sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Como se fosse a A Liga de Delos em Bruxelas


Como se fosse um episódio da Liga de Delos, vejo o senhor primeiro ministro partir para Bruxelas para discutir o orçamento da UE para 2014-2020.
Porque  a Liga de Delos foi a confederação marítima dominada por Atenas que através do comércio por mar e basendo-se no principal fator de produção, a escravatura, permitiu, no século V AC o desenvolvimento do pensamento grego.
Delos é uma pequena ilha perto de Mykonos, que ainda mostra os vestígios de centro da confederação.
A confederação resistiu aos ataques do império persa, mas sucumbiu ao predomínio de Atenas, que resolveu transferir o tesouro e a sede da tomada de decisões de Delos para Atenas. Seguiu-se a guerra do Peloponeso.
Mas eram outros tempos.
Nos tempos que correm, discutem-se cortes.
A mesma ideologia que permitiu a desregulação absoluta da especulação financeira é a mesma que decide agora os cortes, a fúria privatizadora e a minimização das funções sociais do Estado.
Eu diria que, já que não podemos abandonar a zona euro por estarmos amarrados pelos juros da divida, poderíamos ao menos levantar algumas das diretivas europeias que nos desequilibram a economia. Para tornar possível as proteções alfandegárias, a injeção de dinheiro em empresas púbicas, o condicionamento do fluxo de pagamentos da divida aos resultados das exportações e, especialmente, a subsidiação por fundos comunitários da produção de energia elétrica por fontes renováveis. Acresce a comparticipação a 85% nos investimentos das grandes infraestruturas ferroviárias, marítimas e aeroportuárias, no quadro de financiamento seguinte ao QREN.
A cigarra entoou a cantiga dos cortes e da  minimização do estado, cortou contratos já assinados e parou as obras publicas. O multiplicador de Keynes não demorou a reagir e a procura baixou, o desemprego aumentou e as firmas de construção civil pararam (com tanto trabalho que há para fazer na reabilitação urbana…). Mas a cigarra cantou alegremente, o que não puder fazer-se agora com o QREN porque mandámos parar tudo, fica para depois, para o programa de 2014 a 2020.
As formiguinhas que já tinham os projetos prontos e a andar nas obras paralisadas ficaram muito tristes e agora estão a ver que as verbas do novo quadro de financiamento vão ficar curtinhas. Será que a história real não vai acabar como a fábula? Será que a cigarra vai continuar a entoar os seus cantos modulados de enfeitiçamento da solução única de empobrecimento das formigas?
Ouviu este blogue dizer que o concurso para a via férrea mercadorias/passageiros em travessa bi-bitola de Évora para o Caia está quase pronto. Será verdade? Qual é o planeamento para esse troço e para a ligação completa Sines-Caia? E do lado de Espanha, qual é o planeamento?
Se vozes de burro chegassem ao céu, eu diria que em dois temas em que os senhores políticos não têm muitos conhecimentos, a exigência de fundos estruturais em troca dos sacrifícios do país será essencial: na energia e nos transportes.
O problema é que são precisos os projetos completos e isso é coisa que não se sabe fazer nos ministérios, com a agravante de também não estarem habilitados a avaliar as propostas que possam ir surgindo. Daí a vantagem de debates abertos, mas o secretismo impera e a reserva da tomada de decisões pelos senhores governantes também.
Assim é difícil.
Mantenho a sugestão anterior de centrais solares de concentradores e sais térmicos (claro que o kWh fica mais caro do que nas centrais de gás e de carvão, mas temos de conter o CO2) e de fazer avançar o corredor transeuropeu da rede ferroviária de alta velocidade para passageiros e mercadorias (ligação Lisboa-França, 3ª prioridade da rede europeia).
Duvido que estejam no reportório da cigarra bem cantante.
Mas como sou teimoso, sobre as privatizações e concessões de sistemas de transporte, gostaria de recordar que a diretiva 1370/2007/EC que define a regulação e a abertura à concorrência por contratualização do serviço público de transportes até 2019 prevê exceções em que o operador pode ser publico (ver as diretivas 2004/17 e 18).
Trata-se de um assunto técnico, não politico, para ser avaliado por técnicos com conhecimento do negócio, não políticos.
Como, por exemplo, aconteceu em França, com a refusão da SNCF (a correspondente à CP) com a RFF (a correspondente à REFER) depois de anos de forma de organização “kafkiana”, como disse o ministro dos transportes francês, ao gosto dos burocratas da UE (naturalmente para facilitar a privatização posterior, apesar dos 32 mil milhões de euros de divida; nenhuma empresa de transportes do mundo tem capacidade para recuperar a totalidade dos investimentos nas infraestruturas pesadas).
Seria bom que os adeptos incondicionais da ideologia das privatizações recordassem a frase de Thatcher, que não queria que os transportes fossem o seu Waterloo.
E que não é por a gestão publica ser melhor do que a privada, é porque há questões técnicas e de segurança que são independentes dessa dualidade, e porque as regras da concorrência podem ser perversas e distorcer o fundamento dessas questões (acidentes podem acontecer quando não se poupa na manutenção ou na formação, mas a probabilidade é maior quando se poupa; a experiencia ensina que dificilmente uma maior eficiência na gestão privada compensa essa poupança mais o diferencial entre as indemnizações compensatórias, previstas na diretiva 1370, da gestão publica e privada).


quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Taxas de juro


O senhor Trichet voltou a ser noticia.
Com o ar sábio que sempre o caraterizou, avisou que a manutenção das taxas de hro em níveis baixos pode ter consequências negativas a médio prazo.

Deve ser mais um exemplo de que vivemos em pleno surrealismo.
Durante anos o senhor Trichet, como presidente do BCE, manteve as taxas de juro baixas.

Taxas de juro são a medida do preço de aquisição do dinheiro e são consequentemente baixas quando o bem a que correspondem, o dinheiro,  existe em grande oferta. Isto é, a união europeia emitiu moeda em boa quantidade mas não está interessada em emitir mais moeda, porque isso traria pressões inflacionistas (quando a inflação aumenta aumenta-se a taxa de juro).
Dizem os senhores economistas que o objetivo de taxas de juro baixas é o de estimular o crescimento oferecendo aos empresários investimento a preços baixos.
É a obsessão dos burocratas da UE em quererem ser bonzinhos para os “empreendedores”, custe o que custar.
Porém, tal como na anedota dos salões de beleza (marido para a mulher: Se vais tantas vezes ao salão de beleza, porque não ficas bonita?), o crescimento tem-se feito rogado.
Seria bom que o senhor Trichet e os senhores economistas que andam a condicionar  a vida dos cidadãos e cidadãs da EU reparassem que não é o facto das taxas serem baixas ou altas que estimula o crescimento ou não. O que permite o crescimento é o diferencial positivo entre a taxa de rendimento dos dividendos de uma empresa e a taxa de juro do investimento que  a financiou.
Qualquer período de crescimento económico é acompanhado de uma subida de preços. Há meios de controlar a inflação, há vantagem em emitir mais moeda na Europa para suprir a falta de liquidez. E, evidentemente para quem não é fanático das teorias académicas em oga, desvalorizar um bocadinho o euro, para reduzir um bocadinho tambem a vantagem comparativa dos paises asiáticos nas exportações.
Apesar das taxas de juro baixas, a subida dos preços não tem sido grave.
Como se consegue isso?
Desvalorizando o preço do fator trabalho e promovendo religiosamente, com o apoio de tecnologias de automação e informáticas e da globalização,  o desemprego.
Como consequência, o consumo particular e a procura baixam, e os preços também.
Contava a minha professora de instrução primária que foi assim que se  matou a galinha dos ovos de ouro.

