sábado, 1 de novembro de 2014

Agora, o Mein Kampf dos financeiros

Agora, que vivemos sob o ímpeto desmantelador do conceito do metropolitano como serviço público prestado por um operador público, e menosprezador dos seus ativos humanos, físicos e intangíveis, faço esta reflexão a propósito da saída de dois diretores/supervisores/reguladores do Banco de Portugal para a Price Waterhouse Coopers.

Este blogue, correndo o risco de dizer disparates mas no uso do direito de expressão, tem defendido sistematicamente que a regulação só poderá ser exercida com eficácia, isto é, garantindo que as forças do mercado atuem no interesse coletivo, se a entidade pública detiver "know-how", experiencia e conhecimento rigoroso do negócio. E que isso só se consegue se exercer a mesma atividade que os regulados.
Que o mesmo é dizer, só se pode regular aquilo que se conhece (não é aceitável que um governador de um banco central de um país se pronuncie sobre um grupo económico que está a afetar toda a economia desse país com base no relatório desse grupo do trimestre anterior, nem que sejam prestadas informações a Bruxelas quando já estava decidido fechar o banco desse grupo 4 dias depois mantendo as ações em bolsa) e se se tiver informação sobre os off-shores envolvidos (o que se consegue com legislação internacional sobre transmissões automáticas de informação, vulgo fim do sigilo bancário).
Nem tão pouco é aceitável que um banco central nacional se demita das suas funções, por perda de informação, a pretexto do BCE assumir a supervisão dos bancos de primeira linha.
Assim, ao que se assiste é apenas a uma transferencia de funções da esfera pública para a esfera privada (neste caso a PriceWC).
As declarações desta, disfarçando tratar-se de uma promiscuidade inaceitável entre o setor público e o setor privado, sem o mais pequeno período de nojo, constituem assim um verdadeiro Mein Kampf, anunciando o que se pretende, o controle da supervisão pelos supervisionados.
Como diria António Aleixo a propósito desta enorme inovação, calai-vos, que pode o povo querer um mundo novo a sério.

PS em 8 de novembro de 2014 -  A propósito das declarações do senhor primeiro ministro também sobre a prosmicuidade entre o poder politico e o poder financeiro e empresarial (esquecendo a promiscuidade do anterior secretário de Estado do seu partido Oliveira e Costa e do seu banco BPN/Sociedade Lusa de Negócios com a esfera politica, e as suas ligações ao que seria presidente da República para obtenção de mais valias, e esquecendo as tentativas de angariação pelo secretário de Estado Relvas de contratos de formação de operadores de aeródromos com fundos comunitários para a sua própria empresa), eu sei que as técnicas de marketing partidário são assim, atirar poeira para os olhos dos eleitores lançando as acusações que se recebem dos adversários politicos sobre esses mesmos adversários. Ouve-se assim o senhor primeiro ministro assegurar virginalmente que é contra a prosmicuidade entre o poder politico e o poder empresarial e financeiro. Ouve-se, e pensa-se na resposta torta de Millor Fernandes, já sei o que é e o que faz, só quero discutir o preço.

Adonis, poeta árabe sírio

Este blogue saúda o triunfo do partido laico Nida Tunis (chamamento da Tunisia) nas eleições da Tunisia.
Espera-se agora que consiga formar governo com a maior parte das forças politicas.
Não se deseja uma maioria absoluta que imediatamente provoca a rejeição das outras forças, deseja-se a compreensão e a cooperação entre as diferentes sensibilidades, coisa aplicável em qualquer latitude ou longitude.
Transcrevo a propósito partes de uma entrevista de Adonis, poeta sirio árabe, numa altura em que na Europa ainda existe um partido religioso a dirigir a principal economia (partido democrata-cristão da Alemanha), o chefe do Estado inglês é o chefe da igreja anglicana e nenhum comentador recorda as palavras do primeiro chefe de Estado paquistanês, que primeiro se é cidadão e só depois muçulmano:

"Desgraçadamente os politicos não escutam os poetas"
"A primavera árabe não foi uma revolução porque não tinha um discurso. As oposições jamais falaram de laicidade, da libertação da mulher, da mudança da lei corânica.
Que revolução era essa? Só queriam mudar o regime, e mudar de regime de nada serve quando permanece a mesma mentalidade.
Os árabes têm de fazer a sua revolução interior, quer dizer, repensar a religião à luz da modernidade e separar o religioso do cultural, do politico e do social para que se converta apenas numa crença individual.
Na Europa fez-se essa revolução e separou-se o Estado da Igreja, que na Idade Média era pior do que entre muçulmanos de hoje.
Nada tenho contra a religião como fé individual, mas estou contra uma religião institucionalizada e imposta a toda uma sociedade.
Há que anular as diferenças entre as confissões. O correto é, por exemplo, que no Egito os cristãos coptas tenham os mesmos direitos dos muçulmanos."

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Agora, crónicas de um metropolitano

Agora, que vivemos sob o ímpeto desmantelador do conceito do metropolitano como serviço público prestado por um operador público, e menosprezador dos seus ativos humanos, físicos e intangíveis, faço esta reflexão a propósito do livro “Crónicas de um metropolitano”, de Fernando Antela Saraiva, ed. Chiado Editora.
O livro reúne algumas crónicas já incluídas neste blogue sobre alguns aspetos da vida e das problemáticas no metropolitano de Lisboa entre 1974 e 2010 ,período em que o autor destas linhas prestou serviço na empresa.
Tive muito prazer em ver muitos amigos e amigas, netos e sobrinhos, antigos colegas de curso e de trabalho na sessão de lançamento no dia 26 de outubro de 2014.
Talvez ingenuamente e imodestamente, gostaria que este livro fosse como a canção de intervenção, que é precisamente a primeira história que no livro se conta, isto é, que fosse um livro de intervenção, que incomodasse os decisores políticos e os decisores empresariais que, parafraseando Duna Guedes, “não sabem nada de metropolitanos”.
Existe neste momento uma angustia entre os trabalhadores do metropolitano pela incerteza do futuro e pelo menosprezo com que são tratados.
Não é assim que se mobilizam e se motivam os trabalhadores para se atingirem objetivos.
Não é insistindo na sanha de redução de quadros de pessoal, é contando com as pessoas e as suas capacidades.
Não é  sobrecarregando a segurança social com as pessoas no desemprego que se relança a economia do país.
O metro pode e deve colaborar nesse relançamento, desde o desenvolvimento dos serviços de engenharia como os que se prestam aos metros de Argel e de S.Paulo, até à aplicação de fundos comunitários na melhoria da mobilidade urbana e da eficiencia energética através da substituição de deslocações em transporte individual.
Foi disponibilizada aos decisores políticos informação sobre a razoabilidade dos indicadores do metro quando comparado com os homólogos estrangeiros, sobre a natureza pública da dívida que não da empresa, sobre os resultados negativos das privatizações em Londres, sobre as medidas de financiamento em França como o “versement transport”, sobre as medidas de penalização do acesso do transporte individual ao centro das grandes cidades como Londres e Estocolmo, e sobre a insustentabilidade e desperdício energético por ser de 60% a quota do transporte individual nas deslocações diárias metropolitanas.
Mas os decisores insistem.
Têm legitimidade para o fazer porque ganharam eleições, embora enganando eleitores durante a campanha eleitoral.
Nós temos o direito constitucional de livre expressão para afirmar, por “saber de experiência feito”, que eles destroem o que outros construíram porque são incapazes de construir.

É principalmente o que tentei dizer com o livro.

Jonas Salk

Agora, que vivemos sob o ímpeto desmantelador do conceito do metropolitano como serviço público prestado por um operador público, e menosprezador dos seus ativos humanos, físicos e intangíveis, faço esta reflexão a propósito da comemoração pelo Google do centenário de Jonas Salk, descobridor da primeira vacina contra a poliomielite.
Perguntado porque não registava a patente, respondeu "não se pode patentear o sol". Vivia do seu ordenado do laboratório da universidade de Pittsburgh, onde tinha feito a descoberta.
Seria bom que os teóricos e os práticos do neo-liberalismo que nos governam entendessem bem estas palavras, desde o primeiro ministro ao ministro concedente dos trasnportes e das taxinhas.
Não é o interesse individual nem o lucro que justificam tudo.
Há vida fora desse subterrâneo.  

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Economicómio - Sabem o que fazem?

Esta é uma reflexão sobre o grau de credibilidade que nós, ignorantes da ciencia económica, podemos atribuir aos profissionais, e bem assim, que valor podemos dar às suas decisões condicionantes do nosso quotidiano e do nosso futuro, sendo certo que os deles, graças ao elevado nivel de salários e aos generosos planos de pensões de que dispõem não parecem comprometidos.

