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domingo, 15 de junho de 2014

Feira do livro, dois livros extraordinários


Pena não se poderem comprar e ler todos os livros que se queria.
Mas vejam só como são extraordina´rios estes dois livros que comprei.
Porque baseados na observação (normalmente com gráficos bem fundamentados), na formulação da hipótese e na sua comprovação. Com factos e números. Com estabelecimento de correlações reais.
Método diferente do usado pela troika e pelo governo que nos oprimem:

- "O espírito da igualdade, por que razão as sociedades mais igualitárias funcionam quase sempre melhor", Richard Wilkinson e Kate Pickett, ed. Presença

- "Os 10 erros da troika em Portugal, austeridades, sacrificios e empobrecimento, as reformas que abalaram o país", Rui Peres Jorge, ed. Esfera dos livros


Teoria da desigualdade, lendo um livro de Rui Peres Jorge

Se manobrares para ser diferente e superior aos outros, estarás a contribuir para o crescimento da economia. Por isso o pensamento dominante promove estímulos para a competição.
Porém, quanto mais desigual a sociedade, isto é, quanto maior a diferença entre o rendimento dos que maiores rendimentos têm, relativamente aos de menores rendimentos, piores os indicadores gerais.
Tinham razão quem fez a revolução francesa, em empunhar a bandeira da igualdade de direitos e de acesso às fontes de rendimento.
E há ainda a analogia com as leis do transito. Quem ultrapassa numa fila de transito entre outras filas, chega mais cedo a casa mas a velocidade média geral baixou e o tempo médio geral de percurso subiu.
Isto é, os penalisados pela vivacidade do ultrapassante estão a subsidiar o seu, dele, tempo.
Também por isso o código da estrada interdita essa manobra.
Curiosamente, na economia não é interdita a vivacidade da iniciativa de, por exemplo, destruir os pequenos negócios acordando com grandes fornecedores preços mais baixos à venda em grandes superfícies concentradas (transferindo os custos das deslocaçóes par aos clientes), nem o assenhoramento do controle de uma sociedade através do aumento de capital.
Concordo que as pessoas dedicadas à legislação ou à economia tenham dificuldade em aceitar estes argumentos, por fazerem apelo à compreensão física dos fenómenos. Uma lei de economia não surge de um movimento racional, antes é o resultado de comportamentos emocionais que, no conjunto da multidão, se aproxima de leis estocásticas independentes de análises racionais.

Isto a propósito de um comentário de João Salgueiro à afirmação de Judite de Sousa de que as desigualdades estavam a aumentar.
Que não, que estudos recentes indicavam que não, deixando a senhora admirada porque as evidencias observadas são as de que, com a crise, aumenta o fosso entre ricos e pobres.
O próprio relatório do FMI no 1ºtrimestre de 2014 gabava-se de ter cortado duas vezes mais no rendimento dos 20% mais ricos portugueses do que nos 20% mais pobres.
Os pequenos aprendizes de contabilistas do governo, como diria Gabriela Canavilhas, exultaram nas suas comunicações às TVs. Até falaram que o coeficiente de Gini tinha baixado por causa disso, de 34,5 para 34,3 (como não é demonstrado o cálculo, não interessa explicar se 0,2 é ou não significativo).

Mais uma vez a estatística é usada para enganar e para esconder a vergonha do desemprego e das suas consequencias no rendimento dos mais pobres.
Felizmente, um livro notável explica melhor as coisas.
Ficamos a devê-lo a Rui Peres Jorge, jornalista económico do Jornal de Negócios, autor de "Os 10 erros da troika em Portugal, austeridade, sacrificios e empobrecimento, as reformas que abalaram o país" .

34,3 é um valor inadmissível como indicador das desigualdades, sendo certo que as sociedades mais igualitárias, como a Noruega e a Suecia, ostentam indices de bem estar superiores aos dos paises menos igualitários, como os US e UK, como aliás o próprio FMI reconhece, em nota citada por Rui Peres Jorge ( J.Oistry, "Redistribution, inequality and growth").

Na verdade, segundo Rui Peres Jorge, a diferença de rendimentos entre os 20% mais ricos e os 20% mais pobres aumentou, em 2012, de 5,8 para 6 vezes, interrompendo a descida desde 2004.
E citando o relatório da OCDE, recorda que a despesa social em Portugal cresceu entre 2008 e 2013, em termos reais, 4% (escandalizando assim Medina Carreira), mas em Espanha cresceu 18% e na Irlanda 15%.

Mas valerá a pena argumentar com factos perante a visão tubular do governo, blindado por uma autoestima pouco saudável?

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Dedicado a Oli Rehn

O senhor Oli Rehn manifesta-se agastado na conferencia de imprensa. De 3 em 3 meses tem de se confrontar com pareceres negativos do Tribunal Constitucional.
O senhor é um dos grandes defensores da austeridade como regra cega, castigadora da irresponsabilidade dos paises do sul.
Do artigo do Dinheiro Vivo sobre o livro de Rui Peres Jorge, "Os 10 erros da troika", retiro a informação de que os cortes de salários e pensões e a subida de impostos traduziu-se por uma retirada de 27 mil milhões de euros à economia. Porém, o defice orçamental só se reduziu 9 mil milhões de euros.
Isto é, o efeito divisor da austeridade foi 3.
Não admira, o senhor Oli Rehn nunca trabalhou numa empresa portuguesa, não conhece as condições reais da economia portuguesa.
Por isso lembrei-me dele quando verifico que duas das três palmeiras jovens, plantadas há cerca de 10 anos, já exibem indícios de terem sido atacadas pelos escaravelhos bicudos, vindos de outras latitudes. A outra palmeira já há um ano que tinha apodrecido completamente.
As palmeiras sobreviventes ainda têm as folhas verdes, mas inclinam-se para um dos lados, mostrando na zona dos rebentos das folhas matéria decomposta pelos escaravelhos.
É provável que venham a morrer, vítimas da praga de outras latitudes.
Mas pode ser que resistam. Vasculho a matéria decomposta e encontro carcaças de escaravelhos, com o abdomen perfurado. Fugitivos, um pequeno inseto parecido com um bicho de contas e um pequeno verme escondem-se. Serão atores de uma luta biológica contra os escaravelhos bicudos? Ou os invasores acabarão por morrer por si próprios, vítimas do sucesso da epidemia?
Que tem isto que ver com Oli Rehn?
Nada, mas dedico-lhe a história, desejando obviamente que ninguém tenha a ideia de o tratar como aos escaravelhos bicudos que destruiram as palmeiras.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Complementos de reforma

Dediquei o post em que comentei o 11ºcongresso da ADFERSIT "aos que andam de bonde", para quem Vinicius invocou a piedade divina.
Ver o poema completo de Vinicius em:

Dedico este post a outros, tambem referidos no poema, aos que empobrecem:
                                   “…Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram
                                   E tornam-se heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza…”


Alexandre Soares dos Santos, no programa Olhos nos olhos da TVI24 de 21 de outubro de 2013, disse que o peso do fator trabalho na sua fábrica de margarina era, antes de 1974, 5%; depois da revolução de abril subiu para 10%, e agora é novamente 5%.
Penso que isso se deve a salários baixos (compensados com alguma politica social por parte do grupo empresarial), mas principalmente ao fator de automatização que sobe a produtividade.
Se o peso do trabalho baixa, seria justo referir o pagamento da TSU não ao volume dos salários mas sim ao valor acrescentado bruto produzido pela empresa.
Mesmo empresas de pessoal intensivo (interno ou por outsourcing) como o metropolitano de Lisboa, têm um peso do fator trabalho que não atinge 50%.
Feitas as contas para todo o país, chega-se à conclusão que 75% dos impostos são pagos pelos rendimentos do trabalho, que são 48% do rendimento total, e 25% dos impostos são pagos pelos rendimentos do capital, que absorvem 52% do rendimento total.
Pode portanto afirmar-se que esta é uma situação de iniquidade, agravada por fazer recair sobre o fator trabalho o  maior peso da austeridade.
A iniquidade não é boa conselheira, e já se fala no parlamento europeu (cujas eleições são cruciais para a mudança de politica) que não basta pôr nos tratados que o défice publico não pode ultrapassar 3% do PIB e a divida publica 60%.
É preciso pôr também os indicadores de desigualdade de Gini, do desemprego e da pobreza.

