sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

O parque Mayer e a atualidade do teatro de revista

Entre outros motivos, o teatro de revista decaiu porque um dos seus encantos era contornar a repressão da liberdade de expressão.
Agora que no parque Meyer, reduzido a uma expressão simples, é palpável a esperança de que o Capitólio renasça, talvez rever os cartazes de antigas revistas que lá estão expostos ao temporal:

entrada, com as luminárias paralelepípedo em ruínas

a esperança de que o Capitólio renasça

o jardim botânico por trás

pensativa, no ABC

ver os cartazes ilustrando a história do teatro da revista

este cartaz é de 1975, numa altura em que o governo era pouco popular, daí a atualidade do teatro de revista

cartaz logo a seguir a 25 de abril de 1974, eufórico com  a inexistencia de censura, mas também atual, porque agora também parece mentira

1945, era a altura do medo da invasão alemã, da invasão espanhola; não é atual?

apesar da guerra (1943), ou talvez por isso mesmo, conseguia-se distrair as pessoas das causas da guerra e do racionamento 

dois garotos ... como é atual esta revista, apesar de ter sido estreada em 1928 ... dois garotos ...

1922 - cuidado com o significado de encarnada, que não se confunda com vermelha

les ballets russes, em plena I guerra mundial, em 1915, como num país civilizado; ainda o povo português não tinha sido escolhido pelos políticos da I república como carne para canhão, para o país beneficiar de qualquer coisita que sobrasse da guerra, incluindo a manutenção das colónias  e uns abatimentozitos à dívida da bancarrota de 1892, mas só uns abatimentozitos que isto dos mercados e credores têm os seus direitos adquiridos e intocáveis, como Shylock, o algoz do mercador de Veneza de Shakespeare, gostava de dizer. Atual, a apresentação dos ballets russes...

Texto experiencia - a guarda

Este é um texto para experiencia das visualizações automáticas deste blogue a partir de servidores nos USA, Russia, China e Alemanha, e que aparecem como tal nos registos do blogue de visualizações.
Favor não ligar à falta de lógica, que aliás carateriza grande parte das relações internacionais.


A guarda fiscal foi alertada para a revolta que os rebeldes desencadearam e promoveu uma repressão comandada pelo gauleiter.

Ruínas de Lisboa - o posto da guarda fiscal

Antigo posto da guarda fiscal no Cais do Sodré.
Reconstruido e adaptado a restaurante, com uma esplanada simpática, nos anos 90, quando o metro se expandiu na Baixa.
Agora agoniza.
Sic transit ...


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Não há mesmo dinheiro? ou medidas para o equilíbrio orçamental

Se é verdade que a frase “Não há dinheiro” ganhou popularidade depois da resposta malcriada de Vítor Louça Gaspar a ao secretário de Estado da Cultura Viegas, isso só confirmaria a incapacidade do senhor de compreender a extensão do problema financeiro que lhe competia resolver ou, pelo  menos, atenuar, e de comunicar com terceiros para encontrar soluções.
Um caminho poderia ser  transformar a frase para:
“Não há muito dinheiro”
“Onde há dinheiro?”
“Para onde foi o dinheiro?”
Ajudaria dar mais atenção ao trabalho da Auditoria Cidadã à Dívida, de modo a todos sabermos, ministros ou não, exatamente a quem e quanto devemos.
Para escalonar o pagamento das dívidas em função do seu grau de prioridade.
E claro, para ver bem o peso dos juros no seu serviço.
Independentemente de tomar medidas de crescimento do PIB e todos os dias recordar a fórmula do saldo orçamental, de que se retira a imperiosa necessidade de investir as poupanças e o dinheiro dos fundos comunitários do Quadro estratégico 2014-2020 e de conter ou substituir as importações:

saldo orçamental = (investimento privado e de fundos europeus – poupanças privadas) + 
                                                                                                (exportações - importações)
Mas entretanto, seria bom, em vez de encher a boca com a frase “não há dinheiro”, dinamizar as seguintes medidas:

- taxar o jogo on line de acordo com as propostas dos grupos de trabalho
- taxar as transações por cartão de crédito através da internet
- rever as isenções de IMI por fundos imobiliários e entidades religiosas
- taxar as transações em bolsa
- diferir o pagamento das anuidades das PPP, por exemplo em 2014 poderiam poupar-se 583 milhões de euros, metade da fatura total para esse ano, isto para não dizer que a taxa de rentabilidade tem de baixar ainda mais para ser considerada razoável (fundamento: o comparador público diz que uma obra realizada por empreitada pública fica por metade do preço de uma feita por PPP, oq eu será natural uma vez que na primeira modalidade as empreitadas são conduzidas por engenheiros, e na segunda por economistas)
- introduzir a taxação forfetária para as pequenas empresas e particulares (declaração voluntária aplicável a transações a dinheiro da economia paralela)
- impedir a SIBS (não se pode nacionalizá-la? não se escandalizem com a pergunta, mas eu garanto que nunca a faria se não me tivessem reduzido a pensão de reforma) de repercutir perdas de receita nas anuidades dos cartões e introduzir uma taxa por utilização do multibanco em levantamentos e pagamentos
- aplicar a lei da penhora aos operadores de televisão por cabo que não cumprirem a lei da contribuição para o audiovisual
- fazer como no BES e no Montepio: subscrições de unidades d eparticipação…

Deverá manter-se a pressão para o estudo de outras medidas mais graves e de médio prazo, como a redução da taxa de juro dos empréstimos dos bancos ao Estado, a aplicação dos 6 mil milhões de euros para recapitalização dos bancos não utilizada e a escolha com a participação decisiva de técnicos de engenharia e da ordem dos engenheiros e elaboração dos projetos para obtenção de fundos QEE – quadro estratégico europeu 2014-2020 com o objetivo de substituir importações de energia, de alimentos e de bens transacionáveis.

Enfim, quando em novembro de 2013 se compram mais automóveis do que em novembro de 2012 e na primeira quinzena de dezembro de 2013 se fazem mais levantamentos e compras por multibanco do que em 2012  (poderá não ser muito significativo se se entrar com a inflação verificada, talvez de 2%; uma taxa extraordinária de 0,5% sobre as movimentações do MB daria, nas 3 semanas de 25 de novembro a 15 de dezembro de 2013, 17,2 milhões de euros) , como vamos acreditar no professor Vítor Gaspar de que “não há dinheiro?”

Como já tenho cabelos brancos, posso chamar a este grupo de governantes ineptos o que a ex-ministra vos chamou, um bando de maus estudantes de contabilidade prática. Os vossos mestres da troika ainda têm a desculpa de não conhecerem o modo como os portugueses funcionam, mas vocês, em que país têm vivido?

sábado, 14 de dezembro de 2013

Fim de outono

risco de entupimento da sarjeta com as folhas quando chover

Les sanglots longs des violons d'automne blessent mon coeur d'une languer monotone (Verlaine)

As folhas caídas dão um ar nostálgico a este fim de outono.
Serão as restrições orçamentais, num país de desemprego excessivo e de autmóveis nos passeios.
Quando chover e as sarjetas entupidas provocarem inundações, chamar-se-ão os bombeiros.
As sirenes dos seus carros ferirão os nossos ouvidos. 
Nada se fará também na prevenção das inundações na Madeira, limpeza de linhas de água, por exemplo, nem se atenderá ao que ficou descrito em 
Bom seria que me enganasse.
 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Daniel Bessa e os estaleiros de Viana do Castelo