Dizem as noticias de hoje que o setor financeiro nacional é muito maior do que se julgava e o tamanho da economia real (empresas não financeiras) é muito menor.
A justificação apresentada é que se passou das regras SEC1995 para as regras SEC2010.
Não aceito tal justificação, porque o que me ensinaram na alma mater e eu tentei aplicar e os meus colaboradores eram avaliados em função disso, é que o gestor de um bem ou serviço deve conhecer os elementos fisicos e os indicadores reais desse bem ou serviço. Alem de que as regras SEC2010 não surgiram por geração espontanea. Tal como a  passagem da divida das empresas publicas para a divida publica. Há mais de 10 anos que nós, no metropolitano, criticávamos a não contabilização nas contas publicas. Até as administrações se não esqueciam de o relembrar em todos os relatórios e contas.
Não venha a senhora ministra das finanças agora desculpar-se pelo seu péssimo desempenho, com o seu ar de anjo perseguido quando todos sabemos que o que está a pensar não corresponde aos seus sinais exteriores.
Não era preciso ser economista para saber que o peso do setor financeiro em Porugal é um cancro.
Até Vitor Bento o disse como já se referiu neste blogue. O setor não tansacionável afunda o país.
Por  tudo isto não surpreende a surpresa reprovadora da UTAO perante o otimismo não suportado nas previsões macroeconómicas do orçamento de Estado para 2015. Que não encontra fundamento para a previsão de 66 milhões de euros nas previsões das receitas das concessões (porque  não dizem uma evidencia, os decisores sobre as concessões são ignorantes e incompetentes?). Pois não, fazem como a Mofina Mendes. Estão atrasados 5 séculos, a gerir um país, eles e os seus patrões não controlados por regras demcráticas do BCE e FMI.
Melhor fora que a população perdesse o medo e lhe chamasse os nomes que a ligeireza com que põem em causa os salários, o emprego e as pensões dos cidadãos e cidadãs justifica.
A começar pelo facto evidente que o novo presidente da comissão europeia, inegavelmente um senhor simpático e bem intencionado, foi primeiro ministro de um país que é um verdadeiro off-shore no coração da Europa, que não engana, o peso do setor financeiro é enorme, como gostam de dizer os economistas falhados.
Nem sequer são capazes (obviamente porque o poder financeiro e económico capturou o poder politico) de implementar uma taxa de 0,1% sobre as transações financeiras (refiro-me a taxas sobre transações mobiliárias, não sobre mais valias), coisa que há mais de 5 anos este blogue vem falando (na verdade, mais para 0,5% que para 0,1%), acompanhada de medidas preventivas contra os off-shores como a comunicação automática (levantamento do sigilo bancário) e sanções em caso de incumprimento como taxação incomportável de importações.
Os eleitores de esquerda e de direita têm de por fim a esta aberração dos dogmas impostos pela religião dos economistas que nos dirigem e expulsá-los dos centros do poder.
É uma aberração termos coisas de interesse público entregues a privados que dependem de assembleias de acionistas em que uma voz pode ter mais do que um voto. Como se sabe, há séculos que a humanidade descobriu que em assuntos de interesse coletivo o método é uma voz, um voto. 
Tem de se chamar os bois pelos nomes, criminosos e malfeitores que se apropriaram do que era de todos (ultimo exemplo, a água e os residuos, cuja privatização é tecnicamente um disparate).
A chave que explica tudo isto é simples, a captura do poder politico pelo poder económico e financeiro, e a falta de independencia das empresas do poder politico, económico e financeiro.
Uma empresa pública, ao serviço de uma comunidade, se não dispuser de independencia para utilizar os seus recursos, como tem sido o caso com os comissários politicos que as têm dirigido, cai no limbo das privatizações e concessões.
E são os técnicos das empresas privadas e das empresas públicas que, para não perderem os seus empregos, executarão os procedimentos para essas privatizações/concessões.
Acusam uns os funcionários públicos de serem uns acomodados sem iniciativa por terem o emprego garantido.
Mas os empregados das empresas privadas só têm emprego se se sujeitarem aos dogmas de cima.
É uma forma, como outra qualquer, de perder a liberdade (já imaginaram o que aconteceria se as assembleias de acionistas passassem a ser subordinadas aos critérios de democracia estabelecidos para a politica, em vez de subordinadas ao interesse pelo lucro?).


quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Os congressos das elites e o que as elites andam a ler

Confesso que não gosto de ir a seminários, conferencias ou congressos, mas até gosto depois de lá estar, se o assunto tem interesse técnico e impacto na comunidade.
Também vou a muito poucos.
Mas choca-me, talvez por excesso de sensibilidade minha, o ar soberano das elites que os promovem, que neles se exibem, que neles demonstram a incapacidade para fundamentar as suas opiniões segundo o método científico.
Raramente apresentei trabalhos em seminários. Das poucas vezes fiquei com a ideia de que  as pessoas não tinham seguido o meu powerpoint. Que até o moderador não  tinha percebido. Certamente por limitações minhas.
Choca-me ainda ver a auto-satisfação e o cabotinismo dos governantes ou familiares que comparecem nesses seminários, acolitados pelos presidentes dos eventos, na maior parte das vezes ligados aos interesses de empresas ou grupos económicos mais ou menos internacionalizados que os patrocinam.
Para mim, o sucesso de um seminário, congresso ou conferencia medir-se-ia por uma alteração de comportamento e um inicio de atividade segundo um rumo demonstrado no evento como util para a comunidade.
Mas julgo que o sucesso é antes medido pelo impacto mediático, talvez até diplomático, pelo marketing das empresas e pela visibildade dada a alguns oradores, moderadores ou presidentes do evento. Ou por algum negócio facilitado.
Não quero dizer que não haja boas intenções ou voluntarismo desinteressado nalgumas iniciativas.
Ou simplesmente consciencia de responsabilidade social de uma ou outra fundação.
Veja-se por exemplo o seminário sobre a liberdade na democracia. Quando circulou o convite para assistir já estava o programa fixado. Não houve apelo público a apresentação de comunicações. E nos paineis o peso de personalidade mediáticas.
Pode ser defeito meu, insuficiencia minha de participação cidadã, mas nenhum dos participantes teve alguma vez contactos comigo ou com o círculo dos meus colegas e dos meus amigos. Nem no serviço militar, nem na universidade, nem na atividade profissional.
Reparem que não estou a vitimizar-me, conheci muita gente boa ao longo da minha vida, que teriam uma palavra a dizer. Mas não, não fizeram parte do núcleo seleto dos convidados.
Não fizeram parte das elites.
Talvez porque do ponto de visto ideológico não esteja perto dos partidos que habitualmente gerem a coisa pública, com os resultados negativos conhecidos.
Talvez porque do ponto de vista profissional tenha tido poucas relações com as profissões que dominam a economia e a politica do país, advogados, economistas.
Talvez a profissão de engenharia, a sua preocupação, quando os seus servidores não atraiçoam o que aprenderam na alma mater,  em fundamentar com dados reais de utilidade pública e em realizar com uma programação concreta.
Talvez porque não me identifico com os métodos da intelectualidade portuguesa, tão  nem com os processos de reconhecimento dos seus méritos.
Pena não ter havido um convite público, não para só para assistir, mas à participação efetiva.
Ou tomemos o exemplo da grande fundação que é um exemplo de uma politica cultural de interesse nacional. E que convidou as elites para falar das politicas públicas.
Existe uma certa ironia no tema, quando muito do que a fundação faz competiria à secretaria de Estado da cultura.
Existe uma ironia quando o secretário de Estado da cultura comparece no evento e é cumprimentado pelo presidente da fundação, emérito profissional da banca.
A cultura em simbiose com as grandes empresas petrolíferas e com as elites bancárias.
Não tem mal nenhum, sempre que o Metropolitain de Nova Iorque transmite uma ópera não se esquece de lembrar que isso só foi possível graças ao generoso apoio dos seus mecenas, acionistas principais de empresas que geram lucros.
Mas choca-me, como disse, ver perguntar-se às elites o que se deve fazer para sair desta crise, quando foram as elites que dirigiram o país, que aconselharam os seus políticos, que formataram o pensamento dos leitores dos jornais de opinião e dos eleitores.
Eleitores esses, quer tenham votado quer se tenham abstido, que são usados, ou desfrutados, pelas elites para justificarem o seu poder politico e o seu poder económico. E depois de desfrutados, acusados de serem os responsáveis pelos gastos acima das posses do país e levados a pagar o resgate.
Mas eis que o professor de economia da universidade norte-americana, autor de comentários lidos com reverencia, propõe em plena conferencia, com vivacidade intelectual, a indexação do pagamento da dívida pública ao crescimento da economia.
Quando leio no jornal acode-me à ideia a pergunta, o que andam a ler as elites tão ligadas ao sistema neste país (ou na tal universidade norte-americana)?
E tento adivinhar, andam a ler o capital no século XXI de Thomas Piketty, já publicado em português pela Temas e Debates/Círculo Leitores, que enchem as montras das livrarias.
Já aqui foi referido, o livro. O seu tema central é, fundamentando com a análise de dados reais desde o século XVIII, o ser maior a taxa de retorno do capital do que a taxa de crescimento da economia, e que isso só pode gerar desigualdades sociais. Como solução, uma discreta taxação dos rendimentos do capital com base nas transmissões automáticas entre bancos. Sim, era o fim do sigilo e dos off-shores, uma espécie de utopia. Mas acalmem-se as elites que Thomas Piketty não se confessa nem quer ser revolucionário.
De modo que o professor da conferencia sobre politicas públicas resolveu interpretar assim Piketty.
E eu confesso que não sei se bem se mal, mas sei que os pobres economistas andam entretidissimos e preocupados a tentar descobrir erros no Execl de Piketty, sem conseguir.
Mas há um problema tipo paradoxo.
O livro tem 910 páginas e o seu autor diz que o escreveu para convencer os eleitores, não os politicos. De facto, eleitores bem informados arrumariam os politicos defensores da austeridade anti-investimentos com as análises e os gráficos deste livro, mas teriam de o ler. Embora grandes defensores da austeridade a tout prix como Oliver Blanchard e Vitor Gaspar andem agora a pregar "investimentos inteligentes", talvez porque as taxas de juro para o nosso país sejam agora de 3,5% quando eram em abril de 2011 de 11% .
910 páginas para mudar o sistema é pedir demasiado aos eleitores, embora pareça que não devia ser necessário lê-las para acreditar que não podem ser os bancos (e Wall street) a decidir as regras do jogo. Assim como assim, se a EuroDisney é um sucesso de procura, por que razão tem 1700 milhões de euros de dívida? Não deveria antes mudar-se as regras bancárias?
Mas enfim, tentando converter leitores em eleitores, apresento três gráficos do livro, com as legendas do autor. Vejam como no tempo dos Beatles o mundo era mais igualitário e havia esperança (Imagine...):