Mas isso foi antes de Hayeck e Friedman, Reagan e Tatcher, Trichet e Barnanke, Hank Paulsen e Larry Summers, e, naturalmente, Passos Coelho e Vítor Gaspar.

Como se diz em Lisboa, é preciso ter lata, vir neste Novembro do nosso descontentamento o senhor Trichet dizer que as taxas de juro baixas podem ter sérias consequências.


Falas de governantes – o senhor ministro das finanças Vitor Gaspar e a introspeção



Fascinante, como diria Mr Spock da nave Enterprise, perante um espetaculo de surrealismo, a declaração do senhor ministro das finanças, de que não comenta estados de alma e que é pequena a sua tendência para a introspeção.
Digo espetaculo surrealista porque só se ouvem elogios ao senhor ministro Vítor Gaspar, vindos da Alemanha schaubleriana,  que  "Portugal está no bom caminho e é  um brilhante exemplo de que a abordagem que tem vindo a ser seguida para estabilizar o Euro é a correta” (quem diria que um país com uma economia tão débil conseguia estabilizar toda a zona euro!!!). Ou vindos do senhor chefe da missão do FMI, Abebe Selassié, que Vítor Gaspar é impressionante.
E é, o simples facto de dizer que não tende para a introspeção confirma-o.
Este blogue tinha já tentado uma abordagem psicanalítica em
e esta fala vem esclarecer o diagnóstico.

O senhor ministro tem dificuldade em realizar o “insight” (introspeção) e o dizer isso só demonstra que é uma pessoa altamente inteligente, de um tipo de inteligência fluida, facto provavelmente confirmável através das técnicas de ressonância magnética no caso das zonas de maior atividade serem as do córtex posterior. Uma afirmação deste tipo, pretendendo ser um auto-diagnóstico que conclui pela dificuldade de fazer auto-diagnósticos pode, com elevada probabilidade, ser um sintoma de que o próprio reconhece, graças às suas capacidades de inteligência fluida, um problema, embora muito longe da anosognosia, que mereceria tratamento. Esse tratamento seria no sentido de uma maior abertura à perceção e sensibilidade dos estados, não de alma, mas das reais dificuldades por redução dos rendimentos de trabalho e dos esquemas sociais de apoio. Ainda com recurso às técnicas de ressonância magnética, um progresso nessa perceção e sensibilidade seria comprovável por um acréscimo de flexibilidade cognitiva e da atividade do hemisfério direito e do córtex médio frontal, e por um decréscimo da obsessão compulsiva pela redução do défice orçamental de acordo com as diretivas da troika.

Fascinante, como diria Mr Spock, a introspeção.
Embora seja uma pena quando um cidadão não consegue fazer uma introspeção, não consegue colocar a hipótese de que as suas medidas possam não ser as corretas (a propósito, já haverá autorização do Parlamento para taxar as transações financeiras a 0,3%?).

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Limitação da velocidade máxima a 45 km/h ou a 60 km/h?



Ensinaram-nos na universidade técnica que o objetivo da profissão era a produção de trabalho ou de bens úteis com economia de recursos.
Definiu-se produtividade como o quociente entre a grandeza de um produto e a grandeza do meio usado para a sua produção, e que o esforço se deveria centrar em produtividade elevada.
Mas ensinaram-nos também que qualquer máquina, para produzir trabalho útil, tem também de desperdiçar energia, normalmente sob a forma de calor.
Não existem máquinas com rendimento de 100%
Até os maravilhosos motores de automóvel com rendimentos maiores graças ao “common rail” nos motores diesel e à regulação do tempo e da abertura das válvulas nos motores multi-air de gasolina, não conseguem atingir os 50%.

Cada domínio de aplicação deve ser analisado com dados concretos para se fazer o balanço do rendimento adequado.
Mas a tentação é grande, dado que os progressos são constantes, até por razões económicas (a tal competitividade associada à economia de meios de produção) para o senso comum esperar que se podem reduzir os desperdícios indefinidamente.

No caso da energia elétrica, é comum afirmar-se que bastaria melhorar a eficiência da utilização da energia elétrica para dispensar o programa de construção de barragens e de parques eólicos.

No caso da economia política, o senso comum enche as caixas de comentários na internet com soluções para a crise através dos cortes dos grandes ordenados e das grandes despesas do Estado.
E no entanto, não são apresentados os cálculos na forma de benefícios-custos desses cortes.

Faltam-nos dados, as estatísticas não conseguem traduzir toda a realidade.

A coisa chegou ao ponto de estar inscrita no memorando de entendimento com a troika sob a forma do ajustamento orçamental conseguido em 2/3 com cortes na despesa pública e em 1/3 com receita pública.
Só que os cálculos concretos não foram feitos (poderá falar-se na exceção no ministério da saúde, em que as administrações hospitalares apresentaram, como é normal em qualquer empresa pública, planos de redução de custos operacionais; mas continuo a duvidar que tenham sido contabilizados os prejuízos decorrentes desses cortes, para comparação com os benefícios).

Isto é, mantem-se aquela expressão popular tão portuguesa “o que era bom era…” , sempre sem os cálculos fundamentadores.

Infelizmente, como era de esperar, o aumento de receitas públicas foi insuficiente para o tal “ajustamento orçamental” e voltou-se ao ponto de partida: cortes da despesa pública no valor de 2/3 do dito ajustamento, sendo que o que há para cortar são serviços públicos essenciais para manter os indicadores
de qualidade na saúde, mna educação e na segurança social.
Claro que há sempre hipóteses de reduzir despesa melhorando a eficiência.
Tal como no consumo de enrgia elétrica, melhorando o rendimento na produção e reduzindo os desperdícios na transmissão , na distribuição e na utilização.
Mas não chega, infelizmente não chega.

Há ainda outra questão que costuma ser ignorada pelos senhores economistas e comentadores, provavelmente devido a um deficiente entendimento dos fenómenos físicos (os componentes de um sistema económico são fatalmente componentes de um sistema físico, subordinados a leis pelo menos análogas).
Na natureza, qualquer mudança brusca de estado provoca um regime transitório com amplitudes maiores do que em circunstancias normais e tanto maiores quanto mais brusca for a mudança.

Daí dever preparar-se a transição.
Um programa de corte de despesas públicas não pode ser brusco, tem de se estabelecer (ou renegociar juros de amortizações e de empréstimos, como no caso dos emréstimos da troika ou das famosas PPP) um plano ao longo de anos.
Eliminar bruscamente fundações ou observatórios, mesmo que inúteis ou criados para alojar clientela partidária (e contudo, é próprio de um país civilizado e desenvolvido ter instituições recolham e tratem os dados das atividades da comunidade; se essas instituições tiveram de ser públicas, foi porque a sociedade civil tinha antes falhado nessa tarefa de observação, análise e produção de medidas corretivas; um bom exemplo disso é o problema da sinistralidade rodoviária, em que falha a coordenação ministerial e em que a sociedade civil, mesmo com a participação das universidades, não conseguiu impacto social) pode provocar graves problemas de desemprego, com prejuízos eventualmente superiores aos benefícios das economias.