A comparação que Vitor Gaspar fez entre a ciencia económica e a ciencia meteorológica parece-me correta.
Os macroeconomistas gostam de se comportar como os feiticeiros que explicavam a chuva, quando era necessária, graças às suas danças,preocupando-se pouco com as relações efetivas de causa e efeito.
Isto a propósito do desabafo triste de Daniel Bessa num dos programas televisivos que gostam de ouvir os macroeconomistas:
- Não sei porque ao longo de 20 anos não se fechou uma empresa deficitária como os estaleiros de Viana.
Não podendo esclarecer todo a questão, direi apenas:
Internacionalmente assistiu-se ao fecho de muitos estaleiros no mundo ocidental enquanto os estaleiros sul-coreanos lançavam barcos cada vez mais baratos, porque economizavam nas condições de trabalho (não estou a ver o sr dr Daniel Bessa a trabalhar nessas condições) e porque otimizavam a construção naval.
Os barcos são um bom exemplo do que acontece com este tipo de otimizações.
Em Portugal houve no século XVI a experiencia da querena italiana: permitia calefetar os barcos sem os tirar da água, inclinando-os a 90º. Era mais rápido e barato e, porque na maior parte das vezes o trabalho era mal feito, responsável por muitos naufrágios no Índico (os neoliberais de agora culpam os pilotos e os marinheiros de sobrecarga dos navios).
Mais recentemente, tivemos o caso do Prestige, que morreu, simplesmente de velhice. O casco simples (as diretivas agora obrigam a casco duplo) e sujeito a corrosão devido à natureza da carga, não resistiu à idade e à otimização da construção.
É muito complicado dizer que um estaleiro não é viável porque outros fazem mais barato.
Entretanto, à medida que iam fechando estaleiros, os preços subiam, dificultando a renovação das frotas, com a agravante de agora ser obrigatório  construir com casco duplo.
Os estaleiros como os finlandeses e italianos que se aguentaram beneficiaram do fator de escala (ou curva dos rendimentos ainda crescentes).
Num ponto mais baixo da curva, não admira muito que os custos de produção sejam mais elevados.
Notar ainda que a otimização dos custos de construção conduz a situações como as do Costa Concordia, em que um rombo no casco de menos de 10% do comprimento do casco condena irremediavelmente o navio pela economia do projeto.
Mas enfim, concordo que se devem controlar os custos, é evidente.
Não posso é ligar muito ao argumento de que outros fazem mais barato.
Só vendo, em pormenor e discutindo-os bem, incluindo o fator segurança e comportamento em situações de emergencia.
Não são coisas que se resolvam com cadernos de encargos (qualquer fornecedor pode dizer que os cumpre e é dificil confirmar a satisfação de todas as especificações, embora as firmas de certificação possam ser uma ajuda).
E não são os senhores macroeconomistas que têm competencias técnicas para avaliar a relação custo-qualidade da construção de um navio comparativamente com outros estaleiros.
Melhorar a gestão dos estaleiros sim, degradá-los e fechá-los não.

PS em 22 de dezembro - dentre a informação surgida agora a propósito do encerramento dos estaleiros, destaca-se a de que a construção do ultimo patrulheiro, o Figueira da Foz, esteve parada durante m ano porque o orçamento de estado de 2012 não incluiu verbas para isso. Assim não admira que a produtividade tivesse sido baixa e o prazo de construção exagerado. A lei da concorrencia impede que um Estado beneficie uma sua empresa em detrimento de empresas privadas, mas não diz que um Estado pode prejudicar a sua própria empresa em beneficio de empresas privadas. Concorrencia não é isso.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Guiné Bissau

Artigos 13 e 14 da Declaração Universal dos Direitos Humanos:

Artigo XIII
        1. Toda pessoa tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado.   
        2. Toda pessoa tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio, e a este regressar.

Artigo XIV

        1.Toda pessoa, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países.   
        2. Este direito não pode ser invocado em caso de perseguição legitimamente motivada por crimes de direito comum ou por atos contrários aos propósitos e princípios das Nações Unidas.



Deixo expressa a minha indignação por mais uma violação dos direitos humanos por parte do governo português atual (a outra mais gritante é a violação do direito ao trabalho).
O voto que lhe deu a maioria não é um cheque em branco para cometer os atropelos de que se lembra para se afirmar de forma autoritária perante um país fraco como a Guiné Bissau, que não dispõe de ricas jazidas de petróleo ou gas natural.
Não serve o argumento de que os passaportes estavam falsificados. 
Acham que se pode sair da Siria e dos seus dementes com passaportes não falsificados?
E não se sabia há muito que muitos dos anteriores refugiados tambem não tinham passaporte válido? 
E que a maior parte dos que entraram em Portugal já saiu?
Fazem-se exposições sobre o papel de Lisboa como plataforma de resgate e fuga de judeus e outros perseguidos durante a II grande guerra e afinal parece que é só para estrangeiro ver?
Incensa-se Aristides Sousa Mendes que desobedeceu às ordens do ministério e aplaude-se agora o funcionário do SEF que se escandalizou no aeroporto de Bissau?
Rasgam as vestes com as mortes dos náufragos que não chegam a Lampedusa, mas proibem a companhia aérea estatal (isso, estatal, fujam como o diabo da cruz, ainda não foi privatizada) de ligar Bissau a Lisboa.
Daqui a uns anos também dirão que foi a decisão mais acertada, como aquela de votar contra uma das moções que propunha a libertação de Mandela porque apelava à violencia e ficaram sózinhos na votação com os USA de Reagan e o UK de Thatcher (!?! leiam São Tomás de Aquino e falem-me depois da violência).
Eram 3 voos semanais, não se pode dizer que não houvesse procura, para além de ser uma incomensurável falta de respeito por quem trabalha na Guiné e já tinha bilhete para Lisboa para passar as férias.
A Guiné precisa de apoio e compreensão para vencer a sua desestruturação, em colaboração com as organizações africanas, a ONU e a Comunidade de lingua portuguesa  (não, não são os mercados que o podem fazer, nem governos como o português atual).
Tambem a Siria precisa de apoio, mas não parece que sejam os atuais governos das grandes "potencias" que são capazes de o fazer e, neste caso, muito menos os mercados de armas, de energia e de reabilitação territorial que o poderão fazer.
Tenham vergonha, os brancos negreiros  (e seus descendentes) e instituições oficiais (e suas homólogas atuais) que compraram os escravos da Guiné desde o século XV aos idos do século XIX.
Tenham vergonha, os negros e seus descendentes que vendiam os seus irmãos negros aos negreiros brancos desde o século XV e as instituições atuais que se dedicam ao narcotráfico e a matar quem não lhes agrada.
Isto não é o funcionamento regular das instituições, concretamente, da nossa parte, governo e presidencia da República. 
Isto retira-lhes a legitimidade eleitoral na exata medida em que configura o incumprimento da Declaração Universal.
A linha da aceitação já está ultrapassada há muito.