Ver juntamente com este livro os seguintes:

- A riqueza oculta das nações, inquérito sobre os paraisos fiscais, de Gabriel Zucman, ed, Temas e Debates/Círculo Leitores, 143 páginas

- O espírito da igualdade, por que razão sociedades mais igualitárias funcionam quase sempre melhor, de Richard Wilkinson e Kate Pickett, ed. Presença, 350 páginas

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

No equinócio do outono de 2014, ainda os complementos de reforma

Alguém teve a ideia, uma vigília.
Numa estação de metro, para chamar a atenção dos passantes e, mais uma vez, da comunicação social.
Uma espécie de uma pequena "occupy a metro station", nada que se compare com a "occupy wall street", ou a "occupy Hong Kong", que desgraçariam a policia do senhor ministro Macedo.
E assim foi que nos encontrámos na estação do marquês, bem cedinho, ainda não eram as sete da manhã, quando os desprezados pelos senhores importantes do governo viajam nos transportes coletivos, saindo das tarefas noturnas de limpeza ou de manutenção, ou caminhando para a abertura e o apoio das células de produção.
Como escreveu Carlos Oliveira ao descrever o acordar de Lisboa:

Acordam pouco a pouco os construtores terrenos,
gente que desperta no rumor das casas,
forças surgindo da terra inesgotável,
crianças que passam ao ar livre gargalhando.
Como um rio lento e irrevogável,
a humanidade está na rua.


Receei que das correntes de gente que se deslocavam apressadas na correspondencia entre as duas linhas, escoando-se por entre os reformados com cartazes, saissem vozes criticas e discordantes.
È que o corte médio nos 1400 reformados foi de cerca de 640 euros, valor superior ao do vencimento de muitos dos que passavam.
Mas não, adivinho a contrariedade em alguns rostos, aqui ou ali uns resmungos, mas até comentamos entre nós que aos poucos as pessoas compreendem que o mal é a política de desvalorização dos salários que nos é imposta pela troika e pelos seus seguidores cegos, que prejudica todos os que trabalham em empregos não de favor.
Esta deflação mata-nos, porque os  preços baixos perseguidos pelo BCE e pela Alemanha só se conseguem com desemprego elevado, que faz baixar a procura nas regiões periféricas, enquanto nas regiões centrais e mais ricas condiciona o crescimento.
Muitos de nós já não aguentam muito tempo de pé. 
Sentamo-nos na esplanada do quiosque dos croissants e cafés. 
As reporteres da TV aproveitam para entrevistas que depois serão cuidadosamente visionadas antes da transmissão para não desagradar aos acionistas principais ou aos delegados do governo, no caso da RTP (estou a chamar delegados do governo aos admiinistradores, já que não foram nomeados após concurso público, como o é, por exemplo, o governador do banco do UK), a quem interessa que a opinião pública considere os reformados do metro uns privilegiados.
Um de nós explica pacientemente à reporter que se finge desinformada que os complementos de reforma se destinavam a aproximar o valor recebido após a reforma do ultimo salário, de acordo com uma fórmula válida no acordo coletivo da empresa desde 1973 e que deixou de ser aplicada aos novos empregados depois de janeiro de 2004.
E que a própria empresa, para apresentar indicadores de redução do quadro de pessoal, se empenhou em facilitar as saidas antes da idade da reforma.
 Isto é, havia um contrato em vigor que deixou de ser cumprido por uma das partes, e que agora a justiça nacional é rica em obstáculos que impedem o que se faz quando um contrato não é cumprido: ação de penhora sobre os bens imobiliários, que os há, ou sobre as rendas comerciais não ligadas ao transporte, que também as há (aluguer de fibra ótica, de espaços comerciais, de publicidade, de utilização do parque de sete rios para a camionagem).
Que era uma cláusula de privilégio? 
Sim, era, mas contratada numa altura em que os salários no metro eram inferiores ao das outras empresas públicas ou privadas.
E agora num sistema em que se mantem a exploração descarada dos trabalhadores menos qualificados (lá está, a bíblia da competitividade). E em que existem planos de pensões, de complementos e de créditos fiscais mais favoráveis em empresas como a PT, a EDP, o banco de Portugal, os CTT, a TAP...
E que se deve nivelar por cima e não por baixo, como os passageiros do metro compreendem.
Há casos em que o rendimento de um eletricista reformado era de 1400 euros brutos e foi reduzido de 700 euros, apesar de 42 anos de descontos. De um engenheiro com 40 anos de descontos que recebia 2000 euros e lhe foram cortados 1000 euros.
E quanto aos trabalhadores ativos atuais, apresentados pela comunicação social como privilegiados que absorvem os dinheiros dos contribuintes? 
Um maquinista próximo do nível máximo ganha menos de 1400 euros brutos; com os subsidios, nomeadamente de quilometragem, notando-se que estes não contam para o cálculo da pensão, pode chegar aos 2800 euros brutos.
No caso de um eletricista de sinalização, o vencimento não chega a 1200 euros e, com os subsidios, pode chegar a 1900 euros.
Mas tem de se reparar que são profissões que exigem qualificação, uma formação rigorosa em procedimentos de segurança, e que erros nesta profissão podem provocar acidentes.
Estranham-se estes vencimentos e estas pensões?
Então o que se deve fazer? pergunta a reporter, ao que o entrevistado responde: a primeira coisa a fazer é demitir o governo, para encetar politicas de crescimento.
Acho que essa parte foi cortada, bem como aquela em que o colega, já um pouco exaltado, dizia que era engenheiro, e não reconhecia competencia ao secretário de Estado Sergio Monteiro para opinar sobre as maravilhas das privatizações ou concessões das empresas ferroviárias de transporte,  nem ao senhor ministro Maduro para discutir e decidir quais os investimentos para os fundos comunitários, porque são assuntos de engenharia, não juridicos nem politicos.
Indiferente à discussão, o colega reformado especialista de telecomunicações, que se tem mantido atualizado, aproveitava o wi-fi gratuito na estação para seguir no seu smartphone o programa da rtp2 sociedade civil, dedicado, nem de propósito, aos idosos.
O sociólogo explica que o conceito de violencia sobre os idosos alargou-se, há por exemplo a violencia financeira... (como se aplica aos reformados em geral pelas pequenas reformas, e em particular aos reformados do metro, pela redução brutal dos rendimentos) ... e esta ideia desgraçada da centralização hospitalar, ajudando a desertificar o interior... (pois, para poupar impostos aos habitantes das cidades)...
Mas eis que vejo vinda do corredor do tapete rolante a figura do professor Cesar das Neves.
Eu simpatizo com o senhor.
Não é o caso do meu colega reformado que resmunga, aquele malandro, anda a dizer que somos uns privilegiados, como se não nos tivessem já imposto sacrifícios que não impuseram a outros. Como se a ameaça da concessão não seja por si só suficiente para os  protestos. Ele que se informe sobre o resultado das privatizações e concessões em Londres.
Mas eu simpatizo porque o vejo a frequentar os transportes coletivos.
Não é como o seu colega professor que foi um efémero ministro da economia mas que se desloca de carro com motorista para assistir a uma sessão num museu da Baixa ou para se deslocar das suas consultorias para as suas universidades. Nunca se lhe ouviu uma palavra sobre a insustentabilidade da importação de combustíveis fósseis para fazer deslocar carros com motorista de um lado par ao outro de uma cidade de tráfego automóvel saturado nas horas de ponta.
É isto que digo ao professor Cesar das Neves quando ele diz que não há dinheiro depois da bebedeira dos gastos com infraestruturas públicas como o metro.
Como justificar a compra de 10 000 automóveis ligeiros por mês para encher as cidades e as vias rápidas de acesso às cidades?
São mais de 2 000  milhões de euros por ano.
É verdade que o negócio dos importadores não iria gostar.
Que me diz, professor, do primeiro anuncio na TV a seguir ao programa do doutor Medina Carreira em que ele se cansa a dizer que não há dinheiro para as despesas sociais seja o Mercedes classe C de quase 40 000 euros?
É que há dinheiro, mas em segmentos bem delimitados da sociedade.
Não no grupo de reformados do metro a quem cortaram duma vez entre 40 a 50% do seu rendimento, a que se deve adicionar o corte geral nas pensões de segurança social, independentes dos complementos de reforma.
Mas o professor não me responde, embrenhado na discussão com outros reformados, a quem faz questão de garantir que compreende porque estão revoltados e sentidos.
Diz isso porque é cristão, e  é a sua maneira de aliviar através do perdão a sua consciencia.
Eu gostaria de lhe dizer, mas não posso, que ele já se perde na corrente dos passageiros que se engolfam nas escadas para  linha amarela.
Que também já fui cristão, e que penso ter conservado a compaixão, a solidariedade e o espirito de igualdade depois de me ter desligado das obrigações da fé.
E que por isso me comovo quando leio citações como esta, que encontrei no livro "os dez erros da troika em Portugal, a austeridade, sacrificios e empobrecimento", de Rui Peres Jorge, ed. a esfera dos livros:

"orgulhamo-nos hoje de ser suficientemente duros para infligir sofrimento aos outros. Mas se observassemos um costume antigo segundo o qual ser duro consistia em suportar o sofrimento em vez de o impor aos outros, talvez pensassemos duas vezes antes de tão friamente preferirmos a eficiencia à compaixão"  Tony Judt, em Ill fares the Land 

São já cinco da tarde.  
Continua uma presença significativa de reformados.
Já passaram por aqui deputados dos partidos que não os do governo, delegações da CGTP, da UGT, da APRE, do MRPP.
Salva-nos Tatiana e as suas colegas, que operam o quiosque de croissants, cafés e merendinhas.
Este governo vai manter o corte dos complementos. 
Total. 
Não quer saber da redução brutal de 60% a 70% dos rendimentos, entre 2013 e 2014. Preocupar-se-á com medidas de maior impacto mediático para se preparar para as eleições de 2015.
Vai manter a hipocrisia de "suspender" os complementos enquanto os resultados liquidos do metro forem negativos. 
Claro que, da forma como são contabilizados, com indemnizações compensatórias e distribuição de receitas arbitrárias, sem contabilizar os benefícios da poupança de emissão de CO2 e de importação de combustíveis fósseis, claro que são negativos.
Não há metropolitanos no mundo que os tenham assim positivos. 
Isto digo ao meu colega reformado, apoiado na sua bengala mas felizmente muito melhor depois da operação.
Ah, mas reparo agora, vindo dos lados da EDP, cuja sede ainda não se deslocalizou para a zona da Boavista e São Paulo, com vistas para o rio, a roubar campo de visão ao miradouro de Santa Catarina, que se aproxima Sergio Figueiredo, um dos administradores da fundação da EDP, que ainda não se deslocalizou para a beira do rio, a nascente do museu da eletricidade. Projeto  à beira rio de integração estética, oportunidade e razoabilidade financeira duvidosas.
Não é reconhecido pelos meus colegas porque não entra em programas de televisão como Cesar das Neves.
Mas eu sigo a coluna dele no DN e apreciei imenso a análise que ele fez da evolução do PIB dos USA e do UK depois da crise de 1930, do Japão depois da crise de 1992 e da zona euro depois da crise de 2008.  Relacionou a duração antes da retoma com as medidas tomadas, crescimento após investimentos públicos, para aplaudir as orientações de Draghi e do BCE para os ditos investimentos públicos.
Por isso me chocou o artigo que dedicou às empresas de transporte, às medidas do senhor secretário de Estado, acreditando que vai poupar as indemnizações compensatórias,  e à divida de 20.000 milhões das empresas públicas de transporte, 3 vezes superior á do BES.
Deu-me a impressão de que falava sobre o que não sabia.
Ignorará que a enorme hemorragia da dívida do metro se deve aos investimentos do Estado nas infraestruturas dos tuneis que foram indevidamente levados à conta do metro e não às contas públicas (embora o Estado tivesse dado o aval)? Ignorará que foram os comissários politicos nomeados pelos governos (porque não sujeitos às regras dos concursos públicos) que contrataram os swaps?
Mas valerá a pena argumentar, quando a dívida da EDP é de 17.500 milhões de euros e o défice tarifário que lhe compete é da ordem de 2.400 milhões de euros (pois, o preço do título de transporte no metro também está abaixo do custo de produção)?
Valerá a pena argumentar que sim, o transmontano paga com parte dos seus impostos o  metro de Lisboa, assim como eu pago com parte dos meus impostos o serviço nacional de saude em Trás os Montes, que no interior é por definição de economia de escala economicamente menos eficiente.
Isto me preparava eu para discutir com Sérgio Figueiredo quando ele se deteve a ler os cartazes colados nos pilares, "alguns dos reformados do metro estão em dificuldades", "o complemento de reforma era um contrato desde 1973" ...  mas num instante retomou o passo e desapareceu na multidão.  
Em breve eram oito da noite.
Rarefaziam os reformados presentes, que era dia de jogo na TV.
Tatiana recolhia os restos nas mesas da esplanada.
Ajudei-a a apanhar uns guardanapos de papel do chão.
Tinha apreciado a melhoria do negócio do dia que os reformados lhe tinham trazido, mas não estava certa de concordar com a iniciativa, embora lhe parecesse que os cortes dos complementos eram apenas uma faceta da politica de desvalorização do fator trabalho que também a afetava a ela, e que, de acordo com o que aprendera, nós, os reformados, eramos credores e não parasitas.
Assim como assim, licenciara-se em sociologia, não chegava a ganhar 300 euros mas tinha esperança de ser chamada para um projeto em que se inscrevera numa universidade de Madrid, para inquéritos e estatísticas sobre a mobilidade de pessoas e seu relacionamento com o urbanismo, a implantação industrial, a circulação automóvel, segundo os critérios que os discípulos de Durkheim utilizam, diferentes das demagógicas opiniões dos nossos politicos e comentadores. 
Os últimos membros da comissão de reformados embrulharam os cartazes, os últimos grupos despediram-se com o jogo no pensamento, e eu desci as escadas com o nosso colega animado com a recuperação da operação que fizera no serviço nacional de saúde, até à próxima manifestação.

Referencias:

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

A questão do Ebola é ainda mais global numa pequena análise apressada e pretensamente marxista

Há uns anos uma rapariga alemã morreu pouco depois de desembarcar em Hamburgo. Mas nessa altura os decisores politicos, os opinion makers, os universitários segguidores de Friedman e Haiek, acharam que a coisa estava circunscrita, e de facto a epidemia passou não muito tempo depois.
Agora, quando cidadãos de paises ocidentais em numero que os dedos da mão já não chegam para refletir, sofrem a doença, o governo americano e os governos ocidentais dizem que estão atentos e em ação.
Mas há uma questão. A dívida e o défice publicos acima dos valores constitucionais ou acordados em tratados.
A familia de um dos cidadãos americanos internado em risco de vida diz que não tem dinheiro para pagar a conta do hospital, que, aliás, lhe prestou uma péssima assistencia inicial.
Que diz  biblia dos citados decisores e universitários?
Que deixem o mercado funcionar.
E de acto funcionou, no caso da gripe das aves. Rapidamente os laboratorios se entenderam, colaborando ao arrepio do lema tolo de que o segredo é a alma do negócio (já foi, em dado passo do processo histórico) até porque se não trocassem impressões o progresso seria mais lento e poderiam ficar fora das royalties finais.
Porem o mercado funcionava porque a gripe ameaçava grande parte das populações dos paises ricos.
Agora o Ébola, circunscrito a paises de baixo PIB per capita? que não pode pagar a investigação?
E a questão é que se o governo dos USA respeitar a biblia do neo-liberalismo não vai poder votar verbas para a investigação.
É o drama destes intelectuais neo-liberais. Se o cidadão não tem dinheiro para pagar o tratamento, que se chame a sua confissão religiosa para o enterro. Mas até no enterro o Ébola sepropaga. Que problema, é uma externalidade que pode matar a filha do rico, como Gabriel Garcia Marquez descreveu a cena da morte da pequena marquesa mordida na Cartagena do século XVII por um cão raivoso.
Não pode ser o lucro da empresa farmaceutica, não podem ser as leis do  mercado a ditar a reação à epidemia.
Como já dizia o descobridor da vacina da poliomielite, que recusou as royalties.
E que dificuldade em os citados decisores, opinion makers e universita´rios compreenderem que não é só na saúde que não se pode deixar o mercado a fazer o que quer.
São as depeas sociaiis que deveriam definir o valor da moeda, por mais que o senhor doutor Medina carreira diga que não.
Cortes nas despesas sociais induzem debilidade perante epidemias, quer sejam do Ébola, quer sejam da ignorancia do funcionamento das coisas.


domingo, 28 de setembro de 2014

A propósito da guerra da Ucrania

A desgraça e a guerra da Ucrania levou-me a pesquisar a história antiga da região.
Para além da importancia do principado de Kiev e do seu chefe Vladimir (980-1015) na formação da nacionalidade russa (com recurso à cristianização para a unificação do seu estado, liquidando toda a cultura pagã), chamou-me a atenção uma referencia da primeira crónica das tribos eslavas (856). As tribos eslavas e finlandesas que ocupavam a região de Novgorod aos Urais e até ao mar negro pagavam tributo aos povos vizinhos e estavam em permanente sobressalto com a invasão dos vikings, descendo do Báltico para sul. Por essa altura conseguiram repeli-los, mas não se entendendo entre si, enviaram aos vikings o seguinte recado:
"A nossa terra é grande e rica, mas falta-lhe a ordem; venham, sejam os nossos principes e governem-nos"
Segundo a historia da Russia que consultei (Histoire de la Russie, des origines a 1917, de Pierre Pascal, ed Presses Universitaires de France), essa data, 856, é a da fundação do estado russo.
Faz lembrar, talvez apenas em parte, o cronista de Julio Cesar," os lusitanos não deixam que ninguem os governe,  mas não se sabem governar. "
Ao menos se com os fundos comunitários viessem os gestores para os ditos...talvez se conseguisse equilibrar o saldo orçamental (saldo orçamental=investimento privado e fundos comunitários menos poupanças, mais exportações e menos importações).

