quinta-feira, 24 de junho de 2010

Rodoviarium XVIII - Manuel atropelado

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O Manuel foi atropelado. Estou aqui com ele no hospital.
Oh minha senhora, dizia uma senhora que assistiu a tudo, ele foi pelo ar e depois rebolou no chão.
Não sei como ele está. Levaram-no para as observações. Tinha a cara cheia de sangue e só gemia.
Manuel tinha de ir à Faculdade mas não queria demorar-se para voltar para casa e estudar para os exames.
Apanhou um táxi mesmo à porta de casa.
Desculpe, esqueci-me do dinheiro, só tenho aqui que chegue para pagar a bandeirada. Páre se faz favor, se quiser esperar eu vou num instante a casa buscar dinheiro, mas se quiser siga.
Já está em casa; balanço do acidente: uma clavícula partida e um traumatismo craniano mas dizem os médicos que está controlado.
Vai fazer os exames da Faculdade em Setembro.
O táxi está parado na faixa do meio, agora diz-se via, de quem vira à esquerda enquanto espera que o transito descendente passe.
Manuel olha para trás, não vem nenhum transito a subir a avenida e já há dois carros parados atrás do táxi. O taxi vai ter de seguir. Paciência. É capaz de não querer esperar do outro lado da avenida.
Manuel volta-se para a frente e diz bom dia ao motorista que resmunga qualquer coisa. Não se compreende como o motorista deixa sair o cliente no meio da avenida.
Manuel foca o olhar no manípulo de abertura da porta do lado direito, instante 0, o trinco salta e a porta entreabre-se, instante 2 segundos, a cabeça de Manuel está outra vez virada sobre o lado direito, instante 3 segundos, e vê que nada vem do lado de baixo da avenida, por isso empurra a porta enquanto apoia o pé direito no chão, instante 4 segundos.
Instante 0, a carrinha de transporte de crianças sobe a avenida, está a 150 metros de distância do táxi. Desloca-se a uma velocidade próxima de 70 km/h. Vamos dizer que em cada segundo avança 20 metros.
A carrinha vem vazia porque o motorista acabou de deixar o grupo do colégio do fundo da avenida. Vai agora buscar outro grupo de crianças e vai depressa porque os empreendedores desta prestação de serviços sabem o valor da produtividade e da competitividade que aprenderam nos cursos de gestão para empresas inovadoras , porque o motor da carrinha tem potência para ganhar velocidade na avenida que sobe, instante 2 segundos, a carrinha venceu 40 metros desde o instante 0 e está agora a 110 metros do táxi, e porque o motorista, que não leva o cinto de segurança posto invocando que perturba o seu trabalho, instante 3 segundos, que foi quando Manuel deixou de olhar para trás, já está a carrinha a 90 metros do táxi, é natural que Manuel não a tenha visto porque o desvio para a esquerda curva um bocadinho e os dois carros atrás contribuíram para a obstrução da visão, é muito experiente e cuidadoso e sabe conduzir depressa por entre obstáculos inesperados, além de ter também muita auto-estima considerando-se muito bom e rápido condutor.
Porém no instante 4 segundos, que é quando o pé direito de Manuel toca o chão, está a carrinha a 70 metros do táxi.
Manuel ergue-se sobre o pé direito com a porta meio aberta, instante 5 segundos, e tem de se equilibrar, instante 6 segundos, está equilibrado e a porta toda aberta, dá o primeiro passo, instante 7 segundos e avança o segundo passo, ao mesmo tempo que percebe uma mancha crescendo no canto direito do olho.
O cérebro expede as ordens para reagir, mas nada acontece porque antes que as ordens atinjam os centros de comando dos músculos, está a cumprir-se o instante 8 segundos, que é o instante em que a colisão brutal acontece.
A chapa amolgada do capot, contra o bloco do motor, é responsável pela fratura da clavícula, e o choque com o párabrisas pela face ensanguentada.
O cérebro não está a registar nada, a descarga de adrenalina bloqueou todas as células de memorização e Manuel não se lembra do que aconteceu então.
O motorista tem realmente bons reflexos, porque já vinha a travar, desde o instante 5 segundos que foi quando viu a porta meio aberta e estava a 50 metros do táxi. Mas levou meio segundo a reagir, mais outro meio segundo para pisar com força no pedal e o sistema de travagem reagir; iniciou-se a travagem ao instante 6 segundos, quando o táxi estava a 30 metros de distancia.
Deve ter batido a 45 km/h. Por isso o traumatismo craneano se deve apenas à queda após a projeção, por ter sido a cabeça a primeira parte do corpo a bater no chão e o corpo a rebolar, fugindo à carrinha.
Manuel já está em casa, já sai, devagarinho e com cuidados redobrados.
Vai fazer os exames da Faculdade em Setembro.
O resto da comunidade vai continuar, insensível, a circular a velocidades superiores às que estão regulamentadas.
E pior do que insensível, a achar que tem direito a andar depressa, e muito enjoada com a existência de radares de velocidade para 50 km/h, dentro da cidade.


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