Falaremos então de equidade quando o pagamento dos impostos pelo trabalho e pelo capital forem proporcionais, quando a taxa de pobreza, o índice de Gini e a taxa de desemprego baixarem (os políticos da corrente dominante continuam a ocultar que faz parte das sua estratégia um desemprego elevado para controlar o nível de preços).
Entretanto, observemos:
- o sistema previdencial da CGA não é de repartição (em que só os ativos descontam para as pensões dos reformados) porque o Estado não pagou ao longo da carreira dos reformados as contribuições equivalentes à TSU que as empresas privadas pagam. Isto é, capitalizou (ou beneficiou com esse capital grupos privados, o que configura crime de peculato?).
- ao longo dos anos, a segurança social foi sendo superavitaria, apesar de ir buscar dinheiro em função dos salários pagos pelas empresas e não em função do valor acrescentado que elas produziram (o que daria muito mais dinheiro) . Se foi superavitaria (deixou este ano de o ser com a contenção orçamental, mais do que com a diminuição dos empregados) isso significa que ao longo das carreiras dos atuais reformados foram sendo pagas as reformas dos reformados de então com as contribuições dos reformados de agora, sobrando porem dinheiro (apesar de vir da segurança social o dinheiro para pagar a assistencia hospitalar de todos os cidadãos, no ativo em empresas privadas e publicas, ou reformados da segurança social ou da CGA).
- Esse superavit seria naturalmente passível de ser investido em capitalização. E de facto foi, mas o fundo de capitalização, criado em 1991 e chamado Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social, é muito reduzido (em 2008 valia 5% do PIB; agora 8 mil milhões de euros? que só chega para pagar 9 meses de reformas?) e os fundos de pensões que habilidosamente têm sido transferidos de grandes empresas para o Estado só têm agravado as contas da segurança social, em vez de reforçar o fundo financeiro de apoio. Esse superavit podia ainda ter sido aplicado nos certificados de reforma facultativos de compaticipação individual até 6%, cuja existência foi sistematicamente ocultada aos ativos que descontavam, pelo que o seu montante é insignificante.
- assistiu-se ao longo dos anos à paranóia (do que não pode acusar-se o atual governo, embora o governo da mesma cor entre 2003 e 2005 procedesse da mesma forma) de convencer as pessoas a reformarem-se cedo. As contas das empresas, nomeadamente as publicas, ficavam assim aliviadas embora se sobrecarregasse a segurança social ( o que não era problema porque era superavitaria).
- Neste contexto surgiram os complementos de reforma (que no metropolitano de Lisboa acabaram para quem fosse admitido depois de 2005). Para a empresa, para cada trabalhador reformado antecipadamente, dum lado da balança está a soma de (valor anual do complemento da reforma (10 milhões de euros por ano/n trabalhadores no caso do metropolitano?) vezes  o numero de anos entre a idade expetativa de vida e a idade de reforma antecipada (Iev – Ira)) mais (valor acrescentado anual do trabalhador, vezes o numero de anos entre a idade da reforma e a idade da reforma antecipada  (Ir – Ira)), isto é, o valor do que a empresa perdeu; do outro, está o que poupa: (Ir – Ira) x V  , sendo V o vencimento anual:

(Cr x (Iev – Ira))+ (Va x (Ir –Ira))  < (Ir – Ira) x V

Daqui se conclui que só no caso do vencimento ser muito mais elevado do que o valor acrescentado ou em caso de morte prematura é que compensava pagar o complemento de reforma. Então a natureza do complemento de reforma tem de ser outra, que será, em princípio, a equivalência ao pagamento de uma TSU não à segurança social, mas que permite à segurança social requerer à empresa uma contribuição menor (por outras palavras, mudando repentinamente de um sistema com complemento de reforma para outro sem complemento, é natural que as contribuições para a TSU das empresas subam , e que na equação acima, o termo do complemento de reforma Cr x (Iev – Ira) será substituído por um termo com o aumento da contribuição  para a TSU.
- Na verdade, o efeito perverso é ser elevado o valor Ir – Ira pelo que se põe a hipótese de um regresso parcial ao trabalho dos reformados por antecipação com prestação de trabalho em horário reduzido em condições especiais de prestação de aconselhamento ou pareceres em alternativa ao corte dos complementos.
- no entanto, dado que a maioria das contratações dos reformados que agora sofrem os cortes dos complementos de reforma foram feitas numa altura em que nas empresas públicas o vencimento era muito inferior ao das empresas privadas, quer ao nível de licenciados , quer ao nível operário, e essa “regalia” foi usada como compensação dessa inferioridade salarial, parece defensável considerar que a sua extinção viola o princípio da segurança contratual.
- É interessante o testemunho da associação APRE, que referiu o comentário de um jurídico alemão, Emmerich Krausse, que qualificou ironicamente esta invenção dos governantes portugueses de quebrar um contrato como a mais notável invenção dos portugueses desde o astrolábio náutico.
- considerando que a quebra contratual se justifica em casos de “force majeure”, teríamos de estender essa quebra aos contratos das PPP e dos contratos de equilíbrio financeiro das rede energéticas, sendo certo que, a ser aplicada, dispensaria a austeridade no caso dos cortes dos complementos de reforma, dentro dos critérios de equidade de repartir igualmente pelo trabalho e pelo capital os sacrifícios.
- relativamente aos complementos de reforma, que a lei do orçamento suspende no caso das empresas publicas com resultados liquidos operacionais negativos, importa definir o que são resultados líquidos.
considere-se que o saldo operacional

Sop=Rop – Dop                    
                             sendo Rop e Dop a receita e a despesa operacional total

A receita operacional total será igual a

Rop = Rov + Ric                   
                             sendo Rov as receitas de vendas de passes (de acordo com formula de repartição proporcional aos passageiros.km transportados), bilhetes e outras receitas, como prestação de serviços a outras empresas (projetos e consultoria, no caso da FERCONSULT pelo menos na proporção da colaboração com o metropolitano) ;   Ric as indemnizações compensatórias calculadas para cobrirem o diferencial entre o preço de custo de produção e a receita de venda, sendo o cálculo do custo de produção a média dos custos de produção das redes homólogas europeias)
A despesa operacional será igual a:

Dop = Dt – Dinv – Dj – (Va-Rop)                    
                                            sendo Dt a despesa total da empresa; Dinv os custos de investimento, amortizações e depreciações, Dj o valor dos juros dos investimentos e empréstimos para aquisições; Va será o valor acrescentado correspondente à produção, calculado como percentagem da contribuição para o valor acrescentado das empresas do fator trabalho transportado pelo metro, eventualmente estimado em 30%.

Reconhecendo-se que os cálculos rigorosos exigem investigação profunda e morosa, não parece que seja razoável proceder de supetão aos cortes dos complementos de reforma, sem apresentação de um plano de transição ou alternativo, pelo que parece justo suspenê-los com uma providencia cautelar.