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

os dez erros da troika

Transcrevo do Jornal de Negócios a notícia do lançamento do livro de Rui Peres Jorge. Penso que os senhores da troika, de forma sobranceira, mostraram grave ignorancia das condições reais das empresas e das pessoas em Portugal. É típico provocar estragos quando se ignora a realidade. Uma das mais eficazes formas de destruir uma empresa, ou um país, é substituir ou marginalizar os recursos humanos com o pretexto de que funcionam mal. É com as pessoas de que se dispõe e não com super-trabalhadores ou super-técnicos que se melhora uma empresa ou os seus processos de decisão e produção. Mas para aplicar isto é preciso ter experiencia do mundo real, coisa que os burocratas do FMI, BCE e CE não terão, pelo menos da realidade portuguesa (se duvidas houvesse, por mais que o sr Draghi diga que não, a ignorancia do caso do BES, quando já corriam investigações nos USA e no Luxemburgo, é o melhor exemplo).



Os resultados do programa de ajustamento negociado na Primavera de 2011 com Comissão Europeia, FMI e BCE ficaram aquém do previsto: a recessão foi maior, o défice e a dívida também. Boa parte do mau desempenho deve-se a erros na estratégia desenhada pelo governo português e pela troika, analisa Rui Peres Jorge, jornalista do Negócios, que acompanhou o programa nacional desde o início, numa obra intitulada "Os 10 erros da troika em Portugal", onde se contam a austeridade excessiva aplicada no País e na Europa, passando por um tratamento privilegiado do sistema financeiro, pela reforma do Estado que não aconteceu, ou pela guerra ao Tribunal Constitucional que por estes dias tem novos episódios. 

"Três anos depois da chegada da Comissão Europeia, FMI e BCE a Portugal. Três anos depois do início do Programa de Assistência Económica e Financeira. Três anos depois do empréstimo de 78 mil milhões de euros e de sucessivas medidas de austeridade agressivas sobre a vida dos portugueses, o balanço da passagem da Troika é desolador. A economia portuguesa passou por três anos de recessão e encontra-se aos níveis de 2003. O desemprego atingiu níveis nunca antes vistos, estimando-se que quase um quinto da população activa não tenha emprego. Quem mantém o seu posto de trabalho, viu-se sujeito a cortes salariais, aumento de impostos. Pensionistas e grupos sociais mais vulneráveis sofreram vários cortes nos apoios públicos. Como se justifica que o programa de assistência tenha falhado quase todas as previsões? Que 27 mil milhões de euros de austeridade só tenham reduzido o défice em nove mil milhões? Que o presidente da República preveja que até 2035 Portugal vá ficar sob vigilância apertada? E que os portugueses se sintam cada vez mais encurralados perante uma austeridade que se vai perpetuar e empurrou por ano mais de 100 mil pessoas para fora do País à procura de melhor vida?", lê-se na apresentação da obra editada pela Esfera dos Livros.

Rui Peres Jorge começa a viagem nos primeiros meses de 2011, com o chumbo do PEC IV, o documento que levou à demissão de José Sócrates e que moldou parte da estratégia orçamental da troika. Identifica depois dez erros de um programa que nasceu em poucas semanas, a partir de uma percepção da crise ainda deficiente. "Fraco conhecimento da realidade económica portuguesa e da verdadeira extensão da crise a nível europeu condicionaram à partida as regras de um programa que se revelou desajustado, aplicando medidas de contracção similares para todos os países resgatados. O tratamento privilegiado das instituições financeiras, a reforma do mercado de trabalho, que deu primazia à redução de salários em vez de promover soluções estruturais. Um desafio permanente aos limites constitucionais. E a chegada tardia e tímida de políticas virtuosas, como o combate a lucros excessivos de grandes empresas. Estes são alguns dos erros abordados nesta obra essencial para reflectir sobre o Portugal que a Troika nos deixa e pensar em soluções para o futuro", lê-se na sinopse do obra.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Teoria do erro

O texto seguinte faz parte de um livro de memórias a sair em breve e é pretensioso.
Não se baseia no tratamento de dados sistemáticos.
Apenas na observação de alguns factos da experiência vivida num metropolitano.



O cérebro humano é uma máquina maravilhosa de capacidade de processamento e de armazenamento de dados.
 Infelizmente não tem a potência de processamento nem a persistência de memória de que ele próprio se convence, ou de que convence o seu dono.
O cérebro falha.
Dois ou três segundos em que a atenção do maquinista falha, em 1000 horas de condução.
Felizmente a probabilidade de sobreposição de uma circunstância indutora de um acidente (ou o produto das duas probabilidades) é reduzida.
Ou falha a memória de uma informação indispensável à correção de um raciocínio.
Ou ainda a grande traição do cérebro, a capacidade que ele tem de enganar o dono.
De construir uma verdade que só existe dentro dele, que resulta de uma lógica implacável mas que assenta em dados que podem não ser reais, ou que foram ignorados pelas misteriosas sinapses e neurónios.
Felizmente que os métodos de visualização da atividade cerebral vão sendo dominados, mas não sabemos ainda como levar os cidadãos e as cidadãs a não se contentarem com a primeira análise que fazem ou que aceitam como boa vinda de terceiros ou deles próprios.
A deterem-se numa segunda análise mais profunda e a submetê-la a testes de coerência e de conformidade, ou de consistência e de confiabilidade, como dirão os anglo- saxónicos.

Esta introdução serve para recordar a reação correta e imediata do maquinista perante o violento solavanco.
Depois que o sentiu, manteve o comboio parado na estação Praça de Espanha até o piquete de assistência comparecer.
Tinha sido arrancada uma porção de cerca de 30 cm de comprimento da cabeça do carril.
O nível das variáveis de velocidade e energia cinética e as ligações dos engates entre carruagens evitaram o descarrilamento.
Mas a circulação teve de ser interrompida até um troço de 18 metros de carril ser substituído.
Fiquei lívido quando me contaram.
O comboio podia ter descarrilado.
Podia ter chocado com um comboio em sentido contrário, na outra via.
Lembrei-me de, antes, ter comentado para o colega mais jovem que acompanhava os trabalhos de renovação da sinalização ferroviária da zona:
– Eu sou um péssimo soldador, quando soldo qualquer coisa deixo sempre bolinhas de solda, como o soldador do instalador deixou nestes carris, para soldar os cabos de continuidade da corrente de retorno e dos circuitos de via da sinalização.
E não disse mais nada.
Devia ter mandado dar uma descompostura no colega da empresa instaladora e suspender o trabalho. Mas não, o meu cérebro enganou-me por omissão.
Não estabeleceu a relação de causa e efeito entre uma soldadura mal feita, submetendo uma porção localizada de carril a uma temperatura superior à desejável, criando assim uma zona de fragilidade e sensibilidade à fadiga mecânica.
Rapidamente com Rosa Ortigão, o colega da manutenção, organizámos um plano de substituição dos carris soldados em idênticas condições e a substituição das soldaduras por furação da alma do carril e fixação dos cabos com casquilhos de aperto.
Fotografei os estragos e apresentei os resultados na reunião seguinte do comité da especialidade da UITP.
Eis portanto a teoria do erro.
O universo da ignorância é insondável pelo nosso pobre cérebro.
Que deve recolher o máximo da informação e utilizar o princípio da precaução.
Por isso o secretismo após um acidente é criminoso. 
E a colocação no pelourinho e a atribuição de culpas é desmoralizante.
São as causas e as circunstâncias que devem ser identificadas e divulgadas para evitar repetições.
Não são prioritárias, as punições. Interessa, acima de tudo, conhecer as causas e as medidas corretivas e providenciar para que o acidente não se repita.
Um pequeno grão de areia, como dizia Pascal, pode ter consequências de extensão enorme.
Um pequeno erro pode ser trágico.
Mais uma razão para o trabalho em equipa, beneficiando da diversidade de perspetivas.
Que pena os políticos, os economistas e os financeiros não partilharem desta teoria do erro, de que o cérebro engana e pode omitir o essencial.
Insistindo, pelo contrário, na imposição das suas teorias do erro aplicadas, que podem lançar um país inteiro fora dos carris.