Da serotonina à criação do homem, ou vice versa

A minha jovem e irreverente correspondente do facebook - não pensem coisas de mim, é apenas o que escrevo, jovem  e irreverente correspondente - queixava-de de um dia de indecisão, sem se decidir a tomar uma decisão ou a sua contrária, sentindo-se exposta a críticas da condição feminina.
Deixou-me também na indecisão, que por vezes não saber o que fazer é sábio, hesitando entre a dialética da tese, antítese e síntese, ou pelo contrário, a humilde aceitação da dualidade contraditória do que quer que exista na natureza, desde a corpuscular-ondulatória da luz até à incerteza da posição-velocidade de Schrodinger. 
De modo que respondi-lhe deste modo, no facebook, claro:
- Há dias assim. 
Deve ser da concentração das serotoninas e das acetilcolinas. 
Mas passa, sentando-se calmamente num sofá, a ler um bom livro. 
Por falar nisso, não desmereça da condição feminina. 
É que não foi Adão que surgiu primeiro e depois lhe tiraram uma costela. 
Yavé escolheu uma gorila mais bonita e acrescentou-lhe o cortex neo frontal para aumentar a capacidade de processamento e a memória.
Na verdade não acrescentou nada de físico, "desbloqueou" o gene que impedia o crescimento das células neuronais e das sinapses. 
Atuou por software, não por hardware.
Só depois disso e do neo cortex dar os primeiros frutos é que Yavé deu origem a Adão, por partenogenese, porque não queria que lhe pesasse na consciencia, dele Yavé, ter deixado a mulher sem um entretenimento capaz de trocar com ela alguns argumentos, ou como se diz agora, sem um gadget com que pudesse interagir ...
Yavé foi muito criticado no congresso seguinte dos deuses do universo (ou talvez pluriverso), por ter dado a capacidade de raciocinio à mulher, e, por extensão, ao homem. 
Mas o mal estava feito. 
É por isso que há dias assim...

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Declaração universal dos direitos humanos, 65 anos

Comemorando a aprovação da Declaração universal em 10 de dezembro de 1948, reproduzo extratos dos artigos 22, 23, 24 e 25.
Em Portugal o governo não respeita os direitos humanos, e a troika também não.
Regrediram.

Artigo XXII
        Toda a pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social e à realização, pelo esforço nacional, pela cooperação internacional e de acordo com a organização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento da sua personalidade.
Artigo XXIII
        1.Toda a pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego.   
        2. Toda a pessoa, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por igual trabalho.   
        3. Toda a pessoa que trabalhe tem direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência compatível com a dignidade humana, e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social.   
        4. Toda a pessoa tem direito a organizar sindicatos e neles ingressar para proteção de seus interesses.

Artigo XXIV
        Toda a pessoa tem direito a repouso e lazer, inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e férias periódicas remuneradas.
Artigo XXV
        1. Toda a pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência fora de seu controle.   

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Mandela

Só para dizer que é possível acreditar na Humanidade.
"Lutei contra o domínio branco, lutei contra o domínio negro"
Que todas as nações possam ser arco-iris.

Cartas ao diretor - as greves no Metro

Email a um leitor de um jornal, que na seção Cartas ao Diretor criticou a realização de greves no Metro.



Exmo Senhor

Na qualidade de leitor do mesmo jornal e de reformado do Metro, devo dizer em primeiro lugar que discordo, tal como V.Exa, da realização deste tipo de greves.
Se prejudicam os destinatários do serviço, os passageiros, a razão da sua existência, a origem do seu rendimento e a quem devem servir (no sentido de oferecer o serviço de transporte), só posso discordar deste tipo de greves neste momento, por mais que afetem o acionista e apesar de, nos termos do nosso ordenamento jurídico, ser legítimo exercer o direito de greve.
Como técnico, sempre considerei que há um dever deontológico e prioritário de manter os comboios a andar em condições de segurança, conforto e rapidez
Se o acionista está a prejudicar os trabalhadores do Metro (coisa que espero  demonstrar a seguir), estará também a prejudicar quem os trabalhadores do Metro devem servir (degradar um fator de produção afeta o produto final), pelo que não só será legítimo exercer um tipo de greve que não afete particularmente os passageiros, como uma obrigação de cidadania.
Seria assim desejável que as greves de protesto a realizar fossem do tipo de zelo, sem interrupção do serviço, ou com curtas interrupções e sempre fora das horas de ida e regresso do trabalho da maioria dos passageiros, de modo a não os prejudicar nem provocar prejuízos na economia.
Uma forma que talvez acabasse por ganhar a aprovação dos passageiros, sempre com aviso prévio, seria a de curtas suspensões do movimento dos comboios nalgumas estações, para, através da instalação sonora e da distribuição de folhas volantes, se recordarem as condições de segurança a observar pelos passageiros nas suas viagens, e, em frases breves, explicar as razões do protesto e a integração desse protesto no contexto de dificuldades gerais que afetam a população.
Na verdade, a desvalorização do fator trabalho é indesmentível, até porque foi desde sempre confessada pela troika, ao considerar, desde o princípio, que os salários e pensões em Portugal eram exagerados.
Igualmente, por imposição da troika e dos critérios ideológicos do governo, é indesmentível que o objetivo dessas entidades é a redução do Estado social, através da redução das despesas de saúde, educação e assistência social.
Juntando estes factos ao facto de que o trabalho contribuir com cerca de 48% para o PIB e pagar 75% de impostos, enquanto o capital paga os restantes 25% de impostos, e que os dinheiros da segurança social não são do Estado mas de quem desconta ou descontou, parece que há razões incontestáveis para protestos.
Perante a afirmação, já do tipo “cassete”, de que não há dinheiro, existem ainda razões de protesto, uma vez que setores como os sindicatos têm feito propostas para equilíbrio financeiro que têm sido rejeitadas pelo governo, desde a taxação das transações em bolsa, à redução da rentabilidade das PPP, à recuperação dos ativos tóxicos da SLN/BPN, à taxação dos movimentos do multibanco sem repercussão nos utilizadores, à penalização dos empréstimos entre casas-mãe e filiais em países de fiscalidade duvidosa, ao fim do sigilo bancário, à retoma do investimento em infraestruturas e reabilitação urbana através de um programa controlado de aplicação de verbas tipo QREN (agora QE 2014-2020), etc, etc, etc,
Isto mesmo ficou provado recentemente, quando o governo , das 473 medidas propostas pela oposição para correção do OE 2014, apenas “deixou” passar 7.
Estatisticamente, é impossível que tantas medidas propostas não fossem razoavelmente exequíveis.
Penso pois, que concordará comigo que há razões para protestos, e não apenas no campo laboral, mas a nível político  e nacional.
Também me parece que a sua objeção se poderá centrar em:
1 – “empresas como o Metro estão colossalmente endividadas” ;
2 – “os seus trabalhadores têm privilégios como outros trabalhadores públicos ou privados não têm”
3 – “o Estado é obrigado a tratar dessa dívida compelindo os cidadãos de todo o País a pagar  mais impostos”

Permita-me os seguintes comentários, com as mesmas referencias:

 1 – é verdade, o Metro está colossalmente endividado, porque tem nas suas contas o serviço da dívida dos financiamentos necessários para a construção da sua rede, e porque os juros dos empréstimos têm subido (ou, no caso dos “swap”, terem subido as compensações para os bancos por a Euribor ter baixado). Poderá encontrar esclarecimentos no site do metropolitano, nos seus relatórios e contas.
É verdade ainda que se gastou dinheiro em estações luxuosas em detrimento de mais rede funcional, mas não se esqueça que essas foram decisões dos dirigentes e nunca dos trabalhadores do Metro, e que o senhores governantes dos governos de todas as cores que tivemos, gostavam imenso de aparecer nas cerimónias de inauguração dos novos troços. Porém, há um facto indesmentível: a taxa de cobertura das despesas operacionais (pessoal e fornecimentos e serviços exteriores) pelas receitas é das  melhores quando comparada internacionalmente com metros de referência; este simples facto deveria merecer mais consideração quando se fala dos trabalhadores do metro de Lisboa

