domingo, 22 de dezembro de 2013

a manifestação e a manifesta falta de instalações sanitárias públicas nas estações de metro – memórias de 2008





Há um tipo de óperas que levanta grandes dificuldades para os seus encenadores.
São as que utilizam as multidões como personagens principais ou, pelo menos, decisivas.
São óperas que concentram a ação no coletivo, ao invés de muitas delas, em que são mais evidentes os dramas individuais.
Por exemplo, as óperas de Verdi, com intenção de participar no movimento da unificação italiana, como Nabuco, ou até as que aparentando dar mais relevo às personagens principais, como o Rigoletto ou o Baile de Máscaras, dão um papel crucial aos grupos de aristocratas organizados em grupos de interesses económicos ou de poder.
Ou as de Mussorgsky, Boris Gudonov e Kovantchina, e até os Fígaro de Rossini e de Mozart, com o seu contraste agressivo entre o aristocrata e o grupo de camponeses ou de desempregados.
Não que eu queira incensar os objetivos dos movimentos da multidão só por si mesma. Também não tenho grande fé numa razão que ilumine o caminho a seguir.
A racionalidade humana fica muitas vezes para trás, com a emoção a transformar a ação como num movimento de moléculas colidindo com as paredes do seu recipiente. É então que ficamos dependentes da famosa lei da entropia, auto regulando qualquer sistema isolado de  modo a atingir o equilíbrio no desordenamento máximo.
E contudo, devemos utilizar a razão, para tenta virar um pouco esse estado de desordenamento em nosso favor.
Em nosso favor, da generalidade dos cidadãos e cidadãs, claro, não de minorias.

Nisso pensava eu enquanto a manifestação arrancava, descendo a avenida da Liberdade.
O governo e a crise internacional e nacional tinham posto de acordo grandes faixas da nossa população.
Como causa próxima, a politica de desacreditação de professores, médicos, enfermeiros, funcionários públicos, e de fecho de hospitais, escolas e serviços púbicos, na mira de poupanças nas despesas públicas com a educação, a saúde e a segurança social.
Dir-se-ia que perante esta situação, se impunha uma análise quantitativa.
De que resultaria, por exemplo, depois de trabalhar as fórmulas do produto interno bruto de modo a eliminar os termos públicos, uma fórmula-chave para a resolução da questão: o saldo orçamental de um país é igual à soma de duas diferenças; uma é a diferença entre os investimentos privados (eventualmente acrescidos das transferencias de fundos estratégicos comunitários) e as poupanças também privadas; a outra é  a diferença entre as exportações e as importações.
Seria então desejável que as palavras de ordem da manifestação fossem as de reivindicar mais investimento em detrimento das poupanças e mais exportações em detrimento das importações.
Mas não, são outros os conceitos, mais emotivos, talvez, que mobilizam as pessoas.

Dado que era grande a afluencia de manifestantes, houve um momento em que, numa paragem forçada da marcha, o setor em que eu estava se encontrou com um grupo de militantes do comité central do partido comunista português.
O meu amigo sindicalista ativo no metropolitano sentiu-se na obrigação de me apresentar ao secretário geral como o engenheiro que a comissão de trabalhadores consulta muitas vezes e que nos faz uns cálculos de vez em quando para darmos mais força às reivindicações ou para responder á administração.
O secretário geral era de facto uma pessoa de estabelecimento fácil de empatia.
Garanti-lhe que o problema dos transportes era a excessiva dependência da economia do petróleo e do imposto sobre os produtos petrolíferos que tolhia o investimento nos transportes ferroviários, de maior eficiencia energética que o transporte individual.
Que era um problema os decisores não estarem sensibilizados para a necessidade de evitar o desperdício que todos os dias se faz com o transporte individual e a estrutura disforme urbanística, com o centro das cidades a desertificar e a degradar-se e as zonas suburbanas como dormitórios.
E que daqui não se consegue sair sem a aplicação dos fundos comunitários estratégicos.
O secretário geral apreendia bem os conceitos e fazia observações inteligentes.
Falámos da ameaça que já se desenvolvia de privatização das empresas públicas de transporte, apresentada como solução dos seus défices crónicos, apesar de algumas experiencias desastrosas em Inglaterra, na Alemanha e na Bélgica, e de se saber que o principal da dívida se refere aos investimentos para a construção das redes que devem ser considerados como contas públicas e não contas da empresas.
E lancei-me numa dissertação sobre o azar histórico de não existirem no tempo de Marx as tecnologias que hoje estão disponíveis e que permitiriam, por exemplo, evitar as experiencias de centralização excessiva.
Graças à informática, à miniaturização do processamento eletrónico e às telecomunicações a inteligência distribuída é agora possível e pode ser utilizada como ferramenta essencial da democracia direta, da democracia participativa.
Talvez que a disponibilidade de tecnologias desenvolvidas tivesse permitido ao engenheiro Palchinski, consultor do desenvolvimento industrial, petrolífero e mineiro dos primeiros tempos da união soviética, criador dos princípios de análise de fracassos e sua correção e vítima do estalinismo em 1928, evitar o desvio da economia da união para a restrição inadmissível dos direitos humanos.
Talvez que uma das causas da fragilidade da economia portuguesa seja o pouco peso da engenharia nas decisões.
O secretário geral ouvia encantado a tese de que não são só os modos de produção e os modelos da sua posse que condicionam o processo histórico, mas que, ultrapassados os determinismos de um conceito científico pré-quantico e pré relativista, as tecnologias desempenham um papel importantíssimo na organização da sociedade.
Mas um militante aproximou-se correndo e requisitou a sua presença para análise, formulação dialética de tese e antítese e proclamação da síntese sobre outras questões momentâneas noutro local da manifestação. 
Chegados ao Terreiro do Paço, a comissão organizadora, pluralista, fez aprovar a moção a entregar ao governo e entoou-se o hino nacional.