PS em 26 de outubro de 2013 - talvez simplifique substituir os cálculos dos resultados líquidos a partir da indemnização compensatória e do valor acrescentado por um cálculo equivalente ao do versement transport em uso em França para financiar os transportes coletivos ds áreas metropolitanas - as empresas são taxadas entre 0,5 a 1% sobre os salários dos seus empregados. No entanto, do ponto de vista teórico, parece-me mais correto utilzar o valor acrescentado

sábado, 28 de setembro de 2013

O banco ao serviço da população carenciada

A fotografia ilustra o papel dos bancos ao serviço da população carenciada sem necessidade de comprometer a taxa de cobertura dos depósitos pelos empréstimos, a "alavancagem" como se diz na gíria do meio.
Podem observar-se os restos de uma maçã a ser analisados por um representante dos mercados columbófilos, uma rolha inserida na estrutura do banco e, em segundo plano, uma garrafa vazia e uma embalagem de cartão de vinho, compradas com o resultado de trabalho de reciclagem.
Este banco serve de leito a sem abrigos.
No DN de hoje, João Cesar das Neves diz uma coisa muito simples: o setor dos bancos não se ajustou (ajustar na gíria do meio significa "cortar") apesar da austeridade.
Pese embora o orgulho do BES ao publicitar a sua inclusão no Dow Jones Sustainability.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Doutores em economia e comentadores




Choca-me a dificuldade que temos em nos organizarmos.
Pessoas lúcidas que desempenham cargos de visibilidade mediática por vezes tocam na essência das questões e das suas soluções, mas escapa-nos, num instante nos esquecemos do que foi dito e subsiste a nossa dificuldade de trabalhar em equipa.

Uma hipótese é a deficiente estrutura da língua portuguesa em termos de capacidade de suporte de informação inequívoca, a dificuldade em fazer-se compreendida umamensagem (quando se diz que o presidente sancionou quer dizer-se que castigou ou aprovou? quando se diz que o primeiro ministro relevou quer  dizer-se que salientou ou que apagou? porque “pois sim” significa o mesmo que “pois não”? porque não se pode dizer “mais grande”?) .

Outra hipótese é a insegurança crónica de um povo habituado ao longo da sua história à maior das desigualdades, do fausto dos reis da pimenta no Terreiro do Paço à morte pela peste negra nas piores condições de miséria e abandono? do cultivo mais elegante e profundo da palavra de Camões e Fernando Pessoa à permanência da maioria do povo no analfabetismo até ao século XX? E que assim deixa espaço aos yupis intelectuais arrogantes e convencidos que definem as regras que devem ser seguidas.

Pessoas lúcidas já dizem que a força económica de grandes grupos devia ser compensada por cooperativas que ganhassem economia de escala para que as pequenas empresas suas sócias possam competir (cooperativa: 1 voz=1 voto, independentemente do numero de ações).

Pessoas lúcidas  tentam organizar a opinião pública em estruturas intervenientes (não este escriba, incapaz de mobilizar seja quem for).

Pessoas lúcidas pedem a reforma das regras eleitorais, mas as elites que se arrogam a representação da população sobrepõem a sua vontade de querer tudo para o mais votado, a pretexto de facilitar a “governabilidade” (e a prepotência de não ouvir as minorias, também), quando o que se pretendia era dinamizar a participação de todos.

Pessoas lúcidas tentam que o debate dos cidadãos comece ao nível das freguesias e que a opinião dos cidadãos seja canalizada até aos níveis superiores a partir daí. Mas as elites dirigentes e decisórias não querem.

E contudo, não foram as populações que trabalham no seu quotidiano que conduziram as coisas ao estado em que estão.
Foram as elites dirigentes.
Tampouco quem trabalha foi responsável pela crise internacional que se reflete na recessão europeia.

Por isso me chocam a segurança e as certezas dos académicos das faculdades de economia que pregam a cartilha neoliberal da redução do Estado Social.
Ouvi um comentador, ofendido com a reprovação do Tribunal Constitucional, dizer perante as câmaras da TV que o défice é do Estado e que é ele, cortando nos funcionários públicos e nos serviços, que tem de pagar.

Isto num país em que dívida privada ombreia com a dívida pública e em que as elites dirigentes se opõem à auditoria esclarecedora às dívidas para se saber  a quem se deve, avaliar a legitimidade da dívida e a hierarquização do seu pagamento.

Isto num pais em que os académicos se contentam com as estatísticas oficiais disponíveis e ignoram a economia paralela, a de subsistência, a de importação escondida e as isenções de IMI de grandes grupos imobiliários.

Falam portanto com base em valores de PIB, de taxa de desemprego e de importações e exportações que oferecem sérias reservas.
Mas os dirigentes, quer do governo, quer da troika, tudo resolvem com base nesses dados pouco fiáveis.

Por isso falhamos, por não nos organizarmos para esclarecer o valor do que produzimos e para produzir de forma mais eficiente, por não planearmos, por não fazermos planos de transição e adaptação.

Que fazer? como perguntava Lenine, não o senhor professor.
Claro que não devemos querer fazer o que ele, Lenine fez, porque a tecnologia evoluiu decisivamente depois dele (isto sou eu a desabafar, não é o senhor professor; perdoe-se-me o neomarxismo da análise). 
É que neste momento não são precisas correias de transmissão para distribuir a energia mecanica do veio do teto da oficina aos tornos de bancada. 
A ciência política e a de gestão dispõem hoje de mecanismos teleinformáticos de distribuição de inteligência (daí a alusão à raiz dos debates de cidadania ao nível das freguesias) que dispensam a existência de centralismo, a existência de messias num governo que tudo decide. 
Nada impede, nem a nossa instintiva tendencia para  a desorganização, que os governos sejam multi partidários de acordo com as regras da proporcionalidade, incluindo técnicos não dependentes de grupos económicos, de grupos financeiros ou de lóbis de escritórios de consultores e de advogados. 
Não há necessidade hoje de governos que se voltam para a imprensa e dizem: o governo está a estudar esse assunto e depois informará quando tiver o assunto estudado (com mais verdade diria que o governo contratou consultores em quem tem confiança para que eles estudem da forma que lhe agrada, ao governo, a questão).
Não brinco, esta é a tática usada pelo senhor secretário dos transportes quando fala sobre as concessões do metro e da Carris, ou pelo senhor ministro da defesa quando fala dos ofendidos estaleiros de Viana do Castelo, ou pelo senhor ministro da Economia quando fala dos hotéis que são contrapartida dos submarinos ou não são, sabe-se lá se são ou não, ou quando o governo fala da privatização dos CTT ou da RTP.
Ou nem sequer é a tática, quando não fala sobre a taxa sobre as transações financeiras ou sobre o jogo pela internet.

Que fazer, então?
É essencial que se discutam as coisas com conhecimento de causa e não com base no critério carismático da perceção pela população.
As coisas são o que são e as soluções devem ser determinadas pela análise técnica e não pela capacidade de exposição dos comunicadores.
As coisas funcionarão melhor se deixarmos os técnicos em cada área de atividade responder às perguntas do questionário simples: que soluções têm para melhorar a eficiência do seu trabalho? Não foi isso que fez o senhor ministro da saúde, apesar de obrigado a cortes cegos e desumanos? Porque não fazem os outros senhores ministros o mesmo? (na área dos transportes posso garantir que os governantes só querem ouvir áreas restritas de atividade, gostam muito de se socorrer de consultores para os quais não têm conhecimentos técnicos para avaliarem a sua competência, e que não gostam nada de ouvir a opinião dos simples técnicos).