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Não, não, não

O título podia ser a evocação de uma cançoneta dos anos 60, ou um apelo a que os escoceses não destapem a boceta da Pandora da desagregação quando os tempos deviam ser de agregação (com mudança da politica central, claro e investimento dos superavits da Europa central nas economias periféricas, que obviamente pagariam o retorno aos investidores, como religiosamente vão pagando os juros que a advogada do mercador de Veneza certamente classificaria como de agiotas).
Esperemos que os escoceses digam não.
Mas a minha ideia era deixar expresso aqui o meu desejo que o senhor presidente da Republica não diga nada, não, não diga.
Mais vale não dizer nada, não diga se prefere mais Buchanan ou Musgrave, mas tambem não diga nada sobre as decisões do senhor governador do Banco de Portugal e do apoio enlevado do primeiro ministro e da senhora professora e ministra de finanças. Como sabe melhor do que eu, que não sou professor, vendas apressadas têm cachorrinhos tortos. Coisa que o seu conselheiro ético, Vitor Bento, sabe ainda melhor.
Esperemos que o buraco em que se meteram (não tinha de se submeter ao poder judicial a decisão de definir o que é bom e o que é mau nos ativos a repartir? e porque não se fez, se não foi para privilegiar grupos, como dizem os manuais, que o banco mau fica proprietário de tudo? e porque não se atenta na espiral regressiva das participações acionistas portuguesas em empresas privatizadas desde a Cimpor à PT, e na espiral progressiva com que de aumento de capital em aumento de capital alguns grupos vão abocanhando o negócio dos concorrentes, desde a compra do BPN pelo BIC à preparada compra agora do BES pela concorrencia, entrando devagarinho no fundo de resolução e aumentando a participação até ao destino final?), como disse Mário Soares, não seja tão grande como estou a pensar.
Por isso, mais vale nada dizer.
Será a sua melhor crítica a este governador e a estes ministros ineptos, embora incensados pela comunicação social, com honrosas e éticas exceções.
Não, não diga nada, o silencio será eloquente e percebemos o que quer dizer.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Os ciclos e o discurso de Draghi no Wyoming


Um artigo na revista Ingenium sobre os ciclos de Kondratief chamou-me a atenção para esta teoria, dos grandes ciclos de 40 a 60 anos, cerca de duas gerações, associados ao desenvolvimento e declinio de tecnologias com impacto na economia.
Previa o artigo, com base nesta teoria, o desenvolvimento da produção de energia sem recurso aos combustíveis fósseis.
Se fatores exogénos, como interesses geo-estratégicos e de lucro com a produção de armas, guerras e droga, não se opuserem, assim deverá ser.
Kondratief viveu na União Soviética e morreu deportado na Sibéria em 1938. Estaline não terá gostado da previsão de que o capitalismo não morria com a depressão de 1929-1933 mas recuperaria graças ao progresso técnico.
Tal como Palchinsky, consultor de engenharia que acabou também vítima do estalinismo, Kondratief não foi compreendido por Estaline nem o sistema soviético foi capaz de se modificar para se abrir às novas ideias (nomeadamente que é na diversidade e não no monolitismo que reside o método para o progresso).
Pesquisando o assunto na internet, é interessante ver um assunto relacionado, o dos ciclos curtos (business cycles) cuja teoria se aproxima razoavelmente da realidade, apesar de já desenvolvida desde o inicio do século XIX, com Sismondi, Juglar e Marx:
http://en.wikipedia.org/wiki/Business_cycle

Estamos aqui efetivamente próximos, quando a troika e o governo promovem a recessão, a estagnação, a deflação e o desemprego no inicio do ciclo eleitoral e à aproximação do seu fim, o investimento (com possivel aumento do emprego) e o aumento de salários e pensões (com possivel subida da inflação).
Para tudo recomeçar no próximo ciclo eleitoral.

Pensemos numa população que viva no espaço limitado pelas linhas da maré cheia e da maré vaza. Cujo metabolismo se dá muito bem debaixo de água, e muito mal quando a maré baixa. Ou vice versa. E cujo tempo de vida é de quatro ou cinco ciclos de maré.
Quando a maré baixa, as criaturas queixam-se de que está tudo mal e culparão os ultimos governantes, pelo que elegerão outros. Mas no semi ciclo seguinte a maré enche e as criaturas sentir-se-ão felizes e o governo chamará  a si os louros do bem estar geral.

Ou vamos ao critério da oscilação de Nyquist. O pesadelo das aulas práticas de eletrónica é montar um amplificador que acaba por não amplificar, antes oscilar. Ou um oscilador que não consegue oscilar, só amplificar.
Um sistema oscila quando o sinal de entrada é transformado num sinal de saída cuja fase se opõe à do sinal de entrada e é reinjetado neste  (no caso do amplificador mal montado, sem ligação galvanica entre a saída e a entrada, essa ligação pode ser por capacidades parasitas, que o põem a oscilar). Isto é, se o sinal de entrada cresce, tendendo para produzir um sinal mais forte à saída, esse sinal mais forte regressa à entrada mas num ciclo em que reduz o sinal de entrada, pelo que a informação que o sistema transmite no instante seguinte à saída é para reduzir.
Eis porque uma medida de investimento pode ser alterada pelo sistema como um fator de estagnação através do aumento da dívida, embora no ciclo (eleitoral?) seguinte o resultado do investimento possa ser visível.
Ou como parasitas podem tornar uma economia instável graças a ligações obscuras entre entidades económicas e governamentais.

Falta aos politicos e aos economistas o sentido físico das coisas, e que as pessoas não são as criaturinhas da maré cheia e vaza sujeitas à propaganda dos governos e dos partidos, e às tropelias dos banqueiros, dos financeiros e dos professores de finanças, da London Schools ou de Harvard.

Ajudava, os meios de comunicação social e os comentadores televisivos não serem tão caixas de ressonancia dos partidos e dos governos.
Podia ser que resistissemos melhor à inclemencia das marés.

Estas considerações foram-me sugeridas tambem por um interessante artigo no DN de 1 de setembro de Sérgio Figueiredo sobre o discurso de Draghi no Wyoming (para compensar a péssima impressão que  me deixou de outro seu artigo, em 21 de julho, queixando-se da divida das empresas publicas de transporte, quando o metro de Lisboa paga 75 milhões de encargos de pessoal e 175 de juros de investimentos que são ativos públicos, não empresariais, quando o autor é administrador de uma entidade ligada à EDP, cuja divida é superior, se não me engano, à do metro de Lisboa, precisamente pelas mesmas razões, as de investimento em equipamento público).
O artigo mostra a evolução do PIB nos anos que se seguiram às depressões seguintes:
- na Inglaterra, a seguir a 1929
- no Japão, entre 1992 e 2001
- nos USA, a seguir a 1929
- na zona euro. entre 2007 e 2014



Com todas as limitações dos métodos de análise, parece mesmo que Draghi tem razão, que se impõe um ciclo de investimento público (dado que existem excedentes europeus).
Parece que o BCE, o FMI e a CE europeia se enganaram com a destruição criativa que impuseram do alto das suas cátedras de incompetentes. O gráfico mostra bem a má figura da Europa quando comparada com as outras crises.
E para o ciclo eleitoral tambem se abrem boas perspetivas.
E já se fala muito nos fundos europeus, esquecendo que é essencial haver projetos elaborados. Aguardemos, já que a possibilidade de participação é reduzida.



domingo, 14 de setembro de 2014

Recordando uma entrevista do Expresso

Neste momento de turbulencia do caso BES, recordo, citando o livro "Os donos de Portugal" (J.Costa, L.Fazenda, C.Honório, F.Louçã e F.Rosas, ed. Edições Afrontamento), uma entrevista de José Roquete ao Expresso em dezembro de 1997, mostrando as ligações dos negócios bancários com a política:
"Tenho muito orgulho de, em 1974, tanto eu como os restantes responsáveis do BES ... termos dado um contributo para a luta e a batalha que tinhamos de dar. Mas o que é absolutamente verdade e autentico é que criei apoios financeiros indispensáveis para que o PSD pudesse sobreviver. Aliás, isso foi de alguma forma um acordo feito com Francisco Sá Carneiro".
Ora aí está um testemunho sobre os apoios dos financeiros aos políticos, enquanto a população eleitora é seduzida com manobras de diversão ou se desmobiliza na abstenção.
E assim vamos.

sábado, 13 de setembro de 2014

Tudo é subjetivo, a gestão de bancos, por exemplo, mas a subjetividade tem nuances e limites

Tudo é subjetivo, a gestão de bancos, por exemplo, mas a subjetividade tem  nuances e limites.
Tambem porque as opiniões das pessoas são subjetivas, discordo de muitas das posições de Vitor Bento.
Mas agradeço-lhe ter-me ensinado que um dos maiores males do país foi ter-se desenvolvido o setor não transacionável de serviços e de bens não sujeitos à concorrencia, face ao setor transacioinável de bens e serviços.
Assim uma espécie de privilégio dos colarinhos brancos relativamente aos colarinhos azuis.
E isto desde há muito, contribuindo para o desequilibrio da balança de pagamentos.
Desde há muito, mesmo, a avaliar pelos relatos de como os nobres falidos do século XVI se empenhavam para comprar as sedas importadas das Índias.
Isto a propósito da sua demissão do novo banco.
Ilustra-o porque prova a sua ética.
E prova tambem o já afirmado neste blogue, a incompetencia do senhor governador do BP (repito o fundamento da minha observação: afirmar no fim de julho que havia uma almofada de 2000 milhões de euros para tapar o buraco que era maior baseando-se apenas no relatório do 1ºtrimestre da entidade prevaricadora, é incompetencia e desconhecimento dos procedimentos dos "artistas das finanças", agravada com a desculpa de que eram os ultimos elementos disponiveis).
Vitor Bento sai dignificado por ter pedido a demissão, não colaborando com incompetentes que, juntamente com o governo e a presidencia da República, estão prejudicando o país.
Ficou claro o desejo de vender rapidamente o novo banco, sem estarem resolvidas as questões do velho banco e do grupo financeiro (risco de contestação judicial). É a doença do herdeiro leviano que dissipa a herança com o critério unico de vender os aneis, tal como a doença das privatizações e concessões. Os estaleiros de Viana estão agora na posse de uma entidade ligada a um antigo concorrente (estaleiros Nova Ria), a receita parece que  se pretende agora estender ao novo banco (grupo Melo? BCPs, BPIs e Santanders?).
Parece confirmar-se, o governo ao serviço de grupos económicos.
Mas isso já Marx dizia sem conhecer estes próceres.
Gravissimo, este caso.
Convem lembrar J.Morgan na crise de 1907 (que coisa, a bolsa está sempre em ciclos de crise e euforia), vamos ajudar o banco falido antes quetudo rebente e sejamos nós todos a precisar de ajuda. Mas não creio que o nosso provinciano fundo de resolução, mais interessado em abocanhar o vizinho do que em compreender o coletivo, concorde com a ideia de J.Morgan,
Tão grave este caso que parece que uma boa saída seria a demissão do governo, do senhor governador do BP e, de balanço, do senhor presidente da República.
Reset, como dizem os anglo-saxónicos, antes que piorem mais as coisas, por erros uns, e omissões outro.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Os comissários da Comissão Europeia