Tudo isto a propósito da medida de poupança de energia consumida no metropolitano, através da redução da velocidade limite de 60 km/h para 45 km/h.
A energia necessária para atingir uma dada velocidade é função  do valor dessa velocidade (proporcional à resistência ao movimento) e do seu quadrado (proporcional à energia cinética).
Mas também é verdade que a uma velocidade superior pode corresponder um número menor de comboios em linha, isto é, menor número de consumidores, o que pode levar a uma economia irrelevante quando se baixa a velocidade, especialmente se contabilizarmos o valor do tempo perdido pelos passageiros.
Perante esta dúvida, e enquanto os colegas do metropolitano analisam os resultados práticos da experiencia que decorre com a redução de 60 para 45 km/h da velocidade máxima durante as horas de exploração fora das horas de ponta, para outras variáveis como o intervalo entre comboios sem alteração, resolvi fazer uns cálculos para um modelo de exploração numa linha ideal com 10 inter-estações planas de 1000 m de comprimento cada.
Recordo que as expressões principais para o cálculo da exploração de uma linha são:

§         Capacidade horária da linha por secção e sentido            
                                      C = nºlugares por comboio x 3600/Δt
                                                   sendo Δt o intervalo entre comboios em segundos

§         Nº de comboios na linha     nc = T / Δt              
              sendo T o tempo da rotação completa incluindo as inversões nos términos

§         Taxa de ocupação  O = nºpassageiros.km/nºlugares.km

§         Velocidade comercial média numa rotação completa         
                                        vcom = L/T = L/nc. Δt     
               sendo L  o comprimento da rotação completa incluindo as inversões nos términos

(não confundir com velocidade máxima no arranque e na deriva, embora estejam obviamente  relacionadas;  para reduzirmos a velocidade, com o mesmo intervalo entre comboios, i.é, com a mesma capacidade horária da linha, são necessários mais comboios na linha; ou, com o mesmo número de comboios, terá de se adotar um intervalo maior para essa redução de velocidade)

§         Nº de comboios.km produzidos no tempo  t      
                                    comb.km = nc.t.vcom

§                   Nº de passageiros.km transportados no tempo t
                               Pass.km = nc.t.vcom.O. nºlugares por comboio

§                    Nº de passageiros transportados no tempo   t
                                    Pass = pass.km/percurso médio
                     


cuja imagem junto, e que por terem sido elaborados com alguma pressa, conterão imprecisões, podem ver-se as poupanças calculadas através deste modelo teórico de uma linha plana com 10 inter-estações de 1000 m.
Considerei uma fórmula empirica para a resistencia ao movimento, intervalos entre comboios de 300 e 420 seg. e 12 horas por dia para velocidade máxima de 45 km/h e 7 horas por dia para 60 km/h de velocidade máxima.
A economia que me deu para a energia elétrica consumida quando se passa de uma velocidade limite de 60 km/h para 45 km/h com um intervalo de 300  foi de 17,3% ou cerca de 400 euros por dia.

Porém, se considerarmos que há uma percentagem de população produtiva não desempregada que perde tempo por a velocidade comercial ter baixado, teremos que o respetivo prejuízo, na base de um salário de 4 euros por hora, será da ordem de  6.600 euros por dia (igualando a economia em energia com os prejuízos em termos de população ativa, teríamos um salário horário de 0,23 euros!  como tudo neste mundo , é uma questão de hierarquia de valores).

Já para a passagem de 300s para 420s, com menos comboios em linha, a economia é de 11,6% para velocidade limite de 45 km/h e de 8,7% para a velocidade limite de 60 km7h (ter atenção que, quando se aumenta o intervalo, há menos comboios em linha em cada instante e menor capacidade horária da linha por secção e sentido, para a mesma velocidade comercial).

A conclusão será a de que é sempre possível poupar, embora as poupanças possam não ser o essencial da questão, especialmente quando as compararmos com a qualidade do serviço, quer do sistema de transporte, quer da comunidade produtiva em geral, que se perde.





terça-feira, 20 de novembro de 2012

Medidas corretivas concretas 7 - proteção alfandegária e história económica


7 a – negociação com a EU, após envolvimento com os países PIIGS, do levantamento, eventualmente temporário,  da proibição de medidas protecionistas alfandegárias e melhoria da divulgação pública da monitorização da evolução das importações e exportações com clara informação sobre os tipos de bens e serviços
Vantagens desta medida: aumento de exportações; fornecer aos cidadãos informação para melhor avaliar as opções do governo e parlamento sobre as melhorias das exportações

7 b - Definição de uma estratégia nacional que inclua no serviço público de televisão a divulgação da história económica de Portugal, nomeadamente a divulgação sistemática das medidas adotadas nos principais períodos de crise de falta de liquidez e de endividamento.
Vantagens desta medida: habilitar os decisores políticos para melhores decisões e fornecer aos cidadãos informação para melhor avaliar as opções do governo e parlamento, para fazer propostas de medidas e para melhor escolher os executores

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Cartas de Bucuresti, abril de 2003

Nota prévia - Este blogue serve também para o seu humilde escriba deixar algumas recordações da sua vida profissional. Neste caso, para que os concidadãos romenos não se zanguem com o que deixo escrito, acrescento que em quase dez anos e depois da adesão da Roménia à União Europeia, muita coisa terá mudado; por exemplo, o hotel abandonado, preferido de Ceausescu, é hoje o hotel Cota 1400, muito utilizado por turistas ao longo de todo o ano.


1ª carta


Querida amiga

Aqui estou, como prometido, a dar-lhe noticias da terra de Bucur.
Já é noite, talvez em Lisboa ainda não e a minha amiga ainda esteja no seu gabinete.
Escrevo calmamente no meu quarto de hotel com o computador portátil e amanhã deixarei a memória USB com o texto na receção para lho enviarem por email.
O novo aeroporto de Bucareste pareceu-me bem construído, mas o átrio das chegadas é demasiado pequeno para a multidão que espera.
No meio da confusão  de motoristas de táxi a oferecer os seus serviços um deles perguntou-me em francês para onde eu queria ir.
Em francês, como se adivinhasse a minha ligação à cultura francesa, apesar dos crimes de Napoleão.
O homem era grande e anafado, parecia estar sozinho e aceitei a proposta do serviço por 20 euros.
O táxi era um Dacia com 20 anos, igual ao velho Renault 12.
O motorista era conversador; quando passámos pelo arco do triunfo disse-me que era um admirador do general de Gaulle, que tinha estudado francês no liceu_e repetiu muitas vezes que Bucareste é a Paris da Europa Oriental; que gosta de receber a paga em euros e acha   que a Roménia espera ansiosamente a entrada na União Europeia.
Bucareste à noite é linda, com iluminação modesta nas avenidas arborizadas.
Vê-se que houve influencia dos “boulevards” parisienses e dos campos elísios.
Às minhas perguntas sobre os partidos políticos não respondia, mas sobre as difíceis condições de vida e de trabalho era pródigo em queixas.
O hotel Marriot fica a seguir ao grande palácio dos congressos, de arquitetura monumental e massiça, que Ceausescu mandou construir, rodeado por um amplo espaço ajardinado, de vegetação rasteira. É agora a sede do Parlamento nacional.
O motorista entrega-me a pequena mala e diz que o transporte de um hóspede do Marriot vale mais do que 20 euros, e que tinha gostado tanto de conversar em francês comigo que ficaria satisfeitíssimo se eu lhe desse 30 euros.
Que foi o que fiz, perante um empregado do hotel um pouco escandalizado.
Como é hábito nas nossas reuniões de técnicos de eletrotecnia de metropolitanos, uma simpática refeição ligeira e variada serviu de base ao reencontro do nosso grupo e à conversa sobre os acontecimentos internacionais desde a reunião anterior, em Bruxelas. Foi pena não ter trazido a minha mulher, para fazer companhia às simpáticas esposas dos colegas romenos anfitriões e dos colegas de Hamburgo e de Varsóvia,  mas seria inconveniente para o programa das suas aulas.
A qualidade do serviço do hotel é muito boa e os empregados são amáveis.
Recolho ao quarto para rever os assuntos a tratar amanhã na reunião e para lhe escrever estas breves palavras.