2 – é também verdade, sendo também certo que esses privilégios, quer ao nível de salários, quer ao nível de pensões, são inferiores aos dos trabalhadores do BdP, da CGD, da TAP, dos assessores dos senhores ministros, etc, etc.
Possivelmente concordará que os níveis de complexidade na construção e na manutenção de metropolitanos e de requisitos de segurança na sua operação exigem pessoal qualificado e que pessoal qualificado tem níveis de remuneração superiores à média.
Infelizmente, nenhuma sociedade encontrou ainda uma forma de redução do leque salarial, quer numa empresa, entre um eletricista e um diretor (que no metro é de 1 para 5), quer entre a  média nacional e a média de uma empresa ( que em Portugal e no Metro é de 1 para 1,7).
São conhecidas as experiencias da revolução cultural no anos sessenta na China, em que se puseram professores, médicos e engenheiros a varrer as ruas, coisa que talvez entusiasmasse os militantes mais aguerridos do MRPP no pós 25 de abril, mas que parece iluminar os desejos da troika e do governo quando diz, como dizia o ministro Álvaro, “Vamos acabar com as regalias”.
Ficou ainda registada a anedota de um dito “revolucionário” que, no pós 25 de abril, em visita à Suécia, declarou que tinham acabado os ricos em Portugal. Ao que o sueco respondeu que na Suécia tinham acabado com os pobres.
Mas analisemos os valores reais dos salários dos trabalhadores do Metro
Um eletricista em meio de carreira tem um vencimento base  mensal de cerca de 1155 euros brutos.  É verdade que recebe vários subsídios, de refeição, de turnos, de assiduidade, de telefone de emergência, o que dá um ordenado mensal de 1906 brutos; notar que os  valores dos subsídios não entram para o cálculo da pensão de reforma. Notar ainda que um erro de ligações de um eletricista de sinalização ferroviária pode provocar um acidente grave.
Um maquinista no nível anterior ao máximo tem um vencimento bruto de 1362 euros. Com os subsídios que também não contam para o cálculo da reforma, atinge 2812. Dirá que os subsídios de quilometragem e de agente único são muito generosos, mas, dada a monotonia e o desgaste da condução, a falta de sistemas automáticos de controle de velocidade que permitam corrigir eventuais falhas de atenção, e a necessidade de exames médicos eliminatórios por razões de segurança, justificarão a responsabilidade exigida. Notar que um erro de condução pode originar um acidente grave.

Deixe-me ainda sobrecarregar o texto com a referencia ao corte que o governo, em claro desrespeito pelo “velhos”, fez relativamente aos complementos de reforma dos reformados do Metro.
A questão é um pouco complexa e tem sido apresentada pelo governo como mais uma regalia a cortar nos privilegiados do Metro.
Eu penso que é uma barbaridade um reformado de 80 anos (38 anos de descontos engenheiro reformado, não é o meu caso) cuja soma da pensão da segurança social mais o complemento de reforma contratado (na contratação coletiva desde 1973) seja de 2000 euros, passar a receber 1000 euros (valores brutos), ou um eletricista reformado (46 anos de descontos) que recebia 1400 passar a receber 700.
Poucos terão sido tão penalizados, em percentagem,  nesta crise que vivemos.
Se tiver paciência, gostaria que visse estas ligações:


Mas os propagandistas do governo continuam a dizer  que a média das pensões em Portugal não chega aos 500 euros.
Ao que eu responderei que, em qualquer processo de nivelamento, deveremos nivelar por cima, e não por baixo. Ordenados mais altos num setor da economia têm o efeito de “puxar” pelos ordenados dos outros setores;  a existência de contratação coletiva induz uniformidade em padrões mínimos. Deveremos crescer, e não empobrecer. Austeridade em economias pequenas como a nossa, não pode contribuir para o crescimento, só para “arrefecer” ainda mais a economia.
O Metro existe para transportar pessoas para o trabalho. Mas se a politica oficial é o estímulo do desemprego (para manter o nível de preços baixo) então a procura de passageiros baixa e a contribuição do Metro será sempre para o agravamento do saldo orçamental.

3 – E aqui entramos na questão: a economia de um país precisa de uma área metropolitana em que, por razões de economia de escala, deve haver concentração de pessoas e de atividades produtivas. Porque é maior o rendimento produtivo com essa concentração. Mas se não há empregos, o Metro é como uma máquina que pode produzir mas que está parada.
Por outras palavras, o Metro justifica-se como atraente de impostos de todo o país se a economia estiver a funcionar, porque as mais valias se repercutirão em todo o país.
Agora se o nível do PIB estiver abaixo da média europeia, como é o caso, lá se vai a justificação, ou, pelo menos, fica reduzida à possibilidade de reduzir o desperdício de gastos de combustível pelo transporte individual.
Porém, se por um bambúrrio da sorte a economia arrancar, o metro será um recurso indispensável porque reduz os custos energéticos de transporte das pessoas para os empregos.

Nota final: sem pretender validar as fundamentações apresentadas nos comunicados  dos sindicatos, mas apenas tentar compreender, ou pelo menos conhecer as razões dos seus protestos, indico as seguintes ligações:

- sobre a inconstitucionalidade de alterações do código trabalho e contratação coletiva em  outubro de 2013:

- sobre manifestações de 16 a 20 de Dezembro, contra a precariedade, contra o congelamento da contratação coletiva, contra privatizações, por politica fiscal de redução de impostos sobre o trabalho relativamente aos do capital, pela proteção social:


Enfim, reafirmando a minha discordância relativamente ao tipo de greves escolhido, tenho de reconhecer que são válidos os seus objetivos, embora não seja este o melhor caminho para os atingir.

Apresento os meus melhores cumprimentos

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Ainda o acidente do suburbano Metro-North, a comunicação do NTSB

Pode ver-se no seu site o respeito  do NTSB (gabinete de investigação de acidentes dos USA) pelos cidadãos, através de  mais uma conferencia de imprensa para dar conta do avanço das investigações.
Desejar-se-ia que o nosso GISAF procedesse de igual modo, mas é dificil mudar  a cultura de secretismo e de superioridade fechada que bloqueia o progresso.
https://twitter.com/NTSB

No seguimento destas informações e do post
http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2013/12/acidente-na-linha-suburbana-metro-north.html

deixo aqui registado que o tempo de condução dos  maquinistas do Metro-North é de 9 horas e a semana de trabalho de 5 dias. A tripulação do comboio tinha mais 3 agentes mas não é sua função ajudarem à condução. Nestas condições, o NTSB insiste que há 20 anos propõe a instalação de controle automático de velocidade. Na realidade, 9 horas de trabalho diário sem proteção automática é indigno de uma exploração ferroviária do século XXI. Seria interessante saber quis as restantes condições laborais e remuneratórias.
De assinalar que o NTSB agregou uma organização de trabalhadores à investigação.