Continuo a pensar que o chefe da esquadra de policia do filme “O ovo da serpente” de Ingmar Bergman, cuja ação decorre enquanto germina o fascismo alemão na cultura de inflação (ou 8 ou 80, para fugir à inflação afundamo-nos agora na deflação) tinha razão: “só quero que cada um faça o seu trabalho, o senhor é trapezista, faça  o seu trabalho; a economia precisa disso” (o que não impede obviamente o debate politico e social, mas exercer a profissão é essencial isto é, não pode haver tanto desemprego; devia ser este o centro do debate, e não é).

O senhor professor universitário de economia, muito apreciado pelos livros que escreve, defende na entrevista de grandes audiências a austeridade.
Que tem a grande vantagem de reduzir o consumo e assim aumentar a poupança, e quanto mais austeridade mais deviam cair os preços da energia, das telecomunicações, das matérias primas e das PPP.
Que os preços não estão a cair o suficiente (Hayeck e Friedmann não diriam melhor).

Perigoso pensar assim, faz lembrar o critério de realimentação: retiramos da saída do quadripolo uma amostra que aplicamos à entrada para aumentar a saída e por aí vamos.
Mas o senhor professor faz um ar zangado quando nega a espiral recessiva de que a entrevistadora lhe lembra os sintomas evidentes, chama a isso um jogo de palavras, e cita estudos de outros académicos que insistem que a austeridade não provoca recessão a prazo de 2 anos.

E explica a origem de todos os males: a baixa produtividade em Portugal, que cada trabalhador tem uma produtividade média de 17€/hora, quando na Irlanda é 50€/hora, em Espanha 30€/hora, na Alemanha 42€/hora e na Noruega 70€/hora.
A entrevistadora faz uma cara surpreendida e triste e pergunta como pode ser e o que é isso de produtividade “para que as pessoas lá em casa possam perceber” (esta ideia que as pessoas não percebem…) .
O senhor professor alegre e professoralmente explica que é por isso que os salários em Portugal são menos de metade dos paises ricos (na verdade, foi a primeira declaração da troika: os salários vão ter de baixar para adaptar o consumo à produção).

Transcrevo, sic:
“O nosso consumo é muito exagerado em relação à nossa produtividade…
É muito fácil explicar o que é a produtividade.
Há um produto que é produzido e é vendido; retiramos dessa venda os “inputs”, isto é, as matérias que foram compradas, a energia, etc. (o rosto da entrevistadora denotava surpresa e dúvida) e fica o resto, ou seja o dinheiro para salários, lucros e impostos, aquilo que se chama no jargão da economia, o valor acrescentado.
 Resumindo, é o preço de venda do produto menos as matérias-primas mais os gastos com os produtos incorporados. No fundo é aquilo que resta  para poder distribuir em salário lucros e impostos. “

E pronto, assim se explica à população, na qual estão incluídos os improdutivos, o quão grave é a improdutividade deles, especialmente quando comparada com a elevada produtividade dos professores universitários de economia.

Permito-me comentar:
O cálculo de 17€/hora consiste, parece-me, na divisão do PIB pela população ativa e da divisão do resultado deste quociente pelo número de horas de trabalho por ano.
Ora, como se disse acima, as estatísticas em Portugal são pouco fiáveis, e a culpa nem é do INE.
Há dúvidas sobre a dimensão da população ativa, há dúvidas sobre o volume da economia paralela que escapa aos registos, há dúvidas sobre o verdadeiro valor daquilo que se produz, se traduz um preço de mercado internacional ou se é um preço imposto artificialmente por prática escondida de damping (basta o governo chinês subsidiar ou facilitar instalações aos seus empresários, ou estimular a sobreprodução para chegar a preços marginais mais baixos, ou fechar os olhos à exportação clandestina de contentores, para que os preços sejam impossíveis de sustentar).
Isto é, o valor acrescentado por hora é mesmo 17€?
Não valerá mais?
Não?
Então porque valem mais os acrescentados de Espanha? por trabalharem mais depressa e melhor?
(Na verdade, parece-me que o senhor professor teria respondido melhor à senhora entrevistadora se tivesse dito que a produtividade é um quociente, e que no numerador está a quantidade produzida, ou o valor acrescentado, e no denominador está o meio ou fator de produção.
Aquele valor de 17€/hora é o produto anual por hora e per capita).
A produtividade pode medir-se em produto por numero de trabalhadores, por unidade de energia, por quantidade de matéria prima, por exemplo no caso de uma empresa de transportes, a produtividade pode medir-se pela quantidade de produto, isto é, de passageiros.km transportados, a dividir pelo número de trabalhadores, ou a dividir pela energia consumida por toda a empresa.

O conceito de produtividade é indissociável do conceito de quociente, é uma taxa, uma relação e não vejo os senhores economistas preocupados em que as pessoas discutam nessa base.
E se discutirem nessa base, conviria que atendessem a quem tem experiencia real, não apenas de gabinete.

Segundo um fabricante português de componentes para máquinas de café, que montou uma fábrica  na Alemanha com 90 trabalhadores, teve necessidade, quando transferiu a sua empresa para Portugal, de dimensionar a sua fábrica para  a mesma produção mas para 120 trabalhadores.
Efetivamente a produção manteve-se, mas a produtividade pessoal baixou (o mesmo não aconteceu com outros fatores de produção como o fabrico de moldes para os componentes, de que felizmente Portugal dispõe de boas condições).
Esse empresário explicava que não tinha preocupações com a menor produtividade pessoal, porque atingia os objetivos físicos, e que qualquer empresário devia contar sempre com isso, pelo menos enquanto se mantivessem as condições desfavoráveis que contribuíam para a baixa produtividade, desde carências de formação a todos os níveis, dificuldades sociais (creches, transporte escolar), pequena dimensão do mercado, dificuldades de transporte, de financiamento, impostos…

Infelizmente, só se vêem governantes e teóricos de organização que o que é preciso é despedir para melhorar os rácios (na verdade, o rendimento energético de um avião aumenta quando o número de reatores diminui, mas o A380 precisa de 4 reatores, não pode despedir nenhum; isto é, o rendimento do conjunto destes 4 reatores é superior ao do conjunto de 8 reatores de metade da potencia unitária; mais uma vez, cada caso é um caso que deve ser estudado).

Ainda bem que o senhor professor entrevistado soube apontar a principal causa da baixa produtividade em Portugal: a baixa intensidade capitalistica, isto é, o baixo nível do capital, dos ativos, dos meios de produção, equipamentos, software, instalações, tudo o que é necessário para que o trabalhador produza.
Mais uma relação, neste caso de 93.000€/trabalhador em Portugal, para uma média de 195.000€/trabalhador na Europa, e que ilustra o mau destino dado ao financiamento em Portugal: virado para bens e serviços não transacionáveis.

E sugere o reforço da dimensão das empresas (não disse, porque o senhor professor defende a lógica da selva de Darwin, que as pequenas empresas devem morrer para que as fortes triunfem, que é bom a austeridade e a crise selecionarem as empresas, mas eu diria que este é um plano estratégico ideal para desenvolver novamente as cooperativas, para ganhar dimensão, agrupando pequenas empresas).

Finalmente, o senhor professor apresentou a sua visão para os cortes na despesa do Estado, que tem de passar dos atuais 46% do PIB para 40% (que era o nível relativo há 15 anos) em 3 anos, o que dá aproximadamente um corte de 10.000 milhões de euros em 3 anos.
Ora, havia uma maneira de não fazer corte nenhum.
Bastava aumentar o PIB de 15% = ((0,46/0,40) – 1) x 100%
Eu sei que é utópico, mas citando José Torres no México, deixem-me sonhar, com um governo inclusivo, sem este primeiro ministro e sem este ministro das finanças, mesmo com este quadro eleitoral, desde que representando todas as sensibilidades.