Veremos se amanhã à noite não estarei demasiado cansado para lhe relatar o dia.

Boa noite.



2ª carta

Interessantíssimos os temas da reunião de hoje.
Analisámos todos os sistemas de manutenção de todos os tipos de equipamentos elétricos ou sistemas de controle em uso nos metropolitanos do nosso grupo. Mas talvez isso não lhe interesse muito, pelo menos por enquanto, no seu percurso profissional.
Possivelmente por razões económicas, a reunião decorre num dos edifícios do metropolitano de Bucareste.
Sabe que não gosto muito de um indicador que estou a construir?
O metro de Lisboa tem cerca de 30 km de rede e foi inaugurado em 59. O metro de Bucareste tem cerca de 50 km e foi inaugurado em 74. Multiplicando a extensão da rede pelo ano de inauguração obtemos o tal indicador, que dá uma ideia pouco favorável par ao nosso metro. É verdade que o transporte coletivo na Roménia, por força do fraco poder de compra da população, predomina sobre o transporte individual, mas o metro de Lisboa continua mal colocado em âmbito de cobertura geográfica e de volume de população se o compararmos com as cidades de poder de compra semelhante ao nosso. Infelizmente, não temos sabido aplicar da melhor forma o dinheiro que temos investido na nossa rede.


A parte central de Bucareste ostenta os vestígios das glórias passadas no inicio da belle epoque, antes da primeira grande guerra, no período de expnsaõ da industrialização germânica, em quarteirões de mansardas, ou em ruas sossegadas de grandes mansões. Não se preocuparam muito em conservar os bairros antigos. A urbanização à francesa sobrepôs-se. Consta que o rei Carol I dividia as suas capacidades estratégicas pela captação dos investimentos alemães e pela  cultura francesa. Mas agora os edifícios mostram ruína. É deprimente ver nas ruas comerciais a maior parte das lojas fechada, com o correio a apodrecer e o lixo a acumular-se. Há movimento de pessoas; deduzo, pela forma como se deslocam,  que têm trabalho; reparo nas jovens mulheres, sempre vestidas de forma clássica. O transito é escasso, maioritariamente táxis Dacia, e há ainda veículos de tração animal, com rodas de borracha, pobres bichos, pobres donos. Nas placas centrais, ajardinadas e arborizadas, vejo vários  grupos de funcionárias municipais. Mas estão normalmente sentadas, sem trabalhar, com os cestos do farnel ao lado. Vestem saias largas e compridas e lenços na cabeça de tez morena. Detenho-me a ler o programa do teatro de ópera, também rodeado de uma área verde. É grande o contraste com a pobreza geral, quase todos os dias há um concerto, um bailado ou uma ópera. Reparo num nome importante no panorama operático, Elena Obratsova.

Depois da sessão da tarde da nossa reunião e antes do jantar, saí do hotel para explorar a longa avenida no sentido dos subúrbios.
Mais uma vez vi gente movimentando-se rapidamente de regresso a casa, aparentemente poupando dinheiro graças ao percurso a pé.
Os passeios são largos, mas os pavimentos são poeirentos. A urbanização é incaracterística. Há uma igreja ortodoxa, com as suas cúpulas, abafada entre blocos de habitação social. A distribuição elétrica é feita por cabos pendurados em postes de madeira. Mas vejo confiança no olhar da mulher jovem que caminha determinada pelo passeio, com um pequeno saco de compras, equilibrando-se nos seus sapatos clássicos de verniz preto de salto alto. Assim como assim, há sempre alguém que acredita no futuro.

Espero não a ter maçado com mais esta carta.
Até amanhã.

3ª carta

Querida amiga

Estou cansado.
Este foi o dia mais cansativo, e só teve, de trabalho, uma rápida visita ao centro de comando do metro. Os nossos colegas estão muito contentes com os fornecimentos da grande companhia alemã, mas eu diria que o equipamento é um pouco tosco, não será o ideal para facilitar o comando centralizado do movimento dos comboios em toda a rede e para suportar as extensões da rede que estão programadas, mas enfim, funciona.
O metropolitano de Bucareste decidiu poupar-nos um dia inteiro de trabalho e ofereceu-nos um passeio de 150 quilómetros até aos Cárpatos, para visita do palácio romântico do rei Carol, o castelo de Pelese, a norte de Ploiesti.
O rei Carol era um nobre alemão a quem ofereceram o trono da Roménia, na altura da independência do país relativamente ao império otomano.
Vivia-se a época dos nacionalismos românticos, e o elemento que entrelaçava os novos países era a ligação às casas reais da Europa no poder. Tudo subordinado, evidentemente, à ascensão dos grandes industriais e das casas financeiras suporte da industrialização.
Deixe-me contar-lhe um facto terrível: ao longo de toda a estrada não vi uma única cabeça de gado nos campos, nem vacas, nem ovelhas, nem cabras.
Passámos por ruínas de explorações petrolíferas – como sabe, a Roménia tem poços de petróleo e de gás, em terra e no mar Negro -  mas as torres que avistei da estrada estavam inoperacionais.
A Roménia espera , provavelmente, a entrada na união europeia para arrancar com as explorações agro-alimentares, com o reinicio da exploração petrolífera e o desenvolvimento do turismo, não sei.
Mas sei que a desmotivação de todo um povo e o acantonamento de uma economia frágil na zona da armadilha da pobreza dos rendimentos impossíveis para qualquer investimento, conduz a esta desgraça.
Eu sei que todos os povos, em épocas de crise, são capazes de encontrar dentro de si próprios meios de sobrevivência que escapam aos registos dos economistas, mas a sensação que me domina é a de que, se por uma catástrofe natural o país desaparecesse, ninguém iria importar-se.
Antes da visita ao palácio, levaram-nos ao hotel alpino preferido de Ceausescu para as suas férias na neve e para as receções aos aliados, a poucos quilómetros de Siniu, onde se encontra o palácio de Pelese.
Foi uma desilusão para os nossos anfitriões, que não esperavam que o hotel estivesse fechado. O casal mal encarado que guardava o complexo informou que só abririam para os 3 meses de verão. O colega do metro de Bucareste lamentou baixinho, com sinceridade mas claramente sem querer defender a politica cega de Ceausescu, que no tempo dele nunca o hotel estaria fechado.
Siniu parecia feita de casas de bonecas, lá ao fundo. Do outro lado, as encostas cobertas de coníferas ocupavam o resto do horizonte.
Estavamos nos Cárpatos.
E imersos em mais um exemplo da desmotivação e da espera pelos investimentos da Europa.

Regressámos há pouco, sem grande vontade para jantar depois do abundante almoço oferecido no palácio.
Vem-me à ideia a comissão de receção aos turistas à entrada da rampa de acesso ao palácio do rei Carol: um violinista e a sua musica romena e uma cigana robusta com uma pulseira de ferro e um pequeno leão a ela acorrentado. Lá tivemos de deixar umas moedas, que no meu caso até foram euros.

Desejo-lhe uma boa noite.

Até amanhã.





4ª carta

Estou a escrever-lha do aeroporto de Munique. Tenho ainda 3 horas antes do embarque para Lisboa e já combinei com a simpática assistente da sala de informática do aeroporto o envio do email com este texto, que o meu portátil ainda não tem wi-fi.