PS em 9 de dezembro - Esclareço anterior informação: confirmando que a locomotiva se encontrava na cauda da composição, "empurrando-a", esclareço que o maquinista encontrava-se porém numa cabina de condução na primeira carruagem, de onde telecomandava a locomotiva, numa montagem vulgar nos USA. Penso que é uma solução a evitar e que facilitou o acidente, sendo preferível distribuir a tração ao longo da composição, embora com diminuiçao do rendimento energético. Igualmente se veio a saber que na cabina de condução por telecomando não existe o avisador de velocidade maior que 120 km/h que se encontra na locomotiva, que o  MTA determinou um segundo maquinista na cabina de condução nas linhas em que existem variações de limite de velocidade superiores a 32 km/h, e que, incompreensivelment6e para mim, acha que os sistemas automáticos de controle de velocidade não estão testados "em linhas da sua dimensão". Parece-me uma afirmação de uma gravidade extrema e comprometedora para quem a faz. 
PS em 9 de janeiro de 2017 - relatório final do NTSB:
https://www.ntsb.gov/investigations/AccidentReports/Reports/RAB1412.pdf

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Continuam os resultados desastrosos no PISA

http://fcsseratostenes.blogspot.pt/2010/12/pisa-programme-for-international.html

Há 3 anos atrás, este blogue teve oportunidade de criticar o excesso de otimismo dos senhores governantes de então, relativamente aos resultados dos testes do PISA de 2009, e as medidas desastrosas e a falta de compreensão da importancia da condição socioeconómica dos pais ou encarregados das crianças no insucesso escolar.
Agora, mais uma vez assistimos a resultados muito maus dos nossos alunos de 15 anos, entregando-se os responsáveis portugueses a descobrir pormenores positivos (é desculpa que se apresente, em 2012 haver mais crianças do 7º ano ou do ensino profissional a responder do que em 2009?! então se muitas crianças têm 15 anos e estão no 7º ano isso não significa que o sistema educacional foi destruído? e queriam que os resultados do PISA não traduzissem isso? ou também sofrem de graves dificuldades de interpretação matemática e literária?).
Há pequenos e poucos aspetos positivos, mas o mais grave é que continuam a não compreender que o fator principal do insucesso escolar é a incapacidade educacional e financeira dos pais e encarregados de educação (quando os há).
E um país assim não poderá, por falta de qualificação dos agentes económicos e fatores de produção, progredir.
Infelizmente não compreendia isto a senhora ex-ministra Lurdes Rodrigues, a das avaliações e do "perdi os professores mas ganhei o povo" (nada disso, desmerecer em profissionais é desmerecer na profissão e na sua eficácia), nem, muito menos, os atuais responsáveis, de que destaco a infeliz promessa do secretário de Estado do ensino básico e secundário, que para 2015 os resultados serão muito melhores porque, entre outras ideias do senhor ministro Crato, há provas de acesso para os professores contratados!

Em resumo, como se pode ver pelos gráficos dos resultados, abaixo da média dos países da OCDE, esta é uma verdadeira tragédia, até porque aumenta o fosso entre as crianças cuja situação socioeconómica as leva ao insucesso e aquelas que têm possibilidade de adquirir qualificações que serão depois devidamente aproveitadas em países estrangeiros.

Peço desculpa, mas a situação financeira em que o país se encontra não tem nada que ver com a incompetencia de quem toma decisões e ignora as causas das coisas.

As deficiencias de aprendizagem em matemática, as dificuldades de interpretação do português escrito e as agora também importantes dificuldades de compreensão das ciências físicas e naturais são partilhadas pela maioria dos alunos de 15 anos e pela maioria dos atuais governantes, e isso é uma tragédia para o país, maior do que o seu endividamento contínuo.




                                                       com a devida vénia ao DN



terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Índice de perceção da corrupção pelos cidadãos

Luis de Sousa e Paulo Morais, da secção portuguesa de Transparencia Internacional, lamentaram a queda da posição de Portugal na classificação internacional da perceção que os cidadãos têm da corrupção no seu país.
Trata-se de um indicador com alguma subjetividade mas, dada a natureza das sondagens de opinião, tem interesse e alguma correspondencia com a realidade.
Portugal caiu do 25º lugar em 2003 para o 33º em 2012 (melhores classificados, menor perceção de corrupção - casos da Dinamarca, Nova Zelandia, Finlandia).
Sugerem melhoria do funcionamento da Justiça e recuperação dos ativos pelo Estado.
Porém, são os próprios orgãos eleitos que se opõem a que os ativos positivos sejam retirados dos  beneficiários indevidos e entregues ao Estado, e que, pelo contrário, convertem a dívida privada dos bancos em divida pública através dos empréstimos contraídos pelo Estado para recapitalizar os bancos e transferem os chamados ativos tóxicos da esfera privada para a esfera pública (como já referido por muitos economistas, um dos problemas graves de Portugal é a sua descapitalização; as verbas previstas no memorando da troika para capitalização dos bancos não foram totalmente utilizadas, mas isso não quer dizer que não devessem ter sido, considerando que as empreas portuguesas têm pouco capital nos seus ativos).  Este problema é grave, e a sua gravidade atinge extremos quando se pensa que o atual governo está air buscar à segurança social, através da redução de pensões, capital que não é uma receita pública, mas sim descontos previdenciais.
Por outro lado, a Justiça portuguesa não dispõe de orgãos de controle mútuo a nível transversal, em estruturas semelhantes aos orgãos de controle de qualidade nas empresas, que permitam correções automáticas de procedimentos, sendo essas correções seguidas pelas universidades (estou tambem a propor o fim de muitos sigilos). Dou um exemplo: a tendencia dos juristas portugueses é deterem-se nos problemas específicos dos formalismos das normas e da satisfação dos quesitos da acusação e da defesa relativamente a esses formalismos, sabendo-se que os formalismos são abstrações que pretendem simular a realidade mas que a deformam ; um orgão lateral de controle poderia substituir essa preocupação atribuindo a prioridade
ao conteúdo relativamente à forma, mesmo correndo o risco de cometer erros (sempre corrigiveis em recurso), o que obrigaria ao recurso a técnicos multidisciplinares das áreas concretas envolvidas (técnicos validados pelas associações profissionais, vulgo ordens, e pelas universidades). Na prática, a Justiça portuguesa perde-se na complexidade das técnicas jurídicas para abordagem de um caso, sendo que o próprio caso já é suficientemente complexo em si e nas relações que tem com o poder politico.  No caso, por exemplo, dos submarinos, será relativamente fácil, sendo divulgados os registos de pagamentos dos consultores e da forma como foram contratados compará-los, os pagamentos e a forma de contratação, com os valores e as formas corretas praticadas pelos técnicos a que a Justiça deveria recorrer (universidades e ordens).
Nos casos como o BPN, é fácil a técnicos independentes demonstrar que na criação dos "bad banks" ou sociedades como a Parvalorem de "depósito" dos ativos tóxicos foi violada uma regra básica nestes mecanismos, que é a de que o "bad bank" tem os prejuízos, mas é o detentor da propriedade dos ativos positivos (o que como se sabe, não aconteceu, ficando estes na posse da sociedade que sucedeu
à SLN ou, no caso do banco, tendo sido vendida a parte lucrativa). Através de todos os  meios de comunicação social, competiria a esses técnicos divulgar os seus pareceres sempre que o poder politico se sobrepusesse, como foi o caso, tanto do governo anterior como do atual, à solução técnica proposta pelos técnicos.
É muito curioso verificar que, no campo dos investimentos públicso e das PPP realizadas em Portugal, a fundação Francisco Manuel dos Santos tenha publicado dois livrinhos com visões claras sobre a maneira de sair dos imbroglios e evitá-los no futuro.
Mais uma vez, o índice de perceção de corrupção só melhorará se a sociedade civil, através dos técnicos organizados em equipas multi-disciplinares, fundamentarem junto de estruturas paralelas de controle na Justiça propostas que sobreponham a realidade de análises técnicas aos formalismos jurídicos.
Salvo melhor opinião, claro.
Será interessante ainda, através da comunicação social, valorizar todas as atitudes tomadas por politicos estrangeiros que visem o aumento da transparencia no exercicio de cargos públicos.
Nesse sentido, deveria divulgar-se melhor a renuncia do presidente alemão por ter beneficiado de um empréstimo em condições favoráveis.
O mesmo para o presidente da Estonia que se demitiu por se sentir o responsável moral máximo pelo acidente que  matou concidadãos seus quando a cobertura de um supermercado abateu por excesso de peso. A direção da superficie comercial tinha decidido fazer na cobertura um jardim. O peso da camada de solo fértil distribuido por toda a área talvez fosse suportável (no entanto a sobrecarga da neve ou de água com escoamento entupido seria provavelmente incompativel com a resistencia da cberura e apoios). Mas no inicio da obra despejou-se o solo num monte que fez abater, em cadeia, os pilares de suporte. Talvez o presidente se tenha demitido por não ter conseguido no seu mandato ter mudado a mentalidade oportunista dos seus concidãos. Mentalidade oportunista que segue cegamente ideias inovadoras que permitam vender mais e criar uma imagem mais atrativa ara os clientes. Como um jardim artifical na cobertura frágil de um supermercado. Talvez o presidente tenha alguma formação técnica e tenha querido significar aos seus concidadãos que as coisas devem ser feitas com um plano e um projeto. E que se uma coisa foi feita sem que o seu projeto incluisse um jardim suspenso, essa coisa nunca deverá levá-lo, a menos que se faça um novo projeto e uma nova obra (pilares e lajes novas, por exemplo), por mais que, em condições normais e em valores médios, a sobrecarga pareça suportável pelo projeto inicial. Enxertar uma nova funcioinalidae numprojeto antigo é sempre muito perigoso (o acidente do comboio de alta velocidade em Espanha é um exemplo deste tipode enxerto").