No grupo de professoras da minha mulher, punha-se um problema comezinho.
As instalações sanitárias dos cafés e pastelarias da zona estavam com filas repletas de pretendentes ou inacessíveis aos manifestantes.
As estações de metropolitano do Terreiro do Paço e da Baixa Chiado também não tinham, aliás de há muito, as instalações sanitárias em serviço público.
E esta é mais uma das manifestações do alheamento da realidade por parte dos decisores portugueses.
Sentem que o voto legitimou a forma como pensam todas as questões, ou como os políticos eleitos delegaram nos administradores, atribuindo-lhe o carater divino que Bossuet atribuiu aos monarcas absolutistas.
Ou não pensam, porque não vão a manifestações e não sentem a necessidade de utilizar as instalações sanitárias públicas em ambiente de multidão.
Será um conceito angelical dos cidadãos e cidadãs, mas a verdade que é que no século XIX havia essa preocupação, desenvolveram-se modelos de instalações sanitárias públicas.
Na verdade, essa preocupação já existia no tempo dos romanos, é ver os vestígios em Conímbriga ou lembrarmo-nos da discussão entre Vespasiano e Tito sobre o imposto sobre as latrinas.
Agora não, fecham-se instalações sanitárias para economia de custos operacionais e de pessoal.
As experiencias feitas em Portugal com equipamentos de utilização  mediante moedas ou fichas de aquisição em máquinas de aceitação de moedas , notas ou cartão de débito também acabam por não resultar devido às preocupações de economia com a manutenção. 
Ou estaremos simplesmente perante mais um exemplo de vivermos sistematicamente abaixo do que poderíamos lucrar se fizéssemos os investimentos certos, se conseguíssemos sair da armadilha da pobreza que reduz o rendimento dos investimentos.

De modo que, regressado à rotina profissional, desenvolvi um pequeno estudo com recurso aos especialistas internacionais de equipamentos na via pública.
Os representantes  da IB Des eaux, multinacional com toiletes automáticos (APT – automatic public toilet) nos USA e resto do mundo, forneceram-me elementos para a contabilização de custos e benefícios e o acesso ao World Toilet Summit, onde pude ler uma experiencia interessantíssima na Índia, em que as pessoas eram pagas para utilizar os equipamentos de onde depois se retiravam os resíduos para fertilizantes, da     mesma maneira que os óleos usados dos restaurantes eram aproveitados para o fabrico de biodiesel.
O estudo incluía os benefícios decorrentes de evitar a propagação de doenças por urina ou defecação em lugares de passagem do público.
Juntei fotos de utilizadores do metro na estação da Baixa, servindo-se das grelhas de ventilação (horror, lançando as bactérias no ar) ou dos seus vestígios nas caixas fechadas dos elevadores (mais tarde substituidas por portas envidraçadas).
Calculei os custos das remodelações de instalações sanitárias em 14 estações (as mesmas, para chamar a atenção da administração para o problema, que não cumpriam as normas de acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida).
Comparei com as receitas mediante acesso por moeda, notas ou cartão de débito, estimando, para as 14 estações, 180.000 euros por ano, admitindo 3.000 utilizações diárias e 20 centimos por utilização.
E, mais importante do que isto, contabilizei o valor dos resíduos, isto é, o valor comercial do amoníaco e compostos azotados para fertilizantes que poderiam retirar-se da urina produzida pelos utilizadores, numa estimativa anual de 4 m3 de ureia e 6 m3 de fosfatos e amónia.   
O investimento era rentável se considerássemos um agravamento de apenas 5% nos custos de pessoal e consumíveis das operações de limpeza nos contratos externos de limpeza das estações, e de 2% nos custos de operação do pessoal afeto às estações.
Enviado o estudo à administração, José Sancho e eu recebemos com curiosidade a visita de Ivo Casais.
Mas ele não vinha tratar do plano de remodelação, abertura ao público  e rentabilização das instalações sanitárias das 14 estações.
Nem tão pouco aprofundar o conhecimento sobre o plano de adaptação das estações às pessoas com mobilidade reduzida.
Vinha verificar in loco quantos arquitetos estavam nos seus gabinetes.
Quis saber o que faziam e que trabalho tinham distribuido.
Garanti-lhe que quando chegasse ao seu gabinete teria no seu email um quadro Excel com a atividade solicitada e em execução dos arquitetos (era verdade, eu tinha um quadro Excel com o registo de toda a atividade dos técnicos meus colaboradores) e que grande parte tinha de ser exercida nos locais de intervenção, como até era o caso naquele momento da estação do Campo Grande, em que a remodelação das instalações sanitárias teve mesmo de avançar integrada no conjunto das alterações motivadas pela construção da sede de uma grande operadora de telecomunicações mesmo ao lado da estação.
Não teve seguimento a proposta das instalações sanitárias, nem da acessibilidade das pessoas com mobilidade reduzida.
Mas em contrapartida, a minha colega dos recursos humanos recebeu instruções da administração para implementar o sistema de controle de ponto para todos os técnicos licenciados de engenharia e de arquitetura.


Referencias:
- teoria do fracasso de Palchinski – “Adapte-se” de Tim Harford, editorial Presença, 
                                                                                                                   capitulo 1.7
- valor económico dos toiletes públicos -        
                                         http://www.slate.com/id/2195071/?GT1=38001


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