhos de administração.
Toda a atividade do DN se deslocará para uma das torres de Lisboa.
Acontecerá o mesmo com o edificio da Radio Renascença, que se concentrará na quinta do bom pastor, na Buraca.
Também será um hotel de charme.
Lisboa enriquece com os turistas.
E empobrece como cidade sem habitantes, apenas com prestadores de serviços aos turistas, centro de atração dos habitantes dos suburbios ao fim de semana, dos turistas de terceira idade dos cruzeiros, dos jovens turistas  cumprindo os seus rituais de viagem, talvez um pouco desiludidos por visitarem a reserva dos selvagens e verem poucos selvagens (Admirável mundo novo).
Uma cidade precisa de habitantes, com habitações com condições de conforto, áreas suficientes e estacionamento. Precisa de setor secundário, oficinas, fábricas e fabriquetas. Mas parece que Lisboa só pode ter terciário, e quaternário (as start up de informáticos desinibidos e inteligentes). Terão sido os eleitores que decidiram assim? Explicaram isso nas campanhas eleitorais?
Já há anos que a tendencia centrífuga se acentua. Expulsaram da baixa os correios, os tribunais, até o governo civil e a sua esquadra de policia. Como novos-ricos provincianos deslocalizaram-se serviços para a zona da Expo. Os conselhos de administração votam alegremente a concentração de serviços para aproveitarem sinergias cada vez mais longe da baixa (interessante, a edp, com todos os seus defeitos penalizadores dos contribuintes, fez o contrário). Ignoram que uma das conquistas da internet é precisamente permitir a descentralização, dispensar os veios de transmissão concentrados nas grandes naves oficinais. Não é isso que fazem os conselhos de administração em Nova Iorque, Paris, Londres, não se afastam do seu downtown, não o querem ver asfixiado.
Tudo isto indicia uma ausencia de planeamento estratégico do urbanismo e da organização territorial. Assim é impossível ter uma rede de transportes da área metropolitana consistente.
Pobre cidade que há 30 anos tinha 800.000 habitantes e agora tem 500.000 .


Reproduzo um texto que enviei no período de discussão pública do PDM em 2011. Não digo que detenho a sabedoria, mas gostaria de ver estas questões debatidas.

De: fernando silva [fcsseratostenes@hotmail.com] Enviado: sábado, 14 de Maio de 2011 1:12 Para: revisao.pdm@cm-lisboa.pt
Assunto: Sugestões para a revisão do PDM
Exmos Senhores
Infelizmente, por motivos particulares, não me foi possível estudar a fundo o plano diretor municipal de Lisboa; no entanto, envio o seguinte parecer. Como principal comentário e sugestão de complementos ao plano diretor municipal, julgo que a manutenção dos atuais limites do município de Lisboa condiciona desfavoravelmente o desenvolvimento de uma plano coordenado de estruturação económica da área metropolitana, pelo que seria de esperar que o PDM desse grande relevo ao objetivo de fusão de municípios ou, pelo menos, de agregação de forma mais eficaz do que o atual modelo da área metropolitana.
 Considerando que é dito no site do PDM que se pretende:
 - uma estratégia de desenvolvimento para a Lisboa dos próximos anos
 - atrair novos habitantes
 - reabilitar o edificado
 - melhorar o transporte publico
 - maior eficiência energética,
 junto as  seguintes observações, chamando a atenção que o atual período de constrangimentos financeiros (embora algumas ações possam ser desenvolvidas com o apoio de fundos de coesão da EU e possam contribuir para o crescimento do PIB sem agravamento significativo do endividamento) não impede que se estudem e elaborem desde já planos a médio e longo prazo:
1 – não é sustentável em termos de respeito pela lei do ruído e das normas de segurança a manutenção de um aeroporto dentro dos limites da cidade, pelo que o estudo do plano de ordenamento dos terrenos e da sua integração na rede de transportes deveria ser desde já iniciado
2 – o plano do nó de Alcântara deveria ser reformulado de modo a contemplar:
2.1 - a saída do terminal de contentores para o novo terminal da Trafaria/fecho da Golada,
2.2 - a reformulação da rede de transportes evitando o enterramento das estações suburbanas e do metropolitano,
2.3 - o projeto de um sistema de retenção e prevenção de inundações no vale de Alcantara
 3 – não obstante as obras em curso no Terreiro do Paço e nas Ribeira das Naus, a cidade necessita de uma ligação rodoviária que faça o “by-pass” do Terreiro do Paço, conforme contemplado em anteriores planos diretores (incluindo o projeto do túnel rodoviário que motivou a construção mais profunda do túnel de metropolitano) . Seria por isso altamente conveniente o estudo de alternativas possíveis, ainda que contrariando anterior parecer do IGESPAR que se opôs à “conquista de terreno ao rio”, o que viabilizaria esse “by-pass” em termos mais económicos do que um tunel
4 – não é possível ordenar o território de um município ou de uma área metropolitana sem integrar as redes de transporte coletivos, e não é possível projetar novas linhas de metropolitano e de suburbanos na área metropolitana sem as integrar na estrutura urbana de habitação, escritórios, comércio e oficinas. Neste aspeto, Lisboa teria a ganhar em:
4.1 – criar um operador único, a exemplo de Paris, Bruxelas, Barcelona, Milão
4.2 – reformular o plano de expansão da rede de metropolitano, que padece da intenção de uma linha circular de dispendiosa execução no aproveitamento das linhas existentes, propondo-se, em alternativa, a construção de novos troços com critérios de construção económica, como seja em viaduto (esta problemática, integrando também o nó de Alcântara e a correspondência entre o metropolitano e o serviço suburbano na terceira travessia do Tejo, está analisada em: http://fcsseratostenes.blogspot.com/2010/01/as-pontes-de-koenigsberg-ou-um-ponto-de.html )
4.3 – incentivar a construção de parques de estacionamento do tipo “park and ride” com ligação a linhas de metro, à entrada da cidade (o exemplo mais evidente será a construção de um parque deste tipo junto das Amoreiras, prolongando a linha vermelha do metro até lá)
4.4 – fiscalizar severamente o estacionamento indevido, especialmente nos passeios e na obstrução aos veículos de transporte coletivo
4.5 – preparar um plano progressivo de taxação da entrada de veículos na cidade, mantendo a coordenação com as alternativas de transporte coletivo;
 5 – considerando que entre os principais motivos da desertificação da cidade se contam:
5.1 - a degradação dos edifícios
5.2 – a reduzida área por sala ou quarto em cada fogo
5.3 – os custos elevados de reconstrução e comercialização
5.4 – a falta de lugares de estacionamento,
 sugere-se a preparação de um plano de reabilitação, com recurso a estudantes das faculdades de arquitetura em estágios, de emparcelamento de fogos (por exemplo, reconstruir 2 ou 3 prédios num só), de modo a aumentar as áreas específicas de habitação e obter áreas de quintal e de estacionamento interiores
6 - todas as medidas do ponto 4 podem ser classificadas como ações de melhoria da eficiência energética, sugerindo-se igualmente:
6.1 - a incentivação da utilização de terraços e coberturas de edifícios públicos ou partes de parques publicos para instalação de painéis fotovoltaicos de produção de energia.

6.2 – a utilização das águas nascentes no subsolo, nomeadamente as captadas nos túneis do metropolitano, para rega e usos sanitários em instalações públicas. 

 

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