3 de dezembro, dia internacional das pessoas com deficiencia


       DEFICIENTE É AONDE NEM TODOS PODEM IR, PORQUE TODOS DIFERENTES, TODOS IGUAIS                                                                                     foto Alvaro Isidoro/Global Imagens no DN



http://www.apd.org.pt/

Este blogue saúda o protesto da APD, Associação portuguesa de deficientes junto da assembleia da Republica, a propósito do orçamento de Estado.
Como antigo funcionário do metropolitano de Lisboa, lamento não ter conseguido vencer a resistencia de sucessivos conselhos de administração que se opuseram de forma mais ou menos velada ao investimento na superação das barreiras arquitetónicas, com   o argumento "caridoso" de que as pessoas com deficiencia corriam maiores riscos em caso de acidente.
Falhei tambem na minha luta contra as burocracias e descoordenações internas que impediram a conclusão dos projetos de alteração das estações, o simples lançamento de concursos para esse efeito ou a submissão de candidaturas a fundos QREN (o que permitiria contestar a velha cassete de que "não há dinheiro").
A interrupção das obras de adaptação das estações Colegio Militar e Baixa para garantir a acessibilidade e instalações sanitárias para pessoas com deficiencia é o melhor exemplo da falta de financiamento através de fundos europeus.
Penso por isso que, em situação de emergencia, deveriam ser reelaborados os projetos das principais estações que ainda  não dispõem de elevadores ou outros meios de acesso à superficie, as de correspondencia, Campo Grande, Entrecampos, Jardim Zoológico , Colégio Militar, Baixa-Chiado, elaborado o projeto de um sistema de informação aos interessados sobre o estado de funcionamento dos meios de acesso e submissão das respetivas candidaturas a fundos QREN (agora Quadro Europeu 2014-2020).
Fazer isso é o mínimo se lermos a carta compromisso com o cliente afixada em todas estações e no portal na net do metro : "... está a ser desenvolvido um programa gradual de implementação de acessibilidades nas estações ainda não preparadas para o efeito"

Citação do papa Francisco e o livro Escravos e traficantes no império português

1 - citação do papa Francisco: "Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento de um idoso sem abrigo não seja uma notícia como a descida de dois pontos da bolsa".
2 - "Escravos e traficantes no império portugues" de Manuel Caldeira, ed.Esfera dos Livros

Relaciono estes dois temas porque, graças à Antena 2, tive notícia da edição desse livro extraordinário, e por estranhar que a Igreja católica, parece-me, esboça a condenação dos princípios basilares do sistema capitalista que nos governa.
O livro é extraordinário por revelar aquilo que o ensino oficial esconde: que Portugal foi o principal país traficante de escravos.
Dum total de 12,5 milhões de escravos traficados de 1500 a 1866, 5,8 foram-no em navios de bandeira portuguesa ou brasileira.
Seguem-se a Inglaterra (3,3milhões), a França (1,4), a Espanha (1,1) e a Holanda (0,5).
Que o fez oficialmente, com inicio na casa de Lancaster/Infante D.Henrique e depois com a concessão a privados da exploração do comércio de escravos.
E que a escravatura só foi abolida em 1878.

A associação de ideias que faço é que no século XVI a escravatura era aceite moralmente, tal como os princípios basilares do capitalismo o são agora.
Há registo de muito poucas vozes condenando a instituição escravatura (na verdade, um fator de produção essencial à economia da altura, dada a incipiência da mecanização, pondo-se a hipótese de que a abolição da escravatura nessa altura estimularia o desenvolvimento técnico).
Mas havia quem fosse contra, como frei Fernando de Oliveira, 1507-1582, que passou uns tempos nas cadeias da Inquisição depois de escrever o seguinte: "...a razão humana não consente...comprar e vender homens livres e pacíficos, como quem compra e vende alimárias...os que vão buscar esta gente não pretendem a sua salvação...se lhes tirarem o interesse não irão lá".
O negócio dos traficantes seguiu as leis da economia, foi "regulado" em 1684 por ordem do rei D.Pedro II, fixando as normas minimas de transporte dos negros cativos no "Regimento sobre o despacho dos negros cativos de Angola e mais conquistas e sobre a arqueação (tonelagem) dos navios" , uma atividade perfeitamente "irregulável", tal como as atividades bancárias e financeiras da atualidade.
E foram constituidas sociedades por ações. Em França, um dos principais acionistas era Voltaire, o filósofo da liberdade.
Em Portugal o negócio atingiu o cume já no século XIX, com barcos de vapor (e contudo, a abolição da escravatura serviu tambem para o desenvolvimento industrial), quando os outros países declinavam o negócio.
O célebre conde de Ferreira, filantropo responsável por escolas e hospitais, era traficante, assim como os fundadores do banco Fonseca e Irmão (mais tarde Fonsecas e Burnay).
O palacete onde está o grémio literário, em frente do edificio abandonado do metropolitano para acesso por elevadores à estação Baixa-Chiado, na rua Ivens, foi mandado construir pelo traficante Angelo Carneiro Lisboa, conde de Loures. Os títulos nobiliárquicos revelam a promiscuidade entre o poder politico e o poder económico. Tal como nos tempos que correm.