Aproveitei o sábado de manhã para dar mais uma volta pela cidade, antes de seguir para o aeroporto.
Visito o jardim botânico. Está repleto de espécies interessantíssimas. Mas o estado de abandono e de desleixo é mais uma vez deprimente. Surpreendo atrás dos vidros da estufa laboratorial o semblante desanimado de duas botânicas, atrás dos microscópios. Comovo-me com a degradação dos canteiros, dos caminhos ladeados de palmeiras, com a ausência de jardineiros, com os vidros partidos das estufas, com a invasão inconveniente das raízes das árvores tropicais. Eis a Roménia dos nossos dias, esperando a salvação com a união à Europa.
Regresso aos boulevards e à praça da Liberdade.
Desço o parque  rei Carol, quase gémeo do nosso Parque Eduardo VII.                      .
Um grupo de jardineiros está alargando as caldeiras das árvores para aumentar a eficácia da rega. O trabalho é para ser feito com enxadas, não há mecanização, e a rega será com um depósito com rodas, puxado por homens. Cada um dos jardineiros está junto da sua árvore, alinhadas segundo o declive até à rotunda ao fundo, a prça da Liberdade. Falta pouco para o meio dia. Todos  eles estão imóveis, com o queixo encostado ao cabo da enxada, contemplando a pequena carroça que ao longe,  na rotunda, contorna a placa central onde um grupo de mulheres de saias amplas apanha as ervas daninhas. De repente, ouve-se a sirene do meio-dia e todos eles largam as enxadas, que caem no chão, e dirigem-se para o refeitório. Continuo a descer o declive e verifico que as apanhadoras de ervas daninhas têm outro horário, porque continuam a trabalhar, porém, do seguinte modo: estão alinhadas lado a lado, mas imagine que estão todas em pé, direitas, menos as duas da ponta direita, a última com o tronco a 90º e a penultima completamente dobrada, em plena função arrancadora da erva.  Imagine agora que, em frente dessas duas, um jovem em mangas de camisa e calças enfiadas nas botas de jardineiro corre desalmada e paralelamente à fila, da ponta direita para a ponta esquerda. À medida que corre, as mulheres que deixa para trás vão-se endireitando e aquelas de que se aproxima vão-se dobrando. Chega ao fim da fila e recomeça em sentido inverso. Há um efeito de onda que se propaga de um lado para o outro e depois para o outro lado.
O jovem virá a ser dirigente de qualquer coisa, pelo entusiasmo com que desempenha a sua função de encarregado. Terá aperfeiçoado a sua técnica de gestão de pessoal nalgum curso de motivação  e de otimização dos ativos humanos. Mas deixou-me um pouco triste.

No caminho de taxi para o aeroporto, recordo as conversas que tive com o nosso colega do metro de Bucareste: que a Roménia tem de desenvolver o turismo, pôr a funcionar a extração de petróleo e de gás e, sobretudo, que não cometa o erro de deixar estiolar a sua produção agro-alimentar. Que nunca se deixem embalar pelos produtos alimentares mais baratos da Alemanha e da Polónia, porque a autonomia alimentar e energética são os pilares da independência politica e da soberania. Que não se iludam com a miragem da união europeia a distribuir dinheiro sem que os seus diretórios gémeos dos grupos bancários e industriais queiram em troca ficar com o controle da atividade económica mais rentável, e sobretudo, que não se iludam com a febre da construção de edificios de grandes arquitetos e de auto-estradas e de empréstimos para o consumo.

O táxi que me levou ao aeroporto foi chamado pela receção do hotel, que aliás insistiu em fazê-lo. Desta vez era um Mercedes grande, com motorista de fato completo e gravata, serviço de limusina. Paguei dez euros e o motorista recusou a gorjeta. Mas não falava francês.  São diferentes, a economia registada que paga impostos e a economia paralela.
Lojas vazias de bens e de pessoas no aeroporto.
Entrada para o avião.
Reparo que algumas passageiras são mulheres jovens, bem vestidas e penteadas de forma moderna, fora do padrão que observara na cidade.
Sorte, uma delas senta-se ao meu lado.
Quando chega a refeição pergunto toscamente para onde vai. Digo-lhe que é uma draguna demisoara (uma bela rapariga) .
Andrea  conta que estuda química alimentar e que vai continuar os estudos em Madrid. Que tem família em Sevilha. Ri-se muito quando lhe pergunto se as outras belas romenas também vão estudar para Espanha, mas confirmo que domina a sua especialidade quando lhe falo do meu refluxo esofágico e das alergias do meu cólon excitavel.
O seu corpo é magnifico, e o cabelo apanhado para trás dá-lhe ao olhar um sentido penetrante, ao mesmo tempo meigo e esquivo.
Recordo-me do meu professor de Economia, Daniel Barbosa, antigo ministro salazarista, que explicava que o que equilibrava a balança de pagamentos de Portugal eram as receitas do turismo e as remessas dos emigrantes, apesar do esforço de industrialização e de autonomização da produção de energia elétrica.
Andrea ainda esteve sentada a meu lado na sala de espera do aeroporto de Munique, mas depressa foi chamada, tal como muitas das outras jovens romenas para o embarque para Madrid. Mas deixou-me o numero do seu telemóvel. Pode ser que um dia venha estudar química alimentar para Lisboa.

Já anunciaram também o meu embarque.
Vou acabar, porque ainda tenho de pedir à simpática assistente para lhe enviar o email e de percorrer vários tapetes rolantes até ao avião.

Até muito em breve.

Um beijo.


domingo, 18 de novembro de 2012

Desperta uma raiva surda

Desperta uma raiva surda ler os comentários do senhor ex-ministro das finanças Miguel Beleza sobre a redução do quadro de pessoal dos funcionários públicos.
Que é muito positiva a redução do numero de funcionários públicos.
Que foi maior do que o previsto. De janeiro a setembro de 2012 a diminuição foi de 5,1% .
Estão muito contentes os senhores economistas porque o indicador da redução dos quadros de pessoal é sempre um sucesso nas apresentações de powerpoint quando se quer mostrar  progresso de uma empresa.
Quando se fala para quem não tem experiencia nas frentes de trabalho.
Porque não é só porque o peso do Estado e dos seus funcionários está dentro de valores médios na união europeia.
Ou porque esse peso está de acordo com o que os cidadãos esperam das funções do Estado nos domínios da saúde, da educação e da segurança social e com o que está escrito na Constituição e na declaração universal dos direitos humanos.
A questão essencial é que muitos dos que saíram poderiam ter ficado mais tempo se o ambiente de descredibilização criado pelo governo não os desmotivasse.
A questão essencial é que muitos desses eram profissionais cuja experiencia faz falta.
Muitos desses eram professores que desistiram perante o economicismo do seu ministério.
Nos países em que se respeitam os mais idosos, o provérbio diz que quando morre um velho é uma biblioteca que arde.
No país dos economistas contentes em reduzir quadros de pessoal, mesmo que essa redução se repercuta em aumento dos encargos da segurança social, ou aumento do desemprego, ou aumento da ineficiência dos serviços públicos, não interessa aproveitar a experiencia dos  mais velhos.
Desperta uma raiva surda ver os senhores economistas a desprezar essa experiencia.
Não querem saber dos riscos de cortar cegamente nos quadros de pessoal.
O acidente com a plataforma petrolífera “Deep horizon” no golfo do México em 2010, ocorreu numa fase de redução drástica dos quadros de pessoal na plataforma, especialmente o mais qualificado, substituindo as suas funções por “e-drilling” à distancia (através de centrais de comando remoto).
O acidente com o petroleiro Exxon Valdez no Alasca em 1989, ocorreu numa altura em que a companhia tinha reduzido o seu pessoal de 182 mil para 80 mil funcionários (informação recolhida, com a devida vénia, no Dinheiro Vivo de 17 de Novembro de 2012), “melhorando” os seus indicadores de produtividade e competitividade, mas correndo riscos intoleráveis.
Desperta uma raiva surda saber que facilmente se esquecem as decisões dos senhores economistas quando o risco se traduz em acidente.
Desperta uma raiva surda saber que a redução do numero de professores e a subordinação aos critérios de cortes na Educação vão ter com elevada probabilidade consequências graves para a educação das crianças.

sábado, 17 de novembro de 2012

O tornado no Algarve - É revoltante

É revoltante saber que o serviço meteorológico detetou atempadamente a probabilidade de ocorrencia do tornado e não avisou a Marinha para prevenção da população.