Referencia: programa Olhos nos Olhos na TVI24 de 1 de abril de 2013 com Judite de Sousa, Medina Carreira e o convidado Avelino de Jesus


terça-feira, 2 de abril de 2013

Noticias Magazine – a via sacra dos portugueses

ministério da Finanças, sem abrigo



Não encontro na internet a reportagem nem o seu resumo, pelo que vou resumi-la adiante.
Apenas as fotografias que vejo no facebook do Noticias Magazine, a revista dominical do DN e JN:

A reportagem é um trabalho jornalístico do mais alto nível pela sua ligação à realidade e por abarcar vários dos seus aspetos.
Mereceria a publicação em separado.
Estabelece um paralelismo entre as 14 estações da via sacra da tradição cristã e 14 situações dolorosas ou indignas de parte da sociedade portuguesa.
Infelizmente a situação atual de parte significativa da população portuguesa e a aparente incompreensão dos governantes pela problemática associada justifica este tipo de reportagem.
A reportagem sobressai pelo contraste positivo numa revista recheada de anúncios a automóveis, relógios e perfumes caros (eu sei, como dizia Grandela nos anos 20 do século passado, que o comércio de artigos de luxo dá emprego a muita gente) e que privilegia histórias de sucesso, por vezes estereotipadas, fúteis, estouvadas e frívolas.
Tal como na estética neo realista do pós guerra, o tratamento de situações trágicas deixa de ser um exagero para ser uma tomada de consciência pela outra parte da população, que felizmente não sofre as consequências da crise e da resposta que os governantes estão a dar.
Não são apresentadas soluções, que infelizmente são cada vez mais difíceis de apresentar dado  o agravamento da complexidade das questões, mas a divulgação da realidade e a tomada de consciência destas situações já é um passo, pequeno mas efetivo, para a resolução.
1ª estação – Jesus é condenado à morte – a loja Anzolmar de artigos de pesca, em Belém, vai fechar, juntando-se às 12 lojas vizinhas da Rua da Junqueira que já fecharam. Incomportável a nova máquina registadora exigida pela autoridade tributária.”Não sobra quase nada das lojas… a exigência da nova máquina foi apenas mais um prego para o caixão…vou fechar e entregar a chave à senhoria…se me custa? Não, já custou o que tinha a custar…acabou-se”. Disse o lojista à senhora reporter
2ªestação – Jesus carrega a cruz às costas – o filho de 3 anos tem paralisia cerebral de grau 5 devido a um parto anormal e exige atenção constante, com uma vida quase vegetativa. Os pais são heróicos, conseguem trabalhar  e não querem ser subsidiodependentes. Vale o apoio da Associação de Paralisia Cerebral de Lisboa, Odivelas. Segurança Social devia ser também para estes casos, sendo certo que não se pretende que os pais fiquem em casa porque a  natureza humana requer uma atividade profissional; mas o país é pobre, pelo menos parte do país. Haverá correlação entre o parto mal realizado e o ambiente cada vez mais restritivo vivido nos últimos anos na Maternidade Alfredo da Costa? E entre os condicionalismos morais e religiosos e a criminalização de uma eutanásia piedosa no momento do parto?
3ªestação – Jesus cai pela primeira vez – é licenciada em História moderna e contemporânea e é operadora de caixa e chefe de caixas no Pingo Doce. Ordenado base 500 euros (não estou a criticar o Pingo Doce por este ordenado; as criticas que faço ao Pingo Doce, tal como se pode ver noutros locais deste blogue, são a outro nível). Não deram em nada as candidaturas a concursos em muitas camaras municipais. Acabou por gostar do que faz. Mas não tem ainda 30 anos e, por razões económicas,  não pode constituir família. Seria tão bom que os governantes compreendessem que as economias que fazem contendo os salários são menores do que o prejuízo de se cortar a liberdade  a quem quer constituir família? E para  a sociedade essas economias são menores do que os prejuízos da diminuição constante da natalidade? Não querem ver isso, é?
4ªestação – Jesus encontra a sua mãe – São uma família com duas crianças de menos de 2 anos. Iniciaram obras de remodelação na sua  moradia térrea e o crédito bancário falhou. Realojaram-se em casa dos sogros do pai de família, que sorteou a moradia para pagar as dívidas. É discutível, a opinião seguinte, mas parece-me que o grande problema da habitação em Portugal é a dificuldade de acesso a obras ou arrendamento e seu financiamento a custo controlado e garantido, através de gabinetes oficiais das autarquias, organizados para ajudar e não para exigir.
5ªestação – Simão de Cirene ajuda Jesus – é a história de um homem, administrativo numa escola pública nas Caldas da Rainha, que se dedica a promover a recolha e a distribuir alimentação e agasalhos a sem abrigo da cidade. É impressionante a sua solidariedade e a das pessoas que o ajudam, mas recordo sempre a afirmação duma manifestante: “se houvesse justiça social não era preciso caridade”. Sendo certo que já Adam Smith falava da necessidade de redistribuição social.
6ªestação – Verónica limpa o rosto de Jesus – Graças à junta de freguesia de Alcântara, o balneário público  de Alcântara funciona, e os seus dois funcionários ajudam a recuperar alguma dignidade a quem não tem onde tomar banho.
7ªestação – Jesus cai pela segunda vez – o Brevet OP da Oficina de Psicologia na rua Pinheiro Chagas, em Lisboa, desenvolve uma terapia para desempregados trabalhando , em sessões ao  longo de 4 meses, “a desmotivação, a desesperança e a desorganização” de desempregados. De facto, a necessidade de trabalhar faz parte da natureza humana, e estar desempregado reduz a auto estima e aumenta a depressão. Claro que os governantes deveriam querer compreender isto, até porque são cláusulas da Declaração universal dos direitos humanos e da Constituição; deveriam estimular o tratamento do desemprego em termos de psicologia e, especialmente, atuar preventivamente criando emprego (o artigo 58º até fala em pleno emprego).
8ªestação – Jesus encontra as mulheres de Jerusalém – é o testemunho de três grávidas sem emprego, com formação universitária. Já trabalharam no estrangeiro, já tiveram empregos em Portugal mais ou menos certos. Agora estão no desemprego. Uma sociedade que trata assim as grávidas soma problemas aos problemas que já tem.
9ªestação – Jesus cai pela terceira vez – é a história do dono de uma fábrica têxtil que fechou por falta de trabalho em março de 2012. Deixou em Portugal  a família, mulher e dois filhos. Trabalha no bar de um grande restaurante em Hamburgo. “Tenho medo se a minha família vier ter comigo porque a minha filha é adolescente e o corte pode não ser bom. Mas que futuro podem os meus filhos ter em Portugal? Como posso pensar em voltar se não há lá nada para mim?” . Dir-se á que as economias dos cortes no apoio às famílias portuguesas emigrantes, nomeadamente na parte escolar, são menores do que são os prejuízos que resultam dos cortes.
10ªestação – Jesus é despojado das suas vestes – é a história do estímulo do crédito fácil e do endividamento familiar para alem do suportável e do garantido. Foi contraído um crédito há 4 anos para a compra de um apartamento na Moita com mais uma divisão do que a casa em que viviam. O casal com dois filhos trabalhava na mesma empresa. Não conseguiram vender a casa antiga e foram ambos despedidos num processo de redução de pessoal. A casa nova foi entregue ao banco. “No inicio custou-me muito, mas agora já não doi. Quero recomeçar, arranjar um emprego para pagar as dívidas e dormir descansado”.
Será que, se somarmos as economias conseguidas por todas as empresas que reduzem pessoal obteremos um número sequer igual à soma dos prejuízos a que as reduções dão origem, desde os encargos com os subsídios de desemprego à queda da produção e pioria de qualidade de serviço ou do produto, por falta de pessoal?
11ªestação – Jesus é pregado na cruz – quando se fala em reformas elevadas superiores à expetativa dos descontos, normalmente obtidas em meio bancários ou em atividades ligadas ao poder político ou ao poder judicial, deve-se também falar nas carências da assistência social a quem trabalhou por conta de outrem durante toda a sua via e por uma razão ou outra têm reformas baixas. A situação agrava-se na fase terminal. O casal de antigos mordomo (84 anos) e empregada doméstica (83 anos ) duma casa rica do Estoril, vive agora com um neto num apartamento do bairro social do Rego, num prédio municipal degradado. As duas reformas somam menos do que 500 euros. O neto, de vez em quando, ganha a recibos verdes, “com computadores”, diz o antigo mordomo porque a senhora sofre de Alzheimer. “A neta dos nossos patrões ajuda-nos muito. Tomara que  morrêssemos os dois no mesmo dia”.  Não quero responsabilizar o atual governo pela falta de uma politica de velhice em Portugal, mas há muito a fazer neste campo, e nem tudo exige muito dinheiro.
12ªestação – Jesus morre na cruz – Porto, bairro da Boavista. Um grupo de voluntários distribui, à noite, comida quente e agasalhos. O fotógrafo captou a imagem de Leninha, 19 anos, que chama”mamã” a uma das voluntárias. “Com a crise, a Segurança Social deixou de pagar as casas de hóspedes que albergavam os sem abrigo. Cada vez há mais”. Existe uma correlação forte entre desemprego e sem abrigo, entre falta de assistencia social e psicológica e degradação de condições de vida. Por isso deveriam ser limitadas as politicas que estimulam o desemprego. Embora essas politicas se fundamentem na correlação forte entre desemprego e contenção de preços. Se isto é contenção de preços, então não deveríamos querer contenção de preços.
13ªestação – Jesus morto nos braços de sua mãe – Tem 60 anos, é enfermeira da Santa Casa da Misericórdia e acompanha funerais de solitários. Também aqui não podemos responsabilizar a crise atual, mas verificar a carência da assistência social a nível nacional. Não há também uma politica eficaz contra a solidão, e o desemprego de jovens técnicos de serviço social é também significativo.
14ªestação – Jesus é sepultado – Fé na ressureição? Questão posta ao próprio país e à sua população, sendo certo que esta reportagem pode e deve ser um elemento de apreciação durante a próxima campanha eleitoral. A reportagem reconhece que muitos dos portugueses descritos já nem sequer têm esperança. Mas a questão mantem-se, quer o atual governo tenha razão ou não na politica de ruína que executa, a tentar convencer os cidadãos a, resignados, acreditarem que não há opção.
E contudo, não se propôs já ao governo a operacionalização de uma taxa sobre as transações financeiras e de outra taxa sobre as operações no multibanco sem reflexo nos clientes e a urgência na negociação com os poderes centrais da UE de uma verdadeira politica federal, financeira e fiscal sem os bancos a servirem de intermediários para a divida dos Estados?
Já se operacionalizou a auditoria completa à divida pública e à privada para se saber onde atuar?
Não se diga pois que não há alternativa à via sacra.
Ou, como pergunta finalmente a reportagem: “depois da via sacra que muitos portugueses estão a percorrer, haverá também lugar para a ressureição?”