Os comissários da Comissão Europeia desempenham funções de elevada importancia.
Não sendo eleitos diretamente, são nomeados por forças políticas que receberam a maioria dos votos.
De acordo com os princípios democráticos e as análises matemáticas que nos últimos séculos foram sendo aplicadas à questão da representação e da delegação dos cidadãos, dir-se-ia que a constituição deste executivo (porque com a nobre missão de propor medidas concretas no sentido do progresso e bem estar dos europeus no seio dos outros povos) deveria espelhar a diversidade dos votos dos eleitores, sem prejuízo dessa representação no parlamento europeu.
Isto é, a partilha segundo métodos proporcionais e preferenciais, abarcando comissários sem representação partidária mas apenas competencia técnica nos assuntos que gere, deveria ser uma obrigação perante  o eleitorado.
Ao invés da manutenção de um statu quo o servço das forças mais votadas.
Não sendo este o entendimento dos decisores (que o mesmo é dizer, sendo limitado o entendimento democrático da questão por quem decide) assistimos a episódios lamentáveis como a nomeação do senhor engenheiro Moedas para a Investigação, ciencia e inovação.
Começa por ser chocante a indicação de um representante do partido mais votado nas eleições de 2011 para comissário, sem se saber que pasta iria gerir.
O pressuposto é que o voto em 2011 conduz à escolha de um representante de acordo com a vontade popular e com competencia para tratar os assuntos da área.
Trata-se porém de uma relação imaginária, uma espécie de pensamento mágico sem correspondencia com a realidade.
Nada relaciona a votação de 2011 (20% dos eleitores inscritos votaram no partido mais votado) com a competencia técnica do senhor engenheiro em assuntos cientificos e de investigação.
A relação entre as duas entidades é a mesma que entre o direito divino de Bossuet e o poder absoluto de Luis XIV.
Nãi há uma relação mágica entre elas.
Por isso falei na teoria matemática da representação e da delegação.
A ideia de que uma pessoa ligada a um partido e com capacidades de gestão (que ninguem negará ao senhor engenheiro, com um curriculo rico na Goldman Sachs, na Lyonesse des Eaux (especialista na privatização de um bem de todos, a água) e nas empresas próprias financeiras e de aconselhamento imobiliário) será boa gestora em qualquer negócio é responsável pelos maiores erros verificados ao longo da história das empresas públicas em Portugal, desde erros de traçado de auto-estradas à tragédia do Atlantida.
Estes erros são assim generalizados a toda a Europa com tai critérios de nomeação para  a Comissão.
Tambem choa saber-se que  no próprio partido havia uma pessoa com mais experiencia e conhecimentos na área a gerir pelo senhor engenheiro Moedas, a tambem engenheira Graça Carvalho, a quem possivelmente o partido pedirá que explique ao novo comissário o que deverá fazer no ambito do Horizonte 2020.
Mas será diferente, O senhor engenheiro depressa esqueceu o que aprendeu na alma mater de engenhearia, que é essencial aproveitar e transformar a materia e a energia para obter bens e serviços uteis às comunidades. Não é esse o objetivo dos financeiros, dos laureados do Harvard Business School e da Insead das privatizações a tout prix.
Por isso choca tudo isto e se lamenta as ameaças que pairam sobre o Horizonte 2020, nomeadamente o beneficio dos mais fortes, como foi apanágio do senhor engenheiro enquanto serventuário da troika em Portugal.
Assim como choca o provincianismo dos aplausos do seu partido, que o senhor engenhiro tinha ganho experiencia transversal enquanto trabalhou no acompanhamento da troika.
Como? Aprendeu investigação, inovaçao e ciencia com os cortes da troika?
Reparam na barbaridade do que dizem?
Sabem algma coisa de ciencia, inovação e investigação?
Se sabem mostrem com documentos dos trabalhos feitos, que é o que nós, em ciencia, ou em  inovação ou em investigação, fazemos.


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Fala de Fricka para Wotan



Daniel Barenboim dirigiu a Valquiria no Scala (não é o video que anexo) .
O contexto é muito diferente, mas as palavras de Fricka para o marido Wotan fazem-me lembrar a senhora ministra das finanças e o seu ex-aluno e admirador primeiro ministro:
"...tu rejeitas tudo que estimavas, quebras as ligações que tu mesmo estabeleceste...contanto que estes criminosos possam reinar...apenas pela tua proteção eles parecem fortes...por novas artimanhas tu queres enganar-me..."
O contexto é muito diferente, mas as palavras de Fricka fizeram-me lembrar as afirmações dos senhores governantes em março ("a divida é sustentável... o tema nem se coloca", "quem defende a renegociação da dívida não sabe o que está a defender") e em setembro de 2014 sobre a discussão da renegociação da divida, considerando que os juros "do mercado" estão mais baixos do que os do empréstimo do FMI, ou simplesmente a discussão da dívida.
Contrariamente ao otimismo de João Cravinho, não tenho esperança nessa discussão.
Os senhores governantes não têm a noção dos investimentos e das mudanças de mentalidade necessários para a melhoria da economia, e estão convencidos de que têm sempre razão.
Falta-lhes humildade para apreenderem noções elementares de física ou simplesmente de abordagem de problemas seguindo as etapas de observação, tratamento de dados, experimentação e ensaio e análise e novo tratamento de dados, tudo sujeito a referendo por especialistas de diversas sensibilidades.
E como têm o poder por omissão do senhor presidente da República (que não aplica o método científico, não testa a credibilidade de uma testemunha, acredita no que o senhor governador do BP lhe diz, o qual por sua vez, em julho, faz afirmações apenas baseado num relatório do 1ºtrimestre elaborado pela própria empresa prevaricadora), continuaremos nesta apagada e vil tristeza,com o senhor ministro da Economia a dizer que está tudo melhor (como assim, com as importações a continuarem a crescer mais do que as exportações?) e as instituições de prestígio deste meio pequenino a organizar seminários de bem parecer, sempre longe das medidas concretas de investimento em bens produtivos e garantes da autonomia em energia e alimentos.
Entreranto, com o mercado a funcionar, os jovens preferem matricular-se em cursos de sociologia, humanidades, multimédia, comunicação social... ficam para trás as engenharias, quando era necessário reconstruir as habituações degradadas, as industrias produtivas, a silvicultura, a agricultura ... é um suicidio coletivo anunciado, como os lemingues..., mas os senhores governantes não têm sensibilidade nem conhecimentos para compreender esta desgraça.
A avaliar pela "fuga" de novos universitários dos cursos de seguimento industrial, e dos que exigem matemática e física, a desgraça prolongar-se-á por gerações.







domingo, 7 de setembro de 2014

A experiencia dos macacos

Foi muito falada a experiencia dos macacos, do escadote,das bananas e do castigo.
 Um grupo de macacos era colocado numa sala em que no cimo de um escadote estavm bananas. Porém, as bananas estavam embrulhadas num arame e este ligado a um circuito elétrico que provocava um choque quando o macaco tentava apanhá-las.
Substituiam-se progressivamente  os macacos e verificou-se que os macacos mais antigos impediam os macacos novos de subir o escadote, mesmo depois de se ter desligado  o circuito elétrico.
É uma analogia com os credores que deixaram cair as taxas de juro (talvez tivessem percebido que estavam a matar algumas galinhas de ovos de ouro) e com o zelo da senhora ministra das finanças avisando do perigo de renegociarmos a dívida.
Os macacos também estabeleciam um paralelismo entre a vontade de atingir as bananas e o castigo. Não assente em nenhum critério científico ou expermental(o circuito elétrico tinha sido desligado), mas numa crença mágica de relação entre os dois e de fé no que outros achavam (um pouco como o senhor presidente que acreditou no que o senhor governador do BP disse sobre a almofada no fim d julho, com base no que tinha lido no relatório do 1ºtrimestre da entidade prevaricadora -deviam estudar a teoria da predição de Wiener).
A senhora ministra foi muito clara: não podemos liquidar o empréstimo do FMI (que está com juros superiores aos do "mercado") porque os outros credores podem também querer.
Parece-me um pensamento mágico pior do que o do juiz americano dos fundos abutre.
Então o credor está a receber um juro razoável e vai querer a antecipação quando os juros estão mais baixos?
Sinceramente, como diz a minha neta de 7 anos.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Discurso de Roosevelt em 1933, respostas sobranceiras da senhora ministra no Parlamento em 4 de setembro de 2014 e o sorriso de Draghi no mesmo dia