Este é um dos tipos de acidente natural que pode  ocorrer em determinadas condições, sabendo-se porem que em muitos casos pode não haver consequencias.
Outro exemplo é o de maremotos a seguir a abalos sísmicos.
A exemplo do que se passa no Japão, qualquer abalo sísmico provoca o acionamento dos alarmes nas zonas costeiras. As populações protegem-se, sabendo que muitas vezes o sismo não origina o maremoto, mas cumprem rigorosamente as normas de proteção. O caso do maremoto de março de 2011 teve  consequencias trágicas devido à grande proximidade do epicentro da costa, pelo que não houve tempo para fugir.
No caso do tornado de 16 de novembro de 2012 na zona de Silves, a probabilidade de ocorrencia do tornado deveria ter sido comunicada à Marinha para proceder à vigilancia da costa e ao desencadear do alarme.
Há alguns anos, um capitão de porto do Algarve ordenou a evacuaçao das praias depois de ter recebido um aviso de maremoto a partir de um avião.
Todos troçaram da atuação da Marinha neste caso, quando deveria ter sido aplaudida.
A ligação ente o serviço meteorológico e a Marinha para fins de acionamento de alarmes deveria ser obrigatória, sempre com o esclarecimento de que pode não ocorrer o fenómeno destrutivo, mas criando a cultura da precaução com a colaboração das escolas (treino das crianças para se protegerem debaixo das carteiras ou mesas.
Infelizmente em Portugal assiste-se a uma discussão bizantina sobre a possibilidade ou não, segundo a Constituição, da Marinha desempenhar funções de proteção civil sem declaração de estado de sitio ou de estado de emergencia (artigo 275º nº6 - as forças armadas podem ser incumbidas nos termos da lei de colaborar em missões de proteção civil ...; nº7 - as leis que regulam o estado de sitio e o estado de emergencia fixam as condições do emprego das forças armadas quando se verifiquem essas situações.  -  salvo melhor opinião, as palavras "essas situações" referem-se ao estado de sitio e ao estado de emergencia no próprio nº7 e não às situações do nº6 e, por maioria de razão, aos numeros anteriores, como missões humanitárias no exterior do país).
Será provavelmente um exemplo de defice de interpretação e de dificuldade de comunicação através da lingua portuguesa.
Será ainda um exemplo de incapacidade dos governantes para entenderem os dados dos problemas (no caso da prevenção dos maremotos, é importante desenvolver redes de baizas de deteção no mar, mas isso não dispensa a utilização da Marinha para o alarme das populações) e reagirem com medidas concretas para resolução de problemas (não me refiro apenas aos atuais governantes, visto a incompreensão da necessidade de ligação dos serviços meteorológicos à Marinha para prevenção de acidentes naturais com origem no  mar vir de governos anteriores).
E assim se desperdiçam as capacidades e os conhecimentos práticos da Marinha sobre os perigos do mar na prevenção dos riscos associados.

PS em 17 de novembro - Consta que o serviço meteorológico avisou a Proteção Civil, que por sua vez avisou o senhor ministro da admnistração interna. Tudo muito certinho de acordo com os modelos jurídicos, caracterizados pela sua dificuldade em reproduzir a realidade e pela morosidade burocrática e hierárquica. Mantem-se a crítica: um perigo vindo do mar deve ser tratado pela entidade que tem experiencia em assuntos do mar, a Marinha, à qual os serviços de proteção civil deveriam fornecer os equipamentos e sistemas de alarme público necessários, a  acionar autonomamente, sem ter de pedir autorização a que senhor ministro seja. É esta visão prática que os senhores governantes e os senhores juridicos têm relutancia em aceitar.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Imaginem, já se está a preparar Abril

Imaginem, já se está a preparar Abril.
As comemorações dos 39 anos do 25 de abril de 1974.
De uma coletânea a ser publicada perto de si, excertos de um poema de Ari dos Santos, a Fábrica:

Da alavanca ao tear da roda ao torno
da linha de montagem ao cadinho
do aço incandescente a entrar no forno
à agulha a trabalhar devagarinho.

Da prensa que se faz para esmagar
à tupia no corno da madeira
do formão que nasceu a golpear
à força bruta de uma britadeira.

Do ferro e do cimento até ao molde
que é quase um esgar de plástico sereno
do maçarico humano que nos solde
à luz da luta e não do acetileno

nasce este canto imenso e universal
sincopado enérgico fabril
sereia que soou em Portugal
à hora de pegarmos por Abril.


Escrito numa altura em que os computadores ainda não eram utilizados nos escritórios, nas fábricas, nas oficinas, nas lojas, mas como é bonito.
E como até podia ser utilizado pela propaganda do atual governo, que já reconheceu (ou pelo menos, parte dele) que é preciso "reindustrializar" o país (conviria que se visse entretanto como é com a apropriação e o destino das mais valias).

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Artigo de opinião: Ricardo Salgado, os banqueiros, os vidros partidos e o surrealismo