                          Notícias Magazine, revista semanal do Diário de Noticias e do Jornal
                                                         de Noticias, 31 de Março de 2013
                                        

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Thaïs, uma ópera a dedicar ao senhor primeiro ministro



Nota prévia – Como levar o governo atual a mudar de opinião? A aceitar os pontos de vista dos cidadãos que fizeram contas, calcularam os malefícios dos juros que foram fixados e propuseram medidas como as taxas sobre transações financeiras e sobre os movimentos do  multibanco, como o alargamento do prazo de pagamento e a redução dos juros e das comissões? Como resolver o conflito que parece insanável da dificuldade em discutir sobre dados concretos e chegar a uma decisão participada independente das opções politicas dos cidadãos? Como combater sem violencia os fundamentalismos entrincheirados?
Como levar o primeiro ministro e o seu ministro das finanças a aceitar pontos de vista diferentes?
Insistindo nas criticas, por mais evidentes que sejam os cálculos fundamentadores e os indicadores económicos, só parece até agora terem por efeito reforçar a teimosia dos senhores governantes.
Apelar ao sentimento do bem comum nada resolve, que eles até fundamentam as medidas que tomam com esse bem comum.
Então pensemos em formas subrepticias de os levar a mudar de opinião. Como repteis coleantes  ocupando posições dominantes na estrutura do pensamento.


Thaïs, ópera de Jules Massenet, em versão de concerto no S.Carlos (para ficar mais económica), em dezembro de 2012.
Uma das poucas récitas deste ano, depois do desarticular lento e sádico do principal teatro de ópera do país (não se sabe se em 2013 haverá espetáculos de ópera no S.Carlos), iniciado ainda no tempo do ministério da Cultura do anterior governo.
A ópera poderá ser um espetáculo elitista (custos demasiado elevados para tão poucos espetadores) , mas é uma forma de arte em que convergem as capacidades de expressão dos seres humanos.
Por isso pode ser um espetáculo popular, com aumento dos espetadores e difusão televisiva; pode ser  revolucionário, porque trata de assuntos que dizem respeito Às pessoas.
E como tal, por poder ser revolucionário, há muito que o camarote principal do S.Carlos não vê nem o presidente da República, nem o primeiro ministro.
Não se dão bem com a ópera (recordam-se do ar enjoado dos ministros do atual governo quando foram obrigados a comparecer num concerto sinfónico no palácio da Ajuda? Como devem ter sofrido).
A ópera pode ajudar a combater a incompreensão entre culturas diferentes (“A morte do senhor Klinghoffer, de John Adams), a desumanidade dos oligarcas da finança (Banksters, de Nuno Corte Real) ou da hierarquia religiosa (Don Carlo de Verdi).
A ópera não interessa a este governo.

Mas eis que, assistindo à Thaïs, reparo que as semelhanças da ação do herói com a do senhor primeiro ministro são muito grandes.
Por isso julgo de se lhe dedicar a apresentação desta ópera no ano de crise de 2012.