Enfim, como diria Mr Spock, um livro fascinante.
Será que o papa Francisco está a fazer o mesmo que fez frei Fernando de Oliveira há 500 anos?
E que daqui a 500 anos não haverá escravatura, sob a forma da atualidade, de submissão de seres humanos a formas de trabalho forçado ou de remuneração incompatível com um nível de vida minimo?
Apesar de ainda haver quem se escandalize quando se fala em ordenado mínimo, como as mentes bem pensantes do século XVI se escandalizavam se pusessem em causa a licitude de comprar escravos nos mercados de escravos de África para os vender nas Américas.




segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Acidente na linha suburbana Metro-North, em Spuyten Duyvil, Bronx, em 1 de dezembro de 2013


A amarelo percurso previsto. A locomotiva estava na cauda da composição. Todos os veículos descarrilaram.
 AP Photo/Mark Lennihan


Enquanto se aguardam os esclarecimentos que o NTSB (National Transportation Safety Board) prestará depois de ler a “caixa negra” e durante a investigação que está a fazer sobre o descarrilamento em Spuyten Duyvil (Bronx), registo os seguintes comentários:

1 – a composição de 7 carruagens de 2 tipos estava a ser empurrada (e não puxada) por uma locomotiva diesel quando descarrilou numa curva de raio inferior a 300m numa zona de limitação de velocidade de 48 km/h imediatamente a seguir a uma reta com limitação de 110 km/h
2 – pelas fotos, o estado da via parece bom, mas encontra-se junto de uma encosta arborizada, o que tem os riscos de queda de obstáculos que podem causar descarrilamentos ou de folhagem cuja decomposição pode causar deslizamento na travagem (patinagem) se as carruagens não estiverem equipadas com areeiros ou travagem por eletroimans (o comboio que descarrilou era o primeiro naquela  manhã, penso que sem inspeção prévia da via)
3 – há 7 meses descarrilou um comboio de mercadorias perto do mesmo local, também junto d euma encosta
4 - não existe sistema de controle automático de velocidade, pelo que a segurança depende apenas do maquinista, que neste caso estava na cauda da composição (ignoro se havia um tripulante  na primeira carruagem a transmitir informação ao maquinista ou se ele vigiava a via por televisão)
5 – de assinalar, pela negativa, a ausencia na via de carril de segurança ou de contra-carril, que são  medidas contra descarrilamentos em curva
6 - é imprudente fazer uma exploração com a locomotiva na cauda da composição, sendo de risco uma travagem em curva (maior inércia da locomotiva, eventuais graus diferentes de travagem das carruagens ou riscos de gripagem de rodas com o carril e galgamento, de engates ou de pivôs de bogies destas); nestas condições, o limite de velocidade deveria ser muito mais baixo
7 – o operador público de Nova York, responsável pela operação da linha, prevê a instalação de um sistema de controle automático de velocidade em 2015
8 – a despesa pública com as infraestruturas ferroviárias de ligação de zonas suburbanas à zona central geradora de empregos de Nova York é necessária porque a deslocação das pessoas em transporte privado constitui desperdício energético e saturação das vias de comunicação (curiosa a resposta de uma passageira dos transportes alternativos quando a entrevistadora lhe perguntou se tinha avisado o seu chefe de que ia chegar mais tarde: que não era preciso porque le também apanhava o mesmo comboio)

Transcrevo uma das notícias sobre o caso:

“Think-tanks such as the World Pensions Council (WPC) have argued that years of neglect and deliberate underinvestment in public transportation infrastructure in the United States and Canada could eventually lead to an increase in technical failures and derailments- notably in urban areas- if states and municipal authorities don’t allocate the required resources needed to maintain and renovate existing public transportation assets”

PS em 3 de dezembro - Foi noticiado que a velocidade atingida antes do descarrilamento era de 130 km/h e que os travões foram aplicados 5 segundos antes do descarrilamento (travar numa curva, com a agravante da composição ser empurrada e não puxada, potencia o descarrilamento).A limitação de velocidade na curva é de 48 km/h mas não existe controle automático de velocidade. Isto é, uma desatenção do maquinista pode de facto provocar esta tragédia, por ausencia de automatismo de proteção 

A anedota do coelho gestor

Há uns anos, quando os macroeconomistas começaram a ganhar visibilidade na comunicação social, circulou a anedota do coelho gestor.
A comunidade dos coelhos andava muito preocupada com os ataques dos galgos. Não podiam pôr a cabeça fora das tocas que os cães vinham logo a correr.
Então resolveram pedir conselho a um macroeconomista destacado.
Este explicou que a melhor solução seria, de cada vez que a  comunidade precisasse de sair, escolher um coelho para ser o primeiro a sair, ser apanhado pelos galgos e assim, distraidos os cães, poderem sair sem que os vissem.
A assembleia, apesar de maravilhada com tamanha sabedoria, justificada pelos tempos de crise que se viviam e pelo perigo dos galgos que o governo anterior tinha deixado crescer, encontrou no entanto coragem para perguntar como se escolheria o coelho a sacrificar.
Ao que o macroeconomista respondeu: "Isso decidem vocês, eu sou apenas um coelho gestor".
Lembrei-me desta anedota ao ler a entrevista da senhora macroeconomista presidente do conselho de finanças públicas.
Perguntada que setores da economia, numa perspetiva do pós-troika deveriam ser especialmente cuidados, respondeu: "Já se percebeu há muito tempo que isso não é papel para os macroeconomistas. Temos é de criar condições favoráveis ao investimento e depois os investidores que escolham quais são os setores".
Poderá perguntar-se que têm andado os macroeconomistas a fazer que essas tais condições não há meio de de se criarem, mas o defeito deve ser meu, por achar que estas coisas se discutem em grupos de debate e que os temas devem ser lançados por profissionais das respetivas áreas.
Nós portugueses temos o mau hábito de achar  que podemos ter opinião sobre tudo e ao mesmo tempo que não podemos pronunciar-nos sobre as especialidades dos outros, e de tratar assuntos trágicos com anedotas como a do coelho gestor.
Há procedimentos para debater os assuntos da coisa pública, mas não são apreciados (insisto nos métodos descritos na "Sabedoria das multidões" de James Surowiecki).
E os  macroeconomistas não saberem (dirão que não querem, que não é o seu papel) que setores da economia devam ser tratados é uma tragédia.
É que a ideia que dão é que não sabem mesmo como as coisas funcionam. E, evidentemente, têm dificuldade em aceitar a quantificação dos benefícios de um investimento, especialmente se for de infraestruturas ou de bens de produção.
Entretanto, os profissionais formados para o desenvolvimento industrial e das infraestruturas, vulgo engenheiros, são desaproveitados ou mantidos em funções burocráticas (ou nos setores não transacionáveis).
Os seus grupos e associações profissionais saberão, desde as energias renováveis e descarbonização para redução da dependencia energética, até à produção agroalimentar para redução da dependencia alimentar e até à maximização do aproveitamento dos recursos naturais e à redução do desperdício.
Não existe um engenheiro no conselho de Estado, e ao nivel de ministros, apenas o ministro da Energia e ambiente tem essa formação (para alem de alguns secretários de Estado especializados, claro).
A incompreensão de como as coisas funcionam por parte dos gestores leva-os a não compreenderem o papel da engenharia nos setores económicos a tratar.
Será uma maneira de fazer cortes, dificultando a retoma, mas satisfazendo os ímpetos macroeconómicos.
É de facto uma tragédia, porque o progresso e a ciência, associados ao método científico e ao referendo permanente, não evoluem como a economia do pensamento dominante, subordinada a grupos de interesse, nem como os seus propagandistas.
PS em 2 de dezembro - outro mau hábito dos portugueses é a generalização ou escrever de forma que facilite a generalização indevida. Que foi o que fiz, sem querer ofender os macroeconomistas preocupados com a coisa pública e que perguntam a quem sabe como as coisas funcionam, para que servem e porque puderam as forças de mercado ou as conveniencias políticas endividar tanto ou contraindicar o investimento do que é útil e tem benefícios.  

domingo, 1 de dezembro de 2013

O Dinheiro Vivo em 30 de Novembro: 1 – a evasão fiscal e a internet; 2 – quem quer empregos públicos; 3 – o livro do desassossego





                                                         