Arcanjo S.Miguel, por Guido Reni, século XVII, Bolonha

As religiões cristã e islâmica criticam violentamente o juro agiota.
No livro sagrado da religião cristã é atribuída a Jesus Cristo a afirmação de que são mais inteligentes os filhos das trevas do que os filhos da luz, o que possivelmente, na forma alegórica como ele se expressava, quereria dizer que os financeiros e os banqueiros eram pessoas mais inteligentes do que os comuns dos cidadãos que lhes entregam o dinheiro.
A forma como Ricardo Salgado tem gerido o seu grupo parece confirmar a tese cristã.
Primeiro, fez o que pôde para  não tocar no presente envenenado da troika – o  empréstimo para melhorar a relação entre os depósitos e os empréstimos concedidos.
Uns dirão que o presente era envenenado porque permitiria a entrada do Estado no capital do banco (francamente, com a promiscuidade, ou convívio intenso de benefício mútuo, entre os bancos e os políticos decisores, era assim tão mau o “Estado” entrar no capital?).
Foi sempre o que disse Ricardo Salgado.
Mas outros dirão que o veneno estava simplesmente no empréstimo provir da troika.
Que ela nunca perderá mais do que o devedor ganhará, com os juros e as comissões que aplica.
E então, como banqueiro assisado, Ricardo Salgado fez o que o próprio Estado deveria ter feito: recapitalizou-se através dos próprios acionistas.
Realmente é interessante comparar o montante do empréstimo da troika, 78.000 milhões de euros (menos os 7.500 milhões que ficaram por aproveitar para os resgates de bancos), com o montante de depósitos em toda a banca, 130.000 milhões de euros.
Não quero, evidentemente, sugerir a expropriação pura e simples para nos libertarmos imediatamente do malfadado memorando da troika, porque não faço revoluções, nem sequer no meu bairro.
Estou apenas a exercer o meu direito à expressão de que para mim isto, o Estado não poder aplicar a mesma receita,  é surrealismo (recordo que em Itália a maior parte da dívida pública é interna).
Aproveito também para criticar a política irresponsável dos secretários de Estado do Tesouro que, ao longo de vários anos, quase acabaram com os certificados de aforro, debitando arrogantemente na imprensa conceitos mal apreendidos na faculdade (por acaso até nem estou a criticar o atual governo, que tentou a reabilitação dos certificados de aforro, embora o débito de conceitos mal apreendidos na faculdade de economia se aplique a outras ações do atual governo).
Depois, voltando a Ricardo Salgado, apresenta lucros.
Nos 3 primeiros trimestres de 2012 o BES vendeu 1280 imóveis que lhe advieram por incapacidade dos devedores, por 240 milhões de euros (mas cuidado, foram capitais que vieram da Russia e da China; e se daqui a uns tempos temos o ministério publico a investigar acusações de branqueamento de dinheiros como no caso das compras angolanas de apartamentos do monstro que foi construido no lugar do hotel Estoril Sol?).
Foi uma excelente receita, mas que foi absorvida pelas contas do grupo; que interessam agora os desgraçados que não conseguiram pagar os seus empréstimos ?
Aliás, se alguém se suicidar, como em Espanha, suspendem-se os despejos, não é verdade? Somos um país cristão, embora por isso mesmo sejamos de opinião que os filhos das trevas se orientam financeiramente muito melhor do que os filhos da luz, e sempre contribuiremos para o banco alimentar.
Bem, não devo usar o condicional.
Recentemente suicidou-se o construtor civil de um empreendimento turistico de luxo na serra, perto de Castro Marim, com campo de golfe e hotel, que ainda funcionam; mas as vivendas construidas não encontraram comprador e o homem não resistiu.
Ignoro que banco era credor.
Os jornais não falaram, possivelmente para não induzir a imitação.
Nos 3 primeiros trimestres de 2012 o BES teve 90,4 milhões de euros de lucro.
A CGD e o BCP tiveram 900 milhões de prejuízos no mesmo período (claro, o crédito  mal parado); e  o Santander e o BPI tiveram em conjunto 347,6 milhões de euros de lucro.
Não é muito grande, o lucro, e ainda por cima é menor do que no ano anterior.
Vamos ter pena dos acionistas se não receberem os dividendos e se o banco não puder fazer auto-investimento, mas quem vive dos rendimentos do seu trabalho e das suas pensões viu os seus rendimentos diminuídos gravemente.
Será outro exemplo de surrealismo, as cabeças bem pensantes acharem que a equidade não é chamada para aqui (sim, sim, é preciso não afugentar o capital, embora as grandes empresas tenham as suas sedes fiscais em in-shores europeus, e acima de tudo, não enervar os mercados).
Evidentemente que também aqui não estou a propor a expropriação completa dos lucros, mas parcial era boa ideia.

Até porque, continuando a bater na tecla do surrealismo, será verdade o que li no DN, que a maioria das empresas que têm empréstimos a correr estão a receber cartas dos seus bancos informando que, considerando as condições da conjuntura, patita e patatá, os spreads subiram?
Isto é assim?
Sobem-se os juros (é como se subissem os juros, o que interessa é o serviço da dívida) unilateralmente?
Às pobres das empresas que já tinham contratado juros a uma taxa superior à dos seus homólogos alemães?
Lá está, para mim é surrealismo não existir harmonização fiscal na união europeia; para outros não é, paciência.
E depois os senhores governantes e o senhor governador do Banco de Portugal, que se isto é verdade já devia ter dado uma espadeirada nos filhos das trevas (digo isto na hipótese do senhor ser cristão e poder inspirar-se no arcanjo S.Miguel), vêm rasgar as vestes na comunicação social dizendo que as empresas têm de reduzir os custos de contexto e de produção?
Surrealismo, digo eu.
E não sei se não virão depois dizer que eu estou a instigar ao assalto aos bancos, como aqueles moços no norte, que se entretiveram a partir montras de bancos e visores de multibancos; uma moradora chamou a policia, mas depois veio a televisão e apressou-se a dizer, vá lá, sempre de cara escondida, que até tinha ido manifestar a sua solidariedade aos vandalozinhos quando eles disseram à policia que tinham partido os vidros por serem contra o sistema, que até trocaram gestos de polegar para cima e que se soubesse que não eram vândalos, eram só contra o sistema, que talvez até nem tivesse chamado a policia.
Surrealismo, digo eu.




quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O melhor povo do mundo









Beneficiando por enquanto da programação com interesse da RTP2, à espera que o seu novo orçamento de 3 milhões de euros, o anuncio do fim das indemnizações compensatórias e a proibição de publicidade (teria a vantagem de se poder reduzir a taxa da fatura da eletricidade…) a asfixiem, vejo um programa sobre o genocídio dos tainos pelos espanhóis.

Os tainos eram o povo índio pré-colombiano que desapareceu enquanto povo com Colombo e os seus sucessores nas ilhas de S.Domingos, Porto Rico e Cuba, devido à guerra, à escravatura em minas de ouro e na agricultura, e às doenças como a varíola.
Apenas subsistiram genes pela mestiçagem com os espanhóis (que tomavam mulheres taino) e os africanos trazidos depois como escravos.

Os documentos históricos que contam a história do fim dos tainos e os vestígios arqueológicos permitem fazer uma análise “darwiniana” da luta entre espanhóis e tainos e são um episódio que ilustra o processo histórico, desde a ganância pela exploração de uma mina de ouro que rapidamente foi esgotada e pela apropriação da força produtiva do povo escravizado, até ao desrespeito pelo sistema ecológico, que culminou com a morte coletiva dos primeiros colonos espanhóis em La Isabela, vitimas da recusa em se alimentarem dos recursos naturais da ilha (o que provocou a morte por deficiencia de vitamina C e escorbuto).

Dos tainos ficaram palavras transmitidas pelos espanhóis, como tabaco, amoque, canoa, barbecue, hurricane (huracan), Cuba (cubacan) … não é engraçado?

E também é muito interessante recordar as palavras de Cristóvão Colombo sobre os tainos na carta para os reis católicos, comunicando-lhes a descoberta das índias ocidentais:
 “Eles são um povo amável e amigável… são o melhor povo do mundo … trouxeram-nos papagaios, bolas de algodão, lanças e muitas outras coisas … darão uns bons escravos … com cinquenta homens podemos subjugá-los a todos e fazer deles o que quisermos”.

Curioso, como Cristóvão Colombo lhes chamava o melhor povo do mundo e como justificava por que lhes chamava isso.

domingo, 11 de novembro de 2012

Manual expedito de neo-liberalismo – como tornar-se um neo-liberal perfeito em 3 passos