Antes de mais, o barítono no papel de Athanael é fisicamente parecido com o senhor professor João César das Neves, que nas suas crónicas no DN vem defendendo a politica do senhor primeiro ministro, chegando ao ponto de afirmar que Passos Coelho e o senhor ministro das finanças estão a tentar curar uma doença que não geraram (é verdade que não geraram a doença; os gastos públicos com a educação do senhor ministro, referidos por ele próprio, são desprezáveis perante o défice, e os fundos europeus conseguidos pelas empresas de que o senhor primeiro ministro foi anteriormente administrador ou consultor também não terão tido impacto significativo no défice; mas estarem a curar a doença parece uma afirmação mal fundamentada; as tentativas de cura da hipertensão com ventosas e sanguessugas às vezes também resultavam, quando não sobrevinha uma anemia; melhor dizendo: não parece bem o senhor professor João César das Neves dizer que a doença resulta da acumulação da divida externa nos últimos 15 anos, quando o governo do senhor professor Cavaco Silva aumentou excessivamente a despesa pública com o DL 353-A/89 para ganhar as  eleições de Outubro de 1991, o que foi há  mais de 15 anos; também não fica bem sabermos que a divida externa total é de 386 mil milhões de euros e conhecermos a composição da divida externa publica, mas desconhecermos onde foi utilizada, por tipo de despesa, a divida externa privada).
Apesar das semelhanças físicas, o papel de Athanael adequa-se melhor ao do próprio senhor primeiro ministro.
A ação passa-se no século III DC em Alexandria.
Quando me falam neste local e neste tempo, lembro-me logo de Hipatia e do filme Agora (nome grego para o fórum, centro de decisões da cidade) , com Raquel Weisz, que descreve a tomada do poder por grupos de monges cristãos fundamentalistas inimigos do conhecimento cientifico helenista. Estes sacrificaram Hipatia (o senhor professor João César das Neves responderá com o martírio de Santa Apolónia, padroeira dos dentistas, num confronto desigual porque Hipatia é uma personagem histórica com testemunhos de fontes diversas e Apolónia não).
Lembro-me também do decreto do imperador Teodósio, proibindo irrevogavelmente a escrita hieroglífica (este é um tema interessantíssimo: perante a questão da historicidade das principais figuras fundadoras do cristianismo, faltam fontes contemporâneas dos acontecimentos que sejam historicamente validadas e que confirmem a historicidade das figuras; mas pode colocar-se a hipótese de ter sido a corrente ortodoxa da religião crescente que numa fúria depuradora tenha eliminado todas as referencias históricas não compatíveis com a ortodoxia).
A ópera Thaïs não foca a luta dos monges para impor a sua religião em expansão.
Athanael é um monge cristão cenobita que pede autorização ao seu superior para ir salvar a alma de Thaïs, a mais famosa cortesã de Alexandria, responsável pela dívida pública, perdão, pela devassidão e dissipação que se vivia em Alexandria.
Entre parênteses, excertos do libreto de Luís Gallet, sobre o romance de Anatole France.
(o meu coração está cheio de amargura…a cidade entregou-se ao pecado! Uma mulher, Thaïs, é fonte de corrupão! Por causa dela, o inferno governa os homens.)
O superior bem lhe diz para não se meter nisso (meu filho, não nos misturemos com as pessoas do mundo), mas Athanael é teimoso, convenveu-se de que foi incumbido de uma missão salvífica e quer curar a economia, perdão , Thaïs, com uma dieta rigorosa de orações e austeridade de vida.
(Ensinar-lhe-ei o desprezo da carne, o amor pela dor, a austera penitencia)
Thaïs, como sacerdotisa de Vénus, ainda lhe pergunta como pode ele acreditar no que diz
(que triste loucura te faz fugir ao destino de amar e de conhecer; quem te cegou assim?)
Porem, talvez que a cortesã estivesse já doente. A medicina da altura não obtinha grandes sucessos. Ou, hipótese malévola, talvez que os monges bem organizados lhe tenham incendiado a casa de tolerância e perseguido com atentados os clientes de maiores rendimentos.
Thaïs não resistiu ás modulações da voz do barítono e, temerosa das punições da vida eterna e crédula nas promessas de felicidade na outra vida, deixa-se convencer pelo monge. Depois de uma ultima hesitação e da célebre meditação de Thaïs (oiçam no Youtube)


decide partir com ele para um convento de freiras no deserto.
(Não muito longe daqui há um mosteiro onde as mulheres vivem como anjos em perfeito recolhimento…lá encerrar-te-ei numa estreita cela até à libertação divina)
Mais uma vez se vê um caso em que as vítimas de uma ideia acabam por ser as suas melhores defensoras.

Só que depois de a deixar, Athanael cai irremediavelmente apaixonado pela senhora e muda de ideias.
Corre ao convento mas a economia, perdão, Thaïs estava mesmo doente e a intervenção anterior de Passos Coelho e Vítor Gaspar, perdão,de Athanael só veio agravar a doença.
Em vão Athanael protesta o seu amor carnal junto de Thaïs
(só me recordo da tua beleza mortal… desta sede insaciada que só tu saberás apaziguar… menti…o céu, nada existe… nada é verdade que não seja a vida e o amor entre as criaturas… eu  amo-te… diz-me, vou viver, tu pertences-me)
Mas Thaïs só lhe responde, 
(encanta-me o som das harpas douradas…)
E morreu…
Deste modo, embora tardiamente, Athanael descobriu com a morte que há mais vida para alem da austeridade, que as aspirações e os direitos  humanos têm de ter prioridade sobre os interesses financeiros.
No intervalo do espetáculo, entre o 2º e o 3º atos, um espetador transmitia por telemóvel as suas impressões enquanto dava largas passadas no salão nobre do S.Carlos:
"Tens de compreender, isto na vida é assim, há insanidades, há fluxos para um lado e para o outro..."

Interessante, não é?
Ver como os autores, no ambiente moralista do fim de século XIX, deixam o herói expor a sua ortodoxia religiosa para no fim lhe dar a volta a 180º, fazê-lo mudar completamente de opinião, e já sem remédio.

Interessante imaginar que o barítono Athanael é o primeiro ministro do atual governo, que Thaïs é a economia portuguesa sujeita à austeridade redentora com a crença num futuro melhor (quem te cegou? Hayeck? Friedman? Reagan? Thatcher?).
Que o seu superior Palemon possa ser o seu antigo chefe Ângelo Correia, a pedir-lhe para não se meter em trapalhadas.
Que pode chegar um momento em que as evidencias levam mesmo uma pessoa a mudar de opinião, e lá se vai a determinação obssessiva.

Que diabo, por que cargas de água os monges fundamentalistas não se sentam à mesa com quem não pensa como eles e com quem conhece as questões,  e discutem formas de organização de unidades de produção de bens e serviços úteis para que as pessoas possam beneficiar das suas potencialidades aqui na vida real, em vez de pregar moralismos redentores ?

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Dedicado ao senhor ministro das finanças Vitor Gaspar

Excerto do livro "Economia para todos" , de David Moss, professor de Gestão, Administração Publica e Economia internacional na Harvard Business School, ed. Academia do livro, de onde eu tenho retirado as fórmulas do PIB e do investimento:

“Infelizmente, alguns estudantes de Macroeconomia sentem-se tão confiantes em relação àquilo que aprenderam que se recusam a ver quaisquer desvios, preferindo acreditar que as relações económicas definidas nos seus manuais são regras invioláveis. Este tipo de arrogância (ou estreiteza de pensamento) torna-se um verdadeiro perigo para a sociedade quando afeta os responsáveis pela macroeconomia. O responsável pela politica que acredita que sabe exatamente como a economia irá responder a um estímulo específico é na verdade um responsável político muito perigoso.”

Questionado sobre o falhanço da quebra de receitas do IVA, do ISP e do IRC e do aumento da despesa pública apesar da diminuição dos gastos de pessoal e do investimento (foi o serviço da divida que cresceu), o senhor ministro Vítor Gaspar teve a honestidade de se assumir como único responsável (não é verdade, mas se fosse, seria uma prova de que assunto tão complexo não pode depender de uma pessoa só, por  mais iluminada que seja) e, de forma superior e pouco urbana como já é seu timbre, afirmar o “enorme desvio entre o que os portugueses acham que devem ser as funções sociais do Estado e os impostos que estão dispostos a pagar”.
Há uns anos , houve um senhor ministro que disse: “Quem quer saúde, paga-a”. Não parece pois ter havido grandes progressos.
Insistiu ainda que a queda do PIB em 2013 será de 1%, e que o multiplicador do impacto da austeridade sobre a  queda do PIB não estava compreendido entre 0,9 e 1,7, mas é apenas de 0,8.
Quanto ao dia do regresso aos mercados, anteriormente anunciado para 21 de Setembro de 2013, nada disse.

