sexta-feira, 13 de junho de 2014

Querida Djilma

Querida Djilma, entristeceste-me como uma namorada que deixou de gostar das mesmas coisas que nos juntavam e que me escreveu a dizer isso mesmo, que agora não encontrava nenhum prazer em cotejar comigo a forma como olhamos as coisas do mundo.
Quando é assim parte-se qualquer coisa dentro de quem recebe a carta desenganadora.
Custa a aceitar, a pensar que te sentaste naqueles tribunais de fachada que os militares brasileiros tinham.
Já quase todos se esqueceram que houve esses militares e esses tribunais, ou como dirias, teve esses tribunais e teve esses militares.
Houve manifestações apesar dos tanques e os atores das telenovelas pediram democratização.
Tambem tivemos cá desses tribunais. Tens sobre mim a superioridade de te teres sentado num e eu não.
Embora tivesse feito por isso, pouca coisa, mas alguma, sido inclusivé objeto de denuncia por pessoa próxima da PIDE, ou mesmo pela própria PIDE, numa mensagem de aviso à unidade militar onde tinha sido colocado.
Só que continuo, apesar dos anos, a achar que não é de superioridades de alguns nem de endeusamentos de lideres que precisamos.
Oiço e vejo na televisão os teus cidadãos e cidadãs a gritar e a mostrar cartazes, queremos transportes, saúde e educação.
Repara que eles não pedem, perdão, não exigem sequer habitação. Apesar das chuvas torrenciais que matam miseravelmente (miseravelmente não por as torrentes de lama serem miseráveis, mas por ser miserável um país que tem técnicos de engenharia que sabem quais são as causas e as circunstancias dessas torrentes e não serem implementadas as medidas preventivas necessárias).
Graças à copa as imagens correram mundo.
Mas vens tu, como namorada que deixou de gostar das mesmas coisas e falaste ao mundo.
Orgulhosa, muito orgulhosa, que o Brasil estava pronto para a copa.
Tinha concluido os estádios (morreram 9 operários com as pressas? que é isso, está sempre a morrer gente, também morreram 9 pessoas com as pressas da ponte Vasco da Gama para a Expo98; só os fundamentalistas da segurança como eu ligam a essas coisas e os fundamentalistas são inimigos do pensamento dominante).
E justificando, como imperadora romana as verbas gastas com o pão e com o circo (panem et circensis), que os estádios para a copa foram apenas 1 a dividir por 200 do dinheiro gasto com a educação.
Dito assim calas os críticos (um país com 200 milhões de habitantes tem de gastar muito dinheiro com educação, não é? especialmente se quiser crescer, porque sem mão de obra qualificada quem cresce são os outros).
Dito assim ocultas que 3 estados contrairam empréstimos de 1.600 milhões de euros para pagarem a construção de 3 estádios cuja manutenção será incomportável em função da rentabilização possível.
Como aconteceu em Leiria, em Aveiro e em Faro.
Sabes? estádios construidos à pressa, com aquele tipo de projetos, dá manutenção cara. Podes ver o caso do estádio do Benfica, com necessidade recorrente de pinturas e de reforço de chapas.
Mas isso são coisas que os técnicos da Odebrecht te podem explicar melhor do que eu.
Disso assim, ocultas o despejo de 4700 famílias cuja situação não está ainda resolvida.
Dito assim, ocultas a perda de soberania nacional num perímetro a 2 km dos estádios, para respeitar os contratos de monopólio dos patrocinadores.
Mas realmente o que é isso, comparada com a perda de soberania de ter de cortar nos salários e pensões de 300.000 cidadãos e cidadãs para respeitar os contratos da troika e para sustentar a economia de uma divida pública de 130% e de uma dívida privada de 155% correspondentes a 10 milhões de habitantes? (falo agora deste nosso pobre ex-império colonial)
Mas tu dirás ainda, como disseste, aliás, que a copa é um investimento que estimula a economia.
Sabes, Djilma, eu diria à minha namorada que deixou de acreditar nas mesmas coisas que eu, que não faz mal, que ela deveria antes ter assumido com serenidade os falhanços, e que estava com os mais fracos, que lhes daria as mãos para que juntos estudassem formas de organização para combater os problemas.
Que é natural que os brasileiros tenham dificuldade de se organizarem em equipas (não, não me refiro às equipas da copa, nem às equipas das multinacionais paulistanas) porque o código genético dos portugueses também é assim.
Que é fácil diabolizar o trabalhadores do metropolitano de São Paulo que querem aumento de salários, mas tu sabes (se não sabes é porque os técnicos do metrô não estão a cumprir o seu juramento de verdade) que o metrô precisa de uma intervenção decidida para corrigir as suas deficiencias perante a procura que tem).
Enfim, eu tentaria reatar, em nome da rapariga julgada nos tribunais dos militares.
Um beijo, Djilma.

PS em 15 de junho - Ricardo Reis, professor de economia colaborador do dinheiro vivo, não conhecido como especial simpatizante de ideais revolucionários, define na sua crónica com muita precisão a violencia da FIFA nos seus contratos. Entretanto, parece que os estádios ficaram por 9 mil milhões de euros, 42% acima do orçamento. E que as receitas da FIFA estão isentas de imposto.
Campeonatos de futebol da FIFA, NÃO, OBRIGADO.
ver
http://www.dinheirovivo.pt/Economia/opiniao/interior.aspx?content_id=3971219










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