1 – vamos conter os preços por meio de uma taxa elevada de desemprego. É a lei de Philips. Muitos irão para o desemprego, mas alguns terão emprego. Apesar das novas tecnologias, é sempre preciso haver assalariados. Verdade que com a baixa de preços os salários também baixarão, mas ter emprego é bom. Outros, poucos, terão negócios a florescer. Portanto, uma certa percentagem, dos que têm emprego e dos que têm rendimentos crescentes, ficarão confortáveis. Com uma boa taxa de abstenção nas eleições, e sabe-se como os desempregados se desmobilizam nas eleições, até pode ser que um governo neo-liberal ganhe as eleições. E em qualquer caso, as poupanças para os principais detentores de capital e as transferências de rendimento para eles serão sempre superiores ao aumento de encargos com as forças de segurança, ainda assim as mais beneficiadas nos orçamentos de Estado.
2 – vamos assegurar a livre escolha, como dizia Milton Friedman. Os consumidores poderão escolher livremente (bem, os tais da tal percentagem que estarão confortáveis) entre os produtos cada vez mais baratos, graças à concorrência e às novas tecnologias de financiamento, produção e comercialização dos grandes financeiros, grandes produtores e grandes comercializadores, os quais concorrerão de acordo com a lei da selva, vencendo os mais fortes (como se sabe dos programas do National Geographic, é impossível regular a lei da selva ou partilhar o habitat sem violencia).
3 – vamos reduzir ao mínimo possível a intervenção do Estado na sociedade. Por exemplo, vai ser preciso ter um laboratório público pago com os impostos e contribuições, ou então pagar a laboratórios privados com os ditos impostos ou contribuições, para monitorizar e controlar os riscos de epidemias. Vai ser preciso pagar esquemas de assistência para evitar situações de grande impacto mediático, como por exemplo, surtos de suicídios por se cair no desemprego ou por ser-se despejado de casa. Mas duma maneira geral, graças às novas tecnologias de gestão, vai ser possível baixar os impostos aos investidores para estimular a iniciativa empresarial, ao mesmo tempo que se aumenta a carga fiscal sobre os assalariados. Assim os impostos podem baixar (só para a parte empresarial, claro) à medida que a atividade industrial crescer, e assim se reduzirá o peso do Estado, sendo os impostos suficientes para os tais esquemas assistenciais imprescindíveis.





Provérbio chinês



Não me dês o peixe.
Empresta-me a cana e ensina-me a pescar.
Pago-te com os peixes que for pescando.
Metade para ti e metade para mim.
Até ter o empréstimo pago.
Como sabes pescar bem e depressa,
Vais ensinar-me aqui, na minha praia (tem de ser aqui),
a pescar bem e depressa.
Assim o empréstimo será rapidamente pago.
E poderás ensinar outros a pescar.

Exercicio de surrealismo



1 - Retirei os dados seguintes do dinheiro vivo, o suplemento de economia do DN. Todos os valores são em percentagem relativa ao PIB:

1.1 - Despesas com segurança social:

Portugal,    2011                  6,6%
Média UE, 2010                20%

1.2 – Despesas com educação:

Portugal,   2011                  4,7%
Média UE, 2010                 5,5%

1.3 – Variação dos salários da função pública entre 2005  e  2011:

Portugal  (peso dos salários da FP no PIB: 12%)         - 18,8%
Média da zona €                                                             + 1,1%

2 – Numa das primeiras entrevistas de membros da troika, em Maio de 2011, Paul Thomsen explicou que um dos objetivos era baixar o salário dos trabalhadores portugueses, demasiado alto em função da produção e em relação aos salários de países como a Polónia, Republica Checa, países Bálticos, Bulgária e Roménia.

3 – Depois da quinta avaliação do programa da troika, em Outubro de 2012, o senhor ministro das finanças veio dizer que, considerando o excesso de cerca de 2% do PIB da despesa de Portugal com educação, saúde e segurança social relativamente à média europeia, haveria de proceder-se em 2013 e 2014 a cortes na despesa pública equivalentes a esses 2%, o que será cerca de 4.000 milhões de euros.

Existe uma evidente contradição entre os pontos 1 e os pontos 2 e 3.
Ou uma dissonancia cognitiva entre a realidade e o que nos apresentam como fundamento das medidas da troika, num exercício de surrealismo.
Mais valia serem francos: o indicador desemprego está propositadamente alto para conter o nível de preços, através da redução da procura.
Mas não têm coragem.

sábado, 10 de novembro de 2012

John Q, filme de 2002 de Nick Cassavetes, e a gestão por provérbios



Numa tarde de Novembro, a SIC passou este filme.
Vem a propósito, o tema, quando a mensagem do governo foi lançada, sob a forma de uma relação entre impostos e serviço nacional de saúde.
O filme baseia-se num caso verídico, em que um pai sequestrou um hospital por não lhe tratar o filho e acabou morto pela policia.
Mas a história neste filme acaba bem e denuncia as falhas das coberturas dos seguros de saúde nos USA.
Possivelmente terá contribuído para a aprovação da reforma da saúde (ou melhor, dos seguros de saúde) de Obama, apesar da feroz oposição do Tea Party e aliados.
Sabemos que o atual governo português tem horror a tudo o que seja serviço público,  que a reforma da saúde de Obama se preocupa com a sustentabilidade da industria seguradora, e que a história nos USA  associa aumento de impostos e melhoria do bem estar social ao partido democrata e diminuição de impostos e maior desigualdade social ao partido republicano.
Porém, verificam-se atualmente situações de graves carências nos USA (cerca de 47 milhões numa população de 313 milhões de pessoas recebem ajuda alimentar).
Tal não deverá acontecer por baixa produtividade, como é a desculpa em Portugal, porque nos USA a produtividade é suposto ser elevada.
Dir-se-ia então que os mecanismos que induzem estes factos estarão algures, talvez no sistema económico  e financeiro que condiciona as sociedades (sobrepondo-se às diretivas da declaração universal dos direitos humanos) e  na conceção de democracia vigente (que não interpreta as enormes taxas de abstenção, que não analisa em debate aberto o tratamento cientifico dos dados, e que falha no combate ao desemprego e às desigualdades).
De pouco servirá então aplaudir o filme John Q, apesar da violenta crítica à arrogância das seguradoras e às preocupações de lucro dos hospitais privados.
De pouco servirá também discutir a indignação provocada pelas declarações da senhora diretora do banco alimentar contra a fome.
Ou a indignação por ver um senhor secretário de Estado da Educação declarar que vai entregar os dados da ASE (ação social escolar) relativos às situações de carência alimentar de 10.000 alunos, precisamente ao banco alimentar contra a fome, para que ajude os respetivos agregados familiares (não é a ajuda que indigna, é a demissão dos políticos e dos economistas por terem deixado as coisas chegar a este ponto sabendo que os cortes anunciavam este desemprego).
Já que as teorias económicas dos que nos governam não foram capazes de evitar isto (pelo menos é o que diz a senhora Christine Lagarde, que se enganaram no multiplicador cortes-recessão e que, no caso dos países periféricos – terá lido alguma coisa sobre o teorema de Fermat-Weber que descreve a absorção da energia dos componentes periféricos pelo componente central? – os cortes podem ter um efeito ainda mais demolidor quando ultrapassam os limites);
já que a velocidade de aceitação das propostas dos economistas aterrados é tão baixa (vá que nalguns paises da UE já há taxas sobre transações financeiras, já há limitações rigorosas de short selling e de CDSs, mas tanto que ainda falta, numa teoria dominada, como disse Krugman, pelo medo mórbido da inflação);
então eu sugiro a sabedoria popular, a gestão por provérbios.
Como diz o provérbio chinês, não me dês o peixe para eu comer, não me concedas empréstimos a juros superiores à minha taxa de crescimento, dize-me antes como se faz e como se arranjam os instrumentos para pescar o peixe, não me instales aqui fábricas como os ursos de peluche que nem pagavam a renda das instalações para depois as levar, isto é, até podes vir para cá, mas fica cá tu também, não foi assim no tempo do marquês de Pombal? Com a estratégia da industrialização e a reorganização da economia (“structure follows strategie”, não o contrário).
Vê-se pelos apelidos que andam por aí…
Mesmo que alguém tenha de pagar mais impostos, desde que se façam as contas à distribuição da coleta sobre o rendimento do trabalho (25% da coleta) e do capital (9% da coleta) e se pague de acordo com os resultados das contas, mesmo que não faça o "ajustamento" igualitário de repente, para não enervar muito os mercados...