                                                              1

Devo agradecer ao DN e ao Dinheiro Vivo o excelente artigo de Paulo Querido na edição de 30 de Novembro, esperando que este meu aplauso não seja prejudicial ao autor, que teve a coragem de escrever algumas verdades incómodas a propósito da evasão fiscal via internet, numa altura em que o pobre governo confessa a sua incapacidade de legislar sobre o jogo online (depois de vários grupos de estudo proporem o que tinham a propor).
Por exemplo:
- entre 2009 e 2012 a Apple não pagou impostos sobre receitas internacionais de 54  mil milhões de euros
- o Facebook paga os impostos das operações internacionais na generosa Irlanda
- os USA têm um problema de receitas de impostos, não de despesa pública (onde já se viu este filme?)
- citando o economista Luís Bento: “é urgente refundar o sistema de financiamento dos estados modernos, pois a manutenção de uma estrutura de financiamento centrada em impostos e taxas sobre os rendimentos e o património está esgotada”; “os estados constituíram ao longo dos tempos largos setores empresariais que reprivatizaram, transferindo assim para o setor privado industrias chave, perdendo uma fonte extraordinária de receitas” “como o presidente da Google propôs, a quantidade de impostos e taxas devia ser reduzida e simplificada para que as empresas pudessem pagar mais imposto com menor custo”
- a ideia anterior devia ser aplicada à redução da economia paralela (26% em Portugal segundo o Obegef, mas eu penso que é maior), sem perseguições e imposições violentas.

                                                             2

Mas a edição do dia 30 de Novembro tem duas coisas que muito me desagradaram:

-  uma , a habitual provocaçãosinha do senhor professor da universidade de Columbia, para ver se as pessoas se irritam: “estudos mostram que  os jovens mais batoteiros são os que mais desejam concorrer a um emprego na função pública”. Os ditos estudos são experiencias com grupos; cada participante ficava fechado num compartimento a fazer 42 lançamentos de dados e a anotar o número que saía; receberia um pagamento igual ao somatório dos pontos anotados; a conclusão foi que os jovens mais batoteiros eram os que  queriam muito um emprego público. Na verdade, não contesto o rigor da experiencia nem a conclusão, especialmente se pensarmos nos cargos políticos como função pública. Porém, trata-se também de um insulto para quem faz ou fez uma vida profissional subordinada ao conceito de servidor público. Assim como os batoteiros querem um emprego na função pública , também houve e há muitos que não são nem foram batoteiros e também querem ou quiseram um emprego público. Pena não ter sido feita a ressalva, por uma questão de elegância de quem escreve.
  
                                                             3

- a outra, por parte do próprio diretor do dinheiro vivo, que terá como atenuante a qualidade da informação da publicação que dirige; mas que fez uma interpretação de Fernando Pessoa (mais precisamente de Bernardo Soares no seu livro do desassossego) que me parece equivocada. 
A propósito do aparecimento de muitos pequenos empresários (claro que numa época de crise o estímulo é maior) que aplaude, diz:
“Já não somos o Portugal dos mangas de alpaca, embora ainda hoje os haja, como também ainda subsiste aquela espécie diabólica que justifica o seu estado de torpor permanente e inação congénita apontando para as costas do patrão Vasques, personagem de Fernando Pessoa”.

 E cita a passagem do livro do desassossego, texto 91:
” Lembro-me já do patrão Vasques no futuro com a saudade que sei que hei de ter então. Estarei sossegado numa casa pequena nos arredores de qualquer coisa, fruindo um sossego onde não farei a obra que não faço agora, e buscarei, para a continuar a não a ter feito, desculpas diversas daquelas em que hoje me esquivo a mim”.
Não me parece que a interpretação esteja certa. Fernando Pessoa não estava a desmerecer no manga de alpaca que era o patrão Vasques, antes se lhe refere de todas as vezes com consideração e respeito por quem trabalha. Que não é uma espécie diabólica.

Veja-se a continuação do texto 91 do livro do desassossego:
“…Ou estarei internado num asilo de mendicidade, feliz da derrota inteira, misturado com a ralé dos que se julgaram génios e não foram mais do que mendigos com sonhos, junto com a massa anónima dos que não tiveram poder para vencer nem renuncia larga para vencer do avesso. Seja  onde estiver, recordarei com saudade o patrão Vasques, o escritório da rua dos Douradores, e a monotonia da vida quotidiana será para mim como a recordação dos amores que me não foram advindos, ou dos triunfos que não haveriam de ser meus”.

- excertos do texto 81: “…o patrão Vasques, o guarda livros Moreira, o caixa Borges, os bons rapazes todos, o garoto alegre queleva as cartas ao correio, o moço de todos os fretes, o gato meigo – tudo isso se tornou parte da minha vida; não poderia deixar tudo isso sem chorar…” “ Tenho amor a isto, talvez porque não tenha mais nada que amar – ou talvez, também, porque nada valha o amor de uma alma, e se temos por sentimento que o dar, tanto dá dá-lo ao pequeno aspeto do meu tinteiro como à grande indiferença das estrelas”.

- excerto  do texto 113: “…fui pagar a Cascais uma contribuição do patrão Vasques, de uma casa que tem no Estoril. Gozei o prazer de ir, uma hora para lá, uma hora para cá, vendo os aspetos sempre vários do grande rio e da sua foz atlântica..o comboio abranda, é o Cais do Sodré. Cheguei a Lisboa, mas não a uma conclusão.”

- excertos do texto 114: “…tive grandes ambições e sonhos dilatados – mas esses também os teve o moço de fretes ou a costureira, porque sonhos tem toda a gente: o que nos diferença é a força de conseguir ou o destino de se conseguir connosco…””…bem sei que há ilhas ao sul e grandes paixões cosmopolitas…”

Poderemos dizer que Fernando Pessoa, aliás era ele que o dizia, atravessava um período de depressão quando escreveu isto, mas daí a considerar os “mangas de alpaca”, cuja pele vestia, como uma espécie incapaz e diabólica, parece-me desajustado e fora do contexto cronológico. 
A menos que se dê mais importância à descrença em si próprio ou a consciência de que se atingiu o limite que Bernardo Soares descreve, do que à lucidez da interpretação da dualidade da realidade  por Fernando Pessoa.
                                                CONCLUSÃO

Torpor permanente? 
O diretor do dinheiro vivo não terá interpretado bem a definição de incompletude dos desígnios que é uma das ideias força de Fernando Pessoa. 
E que qualquer simples mortal experimenta sempre que anseia por mais do que o que pode. 
E em que todo um povo pode cair (ou pelo menos uma parte dolorosamente significativa), sofrendo a acusação de viver acima das possibilidades, quando na verdade por múltiplas e complexas razões vive muito abaixo das suas capacidades.

Veja-se este excerto do texto 36 do livro do desassossego:
“…que os deuses todos me conservem o instinto da minha inimportancia, o conforto de ser pequeno e de poder pensar em ser feliz”.
e este, de um dos poemas em língua inglesa (II) de Fernando Pessoa, “ever the sea”:
“…Tomorrow will tire us of all! But we lack heart to be tired indeed
The purpose our souls came for is lost and never stared at...
Let us at least by the shore construe our aches for a deed
Into a meaningless ache and a desolate and purposeless greed...
Become we one with the sea's lost purpose and dream and wish nothing but that …”     

(“… amanhã cansar-nos-emos de tudo! mas falta-nos a coragem para ficarmos 
                                                                                  verdadeiramente cansados
o propósito que nos guiou até aqui perdeu-se e nunca mais o veremos…
deixem-nos ao menos à beira mar transformar a  angustia de querer agir
numa dor sem sentido e numa ansia desolada e sem objetivo…
Tornemo-nos no desejo perdido do mar e não sonhemos nem desejemos mais nada  
                                                                                                             senão isso…”)