quinta-feira, 22 de setembro de 2011

"Felizes os bois que estão nos currais, são tão felizes, os animais"

"Felizes os bois que estão nos currais,
são tão felizes, os animais".

Lembrei-me destes versos.
Faziam parte de uma ingénua canção de protesto, no princípio dos anos 70.
O seu autor usava uns óculos graduados de lentes muito grossas, mas não era por isso que sorriamos, era porque a canção era mesmo ingénua e pobres os acordes rasgueados com que ele castigava a viola.
O que não tirava o mérito ao autor, sempre ameaçado pela policia politica da altura, nos espetáculos em que participávamos (eu não cantava, só servia de motorista, num velho Taunus 12m de tração dianteira).
Assim como assim, alguma coisa contribuiram as canções de protesto para o 25 de Abril.
Lembrei-me dos versos agora, quando leio no jornal a frase cheia de bucolismo do senhor presidente da República:
"Ontem eu reparava no sorriso das vacas, estavam satisfeitissimas olhando para o pasto que começava a ficar verdejante".
Embora me pareça uma interpretação demasiado à escala  humana do comportamento das vacas, e próxima das melhores frases de Américo Tomás e  Garrastazu Medici, talvez pensando bem me esclareça a dúvida que me costuma ficar quando passo pela auto-estrada do sul e vejo as vacas a ruminar, olhando para o horizonte das planícies alentejanas: em que pensarão elas durante todo aquele tempo?
De modo que me vieram à ideia aqueles versos longínquos, "felizes os bois..."

Também me veio à ideia a revalorização do escudo em 1978, quando era ministro das finanças o atual senhor presidente da República.
Seis meses depois o escudo voltava a desvalorizar, com a explicação de que a revalorização tinha dificultado as exportações.
Lições práticas de economia... como aliás deve ser interpretado o comentário das vacas satisfeitissimas.

É essencial a autonomia em bens agrícolas e alimentares, como quer que seja o contexto e mesmo que quem a defende agora não a tenha defendido antes e continue a não considerar a  opinião de quem sempre a defendeu.

Sem comentários:

Enviar um comentário