Não é o facto das medidas serem duras que choca.
É a falta de humildade de quem se acha detentor das soluções únicas, de quem reconhece acriticamente o erro e insiste nele, é a ausência de disponibilidade para aceitar outra forma de pensar e agir , é  recusar a renegociação dos juros, da disponibilização do BCE para empréstimos diretos, da regulação fiscal na Europa.
É deixar sem resposta as perguntas concretas, enquanto, provavelmente, vai estudando soluções, como reconheceu quanto aos limites do défice, em negociação com a troika desde julho:
1 – é verdade que estão 7.500 milhões de euros, que sobraram da recapitalização dos bancos, “aparcados” sem objetivo à vista  (que não seja uma reserva para tapar erros de estimativa)?
2 – é verdade que não quer  recomprar divida portuguesa no mercado secundário, agora que os juros estão mais favoráveis?
3 – é verdade que não sente premência em ampliar as verbas do QREN que tanto jeito davam ao seu colega da Economia? (ou está a contar com elas para limitar a recessão do PIB a 1% em 2013?)

Como diz o professor de Harvard, é perigoso.

PS - Mais um erro meu, confirmando que não é só o senhor ministro que se engana. A data marcada para o "regresso aos mercados" era 23 de setembro, e não 21, que, este,  será um sábado. Também o senhor ministro dise alguma coisa, contrariamente ao que escrevi. Disse que não faz sentido estar a marcar datas. Nalguma coisa haviamos de estar de acordo, especialmente depois daquele anuncio descabido que "já voltámos aos mercados", felicitando a senhora secretária de estado por ter transferido as obrigações de setembro de 2013 para 2015, graças à generosidade dos credores nacionais, não internacionais. Perigoso, dar poder a um senhor assim.

domingo, 3 de junho de 2012

Austeridade-crescimento

http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2012/04/voltando-as-analises-de-dados-e-taxa-de.html

Voltando ao tema do post de 7 de Abril de 2012, com a evolução da taxa de desemprego ao longo das ultimas décadas.


Talvez que o dilema que se discute hoje na politica portuguesa não esteja bem traduzido pelas palavras – ou austeridade ou crescimento.

A politica do governo não é de austeridade, que com austeridade até se vive bem.

Trata-se antes de uma politica declaradamente de desemprego, para conter a procura (lei de Philips: a inflação varia inversamente relativamente ao desemprego) , diminuir as importações e assim equilibrar as balanças de pagamentos e o deve-haver do orçamento, dentro dos limites acordados para o défice (já que para o endividamento já se sabe que, graças ao aumento dos juros, a divida publica continua a subir). Apesar de não ser na fatia dos rendimentos de trabalho que está a maior quota das despesas.

A politica da oposição não deveria ser tão só de crescimento. A diminuição do PIB já é uma fatalidade; impor-se-ia uma politica de diminuição de danos. Julgo que seria assim correta  uma seleção de atividades a desenvolver para incluir no PIB. Isso obrigaria a um grande esforço de planeamento e de elaboração de projetos (nomeadamente para submissão ao QREN ou seu sucedâneo) a realizar transversalmente na sociedade portuguesa sem monopólios ou duopólios partidários.

Mas como se costuma dizer neste blogue, isto são vozes de burro que não chegam aos céus.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Declarações do senhor primeiro ministro antes de 5 de junho e em 13 de outubro de 2011

Depois das declarações do senhor primeiro ministro em 13 de outubro de 2011, com novos cortes nos rendimentos do trabalho e a continuação da isenção de tributação dos rendimentos do capital, reproduzo o texto deste blogue  de 2 de setembro de 2011


que, por sua vez, incluia comentários da conta do twitter de P.P.Coelho anteriores a 5 de junho de 2011. 

 "os que têm mais terão de ajudar os que têm menos"
 "o governo está-se a refugiar em desculpas para não dizer como é que tenciona concretizar a baixa da TSU"
 "a ideia de que o PSD vai aumentar o IVA não tem fundamento"
 "se formos governo, posso garantir que não será necessário despedir pessoas nem cortar mais salários para sanear o sistema financeiro português"
 "o PSD chumbou o PEC4 porque ... a austeridade não pode incidir sempre no aumento de impostos e no corte do rendimento"
"nós nunca falámos disso (acabar com o 13º mês) e é um disparate"
"como é possível manter um governo em que um primeiro ministro mente?"

Alguns destes comentários foram proferidos em publico e a gravidade de o terem sido em campanha eleitoral e de não corresponderem  à prática posterior do seu autor impede-me de considerar legítima a atuação do atual governo e de considerar reunidas as condições para se poder argumentar seriamente com pessoas assim.

Se, como o senhor primeiro ministro afirma agora, o afastamento da execução orçamental é maior do que o que pensava ser quando tomou posse, ou quando foi negociado o memorando com a troica , justificando com o endividamento das empresas publicas (há anos que se protestava que o grosso da divida das empresas era divida publica e não divida das empresas), da região da Madeira (gerida pelo partido do senhor primeiroministro) e do BPN (subsidiário da SLN, sociedade de investimentos cujos acionistas e beneficiários sempre foram figuras gradas do partido do senhor primeiro ministro), parecerá que a unica saida seria a renegociação com a dita troica com base nos novos (para o governo) dados, sem esquecer que desde junho de 2011 (1/4 do ano) a responsabilidade de mais desvios é do governo que tomou posse.
Evidentemente que perante a gravidade da situação económica a realização de eleições era a ultima coisa a pensar fazer; nestes casos, costumam adotar-se soluções de coligação com apoio parlamentar, mas infelizmente o senhor presidente da República não entendeu assim, queixando-se agora do excesso de austeridade e da ausencia de medidas de crescimento.
Citação de Vasco Rebelo de Andrade, diretor geral do Millennium BCP: "Assumir como dogma que todos os objetivos imppostos pela troica são inalteráveis é pôr mais achas numa fogueira que liquidará o sistema financeiro".

Uma palavra ainda para a incompetencia e demonstração de ignorancia para quem desde a campanha eleitoral defendeu o corte da TSU surdo aos argumentos, por exemplo de Vitor Bento, de que o corte da TSU só teria efeitos se os preços do setor não transacionável baixassem relativamente aos bens transacionáveis, o que era muito dificil de conseguir. 
Depois deste tempo todo a deitar poeira nos olhos dos cidadãos e cidadãs, assacando a ideia do corte à troica (quando o que a troica fez foi acolher a sugestão de "académicos" mas recomendando que a aplicação fosse universal) o governo reconhece que a medida não é eficaz. 
Pena não ter dado ouvidos a quem avisou, como Vitor Bento. 
Ver
http://fcsseratostenes.blogspot.com/2011/06/mais-um-livro-de-vitor-bento-economia.html

Enfim, tudo isto mostra a iliteracia dos nossos decisores.
É uma pena e, como se costuma ver pelo mundo fora, indigna.




PS - Correção em 14 de outubro de 2011 ao texto anterior: entre as medidas de austeridade encontra-se o agravamento da taxa sobre as transferncias para os off-shores do anterior governo, e ainda uma taxa extraordinária sobre o IRC de empresas com lucros superiores a um certo valor. 
Manda a verdade reconhecer que o senhor primeiro ministro está tambem a contradizer-se quando finalmente autoriza estender, timidamente embora,  os sacrificios aos rendimentos do capital.
Terá entendido que os ditos encontram em todo o mundo dificuldades em esconder-se .
Faltará agora verificar se é consistente a acusção de Jerónim de Sousa: "O senhor primeiro-ministro não sabe o que é a vida".