"... os nossos problemas não são devidos a uma falha em substancia. Não fomos afetados por nenhuma praga de gafanhotos...temos bastantes recursos à nossa porta, mas a generosa utilização desses recursos enfraquece perante a oferta..."  - discurso de Roosevelt em 1933, no inicio da resposta Keynesiana à depressão, tão bem ilustrada nas Vinhas da Ira ("porque não tem o Estado mais quintas destas?").
Lembrei-me desta citação ao ouvir a sobranceria da senhor ministra das finanças no Parlamento repetindo que não houve espiral recessiva. Na verdade não houve uma espiral recessiva de equação do tipo da espiral de Euler, mas entristece ver uma professora de finanças ignorar que uma depressão se carateriza por um PIB mesmo crescente mas dentro da faixa de erro das medições, pelo elevado desemprego (não ignorem a emigração, os desistentes das inscrições nos centros de emprego e os sucedâneos coo os estágios de formação) e pela subutilização da capacidade produtiva. Ainda por cima, congratula-se com o aumento das exportações e logo a seguir reconhece o maior aumento dasimportações. Isto é, se utilizasse o conceito das exportações líquidas negativas mostraria claramente o falhanço das suas politicas e a ignorancia dos fenómenos fisicos na economia. Oitavo retificativo, depois de estimar a receita por baixo e a despesa por cima, culpando  o tribunal constitucional.  E não precisa de se comparar com o anterior governo (igualmente criticado neste blogue por não compreender que as exportações liquidas não podem ser negativas)  nem mostrar fé nas próximas eleições. Marcelo Caetano realizou eleições livres em 1969 e ganhou-as. Nem queira comparar as taxas de juro de 11% de 2011  com as de 3,5% de 2014.
A menos que me deixe fazer outra comparação. Em 1933 não houve nenhuma praga de gafanhotos, mas agora houve. São os prosélitos de Friedman, Hayek e Halberger que se espalharam como gafanhotos pelos centros de decisão financeiros, pelos governos, pelos Goldman Sachs, pelas faculdades de economia, e que ganham eleições como Marcelo Caetano.
E que recusam as propostas de  união bancária e fiscal que não prejudiquem as economias periféricas (talvez entendessem o que escrevo se estudassem a lei de Fermat-Weber, que em qualquer sistema fisico entregue a si próprio os elementos dominantes tendem a tornar-se mais dominantes).
Aqui entra o sorriso de Draghi. É que não percebo se ele tem consciencia do que está a fazer. Pelo menos já reconheceu que estamos em deflação e isso não é bom. Desvaloriza o trabalho e a propriedade. Inibe os investidores porque ninguem vai montar uma fábrica para vender os produtos abaixo do custo de produção. Mas por outro lado baixa as taxas de juro. 0,05% para os bancos mas eles emprestam-me a 20%?! Acreditará que para um valor tão baixo ela pode ter o efeito de subir os preços? Não acreditará nas zonas de efeitos diferentes da lei dos rendimentos decrescentes ou, para irmos à fisica, nos gráficos com histerese ou memória não lineares? Mas se quer subir os preços porque não emite simplesmente moeda, em vez de "comprar ativos aos bancos"? Ou talvez queira silenciosamente desvalorizar o euro face ao dolar com o abaixamento das taxas de juro. Mas então porque não desvaloriza simplesmente? As economias periféricas agradeciam... as populações, claro, que os governadores, essa casta superior, não eleita, pensará doutro modo (ou não pode dizer que tambem pensa assim, para não perder os seus beneficios). Baixaria o investimento estrangeiro (que interessava se existe superavit neste momento na UE?), mas aumentavam as exportações, de toda a UE não era? Ah, os USA, a China e o Japão torceriam o nariz, será? Então porque não investem mais nas economias periféricas se naõ querem que o euro desvalorize?
It's capitalism...

PS - queria dizer espiral logarítmica equiangular de Bernoulli, não Euler

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Agora, que o governo se congratula

Agora, que o governo se congratula com a subida de 15 lugares no ranking da competitividade, cujo primeiro lugar é ocupado pela Suiça, o país em que o sigilo bancário se opõe ao progresso das populações mundiais, reproduzo as palavras de Batista Bastos que exprimem o que se passa em Portugal, país em que por estas ou aquelas razões  a dívida e o défice públicos sobem, a dívida privada apesar de enorme mantem-se oculta, continua a dependencia do exterior em energia e alimentos, e as "elites" se regozijam com a solução inovadora dos bancos bom e mau:
"...o que está a acontecer na nossa pobre terra é a repetição das deformidades que nos têm marcado desde a nascença. Agora, porém, o travo é muito mais amargo porque perpetrado com estudada ciência, e outrora apenas aplicado pela intuição, embora malevolamente..."
Ou dito sem a elegancia literária de Batista Bastos, ao longo da nossa história sempre as elites usaram  sem pudor as populações, mantendo uma taxa de analfabetismo elevada, uma estrutura juridica deformada só corrigida pelas revoluções de outubro de 1910 ou abril de 1974,  diversões alienantes da realidade, dificuldades de acesso aos mecanismos de produção de bens que permitiriam a independencia do país.
Parafraseando Victor Hugo (le roi s'amuse), as elites divertem-se.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

No, Mr Cameron, no Mr Hammond

No, I think not, Mr Cameron, that the best response to the violence of fanatics who call themselves Islamists is not the force of arms.
Is a legitimate answer, but do not think that is the best.
And do not call them jihadists.
Do not offend sincere believers of the religion of Islam, peace.
These days, different time of the military chief who accumulated the functions of prophet, jihad is the inner struggle for improvement.
The Koran says that no one but Allah has the right to take life to anybody, and the ink of the wise is worth more than the blood of the martyr.
I think therein lies the best answer, information and religious discussion.
Publicly denounce the bigotry and ignorance.
But Mr Hammond, I think you will agree that there are already studies and enough collection and processing of data that relate (more than correlate) the economic conditions of parents and success, academic failure and social inequalities, unemployment and vandalism (regardless of repression police).
So do not say that fanatics born in England who joined the violence in the Middle East countries betrayed the values ​​of England.
No, they are the values ​​of the policy of Thatcher, who ignored, to reduce public spending and to benefit the business of education, the education of extensive layers of young people, leaving them to corruption (corruption means weakness) stimulated by fanatical Muslim clerics .
I suggest you read Eca de Queiroz, Portuguese writer of the late nineteenth century.
There should be an English edition of the Letters of England.
Read his columns on the infamy of the bombardment of Alexandria and about the war in Afghanistan under British occupation.
Transcribe the comment to the rebellion of Alexandria: "The Crescent has not been so devastated that consents to be systematically beaten by the cross."
Also Worry about who sold weapons, ammunition and armed fanatics to vans.
Follow the market work, understand that it can not be left free when harm third parties. As economists say, when they generate externalities.
Not the arms deal.
Would be a better answer.




Não, penso que não, Mr Cameron, que a melhor resposta à violencia dos fanáticos que se dizem islâmicos não é a força das armas.
Será uma resposta legítima, mas não penso que seja a melhor.
E não lhes chame jihadistas.
Não ofenda os crentes sinceros da religião do Islão, da paz.
Nos tempos que correm, diferentes do tempo do chefe militar que acumulou as funções de profeta, a Jihad é a luta interior pelo aperfeiçoamento.
O Corão diz que ninguém, só Alá, tem o direito de tirar a vida seja a quem for, e que a tinta do sábio vale  mais do que o sangue do mártir.
Penso que é aí que reside a melhor resposta, na informação e na discussão religiosa.
Denunciar publicamente o fanatismo e a ignorancia.
Mas Mr Hammond, penso que concordará que já existem estudos de recolha e tratamento de dados que relacionam (mais do que correlacionam) as condições económicas dos pais e o sucesso, as desigualdades sociais e insucesso escolar, o desemprego e o vandalismo (independentemente da repressão policial).
Por isso não diga que os fanáticos nascidos em Inglaterra que aderiram à violencia nos paises do médio oriente trairam os valores da Inglaterra.
Não, eles são os valores da politica da Thatcher, que ignorou, para reduzir as despesas públicas e para beneficiar os empresários da educação, a educaçao de extensas camadas de jovens, abandonando-os à corrupção (corrupção significa fraqueza) estimulada pelos clérigos muçulmanos fanáticos.
Sugiro que leiam Eça de Queirós, escritor português do fim do século XIX.
Deve haver uma edição inglesa das Cartas de Inglaterra.
Leiam as suas crónicas sobre a infamia do bombardeamento de Alexandria e sobre a guerra no Afeganistão sob ocupação britânica.
Transcrevo o comentário à rebelião de Alexandria: "o crescente ainda não anda tão de rastos que consinta em ser sistematicamente espancado pela cruz".
Preocupem-se também com quem vendeu armas, munições e carrinhas armadas aos fanáticos.
Sigam o mercado a funcionar, entendam que ele não pode ser deixado livre quando prejudica terceiros. Como dizem os economistas, quando geram externalidades.
Não ao negócio das armas.
Seria uma resposta melhor.